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O Jogo como estratégia de Educação para a Cidadania

Introdução

Assumir o ser humano em todas as suas dimensões é a única maneira de


tentarmos responder lucidamente à complexidade do presente, recusando as
simplificações redutoras e as facilidades enganadoras com que, frequentemente, somos
bombardeados no nosso dia-a-dia.
Estando com atenção ao que nos rodeia, percebemos que o nosso tempo
apresenta problemas radicalmente novos e desafios nunca antes experimentados,
verificando nós a existência de mudanças aceleradas que, inexoravelmente, têm reflexos
em todas as áreas da vida e da actividade humana.
Porque assim é, nada do que se passa ao nosso lado nos pode ser indiferente. E,
porque não somos indiferentes, decidimos desenvolver este trabalho em torno de duas
realidades que se entrecruzam em contextos de educação formal e informal, em que,
pela concretização de uma se contribui, decisivamente, para a consciencialização e
desenvolvimento da outra. Falamos da realidade “jogo”, uma fonte de prazer que marca
a formação das crianças e dos jovens, assumindo-se como veículo de transmissão
cultural e fonte de vivências simbólicas, pelas ideologias e valores que transmite e a
realidade “a cidadania”, construção fundada em valores e atitudes consentâneas com as
preocupações do EU e dos OUTROS. Porque não somos indiferentes, acreditamos que
educar para a cidadania, recorrendo a jogos, pode ser uma estratégia correcta, pois
passa, entre outros aspectos, pela criação de oportunidades de desenvolvimento nas
crianças de um auto-conceito positivo e pelo aprender a conhecer e a respeitar o
OUTRO. Também com o jogo faz sentido “aprender a viver juntos e a viver com os
outros”1 , porque também com os jogos se podem criar condições para a emergência de
processos que estimulem o desenvolvimento de um espírito crítico face a ideologias que
servem de matriz a alguns dos jogos, nomeadamente àqueles que criam situações onde,
para se vencer, têm de ser desenvolvidas estratégias de competição que permitam
excluir os outros parceiros.

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Cf Delors e tal (1996), Educação: um tesouro a descobrir. Relatório para a UNESCO da Comissão
Internacional sobre Educação para o séc. XXI

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O Jogo como estratégia de Educação para a Cidadania

Nestes contextos de “jogo” bem podemos estruturar práticas que permitam às


crianças a vivência de situações de partilha e solidariedade, ao mesmo tempo que se
desenvolve o sentido de responsabilidade individual e colectiva, bem como o
desenvolvimento de um pensamento crítico relativamente a atitudes discriminatórias,
permitindo às crianças um diálogo consigo próprias e com as outras.
É nesta linha de pensamento que desenvolveremos o nosso trabalho,
aprofundando alguns aspectos relativos às questões de educação para a cidadania e
alguns aspectos relativos aos jogos como instrumentos de aprendizagem, fazendo,
finalmente uma apresentação de alguns jogos em que se enfatizarão os aspectos
considerados pertinentes na óptica de uma educação para a cidadania.

Objectivos:

 Sistematizar alguns aspectos essenciais da problemática da educação para


a Cidadania;
 Aprofundar a temática do jogo como instrumento e estratégia de
aprendizagem;
 Analisar alguns jogos na perspectiva de uma implementação com vista à
educação para a Cidadania;
 Concluir da possibilidade do recursos ao(s) jogo(s) como estratégia de
aprendizagem conducente ao desenvolvimento de atitudes e valores
fundamentais na educação para a Cidadania.

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O Jogo como estratégia de Educação para a Cidadania

1. Educação para a cidadania

A cidadania é uma preocupação antiga, tão antiga como os conceitos de relação


entre o domínio público e o domínio privado importados da antiguidade greco-romana.
Na sua origem, a cidadania constituía-se como a essência da vida em sociedade, como o
conjunto das acções que convêm a um cidadão. Mais recentemente, porem, alguns
sinais de crise patentes no funcionamento das sociedades ocidentais, têm-nos feito
concluir que é necessário ultrapassar o mero plano individual do exercício daquilo a que
cada um convém para ser reconhecido como cidadão.
A educação para a cidadania não é uma coisa moderna, nem uma coisa
ultrapassada, não é um luxo pedagógico, nem um projecto com hora e data marcada. A
educação para a cidadania deve ser, antes de mais, uma condição de sucesso do trabalho
de todos quantos nela se empenham em contextos de educação formal e informal, em
que todos podemos ser actores educativos, promovendo uma educação para a cidadania
que promova a abertura ao outro social.
Pretendendo traçar um quadro teórico de referencia que enquadre a questão do
jogo como ferramenta adequada para um trabalho sério em termos de uma educação
para a cidadania, começaremos por referir que actualmente, numa época em que a
necessidade de aceitação da diferença entre nas prioridades das sociedades ocidentais,
se assiste a um redimensionar dos discursos relativamente aos conceitos de identidade,
multiculturalismo e cidadania.
Tornando-se cada vez mais inevitável o reconhecimento da diversidade cultural
presente nas nossas sociedades, torna-se também cada vez mais necessário desenvolver
estratégias que promovam uma aceitação activa do “outro”, através da interacção e
cooperação em torno de objectivos comuns, que conduzam a um enriquecimento mútuo.
Considera-se fundamental que estas atitudes de “solidariedade activa” 2 sejam adquiridas
precocemente, pois mais facilmente se evitará a assimilação de estereótipos e de
atitudes que, frequentemente, surgem associados a fenómenos como o racismo e a
xenofobia.

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Leite, Carlinda et.al (2001): Educação para a Cidadania. IIE.M.E. Colecção Práticas Pedagógicas

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O Jogo como estratégia de Educação para a Cidadania

É consensual, na literatura da especialidade, que estas questões devem estar


presentes em todos os momentos da vida de um ser humano, assumindo particular
pertinência ao longo do seu percurso de educação formal, tendo em conta que este
envolve, de uma forma sistémica, influências e interdependências culturais e ambientais
que requerem a participação activa de cada um na defesa dos direitos humanos e do
meio ambiente. Assim, educar na cidadania, passa pelo desenvolvimento de acções
coerentes, orientadas por princípios de vivência democrática, com o recurso a
metodologias activas em detrimento das tradicionais, promovendo-se o
desenvolvimento das crianças (e jovens) no que se refere a atitudes de alteridade, de
cooperação, de conhecimento e valorização de cultura de cada um, na construção de um
projecto de vida próprio.
O que antes se enunciou implica estar atento/a e reflectir sobre os problemas
sociais; implica saber ouvir, aceitar e participar na elaboração de regras que orientam a
vida em sociedade; implica proporcionar conhecimentos e meios, como instrumentos de
autonomia, para agir, mas numa acção reflexiva e critica, descobrindo o que existe de
comum, pois é mais importante o que nos une do que o que nos distingue.
Neste quadro de referências teóricas de princípios e valores é compreensível o
recurso aos jogos, nomeadamente aos jogos tradicionais colectivos como meios
adequados para a promoção de uma educação para a cidadania, visto que: 1)
possibilitam que cada criança se sinta representada e valorizada; 2) promovem situações
de trabalho em grupo, visando o desenvolvimento de competências de cooperação, em
cada criança, que lhes permitam colocar-se no lugar do outro, respeitando diferentes
perspectivas.

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O Jogo como estratégia de Educação para a Cidadania

2. Os jogos numa educação para a cidadania

“ No processo de socialização para a respectiva cultura, as crianças aprendem


coisas que constituem as características comuns da sua cultura, por exemplo mitos,
contos de fadas, canções e história. As ferramentas integram uma parte extremamente
importante de uma cultura, a criança precisa de ir conhecendo as ferramentas essenciais
para a nossa cultura…” (Sutherland, 1996:78).
A importância do jogo para o desenvolvimento físico, intelectual, social e moral
das crianças vem sendo enfatizada, há várias décadas, por correntes teóricas de vários
domínios da ciência, com especial destaque para a psicologia e a pedagogia.
“ Todos conhecemos o grande papel que nos jogos da criança desempenha a
imitação, com muita frequência estes jogos são apenas um eco do que as crianças viram
e escutaram aos adultos, não obstante estes elementos da sua experiência anterior nunca
se reproduzem no jogo de forma absolutamente igual e como acontecem na realidade. O
jogo da criança não é recordação simples do vivido, mas sim a transformação criadora
das impressões para a formação de uma nova realidade que responda às exigências e
inclinações da própria criança” (Vygotsky, 1999:12).
As teorias psicanalíticas, sobretudo na esteira dos trabalhos de Freud e Erickson,
sublinham a importância do jogo – sobretudo o jogo dramático – na expressão de ideias
e sentimentos. Segundo Spodek (1998:4) esta perspectiva defende que as crianças « (…)
usam o jogo para representar situações perturbadoras, o que lhes proporciona formas de
lidar com sentimentos negativos e resolver conflitos emocionais que poderiam não ser
capazes de resolver na vida real». O jogo, visto neste sentido como uma espécie de
“terapia”, veio a influenciar particularmente as metodologias utilizadas na educação
pré-escolar.
Por seu lado, no campo do desenvolvimento cognitivo, as teorias construtivistas
de Piaget, Brunner e Vygotsky, vêm reforçar a ideia da construção do conhecimento,
pelos indivíduos, através da experiência, embora o façam interpretando este processo de
construção de forma diferenciada.

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O Jogo como estratégia de Educação para a Cidadania

De acordo com a perspectiva piagetiana, «o jogo tem uma função biológica, no


sentido de que todos os órgãos, todas as capacidades têm necessidade de ser exercitadas

para que não se atrofiem. (…) Para Piaget o jogo é a construção do conhecimento, pelo
menos durante os períodos sensório-motor e pré-operatório» (Kami e Devries, s/d: 29).
Deste ponto de vista, não existe oposição entre jogo e trabalho.
Já para Vygotsky, o jogo é um instrumento que propicia interacções de ordem
cultural. Neste sentido, associando a importância dos aspectos naturais no
desenvolvimento cognitivo, Vygotsky sublinha não apenas o processo de maturação,
mas, sobretudo, os processos de interacção dos indivíduos no seu meio cultural.
«De acordo com esta teoria, o desenvolvimento acontece não apenas como
resultado da maturação, mas também como resultado da aquisição de instrumentos
culturais. Estes instrumentos culturais estabelecem ligações entre a criança e o seu meio
ambiente, físico e cultural, e ajudam-na a adquirir um domínio sobre esse ambiente.
Estes instrumentos culturais mudam as formas de pensar dos indivíduos» (Spodek:7).

A importância do contexto social em que a criança está inserida, e as


especificidades da sua cultura, são acentuadas por esta perspectiva e, neste sentido, o
jogo pode ser encarado como um destes instrumentos, que permitem articular o
desenvolvimento físico e intelectual ao desenvolvimento sócio-cultural.
Pelas suas características lúdicas, e pelo papel que podem assumir no
desenvolvimento, os jogos têm constituído um recurso para a formação das crianças, em
geral, e para a educação pré-escolar em particular. No contexto escolar, o recurso ao
jogo constitui uma prática relativamente consensual, embora assuma perspectivas não
coincidentes, seja pelas suas vantagens focalizadas no treino ou na estimulação ou na
facilitação das aprendizagens, seja na socialização ou no mero prazer.
Se recorrermos a Jean Chateau, poderemos pensar nos tipos de jogos que são
usados pelos indivíduos ao longo da vida. Na sua obra obre o jogo, e na linha de
algumas correntes da psicologia, Jean Chateau (1975:16) distingue os «jogos
funcionais» – ligados ao treino de determinada função (evidenciados sobretudo nos
primeiros anos e a que ele atribui uma certa fixidez) – dos jogos de imitação e dos jogos
de regras.

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Os jogos de imitação, na linha das correntes psicanalíticas, permitiram a evasão,


a compensação, a antecipação do mundo «a sério», a resolução de conflitos, a
identificação com os papéis e com as personalidades adultas e, por consequência, a
afirmação do Eu. Segundo Chateau (1975:57) «a actividade do jogo é, sob certos
aspectos, uma actividade de significação moral. Seguir um modelo, seguir depois uma
regra social, afirmar a própria personalidade (…). A autonomia torna-se apesar de tudo
em heteronomia» num processo de formação em que as normas e os valores vão
definindo as atitudes. Assim, a competição, submetida a regras, prepara a entrada no
mundo dos «grandes». «As regras têm valor porque são parte integrante da sociedade.
Naturalmente, a criança não se interroga acerca da origem e, se o faz, contenta-se em
apelar para os “antigos”.» (ibidem:57)
A competição, nesta lógica, teria aspectos positivos porque prepararia a criança
para a vida adulta e para a interiorização de uma determinada ordem social.
Enfatizar as vantagens dos jogos cooperativos pretende contrariar a
predominância da competição, e criar oportunidades de participação, de comunicação e
de cooperação.
Segundo Jares (1992:8) o objectivo dos jogos cooperativos «não é ver quem
ganha ou quem perde, quem é capaz de conseguir ou quem não é, mas sim participar
juntos procurando o prazer, a comunicação e o apreço de todos». Desta forma, jogar
cooperativamente permitirá não só estabelecer interacções e descobrir o meio-ambiente
mas, sobretudo, sensibilizar para as relações humanas e vivenciar situações de uma
positiva convivência.
Por outro lado, interessa sublinhar que todos os instrumentos socialmente
construídos – onde se inclui o jogo – não são neutros. «Os jogos transmitem e
potenciam um determinado código de valores, através do qual se estrutura um
determinado tipo de pessoa-jogador, determinadas relações entre os próprios jogadores,
uma determinada forma de entender a própria diversão, etc.».
Nesta linha de ideias, a selecção de jogos, numa educação para a cidadania, deve
ser coerente com o posicionamento e com as atitudes que se assumem face à educação e
deve enquadrar-se num «projecto educativo mais amplo em que a cooperação e a
resolução não-violenta de conflitos se convertam tanto em fins como em meios» (Jares,
1992:9). Meios coerentes com os fins.

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Jogar de uma forma cooperante requer uma aprendizagem. Não é de um


momento para o outro que se consegue estabelecer cooperação entre as crianças (ou
adultos) que habitualmente se envolvem em práticas competitivas. Da mesma forma, o
contexto em que o jogo se desenrola, e as pessoas em questão, tornam variável esses

tempos de aprendizagem. Apesar do desenvolvimento desta cooperação não ser a tarefa


mais rápida e mais fácil, é considerado que as práticas educativas que se estruturam em
torno de estratégias deste tipo contribuem para a construção de um novo olhar sobre o
mundo e contribuem para a mudança da violência contida nas relações e nas estruturas
sociais vigentes, permitindo melhorar a aprendizagem de conhecimentos e desenvolver
a personalidade. No quadro destas ideias, num projecto que pretendeu promover uma
educação para a cidadania, considerámos importante recorrer aos jogos de cooperação,
secundando Jares (1992:11) quando argumenta que eles permitem:

 A construção de uma relação social positiva: mudando as atitudes das pessoas


para com o jogo e para com elas mesmas, favorecendo a criação de um ambiente
de prazer e de solidariedade e de interacção positiva que facilita a aprendizagem
de atitudes cooperativas que põem de parte a agressividade e a violência.
 A empatia: saber colocar-se no lugar do outro por fora a compreender o seu
ponto de vista, atitudes, necessidades, preocupações. Permite desenvolver
atitudes de alteridade e estabelecer formas de comunicação simétricas.
 A cooperação: baseia-se na colaboração para um fim comum na resolução de
problemas e tarefas em conjunto através de relações baseadas na reciprocidade e
não no poder. As experiências cooperativas são a melhor forma de aprender a
partilhar, a socializar-se e a preocupar-se com os outros.
 A comunicação: desenvolvimento da capacidade de exprimir com franqueza
espontaneidade o estado de espírito, as percepções, os conhecimentos, as
perspectivas. Para que tal aconteça é necessário que esta comunicação seja
simétrica e não se baseie em relações de poder ou de liderança.
 A participação: baseando-se no principio de que ninguém fica excluído, que se
visa com o recurso aos jogos de cooperação e a participação de todos os
membros na execução das tarefas, não havendo lugar para vencedores nem para

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O Jogo como estratégia de Educação para a Cidadania

vencidos. Esta participação colectiva na execução do jogo e na busca de


possíveis soluções gera um clima de confiança e de mútua implicação.
 O apreço e auto-conceito positivo: desenvolver uma imagem positiva de si
próprio e reconhecer, apreciar e expressar a importância do outro. A auto-estima,
confiança e segurança em si próprio é um elemento de identidade vital, que joga um
importante papel na determinação da nossa conduta comunicativa.
 A alegria: representa um objecto educativo que não podemos ignorar tendo em
conta de que uma das finalidades que deverá estar presente em todo o projecto
educativo, em qualquer idade, é o de formar pessoas felizes. Nos jogos
cooperativos, ao desaparecer o medo do fracasso e da rejeição, geralmente
associados aos jogos competitivos, revela-se com toda a nitidez a alegria.
«Trata-se pois de partilhar a alegria que sentimos para com a vida e para com os
demais. Entre outras coisas porque (…) o partilhar aumenta a diversão»
(1992:11).

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Todos os jogos a serem fomentados numa educação para a cidadania devem conter
as seguintes características:
QUADRO I3
…no sentido da cooperação …no sentido da competição
 Promove a implicação na resolução de  Promove a implicação na resolução de
tarefas com vista a um fim comum; tarefas com vista a um fim comum;
 Desenvolve competências de trabalho em  Desenvolve competências de trabalho em
grupo; grupo;
 Promove a comunicação num espírito de  Promove a comunicação num espírito de
conhecimento do «outro», de inter-ajuda e conhecimento do «outro», de inter-ajuda e
de mutuo apoio; de mútuo apoio;
 Promove o reconhecimento, a confiança e  Promove o reconhecimento, a confiança e
valorização do «outro»; valorização do «outro»;
 Estimula o conhecimento de si próprio, na  Estimula o conhecimento de si próprio, na
relação com os outros; relação com os outros;
 Promove o reconhecimento, a confiança e  Promove o reconhecimento, a confiança e
valorização de si próprio na relação com valorização de si próprio na relação com
os outros; os outros;
 Visa a participação de todos (ninguém é  Visa a participação de todos (ninguém é
excluído); gera relações de «igualdade na excluído); gera relações de «igualdade na
diversidade»; diversidade»;
 Gera situações de lúdico-divertidas e de  Gera situações lúdico-divertidas e de
bem-estar; bem-estar;
 Gera situações de relaxamento.  Gera situações de relaxamento.

NOTA: As características apontadas «…no sentido da cooperação» poderão,


eventualmente, servir como ponto de partida para a recontextualização de jogos de
competição.

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Leite, Carlinda et.al (2001): Educação para a Cidadania. IIE.M.E. Colecção Práticas Pedagógicas

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3. Critérios de análise de alguns jogos possíveis para uma


educação para a Cidadania

3.1. JOGO: Descobrir o outro

1. Material:
Uma venda.
2. Objectivos do jogo:

Identificação do colega através do tacto.


Desenvolver a concentração e fomentar atitudes de entre-ajuda.

3. Como jogar:
Venda-se os olhos a uma criança. Em silêncio chama-se um colega que
ela terá que identificar pelo tacto. Os colegas vão ajudando, dando pistas
(tem cabelos loiros, gosta muito de chocolates, etc.) até ela adivinhar.

4. Análise

- Promove o conhecimento do outro.


- Promove o reconhecimento, a confiança e valorização do outro.
- Estimula o conhecimento de si próprio na relação com os outros.
- Promove a comunicação num espírito de inter-ajuda e de mútuo apoio.
- Visa a participação de todos (ninguém é excluído).
- Gera situações lúdico-divertidas e de bem-estar.

5. Comentário

É um jogo divertido e muito do agrado das crianças. É necessário ter o


cuidado de permitir que todas as crianças joguem. É um jogo que implica
conhecimento do outro não só ao nível físico como de comportamento. É
um jogo essencialmente de cooperação em que as crianças ajudam o
colega até ele descobrir o outro. 13
O Jogo como estratégia de Educação para a Cidadania

3.2. JOGO: A entrevista de grupo

1. Material:
Nenhum
2. Objectivos do jogo:

Alicerçar a confiança;
Desenvolver as relações interpessoais, a sensibilidade, a comunicação, a
participação, o mútuo conhecimento.

3. Como jogar:
Joga-se numa roda, indo uma criança para o meio.
Três crianças fazem-lhe as perguntas que quiserem (não devem fazer
perguntas embaraçosas). Ela pode recusar-se a responder. Com a
experiência, as entrevistas melhoram e variam. É importante que todos
sejam entrevistados e façam perguntas.

4. Análise

- Apela ao conhecimento recíproco e à comunicação;


- Estimula o conhecimento de si próprio;
- Promove o reconhecimento e a valorização do outro e de si próprio;
- Pode gerar situações embaraçosas se a criança se sentir «exposta»

5. Comentário

Ter em conta a experiência das crianças neste tipo de jogos, o seu mútuo
conhecimento, a sua idade e o ambiente de trabalho para a adequação das
estratégias.

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3.3. JOGO: Dá-me lume

1. Material:
Nenhum
2. Objectivos do jogo:

Promover a socialização
Desenvolver a cooperação

3. Como jogar:
Marca-se o chão com círculos (casas). Um jogador fica no meio. O que
está no meio, dirige-se a uma «casa» e diz: «Dá-me lume?» e este
responde…«Vá aquela casa que está a fumegar».
Feita a pergunta, os jogadores dos círculos correm de um lado para o
outro, trocando de lugares, ou voltando para os seus quando os vêem em
perigo. Quanto maiores e mais confusas forem as mudanças, mais alegre
e animado será o jogo. Quando o jogador do centro conseguir um lugar
vago, é substituído pelo jogador que estiver fora na ocasião.

4. Análise

É um jogo que exige uma certa cumplicidade entre os colegas e muita


atenção, incluindo todas as crianças, embora haja sempre uma criança
que perde.

5. Comentário

É um jogo ao qual normalmente as crianças aderem com muita facilidade


pois cria situações divertidas entre si.

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3.4. JOGO: Jogo do cão

1. Material:
Um «osso»
2. Objectivos do jogo:

Desenvolver a capacidade de atenção e de concentração;


Proporcionar momentos de calma e de silencio;
Fomentar a cooperação.

3. Como jogar:
Papéis: Dono do cão, Cão

Desenvolvimento:
As crianças participantes sentam-se na roda. O Dono, tapa os olhos ao
cão e põe o osso ao lado. Aponta para um colega, para tirar o osso ao cão
sem ele dar conta (em bicos de pés e silencio). Este/a senta-se e põem
todos as mãos atrás das costas.
Se o cão ouvir barulho ladra e ele não pode levar o osso. O Dono do cão
ponta para outro.

4. Análise

Promove a inter-ajuda e mútuo apoio; desenvolve competências de


trabalho em grupo; estimula a partilha de competências; promove o
reconhecimento, a confiança, a confiança e a valorização de si próprio,
na relação com os outros; visa a participação de todos (ninguém é
excluído); gera situações lúdico-divertidas e de bem-estar.

5. Comentário

É um jogo que acalma as crianças, que estimula a atenção e que é muito


do agrado do grupo.
Aceitam as regras e cumprem-nas com facilidade. É necessário ter em
atenção o facto de todos deverem participar, desde que queiram.
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O Jogo como estratégia de Educação para a Cidadania

3.5. JOGO: O lobo e os porquinhos

1. Material:
Nenhum
2. Objectivos do jogo:

Incentivar a cooperação

3. Como jogar:
- Desenham-se no chão as casas do lobo e dos porquinhos.
- Os porquinhos saem ou entram em sua casa conforme sinal de
orientador.
- O lobo tenta apanhá-los enquanto os porquinhos estão fora da casa.
- Os porquinhos apanhados ficam presos em casa do lobo, mas podem ser
salvos pelos colegas bastando para tal serem tocados.

4. Análise

É um jogo essencialmente de cooperação que promove a inter-ajuda (as


crianças põem em risco a sua liberdade ao tentar salvar os outros).

5. Comentário

É um jogo divertido, de grande grupo, que apela à atenção, ao


movimento e à coordenação psicomotora.

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3.6. JOGO: Perna atada

1. Material:
Lenço ou corda
2. Objectivos do jogo:

Promover a coordenação motora


Promover a cooperação entre equipas
Desenvolver a competição saudável entre as equipas

3. Como jogar:
Os elementos das equipas concorrentes alinham à partida, com as pernas
atadas, no tornozelo, e os braços sobre os ombros dos colegas.
As pernas são atadas com lenços de bolso.
Ganha o par que chegar à meta em primeiro lugar mantendo as pernas
atadas.
NOTA: a perna esquerda é atada à perna direita do colega (e vice-versa).

4. Análise

É um jogo que apesar de estabelecer alguma competição entre os pares


pode gerar atitudes de apoio e cooperação intra par.

5. Comentário

É importante que o professor/educador se mantenha atento para evitar


situações de exclusão e promova uma reflexão sobre o vivido, no final do
jogo.

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3.7. JOGO: Quente/Frio

1. Material:
Um objecto
2. Objectivos do jogo:

Encontrar o objecto escondido

3. Como jogar:
Tira-se à sorte entre vários participantes quem vai em busca de um
objecto previamente escondido numa sala.
Depois do sorteio, o jogador escolhido tenta encontrar o objecto. Antes
porem estabelece-se um determinado tempo. Só o jogador é que
desconhece onde se encontra o objecto.
O jogador começa à procura do objecto.
Os outros vão informando está quente ou frio conforme está muito
próximo ou se afasta do objecto escondido.
Quando o objecto é encontrado recomeça a brincadeira.

4. Análise

Jogo de cooperação:
- Promove a implicação na resolução de uma tarefa em vista a um fim
comum.
- Promove a comunicação e o espírito de entre-ajuda.
- Visa a participação de todos.
- Gera situações lúdico-divertidas.

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O Jogo como estratégia de Educação para a Cidadania

3.8. JOGO: Cabra-Cega

1. Material:
Sala ampla - sem objectos que possam causar ferimentos

2. Objectivos do jogo:

3. Como jogar:
Sortear a cabra-cega. Vendam-se-lhe os olhos e faz-se girar em torno de
si mesma para ficar confundida em relação à posição dos colegas.
A cabra-cega movimenta-se na sala até apanhar um colega ( que tem de
estar calado em estátua quando é caçado).
A cabra-cega tem de descobrir tacteando o nome do outro jogador. Se
conseguir o colega apanhado passa para cabra-cega. Se errar o jogo
continua com a mesma cabra-cega.

4. Análise

Jogo que promove a socialização:


- Desenvolve competências sociais
- Promove o reconhecimento do outro
- Desenvolve capacidades sensoriais (individuais)

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O Jogo como estratégia de Educação para a Cidadania

3.9. JOGO: O mapa do tesouro

1. Material:
Objectos variados
2. Objectivos do jogo:

3. Como jogar:
O professor previamente «enterra» na sala vários «tesouros» - bolas,
balões, livros, etc. , fazendo mapas com a sua localização.
Organiza-se grupos de caça ao tesouro que para encontrá-lo terá que
decifrar algumas mensagens deixadas pelo pirata (Prof.).
Nos alunos mais velhos pode-se constituir grupos de piratas e de caça ao
tesouro. Os tesouros são partilhados (bolas, livros, guloseimas) por todos.

4. Análise

Jogo de cooperação:
- Promove a implicação na resolução de uma tarefa em vista a um fim
comum
- Promove a comunicação, espírito de ajuda
- Desenvolve a competência do trabalho em grupo
- Gera situações lúdico-divertidas de bem-estar

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O Jogo como estratégia de Educação para a Cidadania

3.10. JOGO: Quem me livra

1. Material:
Nenhum
2. Objectivos do jogo:

- Promover a cooperação no interior de cada equipa


- Desenvolver a agilidade e o tempo de reacção
- Desenvolver a competição

3. Como jogar:
Em que consiste o jogo:
- Fugir à equipa perseguidora.
- Libertar os elementos cativos.

Organizam-se duas equipas. As crianças recitam uma lengalenga para


encontrar os elementos da equipa perseguidora.
Os perseguidores tentam tocar as crianças fugitivas. A que for presa tem
de parar e ficar em local pré-determinado. Alguns dos perseguidores
ficam de guarda aos presos, pois os fugitivos livres podem libertá-los,
tocando-lhes com a mão.
Os elementos presos podem gritar: Quem me livra?
O jogo termina quando a equipa perseguidora tiver prendido todos os
elementos em fuga.
NOTA: A equipa perseguidora deverá ter menos elementos que a equipa
de fuga.

4. Análise

Promove a cooperação intra-equipa e a competição entre equipas

5. Comentário

Pode constituir um bom momento de aprendizagem de «competição


saudável» se for devidamente acompanhada pelo professor/educador.
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O Jogo como estratégia de Educação para a Cidadania

Conclusão:

Cidadania é o estatuto de um indivíduo que pertence a uma comunidade,


politicamente articulada e que lhe confere um conjunto de direitos e de obrigações. A
cidadania de um indivíduo é determinada pela sua nacionalidade. A cidadania confere
direitos, liberdades e garantias, assim como deveres, cujo cumprimento contribui para o
para o bem comum.

Agir com civismo, significa que o indivíduo está na posse de um conjunto de


atitudes, ou seja, de comportamentos adequados a uma cidadania responsável e que
assentam no princípio de que uma ordem social comum exige o respeito pelo bem-estar,
pelos direitos e pela dignidade de todos os cidadãos.

Ao longo da vida, sempre houve a necessidade de recorrer ao gesto amigo, à


exemplificação, à atitude mais teatral, entre outros recursos, para incrementar quer nos
adultos como nas crianças, o respeito pelo Eu, pelo Outro e pela relação existente entre
estes dois conceitos.

Entende-se o jogo como centro de interesses para o despoletar de situações


propícias ao desenvolvimento da reflexão orientada com objectivos específicos bem
definidos. Os jogos seleccionados são pontos de partida que perspectivam novas
abordagens, bem como a introdução de outros.

É com o jogo que se promove uma comunicação efectiva e se desenvolve a


cooperação, a sensibilidade, a confiança, a interdependência e a independência da
identidade pessoal.

Os jogos criam interesse e, postos em prática com uma finalidade e eficiência,


podem tornar-se a “moldura”, na qual se desenvolvem todas as outras actividades.

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O Jogo como estratégia de Educação para a Cidadania

Neste contexto, como explicámos na introdução do nosso trabalho, fácil é


concluir que as duas problemáticas se entrecruzam, podendo verificar-se como os jogos
podem e devem ser implementados, numa vertente de formação, que sem esquecer o
aspecto lúdico, constituem excelentes instrumentos formativos de uma aceitação activa
da diversidade, da multiculturalidade, do Eu e do Outro.

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O Jogo como estratégia de Educação para a Cidadania

Bibliografia

CORTESÂO, L. et.al.(1995). E agora tu dizias que…Jogos e brincadeiras como


dispositivos pedagógicos, Porto, Ed. Afrontamento.

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Piaget.

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