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ROGERS, Carl. “Tornar-se Pessoa”.

Tradução: Manuel José do Carmo Ferreira e Avamar


Lamfarellj. Revisão Técnica: Cláudia Berliner. 5ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997. 243p.

“Tornar-se Pessoa” - Fichamento dos Capítulos 20 - 24

Autora da Resenha: Christianne Silva Pereira Thomes Viana


10º Período – Psicologia – 2018/2

Capítulo 20

O poder crescente das ciências comportamentais

Aqui, Rogers, explicita o convite de Skinner para um debate, na Universidade de Harvard,


sobre o interesse dos psicólogos nas ciências comportamentais.

Em seu ensaio sobre o que iria palestrar, Rogers, cita:

“Embora estejam todos trabalhando para tentar entender o


comportamento do homem e dos animais, e embora a pesquisa
nessas áreas esteja se avolumando a passos largos, ainda constitui
uma área em que há sem dúvida mais confusão do que
conhecimento sólido. Estudiosos cuidadosos nessas áreas tendem a
enfatizar a enormidade de nossa ignorância científica com relação
ao comportamento, e a escassez de leis gerais já descobertas”.
(Rogers, pg. 423 e 424)

Ele reconhece a eficácia das contingências na regulagem e manutenção do comportamento,


descreve alguns teóricos e sua relação com o contexto americano, parecendo estar encantado com
esses “mecanismos de controles”, porém traz críticas ponderadas a respeito dos resultados a longo
prazo, individual e coletivo.
Ainda na época, (década de 50, século passado), Rogers chama à reflexão elaborando
algumas questões e problematização acerca do crescente avanço e emprego das praticas e técnicas
comportamentais:

“Nós alcançamos, ao fazer dela uma ciência de importância


potencial enorme, uma instrumentalidade cujo poder social tornará a
energia atômica fraca, em comparação. E não há dúvida de que as questões
levantadas por esse desenvolvimento serão questões de importância vital
para esta geração e para as que virão” (pg. 445).

Continua, voltemos nossa atenção para algumas destas questões:


a) Como deveremos usar o poder dessa nova ciência?
b) O que acontece à pessoa individual nesse admirável mundo?
c) Quem se apropriará do poder para utilizar esse novo conhecimento?
d) Em direção a que fim ou propósito ou valor, esse tipo de conhecimento será utilizado?

No capítulo 21, ele elabora um preâmbulo para tratar destas questões levantadas.
Capítulo 21

O lugar do indivíduo no mundo novo das ciências do comportamento

Neste capítulo, o autor, esclarece que uma das atitudes que se pode adotar é negar que esses
avanços científicos estejam ocorrendo, e simplesmente abraçar a idéia de que não pode haver um
estudo do comportamento humano realmente científico.
Segundo ele, se pode sustentar que é impossível que o animal humano tenha uma atitude objetiva
para consigo, e que, portanto, não pode existir nenhuma ciência real do comportamento. Ainda, é
possível dizer, que o homem é sempre um agente livre, num sentido que faça do estudo científico de
seu comportamento algo impossível. Pouco tempo atrás, numa conferência sobre as ciências sociais,
escutei, curiosamente, um economista expressar esse ponto de vista.
Cita Skinner e Huxley, como escritores e instigadores de mudanças sociais através de seus
escritos de realidade fantástica, tais como: o Walden Two e Admirável mundo novo (todos fazendo
apologia a um governo autocrático e controlador de comportamentos).
Rogers explica que a “ciência comportamental progride nitidamente; o crescente poder de
controle que ela proporciona estará nas mãos de alguém ou de algum grupo; esse indivíduo ou
grupo certamente escolherá as metas a serem atingidas; e a maioria de nós será cada vez mais
controlada por meios tão sutis que nem os perceberemos como meios de controle.
Continua: “Se um conselho de psicólogos sábios (se isso não for uma contradição nos
termos) ou um Stalin, ou um Grande Irmão detiver o poder, e quer sua meta seja a felicidade, a
produtividade, a resolução do complexo de Édipo, a submissão, ou o amor pelo Grande Irmão,
estaremos inevitavelmente caminhando para a realização dessa meta e provavelmente pensando que
somos nós quem a desejamos”.
Enfatiza: “Se esse raciocínio estiver correto, tudo indica que uma forma de sociedade
totalmente controlada — um Walden Two ou um 1984 — está por vir. O fato de que ela viria pouco
a pouco e não de uma só vez não altera fundamentalmente as coisas. O homem e seu
comportamento passariam a ser um produto planejado de uma sociedade científica. Vocês poderiam
perguntar: “Mas, e a liberdade individual? E os conceitos democráticos dos direitos individuais?”
Mais uma vez o Dr. Skinner é bastante claro. Ele diz sem rodeios: “A hipótese de que o homem não
é livre é essencial para a aplicação do método científico ao estudo do comportamento humano. O
homem internamente livre, considerado responsável pelo comportamento do organismo biológico
externo é apenas um substituto pré-científico para o tipo de causas que se descobrem à medida que
progride a análise científica. Todas estas outras causas são exteriores ao indivíduo” (11, p. 447).
Corroborando à sua critica usa os argumentos, na pg. 461, para fazer-se compreendido aos
leitores:
“Se meu raciocínio for válido, novas portas se abrem para nós. Se
encararmos com franqueza o fato de que a ciência parte de um conjunto de
valores subjetivamente escolhido, então temos a liberdade de selecionar os
valores que desejamos realizar. Não estamos limitados a metas tão ridículas
como produzir um estado controlado de felicidade, produtividade e coisas
do gênero”.

Á partir daí, sugere uma alternativa radicalmente diferente: Se partíssemos de um conjunto


de finalidades, valores, propósitos bastante diferentes daqueles que consideramos até agora; se o
fizéssemos abertamente, apresentando-os como uma escolha possível de valores suscetíveis de
serem aceitos ou rejeitados; se selecionássemos um conjunto de valores que se concentrem nos
elementos fluidos do processo em vez de se fixarem nos seus atributos estáticos; nesse caso,
valorizaríamos: O homem como um processo de transformação; como um processo que visa
alcançar valor e dignidade pelo desenvolvimento de suas potencialidades; O indivíduo humano
como processo de auto-realização, avançando continuamente na direção de experiências mais
desafiadoras e enriquecedoras; O processo por meio do qual o indivíduo se adapta criativamente a
um mundo sempre novo e em constante mudança.

Quanto ao papel do terapeuta neste lugar de mudanças:

[...] “Em outras palavras, estabelecemos, através de um


controle exterior, condições que, segundo nossas previsões, serão
acompanhadas por um controle interior do indivíduo sobre si
próprio nos seus esforços para atingir os objetivos que
interiormente escolheu”.

Rogers insiste que o papel do terapeuta é estabelecer condições que possam prever diversas
espécies de comportamento; comportamentos de auto direção, sensibilidade às realidades interiores
e exteriores, capacidade para se adaptar com maleabilidade comportamentos que são, por sua
própria natureza, imprevisíveis na sua especificidade. Ele explica que essas condições estabelecidas
por estes profissionais, preveem um comportamento que é essencialmente “livre”. Caracteríticas
fundamental para o sucesso da terapia.

Quanto aos estímulos para a investigação, Rogers (1997) explica que estes se justificam
quanto à teoria da terapia centrada no cliente, quando esta é encarada, não como um dogma ou
como uma verdade, mas como um estabelecimento de hipóteses, como um instrumento a serviço do
progresso do nosso conhecimento. Diz que: [..] “para uma investigação ser objetiva é necessário
que seja realizada de tal modo que um outro investigador, recolhendo os dados da mesma maneira
e submetendo-os às mesmas operações, encontre os mesmos resultados ou resultados semelhantes e
chegue às mesmas conclusões.

A segunda razão na demonstração de estímulos, quanto a orientação centrada no cliente, é


que a “diretriz segundo a qual um estudo científico pode começar não importa onde, seja em que
nível for, elementar ou complexo; ou seja, é uma direção e não um grau fixo de instrumentação”.

O autor explica que a psicoterapia pode ser comparada a um microcosmo de relações


interpessoais significativas, de aprendizagens fundamentais e de modificações importantes na
personalidade e na percepção do indivíduo, os construtos elaborados para ordenar o campo têm um
elevado grau de penetração. Esclarece que estes construtos, tais como o autoconceito, ou a
necessidade de uma aceitação positiva ou as condições da alteração da personalidade, podiam
aplicar-se a uma grande variedade de atividades humanas.

Neste capítulo, ele ainda se preocupa em posicional o lugar da Terapia Centrada no Cliente
(TCC), em relação ás demais psicoterapias: […] “ao contrário da psicanálise, por exemplo, a
terapia centrada no cliente desenvolveu-se sempre no contexto das instituições universitárias”.

Depois disto, Rogers explana o papel da investigação em psicoterapia em várias dimensões e


abordagens. Citando de forma sucinta sua passagem por outras ciências e teóricos desde a biologia a
física nuclear. Fala de muitos testes e alguns de seus resultados, e ainda dos possíveis impactos nas
novas gerações. Da posição dos testados e resultados destes à sociedade e ciência. Descreve ainda,
as possíveis respostas dos testando (clientes)em relação as possíveis explorações e auto-explorações
das respostas a estes testes.
A partir desses relatos, o autor descreve um estudo sobre o autoconceito. Ele explica que se
realizaram-se muitas investigações sobre as alterações no conceito que o cliente tem do eu.
Conta que, este construto é central na teoria da terapia centrada no cliente e na sua
concepção da personalidade. Descreve o método no estudo de Butler e Haigh - Teste de Apercepção
Temática (TAT).

A partir das explanações dos testes e seus resultados, Rogers trás um questionamento:
“Mudará o comportamento cotidiano do cliente de maneira observável e será positiva a natureza
dessa mudança?”

Ele mesmo esclarece: “A teoria da terapia centrada no cliente coloca como hipótese que as
alterações internas que ocorrem durante o processo terapêutico levam o indivíduo, após a terapia,
a um comportamento menos defensivo, mais socializado, mais receptivo à realidade em si mesmo e
no seu meio social, um comportamento que atesta um sistema de valores mais socializado. Em
outras palavras, o seu comportamento será considerado como mais amadurecido, e as formas de
comportamento infantil tendem a diminuir” (p. 156).

Em relação ao terapeuta, ressalta de vários estudos recentes que, quanto mais ele for
caloroso e sinceramente humano como terapeuta, interessado apenas na compreensão momento a
momento dos sentimentos de uma pessoa que iniciou uma relação com ele, mais será um
profissional eficaz. Depois de explicar o lugar dos testes, citar modelos e resultados, ele insiste na
conclusão: [se tratando da psicoterapia e testes ] - “O indivíduo tem de utilizar esse conhecimento
apenas para enriquecer e ampliar o seu próprio eu subjetivo e tem de ser esse eu, livremente e sem
receio, nas relações com seu cliente. (p. 162).

Capítulo 13

Quais são as implicações para a vida?

Este é um dos menores capítulos do livro Tornar-se pessoa. Aqui, o autor, pretende
apresentar algumas breves observações, na esperança de que, se provocarem reações de sua parte,
ele possa clarificar minhas próprias ideias.

Como ele considera o pensar algo difícil e não possível em todos os âmbitos ou pessoas,
para esclarecer melhor essa assertiva, ele formula cada uma das ideias que o levaram a redigir um
parágrafo separado, de formas bem específicas. São elas (as ideias de Rogers):

a) Posso tomar como ponto de partida a seguinte ideia, dado o objetivo desa.reunião.
Segundo minha experiência, não posso ensinar a outra pessoa a maneira de ensinar. Trata-se de uma
tentativa que é, para mim, a longo prazo, vã.
b) Creio que aquilo que se pode ensinar a outra pessoa não tem grandes consequências, com
pouca ou nenhuma influência significativa sobre o comportamento. Isto parece ato ridículo que não
posso deixar de colocá-lo em dúvida ao mesmo tempo que o estou formulando.
c) Compreendo cada vez melhor que apenas estou interessado nas aprendizagens que tenham
uma influência significativa sobre o comportamento. É muito possível que se trate unicamente de
uma idiossincrasia pessoal.
d) Sinto que o único aprendizado que influencia significativamente o comportamento é o
aprendizado autodescoberto, auto-apropriado.
e) Um conhecimento autodescoberto, essa verdade que foi pessoalmente apropriada e
assimilada na experiência, não pode ser comunicada diretamente a outra pessoa.
f) Como consequência do que se disse no parágrafo anterior, compreendi que tinha perdido o
interesse em ser professor.
g) Quando tento ensinar, como faço às vezes, fico consternado pelos resultados, que me
parecem praticamente inconsequentes, porque, por vezes, o ensino parece ser bem-sucedido.
h) Quando considero os resultados do meu ensino passado, a conclusão real parece ser a
mesma — ou foi prejudicial ou nada de significativo ocorreu. Isto é francamente aflitivo.
i) Por conseguinte, compreendi que estava unicamente interessado em ser um aluno, de
preferência em matérias que tenham qualquer influência significativa sobre o meu próprio
comportamento.
j) Sinto que é extremamente compensador aprender em grupo, nas relações com outra
pessoa, como na terapia, ou por mim mesmo.
k) Julgo que, para mim, uma das melhores maneiras, mas das mais difíceis, de aprender é
abandonar minhas defesas, pelo menos temporariamente, e tentar compreender como é que a outra
pessoa encara e sente a sua própria experiência.
1) Para mim, uma outra forma de aprender é confessar minhas próprias dúvidas, procurar
esclarecer meus enigmas, afim de compreender melhor o significado real da minha experiência.
m) Toda essa série de experiências e de conclusões a que cheguei lançaram-me num processo que
tanto é fascinante como, por vezes, aterrorizador.

E finalmente demonstrado a diferença entre o cientista e o senso comum, ele explica:

“E é no momento em que compreendo suas implicações que estremeço um pouco ao ver o


quanto me afastei do mundo do senso comum que, como todos sabem, está certo”.

Então Ilustra inúmeras consequências:

a) Uma tal experiência implicaria que se deveria renunciar ao ensino. As pessoas teriam de
reunir-se se quisessem aprender.
b) Deveríamos renunciar aos exames. Eles medem apenas o tipo de ensino inconsequente.
c) Pela mesma razão, deveríamos acabar com notas e créditos.
d) Deveríamos abandonar os diplomas como títulos de competência, em parte pela mesma
razão. Outra reside no fato de um diploma marcar o fim ou a conclusão de algo, e aquele que
apresenta unicamente interessado em continuar a aprender.
e) Uma outra implicação seria abolir a exposição de conclusões, pois compreenderíamos que
ninguém aprende nada de significativo a partir de conclusões. Julgo que é melhor ficar por aqui.

E para concluir diz:

“Não quero precipitar-me no fantástico. O que sobretudo pretendo saber é se algo do meu
pensamento interior, tal como tentei descrevê-lo, diz alguma coisa à sua experiência docente tal
como vocês a viveram e, se assim for, qual será para vocês o significado dessa sua experiência”.

Capítulo 14

A aprendizagem significativa: na terapia e na educação

Este capítulo é a reformulação que mais satisfaz o autor em relação ao significado das
hipóteses da terapia centrada no cliente no domínio da educação. O que aqui se apresenta é uma
tese, um ponto de vista sobre as implicações que a psicoterapia tem para a educação.

Explica, que, a terapia centrada no cliente, o contato terapêutico conduz a aprendizagens ou


a alterações como as que se seguem:

- A pessoa começa a ver-se de modo diferente.


- Aceita-se e aceita seus sentimentos de uma maneira mais total.
- Torna-se mais autoconfiante e mais autônoma.
- Torna-se mais na pessoa que gostaria de ser.
- Adota objetivos mais realistas.
- Comporta-se de uma forma mais amadurecida.
- Modifica seus comportamentos desadaptados, mesmo que se trate de um comportamento há muito
estabelecido, como o alcoolismo crônico.
- Aceita mais abertamente os outros.
- Torna-se mais aberta à evidência, tanto no que se passa fora de si como no seu íntimo.
- Modifica suas características básicas de personalidade, de uma maneira construtiva.

Logo adiante, |Rogers, traça um quadro teórico das condições necessárias e suficientes que
o terapeuta oferece para que ocorra uma alteração construtiva ou uma aprendizagem significativa .
Ele esclarece que essa teoria vem sendo comprovada em vários dos seus aspectos pela investigação
experimental, mas ainda deve ser considerada como uma teoria baseada mais na experiência clínica
do que em fatos provados.

Para que a terapia tenha êxito, é necessário que o terapeuta seja, na relação, uma pessoa
unificada, integrada ou congruente.

Ele elucida a congruência como “exatamente onde ela está” em relação ao paciente e seus
sentimentos e condições terapêuticas. Aponta a segunda condição “liberdade de consciência e
aceitação total”; “aguda consciência da modificação do pensamento”; “compreensão aguda e
empática do mundo do cliente”; e por fim a dimensão pedagógica: cliente experimenta ou apreende
algo da “congruência, aceitação e empatia do terapeuta.”

O autor conclui este capítulo demonstrando através de alguns exemplos a dimensão do uso
da terapia centrada no cliente para um âmbito bem maior que a psicoterapia. Demonstra seu uso da
educação através da aprendizagem significativas e seus efeitos na grande rede na qual ela pode e
tende a ser eficaz na construção do sujeito.

Capítulo 15

O ensino centrado no aluno conforme experienciado por um participante

O autor inicia este capítulo elucidando mais uma vez, que não poderia se contentar
simplesmente em oferecer a sua visão de psicoterapia. Explana que considera essencial fornecer
também a percepção que o cliente tem da experiência, já que esta constitui na verdade a matéria-
prima a partir da qual tem formulado suas próprias opiniões. Contou que no verão de 1958, foi
convidado para dar um curso de quatro semanas na Brandeis Universily, sob o tema: “O Processo
de Mudança de Personalidade”.
Expôs que o curso era inteiramente não-estruturado; e era exatamente isso:

“Em nenhum momento se sabia,, nem mesmo o instrutor, o que o próximo momento
produziria na sala de aula, que assunto se levantaria para discussão, que questões seriam
suscitadas, quais necessidades, sentimentos e emoções pessoais pairavam. O que se seguiu foi um
silêncio tenso; ninguém se pronunciou. Finalmente, para quebrar isto, um aluno timidamente
ergueu sua mão e falou a sua parte. Um outro silêncio desconfortável, e então uma outra mão
levantada. Logo depois, as mãos se ergueram mais rapidamente. Em nenhum momento o instrutor
incitou qualquer aluno a falar.” (p. 178)

Em nenhum momento ele indicou que esperava que os alunos lessem ou fizessem qualquer
coisa. Contudo, alguns alunos se oferecessem espontaneamente para organizar este material em uma
sala especial que havia sido reservada para os alunos do curso. Dois alunos se ofereceram
prontamente. Disse também que tinha consigo fitas gravadas de sessões terapêuticas e também rolos
de filmes. Outros alunos se ofereceram para lidar com os gravadores, encontrar um projetor de
filmes; em sua maior parte isso também foi iniciado e organizado pelos alunos. Depois disso, o que
se seguiu foram quatro sessões difíceis e frustrantes.

Durante esse período, a classe parecia não chegar a lugar algum. Os alunos falavam
aleatoriamente, dizendo o que lhes viesse à cabeça. Tudo parecia caótico, sem objetivos, uma perda
de tempo. Um aluno levantaria algum aspecto da filosofia de Rogers; e o próximo aluno, ignorando
completamente o primeiro, afastaria o grupo para uma outra direção; e um terceiro, completamente
não levando em conta os dois primeiros, ingressaria em um outro assunto totalmente novo.

Algumas vezes havia alguns esforços tímidos para se alcançar uma discussão coesa, mas em
sua maior parte os procedimentos de sala de aula pareciam estar desprovidos de continuidade e
direção. O instrutor recebia todas as contribuições com atenção e consideração. Ele não supunha
nenhuma contribuição dos alunos oportuna ou inoportuna. A classe não estava preparada para uma
abordagem tão completamente sem estrutura. Não sabiam como proceder. (p. 179-180).

As ideias, emoções e sentimentos vinham deles mesmos; e isto era um processo liberador e
excitante. Nessa atmosfera de liberdade, algo para o qual não haviam barganhado ou para o qual
não estavam preparados, os alunos se pronunciavam como os alunos raramente o fazem. Os
instrutores que sofreram!!!!!

Todos sentimos que o que estava em jogo era alguma falta de compreensão leve, que uma
vez decifrada e remediada faria com que tudo ficasse bem novamente. Porém nosso instrutor, gentil
o bastante na superfície, tinha um “capricho de aço”. Ele não parecia entender; e se entendia, era
obstinado e implacável; recusava-se a dar a questão por encerrada. Dessa forma, esse cabo de
guerra continuava. Todos dirigíamos nossas expectativas a Rogers e Rogers a nós. Um aluno em
meio à aprovação geral, observou: “Somos centrados em Rogers, não centrados no aluno. Viemos
para aprender a partir de Rogers.” (p. 179)

Estrategicamente, Rogers passou a trabalhar com esses alunos o ”encorajando do


pensamento” e a “importância da aceitação”, a partir de uma nova metodologia. O resultado foi
uma “Experiência de Ensino Pessoal”, onde ele deu rédeas soltas ao alunos, não prendendo
ninguém a nenhum rumo estabelecido, e permitiu a digressão mais ampla.
Pontuou que foi para ele uma experiência inigualável, inexplicável em termos comuns.
[…] Eu mesmo não posso plenamente explicá-la, exceto ser grato ao
fato de ela ter acontecido comigo. Algumas das muitas qualidades que
experienciei em seu curso, encontrei nesse curso que dei. Vi-me apreciando
estes alunos como nunca havia apreciado qualquer outro grupo de pessoas,
e constatei — e eles assim o expressaram em seus relatórios finais — que
eles mesmos começaram a sentir afetuosidade, apreço e aceitação uns pelos
outros” (p. 361)

Capítulo 16

As implicações para a vida familiar da terapia centrada no cliente

Neste capítulo, o autor demonstra a possibilidade das implicações de forma sistêmica na


vida de seus clientes. A partir um exemplo ele descreve algumas dessas implicações. Ele explica
que se for possível discernir corretamente as diversas tendências que se revelam na experiência dos
clientes, então a terapia centrada no cliente parece ter um certo número de implicações na vida
familiar.

Exemplifica esclarecendo que, a longo prazo, o indivíduo encontra satisfação em se abrir


com pessoa com quem se relaciona. Revela todas as atitudes emocionais fortes ou persistentes, na
situação em que surgem e ao nível profundo em que se manifestam. Pontua que isso é mais
satisfatório do que recusar admitir esses sentimentos, permitir que eles se acumulem até um grau de
explosão ou dirigi-los numa direção diferente daquela em que nasceram. Detalha ainda que, parece
que o indivíduo descobre que é mais satisfatório a longo prazo viver determinada relação familiar
com base nos reais sentimentos interpessoais que existem, em vez de viver a relação numa base de
dissimulação.

Constata que um aspecto dessa descoberta ocorre porque o medo de que esta relação seja
destruída, permite admitir os verdadeiros sentimentos, e que esses não tem habitualmente
fundamento, de modo particular quando se exprimem os sentimentos como próprios e não como
pertencentes a uma outra pessoa. Segundo Rogers, os clientes descobrem que, à medida que se
exprimem de modo mais livre, à medida que fazem corresponder mais intimamente o caráter
superficial das relações com as atitudes flutuantes que lhes estão subjacentes, podem renunciar a
certas atitudes defensivas e ouvir verdadeiramente o outro. Começam muitas vezes a compreender
pela primeira vez o que a outra pessoa sente e por que é que sente dessa forma determinada. Logo,
a compreensão recíproca começa a invadir a interação interpessoal. Há, finalmente, uma aceitação
crescente de que o outro seja ele próprio.

Enfatiza que, à medida que alguém aceita melhor ser ele mesmo, descobre que se encontra
mais preparado para permitir ao outro ser ele próprio, com tudo o que isso implica. Isto significa
que o círculo familiar tende a encaminhar-se no sentido de se tomar um complexo de pessoas
independentes e únicas, com valores e objetivos individualizados, mas unidas por verdadeiros
sentimentos positivos e negativos — que existem entre elas, e pela satisfação do laço da
compreensão recíproca de, pelo menos, uma parte do mundo particular de cada um dos outros. É
deste modo que, segundo creio, uma terapia que leva o indivíduo a tornar-se mais plenamente e de
uma maneira mais profunda ele próprio o conduz igualmente à descoberta de uma maior satisfação
nas relações familiares reais que perseguem os mesmos fins: facilitar em cada membro da família o
processo de descobrir-se e de vir a ser ele mesmo. (p. 381)
Capítulo 17

O tratamento das perturbações na comunicação interpessoal e intergrupos

Aqui, o autor inicia o capítulo com uma pergunta:

“Que relação há entre fornecer uma ajuda terapêutica a um indivíduo que apresenta
desadaptações emocionais e o objetivo desta conferência, ou seja, estudar os obstáculos à
comunicação?”

Ele mesmo explica: “Todo o trabalho da psicoterapia se refere a uma falha na comunicação!

Esclarecendo, Rogers exemplifica a partir do dito “neurótico” (pessoa emocionalmente


desadaptada). Pontua que este tem dificuldades, em primeiro lugar, porque rompeu a comunicação
consigo próprio e, em segundo, porque, como resultado dessa ruptura, a comunicação com os
outros se viu prejudicada. Se isso parece um pouco estranho, permitam-me que o exprima de outra
maneira.

Continua: No indivíduo “neurótico”, partes dele que permaneceram inconscientes, ou


reprimidas, ou negadas à consciência, sofrem uma obstrução que impede a comunicação com a
parte consciente ou dirigente do indivíduo. Enquanto isso acontecer, dão-se distorções na forma
de comunicação entre o indivíduo e os outros, sofrendo ele assim tanto no interior de si mesmo
como nas relações intersubjetivas.

O autor afirma que a função da psicoterapia é ajudar a pessoa a realizar, através de uma
relação especial com o terapeuta, uma comunicação perfeita consigo mesma. Uma vez isso
efetuado, ela é capaz de se comunicar mais.1ive mais eficazmente com os outros. Podemos,
portanto, dizer que a psicoterapia é uma boa comunicação no interior da pessoa e entre pessoas.
Podemos também inverter a afirmação e ela continua a ser verdadeira.

Uma boa comunicação, uma comunicação livre, dentro ou entre as pessoas, é sempre
terapêutica. Desse modo, é a partir de um pano de fundo da experiência com a comunicação no
aconselhamento e na psicoterapia que eu desejaria apresentar-lhes duas ideias.

Ratifica que o processo parte daquilo que se julga ser um dos fatores principais que
bloqueiam ou impedem a comunicação e, depois, se procura apresentar o que na nossa experiência
se revela como uma forma muito importante de melhorar ou facilitar a comunicação.

Rogers ensina que a solução é fornecida pela criação de uma situação em que cada uma das
partes atinja a compreensão da outra, a partir do ponto de vista da outra. Isso pode ser conseguido
na prática, mesmo quando os sentimentos são intensos, por meio da influência de uma pessoa que
procura compreender cada um dos pontos de vista com empatia e que, nesse caso, atua como
catalisador para precipitar a ulterior compreensão.

O processo tem características importantes. Pode ser iniciado por uma das partes sem que a
outra esteja preparada. Pode mesmo ser iniciado por uma terceira pessoa neutra, desde que tenha a
garantia de um mínimo de cooperação de cada uma das partes em presença.

Esse processo pode esbarrar com falta de sinceridade, com exageros defensivos, com
mentiras, com “fachadas” que caracterizam a maior parte dos fracassos da comunicação. Essas
distorções defensivas acabam por si mesmas com uma rapidez espantosa, quando as pessoas
entendem que o único objetivo é compreender e não julgar.

Capítulo 18

Uma formulação provisória de uma lei geral das relações interpessoais

Neste espaço, Rogers reflete e discute como é que as suas descobertas no campo da
psicoterapia poderiam se aplicar às relações humanas em geral.
Ele procura examinar a ordem subjacente a todas as relações humanas, uma ordem que
determina quando é que a relação se processa no sentido do crescimento, do aperfeiçoamento, da
abertura e da maturidade dos indivíduos ou, pelo contrário, quando contribui para a inibição do
desenvolvimento psicológico, para a formação de atitudes defensivas e para a elevação de barreiras
de ambas as partes , a partir das teorias:

a) O conceito de congruência - Congruência foi o termo a que recorremos para indicar


uma correspondência mais adequada entre a experiência e a consciência. Pode ainda ser ampliado
de modo a abranger a adequação entre a experiência, a consciência e a comunicação. (p. 392)

Ex.: A criança tem fome e não está satisfeita, e isto é verdade para ela em todos os níveis.
Nesse momento, ela se integra ou se unifica no fato de “ter fome”. Por outro lado, se está saciada e
contente, também se trata de uma congruência unificada, idêntica no nível visceral, no nível da
consciência e no nível da comunicação

b) O conceito de incongruência - Qualidade do que apresenta contradições, do que se


opõe ao padrão estabelecido, do que não tem lógica. Falta de congruência e de adequação; sem
concordância, harmonia ou identidade.

Ex.: A Sra. Brown, que mal disfarçou os bocejos e olhou para o relógio constantemente, ao
partir despede-se de quem a convidou, dizendo: “Gostei muito de estar aqui. Foi uma noite muito
agradável!” Nesse caso, a incongruência não se estabelece entre a experiência e a consciência. A
Sra. Brown tem perfeita consciência de ter se aborrecido.

A incongruência registra-se entre a consciência e a comunicação. Deve, portanto, notar-se


que, quando há uma incongruência entre a experiência e a consciência, fala-se geralmente de uma
atitude de defesa ou de uma recusa da consciência. Quando a incongruência é entre a consciência e
a comunicação, pensa-se habitualmente em falsidade ou em duplicidade.

c) Uma formulação provisória de uma lei geral - Quanto maior for a congruência da
experiência, da consciência e da comunicação por parte de um indivíduo, mais a relação originada
implicará: uma tendência para um comunicação recíproca caracterizada por uma crescente
congruência; uma tendência para uma compreensão mútua mais adequada da comunicação; uma
melhoria da adaptação psicológica e do funcionamento de ambas as partes; satisfação recíproca na
relação. Inversamente, quanto maior for a incongruência comunicada da experiência e da
consciência, mais as relações assim originadas envolvem: comunicações posteriores com as mesmas
características; desintegração da compreensão adequada; funcionamento e adaptação psicológica
menos adaptados em ambas as partes; insatisfação recíproca na relação.

d) A opção existencial – Para Rogers, existe uma opção existencial permanente, segundo a
qual a comunicação será congruente com a consciência que se tem e o que se esta experienciando.
Nesta opção de cada momento em uma relação pode radicar a resposta à questão de saber se a
relação vai numa ou noutra das direções indicadas, nos termos da lei que formula a hipótese.

Capítulo 19

Para uma teoria da criatividade

Neste capítulo, o autor afirma que há uma necessidade social desesperada de um


comportamento criador por parte de indivíduos criativos. É essa necessidade que justifica a tentativa
de uma teoria da criatividade a natureza do ato criativo às condições em que este pode ocorrer e a
forma como ela’ pode ser construtivamente desenvolvido.

A necessidade social

A maior parte das críticas sérias feitas à nossa cultura e aos rumos que ela segue podem
resumir-se nos seguintes termos: Tornar-se pessoa.

Quais são as implicações para a vida?

R: Escassez de criatividade.

Ele demonstra a partir dos exemplos:

- Em educação, tendemos a formar indivíduos conformistas, estereotipados, cuja educação é


“completa”, em vez de pensa- dores livremente criativos e originais.
- No nosso lazer, as distrações passivas e organizadas coletivamente predominam
esmagadoramente sobre as atividades criadoras.
- Nas ciências, há abundância de técnicos, mas o número daqueles que podem realmente
formular hipóteses e teorias fecundas é, pelo contrário, reduzido.
- Na indústria, a criação está reservada a quantos — o diretor, o projetista, o chefe do
departamento de pesquisas —ao passo que, para a maior parte dos indivíduos, a vida fica
desprovida de qualquer esforço original ou criador.
- Na vida família e individual, depara-se nos mesmos quadros.
- Na roupa que vestimos, na comida que comemos, nos livros que lemos e nas ideias que
exprimimos, há uma forte tendência para o conformismo, para o estereotipado.

# Ser original, ser diferente, é considerado “perigoso”. (Rogers, 1997. p. 405).

O processo criativo

Segundo o autor, a definição do processo criativo é que se trata da emergência na ação de


um novo produto relacional que pro vêm da natureza única do indivíduo por um lado, e dos
materiais, acontecimentos, pessoas ou circunstâncias da sua vida, por outro.

Para ser historicamente considerado como representativo de criatividade, o produto deve ser
aceitável por um determinado grupo num dado momento. Este fato não nos ajuda na nossa
definição, porque tanto as valorações flutuantes já mencionadas, como muitos produtos, nunca
foram socialmente reconhecidos.

Como exemplos, ele cita Copérnico e Galileu.


A motivação para a criatividade

Descobriu-se que, quando o indivíduo está “aberto” a toda a sua experiência (afirmação que
será definida mais completamente), seu comportamento será criativo e pode ter-se confiança na sua
criatividade como essencialmente construtiva.

A diferenciação pode exprimir-se muito resumidamente da seguinte maneira: na medida em


que o indivíduo nega à sua consciência (ou recalca, se se preferir este termo) vastas áreas da sua
experiência, nesse caso as suas formações criativas podem ser patológicas, ou socialmente más, ou
ambas.

Na medida em que o indivíduo está aberto a todos os aspectos da sua experiência e


devidamente consciente das variadas sensações e percepções que se registram no interior do seu
organismo, então o produto novo da sua interação com o ambiente tenderá a ser construtivo, tanto
para si como para os outros.

Para dar um exemplo: um indivíduo com tendências paranoicas pode elaborar


criativamente uma das mais novas teorias sobre as relações entre ele próprio e o ambiente, e vê-la
como evidente em todo tipo de pequenos índices.

A capacidade para lidar com elementos e conceitos. Embora esta condição seja
provavelmente menos importante do que A ou B, parece ser uma condição da criatividade.
Associada com a abertura e com a ausência da rigidez descrita em A, essa capacidade pode definir-
se como a destreza em brincar espontaneamente com idéias, cores, fonnas, relações — obrigando os
elementos a justaposições impossíveis, formulando hipóteses inverossímeis, tomando problemático
o dado, exprimindo o ridículo, traduzindo uma forma noutra, transformando em improváveis
valências.

É a partir desse jogo espontâneo e dessa exploração que brota a centelha, a visão criativa da
vida, nova e significativa. É como se do vasto esbanjamento de milhares de possibilidades
brotassem uma ou duas formas de evolução com as qualidades que lhes conferem um valor mais
permanente, (Rogers, p. 406).

O ato criativo e as suas concomitantes

Embora não se possa alongar mais na descrição dos aspectos do ato criativo, existem
algumas concomitantes no indivíduo que podemos mencionar. A primeira poderia designar-se como
o sentimento de Eureca — “É isso mesmo!”, “Descobri!”, “Era isso que eu procurava exprimir!”.
Deve citar-se ainda a angústia de estar isolado.

Ainda uma outra experiência que acompanha normalmente a criatividade é o desejo de


comunicar. Tenho muitas dúvidas de que uma pessoa possa criar sem pretender manifestar a sua
criação.
Condições do desenvolvimento da criatividade construtiva

Rogers conta que em sua experiência em psicoterapia fez com que ele viesse a crer que nas
condições psicológica de segurança e de liberdade se facilita no mais elevado grau a emergência da
criatividade construtiva.

Essa segurança pode conseguir-se por meio de três processos associados:

1. Aceitação do indivíduo como um valor incondicional. Sempre que um professor, um pai,


um terapeuta ou qualquer outra pessoa com uma função de facilitar o crescimento sente
profundamente que o indivíduo é um valor específico e original, seja qual for a sua condição
presente ou o seu comportamento, está favorecendo a criatividade.

2. Estabelecer um clima em que a avaliação exterior esteja ausente. Quando deixamos de


formular juízos sobre outra pessoa, a partir do nosso próprio centro de avaliação, estamos
favorecendo a criatividade.

3. Uma compreensão empática. É essa compreensão que, associada às duas condições


anteriores, faculta plenamente a segurança psicológica. Se disser a um indivíduo que o “aceito” sem
saber nada dele, trata-se de uma aceitação vazia e ele compreende que posso mudar de opinião se
vier a conhecê-lo.

Liberdade psicológica

O indivíduo é livre para recear uma nova experiência, como é livre para desejá-la
ansiosamente; livre para suportar as consequências dos seus erros como dos seus esforços positivos.
E esse tipo de liberdade responsável, permitindo a um indivíduo ser ele mesmo, que favorece o
desenvolvimento de um centro seguro de avaliação no interior do indivíduo e que estabelece as
condições interiores da criatividade construtiva.