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EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO

DO JUIZADO ESPECIAL DA FAZENDA PÚBLICA DO FORO


REGIONAL DE COLOMBO DA COMARCA DA REGIÃO
METROPOLITANA DE CURITIBA – PARANÁ

FULANO DE TAL, brasileiro, solteiro, vendedor, portador do


RG n.º XXXXX, CPF n.º XXXXX , residente e domiciliado à R.
xxxxxxx, email: xxxxxx, por intermédio de sua advogada
xxxxxxxxxxxxxx, inscrita na OAB nº xxxxxxxx, com endereço
profissional na Rua xxxxxxxxxxxxxxxx, onde recebe
intimações, vem respeitosamente à presença de Vossa
Excelência apresentar
AÇÃO ANULATÓRIA DE CASSAÇÃO DE CNH COM PEDIDO
LIMINAR C/C DANOS MORAIS

em face de DETRAN – PR, pessoa jurídica de direito público,


com sede na Av. Victor Ferreira do Amaral, nº 2940, Capão da
Imbuia, CEP: 82800-900, Curitiba – PR, pelas razões de fato e
de direito a seguir aduzidos.
1) DOS FATOS
No dia 01/04/2016, foi expedido aviso de impossibilidade de
renovação da CNH do autor porque ele havia sido autuado por
conduta ilícita no trânsito de natureza gravíssima, com perda
de 7 pontos na carteira de habilitação e suspensão do direito de
dirigir, nos termos do art. 165 do Código de Trânsito Brasileiro ,
pelo período de 12 meses (doc. 05 anexo).
Portanto, ao receber o aviso, o autor entregou sua CNH no dia
18/04/2016 (doc. 06 anexo) e ficou de marcar o curso de
reciclagem, como define a legislação de trânsito.

No entanto, no dia de expedição do aviso da primeira infração


(01/04/2016), o autor foi pego novamente em blitz, onde foi
surpreendido com a segunda notificação de infração, desta vez
por estar conduzindo com o direito de dirigir suspenso,
punição esta que foi decorrente da primeira infração, da qual o
autor sequer tinha ciência.

Apenas em 15/10/2016, o autor recebeu o aviso da 2ª infração,


concedendo prazo para defesa (doc. 04 anexo).
No dia 17/11/2016, o autor protocolou defesa alegando
justamente que, ao ser pego pela segunda vez, nem sabia da
primeira suspensão, pois se soubesse não estaria dirigindo em
tal condição.

De fato, ele recebeu a primeira notificação dias depois da


segunda autuação. Era impossível saber da suspensão do
direito de dirigir antes de ter sido pego novamente em blitz.

A data de postagem da primeira notificação é de


01/04/2016.
A data da segunda infração por não saber da primeira
também é de 01/04/2016.
No dia 22/12/2016, o autor recebeu o indeferimento de sua
defesa prévia (doc. 09 anexo). Essa notificação não
apresentava nenhum tipo de explicação da recusa, motivo pelo
qual o autor não conseguiu reunir argumentos para recorrer,
dessa vez, à JARI.

Então, aceitou o indeferimento e não mais conduziu o veículo,


sendo instaurado então o processo de cassação da CNH (doc. 11
anexo), nos termos do art. 263, I, do CTB.
Ressalte-se que o autor é vendedor (doc. 13 anexo) e em sua
função precisa de carteira de habilitação para trabalhar. A
cassação da CNH lhe fez perder muitas vagas de emprego. No
momento ele está desempregado.

No esquema seguinte é possível observar as datas dos


acontecimentos:

2) DO DIREITO
2.1) Da natureza jurídica da reclamada e suas
responsabilidades
Segundo regimento interno do Departamento de Trânsito do
Paraná, sua natureza jurídica consiste em “órgão vinculado à
Casa Civil, com personalidade jurídica de direito público,
autonomia administrativa e financeira e patrimônio próprio,
com sede na cidade de Curitiba e jurisdição em todo o
território do estado”[1].
Dessa forma, nos moldes dos modelos doutrinários vigentes, a
reclamada se enquadra no conceito de autarquia, por se tratar
de pessoa jurídica de direito público de capacidade
exclusivamente administrativa – mesmo tendo patrimônio
próprio – e por possuir capacidade de estabelecer contratos
com terceiros, entre si e com o órgão ao qual é vinculada.

Segundo Celso Antônio Bandeira de Mello[2], “o controle das


autarquias (...) é o poder que assiste à Administração Central
de influir sobre elas com o propósito de conformá-las ao
cumprimento dos objetivos públicos em vista dos quais foram
criadas, harmonizando-as com a atuação administrativa global
do Estado”.
Dessa forma, as autarquias são pessoas jurídicas distintas do
Estado. Segundo Mello[3], “o ministro supervisor não é
autoridade de
alçada para conhecer de recurso contra seus atos, pois inexiste
relação hierárquica entre este e aquelas, mas apenas os
vínculos de controle legalmente previstos”.

Logo, as autarquias respondem por si próprias, tendo o Estado


responsabilidade apenas subsidiariamente. Ou seja, elas
respondem por seus atos até o limite que a lei lhe impuser,
irrompendo a partir daí a responsabilidade estatal.

Feitas essas ressalvas, destaque-se ainda que, pelo fato de seus


atos serem revestidos de presunção de legitimidade,
exigibilidade e executoriedade, temos que a autarquia também
exerce o poder de polícia.

Esse instituto administrativo do Estado consiste na limitação


da liberdade e da propriedade do cidadão, condicionando-o aos
interesses coletivos. Segundo Mello, o poder de polícia pode ser
credenciado a terceiro que esteja imbuído de legitimidade para
exercer o papel delegado da função do estado. Ou seja, a
supremacia do poder público, segundo o autor, torna as
medidas de polícia administrativa frequentemente
autoexecutórias[4]:
(...) pode a Administração Pública promover, por si mesma,
independentemente de remeter-se ao Poder Judiciário, a
conformação do comportamento do particular às injunções
dela emanadas, sem necessidade de um prévio juízo de
cognição e

ulterior juízo de execução processado perante as autoridades


judiciárias.

No entanto, todo esse poder público não poderia ser ilimitado.


Mesmo que o Estado tenha o dever de sancionar quando se
depara com uma infração administrativa - não estando essa
opção em seu âmbito discricionário - é necessário que se
observe o elemento “voluntariedade” que forma o conceito de
“infração administrativa”. Segundo Mello[5]:
Infração administrativa é o descumprimento voluntário de
uma norma administrativa para o qual se prevê sanção cuja
imposição é decidida por uma autoridade no exercício de
função administrativa.

Ou seja, no caso em tela, é necessário provar que o autor tinha


ciência que o seu direito de dirigir já estava suspenso para,
voluntariamente, desobedecer à ordem administrativa e,
querendo, incorrer na segunda conduta que acabou por cassar
sua licença para dirigir.

2.2) Dos princípios administrativos violados


Para que as infrações administrativas sejam validamente
instituídas, devem atender a determinados princípios
constitucionais básicos, a saber: princípio da legalidade,
princípio da anterioridade,

princípio da tipicidade, princípio da exigência de


voluntariedade, proporcionalidade, devido processo legal,
motivação.

No presente caso, mais precisa e evidentemente, foram


violados os seguintes princípios:
a) Legalidade: posto que o processo de cassação da CNH do
autor não obedeceu ao art. 5º, II, 37, caput, e 84, IV,
da Constituição Federal, porque a reclamada não observou os
princípios seguintes explícitos e implícitos nos referidos artigos
e em legislação complementar;
b) Exigência de voluntariedade para incursão na
infração: baseado na previsibilidade da consequência que o
cidadão deve ter ao efetuar um ato ilícito, justamente por conta
da segurança jurídica, esse princípio exige que a ciência da
infração seja prévia. Segundo Mello[6], “é muito discutido em
doutrina se basta a mera voluntariedade para configurar a
existência de um ilícito administrativo sancionável, ou se
haveria necessidade ao menos de culpa”. No caso em tela, nem
há que se falar em culpa. O autor não tinha ciência da
notificação da primeira infração, pois a mesma foi expedida no
mesmo dia em que foi pego em blitz pela segunda vez.
A voluntariedade não está presente na conduta do autor.
Portanto, fica carente o conceito de infração administrativa do
elemento principal que o constitui. Ressalte-se que o autor
nunca se mudou de endereço desde que tirou sua CNH,
tampouco deixou de atualizar seus dados no sistema da
reclamada. Tanto é verdade, que as demais notificações
chegaram até ele sem problema algum, conforme é possível
verificar no processo administrativo contra ele aberto (doc. 12
anexo).

c) Devido processo legal: segundo o art. 5º, LV,


da Constituição Federal, “aos litigantes, em processo judicial
ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o
contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela
inerentes”. Mello[7] explicita bem a situação em tela: “quanto
às multas de trânsito, ter-se-á de entender que a lavratura do
auto de infração por parte do agente de trânsito (...) é apenas
uma preliminar do lançamento da multa, o qual só se
estratifica depois de ofertada a possibilidade de ampla defesa e
se esta for desacolhida” . No presente caso, mesmo que a
reclamada tenha notificado e explicado que o autor tinha
direito a recorrer do indeferimento de sua defesa prévia, ocorre
que a decisão de indeferimento não tinha fundamento! Como o
autor iria recorrer à JARI sem a decisão motivada do
indeferimento? Ele iria se limitar a contar a mesma história ao
órgão de segunda instância, porque não tinha elementos para
inovar no recurso. Dessa forma, o direito à ampla defesa ficou
essencialmente prejudicado. Para um cidadão leigo, não foi, de
forma alguma, fornecidas todas as formas de defesa
administrativa.
d) Motivação: A Administração é obrigada a expor os
fundamentos em que está embasada para aplicar a sanção.
Segundo Mello[8], “a Administração não só tem que explicitar
o dispositivo normativo no qual se considera incurso o sujeito,
como também explicitar o comportamento imputado e cuja
ocorrência se subsome à figura infracional prevista na regra de
Direito”. Continua: “a omissão de qualquer destes requisitos
causa a nulidade do apenamento”.
Excelência, replico aqui, ipsis literis, como foi a notificação do
indeferimento, expedido pelo correio ao autor:
Como pode-se observar, claramente o indeferimento não está
fundamentado! A reclamada se limita a comunicar o
indeferimento e dar opção de recurso à JARI, comunicando o
prazo.
Repito: Como o autor iria recorrer à JARI sem a decisão
motivada do indeferimento? Ele iria se limitar a contar a
mesma história ao órgão de segunda instância, porque não
tinha elementos para inovar no recurso.

Não obstante, a presente procuradora foi ao balcão físico da


reclamada para obter a tal decisão e cópia do processo
administrativo, visto que não foi possível encontrar na internet
e a reclamada não informa por telefone (doc. 10 anexo).

Chegando lá, obtive a decisão “fundamentada” da seguinte


forma:

A reclamada limitou-se a repetir que todo o procedimento


obedeceu à resolução do Contran, não cabendo discussão dos
autos de infração nesse momento. Ora, se não for pra discutir
os autos de infração, vamos discutir o quê? Essa é a razão do
recurso de defesa prévia! Depois explica sobre endereço
atualizado, aspecto que em momento algum foi suscitado pelo
autor, pois, como já foi dito, ele nunca se mudou de residência,
permanecendo, portanto, seus dados atualizados no sistema.

Excelência, a reclamada já errou em não mandar para o autor a


decisão “fundamentada” juntamente com a notificação do
indeferimento (doc. 09 anexo). Errou mais ainda não
fundamentando de forma clara por que não aceitou a defesa
prévia (doc. 10 anexo). Sequer se dignou a explicar a situação
das datas de autuação nem sobre a ciência que o autor não
tinha da primeira infração. A reclamada ignorou o art. 13 da
própria resolução do Contran que ela citou, pois, segundo o
referido artigo, “Concluída a análise do processo
administrativo, a autoridade do órgão de registro da
habilitação proferirá decisão motivada e fundamentada”.
Ignorou também o art. 265 do Código de Trânsito Brasileiro :
“As penalidades de suspensão do direito de dirigir e de
cassação do documento de habilitação serão aplicadas por
decisão fundamentada da autoridade de trânsito competente,
em processo administrativo, assegurado ao infrator amplo
direito de defesa.” Por esse motivo é que reitero: violou o
princípio da motivação e da legalidade claramente, além dos
acima referidos.
A consequência da violação desses princípios trouxe ao autor
graves consequências! Sua habilitação para dirigir foi cassada.
E ele está no sétimo mês de cumprimento de uma pena que
não tem razão de ser.

2.3) Da garantia de acesso à justiça


Instituído como cláusula pétrea no art. 5º, inciso, XXXV,
da Constituição Federal, e no art. 8º da 1ª Convenção
Interamericana sobre Direitos Humanos de São José da Costa
Rica, da qual o Brasil é signatário, todo indivíduo tem direito a
recorrer ao Judiciário.
No caso em tela, houve uma série de ilegalidades no
procedimento administrativo instaurado que culminou na
cassação da habilitação do autor, trazendo prejuízos
incalculáveis à sua vida.
Dessa forma, recorre-se ao Judiciário para que o mesmo tenha
seus direitos resguardados.

2.4) Da imediata devolução da CNH ao autor


O autor cumpriu a punição da primeira infração, a saber: ficar
sem dirigir por 12 meses, a contar da entrega da carteira que
ocorreu em 18/04/2016 (doc. 06 anexo). O fim do prazo foi em
13/04/2017, conforme doc. 06 anexo.

De acordo com o art. 261 § 2º do CTB, o autor teria ainda que


realizar curso de reciclagem. Contudo, com a prorrogação do
período de suspensão, por conta do processo de cassação, o
autor adiou o curso de reciclagem para fazer no fim do prazo
total de suspensão.
No entanto, como vimos, o processo de cassação está eivado de
evidentes ilegalidades, devendo ser anulado de imediato.

Sendo assim, como o autor já cumpriu a suspensão referente à


primeira infração e tendo pendente apenas a realização do
curso de reciclagem, obrigatoriamente o Juízo teria que exigir
que a reclamada restitua a habilitação ao autor mediante
comprovante de realização do curso de reciclagem, que é a
medida administrativa pendente da primeira infração.

3) DOS DANOS MORAIS


O autor é vendedor e precisa de sua carteira de habilitação para
trabalhar (doc. 13 anexo). Inclusive, por conta dessa situação,
encontra-se desempregado e não pode aceitar as vagas por
conta da suspensão da carteira.

Por conta da instauração do processo de cassação da


habilitação, o autor ficou 7 meses além do prazo devido exigido
pela primeira infração.

Em consonância, portanto, com todo o exposto aqui, pretende


o Autor a reparação dos danos morais suportados, de modo
que seja compensado pelos prejuízos que lhe foram e estão
sendo causados.
Nesse interim, o Des. Pinheiro Lago, na ocasião do julgamento
da Apelação Cível n. 90.681/8, no TJMG, ensinou:

não se pode perder de vista que o ressarcimento por dano


moral não objetiva somente compensar à pessoa ofendida o
sofrimento que experimentou pelo comportamento do outro,
mas também, sobre outra ótica, punir o infrator, através da
imposição de sanção de natureza econômica, em beneficio da
vítima, pela ofensa á ordem jurídica alheia.

Consoante ao mesmo mestre, segundo Sérgio Cavalhieri Filho:

o dano moral não mais se restringe à dor, tristeza e sofrimento,


estendendo a sua tutela a todos os bens personalíssimos –os
complexos de ordem ética

razão pela qual revela-se mais apropriado chamá-lo de dano


imaterial ou não patrimonial (...). Em razão dessa natureza
imaterial, o dano moral é insusceptível de avaliação pecuniária,
podendo apenas ser compensado com a obrigação pecuniária
imposta ao causador do dano, sendo esta mais uma satisfação
do que uma indenização. (In: Programa de Responsabilidade
Civil, São Paulo: Atlas, 2007, 7 ed).

Desse modo, requer seja deferido o pleito do autor a título de


reparação de dano moral em valor a ser arbitrado por este
juízo, e que desde já sugere o montante de 60 salários
mínimos, conforme permite o art. 2º da Lei 12.153/09,
levando-se em conta o dano moral suportado pelo autor
acrescido de adequado desestímulo ao lesante.
4) DOS PEDIDOS
Diante de todo o exposto, requer:

a) seja acolhido o PEDIDO LIMINAR de devolução da CNH


mediante o comprovante de realização do curso de reciclagem
referente à primeira infração;
b) seja anulado o processo de cassação da CNH pelos motivos
aqui expostos, assim como as referentes multas e outras
penalidades relacionadas a esse processo administrativo;

c) seja deferido o pedido de indenização por danos morais no


valor de 60 salários mínimos, conforme art. 2º da
Lei 12.153/09;
d) a condenação da ré ao pagamento das custas processuais e
honorários advocatícios na razão de 15% do valor da causa;

e) a admissão de todos os meios de provas admitidos pelo


ordenamento jurídico pátrio e em especial pela prova
documental e testemunhal.

Dá-se à causa o valor de R$ 56.220,00 (cinquenta e seis mil,


duzentos e vinte reais)

Termos em que pede deferimento.

[1]Disponível em:
<http://www.detran.pr.gov.br/modules/catasg/servicos-
detalhes.php?tema=detran&id=126> . Acesso em: 30/11/2017.
[2] MELLO, Celso Antonio Bandeira de. Curso de Direito
Administrativo. Ed. 31. Malheiros Editores: São Paulo, 2014.
p.166.
[3] Op. Cit. p.167.
[4] Op. cit. p.859.
[5] Op. cit. p. 865.
[6] Op. cit.p. 874.
[7] Op. cit.p. 876.
[8] Op. cit.p. 877.