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978, Hilton Japiassu

Capa: Ana Maria de Silva Araújo

Impresso no Brasil
Printed in Brazil

1a
ethço:Fevereirode 1978

Ficha Catalográfica
Preparada pelo Centro de Catalogaçâo-na-fonte do
SINDICATO NACIONAL DOS EDiTORES DE LIVROS, RJ)

Japiassu, Hilton.
J 39n Nascimento e morte das cléncias humanas. Rio de Janeiro,
F. Alves, 2 edição, 1982.

1. Ciência - Metodologia 2. Teoria do Conhecixnento


I. Título

CDD - 001.4
120
CDU - 001.8
165

78-0008

1982

Todos os direitos desta ediço reservados à


LIVRARIA FRANCISCO ALVES EDITORA S.A.
Rua Sete de Setembro, 77 - Centro
i

20050 - Rio de Janeiro, lU

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CAPITULO I

Como Nasceu a Ciência Moderna?

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Entendemos por "ciência moderna" a ciência que surgiu
no século XVII corn a Revo1uço Gailleana. Nao nasceu per-
feita e completa das cabeças de Galiteu e de Descartes. Pelo
Contrário, foi preparada por um longo esforço de pensarnento.
Teve que lutar contra inúrneros obstáculos. Resistências de todos
os tipos se opuseram à instauraço dos novos conceitos e dos
novos métodos de pensamento. A ciência moderna nasceu cone
ira a ciência anterior, contra os conceitos e as formas de pen-
sarnento oficialmente em 'igor. Pode-se dizer que nasceu con-
tra tudo e contra todos. Ou apesar de tudo e de todos. Multo
embnra só lenta ç.proressivarnente forj4 instru-

tôflCOS rnetodológjcos deanálise darealidade do


mundo.O quenãosefez por geracäo gênese dos
espontâneaL

grandes principios da ciência moderna processou-se no interior


de urna concepçäo, acreditando na unidade do pensamento hu-
mano, especialmente em suas formas mais elaboradas: pensa-
mento filosófico, pensamento religioso e pensamento científico.
Por isso, näc ternos o direito de desvincular a evoluço do pen-
samento científico da evoluçâo das idéias extra ou transcientífi-
cas. A história do pensarnento científico, tal como é elaborada
por Koyré, mostra-nos claramente:

- que o pensamÇntQintíCo, amaissparou.por


conipletodo pensamento filosófico;,

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- que as grandes revoluçöes científicas sempre foram
determinadas, ou pelo menos condicionadas, por
consiste em ter destruIdo essa síntese. A credulidade ineio cega
e a crença irracional na magia são conseqüências dessa demoli-

- mutaçöes de concepçöes filosóficas;


que o pensamento científico nao se desenvolve num
vazio cultural, mas no interior de um quadro de
çäo. Após destruir a física, a metafísica e a ontologia aristotéli-
cas, a Rcnascença se viu inteiramente privada de urna física e
de urna metafísica. Perdeu por completo todo e qualquer refe-
pensamento, de um contexto de idéias, de pnud- rencialpropriarnentecognitiyo.Fiçou e.niregue.aossontilégios sie
pios fundamentais e de evidências axiomáticas per- S"? doxas ou oiniiíesnuma péçi sia aziû jnteJactua1,.pai-
tendentes a um dominio de ordern extracieñtífica. rando acima da tçn:a fie çio saber racionaL A. conseqüância é
que ficou_numa total impossibilidade de poder dcdialgo é
o que podemos nos perguntar é por que a clência moderna iiThäo possít Foijor ¡sso que o pensamento dessa época se
nasceu apenas no século XVII, na Europa, e nao no Oriente. viu inteiramente dominado pela credulidade. sem limites. O que
A questäo parece apaixonante. No fundo, o que se tenta corn- se explica pelo fato de o homem ser um animal crédulo por na-
preender é a complexidade da revolução cientuuicai Numerosas tureza. Era perfeitamente normal que se desse crédito irrestnito
e divergentes são as explicaçoes propostas. O que é devido, pe'o ao testemunho das pessoas honestas e respeitáveis. Ora, do pon-
menos em parte, às lacunas no que diz respeito às informaçöes to de vista do testemunho, nada havia de mais estabelecido, oes-
históricas. No entanto, os conflitos entre os historiadores das se momento histórico, que a existência dos demônios e dos fei-
ciências possuem urna causa mais profunda: seu desacordo ticeiros. Criou-se, assim, o que pode ser chamado de urna ver-
quanto ao conceito de "ciência". Os debates em torno dessa dadeira oniologia mágica, cuja característica fundamental con-
noção nao podem ser reduzidos a aspectos meramente técnicos. siste na naturaliaaçäo mágica do maraviihoso. E essa ontologia
Dizeni respeito diretamente à imagem que nos fazemos da ati- que funda dsaenuIeada_Iwa.pildere& siemoníacos. A
vidade cithitlfica e de seu lugar real no contexto sócio-cultural mentalidade renascentista pode ser resumida numa frase: a cre-
em que cia se insere. Nao podemos nos esquecer de que, atra- dulidade iio "tudo é possível" (Koyré). Mas trata-se de urna
vés das controvérsias sobre a civilizaçäo, na Renascença, foram credulidade possuindo sua contrapartida: a curiosidade sem li-
as idélas vigentes sobre a cultura, sobre o saber, sobre o tra- mites, a acuidade de visäo e o espirito de aventura do homem
baiho e sobre a vida que passaram pelo crivo do questionamen- renascentista enriquecem prodigiosamente o conhecimento dos
to generalizado. E isto, muito embora saibamos que a inspira- fatos e alimentam o gosto pela riqueza do mundo. Donde o
cao fundamental da Renascença nao foi científica. Pelo contrá- ¡menso interesse, nessa época, por se conhecer as "maravilhas
rio, como bem mostrou Koyré (Etudes d'histoire de la pensée da natureza", o que deu origem às viagens e aos descobnimentos.
rcienti/ique, 1973), o ideal da civilizaçäo da Renascença das Todavia, o nascimento da ciência moderna processou-se à
letras e das artes foi eminentemente retórico. E o grande artista margem do espIrito renascentista. O que nao a ¡mpediu, corn a
quem meihor encarna esse período. Seu traço característico con- demoliçäo da síntese aristotélica, de constituir a base sólida e
siste em sua enorme erudiçao. Trta-se de urna época paupérni- necessária para a instauraçäo do espIrito científico. Nessa sIn-
meJD_spídtocn1icQ mpregnaJa de sds os tipus dci. su- tese, o mundo formava um Cosmos físico bem ordenado. Nele,
perstiçöes grosaeiras. Q hnmemrnaacantis*a. viveafundada ein tudo encontrava seu lugar. A Terra ocupava o centro do Uni-
suas crenças naiiagiaeiias 1itiçanias. Estas prolifezam multo verso. O mundo era urna realidade dada aos sentidos. O bomem
1i1_î nessa época do que na Idade Média A astrolugia 6 nui- nao dominava a natureza. Tratava-se apenas de um mundo de
to mais importante que a astronomia. Nao é, pois, de se estra- qualidade e de percepçöes sensíveis, no quai se vive, se morre
nhar que as obras mais lidas sejam justamente as de demûno- C se ama. Sem destruir essa concepção do mundo, a astronomia
logia e as de magia. heliocêntrica nao poderia desenvolver-se. Do ponto de vista
.
Dos pontos de vista filosófico e científico, o grande InI- científico, Kepler pode ser considerado o melhor representante
migo da Renascença é a smnte.ce aristottliça. Seu grande mérito do espIrito renascentista, muito embora, de um ponto de vista

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eronológico, seja posterior a esse período. A idéia kepleriana mem no mundo, a relação que ele mantém corn o mundo, con-
de que o Universo, em todas as suas partes, continua regido sigo mesmo e corn Deus. Responsável por.esa. muJaçäoc con-
pelas mesmas leis, de que a velocidade dos movimentos dos diçao humana, Galileu leve que pagar um preço e'evado por
planetas nao é uniforme, ainda se encontra muito presa à con- sua ousadia em desafiar a prepotência do saber oficial, escudada
cepçao aristotélica. Por exemplo, considera que o repouso nao na força da Tradiçäo e na "violência" das Autoridades. Assim
tern necessidade de ser explicado. O movimento, pelo contrário, como Sócrates foi condenado por corromper, a juventude de seu.
tern necessidade de urna explicaçäo e de urna força que sobre tempo, Galileu tena que. ser. condenapis nUIItÌIJIIaiLIQ
ele atue. Eis por que Kepler nao teve condiçoes de conceber a queele serneou o "terrorismo intclectual"e a "corrupço da in-
lei da inércia. Ein sua mecânica, como na de Aristóteles, as tçIinciai' J'rometeu jÁhia sido condenacip p.o ousado
forças motrizes produzem velocidades, e nao aceleraçôes: a per- roubar rogo d'inq. jntandj ronhar o
sistência de urn movimento implica a ação. contInua de um fQgo c.la sabedoria, divirut sobre o mupdp? Os_guadiäes--p+en-
motor. tçLa4ps dessa sabedoria qäp sssa uhrerso.
Foi Galileu quem introduziu urn corte epistemológico na Scm o seu "mundo' ', ficariam completamente perdidos.
história do pensamento ocidental. Foi ele quem rompeu corn Portanto, foi Galileu, e nao Copérnico, quem inaugurou a
todo o sistema de representação do mundo mitigo e do mundo revoluçao científica moderna. A chamada "revoluçao copérni-
medieval. Corn ele, o pensamento rompeu corn a Renascença. ca" foi criada por Kant no prefácio à segunda ediçäo da Crí-
Ele é o antirnágico por excelência. De forma alguma se mostra tica da razão pura (1787) para designar a inversao de pers-
interessado pela variedade das coisas. Aquila que o fascina é a pectiva introduzida, na concepção da astronomia, pelo De re-
idéia da física matemática, da redução do real ao geométrico. volutionibus orbiurn coelesijuin ( 543 ) "Vendo que nao podia
1 :

o primeiro espIrito verdadeiramente moderno. Encarna, nos ou conseguia explicar os movimentos do céu, admitindo que
últimos anos do século XVI e nas primeiras décadas do XV!!, todo o exército das estrelas evoluía em torno do espectador,
a concepçao mecanicista do saber que, vencendo pouco a pou- Copérnico procurou saber se nao tena mais éxito fazendo o
co os obstáculos aparentemente insuperáveis, definirá, dora- próprio observador girar em torno dos astros imóveis". Eviden-
vante, o ideal científico e o código de procedimento de todo e temente, a Terra deixou de ser o centro do mundo físico. Mas
qualquer conhecimento corn pretensòes ao rigor. Continuou sendo o centro do mundo metafísico. Donde se po-
Ao destruir definitivamente a imagern mítica do Cosmos, der duvidar que Copérnico tenha sido o iniciador da revoluçäo
Galileu tern em vista substituí-la pelo esquema de um universo astronômica. Ademais, suas teses nAo constituíarn nenhuma sub-
unitário, submetido à disciplina rigorosa da física matemática, versäo para as consciências. Nao erarn perigosas. Alncjuisiçiío
chamada a axiomatizar cada vez mais todos os setores do co- piafiçamuiite asigrioiou. Só 'sio a condenaro heliocentrismo
nhecimento. Ele geometriza o universo, quer dizer, identifica o ejnl6l6, qiase oitenta anos dep9i da. morta de. Copérnico.
espaço físico ao da geometria euclidiana. Elabora, assim, um Masa presteza corn ftUesesde Jilr_ atesta
novo conceito de movimento, que se encontra na base da me- cwaioi .ele uem. introduziu realmente p subversäo. .&on1isà
cânica clássica. O movimento passa a ser urna entidade ou um .cândalo rias consciências. As teses do De revolutionibus
estado tao estável quanto o estado de repouso. Para realizar-se, propöern urn esquema explicativo seguindo a mesma linha de
nao tern necessidade de nenhuma força constante agindo sobre pensamento de Ptolomeu. Nao propbern urna teoria fundada
o móvel. Inaugura-se um novo tipo de inteligibilidade, desta vez na conjunçäo da observaçao e das matemáticas. Para justificar
mecanicista. Essa inteligibilidade modifica radicalmente, nao sua visao do mundo, Copérnico toma de empréstimo à tradiçbo
somente esta ou aquela maneira de ver, mas impöe um novo antiga vários elementos, especialmente de Aristarco de Samos.
pensamento do pensarnento. O que muda, nao é o sistema do Essa visbo pressupbe todo um pano de fundo irracional e nils-
mundo, que permanece o mesmo, mas o mundo enquanto sirte- tico, incompatível corn a mentalidade científica emergente. Tra-
ma. Alteram-se igualmente, em profundidade, o lugar do ho- ta-se de urna visäo envolta numa espécie de véu místico. No

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das coisas, segundo procedimentos que os sábios podiam dcci-
dizer de Koyré, "só as vethas tradiçäes, a tradição profunda
frar realizar graças a urna hábil conjunçâo de influências anta-
da metafísica da luz, das reminiscências platónicas e neoplatôni-
gônicas. O saber unitário da astrologia propöe urna smntese coe-
cas (o sol visive! representa o sol invisível ) podem explicar a
emoção, o lirismo que se apoderam de Copérpico quando ele rente do conhecirnento e da açäo. Deduz os destinos dos ho-
mens a partir das constelaçòes e oposiçöes que presidem, de
fala do Sol. Ele o adora e quase o diviniza". Por isso, seu he-
cima, aos acontecirnentos terrenos. Trata-se de urn saber que
liocentrismo nada mais é que a conseqüência de sua heliolatria.
fornece remédios para as predestinaçöes desfavoráveis, mobili-
Assim, as provas alegadas por Copérnico nada provam. Por
zando as energias compensadoras. Esse saber unitário encontra
conseguinte, nao inaugura urna astronomia científica. Sua as-
seus principios nos ritmos das revoluçòes astrais. A astrobiolo-
tronomia 6 muito mais urna espécie de estética geométrica e
metafísica. A conclusão de Koyré é que "Copérnico nAo â gia vinha apresentar à morada dos homens urn esquema de
grande segurança, proporcionando a todos urn enorme confor-
copernicano". to espiritual. Os homens se encontravam sob o abrigo protetor
o primeiro sábio moderno, o fundador da ciência inoder- da cumeeira celeste, de onde se exercia a providência astral.
na, foi incontestaveirnente Galileu. Neste ponto, a InquisiçAo o nue veio fazer Galileu? Sua ciência veio destruir o es-
nao se enganou : condenou o homem certo. E a convicçáo pro- quema de um Cosmos organizado hierarquicamente no interior
funda desse homem é a de que as formas matemáticas estAo de um espaço fechado e impregnado de ressonâncias mItico-
realizadas no mundo. Para ele, a natureza só pode ser conhe- religiosas. O Universo, doravante, precisa ser compreendido sob
cida através da experiência, vale dizer, mediante questöes que a forma de urn contInuo físico de extensäo indefinida, no inte-
¡he são colocadas. Essas questöes possuem urna linguagem toda nor do qual os fatos físicos se condicionam reciprocamente em
especial: a linguagem geométrica e matemática. NAo basta mais virtude de necessidades materiais e matematicamente calculá-
observar a natureza. O que importa, doravante, é saber colocar veis. São banidas do campo epistemológico as simpatias e anti-
as queatöes e, sobretudo, saber decifrar e comprcender as res- patias, as afinidades e analogías sobre as quais se fundava a
postas. Em outros termos, o importante é que se aplique à operaçào do mágico. O campo episternológico deve subordinar-
experiência as leis da medida e da interpretaçäo matemática. se única e exclusivamente às disciplinas da Razão. Só pode
Todavia, os instrumentos metodológicos de Galilcu no passam fazer autoridade urna inteligibilidade restritiva. Só cia pode sa-
de encarnaçòes de teorias. Assirn, o telescópio só é construido tisfazer ao entendimento humano. E dà é inteiramente despro-
a partir de urna teoria ótica, corn determinado objetivo cien- vida de eficácia consoladora para os indivIduos preocupados
tífico: revelar-nos as coisas que se nos apresentam invisfveis
corn seus problemas de ordern pessoal, sobretodo corn o pro-
a olho nu. Ternos al urna teoria encarnada que ultrapassa os
blema de seu destino. A oposiçäo homem/Deus é substituIda
limites do simples observável. Entre o mundo dado dos sen- pela oposição homem/mundo. Melhor ainda: pela oposição Su-
tidos e o mundo real, que é o mundo da ciência ou da geome- jeito/Objeto. No dizer de Koyré, a revolução galileana é ca-
tria realizada, instaura-se o que hoje chamamos de corte epis- racterizada por dois traços complementares: 1. a destruiçäo do
temológico, cuja função principal consiste em decretar o Jim Cosmos e, por conseguinte, o desaparecimento, na ciência, de
do Cosmos. O que isso significa? todas as consideraçôes fundadas sobre tal conceito; 2. a geo-
Corno sabemos, a física dos Antigos, codificada por Ads- melrizaçao do espaço: o conjunto contInuo, concreto e dife-
tóteles, submetia o baixo mundo sublunar ao determinismo fi- renciado dos "lugares" da física e da astronomia antigas é subs-
sico e ontológico da esfera celeste. As verdades e os valores tituido por um espaço-dimensäo, homogêneo e abstrato.
desciam do céu sobre a terra. O esquema inteligível do Cos- Assim, a destruiçao do Cosmos significa que o mundo da
mos propunha urna ordenação totalitária de todas as coisas aqui ciência nao pode mais ser concebido como um todo finito e
de baixo ao poder soberano e transcendente dos astros-deuses. hierarquicamente ordenado. Portanto, nao é mais um mundo
Eis o princIpio de ordern do universo: tudo deveria estar sub-
qualitativo e ontologicamente diferenciado. Passa a ser conce-
metido aos astros-deuses, que comandavam o devir dos seres e
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bido como um Universo aberto, indefinido e unificado. Unif i- destról o mundo natural enquanto meio simbólico de referencia
cado nAo por sua estrutura imanente, mas pela identidade de para a existência do homem. Afirma um uovo regime de ver-
suas leis e de seus elementos fundamentais. A geometrizaço dade asseptizado de valores humanos, mas sem propor novos
do espaço implica em sua infinitização. A demoliçäo do Cos- valores. O universo se resume num conjunto de objetos, de que
ff05 pode ser considerada como a "ruptura do círculo", ou todas as significaçóes qualitativas foram centralizadas para me-
como o "estouro da esfera". Ficam excluIdas do pensamento ihor adaptarem-se às exigências da inteligibilidade físico-mate-
científico todas as consideraçöes invocando o valor, a perfeiçAo, mática. A verdade do mundo é indiferente à verdade do ho-
o sentido e o fim. Tais conceitos, doravante tachados de subje- mcm. O universo inteligível da ciência é regido por normas
tivos, nao se encaixam na nova ontologia. Em outras palavras, rigorosas e impassíveis. A natureza sensível é substituIda por
desaparecem as causas formais e finais como modo de explica- urna natureza idealizada, axiomatizada segundo a ordern gea-
ção ou de conhecimento. Perinaneceni apenas as causas ma- métrica. Talvez pensando nisso é que Pascal tenha dividido os
tenais e eficientes. homens em duas categorias: os que possuem um esprit de fi-
A revoluçäo galileana introduziu uma rachadura no mun- nesse e os que possuem um esprit géométrique. O mundo real
do. Dividiu o mundo em dois. Dois mundos e duas verdades. dado à nossa percepçao, mundo da vida quotidiana, foi substi-
Diante disso, Pascal, muito amigo de Galileu, cristäo e físico, toldo por um universo de seres de razäo.
exclama: "O silêncio eterno desses espaçps jnfinit me ater-
roriza". Segundo Gusdorf, o galileano Pascal lança esse grito
de alarme ao tomar consciência daquilo que será doravante a
situaçäo do homem sob um céu onde nao mais se faz ouvir Nao devemos nos esquecer, no entanto, de outro traço
nem a harmonia das esferas nem tampouco as cantatas dos inarcante do pensamento de Galileu. Ele foi o primeiro cien-
anjos. Tais espaços constituern urnvazio para o coração. O tista que conseguiu realizar a junçäo da teoria e da prática. O
domíniofísico fica desligado da ordern metafísica. A ordern que nao quer dizer que Galileu tenha realizado experiências.
das coisas é organizada num feixe autônomo de relaçôes, de Para ele, urna experiência urna questäo que se coloca à na-
que a ciência newtoniana decifrará a perfeita coerência mate- tureza e que deve ser formulada numa linguagern adequada.
mática. Só a ordern das coisas sai intacta dessa peripécia. O Ele parte do princípio de que a necessidade determina o ser.
mesmo nao ocorre corn a morada dos homens. A situaçäo do Em outras palavras, a ciencia (a física) se elabora a priori.
homem se vê despojada de suas grandes significaçoes. Fica Nela, a teoria precede o fato. A experiência se revela inútil,
reduzida ao estada ksoLadorde_um lsr*o deïalores. Todas porque, antes dela, já estamos de posse do conhecimento que
as evidêncjas do domInio humano, bern como a espiritualidade procuramos. A originalidade de Galileu consistiu em descobrir
religiosae a vidaquotidiana, passain pelo crivo de urn questio- tIUC as matemáticas constituern a gramática
da ciência física.
namcnia.feroz. A mutaçäo da imagem_do mundo implica urna l foi essa descoberta da estrutura racional da natureza que
revis.ào- dilaceranle. de todas as crteas estabçlecidas e urna possibilitou a criaçäo da base a priori da ciência experimental
dennciadetodas asatitudes sacramentadas pela tradiçáo. Ao moderna e que tornou possível sua constituiço. A ciência nao
ser questionado o equilibrio milenar do Universo, o que impera bC baseia diretamente sob a experiência e a percepçao sen-
é a confusão geral. De um lado, situa-se a imagern tradicional afvel. Pelo contrário, baseia-se nas matemáticas enquanto são
do Universo, garantida por Deus, cuja Palavra encontra-se con- portadoras de urna espécie de valor supremo, ocupando urna
signada na Biblia, e por Aristóteles, que se eosina nas univer- posição-chave no estudo das realidades naturais. Neste senti-
sidades; do outro, situa-se um esquema abstrato, contrário aos Jo, a ciência e a filosofia de Galileu recuperam certa forma de
bons costumes intelectuais, que reduz o mundo a urna espécie platonismo. Porque o cientista é alguém ativo que toma posse
de mundo geomótrico, sern nenhuma relaçäo corn a presença
do espaça. alguém que .redescobre a linguagem falada pela
humana nem corn a história da salvação. A ciência mecanicista
Natureza.
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Portanto, apesar de seu platonismo, Galileu formulou urna questâo que duas orientaçòes opostas entram em jogo: há urna
concepçäo da ciência em que se encontram profundamente vin- corrente externalista e outra internalista. No dizer de G. Can-
culadas a ciência entendida como teoria e a ciência enquanto puilhern (Etudes d'histoire et de philosophie des sciences, 1970)
se revela urna prática social. Semeihante vinculaçäo é suma- o externalismo deve ser concebido como um modo de se con-
mente importante para se compreender o que hoje se passa no ceber e de escrever a história das ciências condicionando os
dominio das relaçöes da teoria e da prática, da chamada "ciên- chamados "acontecimentos científicos" às suas relaçóes corn os
cia pura" (teórica, básica ou fundamental) e da chamada "ciência interesses sociais, ideológicos, filosóficos e econôrnicos, vale di-
aplicada". Evidentemente, nem todos a aceitam. Muitos histo- zer, corn as exigências e as práticas técnicas, corn as ideologias
riadores das ciências defendem a tese segundo a quai a ciên- religiosas, políticas e culturais. Trata-se, no fundo, de um "mar-
cia sempre foi, desde seu nascimento, e continua sendo até nos- xismo enfraquecido" ou empobrecido. Quanto ao internalismo,
sos dias, urna construçäo eminentemente intelectual, vale dizer, quase sempre acusado de idealismo pela primeira corrente, con-
urna elaboraçäo pura, fundamental, teórica ou desinteressada, siste em conceber e escrever a história das ciências a partir de
tendo por objetivo precIpuo e exclusivo a busca do conheci- urn ponto de vista interior à própria obra científica, e sem ex-
mento, a procura da verdade das coisas, a explicaçáo dos e- trapolar as fronteiras do saber científico, salvaguardadas por
nômenos e a descoberta de suas verdades: conhecer por co- protocolos metodológicos de estrita segurança objetiva. O que
nhecer. Sendo assim, dá-se urna ênfase toda especial à especi- so deve analisar são as démarches internas da ciência, median-
ficidade da atividade científica, aos procedimentos lógicos uti- le as quais ela procura satisfazer suas normas específicas, se é
lizados pelo "método" e à elaboraçao progressiva do "conteú- que pretende definir-se realmente como ciência, e nao como
do" das ciências. O que se pretende buscar, é resolver o pro- iinples técnica ou mera ideologia.
blema do conhecimento enquanto tal, numa espécie de supra- o que se pode notar é que, em ambas as posiçôes, veri-
temporalidade e de a-historicidade radicais. Nessa perspectiva, fice-se facilmente urna forte tendência a assimilar o objeto da
estudar a gênese, a formaçäo, o desenvoivimento e a estrutura- história das ciências ao objeto de urna ciência, O externalista
çao das ciências consiste simplesmente em elaborar urna his- '6 a história das ciôncias como a explicaçäo de um fenôrneno
lória das idéias e dos conceitos que tornaram possivel a edo- de cultura pelo condicionamento do meio sócio-histórico gb-
são das diversas teorías científicas atualmente em vigor. Certas bal. Neste sentido, ela é assimilada a urna sociologia naturalista
influências vindas do exterior podem ser levadas em conta, de instituiçôes, ficando completamente relegada a segundo pIa-
especialmente as filosóficas. No entanto, na prática, pensa-se no a interpretaçäo de um discurso corn pretensôes à verdade.
a ciência como se ela fosse um dominio autônomo de conheci- o internalista, por sua vez, encara os fatos da históría das
mento que se constrói na obediência estrita e meticulosa ès ci6ncias como fenómenos dos quais nao se pode elaborar a
exigências e às regras de seu desenvolvimento interno ou de liistória sem urna teoria. Assirn, o fato da história das ciôncias
sua dinâmica imanente. A ciência se autodeterminaria e se auto- passa a ser tratado como um fato de ciência, segundo urna
finalizaria. Suas relaçöes corn o mundo da açäo ficam relegadas posiclo episternobógica que privilegia a teoria sobre os dados
ao domInio do acessório. Ao especializar-se, o historiador cava empiricos.
um fosso entre esse tipo de história das ciências e as demais Os historiadores externalistas julgarn o ponto de vista in-
"histórias": das técnicas, das artes, da divisäo do trabalho etc. tcrnalista por demais estreito, e insistem nos vínculos necessá-
E esse modo de encarar a historicidade da ciência que podemos noi que unem os diversos setores da atividade humana. Nao
chamar de internalista, por oposiçäo ao modo propriamente Ignuram que a clência possa definir-se como urna busca do
exiernalista. O que isso significa? couhecìmento ou da verdade das coisas. Mas nao acreditam que
o problema consiste em saber como se faz a história das esta procura do conhecer pelo conhecer seja suficiente para de-
cléncias. Essa questäo se vincula profundamente a urna outra: terminar os critérios de cientificidade de urn saber. Porque a
de que se faz a história das ciências? E para solucionar essa ciencia é urna realidade histórica. Eba nasce, cresce, desenvol-

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ve-se e estrutura-se no interior da temporalidade, em condiçöes existir um discurso sobre a ciência em geral. Um discurso so-
bastante variadas e variáveis que nao devem ser esquecidas, bre a ciência que nao leve em conta a pluralidade e a dispa-
mas artalisadas de perto, em cada momento histórico, para que ridade específica das práticas científicas deve ser considerado
possamos compreender corn exatidão em que sentido ela é real- (C)fl um discurso epistemológico idealista. São três as carac-
mente um esforço para atingir o conhecimento. Esses historia- teristicas básicas da filosofia idealista do conhecirnento:
dores, sem negar o caráter internalista das ciências, são cha-
mados de externalistas justamente porque são muito mais sensi- a. Há urna verdade a-histórica que se encontra dada,
veis a todas as formas que as ciências revestem nas diversas civi- de antemão, na ordern da "realidade". A função
lizaçöes e culturas, e porque estão primordialmente preocupados do cientista é extraí-la, sem ter necessidade de cons-
corn a análise da inserçäo do "saber" em seus diversos con- truí-la ou de produzi-la.
textos sócio-culturais, quer dizer, em seu enraizamento espácio- b. O sujeito cognoscente e o objeto de conhecimento
temporal e em suas condiçöes reais de produçäo. Por exemplo, constituem os elementos últimos do conhecimen-
os ocidentais admitem corn certa tranqüilidade, de modo impli- to científico.
cito ou explícito, que sua ciência é superior a todas as demais C. A investigaçáo científica consiste no estabelecimen-
formas de saber ou de conhecimento. E é por isso que falam to de urna adequaçäo entre o sujeito e o objeto de
corn toda desenvoltura de a ciência para designar esse tipo de conhecimento. E essa adequaçäo que define a ver-
conhecirnento moderno que nasceu cam a revoluçäo de Galileu dade. Esquematicamente, a fórmula seria a seguin-
no século XVII. te: (sujeito) = (Objeto) = Verdade. Contudo,
Ora, falar de a ciência em geral, como de urna entidade essa fórmula possui ainda duas variantes que su-
que poderia ser tomada por objeto, nao é faxer uso de um bordinam, quando nao eliminam, um ao outro, os
conceito científico (unidade de significaçao de um discurso cien-
tífico) nem tampouco de urna categoria epistemológica (uni-
dade de significaçäo num discurso epistemológico), mas de urna
--
termos da equação (Sujeito) = (Objeto):
variante i (
: ) = (Objeto) = Verdade
variante 2: (Sujeito) = ( ) Verdade
noçao ideológica (unidade de significaçâo num discurso ideo- A variante i é conhecida pelo nome de empirismo;
lógico) ou de urna noçäo filosófica idealista. E supor que pos- a 2, pelo nome de formalismo.
Samos tratar o conjunto das práticas científicas (conjunto corn-
plexo de processos determinados de produçäo de conhecimen- Tanto o empirismo quanto o formalismo se opöern e cons-
tos, unificados por um domInio conceitual comum, organizados tituem obstáculos epistemológicos (todo elemento ou processo
e regulados por um sistema de normas e inscritos num conjun- atracientífico que, intervindo no interior de urna prática cien-
to de aparatos institucionais) como urna realidade homogénea, llfLca, freia, impede ou desnatura a produçäo de conhecimen-
constituindo, pelo menos de direito, a unidade de um todo in- tOs) a urna concepcäo externalista da
história das ciências. O
diferenciado. Esse "tratamento" ou "ponto de vista sobre" a empirismo se define por ser urna representaçäo da prática cien-
Ciência é propriamente filosófico. Repete o procedimento clás- tífica que, ao pressupor que o conhecimento está contido nos
SicO da filosofia idealista que, ao falar das ciências, tenta logo latos, conclui que o próprio da investigaçäo científica consiste
extrair sua "essência" comum para poder falar de "a ciência" cm limitar-se a comprová-los, a reuni-los e a sintetizá-los por
ou de "o conhecimento científico". Trata-se de urna posiçäo, um processo de abstraçäo que os tome suscetíveis de um ma-
deixando claramente subentendido que "a ciência" pode ser ntjo eficaz, quer dizer, acumuláveis e cornunicáveis. O "mode-
algo de transcendente, que só há urna ciéncia, de certa forma lo' rrnpirista concebe a prática científica nomo um processo,
intemporal, a única capaz de revelar aos homens a Verdade. 11a0 de transforrnaçäo, mas de purificaçâo
dos fatos constata-
Ora, a clência (em geral) nao existe. Só existem práticas cien- das, dos quais seriam eliminadas as propriedades contingentes
tíficas diferentes e desigualmente desenvolvidas. Tampouco pode C espúrias. Esse "modelo" se baseia na
"teoria do dado", se-

34 .
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gundo a quai o essencial da prática cientifica consiste:
ramente, em recoiher; em seguida, analisar (tratamento
priniei- rIco no somente se liga ao prático, mas domina e determina
dos u$ estrutura. As grandes revoluçöes científicas, desde o século
dados) urna informaçäo qualificada de "objetiva" e x\/lI at nossos dias, teriam sido fundamentalmente revoluçöes
tente à atividade (e aos preconceitos) do preexis-
ao formalismo, trata-se de um "modelo" que investigador. Quanto itóricas cujos resultados visarn, nao tanto a melhor religar entre
faz a inverso sis- I os "dados da experiência" quanto a adquirir urna nova con-
temática das opçöes empiristas. Onde o empirismo cepçao da realidade profunda que esses "dados" subentendem.
o momento específico da vislumbra
construçâo teórica, o formalismo ten- 1 Os externalistas negam que a revoluçäo científica inicial
de a eliminar ou, em todo caso, a
subordinar o processo de tonha sido desencadeada por urna revoluçäo filosófica. Consi-
produçAo efetiva (construção + demonstraçäo)
mento de fatos e conjunturas reais. do conheci- dtìrnm tal posiçäo idealista, pois ela se situa apenas no nível
dupla subordinaço, que afeta, de umTrata-se, a rigor, de urna da idélas. Ademais, apenas desloca a questáo, sem Ihe dar urna
lado, as rsposta satisfatória. O que é importante saber é por que deter-
tinadas à "realizaçäo" do sistema de conceitosoperaçoes des-
Outro, as operaçoes de controle empírico teóricos, do minada sociedade teve o privilégio e o direito a essa iluminaçào
do concreto assim filosófica". Eis a grande objeçäo que se coloca à posiçäo inter-
elaborado. Ora, o empirismo e o formalismo,
temologia idealista, nao se excluem nem se variantes da epis- nalista. No impasse, esta tenta apelar para o simples acaso ou,
sanamente. Pelo contrário, coexistem corno contradizem neces- cntúo, vê-se condenada a admitir urna interpretaçäo racista. Re-
doras e informadoras da prática efetiva da "filosofias" funda- correndo a um estudo sociológico e histórico, os internalistas
maioria dos cien- acreditam que "a ciência", se nao nasceu na China, mas na
tistas atuais. E são tais "filosofias" que
impedem que as dis- luropa do século XVII, nAo foi porque os chineses nao tives-
ciplinas científicas sejam estudadas
historicamente, em sua for- em tido a idáia de experimentaçäo ou porque teriain imagina-
inaçäo, em sua gênese, no interior
de suas condiçOes reais e çlo curta, mas porque, socialmente, nao possuíam as condiçc3es
sócio-culturais
Os historiadores internalistas se apóiam
favoráveis à sua posto que viviam nuin feudalismo
tanto na filosofia burocrático que nao comportava a existência de urna classe de
empirista quanto na formalista das ciências.
por exemplo, de explicar por que a ciênciaThante da questäo, negociantes. Em contrapartida, afirmam que, durante a Idade
justamente na Europa do século XVII, e nao moderna nasceu
no Oriente, däo
Media européia, os chineses se encontravam muito mais avan-
a seguinte resposta: a
çados em matéria de ciência e de técnicas. Ora, tratando-se de
revoluçäo científica foi, essencialmente, idélas, nao podemos ignorar que as tradiçöes culturais e filo-
desencadeada por urna "revoluçAo filosófica".
Ao fazerem tal sóficas dos chineses estavam em condiçôes de suscitar um pen-
afirmaçäo, adotam um ponto de vista conhinuísta
das ciências. Há mesmo os que tentam na história samento "mecanicista". No entanto, cremos ser ilegítimo expli-
mente que a ciência moderna tern sua fonte demonstrar, näo so- car o nascirnento da ciência moderna apenas recorrendo a urna
medieval, mas que, pelo menos em seus profunda no solo explicação da origem das idéias, no sentido intelectual do termo.
aspectos fundamen- O que se nos augura importante compreender é por que
tais, por sua inspiraçäo metodológica e
filosófica, é urna inven- esta ou aquela coletividade humana fixou sua atenço sobre
Çáo medieval. Essa posiçáo, que é
a de A. Crombie, analisada tais idéias e consagrou ingentes esforços para elaborá-las. De
longarnente por Koyré quando estuda as origens
derna (Etudes d'histoire de la pensée da ciência mo- forma alguma os externalistas pretendem negar a existência de
scientifique (1973), de- inovaçôes intelectuais. O que têm em vista faxer é estudar o
fende, no fundo, urna evoluçäo
continuísta das ciências. Tal desenvolvimento de tais inovaçöes, mas levando em conta o
evoluçâo é comandada por urna concepçäo
temente inspirada por certo tipo de empiriata e 6 for- major número possível de conjunturas históricas. Ê por isso
"filosofia experimental". que se recusam a ver no desabrochamento da "ciéncia experi-
O que se pode objetar é que a
história do progresso das ciôn- mental" na Inglaterra, na Itália e na França, um simples favor
cias modernas deve estar baseada em
seu caráter teórico, pelo outorgado pelos deuses, como se pudesse cair de um céu qual-
menos tanto quanto em seu aspecto
experimental. O aspecto teó- quer das idéias. Esse desabrochamento encontra-se íntima e
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estruturalmente vinculado ao desenvolvimento tempo, como um fenômeno de civilizaçäo, como urna prática
sociedade pós-feudal de certo tipo de
:
desenvolvimentos marítimo, industria!, «triaI indissociável das dernais práticas humanas.
Comercial, financeiro etc. Nao
ternos o direito de separar os Alexandre Koyré, que pode ser justamente considerado um
fatores intelectuals de seu
enrajzamento concreto. As condiçôes d(1 melhorcs historiadores internalistas, censura todos os que
históricas reais que possibilitararn o
derna foram: o surgimento do nascimento da ciência mo- intltrrn no papel das necessidades prática.s e dos fatores de
so do sistema bancárjo, a primeiro capitalismo, o progres- !r4km econômico-social de cairem ou deixarem-se levar pelos
aceleração
vegaçáo, das minas, da artiiharia, rápida da técnica (de na- preconceitos baconianos e marxistas". Reconhece que a inter-
Social dos "engenheiros" e da imprensa), a pronioçao ;)retnçtio mais difundida, hoje, da história das ciências, é urna
dos artistas, as grandes nterpretaçäo positivista e pragmatista. Os historiadores de ten-
marítimas, a Reforma, a expediçöes
sobre o qual nasceu a ciência Contra-Reforma etc. Eis o solo real dncìn positivista insistem corn freqüência, ao tratarem da obra
moderna. dr Galilcu e de Newton, sobre seu caráter experimental, empi-
Apesar de muita coisa ainda permanecer ruto e fenornenista, bern corno sobre a renúncia desses autores
ao nascimento da ciência obscura quanto
moderna,
ternalista e internalista nao constituemvisto que as posiçoes ex- , busca das causas em proveito da busca das leis. Eles teriam

explicaçäo, havendo outros os dois (micos pólos de bLIndonado por completo a questäo: por quê?, substituindo-a
intermediários, urna coisa nos pa-
rece certa: seria injusto condenar, pela questão: como? A primeira questão seria de ordern filo-
em bloco, a orientaçäo dos 4tfica. Só a segunda interessaria à ciência. O que nao é ver-
externalistas, sob o pretexto de que
de um pesquisador nâo pode omeio econômico e socia! tludc, porque nem mesmo a questão: como? pode escapar to-
te de suas idéias teóricas. constituir a "causa" determinan- talmente da influência filosófica. Para Koyré, a questão de sa-
E evidente que os trabaihos hei se a influência da filosofia sobre a evoluçäo do pensamento
lileu nao forant "causados" pelas de Ga-
de sua mecânjca. Mas isso possíveis aplicaçoes práticas científico é boa ou má, ou é urna questäo de somenos impor-
nao o impediu de declarar, no láncia, porque "a presença de urna ambiência e de um quadro
de seus Discorsi: 'Senhores inicio
venezianos, que ampio campo de filosófico é urna condição indispensável da própria existência
ref!exäo me parece abrir, aos
taçâo assIdua de vosso famoso espíritos especulativos, a freqüen- da ciência", OU trata-se de urna questäo bastante profunda de
teirão dos trabalhos mecânicos"!
Galileu Situa expiicitamente seu
arsenal e, especialmente, o quar-
Ora, an fazer tal declaraçäo,
trabaiho dentro de urna pers-
resso- ou da decadência -
scntido, "porque este sentido nos levaria ao problema do pro-
do próprio pensamento filosó-
lico" (Etudes d'histoire de la pensée philosophique, p. 257).
pectiva de orientação prática. O
forma alguma é negado. Mas
aspecto teórico da ciência de o que podemos dizer é que o próprio Koyré nao está isen-
nao se encontra desvinculado de IL) de preconceitOs idealistas. Ora, em matéria de preconceitos,
um caráter nitidamente prático. '.1() menos nocivos os que menos fecham as perspectivas. A
Creio ser até certo ponto este respeito, o livro de Koyré sobre o espaço na Renascença
artificial e arbitrário, ernbora
bastante cômodo, distinguir urna e sobre a geometriZaÇäO bastante significativo. Ele consegue
lista, tendo por objetivo história das ciências interna-
precipuo estudar a evoluçäo das elaborar urna história das ciências dentro de um espaço de "au-
científicas, quer dizer, o idéias tologia do desenvolvirnento do pensamento científico" (ibid,
desenvolvirnento dos conceitos e das
teorias das ciências, e urna
história externalista, preocupando- p. 257). Ademais, ao conceber a geometrizaçàO do espaço
se muito mais com a
análise da inserçao social da como a substituiçäo do espaço concreto (conjunto de "luga-
de modo especial, corn a ciência e, res" ) aristotélico e medieval por um espaço abstrato da geome-
infiuência que sobre cia exercent as tria euclidiana, doravante considerado corno real, consegue o
necessidades sOciajs e as
ideologias. No entanto, a hipótese de feito de ignorar por completo Mercator, Leonardo da Vinci, os
trabaiho que mc parece mais justa e
conhecer que a ciêncja nao pode adequada consiste em re- grandes navegadores. Donde a invectiva que se faz aos inter-
a produçäo intelectual de
ser concebida apenas como nalistas, conseqüentemente a Koyré: elaboram urna história das
leonas, mas tarnbém, e ao mesmo clências na quai os cientistas vivem sem participar da vida so-
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dal, como se fossem seres extratemporais, a-históricos ou su-
praculturais. Evidentemente, nao podemos negar que o objeto Ito rnsmo tempo, essa história das idéias depende de urna so-
da histórja das ciências seja a historicidade do discurso cien- clologia, porque, tanto por sua origem quanto por sua difusäo
tífico, enquanto tal historicidade representa a efetuaçao de um Pelo modo como se encarnam nas diversas práticas, tais idéias
projeto interiormente normativo. Todavia, trata-se de urna his- possuem urna existéncia social. A este respeito, vários autores
toricidade que é atravessada por acidentes, que é desviada por Iøiitararn mostrar como a tradiçäo judaico-crista contribuiu, por
obstáculos e interrompida por inúmeras crises, vale dizer, por VCZCS indiretamente, para a preparação da revoluçäo científica.
momentos de juízo e de verdade. A este respeito, parece sen- n o que tenta demonstrar, por exemplo, R. Hooykaas em sua
sata a posiçäo de G. Canguilhem: "A história das ciências é a ',bra Religion and the rise cil modern science (Scotish Aca-
tomada de consciência explícita, exposta como teoria, do fato dcsnic Press, 1972) Esse autor vai de encontro à opinião cor-
.

de as ciências serem discursos críticos e progressivos para a rente, segundo a quai a ciência moderna deve muito aos gre-
determinaçâo daquilo que, na experiência, deve ser tido por gos e quase nada à BIblia. Evidentemente, ele nao faz um arra-
real. Portanto, o objeto da história das cîências é um objeto toado em favor da religiào, no sentido apologético do termo,
nao dado al, um objeto cujo inacabamento é essencial ( . .). nem tampouco faz da Biblia urna fonte fornecedora, para os
Ele só pode ser delimitado por urna decisa9 que Ihe confere
.
dentistas, de urna espécie de esboço de suas idéias teóricas.
interesse e importância" (Etudes, pp. 17-18).i E por isso que o que pretende mostrar é que a BIblia forneceu diversas "con-
podemos afirmar, inspirando-nos na epistemologia de Bache- ccpçOes sociais e metodoiógicas" cujo papel foi importante para
lard, que a história das ciências nao é urna história empírica, n clência moderna. Sua tese diz respeito a urna sociologia das

mas a história das ligaçoes racionais do saber, toda ciência pro- mentalidades e das idéias: a mensagem bíblica estaria na ori-
duzindo, a cada momento de sua história, suas próprias normas gem de certas atitudes diante da natureca, da experiência e do
de verdade. Todavia, ao serem produzidas, essas normas esto irabaiho. E foi graças a essas atitudes que a ciència pôde sur-
sujeitas à sucessäo das gir e desenvolver-se no século XViI
práticas que as CEssa pociçäo pode ser ilustrada pelo advento do mecani-
constituem e condicionam O processo de produção de conhe-
cimentos consiste justamente na transformaçao de urna matéria- ¡5mo A ciência moderna já nasce mecanicista. Considera a
prima determinada, que é o conhecimento científico c/ou "re- natureza como urna máquina, como um conjunto de mecanis-
presentaçäo" pré-científica, nurn determinado produto intelec- mas cujas leis precisam ser descobertas. Para se chegar a essa
tuai, que é um novo conhecimento científico. Essa transforma- concepçäo, é necessário ultrapassar as idéias de Piatâo e de
çäo é efetuada por determinados agentes de produçäo científi- Aristóteles, bem como as dos atomistas. Segundo Hooykaas, foi
a noçäo bíblica de um Deus criador que tornou possível essa
ca, que se utilizam de determinados instrumentos de trabaiho
(conceitos, teorias e métodos) em determinadas condiçöes só- inudança. E a idéia do Deus engenheiro ou arquiteto cuja obra
cio-culturais de produçäo. vai poder ser anaiisada metódica e matematicamente. Ora, essa
idéia de um Deus criador faltava aos chineses. Dal nao terem
Para compreendermos como nasceu a ciência moderna, podido formular a noçäo de "lei da natureza", no sentido
deveríamos nos interrogar ainda sobre o modo como aqueles
ocidentai.
que a criaram viarn e concebiam o mundo. Como percebiam o
espaço? Como se situavam relativamente às necessidades práti- O pensamento moderno, nao podemos negar, é contempo-
cas e às diversas profissôes encarregadas de satisfazê-las? Quais râneo da idéia e da presença da máquina. Evidentemente, os
os limites e os fins que estabeleciam para a aço humana? Qual filósofos modernos nao estavam interessados na máquina en-
a concepçäo que se faziam da natureza? Que valores sociais
quanto tal, nem tampouco enquanto constituía urna reaiidade
Ihes pareciam essenciajs? Que formas senslveis ou intelectuais
técnica, mas enquanto era um componente da realidade huma-
na e social. Em outros termos, o problema filosófico do maqui-
davam-Ihes major satisfaçâo? Num sentido lato, a resposta a
essas questöes depende da história das idéias. Por sua vez, e nismo nao se coloca em funçäo do papel da máquina na produ-
cao, mas em funçäo de sua influência sobre a vida humana. So-

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nha-se, nessa época, corn urna clência que seria ao mesmo tern- própria criação. Ao criar muita riqueza, repartia por toda parte
a miséria. Ao reduzir a força física, introduzia um trabalho
PO sabedoria e poder. Corn urna ciência tornando o homem se-
nhor e dominador da natureza: da natureza exterior, pela "me- monótono e fastidioso, substituindo o ritmo vital e o ritmo hu-
cânica"; da natureza corporal, pela medicina. Descartes pensou mano do trabalho pela uniformidade do ciclo mecânico que se
mesmo em criar urna Escola de Artes e de Oficios. Sonhou repetia indefinidamente. As máquinas ignoravani o cansaço. Já
corn urna humanidade liberada pela máquina de sua sujeiçäo às nesse momento, Fourier condena o industrialismo, afirmando
forças naturais, corn urna hurnanidade capaz de vencer os ma- ser ele "a mais recente de nossas quimeras científicas". O tra-
les que a acabrunham. Ora, o nascimento e evolução da técni- balho industrial, gerador de fadiga insuportável, constitui "o
ca vão determinar e explicar toda a história humana posterior. vIcio radical do mecanicismo civilizado". A este respeito, reme-
A civilizaçAo industrial nasceu do rnecanicismo. Dal por diante, to o leitor ao estudo de Koyré sobre as origens e a significaçâo
o ritmo natural da vida foi progressivamente sendo substituido do maquinismo (Etudes d'histoire de la pensée philosophique).
por urn ritmo mecânico, por um quadro artificial e por urn Depois dessa ilustração, corn o sentido do maquinismo,
melo fabricado. Em todos os dornínios, o pensamento moder- retornemos às influências bíblicas sobre as atitudes do hornem
no substituj o esquema biológico pelo esquema mecânico da diante da natureza. Hooykaas está plenamente convencido de
explicaçäo. A técnica pré-industrial reduzia-se a urna técnica (lue certos temas bíblicos favoreceram a substituiçAo do racio-
de adaptacäo às coisas. Mas a técnica industrial será urna téc- nalismo dogmático, que pretendia desvendar os segredos da na-
nica da exploraçâo das coisas ou, ainda, da criação de coisas. tureza mediante apenas a especulaçäo dedutiva, pelo raciona-
O que nos parece fundamental, no século XVII, é que a lismo crítico da ciência moderna, que tomou decididamente o
Natureza deixa de ser deificada. Tarnbém deixa de ser urna rurno do empirismo, na medida em que nao hesitou em recor-
rer à experiência e à experirnentação. O objetivo da ciência no
espécie de organismo governado por um ou vários princIpios
imanentes. Os filósofos passarn a comparar o mundo a um re- se reduz a colecionar fatos. Seu "empirismo" consiste, antes de
lógio. A visao mecanicista serve de quadro para a astronomia (udo, nurna reação contra o dogmatismo especulativo vigente.
e para a física. A metáfora da máquina é utilizada para des- E a enauete experimental corresponderia a urna orientaçäo
crever os fenômenos da vida. Assirn, Mersena explica de modo tente da concepçào bíblica concernente ao trabaiho do homem
mecânico a fisiologia e o comportamento dos animais como no mundo. Ao afirmar que Seus pensamentos nao se identifi-
urna seqüência de causas e de efeitos necessários. Refere-se cam corn o pensamento humano, que ultrapassam nossos pen-
explicitamente ao modelo do relógio. Tarnbém Descartes ima- amentos (Isaías, 55, 8), Deus tena escoihido livremente as
gina o homem como "urna máquina construída segundo o mo- leis da natureza. E para conhecer tais pensamentos, o homem
delo dos relógios, das fontes artificiais, dos moinhos e de outras nao pode confiar apenas em sua razão. Dessa forma, a BIblia
máquinas semeihantes". Portanto, nao há mais principios vitais tena valorizado o trabalho manual e encorajado o homem a
nem tampouco entelequias inapreensíveis. Os seres vivos con- dominar a natureza. E isso contribuiu certamente para a for-
vertem-se em autómatas. O filósofo materialista La Mettrie, no macao da mentalidade técnica e experimental dos cientistas
século XVIII, dará um vigor todo especial a essa idéia em seu modernos.
livra O homem-máquina. Evidentemente, näo podemos negar que a concepçâo b!-
Mas foi somente corn a primeira revoluçäo industrial, corn blica contenha certos elementos e certas idéias suscetíveis de
a inauguraçâo da era técnica, que se tornou possível a realiza- modificar as atitudes humanas. Mas será que ternos o direito
çäo daquelas máquinas tao ardentemente desejadas, tao inge- de dizer que a ciência seja urna conseqiiência das concepçöes
nuamente esperadas e tao candidamente glorificadas. Corn seu bíblicas? Se isso é verdade, corno se explica que durante tantos
advento real, muitas esperanças forarn desenganadas. A máqui- áculos nao manifestaram nenhum efeito "científico"? Por que
na nao veio aliviar o sofrimento dos hornens. Pelo contrário, tais idéias só corneçaram a agir a partir da época moderna?
velo agravá-lo. Veio transformar o hornem nurn escravo de sua Scm dúvida, formaram um quadro possível para o pensamento

42 I

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mecanicjsta e para a "filosofia experimental". Mas será que os tas possuem o mesmo estatuto da que somente nela
textos sagrados desempenharam verdadeiramente um papel de a bondade divina tena colocado habitantes? Os outros plane-
desencadeadores do pensamento científico? Ou nAo teriam for-
necjdo apenas urna ideologia oportuna para urna sociedade em-
ta& £exiamhai1adQL IJIaki1ck p!Lpq descenderem
de Adk.e Eva4 o pecadoonginal. E o
preendedora e dinârnica como a moderna? trabaihoara eles. nao _constituía urna maldiço. Ademais, te-
E claro que nao podemos negar o fator religiäo a fim de ria havido múltiplas Revelaçòes divinas. E certamente várias
Supervalorizar sua importância e sua eficácia históricas. In- Encarnaçöes. Por outro lado, se os céus supralunares partici-
f1uncias sociais, econômicas, políticas e geográficas desempe- pam da geração e da corrupçäo do mundo aqui de baixo, nao
nharam um papel de primeira importância no nascimento da poderiarn mais constituir moradas dignas de abrigar o trono de
ciência. Todavia, o aparecimento da filosofia mecanicista foi Dcus, que nao se sabe mais onde situar. E nao sendo mais a
muito mais a conseiiêncja de urna promoçäo social e econô- l'erra o centro do mundo, a morada dos homens deixa de ocupar
mica inegável da mecânica (arte das máquinas) e dos mecâni- urna posiçäo intermediária entre a dos demônios e a dos anjos.
cos (os "engenheiros". de entäo) As múltiplas analogías e me-
. Por conseguinte, parece inevitável urna relatividade generaliza-
táforas recorrendo à idéia de máquina surgiram por razöes de da clos valores espirituais num universo infinito. Em tal univer-
ordern prática, dependendo da história do trabaiho e das técni- so, nao se vê mais como Deus poderia dirigir-Se ao homem e
cas no seio de determinada sociedade. Assim, o movimento como o homem poderia encontrar Deus.
científico foi orientado muito mais pela "ascensäo dos enge-
nheiros" que pela influência de fatores de ordern religiosa. Sem Apesar das pncias. os Juízes da Inquisiçäo, que sa-
dúvida, a religiao tern seu lugar na história das ciências. Mas
biamueo r.to ÇJjleu cpnsistia em ele ter razo, donie
nao se pode negar a influência decisiva de outros fatores exter-
buscade silanciálo, foram osgrandes derrotados. A revolu-
çflo galileana se realizou e introduziu urna descontinuidade 'a-
nos condicionando a emergência da ciência moderna. Entre
dical na história do saber. E foi assim que se impôs um novo
esses fatores, volternos a citar os navegadores que, corn suas
descobertas, derrubaram as opiniôes dos "sábios" e dos "f116- tipo de ciência. O saber tradicional, conservado nos livros que
sofos". Graças aos seus conhecimentos práticos, hoinens de faziam autoridade, cercado por um clima de segredo e de sa-
pouca instruçäo deram urna grande liçäo aos eruditos dogmá- grado, teve que dar lugar a um conhecimento rigoroso, verifi-
ticos. Ê neste sentido que Bernard Palissy declara: os que me cável e universal. No dizer de Koyré, o universo do "mais ou
menos" foi substituIdo pelo universo da precisão. Fazer ciên-
visitam aprenderäo muito mais em duas horas de conversa co-
cia passa a ser aplicar ao real noçöes rígidas, exatas e precisas
migo do que em quarenta anos de leitura dos filósofos. Tal
afirmação reflete urna realidade social que s6 muito parcial- das matemáticas e, em prirneiro lugar, da geometria. E através
do instrumento de medida que a idéia de exatidäo passa a to-
mente se explica pela influência da religiäo ou da filosofia.
niur posse de nosso mundo, e que tal mundo da precisäo vem
Wrnar o lugar do mundo do "mais ou menos" da física aristo-
télica, incapaz de conceber urna medida unitária do tempo. A
tecnica grega era urna simples techné. Foi pela conversäo da
Por conseguinte, a nova astronomia, inaugurada por Gali- (I)iSteme em techné, nos séculos XVII e XVIII, que surgiu a
leu levada adiante por Newton, se permitiu solucionar certos
e iecnologia" moderna, cujo caráter próprio, e que a distingue
problemas científicos, vejo colocar urna série de outros proble- da techné antiga, consiste na precisão. Doravante, nao se trata
mas não-astronômicos insolúveis. Em seu The copernican re- mais de contemplar a verdade, mas de constituí-la pela força
volution, Thomas Kuhn apresenta urna lista desses problemas. titt demonstraçäo. Conhecer significa medir, experimentar, pro-
a história var e comprovar. Ademais, doravante o sábio deixa de ser um
da___qq _edaRedençäodoshomens passa a irur-se num eb.rigo, enciumado de seus segredos e fechado em si mesmo
Iigrnäo-privilegiado da cosmoloiÖra,iàòà outros plane- como o alquimista sobre seus falsos tesouros, para ser um leigo,

44 I 45

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Iìomem de razäo e de reflexäo, de observaçäo e de laboratório. entender isso justamente no homem que formulou a lei da gra-
A verdade passa a ser urna procura da verdade, ou urna ver- vitaçäo universal e continua sendo considerado o grande sábio
dade em busca. Por outro lado, a nova ciência suscita um novo dos tempos modernos?
tipo de instituiçäo capaz de abrigar o novo tipo de saber. Esta Por longo tempo a história internalista considerou o mo-
"casa de Salornäo", cujo projeta foi elaborado por Bacon virnento científico que vai de Copérnico a Newton como um
(1561-1626) em sua Nova Atiântida, logo será urna realidade. progresso contInuo em direção ao Iluminismo. Assini concebi-
De 1657 a 1667, existirá em Florença, cidade que deu prote- da, essa história é maniqueísta, pois opòe aqueles que favore-
ção a Galileu, a Accademia del Cimento, onde se realizam tra- ceram o Progresso, o reino da Razäo (precursores e gênios
balhos científicos extraordinários. A vigilância inquisitorial ter- fundadores) aos que a eles se opuseram, por preconceito, por
mina por levar essa primeira Academia de Ciências a fechar Ruperstição ou por qualquer outro tipo de obscurantismo inte-
suas portas Todavía, acriaçâo da Royal Society of Sciènces lectual. Ora, näo se pode evitar facilmente semeihante tipo de
de Londres (1662) e da Acadérnie des Sciences de Paris (1666) avaliaçäo. Torna-se possível a reconstituição de urna história
viräo dar à nova ciência domicIlios fixos, onde poderão desen- das ciências que venha a confundir-se, na prática, corn urna
volver-se graças à proteçäo efetiva dos reis da Inglaterra e da história do pensamento racionalista. Considera-se, pois, que a
França, bastante fortes para permitirem o desenvolvimento li- ciência culmina num conjunto de leis formuladas matematica-
vre da nova ciência. mente, verificadas experimentalmente, devendo excluir toda es-
peculaçäo sobre as realidades subjacentes aos "fenômenos"
Postula-se claramente a oposiçäo entre ciência e metafísica. Ne-
ga-se qualquer influência das obscuras idéias místicas na cons-
Até o momento, parece-nos claro que a ciência moderna truçäo das cìências.
nao nasceu obedecendo apenas à sua dinârnica interna, mas a Essa concepçäo rigorista de ciência, por urna espécie de
fatores de ordern externa. Para ilustrar essa posiçäo, tomare- ironia do destino, refere-se a Newton, justamente a ele, que é
mas dois exemplos: o primeiro se refere ao caso de Newton; apresentado como o modelo, o protótipo do "sábio moderno".
o segundo, à formaçäo do conceito de evolucionismo. Inümeros de seus textos parecem confirmar essa hipótese: insis-
o caso de Newton é muito ilustrativo. Numerosos fatores tência nos procedimentos do método experimental ao lado de
externos ao seu pensamento foram abandonados pela visão in- urna recusa sistemática das hipóteses metafísicas. Em suas obras
ternaljsta da história das ciências. No entanto, em 1855, David reconhecidas como propriamente "científicas", Newton parece
Brewster, biógrafo de Newton (1642-1727), ao descobrir que confirmar essa irnagem dos puristas. No entanto, de um ponto
ele havia estudado a alquimia, revelou-se um tanto escandali- de vista histórico e epistemológico, nao ternos o direito de ne-
zado e escreveu: "NAo podemos compreender como um espí- gar que, para se compreender a significação do pensamento
rito de tanto vigor, que se entregou nobremente às abstraçoes da newtoniano, é imprescindível que levemos em conta suas espe-
geometria e ao estudo do mundo material, pôde rebaixar-se e culaçöes alquimistas e herméticas. E toda a interpretaçào da
recopiar a mais desprezível poesia alquimista e fazer anotaçòes 'revoluçäo científica" que precisa passar por um processo de
numa obra evidentemente produzida por um insensato" (cf. retificaçäo. Na verdade, como bem enfatizou H. Kearney
La Recherche, nc 41, 1974, p. 85). Ora, à medida que foram (Science and change, 1971), a ciência moderna recebeu urna
sendo aprofundados os estudos históricos, essa situação tornou- tríplice influência: a primeira, da tradiçäo organicista, que tenta
se ainda mais insustentável para quem via em Newton um puro explicar tudo em termos biológicos; a segunda, da tradiçäo nie-
"cientista", um "racionalista" de estrita observância, o legítimo canicista, em cujas explicaçöes dos fenômenos predominam as
representante do espirito "positivista". Já era de todos sabido analogías corn a máquina; finalmente, da tradiçäo mágica, ba-
seu grande interesse pela teologia e pela BIblia. Mas dedicar scada nos "escritos herméticos" (escritos atribuIdos a urna mis-
650.000 palavras, em sua obra, à alquimia, era demais. Como teriosa figura mítica, Hermes Trismegisto).

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Os textos herméticos refletern tendências místicas
derivadas Parece-nos falso esse dualismo radical. Na verdade, New-
do neoplatonismo, nos quais se pode 1er a revelaçâo divina de ton tentou interpretar certos fenômenos alquimistas em termos
segredos relativos ao mundo físico: a luz como fonte de mecanicistas. Isso nao quer absolutamente dizer que tenha Visto
vida,
a situaçäo do Sol no centro do mundo, a natureza como urna perfeita compatibiidade entre a alquimia e o pensamento
algo
ativo, animado e impregnado de "psiquismo",
o "fascínio" do científico. O que nao se pode negar é que acreditava, segundo
semelhante pelo semeihante. Ternos al urna espécie de os hábitos da Renascença, na existência de urna sabedoria aníiga
fundo histórico das especulaçòes sobre o conceito de pano de ou de urn corihecimento antigo. Estava convencido de que os
arração.
Contudo, a essa corrente hermética ligam-se as especulaçöes textos que the cram transmitidos continham verdades sob urna
pitagóricas: o Cosmos é regido por secretas harmonias forma enigmática. E tais verdades precisavam ser decifradas.
máticas, o sábio é um mago devendo decifrar os mate-
mistérios da Foi dessa forma que ele leu os alquimistas. Em seu estudo Sobre
natureza e dominar suas forças ocultas, tendo em vista a natureza dos ácidos, defende claramente a legitimidade da
respon-
der às necessidades práticas da vida humana. Na teoria alquimista do Eaxofre e do Mercúrio filosóficos. Nao
Renascença,
vários desses temas exerceram forte influência opòe a filosofia mecanicista à tradição hermética nern, tampou-
sobre o
mento dito científico. Assim, em seu De Revolutionibus pensa-
Copérnico faz explicitarnente alusão a Hermes para
(1543), co, tenta refutar o hermetismo. Sua convicçäo é a de que a
confirmar ciência nova precisa conhecer e aprofundar as verdades antigas,
o lugar central do Sol em seu sistema:
"Trismegisto o chama bem como as revelaçbes ocultas nas ficçöes e nos mitos arcaicos.
de o deus visível". Ao estudar a passagem da
magia à ciência, Foi semelhante estratégia que lhe perrnitiu mostrar que Pité-
o historiador inglés das ciências, W. P.
Wigtman (Science in a goras já conhecia a lei da gravitaçäo. E para confirmar a oni-
renaissance society, Hutchinson, 1972), afirma que a presença substancial de Deus, cita indiscriminadamente Pitágo-
dos que esperavam mudanças revolucionárias nas maioria
ciâncias (Co- ras, Tales de Mileto, Anaxirnandro, VirgIlio, Sao Paulo, São
pérnico, Kepler, Newton e Galileu) estavam
profundamente mo- Joäo, Moisés, Salomão (no Scholium generale de seus Princi-
tivados pela convicçäo de que forças ocultas pia) A conclusAo é que o velho Anaxágoras já havia anuncia-
atuavam sobre a .
ciência, para além da sensaçäo imediata. do a idéia da gravitação universal.
Evidentemente, Newton nAo foi o primeiro cientista a A cultura alquimista de Newton pode ser percebida até
ocupar-se de hermetismo. Mas isso nao impediu mesmo em seus textos fundamentais de física. Assiin, numa
protestos. Em 1947, por exemplo, Lord Keynesurna onda de longa carta a Oldenburg, sobre "a hipótese concernente à teoria
declara que
"Newton foi o último dos mágicos". O que se pode da luz e das cores", hipótese esta submetida à Royal Society of
que nao Jevou muito a sério a busca da Pedra alegar é
Filosofal nem Sciences, em 1675 (cf. H. S. mayer, Philosophy of Nature,
tampouco do Elixir de longa vida. No entanto, tal Hafner, 1953, p. 82), ele descreve um etherial medium que
alegaçäo
revela-se insuficiente para se resolver a questäo. onteria diversos "espíritos etéreos" correspondendo aos "efiti-
Porque os tex-
tos são claros: Newton inseriu em sua obra vios elétricos e magnéticos", bem como ao "princIpio causador
inúmeros trechos
de autores alquimistas (entre outros, de Michel da gravitaçäo". Ao ampliar sua hipótese, Newton sugere que
nao concernem apenas aos aspectos técnicos
Maier) que
da Grande Arte, "todas as coisas têm sua origem no éter", toda a natureza de-
mas à significaçao alquimista da mitologia paga. vendo reduzir-se a "diversas contexturas de cesios espíritos ou
acreditava piamente na existência da urna revelaçäoInclusive, ele
alquimista. vapores etéreos, condensados por precipitação" Bem entendido,
Talvez isso possa parecer escandaloso. Mas nao semeihante berança tradicional pode ser interpretada segundo a
ternos o direito
de nos contentar corn urna interpretação metodologia mecanicista. Todavia, isso nao impede Newton de
"esquizofrénica" de
Newton: de urn lado, ternos o cientista rigoroso,
meticuloso, ob- conceber a natureza como urna espécie de grande alambique
jetivo, calculista, realizando um trabalho sério de onde perpetuamente circulam fluidos e espíritos diversos.
tiva; do outro, um -homern supersticioso, ciência posi-
crente, merguihado nos Nesse contexto, como se deve entender a orientação para
delIrios alquimistas. a idéia de gravitaçäo? Como se deve conceber a "força atrati-

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va" que se exerce sobre dois corpos? O mecanicista Descartes de suas respectivas ciências. O que revela um desinteresse pelas
dispunha de turbilhoes de matéria sutil para dar urna explicaçäo indagaçòes de ordern propriamente epistemológica. Todavia,
inteligível a tais questes. Era sempre possível imaginar meca- há urna razäo mais profunda: as análises e as discussöes dos
nismos invisíveis para "explicar" os fenômenos. Para os meca- historiadores atingem a própria natureza do trabaiho científico.
nicistas, tudo se reduzia a urn jogo de partículas em movimento. Conseqüentemente, podem alterar profundamente a imagem da
Embora fornecessem causas para os fenômenos, nom por isso ciência que nos foi proposta. Ora, toda sociedade possui certr
conseguiam explicar o problema das forças. Foi Newton quem concepçäo do que seja o saber, do que seja a ciéncia, do que
desenvolveu um conceito de força bastante compreensível e cfi- seja a pesquisa científica. Muitas vezes nos foi ensinada urna
caz. NAo se tratava mais de referir-se apenas aos choques entre visa0 simplista do progresso científico. Isto se deve à ignorância
os corpos. Doravante, torna-se cientificamente legítima a aira- da história das ciências. Tal ignorância leva a verdadeiras de-
Ção à distância. Mas como pensar o modo de ação da "força formaçòes. A história do evolucionismo foi deformada, corn
atrativa"? Admitindo-se em cada corpo urna pequena alma de- freqüência, segundo o mito do progresso contInuo.
sencadeando o movimento em direçäo a outro corpo? Cientifi- Há vários modos de se deformar urna teoria científica pas-
carnente, nao se podia admitir tal espécie de telepatia scm sada. Urn consiste em interpretá-la apenas como a antecipaçào
nenhum suporte de ordern material. Donde as críticas à teoria ou como a preparaçâo de urna teoria posterior. Recorta-se a
newtoniana, que .recorria a forças ocultas. O fato, no entanto, é primeira teoria em pedaços: rejeita-se os maus e conserva-se
que tal teoria se elaborou graças a urna reflexäo em que se os bons, quer dizer, os que meihor se inserem na sucessáo ao
misturaram idéias teológicas e idéias de origern mais ou menos mesmo tempo lógica e cronológica de progressos acumulativos.
mágica. Newton nao foi um partidário da ciência pela ciência. Ê assim que se cria o mito do precursor: adota-se urna perspec-
Seu objetivo último era definir as relaçöes de Deus corn o tiva otimista e abusivamente continuísta, em que os êxitos en-
Universo. Formulou urna concepção em que o éter era substi- gendram os éxitos. Nao se negam as diferenças entre duas teo-
tuldo por Deus. Estava profundamente convencido de que o rias, mas se minimizam, e pressupöe-se que as perspectivas em
espaço é um sensorium Dei. Em outras palavras, sua concepçäo que se situam sejarn as mesmas. Assim, somos levados a falar
científica só pode ser compreendida no interior da crença na de Lamarck e de Darwin como de "evolucionistas" possuindo
onipotência de Deus, que percebe todas as coisas e age imedia- problemáticas mais ou menos semeihantes, só se diferenciando
ta,nente sobre cias. No plano metafísico, os "princIpios ativos" pelo modo de ambos conceberem a "adaptaçäo". Segundo tal
identificam-se corn Deus. interpretaçáo, Lamarck aparece como o fundador do transfor-
mismo, retomado, mais tarde, por Darwin.
Ora, temos aí. o vIrus do precursor, tao bem denunciado
por Canguilhem, ao interpretar a concepçäo da história descon-
Nosso segundo exemplo ilustrativo das interferências exter- tinuísta das ciências, elaborada por Bachelard. Nao ternos o
nas na formaçäo da ciéncia moderna diz respeito à história do direito de pretender que a teoria de Lamarck venha anunciar,
evolucionismo. Corno foi visto pelos historiadores das ciências? de um ponto de vista científico, a de Darwin. Porque, do ponto
o que há de mitológico e de científico nas teorias de Laînarck de vista conceitual, o lamarckisrno nada tern a ver ou nada pos-
e de Darwin? Todo mundo parece possuir sua idéia ou sua opi- sui em comum corn o darwinismo, corno bem mostrou C.C.
niäo a respeito do evolucionismo. ou da "revoluçäo darwiniana" Gillispie (The edge of objectivity, Princenton University Press,
lodavia, as teorias transformistas nao se desenrolaram de modo 1970). As idéias de Lamarck são inseparáveis de urna filosofia
tao simples corno talvez possamos imaginar. Os cientistas igno- zoológica. Embora seja um dos criadores do termo "biologia"
ram quase por completo os resultados encontrados pelos histo- (1802), nao se preocupou unicamente corn a vida, mas corn a
riadores das ciências. Talvez porque nao estejam interessados natureza em seu sentido ampio. Seu evolucionismo está apoiado
no modo como se formaram as idéias, os conceitos e as teorias nurna visâo do mundo bastante ronthntica, muito diferente da

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visao proposta pelas ciôucias físicas. Tomadas urna a urna, as circunstâncias agem sobre os animais. A série animal nao se-
palavras de Larnarck se assernetham ès de Darwin. O problema gue a via única do aperfeiçoamento. Ela se ramifica. Todavia,
consiste em saber se, na visäo lamarckista da natureza e de a ordern principal é mantida e respeitada, apesar da "distribuí-
seus processos, tais palavras podern significar a mesma coisa. çâo" natural das classes zoológicas (Darwin faia de espécies).
Em geral, nao atribuimos aos pré-socráticos a glória de A hierarquia é absoluta. As circunstâncias introduzem apenas
terem fundado o evolucionismo. No entanto, Anaxirnandro já certa desordem na "distribuiçâo" ideal. As espécies constituem
dissera que "o homem nasce de animais de outra espécie", que variaçOes do plano principal. O papel das circunstâncias con-
ele "nasce dos peixes". Também Empédocles tena sido o "pre- siste em suscitar, nos animais, novas necessidades capazes de
cursor" de Darwin, pois já concebera a idéia de sobrevivência modificar seus hábitos. Estes ievam ao desenvolvimento, ao en-
do mais apto. Aliás, o próprio Darwin, no inicio de A origem fraquecimento e ao desaparecimento de um órgao.
das espécies, atribui a Aristóteles (na realidade, a Empédocles), O que pretendemos afirmar é que essa parte "científica"
o princIpio da "seleçäo natural". No entanto, os pré-socráticos do lamarckismo nao pode ser comparada à "seleção natural"
nao podem ser considerados os precursores do evolucionismo. de Darwin, pois nao constituem respostas à mesma questäo. Em
Urna das idéias centrais de Lamarck, em sua Philosophie zoologi- Lamarck, a aço das circunstâncias está subordinada ao "plano
que, consiste em ver a natureza agindo como urna "causa" que da natureza". Segundo Darwin, a "seleção natural" se exerce
complica progressivamente a organizaçäo dos corpos vivos. Essa sobre "variaçöes" apresentadas pela natureza. Ademais, a di-
causa se exerce de modo uniforme, segundo uma lei bem deli- versificaçäo dos animais nao é um conjunto de "anomalias" re-
nida, tendo em vista realizar "o plano gera! da natureza". Nao lativamente a urna "distribuição" ideal. Ela é constituIda pelo
ternos al um princIpio vital, mas um processo que se desenvol- mecanismo variaçóes/seleçäo. No detalhe, encontrarnos em Dar-
ve no mundo físico, sendo-Ihe imanente. O que essa lei visa a win vários elementos lamarckianos. Mas seu quadro teórico e
produzir, ao longo da série natural dos animais, são organismos suas exigências científicas são inteiramente distintos. Basta dizer
catla vez mais "perfeitos". Graças a essa "lei de composiçäo", que Lamarck possui um apego muito forte à ordern estabelecida,
a natureza produz necessariamente urna série progressiva de o que é incompatível em alguém que possui urna concepçäo ver-
organismos. Se o meio nao mudasse, a natureza produziria essa dadeiramente evolucionista. E duvidoso que ele tenha compre-
gradaçäo de modo absolutamente regular e idêntico, porque cia endido o caráter histórico da evolução, capaz de produzir for-
realiza seu plano em todo tempo: todos os animais progridem mas radicalmente novas. Sua história dos animais nao é urna
continuamente, como se subissem ao longo de urna "escada". história que muda e inventa. Sua concepçäo da natureza é por
A natureza produz continuamente protozoários por geraçâo es- demais tonservadora. Em seu entender, tudo o que foi produ-
ponidnea e que se aperfeiçoam sempre, até um teto, corneçando zido se conserva: "a ordern geral deve subsistir" (Philosophie
al decadência, a decomposiçäo: "todos os corpos brutos corn- zoologique, p. 1 13). Portanto, sua famosa "escada rolante"
postos, sem exceçâo, constituem o resultado dos despojos e dos funda urna real estabilidade, embora Lamarck nao scia um es-
detritos dos corpos vivos" (Hydrogéologie, i 802). pInto fixista. Seu tempo é repetitivo, nao possibiiita urna evo-
Fecha-se, assim, o círculo do orgânico ao inorgânico: ge- luçäo indefinida, urna rnodificaçao essencial da hierarquia dos
raçöes espontâneas, animais cada vez mais aperfeiçoados, for- organismos vivos. Por exemplo, declara textualmente: "Tudo se
macao dos corpos brutos a partir dos cadáveres, retorno aos conserva na ordern estabelecida. As mudanças e as renovaçbes
primeiros princípios, novas geraçöes espontâneas. Ternos al urna perpétuas que se observam nessa ordern são mantidas nos lirni-
circulaçâo contInua, o sistema lamarckiano funcionthido como tes que cias nao poderiam transpor ( . . . ). Tudo o que parece
urna escada rolante. Os fatores exteriores desempenham apenas desordem, reviravoita, anomalia, entra incessantemente na or-
um papel secundário. O plano ideal da natureza encontra "ano- dem gerai e contribui para cIa" (Philosophie zoologique, p. 115).
malias" e "desvios". As classes animais nao progridem de modo Por conseguinte, o transformismo de Lamarck nAo intro-
linear e regular. A "lei" age, mas esbarra corn obstáculos. As duziu urna ruptura corn as doutrinas metafísicas fundadas nas

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idélas de finalidade, de ordern e de sabedoria divina ou natural.
Mesmo recusando a id'éia de finalidade, sua linguagein está ei- acumular observaçoes e fazer experiências. Pretendia elaborar
vada de finalismo, encontra-se vinculada à idéia de ordern na- urna teoria vinculada aos jatos. Sen objetivo era chegar a urna
turai, ordern estática, corno que eterna. Donde a nãa-historici- explicaçao relativa (nao definitiva), regressiva (nao dedutiva)
dade de suas teorias e seu caráter por demais conservador, tanto e particular (nAo universal). O estatuto epistemológico de sua
no plano científico, defendendo teorias ultrapassadas (a teoria teoria já se encontra presente no seguinte texto: "Creio na sele-
"pirótica", na qual o logo desempenhava um papel central), cao natural, nao porque posso provar que da mudou urna es-
quanto no filosófico. Aliás, Larnarck jamais utilizöu o termo pécie em outra, mas porque agrupa e explica bem muitos fa-
'evoluçâo". Quem o empregou, e assim mesmo somente na sex- tos". O que ternos, corn tal declaraçAo, nao é mais urna intençäo
ta ediçâo de A origern das espécies, foi Darwin. metafísica, mas a expressäo clara de urn pensamento preten-
o termo "evolução" apresenta vários sentidos. No século dendo afirmar-se na cientificidade. O que nao quer dizer que
XIX, era usado para significar a transformaçào progressiva que Darwin tenha elaborado urna "ciência pura", cortada de toda
leva a formas novas. No século anterior, designava o "desenvol- preocupaçäo de ordern extracientífica.
vimento" de algo previamente definido. Trata-se de um desen- Até que ponto se pode dizer que seu pensamento se opôs
volvilnento no tempo, mas como realizaçäo de algo que já exis- à conceçóo teológica? Tena sido sua obra urna refutaçào cien-
tia em germe. Neste sentido, a evolução exclui o transformismo, tífica da concepçäo vigente, segundo a quai há tantas espécies
pois define-se mais como uma pré-forrnaçäo. E por isso que diferentes quantas forem as formas distintas criadas, na origem,
Darwin tenta evitar o termo "evoluçào". Prefere falar de "trans- por Deus? Para Darwin, a Bíbiia ensinava a fixidez das espécies.
mutação das espécies", ou de "modificação por seleção natural", Sua doutrina é eminentemente criacionista: Deus cniou separa-
ou simplesmente de "transformação". Se passou a adotar o ter- damente cada espécie. Ao que tudo indica, Darwin se opôe de
mo "evoluçäo", foi por influência de Herbert Spencer que, antes modo científico à teologia criacionista, à idéia de urn Deus cria-
mesmo de A origem das espécies ( i 859 ) , havia definido a evo- dor das espécies. Em sua obra fundamental, The descent of
lução corno urna "integraçäo de matéria e urna dissipaçäo de man (trad. fr. La descente de l'homme, 1891 ), faz a seguinte
movimento, durante a qual a matéria passa de urna homogenei- deelaraço "Se cometi um erro ao atribuir um grande poder à
:

dade indefinida e incoerente a urna heterogeneidade definida e seleçäo natural, espero, pelo menos, ter prestado algum serviço,
coerente; e durante a quai o movimento retido sofre urna trans- contribuindo para derrubar o dogma das criaçöes distintas"
formaçäo paralela". Assirn, para Spencer, a evoluçäo é urna (trad. fr., p. 63). E, numa carta de 1863 a Asa Gray, reforça
doutrina que pretende tudo explicar: a biologia, a psicologia, a sua posiçbo: "Dou a máxima importância à seleção natural.
sociologia, a moral etc. Nao é urna teoria científica, mas um Mas isso me parece inteiramente desprovido de importância
corpo de princípios de alcance universal. Spencer parte do uni- em comparaçäo corn a questâo: criação ou modificação". Neste
versal para explicar o particular. Foi ele quem fundou realmente sentido, apoiava Lamarck, que fazia de toda mudança o resul-
o evolucionismo, embora Darwin leve a fama, apesar de nao té- tado de urna "lei", nao de urna intervençäo miracuiosa qualquer.
lo ensinado, mas a teoria da seleçäo natural. Assim, criticou as teorias da Criaçäo, a teologia servindo como
o terreno de ruptura, pois o trabalho científico näo se realiza
Estamos diante de um exernplo típico de forrnaçäo de um
nom vazio cultural. Por estar convencido da mutabilidade das
mito filosófico-científico. Spencer elaborou grandes generaliza-
espécies, é que faz esta deciaração: "Tenho a impressäo de
çöes inverificáveis. Darwin veio trazer-Ihes a cauçäo da "cién-
cia". Em sua Autobiografia, afirma nao se ter inspirado na obra
confessar urn assassinato", de que a vítirna é o próprio Criador.
de Spencer, cujo método dedutivo de tratar os assuntos era di- No prefácio de The descent of man, aprovado pelo pró-
verso do seu: "Suas generalizaçóes fundamentais nao me são de prio Darwin, Carl Vogt mostra claramente o pano de fundo
nenhuma utilidade científica, pois nao me ajudarn a predizer o ideológico sobre o qual essa obra foi escrita. Vogt liga o pen-
que vai se passar em nenbum caso particular". Darwin quena samento de Darwin a urn combate incessante contra a autori-
dade e as crenças transmitidas, herdadas e autoritárias. Liga-o
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L'
a urna "corrente de liberdade e de independência, manifestan- importância do problema. Marx quis dedicar a ediçAo inglesa
do-se no mundo político, religioso, social, literário e científi- ae O capital a Darwin. Este tena recusado, dizendo: "Os ale-
co". Trata-se, no fundo, de urna "crítica aos textos sagrados" mäes parecem ter urna idéia bastante estranha (foolish) das
e ao criacionismo, de tal forma que o verdadeiro núcleo
do relaçoes existentes entre o socialismo e a evoluçäo por seleçAO
darwinismo pode ser definido por esta tese: "Nao há lugar, nern natural". O que importa é que, nas últimas décadas do sêculo
no mundo inorgânico nem no mundo orgânico, para urna ter- XIX, o darwinismo e o socialismo mantiveram relaçei bas-
ceira força independente da matéria e podendo modelar essa tante complexas. Nesta epoca, "a ciência" gozava de enorme
matéria segundo seu desejo ou seo capricho". prestIgio. Do ponto de vista sócio-cultural, era perfeitamente
No entanto, podemos nos perguntar: o que há de ideoló- natural que qualquer doutrina política viesse a reclamar-se do
gico e de propriamente científico nas teorias darwinianas? Sa- evolucionismo. Para alguns, o darwinismo vinlia refutar defini-
bernos que ningum tern o direito de separar de modo absoluto tivamente os ideals socialistas. Para outras, pelo contrário, ele
o que é fato daquilo que é interpretaçäo, hipótese ou especula- podia servir-Ihes de urna sólida base científica. O próprio Marx,
ção. Nao há urna verdadeira linha de demarcaçäo entre a "ciên- numa de suas cartas (Lettres sur les sciences de la natwe, tr.
cia pura", as generalizaçôes fundadas sobre eta e as quesoes fr. 1973, p. 21), afirma: "O livra de Darwin (The descent
ideológicas correspondentes. Isso nao quer dizer que basta co- of man) é moita importante e me convm como base da luta
nhecermos a origem de urna idéia para determinar o valor de histórica das classes". Oito dias após a morte de Marx, seu
seu emprego numa teoria científica. Maithus, por exemplo, foi genro escreve urn artigo explicìtando os desenvolvimentos ideo-
urn reacionário no plano político. No entanto, criticar Maithus, lógicos do evolucionismo. No fundo, diz Paul Lafargue (cita-
nesse plano, nao basta para se fazer urna crítica científica da do em La Recherche, n° 77, 1977, p. 395); "a ciência dos
"seleção natural". Darwin deve rnuita coisa a Maithus. Seo evolucionistas é mais opressiva que a religio dos padres". Corn
evolucionismo está vinculado às ideologías de seo tempo. Aliás, efeito, "eles falsearam a teoria darwiniana para meihor colocá-
a teoiia evolucionista sempre esteve ideologicamente atual. Por la a serviço da classe capitalista". Porque "a degenerescência
exeznplo, num trabaiho sobre a biologia evolucionista e a ideo- das classes reinantes é fatal: cia confirma a teoria darwiniana"
logia, R. Young (Sciences studies, 1971) mostra como A. R. Como se pode notar, o darwinismo den margens a varias
Wallace, tendo descoberto ao mesmo tempo que Darwin a teo- interpretaçöes. Uns dele se aproveitam para justificar a desi-
ria da seleçao natural, torna posiçäo a respeito da teoria malthu- gualdade dos homens pela seleçâo natural. Forma-se urna elite,
siana. No entender de Wallace, os princIpios de base dessa tea- urna classe dos meihores. A ciência evolucionista está baseada
ria são contrários à sua posiçäo socialista e à sua filosofia da na- na religiào: as almas, criadas por Deus, são iguais; os homens,
tureza. Donde recusar-se a aplicar a idéia de seleço natural aos selecionados pela Natureza, nascem desiguais e ficam condena-
Oljtros aspectos do desenvolvirnento do hornem. Via no maithu- dos à eterna desigualdade. Outras autores se servern do evolu-
sianismo urna doutrina politicamente inaceitável, pois ela corn- cionismo para fundar as bases, ditas científicas, de urna desi-
portava urna concepçäo fatalista da existência humana, excluin- gualdade apenas social. O fato, no entanto, é que o evolucio-
do a possibilidade de se reestruturar radicalmente a sociedade. nismo foi invocado para explicar a evolução social, para de-
No fundo, ele faz sua a posiçäo de Fngels: "Toda a teoria fender o individualismo e o socialismo, a competiçäo e a co-
darwiniana da luta pela existência é simplesmente a transferên- operaçâo, a aristocracia e a democracia, a força bruta e a bon-
cia, da sociedade à natureza viva, da teoria de Hobbes sobre dade, o militarismo e o pacifismo, o pessimismo e o otimismO
a guerra de todos contra todos, e da teoria econômica bur- morais, o evolucionismo criador por emergência e o naturalis-
guesa da concorrência, bem como da teoria da populaçäo de mo evolutivo. Recentemente, C. D. Dalington (1969) explica
Maithus" (citado por Young, p. 184). que os resultados da biologia vêrn confirmar as doutrinas se-
Urna coisa parece certa: as doutrinas evolucionistas extra- gregacionistas e do apartheid, e que a discriminaçäo racial tern
polarani o domInio da simples biologia, o que vem mostrar a urna sólida base genética (cf. Young, op. cit., p. 188).

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Torna-se, pois, patente que o evolucionismo constitui am- so/ia esponânea, ou seja, corn esse conjunto de "representa-
da um problema vivo, onde a ciôncia nao é a única em ques- çöes", de crenças, de atitudes e de hábitos relativamente à sua
tao. Para avaliarmos seu estudo crítico, precisamos recorrer à prática. 1 seu caráter "espontâneo" e seu reconhecimento ins-
história das ciências. E lamentável qne os cieists_näq estu- titucional que a privam da sistematicidade e da forma reflexiva
dem a história deuapeciivas cinciasFrivados do apara- e crítica.
(Q hjri e conceitua1 río caneguem elaborariuna crítica
de seu saber, do saber que Ihes kizansmitido. ivase sempre
dogmaticamente. para dtectaras apçöes fiksóficas .e ideolégi-
cas nele jpjjcadas. Na prMiça,nossaensino cientí1ico k ba&-
tante equizóide, pois deixa que ..certo& especialistas façam.. a
história dos conce1to científicos. das teorías do .passado, das
controvérsias filosóficas ou po1ítias, .taflsmitindo aos çientis-
tas apenas um saber positivo, dogmaticamente exposto ou pre-
cedido de resumos simplistas e simplificadores. Em geral, os
cienhistas conhecem muito mal a formação de suas teorias e de
seus conceitos, pois aprendem urna ciência divorciada da his-
tória das idéias, da vida social e política.
Para esse fato, há várias explicaçães. A história das ciên-
cias nao apresenta nenhum interesse direto para a pesquisa.
Seria urna perda de tempo. Ora, dizer isso já implica adotar,
pelo menos implicitamente, determinada "filosofia da ciência",
certe concepçäo da atividade científica e de seu valor. No mí-
nimo, tal concepção está fundada nurna filosofia pecuniária e
industrial, num pragmatismo mercantilista do saber. No fundó,
admite-se que a ciência constitua urna atividade autônoma, que
progride de modo linear e acumulativo, que nao implica ne-
nhuma opçâo de ordern filosófica ou ideológica, que todas as
descobertas convergem para a Verdade e para o bem da hu-
manidade. Ora, devernos duvidar desses postulados. Exprimern
urna idéia justa, na medida em que postulam que os cientistas
precisam elaborar conhecimentos rigorosos e objetivos. No en-
tanto, a realidade está muito distante desse ideal. A ausência
ou a recusa da história das ciências correspondem a urna con-
cepçäo idealista do saber (considerado mais "puro" do que real-
mente é), a urna visäo bastante cientificisia e tecnocrática da
atividade dos pesquisadores. Na prática, tal mentalidade leva a
um culto abusivo do especialista e do expert, bem como a um
recuo do espIrito crítico. A história do evolucionismo mostra
que a ciência nao se identifica necessariamente corn um discur-
so transparente, definitivo e totalmente neutro. Creio que os
cientitas nao têm o direito de contentar-se apenas corn sua filo-

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