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Imigração em Moçambique: Impacto

Sociopolítico, Económico e Cultural

Draft

Calton Cadeado
Enilde Sarmento
Énio Chingotuane
Pedro Nhachete

Maputo, Dezembro de 2009


0
ÍNDICE--------------------------------------------------------------------------------------------------------2

1. INTRODUÇÃO
-------------------------------------------------------------------------------------------3
1.1. Problemática----------------------------------------------------------------------------------------------4
1.2. Objectivos-------------------------------------------------------------------------------------------------5
1.3. Metodologia-----------------------------------------------------------------------------------------------
6

2. ENQUADRAMENTO TEÓRICO CONCEPTUAL-----------------------------------------------7


2.1.Debate conceptual----------------------------------------------------------------------------------------7
2.2. Teorias sobre imigração-------------------------------------------------------------------------------10
2.2.1. Modelo de migração do capital humano----------------------------------------------------------10
2.2.2. Teoria do sistema mundial--------------------------------------------------------------------------11
2.2.3. Teoria da modernização-----------------------------------------------------------------------------12
2.2.4. Teoria da Globalização------------------------------------------------------------------------------12

3.ENQUADRAMENTO LEGISLATIVO-------------------------------------------------------------13
3.1.Legislaçao Internacional--------------------------------------------------------------------------------
13
3.2.legislaçao nacional--------------------------------------------------------------------------------------17

4. CARACTERIZAÇÃO DOS IMIGRANTES EM MOÇAMBIQUE: ORIGENS, ROTAS


DE ENTRADA E LOCAIS DE FIXAÇÃO DOS IMIGRANTES-- -----------------------------21
4.1 Origem dos imigrantes----------------------------------------------------------------------------------22
4.1.1. Condição sócio económica dos imigrantes em Moçambique ----------------------------------23
4.1.2. Categorias dos Imigrantes em Moçambique------------------------------------------------------26
4.2. Rotas de entrada dos Imigrantes----------------------------------------------------------------------28
4.3. Locais de Fixação---------------------------------------------------------------------------------------
31

5. FACTORES QUE EXPLICAM O FLUXO DE IMIGRANTES EM MOÇAMBIQUE--32


5.1. A teoria Push-Pull--------------------------------------------------------------------------------------33
5.2- O caso de Moçambique--------------------------------------------------------------------------------33

6. IMPACTO DOS IMIGRANTES EM MOÇAMBIQUE----------------------------------------36

6.1. IMPACTO NA SEGURANÇA PÚBLICA E DO ESTADO ---------------------------------36


6.1.1. Segurança----------------------------------------------------------------------------------------------37
6.1.2. Ligação entre Imigração e segurança--------------------------------------------------------------38
6.1.3. Impacto da Imigração na segurança---------------------------------------------------------------40
6.1.4. Impacto da Imigração na Segurança do Estado--------------------------------------------------40
6.1.5. Impacto da Imigração na Segurança Pública-----------------------------------------------------41

6.2.IMPACTO DA IMIGRAÇÃO NA ECONOMIA MOÇAMBICANA----------------------45


6.2.1- Visões de alguns autores sobre o impacto da imigração na economia------------------------45

1
6.2.2. Factores que Determinam o Sucesso Económico dos Imigrantes-----------------------------47
6.2.3- Impacto da Imigração nos Sectores da Economia-----------------------------------------------49
6.2.4- Impacto da Imigração no Mercado de Trabalho-------------------------------------------------54

6.3.IMPACTO SOCIOPOLÍTICO E CULTURAL DA IMIGRAÇÃO------------------------57


6.3.1. Multiculturalismo ou Assimilação? ---------------------------------------------------------------57
6.3.2. O Transnacionalismo Imigrante--------------------------------------------------------------------62
6.3.3. Integração Social dos Imigrantes-------------------------------------------------------------------63
6.3.4. Integração Política e Cidadania---------------------------------------------------------------------
69
6.3.5. Imigração e Género
----------------------------------------------------------------------------------72

7. SUPERVISÃO E CONTROLO----------------------------------------------------------------------73
7. 1.Constatação sobre Supervisão e Controlo-----------------------------------------------------------74
7.2. Experiencia Europeia e Norte- Americana na Supervisão e Controlo de Imigrantes---------75
7.3. Diligências feitas pelas instituições de supervisão e controlo------------------------------------77

8. Conclusões e Recomendações-------------------------------------------------------------------------79
9. Referencias------------------------------------------------------------------------------------------------85

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1. INTRODUÇÃO

A imigração foi sempre uma constante na história da humanidade, tendo como causas principais,
razões políticas, sociais, económicas bem como a existência de catástrofes naturais. Contudo a
procura de melhores condições de vida e de trabalho foram sempre factores determinantes para
aqueles que recorrem a imigração.

A imigração é um fenómeno que tem estado a crescer e a assumir contornos que ultrapassam a
capacidade de supervisão e controle dos Estados a nível mundial. Neste contexto, vários Estados
tem vindo a perder população e outros estão a receber um fluxo de imigrantes que tem criado um
impacto sociopolítico e económico controverso. O estudo da imigração torna-se particularmente
pertinente, porque como referem Rourke e Sinnot: (2003), os fluxos migratórios são uma das
dimensões mais visíveis do processo de globalização mundial. O Interesse no Estudo da
imigração variou consideravelmente ao longo do tempo, consoante o momento da história.
Acontecimentos como os choques petrolíferos, a queda do bloco soviético na década 90, a crise
financeira asiática de 1997 (que se alastrou depois a diversas economias em desenvolvimento do
resto do mundo), a permanente situação de refugiados no Corno de África, e outros, geram
enormes fluxos migratórios (nomeadamente imigrantes ilegais em busca de asilo politico) como
refere Appleard (1992).

Com efeito, vários Estados, a nível mundial, estão a debater de forma multilateral e/ ou bilateral
a imigração devido, principalmente, ao seu impacto negativo na estabilidade sociopolítica e
económica. A título de exemplo, a “eurofobia” e a “islamofobia” constituem problemas que estão
a criar sentimentos nacionalistas que, algumas vezes assumem contornos violentos na Europa.
No entanto, paradoxalmente, a imigração cria, igualmente, impacto positivo do ponto de vista
económico, social e, em alguns casos, político de tal forma que alguns Estados ricos e

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desenvolvidos, estão a desenvolver políticas de imigração para resolver problemas de
envelhecimento da população e redução da força produtiva.

África contribui em larga medida para o crescimento da imigração, particularmente ilegal, nos
países ricos e desenvolvidos. No entanto, paradoxalmente, regista-se, igualmente, um crescente
fluxo de imigração legal e ilegal inter-africana e de não africanos que procuram a África Austral
e, particularmente Moçambique onde a livre a circulação de pessoas e bens é uma realidade
imposta pela integração regional. Assim, Moçambique, um país em vias de desenvolvimento que
outrora foi um dos maiores “exportadores de mão-de-obra” para a África do Sul, é, actualmente,
devido a estabilidade sociopolítica, um dos maiores receptores de imigrantes que podem ser
fonte ou solução de problemas. O fenómeno imigratório adquire deste modo, uma importância
inquestionável, e Moçambique assume-se como um país de destino para um crescente número de
cidadãos de nacionalidade estrangeira.

Com efeito, em Moçambique, a concorrência pelo mercado de trabalho e alegado


recrudescimento de determinados tipos de crimes associados aos imigrantes levanta receios de
ocorrência de ataques xenófobos similares ou piores aos que aconteceram na África do Sul.
Paralelamente, a fraca disponibilidade de mão-de-obra qualificada e as obrigações legais e
morais de direitos humanos colocam Moçambique numa situação de “aceitação forçada” da
imigração. Portanto, a imigração é uma realidade que coloca Moçambique num dilema
permanente em matéria de política ou estratégia nacional de imigração.

1.1. Problemática

A principal questão que se coloca é que Moçambique não possui uma estratégia nacional de
imigração que, de per si, constitui uma fragilidade na forma como deve ser abordada a
problemática da imigração. Esta fragilidade pode ser agravada pelo provável crescimento de
imigrantes resultante das facilidades de abertura e circulação de pessoas e bens no âmbito da
integração regional na África Austral. Paralelamente, a inexistência de uma capacidade de
controlo das fronteiras nacionais terrestres e marítimas, faz com que o Estado moçambicano
enfrente grandes dificuldades nesta problemática. A extensão das fronteiras, aliado ao facto do

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Estado ter uma fraca capacidade de controlo das mesmas, permite a entrada massiva de
imigrantes dos vários quadrantes de África e do mundo.

A abordagem dos assuntos de imigração, em Moçambique, ligada a dificuldade de coordenação


institucional entre os principais agentes ou actores estatais torna o país vulnerável em relação a
esta problemática. Esta vulnerabilidade constitui um problema que pode ser agravado pela
imigração ilegal que tem vindo a crescer mas cuja magnitude e impacto holístico é
realisticamente desconhecido em Moçambique. Assim, é pertinente a realização de estudos sobre
a dimensão e o impacto real (positivo e negativo) da imigração na estabilidade sociopolítica,
cultural, económica e na segurança de Moçambique.

Esta é uma das questões que sustenta e serve de pretexto para a pesquisa. Alias, estas e outras
perguntas somente podem ter resposta através de uma pesquisa que permita uma recolha de
informação sobre o real. Como se explica que um país pobre como Moçambique esteja a atrair
um número crescente de imigrantes legais e ilegais? Será que o país tem condições materiais e
financeiras de controlar o fluxo de imigrantes? Que implicações terão a entrada massiva de
imigrantes a curto, médio e longo prazo no domínio económico, político, social, cultural e na
segurança do país?

1.2. Objectivos

Objectivo Geral

O trabalho tem como objectivo geral, analisar o impacto sociopolítico, económico e cultural da
imigração em Moçambique.

Objectivos Específicos

(i) Identificar as ameaças, oportunidades e desafios sociopolíticos, económicos e


culturais da imigração em Moçambique;
(ii) Discutir o impacto positivo ou negativo da imigração em Moçambique;

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(iii) Analisar a capacidade institucional de Moçambique em matéria de supervisão e
controlo de imigração;
(iv) Identificar a origem, rotas de entrada e locais de fixação dos imigrantes que se
estabelecem em Moçambique; e
(v) Analisar os factores que tornam Moçambique num centro de convergência de
imigrantes.

1.3. Metodologia

A realização do estudo começou com uma pesquisa bibliográfica com vista a identificar obras de
autores que abordam o assunto em estudo. A pesquisa bibliográfica permitiu aos pesquisadores
entrar em contacto directo com todos os escritos sobre a imigração, o que possibilitou o
reconhecimento de aspectos importantes que cercam o tema em estudo. Foram também colhidos
dados estatísticos da situação dos imigrantes em Moçambique.

Após o levantamento bibliográfico, foi realizado um estudo de campo que foi conduzido por uma
equipa de pesquisadores do CEEI/ISRI. A equipa de pesquisadores foi composta por especialistas
de acordo com as exigências que a pesquisa impõe. Foram combinados pesquisadores
envolvendo o departamento de economia; departamento de estudos sociais, políticos e culturais e
o departamento de estudos de paz e segurança.

A pesquisa de campo compreendeu duas técnicas fundamentais: A primeira técnica foi baseada
em entrevistas abertas individuais e colectivas a grupos alvos constituídos por opinion leaders
(empresários, jornalistas, organizações da sociedade civil, académicos, líderes sindicais,
directores provinciais, líderes religiosos, deputados e lideres de partidos políticos) e alguns
imigrantes, a segunda técnica baseou-se num inquérito a opinião pública, principalmente nas
zonas de entrada e fixação de imigrantes. Após o trabalho de campo seguiu-se ao processamento
da informação recolhida e a produção do relatório de pesquisa obedecendo o método SWOT, que
consistiu na avaliação dos pontos fortes, as fraquezas, as oportunidades e as ameaças da presença
de imigrantes em Moçambique.

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Em ternos de amostra, foram escolhidas 7 províncias receptoras do maior número de imigrantes
nomeadamente Maputo, Sofala, Manica, Nampula, Tete, Cabo Delgado e Niassa. A escolha dos
distritos foi baseada em dois critérios que compreenderam: distritos fronteiriços e costeiros e os
grandes centros urbanos. Em termos gerais, a identificação de entrevistados da opinião pública
foi baseada numa amostragem aleatória da população das regiões alvas. Uma amostragem
probabilística aumenta substancialmente a chance dos participantes serem representativos da
população-alvo, assegurando a validade interna e externa do estudo.

2. ENQUADRAMENTO TEÓRICO CONCEPTUAL

2.1. Debate Conceptual

Existe no seio dos analistas políticos, sociólogos, um conceito difuso sobre imigração e
imigrantes. Talvez por ser uma realidade recente para Moçambique, não existe muito rigor na
definição do conceito de imigrantes e muito menos uma definição clara da política de imigração.
Existem também vários entendimentos sobre o conceito de refugiados. Muitas vezes, o conceito
de imigrante é substituído pela categorização étnica dos indivíduos como por exemplo, Chineses,
Nigerianos, Portugueses ou pela categorização racial como por exemplo, brancos, árabes e
negros. O termo imigrante só é usado por um grupo esclarecido de políticos, tecnocratas,
estudantes universitários ou pela média e mesmo aqui, o conceito aparece pouco esclarecido. A
maioria dos moçambicanos ainda vê o branco, o indiano e o árabe como estrangeiro,
considerando somente os negros como nacionais. Esta definição baseada na cor da pele
demonstra um desconhecimento quase geral da situação dos naturalizados e aqueles
moçambicanos de raça não negra que adquiriram a nacionalidade moçambicana na altura da
independência. Para além disso são a raiz de sentimentos racistas, muitas vezes manifestados
pelos moçambicanos negros nas situações do dia-a-dia.

Os equívocos conceptuais e a falta de clarificação do conceito de imigrante são em si uma


ameaça a ordem social e política do Estado moçambicano, principalmente se estes equívocos
permanecerem nas médias e ao nível do discurso político. Para o inicio da nossa clarificação, é
necessário que fique assente o seguinte: 1) nem todo o não negro é estrangeiro, 2) nem todo o

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negro é moçambicano e 3) nem todo o estrangeiro é imigrante. Poucos instrumentos jurídicos
moçambicanos esclarecem de uma forma clara e objectiva o que é o cidadão imigrante, e sequer
existe um conceito oficial de imigração. Existe portanto um vazio no que diz respeito ao conceito
de imigrante em Moçambique. Ao observar-se as leis No 5/93, o decreto-lei 57/2003 de 11 de
Dezembro, e a lei do trabalho No 23/2007 de 1 de Agosto, facilmente se constata que a
terminologia imigrante não é usual, sendo mais frequente a terminologia estrangeiro. De acordo
com a lei 5/93, estrangeiro é todo o cidadão que não tenha a nacionalidade moçambicana. Esta
definição não espelha claramente o que é um imigrante pois, nem todo o estrangeiro é imigrante.
Por outro lado, a legislação moçambicana prefere definir trabalhador estrangeiro e não
trabalhador imigrante. A questão que se coloca é: qual é o conceito de imigrante utilizado em
Moçambique?

O conceito mais conhecido e comummente aceite considera imigração como o movimento de


entrada, com ânimo permanente ou temporário e com a intenção de trabalho e/ou residência, de
pessoas ou populações, de um país para outro. (REF) Como se pode ver por esta definição,
existem 3 critérios fundamentais para definir imigrante: 1) transpor as fronteiras de um outro
Estado; 2) tempo de estadia e 3) intenção de trabalhar ou residir em um outro Estado. O acto de
transpor a fronteira de um outro país, não confere, por si só, categoria de imigrante ao cidadão
estrangeiro. Para que isso aconteça, o cidadão estrangeiro deve permanecer no país hospedeiro
por um médio ou longo período de tempo. Todo aquele que permaneça um curto período de
tempo não deve ser considerado imigrante pois, a sua intenção é fazer turismo, visitar, fazer
negócios ou transitar para outro país. Na concepção deste trabalho, existe uma necessidade de
adicionar um outro critério importante, a vontade dos indivíduos. Para que o indivíduo seja
considerado imigrante é necessário que ele tenha vontade de sair do seu país e vontade de
permanecer noutro país.

Normalmente, os indivíduos que são forçados a abandonar o seu país por motivos de conflito,
guerras, perseguição, genocídio, limpezas étnicas, não são considerados imigrantes, sendo
considerados refugiados. (REF) O facto de terem transposto a fronteira de um outro Estado e
permanecerem temporariamente não lhes coloca na situação de imigrantes e o seu estatuto é
protegido pela legislação internacional específica. Para além disso, deve existir uma distinção

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entre os estrangeiros que estão no país a convite do Estado ou empresas moçambicanas, os
estrangeiros enviados pelos seus estados ou organizações internacionais para trabalhar em
Moçambique e os estrangeiros que vem a Moçambique por vontade e iniciativa própria.
Normalmente, os indivíduos que se estabelecem no país estrangeiro por convite do Estado ou
empresas do país hospedeiro ou que tenham sido enviados por representação pelos seus estados
ou organizações internacionais não são considerados imigrantes.

A título de exemplo, de acordo com a Convenção Internacional sobre a Protecção dos Direitos de
Todos os Trabalhadores Migrantes e dos Membros das suas Famílias, não são considerados
trabalhadores imigrantes os indivíduos que trabalham nas representações diplomáticas e
consulares, os indivíduos enviados para trabalhar em outro país por agências ou organizações
internacionais e pessoas enviadas ou empregadas por um Estado fora do seu território para
desempenhar funções oficiais, cuja admissão e estatuto são regulados pelo direito internacional
geral ou específico por acordos ou convenções internacionais. Pessoas enviadas ou empregadas
por um Estado ou em seu nome fora do seu território que participam de programas de
desenvolvimento e outros programas de cooperação, cuja admissão e estatuto são regulados por
acordo com o Estado de emprego e que, em conformidade com esse acordo, não são
considerados trabalhadores migrantes.

Com base nos pressupostos acima referidos, podemos assumir que imigrantes são os indivíduos
que se estabelecem voluntariamente num território, de forma temporária ou permanente com
intenção de trabalhar e/ou residir no território nacional. Apesar de este conceito deixar claro
quem é o imigrante, ainda existem zonas de penumbra em relação as populações que vivem nas
zonas fronteiriças. Quando é que os cidadãos da fronteira se tornam imigrantes é uma questão
que preocupa aos moçambicanos. Torna-se particularmente difícil quando as populações dos dois
lados da fronteira se consideram uma comunidade, falam a mesma língua, possuem nomes
semelhantes, casam-se entre si e possuem traços raciais e fenotípicos semelhantes. Quem é
quem, é uma questão complicada. A fronteira fictícia definida em termos geopolíticos não é
sentida nem reconhecida em termos socio-antropológicos. A circulação não é feita de um país
para o outro mas sim de uma casa para outra. Estas populações são incapazes de definir onde é a
sua casa e quando a adversidade se instala numa das casas mudam-se para outra casa sem

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obedecer as regras internacionais. Adicionado a estes factores, deve-se lembrar que durante o
conflito armado muitos moçambicanos foram viver nos países vizinhos e criaram laços de
parentesco e casamento nesses países. Hoje, é difícil distinguir o moçambicano da nova família
ou da família adoptiva.

Segundo alguns autores, REF a definição de imigrante fica associada a questão distância.
Enquanto o malawiano mantiver família em Moçambique nos limites da fronteira não é
considerado imigrante mas, a medida que se introduz para o interior do país é considerado
imigrante. Na verdade, existe um acordo entre Moçambique e os países vizinhos que permite as
populações fronteiriças circularem livremente num raio de 20 km. Neste sentido, o conceito de
violação de fronteiras é mais virtual do que prático, uma vez que as fronteiras nacionais são
abertas e a demarcação fronteiriça não obedece sempre a marcos geográficos evidentes. O debate
sobre a pessoa do imigrante ainda oferece outras zonas de penumbra que devem ser clarificadas
por novos estudos sobre a matéria.

2.2. Teorias Sobre Imigração

Até hoje não foi possível fazer uma grande teoria da imigração nem uma teoria interdisciplinar
porque cada disciplina tem a sua linguagem conceptual e analítica, métodos e conhecimento
epistemológico. Por outro lado, são poucos os trabalhos teóricos que abordam o impacto dos
imigrantes nos países de acolhimento, sendo frequente a discussão em relação ao impacto dos
imigrantes sobre os países de origem. As principais teorias da imigração abordam as razões da
imigração. Dentre as teorias que explicam as razões da imigração existe um denominador
comum: a relação salário, melhores condições de vida e imigração.

2.2.1 Modelo de migração do capital humano

De acordo com o modelo de migração do capital humano (REF), que é a teoria mais aplicada
para explicar movimentos migratórios, o homem movido pela sua racionalidade, imigra dos seus
mercados para outros mercados motivados pelos elevados salários e melhores condições de
trabalho. Esta tendência pode ser comprovada pela migração sul-norte no sentido América latina

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- América do norte, África, médio oriente, Europa do leste para a Europa ocidental e inclusive
pela migração África austral para África do sul. De acordo com esta teoria, o processo de
imigração é auto-selectivo, no sentido de que só vai imigrar quem tem condições de financiar os
custos inerentes a migração (passaporte, viagem e todos os bens e serviços pagos no processo de
migração, incluindo o reassentamento no local de destino).

Segundo esta teoria, terá mais propensão para migrar aquele que tenha condições de financiar
estes custos, na expectativa de recuperar o investimento com os salários altos do país de
acolhimento. O modelo de migração do capital humano observa a relação entre salários no país
de origem e salários no país de acolhimento, observa também a relação entre empregos no país
de origem e empregos no país de acolhimento. Apesar de largamente divulgada e difundida,
principalmente nos países do ocidente, o modelo de migração do capital humano não consegue
explicar as tendências migratórias para países como Moçambique, onde a existência de empregos
é escassa e os salários são mais baixos do que a média regional.

2.2.2 Teoria do sistema mundial

A teoria do sistema mundial vê o mundo como estando constituído por um centro e uma
periferia. O centro seria mais desenvolvido, mais industrializado, com mais trabalho e melhores
salários e a periferia seria menos desenvolvida, menos industrializada, com poucos empregos e
com baixos salários (Goldstein, 2003:464-465). Esta teoria admite que os trabalhadores da
periferia querem imigrar para o centro a busca de trabalho e melhores salários, factor que explica
a mobilidade de trabalhadores imigrantes que saem da África, médio oriente, Europa do leste
para a Europa ocidental e da América latina para a América do norte.

A teoria do sistema mundial admite também que a periferia também tem os seus centros. A
África do Sul pode ser considerada o centro da África Austral, ao nível nacional, Maputo seria o
centro e as outras províncias a periferia. O mesmo padrão de migração se verifica na periferia da
periferia para o centro da periferia. Esta teoria sustenta que o sistema mundial é caracterizado por
hierarquias sobrepostas (Goldstein, 2003:465).

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2.2.3 Teoria da modernização

Os primeiros estudos sobre imigração internacional baseavam-se na teoria da modernização que


distinguia o mundo em dois pólos: um desenvolvido e outro pobre. De acordo com esta teoria, as
migrações eram motivadas por dois factores: os factores repulsivos (push factors) e os factores
atractivos (pull factors). Esta teoria assenta na assumpção de que existem dois sectores da
economia: um moderno e outro tradicional que trocam para além de bens e produtos, factores de
produção como a mão-de-obra. Movidos pela tomada de decisão racional, os indivíduos saem do
sector tradicional para o sector moderno que oferece melhores salários (Brettell, 2008: 118).
Ainda na assumpção desta teoria, as pessoas deslocam-se dos locais onde abunda mão-de-obra
para os locais onde abunda capital. De acordo com a teoria da modernização, esta tendência
contribui para o desenvolvimento dos locais de origem pois os imigrantes enviam os seus
rendimentos para a origem e esse dinheiro seria usado para investimentos. Para além disso, uma
vez regressados a origem os conhecimentos adquiridos seriam aplicados para o desenvolvimento
do local de origem (Brettell, 2008:119).

Vários são os autores que contestam a teoria da modernização defendendo que nem sempre o
dinheiro enviado é usado para investimentos mas sim, para o consumo e, uma vez regressado, o
imigrante não encontra as condições materiais para aplicar os seus conhecimentos. Em vez de
criar desenvolvimento, a imigração cria comunidades dependentes e consumistas. Motivadas
pelo consumismo e devido a sua dependência, as gerações de imigrantes vão se sucedendo
perpetuando a ligação entre o país de acolhimento e o local de origem. Apesar da teoria da
modernização ser contestada na generalidade, os conceitos de push/pull ainda são dominantes na
análise sobre movimentos migratórios (Brettell, 2008:119). Factores de repulsão: guerra,
violência, perseguição étnica e política, abusos aos direitos humanos, estagnação económica,
fome, e outros.

2.2.4 Teoria da globalização

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De acordo com a teoria da globalização, a nova onda de imigração internacional é uma
consequência directa do processo de globalização. A globalização por seu turno, é um conjunto
de transformações sociais, políticas e económicas que vem acontecendo nas últimas décadas
motivadas pela integração da economia mundial e dos mercados nacionais numa economia
global movido pelas grandes corporações internacionais. Os estados abandonam gradualmente as
barreiras tarifárias e abrem-se ao comércio e ao capital internacional. Este processo tem sido
acompanhado por uma intensa revolução nas tecnologias de comunicação e informação. Os
efeitos dessa rapidez de comunicação e informação ultrapassam a dinâmica económica e
provocam a uniformização e a homogeneização da cultura das sociedades. Motivando o
surgimento de uma aldeia global. Os países moldam-se para atrair investimentos de toda espécie
e surge uma grande competitividade entre os estados. No entanto, a aceleração económica e a
competitividade não beneficia a todos os estados pois, existem ganhadores e perdedores.

Neste mundo sem fronteiras, a mobilidade do capital e do comércio provocam uma crescente
mobilidade de mão-de-obra dos países perdedores para os países ganhadores tanto do centro
como da periferia. Para além da mobilidade de mão-de-obra entre países assiste-se a mobilidade
de capital e tecnologia de uma região para outra. Os estados tornam-se incapazes de controlar
esta dinâmica que extrapola os seus limites territoriais pois, uma vez iniciada, ela se garante por
meio de redes regionais de comércio, produção, investimento e comunicação. O entra e sai de
pessoas é ao mesmo tempo obrigatório porque dinamiza toda uma economia de produção e
consumo. É perigoso porque os estados perdem a capacidade de suportar o elevado índice de
estrangeiros nos seus territórios. Todavia, os estados resistem e continuam a desempenhar o
papel de actores privilegiados e detentores da soberania sobre os seus territórios impondo regras
de entrada e saída dos factores de produção como capital, mão-de-obra e tecnologia. No entanto,
os estados sentem que existe uma grande interdependência entre eles e por força disso pactuam e
negoceiam cedências mútuas.

3. ENQUADRAMENTO LEGISLATIVO

3.1. Legislação Internacional

13
Para uma avaliação sobre o impacto sociopolítico, económico e cultural dos imigrantes em
Moçambique, torna-se necessário conhecer a margem de actuação que estes gozam pela
legislação internacional e pela legislação nacional. Antes de se avaliar o impacto dos imigrantes
é preciso perceber o que a lei permite e que oportunidades ou dificuldades ela cria na vida do
imigrantes. O primeiro instrumento internacional que estabelece a liberdade dos indivíduos
deslocarem-se para outros países é a declaração universal dos direitos do homem assinada a 10
de Dezembro de 1948 pela Organização das Nações Unidas (ONU), que nos seus artigos 13 e 14
defendem o seguinte: Artigo 13 (1) Todo o homem tem direito à liberdade de se movimentar e
residir dentro das fronteiras dos Estados. (2) Todos têm o direito de deixar qualquer país,
inclusive o seu próprio país, e tem o direito de regressar ao seu país. Artigo 14 (1) Todo o homem
tem o direito de procurar e de gozar de asilo em outros países em caso de perseguição. O artigo 6
da mesma convenção defende que, toda gente tem o direito a ser reconhecida como uma pessoa
em qualquer país e perante a lei. Os membros das representações diplomáticas e consulares,
apesar de residentes num país estrangeiro e exercerem actividades laborais no estrangeiro não
são considerados imigrantes, o seu estatuto jurídico é regulado pela convenção de Viena sobre
relações Diplomáticas de 18 Abril 1961 e a convenção de Viena sobre relações consulares de 24
Abril 1963.

A par dos esforços da ONU, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) tem empreendido
vários esforços na protecção dos imigrantes desde a sua criação em 1919, particularmente na
protecção dos trabalhadores imigrantes. As duas principais convenções da OIT, relativas aos
trabalhadores imigrantes são: a Convenção Relativa aos Trabalhadores Migrantes (convenção No
97 de 1949, que faz uma revisão da convenção sobre trabalhadores migrantes de 1939) e a
Convenção Sobre as Imigrações Efectuadas em Condições Abusivas e Sobre a Promoção da
Igualdade de Oportunidades e de Tratamento dos Trabalhadores Imigrantes (convenção No 143
de 1975). A convenção Nº 97, artigo 4,obriga os estados membros da OIT a facilitarem a partida,
viagem e acolhimento dos trabalhadores imigrantes e, artigo 6, obriga os estados a concederem
aos imigrantes tratamento igual ou que não seja menos favorável àquele que beneficiam os
nacionais, em matéria de legislação laboral, no tocante a remunerações, filiação, organizações
sindicais e segurança social. O artigo 9 desta convenção obriga os estados signatários a

14
permitirem remessas de dinheiro por parte dos imigrantes em conformidade com a legislação
monetária nacional.

A convenção Nº143 da OIT trata, na Parte I, das migrações em condições abusivas, e na Parte II
da igualdade de oportunidade e de tratamento. Na primeira parte, a convenção alerta para os
perigos e a obrigatoriedade dos estados evitarem o emprego de imigrantes ilegais e o trânsito de
migrantes clandestinos. O artigo 6 desta convenção convoca os estados a tomarem medidas
punitivas para os empregadores de imigrantes clandestinos e para a detecção dos imigrantes
ilegais. Na segunda parte, a convenção reafirma, no artigo 10, as disposições relativas a
igualdade de tratamento em matéria de emprego e profissão, segurança social, direitos sindicais,
culturais, liberdades individuais e colectivas para aqueles que se encontrem legalmente nos seus
territórios. O artigo 12, obriga os estados a informarem sobre os direitos e obrigações dos
imigrantes e os mecanismos para sua protecção e convida os estados a preservarem as
identidades culturais e étnicas, os laços culturais com os seus países de origem assim como dar
possibilidade das crianças dos imigrantes a oportunidade de terem uma educação na sua língua
materna.

Para fortalecer os postulados relativos aos imigrantes, a ONU adoptou em 1985 a declaração dos
direitos humanos dos indivíduos que não são nacionais dos países onde vivem. Segundo esta
declaração, no seu Artigo 5, Os estrangeiros gozam vários direitos, em conformidade com a
legislação nacional e em função das obrigações internacionais do Estado em que estão presentes.
Dentre os vários direitos foram incluídos, o direito à vida e à segurança pessoal; o direito à
protecção contra interferências arbitrárias ou ilegais na sua vida privada, família, no lar ou na sua
correspondência; o direito de ser iguais perante os tribunais e todos os outros órgãos e entidades
da administração da justiça; o direito para escolher um cônjuge, para casar e fundar uma família,
o direito à liberdade de pensamento, de opinião, consciência e religião; o direito de manifestar
sua religião ou crença; o direito de manter sua própria língua, cultura e tradição; o direito de
transferir o seu salário, poupanças, e outros bens monetários para o estrangeiro nos termos das
regras monetárias do país de acolhimento; o direito à liberdade de expressão; o direito de reunião
pacífica; o direito à propriedade; o direito à liberdade de circulação e a liberdade de escolher sua
residência no interior do Estado; e ainda, o estado de acolhimento deve autorizar que o cônjuge e

15
filhos menores ou dependentes de um estrangeiro que reside legalmente no território do Estado
deve ser admitido para acompanhar, participar e ficar com o estrangeiro. A declaração estabelece
no artigo 8 algumas disposições relacionadas com os trabalhadores imigrantes defendendo que os
estrangeiros têm direito a salários justos e iguais por trabalho de igual valor e o direito de aderir a
sindicatos e outras organizações ou associações similares.

O instrumento normativo mais importante para a defesa dos trabalhadores imigrantes é a


convenção internacional para protecção de todos os trabalhadores migrantes e os membros das
suas famílias, adoptada pela ONU a 10 de Dezembro de 1990. Esta convenção reafirma todos os
pressupostos da declaração dos direitos humanos dos indivíduos que não são nacionais dos
países onde vivem e acrescenta postulados relativos a proibição da escravatura e servidão; a
proibição do trabalho forçado exalados no artigo 11 e 23; esta convenção afirma no artigo 16, o
direito a protecção diplomática e consular a todos os imigrantes e os membros das suas famílias
em casos de detenção por actos criminais. O artigo 25 acrescenta que os trabalhadores imigrantes
têm direito a boas condições de trabalho, horas extras, horas de trabalho estabelecidas por lei,
descanso semanal, férias remuneradas, a segurança social, a saúde, a cessação da relação de
trabalho e quaisquer outras condições de trabalho que, de acordo com a legislação e a prática
nacionais, são abrangidas aos trabalhadores nacionais.

Para além destes instrumentos específicos e centrais, a ONU desenvolveu vários outros
instrumentos destinados a protecção dos estrangeiros. Um destes instrumentos é o Protocolo para
Prevenir, Suprimir e Punir o Tráfico de Pessoas, Especialmente Mulheres e Crianças, que
complementa a Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional,
adoptado a 15 de Novembro de 2000. Um dos objectivo deste protocolo, estabelecido no artigo
6, é convidar os estados a proteger e assistir as vítimas do tráfico e garantir o respeito pelos
direitos humanos. Por sua vez, o artigo 7 convida os estados a aceitarem a permanecia definitiva
ou temporária das vítimas de tráfico no seu território. O outro instrumento é o Protocolo contra o
Contrabando de Migrantes por Terra, Mar e Ar, adicionado à Convenção das Nações Unidas
contra o Crime Organizado Transnacional, adoptado a 15 de Novembro de 2000. Um dos
objectivos deste protocolo é prevenir e combater o contrabando de imigrantes e proteger os
direitos dos imigrantes contrabandeados. A Declaração sobre os Direitos das Pessoas

16
Pertencentes a Minorias Nacionais ou Étnicas, Religiosas e Linguísticas adoptado a 18 de
Dezembro de 1992, é outro instrumento de importante valor para a protecção dos imigrantes nos
países de acolhimento. De acordo com esta declaração, no artigo 1, os estados devem proteger a
existência e a identidade nacional ou étnica, cultural, religiosa e linguística das minorias dentro
dos respectivos territórios e devem incentivar as condições para a promoção dessa identidade.

Como se pode depreender, a legislação internacional criou instrumentos normativos para


proteger a pessoa do imigrante nos países de acolhimento. A concessão de direitos e liberdades
fundamentais aos imigrantes pela legislação internacional tem um efeito determinante no
comportamento dos imigrantes e possibilita-lhes exercerem qualquer actividade, dentro dos
limites da lei, nos países de acolhimento e, a partir daí afectarem positivamente no
desenvolvimento económico desses países.

3.2. Legislação Nacional

A imigração não é um fenómeno novo na história de África e de Moçambique. Desde os tempos


mais remotos, o livre movimento de pessoas entre as várias regiões de África respondeu ao
anseio natural dos homens pela sua sobrevivência. As práticas de nomadismo só reduziram com
o advento da agricultura e quando os homens passaram a assumir a terra como propriedade
privada e estabeleceram-se os primeiros estados. As instituições dos estados primitivos
estabeleceram normas e regras de entrada e permanência de indivíduos em territórios já
ocupados. Por regra, só podia se estabelecer num território ocupado aquele que partilhasse laços
familiares, étnicos, culturais ou linguísticos com os proprietários do território. Apesar destas
regras, as constantes migrações devido aos atractivos económicos e ambientais obrigaram os
estados a aceitarem indivíduos de outras etnias concedendo-lhes espaço para habitação e cultivo.
Porém, estes indivíduos eram diferenciados do resto da população. A noção de estrangeiro já
existia e estes não gozavam dos mesmos direitos e deveres dos naturais. Estas normas e regras
primitivas vigoraram em África até o início da colonização europeia.

Com o inicio da colonização, comummente definido depois da partilha de África (na conferencia
de Berlim em 1884-85), a livre circulação de pessoas no continente africano sofreu grandes

17
mudanças. A conferência de Berlim definiu a necessidade das potências colonizadoras
estabelecerem fronteiras de ocupação de forma a delimitar os seus territórios a semelhança do
que era prática no continente europeu. Por força desta determinação, o livre movimento dos
africanos ficou muito restringido e praticas de nomadismo deixaram de existir. Cada potência
controlava o seu território e a sua população impedindo a fuga de mão-de-obra para outras
colónias.

O princípio da soberania estabelecida no tratado de Westphalia determinou que os estados


tenham direito sobre o seu território e os seus habitantes podendo impor as condições de entrada
e saída do seu território aos nacionais e não nacionais. Este controlo é um dos pilares da
soberania do estado e foi aplicado pelas potências europeias nas suas colónias africanas. Com o
advento das independências africanas (1960), houve um acordo entre os estados africanos
defendendo a irreversibilidade das fronteiras coloniais. Sendo assim, as novas nações passaram a
ser definidas em função das fronteiras coloniais. Todos os residentes no território até a altura da
independência eram considerados nacionais e todo o não residente passou a ser estrangeiro. A
partir dai, os estados africanos passaram a adoptar normas e regras de controlo fronteiriço
estabelecidos pelas ex-metrópoles e adoptaram as normas internacionais relacionados com esta
matéria. O controlo fronteiriço imposto durante o período colonial passou a ser exercido pelos
estados recém independentes o que significou a continuação das políticas migratórias das
metrópoles. A política de imigração dos estados africanos passou a servir 4 objectivos principais
(incentivar, seleccionar, restringir e impedir o movimento migratório). Desde o surgimento do
estado hobbesiano, os estados vem estabelecendo normas e regras para controlar o movimento de
pessoas tanto nacionais como estrangeiros no território nacional. Muitos destes instrumentos,
estabelecidas nas leis orgânicas dos Estados obedecem aos interesses e motivações dos estados
individuais e também das normas e regras internacionalmente criadas. O primeiro instrumento
que regula a relação entre o Estado e os cidadãos residentes em Moçambique é a constituição da
república. Com efeito, o artigo 35 da constituição afirma que todos os cidadãos são iguais
perante a lei, gozam dos mesmos direitos e estão sujeitos aos mesmos deveres,
independentemente da cor, raça, sexo, origem étnica, lugar de nascimento, religião, grau de
instrução, posição social, estado civil dos pais, profissão ou opção política.

18
As normas sobre entrada, permanência e saída do cidadão estrangeiro em Moçambique são
actualmente regidas pela lei 5/93 de 28 de Dezembro, que estabelece o regime jurídico do
cidadão estrangeiro em Moçambique e pelo regulamento da lei 5/93 aprovado pelo Decreto n.º
38/2006, de 27 de Dezembro que estabelece os procedimentos a tomar em função da lei. De
acordo com o artigo 4 desta lei, o cidadão estrangeiro que resida ou se encontre em território
nacional, goza dos mesmos direitos e garantias e está sujeito aos mesmos deveres que o cidadão
moçambicano, excluindo os direitos políticos e os demais direitos e deveres expressamente
reservados por lei ao cidadão nacional. A mesma lei obriga ao cidadão estrangeiro que queira
entrar em Moçambique que se apresente nos postos fronteiriços oficialmente estabelecidos com
toda a documentação necessária e que esteja munido de um visto em conformidade com a
duração e os objectivos da sua estadia no país. Todo aquele que entre no território nacional sem
passaporte, com passaporte falso ou caducado, ou ainda, os que entram por postos não
habilitados são considerados migrantes clandestinos.

Em relação ao trabalhador imigrante, o governo estabeleceu, através do decreto-lei 57/2003 de


11 de Dezembro, os procedimentos para a contratação de cidadãos de nacionalidade estrangeira
visando regular o regime jurídico do trabalho de estrangeiros em território nacional. De acordo
com esta lei, no artigo 1, A contratação de cidadãos de nacionalidade estrangeira por entidades
empregadoras nacionais e estrangeiras fica sujeita à autorização do Ministro do Trabalho ou de
quem este delegar. O artigo 2 da mesma lei estabelece como condição para a contratação de
estrangeiros que A autorização para contratação de trabalhadores estrangeiros fica condicionada
à comprovação pelo Centro de Emprego do Instituto Nacional de Emprego e Formação
Profissional de que possuem qualificações académicas ou profissionais necessárias e que não
existem cidadãos nacionais que possuam tais qualificações ou o seu número seja insuficiente.
Para além deste dispositivo que vela pela situação dos trabalhadores nacionais, a presente lei
estabelece no artigo 6 que, As entidades empregadoras devem criar condições para a integração
de trabalhadores moçambicanos nos postos de trabalho de maior complexidade técnica e em
lugares de gestão e administração das empresas. O Artigo 11 desta lei prevê Sanções para as
empresas que não observem as normas legais, sendo que, a empresa prevaricadora pode ser
punida, por cada trabalhador estrangeiro em relação ao qual se verifique a infracção, com a multa
de dez a oitenta salários mínimos e o trabalhador estrangeiro fica imediatamente suspenso.

19
Ainda em relação a contratação de trabalhadores estrangeiros, a lei do trabalho, lei No 23/2007
de 1 de Agosto, afirma no Artigo 31, que o trabalhador estrangeiro, que exerça uma actividade
profissional no território moçambicano, tem o direito à igualdade de tratamento e oportunidades
relativamente aos trabalhadores nacionais, no quadro das normas e princípios de direito
internacional e em obediência às cláusulas de reciprocidade acordadas entre a República de
Moçambique e qualquer outro país. Sem prejuízo do disposto no número anterior, pode o Estado
moçambicano reservar exclusivamente a cidadãos nacionais determinadas funções ou actividades
que se enquadrem nas restrições ao seu exercício por cidadão estrangeiro, nomeadamente em
razão do interesse público. A lei do trabalho introduz novas clausula não previstas no decreto-lei
57/2003 ao determinar, no artigo 34, quotas de admissão de trabalhadores estrangeiros,
consoante o tipo de classificação de empresa:

a) 5% Da totalidade dos trabalhadores, nas grandes empresas;


b) 8% Da totalidade dos trabalhadores, nas médias empresas;
c) 10% Da totalidade dos trabalhadores, nas pequenas empresas.

Há empresas que admitem trabalhadores a margem da cota mas precisam de autorização. Não
basta admitir estrangeiros, a lei defende que a admissão de estrangeiros só pode acontecer no
caso de não existir nacionais com aquela qualificação. Se o país possuir cidadãos com aquelas
qualificações não é permitida a contratação dos estrangeiros. A empresa deve justificar que fez
pesquisa nacional e que não achou moçambicanos com capacidades. A excepção a regra são os
grandes projectos. A prioridade para o emprego é dada ao nacionail. O estado fiscaliza, através
da inspecção do trabalho, que controla a legalidade laboral se há contratados sem autorização o
estado suspende o estrangeiro. Para além deste controlo, o Estado veda, pelo artigo 32 da lei do
trabalho, que se contrate estrangeiros que tenham entrado no país mediante visto diplomático, de
cortesia, oficial, turístico, de visitante, de negócios ou de estudante.

Como seleccionar os imigrantes que o país precisa admitir é um desafio para o estado
moçambicano. Países europeus, americanos, asiáticos e até latino americanos têm uma política
de migrações que veda a entrada de imigrantes não-económicos e com poucos ‘skills’ (habilidade

20
definidas de forma mais alargada desde conhecimentos, aptidões, capital, etc). Muitos países que
procuram mão-de-obra procuram acima de tudo avaliar a qualidade desta força de trabalho,
concedendo visas a pessoas em função das suas habilidades, nível escolar, qualificações, estado
de saúde, níveil de vida e o estatuto financeiro (Chiswick, 2008.64). Para que o país possa
seleccionar melhor os imigrantes que pretende, deve estabelecer de uma forma bem clara a sua
política de imigração. Até hoje, Moçambique só estabeleceu leis que determinam as regras de
entrada, permanecia e saída de imigrantes. Torna-se urgente estabelecer políticas com estratégias
claras de imigração.

4. CARACTERIZAÇAO DE IMIGRANTES EM MOÇAMBIQUE: ORIGENS, ROTAS


DE ENTRADA E LOCAIS DE FIXAÇAO DE IMIGRANTES.

Moçambique está na rota da imigração desde a independência, em 1975. Nesta altura, o país
recebeu imigrantes no contexto do apoio às lutas contra o colonialismo e imperialismo e luta dos
povos pela sua libertação nacional, com base nos artigos 4 e 21 da Constituição de 1975. Além
disso, houve casos de cidadãos dos países socialistas e capitalistas, os chamados “cooperantes”,
que se estabeleceram em Moçambique e, inclusive, se tornaram Moçambicanos. Com efeito, o
Estado promoveu, de certa forma, uma imigração politicamente selectiva cujo fluxo esteve sob
controlo. Este controle foi, até certo ponto, igualmente, assegurado pela situação político-
económica caracterizada por guerra de desestabilização e crise económica de tal forma que o
fluxo de imigração forçada, voluntária, legal e ilegal era baixo até 1992, altura da assinatura dos
Acordos Gerais de Paz (AGP) e 1994, ano da realização das primeiras eleições gerais
(presidenciais e legislativas) multipartidárias.

Contudo, desde de 1992-1994, o fluxo e a complexidade da imigração cresceram. Com efeito,


enquanto os registos oficiais demonstram uma entrada maciça de imigrantes legais e ilegais, os
registos de estrangeiros residentes tende a flutuar muito porquanto Moçambique representa, ao
mesmo tempo, um país de acolhimento e de trânsito. Neste contexto, as estatísticas da imigração
nacional variam muito e a capacidade estatal de controlo está a ser posta em causa, de acordo
com evidências empíricas.

21
4.1 Origens dos imigrantes

A imigração politicamente motivada acolheu, maioritariamente, políticos, guerrilheiros e


activistas da África do Sul, Zimbabwe, Palestina e Timor-Leste que lutavam pela libertação dos
seus povos. Esta onda de imigração forçada e legal durou cerca de 5 anos para os
Zimbabweanos, mais de uma década no caso dos Sul-africanos, mais de 20 anos para os
Timorenses e prevalece uma abertura para o caso dos palestinianos. Com efeito, muitos destes
imigrantes regressaram às suas origens de tal forma que esta onda de imigração não foi
problemática do ponto de vista demográfico e permaneceu selectiva em relação as
nacionalidades.

No entanto, depois de 1992-1994, o número de imigrantes e a variedade de nacionalidades


alargou-se através de três grandes ondas de imigração. A primeira foi dominada por Portugueses
que, alegadamente, retornavam ao país para reaver os bens deixados após a independência. A
segunda, foi caracterizada pelo predomínio de Asiáticos, com particular destaque para
Paquistaneses e Bengalis que, supostamente, procuravam melhores condições sócio-económicas.

A terceira onda de imigração é actual e nela se destacam imigrantes provenientes da Ásia


(maioritariamente Chineses, paquistaneses, indianos e bengalis) e do Médio oriente
(principalmente libaneses) e da América (fundamentalmente do Brasil). No entanto, esta terceira
onda é dominada pela imigração massiva de africanos, principalmente da África Austral, dos
Grandes lagos, da África Ocidental e Oriental, de acordo com evidências empíricas. Sul-
africanos e Zimbabueanos são os principais imigrantes da África Austral em Moçambique.
Quanto aos Grandes Lagos, os Burundeses e os congoleses constituem as nacionalidades
preponderantes. Guineenses da Guiné Conacry, cidadãos do Benin, Senegaleses, Malianos,
Nigerianos e Camaroneses representam a África Ocidental. Por último, os Etíopes, os Somalis,
os Kenianos e os Tanzanianos compõem o grupo dos imigrantes originários da África Oriental.

22
As ondas de imigração pós AGP vieram suplantar do ponto de vista numérico e, inclusive, de
poder de influência, uma grande comunidade imigrante Indiana de várias gerações que esteve
presente em todo o país e tinha um grande protagonismo no domínio comercial. Neste contexto,
existe uma percepção de que os Portugueses, os Sul-africanos, os Burundeses, os Guineenses, os
Congoleses, os Nigerianos, os Somalis, os Libaneses, os Paquistaneses e os Chineses constituem
os grupos de imigrantes predominantes em Moçambique. No entanto, esta percepção não tem um
suporte estatístico oficial e fidedigno, pois dados quantitativos nacionais e internacionais sobre
os imigrantes em Moçambique não revelam a magnitude real em termos de nacionalidades dos
imigrantes legais e, muito menos, dos ilegais.

Na imigração africana, à excepção da Somália, do Burundi e da República Democrática do


Congo (RDC) onde a emigração foi, e é forçada por instabilidades político-militares, em todos os
outros casos a imigração em Moçambique é descrita como sendo voluntária e, alegadamente, por
motivos comerciais. Por seu turno, na imigração não africana, os Libaneses constituem um caso
de uma mistura entre a imigração forçada e voluntária enquanto nos outros grupos a imigração é,
essencialmente, voluntária.

4.1.1 Condição socioeconómica dos imigrantes em Moçambique.

A condição social dos imigrantes que se estabelecem em Moçambique é diversificada em função


da sua origem, isto é, os africanos e os não africanos. Quanto a imigração africana, destacam-se
duas situações completamente distintas. Por um lado existem pessoas pobres que lutam pela
sobrevivência e, por outro, indivíduos relativamente estáveis que possuem recursos financeiros e
procuram oportunidades para prosperar economicamente.

Com efeito, trata-se de um grupo de imigrantes maioritariamente camponês e de outro grupo


predominantemente comerciante, ambos com baixo nível de formação académica exceptuando
alguns casos raros. Estes grupos de imigrantes são, essencialmente, compostos por homens entre
os 21 e 40 anos de idade, maioritariamente falantes de Inglês e/ ou Francês num Moçambique
multi-linguístico mas que tem o Português como língua oficial. Entretanto, existe um grupo
considerável de imigrantes falantes da língua Árabe que se expressam com muita dificuldade

23
tanto em Inglês como em Francês, pois estas não são suas línguas. Esta barreira linguística,
associada a dificuldades económica, financeiras e a segurança, é considerada um
constrangimento à imigração em família. Entretanto, a barreira linguística tem sido minimizada
ao longo do processo de integração social, pois os imigrantes aprendem a língua portuguesa em
ambientes formais e informais.

Na caracterização do imigrante africano, em Moçambique, os Sul-africanos constituem uma


excepção em termos sócio-económicos, pois na sua maioria são, alegadamente, pessoas com um
elevado grau de formação e pertencem a “classe média”. Por um lado, estes possuem contratos
de trabalho para prestar serviços especializados em empresas, fundamentalmente, Sul-africanas
que operam em Moçambique. Por outro lado, dentro da imigração Sul-africana existe um número
significativo de pessoas que estão em Moçambique na condição de investidores estrangeiros,
fundamentalmente da “classe média/alta”, Boer falante de Afrikans e Inglês.

Quanto a imigração não africana, é importante distinguir os portugueses e os brasileiros e os


imigrantes da Ásia e Médio Oriente pela sua considerável expressão do ponto de vista numérico
e geográfico. Em relação aos Portugueses e Brasileiros, constata-se que também estão em
Moçambique muitos técnicos da “classe média/alta”, contratados para prestar serviços ou ocupar
cargos de confiança em empresas. Para ambos grupos, a língua não constitui uma barreira nos
objectivos dos imigrantes maioritariamente jovens que raramente trazem família.

Em relação aos imigrantes Asiáticos, os Chineses e os Paquistaneses constituem as


nacionalidades mais evidentes no seio da opinião pública. Os Chineses constituem um grupo que
está, igualmente, a prestar serviços, fundamentalmente, em empresas de construção civil. Estes
não trazem família e são, supostamente, pessoas desfavorecidas que encontram na imigração
uma oportunidade para melhorar a sua condição sócio-económica. Além disso, muitos estão a
ganhar conhecimentos básicos da língua portuguesa no ambiente informal dentro e fora trabalho.
Por seu turno, os Paquistaneses são, de grosso modo, vistos como indivíduos de uma condição
desfavorável mas que rapidamente atingem a prosperidade. Alias, esta percepção da facilidade de
prosperidade dos imigrantes é extensiva aos africanos. Mas, os Paquistaneses que trabalham no
ramo comercial são suspeitos de prosperar usando, alegadamente, meios ilegais.

24
A excepção dos sul-africanos, dos portugueses, dos brasileiros e chineses, a maioria dos
imigrantes professa a religião islâmica. Além disso, existe um número considerável de
imigrantes, particularmente africanos que desenvolvem a chamada medicina tradicional que tem,
alegadamente, tido um papel social positivo para muitas famílias Moçambicanas mas também é
altamente lucrativa.

Contudo, é importante colocar o alerta para a existência de uma alegada política de exportação
de pessoas com objectivos políticos e económicos que incluem a necessidade de assegurar
espaços de influência e oportunidades de internacionalização de empresas. Esta situação não
constitui uma novidade tomando como base ?????? (Huntington, 1997: 198). Além disso, o
processo de integração regional e a futura liberalização do mercado de trabalho podem ter uma
influência no fluxo de imigração para a África Austral e, particularmente para Moçambique, em
termos de extensão e intensidade.

A percepção e descrição da condição sócio-económica dos imigrantes possuem um valor


analítico importante para avaliar o grau de ameaça ou de oportunidade que a imigração
representa para Moçambique e para os Moçambicanos, por um lado. Por outro lado pode servir
para prever prováveis problemas contra os imigrantes. Assim, o Estado pode actuar de forma
proactiva e evitar surpresas estratégicas que podem ter impacto sócio-político, económico e
cultural negativo a nível doméstico e internacional.

Portanto, existe em Moçambique uma mistura de imigrantes qualificados e não qualificados,


pessoas da classe média/alta e de classe baixa. Entretanto, pela percepção da dimensão numérica,
os imigrantes não qualificados e de classe baixa constituem a maioria. Há, em Moçambique
imigrantes qualificados e não qualificados. A imigração qualificada é promovida pelo sector
económico, particularmente as empresas estrangeiras. Enquanto que a imigração não qualificada,
é livre e com, alegada, intervenção de uma rede de crime organizado que envolve Moçambicanos
e estrangeiros cujas nacionalidades não estão claramente identificadas. Este assunto é,
simultaneamente, nacional e transnacional, que requer uma abordagem multidisciplinar e de
grande cooperação entre Moçambique e os Estados vizinhos que devem assumir uma postura

25
proactiva. Esta atitude pode constituir uma forma de colmatar a fragilidade institucional do ponto
de vista estatístico e, quiça, em termos operacionais.

A fragilidade em termos de dados estatísticos é, actualmente, um problema institucional, na


caracterização dos imigrantes. Esta fragilidade institucional pode contribuir para o surgimento de
problemas estruturais a longo prazo, sob o ponto de vista demográfico, de planificação de
desenvolvimento e garantia de estabilidade sócio-política e segurança dos indivíduos bem como
do Estado se não for operacionalizada a cooperação intra-estatal e internacional.

Moçambique representa uma rota de trânsito para imigrantes ilegais e um destino (temporário ou
definitivo) para imigrantes legais. No entanto, esta percepção pode ser simplista se considerar
que foram constatados casos de imigrantes ilegais que não tinham Moçambique como destino
mas, uma vez no país, decidiram ficar, alegadamente, pelas facilidades existentes para a prática
de negócios. Além disso, a percepção de que há, em Moçambique, mais imigrantes ilegais do que
legais pode reduzir o peso da constatação de que “Moçambique, rota dos imigrantes ilegais e
destino dos legais”.

4.1.1 Categorias de imigrantes em Moçambique

Existem várias formas de categorização dos imigrantes. Neste contexto, os imigrantes podem ser
voluntários ou forçados, internos ou internacionais, regulares ou irregulares (Oucho, 2007) e
permanentes ou temporários. No caso de Moçambique, a lei 5/93 de 28 de Dezembro, que
estabelece o regime jurídico do cidadão estrangeiro, incide, fundamentalmente, sobre a categoria
dos estrangeiros permanentes, temporários e clandestinos. Mas é a legalidade ou ilegalidade dos
estrangeiros que tem concentrado maior atenção da opinião pública e das autoridades estatais.

Quanto a legalidade dos imigrantes, evidências mostram que uma parte significativa vem a
Moçambique por meio de empresas com base em quotas legalmente estabelecidas pela lei de
trabalho, 23/ 2007 de 1 de Agosto. Uma segunda parte, vem a Moçambique via contratos de
trabalho com entidades estatais como, por exemplo, a educação e a saúde e depois permanecem
no país tornando-se, inclusivamente Moçambicanos. Este grupo de imigrantes legais temporários

26
inclui, de acordo com a legislação Moçambicana, turistas, cidadãos estrangeiros em trânsito,
Homem de negócios e estudantes estrangeiros. Uma terceira e última parte, que parece ser a
maioria, vem a Moçambique individualmente e/ ou em grupos, alegadamente, por meios
próprios. Neste grupo, existe o caso da imigração trans-fronteiriça que ocorre através dos postos
de migração ao longo da vasta fronteira mas há, igualmente um grande fluxo de imigração com
uma forte carga sócio-cultural que não se processa de acordo com a exigência legal migratória.
Contudo, é importante destacar que as autoridades migratórias e policiais detectaram, em alguns
casos, sinais de existência de redes internacionais com ramificações nacionais que se dedicam ao
recrutamento e/ou facilitação de imigração legal e, principalmente, ilegal.

No grupo de “imigrantes contratados”, o tempo de permanência é de 2 anos renováveis de acordo


com a lei de trabalho enquanto que não há um limite temporal para os imigrantes legais
permanentes que estão a trabalhar na área comercial desde que cumpram com os requisitos
preconizados no ordenamento jurídico vigente. Entretanto, o cumprimento desta obrigação está
dependente da capacidade fiscalizadora das autoridades migratórias e policiais que tem sido
pouco activa devido a fragilidade de meios humanos, financeiros e técnicos. Perante esta
situação, foram constatados casos em que o imigrante legal de hoje torna-se imigrante ilegal de
amanhã.

Por seu turno, os imigrantes ilegais chegam a Moçambique em grupos de 4 ou mais pessoas. Em
alguns casos, as autoridades de guarda fronteira detectaram grupos de mais de 50 imigrantes que
viajavam em condições desumanas. Deste grupo a maioria escala Moçambique como um
corredor de trânsito para a África do Sul e uma minoria permanece, como local de destino.
Passado algum tempo, estes imigrantes ilegais são, presumivelmente, tornados legais, por meios
ilegais com a conivência de agentes do Estado em várias áreas. Esta é acção do ramo doméstico
do crime organizado considerado “contra vigilância”, que é invisível e supera a capacidade
fiscalizadora do Estado, segundo as autoridades de guarda fronteira. Além disso, constata-se que
há imigrantes que chegaram a Moçambique na condição de refugiados e depois se tornaram
imigrantes. Assim, o imigrante ilegal de hoje tem-se tornado o imigrante legal de amanhã.

27
Perante a complexidade de imigração em Moçambique é possível distinguir 6 tipos de imigrantes
ilegais: 1) os imigrantes legais que se tornam ilegais devido, por exemplo, a expiração do tempo
de permanência; 2) os imigrantes transitórios, que passam pelo país com objectivo de viajar para
outros destinos, mas principalmente para a África do sul; 3) imigrantes trans-fronteiriços, que
estabelecem relações de âmbito sócio-culturais ao longo da fronteira entre Moçambique e os
países vizinhos; e 4) imigrantes irregulares, que se estabelecem permanentemente no país sem
intenção de transitar para a RSA mas sem nenhuma documentação ou que estejam em situação
de refugiados mas sem a devida documentação. Dentre os vários grupos de imigrantes ilegais
existem aqueles que ao serem detectados pelas autoridades Moçambicanas são imediatamente
repatriados e existem os são chamados a regularizar a sua situação, pois o país está aberto aos
imigrantes quanto mais não seja pelo reconhecimento de que a imigração pode ser uma mais-
valia para o desenvolvimento de Moçambique.

Do ponto de vista estatístico oficial, não existem dados quantitativos globais e exaustivos que
revelam a magnitude real em termos de legalidade ou ilegalidade dos imigrantes a nível nacional.
A situação torna-se mais difícil de controlar devido, sobretudo, à complexidade da acção das
redes de imigração clandestina. No entanto, do ponto de vista empírico, a percepção é de que
existem mais imigrantes ilegais do que legais em Moçambique em trânsito ou em permanência.
A maioria dos imigrantes nesta situação é africana. Contudo, ainda não existe uma base de dados
que permita afirmar com exactidão, dentro deste grupo, dos imigrantes africanos ilegais, quais as
nacionalidades predominantes.

4.2 Rotas de Entrada de Imigrantes

Desde a década de 1990, com o fim do Apartheid, Moçambique entrou na rota de imigração, em
grande escala, como um corredor de trânsito de imigrantes legais e ilegais para a África do Sul.
Além disso, Moçambique constitui um destino (temporário ou definitivo) para imigrantes legais.
A entrada dos imigrantes legais e ilegais, em Moçambique, ocorre por via aérea, terrestre e
marítima. No entanto, os imigrantes ilegais chegam a Moçambique, preferencialmente via
terrestre devido a fragilidade de supervisão e controle da extensa fronteira 1. Com efeito, esta

1
A imigração Sul-africana é um caso particular que não cabe nesta constatação.

28
situação permite contornar as autoridades mas também facilita a acção das redes organizadas de
recrutamento e facilitação de imigração clandestina. Neste contexto, os imigrantes estão expostos
ao perigo do trafico de pessoas que é um negócio altamente lucrativo mas que ainda não há
dados sobre o fenómeno associado a imigração em ou para Moçambique. No final da década de
1990 houve casos de imigrantes ilegais provenientes da Ásia que entraram em Moçambique por
via aérea. Mas, devido a mediatização dos casos e a consequente elevação dos níveis de controlo
os imigrantes ilegais abandonaram ou reduziram a via aérea como uma opção para a imigração
em Moçambique.

Por seu turno, os imigrantes legais usam, maioritariamente, a via aérea. Este facto ocorre devido
a ausência de receios quanto a legalidade da imigração e pela redução de riscos associados a
imigração terrestre ou marítima que está sujeita a redes de recrutamento e facilitação de
imigração ilegal. Com efeito, a fronteira marítima é, igualmente, extensa e com uma supervisão e
controle frágil. Entretanto, há poucas evidências relativamente a entrada de imigrantes ilegais por
via das fronteiras marítimas no Lago Niassa e no Rio Rovuma, a norte de Moçambique. Neste
contexto, parece que a fronteira marítima está a ser pouco usada na imigração e isso tem servido
para menosprezar, de certa forma, na análise das rotas de imigração em Moçambique.

4.2.1 As Rotas de Entrada Terrestre

A rota de imigração terrestre desenvolve-se no sentido Norte e Centro em direcção ao Sul. Com
efeito, os distritos fronteiriços do Norte (Cabo Delgado e Niassa) e Centro (Manica mas,
principalmente Tete) têm sido os principais pontos de entrada de imigrantes, de acordo com
alguns imigrantes entrevistados. Para o efeito, os imigrantes tem subornado, por exemplo,
camionistas de longo curso. Neste contexto, os imigrantes ilegais atravessam as fronteiras
ilegalmente usando a corrupção. Noutros casos, os imigrantes são escondidos no meio de
mercadorias ou em camiões cisternas como forma de ludibriar as autoridades de migração e
guarda fronteira. A fronteira de Zóbué, em Tete, é considerada uma das mais vulneráveis a
imigração ilegal.

29
As entradas ilegais são feitas, igualmente, em diversos pontos longe da localização oficial dos
postos fronteiriços. A título de exemplo, a reserva natural de Mecula, no Niassa, constitui um
ponto de entrada de imigrantes ilegais. Esta realidade coloca a reserva vulnerável a acção de
caçadores furtivos. Mueda, Metangula, e Machipanda em Cabo Delgado, Niassa e Manica,
respectivamente, também são pontos de entrada ilegal de imigrantes. No entanto, na zona de
Machipanda o fluxo de imigrantes ilegais é, alegadamente, baixo devido ao controle implacável
das autoridades fronteiriças do Zimbabwe. Assim, a entrada de imigrantes ilegais em
Moçambique não pode ser vista como um problema unicamente Moçambicano. Este é,
igualmente, um problema da Zâmbia mas principalmente da Tanzania e do Malawi por onde
supostamente entra a maioria dos imigrantes ilegais.

4.2.2 As Rotas de Entrada Aérea

As rotas aéreas de imigração legal partem de vários pontos de dentro e de fora do continente
Africano. Na maioria dos casos, o Aeroporto Oliver Thambo, na África do Sul, tem sido um
ponto de trânsito obrigatório, pois são poucos os países que tem ligações aéreas directas para
Moçambique. Neste contexto, a título de exemplo, os imigrantes Guineenses fazem a rota Guiné
Conacry – África do Sul – Maputo. Alguns Malianos em Moçambique usaram a rota Mali –
Quénia – África do Sul– Maputo. Nigéria – África do Sul – Maputo é o trajecto usado pelos
Nigerianos. De fora de África salientam-se as rotas Dubai - África do Sul – Maputo e Paquistão -
África do Sul – Maputo.

Portanto, Johannesburg e Maputo são pontos incontornáveis de entrada de imigrantes legais.


Entretanto, neste grupo de imigrantes legais é importante distinguir os que tem Moçambique
como destino e os que tem a África do Sul como destino. Com efeito, foram constatados casos de
imigrantes legais que chegam a Moçambique por meios aéreos mas posteriormente entraram na
África do Sul, de forma clandestina, via terrestre, principalmente pela fronteira de Ressano
Garcia.

O facto de Maputo ser, durante muito tempo, o único ponto de entrada de estrangeiros constituiu
uma vantagem do ponto de vista de registo controle e supervisão dos imigrantes. Mas, o

30
alargamento de ligações aéreas do estrangeiro para diversos pontos de Moçambique como
Vilankulo, Beira, Nampula e Pemba que estão a receber aeronaves estrangeiras pode representar
uma fragilidade do ponto de vista de supervisão e controle, pois estão sendo alargadas as portas
de entrada de Moçambique sem a correspondente capacidade humana e, principalmente técnica e
tecnológica para fazer face a complexidade da problemática da imigração. Além disso, a entrada
de estrangeiros nesses pontos tem sido excessivamente apenas do ponto de vista turístico e
trabalhadores contratados menosprezando a situação no quadro dos dilemas da imigração.

4.3 Locais de fixação dos Imigrantes em Moçambique

Os imigrantes encontram-se fixados em quase toda a dimensão territorial de Moçambique. No


entanto, a distribuição geográfica, numérica e em termos de nacionalidades não esta
documentada nas poucas estatísticas oficias que existem.

Pelas evidências empíricas, os locais de fixação de imigrantes estão muito associados a interesses
maioritariamente económicos. Com efeito, constata-se que os imigrantes tendem a fixar-se em
locais de muita circulação de dinheiro ou existência de recursos naturais valiosos mas facilmente
exploráveis. Neste contexto, Maputo Cidade, Maputo Província e Nampula são considerados os
pontos de maior circulação de dinheiro onde há muitos imigrantes. É importante referir que
Maputo e Nampula têm a particularidade de serem, respectivamente, o antigo e actual centro de
acolhimento de refugiados. Além disso, Maputo e Nampula são grandes corredores de
desenvolvimento. Maputo tem, igualmente, a vantagem de estar próxima da África do Sul.

Existe portanto, uma percepção de que a zona Sul e Norte, é onde existem as maiores
oportunidades de negócio. Existem, igualmente, evidências que mostram de que a zona Centro e
Norte é onde há abundância de recursos naturais. Neste contexto, é difícil sem uma base
estatística fiável, afirmar em que região do país há mais imigrantes. Além disso, é importante
questionar quais são as nacionalidades predominantes no Sul, Centro e Norte de Moçambique de
forma a traçar cenários demográficos, económico-sociais e até políticos e de segurança. Esta
“geopolítica dos interesses dos imigrantes” é um aspecto que não deve ser ignorado em qualquer
avaliação do impacto da imigração em Moçambique.

31
A existência de mercados informais nos grandes círculos urbanos é apontada como um factor que
atrai os imigrantes2. Mas, mais do que isso, existe a percepção de que é no círculo urbano onde
se encontram as maiores facilidades de realização de negócios comparativamente ao meio rural.
Os meios rurais e os espaços suburbanos, são, alegadamente, espaços preferidos para habitação
de imigrantes ilegais que estão constantemente a fugir das autoridades policiais e migratórias.
Mas, as suas actividades diárias ocorrem nos círculos urbanos pois, há maior circulação de
dinheiro do que o meio rural ou suburbano é para acomodação, principalmente dos ilegais, mas,
também, por ser menos onerosa. O mercado informal é ponto de principal circulação dos
imigrantes no meio urbano mas, há, igualmente, uma percentagem significativa que opera no
mercado formal. Estes são, aparentemente, imigrantes legais, pois o exercício das suas
actividades não pode ocorrer sem obedecer a documentos e procedimentos legais.

5- FACTORES QUE EXPLICAM O FLUXO DE IMIGRANTES EM MOÇAMBIQUE

Para alguns autores como Kearny (1986:353), a imigração explica-se a partir da necessidade de
desenvolvimento humano, que vem da pobreza absoluta 3. O que move as pessoas segundo
Kearny, é a necessidade que elas têm de se desenvolver como pessoas, e é a procura desse
desenvolvimento que elas deslocam-se das suas zonas de origem para outras. Regra geral as
pessoas são motivadas pela possibilidade de conseguir trabalho, ou melhores condições de
trabalho, de verem os seus direitos civis preservados, terem segurança, e cuidados de saúde
(HDR-2009, p, 49).

Por outro lado, muitos cientistas sociais acreditam que existe uma combinação de factores
económicos e não económicos, que explicam a emigração. Segundo estes autores, nem todas as
imigrações se realizam por questões de sobrevivência, como diz Kearny. Existem outros factores
que estão na origem da imigração, como o comércio internacional, a necessidade de investir em
novos mercados, o turismo, a globalização que cria a imigração de quadros e pessoal

2
A título de exemplo, nas capitais provinciais de Cabo Delgado, Nampula e Niassa, os mercados informais estão
progressivamente a ser dominados por imigrantes
3
Situações de pobreza absoluta são consideradas um dos principais factores de imigração, e quando isto acontece os
imigrantes geralmente dirigem-se sobretudo para os países mais próximos. Esta pobreza muitas vezes é causada por
conflitos no país de origem.

32
especializado, a mundialização dos negócios, e estes factores não tem nenhuma relação com a
pobreza ou riqueza. (Schachter, 2001:1).

5.1- A teoria Push-Pull

Os autores que estudam a imigração são unânimes em afirmar que é necessário que existam
razões que levem as pessoas a decidirem imigrar, e outros que levam as pessoas a escolherem o
país para onde imigrar. A teoria Push-Pull, diz-nos que existem factores de repulsão (push) que
fazem com que as pessoas queiram sair dos seus países de origem, razões essas, que vão desde
problemas políticos e económicos, taxas de desemprego elevadas, repartição desigual dos
rendimentos, clima, necessidade de uma formação melhor, repartição desigual dos rendimentos,
violação dos direitos humanos, necessidade de investir em novos mercados onde as
oportunidades de negócio são melhores, necessidade de uma formação melhor. Assim como
existem factores de atracção, que seriam os considerados factores pull, que são um conjunto de
vantagens comparativas existentes nos países desenvolvidos que atraem essas mesmas pessoas,
esses factores são: procura de mão – de obra, disponibilidade de terras, boas oportunidades
económicas, liberdades politicas, e outros, que influenciam na escolha do local, ou do país de
imigração4. (Castles, 2000:82).

5.2- O caso de Moçambique

No caso de Moçambique o grande fluxo de imigrantes pode ser explicado em parte com base na
teoria push-pull. Isto é: existem factores que levam as pessoas abandonarem as suas regiões de
origem, factores de origem social, económica, e política, relacionados com a procura de
melhores condições de vida, e outros. E factores que os levam a escolher Moçambique como
ponto de fixação, que, como pudemos verificar durante as várias entrevistas efectuadas, são na
sua maioria factores relacionados com a estabilidade política que o país atravessa, factores

4
A escolha do país para onde imigrar prende-se muito com a estabilidade política e económica que esses países
oferecem, e as oportunidades de trabalho, formação, acesso a sistemas de saúde, e a segurança que estes países
podem oferecer. Portanto deve existir motivos de atracão que os levam a um certo país.

33
relacionados com a possibilidade, de investir no país, a internacionalização do comércio. Assim
como factores relacionados com a globalização5.

A maior parte dos entrevistados durante a realização do estudo afirmaram que Moçambique
tornou-se local de eleição dos imigrantes, principalmente devido a sua estabilidade política e
económica6, e ainda devido a possibilidade de se praticar o comércio e investir em novas áreas de
negócio, e a proximidade com África de Sul. Os imigrantes escolhem Moçambique como ponto
de fixação porque uma vez aqui instalados, dizem ter muita facilidade de praticar algum negócio
para a sua subsistência e dos seus familiares afirmaram alguns dos entrevistados 7. Segundo estes
geralmente os imigrantes, começam com pequenos negócios, uma banca num mercado informal,
e passado pouco tempo já tem uma loja.

Outro factor importante que explica o fluxo de imigrantes em Moçambique relaciona-se com a
existência de um centro de refugiados em Moçambique, (Centro de Refugiados de Maratane)
mais concretamente na província de Nampula, o que explica em parte o grande fluxo de
imigrantes naquela região do país. Nampula acaba sendo um ponto estratégico devido a
existência do centro de refugiados. Os Refugiados8, que os teóricos não consideram imigrantes
voluntários, passam a fazer parte do grupo de imigrantes porque segundo os nossos
entrevistados, o centro possui uma politica aberta que lhes permite sair a procura de trabalho para
a sua subsistência, e pelo que nos foi dito, alguns saem e não regressam mais ao centro. O grupo
de estrangeiros que entra em Moçambique com o objectivo de ir ao centro de refugiado é
enorme, neste momento o centro possui cerca de seis mil habitantes.

A literatura considera que existem movimentos migratórios que se associam, regra geral a laços
previamente existentes entre os países de origem dos imigrantes, e os países de acolhimento, não

5
A globalização levou a liberdade de trocas comerciais, que tornou-se um fenómeno a escala mundial. Neste
contexto a ideologia da economia do mercado, encontra-se numa fase de expansão, e assiste-se a internacionalização
dos mercados.
6
A estabilidade política e económica de que Moçambique goza, constitui um elemento chave, para atrair imigrantes.
7
Os imigrantes escolhem Moçambique já com algum negócio em mente. Portanto os imigrantes, já chegam em
Moçambique com um objectivo concreto da sua estadia em Moçambique, isto porque estes já possuem algum
familiar cá, ou algum conhecimento sobre a situação económica do país.
8
Refugiado, é toda a pessoa que por razoes da sua própria segurança, ou perseguição devido a sua raça, religião ou
nacionalidade, ou ainda associação a determinado grupo social, ou opinião pública, encontra-se fora do seu país de
origem, sem poder regressar durante um certo período de tempo.

34
implicando necessariamente uma aproximação geográfica, entre eles, estes laços segundo
(Castles, 2000, p:123), podem ser de índole, colonial, politico, militar, comercial, de
investimento, e outros, que também explicam os fluxos de imigrantes de um país para o outro.
Esta teoria serve também para explicar o fluxo de imigrantes para Moçambique, porque pelo que
pudemos constatar durante as entrevistas, muitos dos imigrantes que vêm investir em
Moçambique tem de alguma forma alguma relação com o país.

Os entrevistados referiram-se ainda ao facto de muitos dos imigrantes que entram em


Moçambique possuírem já alguma relação de familiaridade, e/ou profissional, o que lhes
facilitam todo o processo de deslocação, recepção, e integração. Para explicar este fenómeno,
Portes e Borocz (1989) referem que as imigrações devem ser vistas segundo a teoria das redes
sociais: um fenómeno de construção de associações entre pessoas ligadas por algum laço seja ele
familiar, profissional, afectivo ou cultural. Isto porque estas ligações vão ser uma fonte
importante de informação que lhes vai permitir tomar decisões com algum conhecimento,
tornando o processo de imigração mais seguro.

Outros factores que explicam o fluxo de imigrantes em Moçambique, principalmente o fluxo de


imigrantes ilegais, são situações, como a facilidade de entrada no país devido ao fraco controlo
das fronteiras, e a facilidade de praticar algum negocio em Moçambique, principalmente o
negocio informal, devido ao fraco controlo dos órgão responsáveis pelas actividades comerciais,
e ainda ao facto de muitos imigrantes utilizarem Moçambique como ponte entrarem na vizinha
África do Sul.

Quando abordados os imigrantes dizem que estão em Moçambique a procura de melhores


condições de vida. As estimativas sobre o volume deste fluxo são difíceis de se obter uma vez
que não possuímos dados estatísticos sobre o número dos imigrantes que entraram em
Moçambique, principalmente dos ilegais. Em algumas zonas da província de Nampula e Cabo
Delgado o mercado informal esta completamente sob o domínio dos estrangeiros que ali residem.
O fluxo de imigração tem estado a aumentar tanto na área de negócios, quanto no turismo, e do
ponto de vista económico isso é positivo.

35
O facto é que os factores que levam a imigração são geralmente os mesmos, fuga a pobreza
desemprego, guerras, violência, perseguição política, ou religiosa, e a procura de um melhor
mercado de trabalho. No que diz respeito a imigração ilegal é difícil separar a fronteira entre
refugiados e imigrantes. Os homens e as Mulheres que abandonam os seus países, as suas
naturalidades, e as suas residências de originarias, fazem-no na grande maioria das situações, em
busca de melhores condições de vida económica e de sobrevivência material. Entretanto, alguns
dos entrevistados afirmam, que os imigrantes têm estão a controlar os pequenos negócios, mais
concretamente o comércio, e o negócio informal, mais concretamente na zona norte, província de
Nampula, e Cabo delgado.

6. IMPACTO DOS IMIGRANTES EM MOÇAMBIQUE

6.1. IMPACTO NA SEGURANÇA PÚBLICA E DO ESTADO

A imigração constitui, na actualidade, um dos grandes assuntos políticos que esta a ganhar
importância na agenda dos Estados e nos Estudos de Segurança. Isto regista-se com maior
destaque, particularmente, depois dos atentados terroristas de 11 de Setembro nos EUA. Neste
contexto, cresceu o interesse em estudar a relação entre a imigração e a segurança, bem como o
impacto da imigração na segurança.

Com efeito, o Bonn International Center for Conversion tem discutido a influência das
organizações da diáspora nos processos de paz e conflitos nos seus Estados de origem, os efeitos
das actividades das diásporas nos interesses de segurança dos Estados hospedeiros e as condições
de vida e necessidades de segurança dos imigrantes (Sommer &Warneeck, 2008). O estudo de
Franzblau (1997), Immigration´s Impact on US National Security and Foreign Policy do US
Commission on Immigration Reform constitui, igualmente, um exemplo da importância do
assunto para as instituições de pesquisa e para os Estados.

Em Moçambique não existem estudos académicos que abordam, especificamente, a ligação e


impacto da imigração na segurança. Entretanto, as autoridades de defesa e segurança referem que
este assunto não é recente em Moçambique, mas ganhou maior importância depois da ocorrência

36
da violência xenófoba em 2008, na África do Sul e a crescente onda de imigração que se regista
no país. Portanto, este estudo sobre a ligação e impacto da imigração em Moçambique é
pertinente. Contudo, isto é um desafio devido a magnitude e variações da imigração,
principalmente ilegal mas, também, porque a segurança se tornou, na actualidade, um conceito
multi-dimensional e, até certo ponto, problemático.

6.1.1 Segurança

O conceito de segurança não é consensual no seio das teorias e dos estudiosos. No entanto, existe
um consenso de que qualquer que seja a definição de segurança deve ser contextualizada
respondendo a três questões fundamentais: segurança para quem? Sob que ameaças? E contra
que valores?

De facto tradicionalmente, a segurança é definida do ponto de vista estatal, com ênfase nas
ameaças militares externas contra valores nucleares como a integridade territorial, a soberania, as
instituições e independência política e identidade cultural. Esta constitui uma visão restrita de
segurança defendida pela Teoria Realista preocupada com a sobrevivência de Estado como o
interesse nacional supremo9. Neste contexto, os Estados procuram, a todo o custo e com todos os
meios e recursos a sua disposição, defender a sua existência como uma entidade politicamente
independente (Freeman Jr, 1997: 9). Para o efeito, o Estado tem a prerrogativa de impôr
sacrifícios que afectem as liberdades e os interesses dos indivíduos. Esta é uma visão tradicional
de segurança considerada restrita, representada por teóricos como Hans Morgenthau e que
permaneceu largamente incontestável durante a guerra fria (Franzblau, 1997:1), altura de grande
prevalência de guerras entre Estados.

Contudo, terminada a guerra fria, reduziu a prevalência de guerras entre Estados e fenómenos
não militares nacionais e internacionais afectaram a segurança dos indivíduos e ganharam
proeminência política que obrigou os teóricos a alargar o enfoque dos Estudos de segurança
(Hough, 2004: 8) e, consequentemente, o conceito de segurança. Neste contexto, surgiu o

9
Este interesse supremo, resulta, provavelmente, da história de Relações Internacionais marcada por guerras e
contra guerras que determinaram o surgimento e desaparecimento de Estados. Assim, a sobrevivência do Estado é
um interesse acima de qualquer interesse particular.

37
conceito de segurança humana que constitui um “novo paradigma” dos Estudos de Segurança.
Esta visão de segurança é defendida pelo neo-realista Barry Buzan e pela “abordagem pós
modernista ou Critical Human Security (Naidoo, 2001: 2). Esta constitui uma perspectiva que
procura mostrar que o indivíduo é tão importante quanto o Estado como referente de segurança,
isto na discussão sobre segurança para quem? Além disso, o alargamento do conceito de
segurança procura mostrar que as ameaças não militares como económicas, social identity,
ambientais, health threats, natural threats, accidental threats e criminal threats, de acordo com
Hough (2004), podem ser tão perigosas quanto as ameaças militares.

Apesar da proeminência que a segurança humana assume no pós guerra fria, a visão tradicional
Realista constitui o paradigma dominante do ponto de vista académico e em termos de
abordagem dos governos na condução da política externa dos Estados (Hough, 2004:2). Assim, a
imigração e o imigrante enquadram-se nos Estudos de segurança tendo em conta a visão de
segurança alargada a actores não estatais e assuntos não militares. Este enquadramento coloca, de
certa forma, a imigração numa outra dimensão de segurança que é a segurança pública que
constitui matéria de polícia, que lida com tranquilidade e ordem pública.

6.1.2. Ligação entre imigração e segurança

A ligação entre segurança e imigração reside nas causas e nas consequências da imigração.
Portanto, a imigração pode ser determinada, entre outras causas, pela falta de segurança dos
países de origem que, por conseguinte, criam insegurança humana. Assim, à insegurança pode
estar associada a guerras mas, também, às más condições sócio-económicas derivadas da
problemática da pobreza. Nesta perspectiva cabem, igualmente, os refugiados de guerra, os
refugiados económicos e os refugiados ecológicos10. Em termos de consequências, os imigrantes
são, maioritariamente, vistos como um factor de ameaça a segurança para os Estados de origem
e, particularmente para os Estados de acolhimento. No entanto, isto não deve ser visto de forma

10
Os imigrantes da região dos Grandes lagos, particularmente dos meados da década de 1990, constituem
exemplos de emigração forçada devido a insegurança humana causada pelas guerras enquanto os imigrantes do
corno de África representam casos elucidativos de insegurança humana resultante da combinação entre guerras e
desastres naturais.

38
generalista e acrítica, porquanto existem vários casos de imigrantes que não representam ameaça
a segurança e, nas situações em que representam ameaça, é importante ter em consideração os
contextos.

Assim, em alguns contextos, a imigração promove a segurança humana dos imigrantes e das
suas famílias que permanecem nos países de origem. Isto ocorre através do envio de dinheiro ou
bens que contribuem na subsistência ou sobrevivência dos que não emigraram. Neste caso, Cabo
Verde é um exemplo de país no qual muitas famílias dependem das remessas dos imigrantes. Em
Moçambique existem, igualmente, muitas famílias cuja segurança humana depende de
imigrantes na África do Sul.

Noutros contextos, os imigrantes colocam em causa a estabilidade política dos países


acolhimento. A título de exemplo, em 1970, refugiados Palestinianos tentaram derrubar o regime
do Rei Hussein II na Jordânia, no que ficou conhecido como Setembro Negro (Tembe, 2003: 93);
imigrantes Ruandeses, maioritariamente Tutsis, formaram a Frente Patriótica Ruandesa (FPR) no
Uganda de onde lançaram ataques que culminaram com o derrube do governo de maioria Hutu;
imigrantes Moçambicanos baseados na Tanzania desenvolveram uma guerra de libertação que
desestabilizou o regime colonial Português e, posteriormente, criou condições para o fim do
colonialismo e surgimento do Estado Moçambicano. Moçambique sofreu uma desestabilização
político-económica e militar pelo facto de ter acolhido imigrantes da antiga Rodésia do sul e da
África do Sul.

Portanto, do ponto de vista de segurança, há mais pessimismo e medo da imigração e do


imigrante, principalmente ilegal, do que optimismo. Este pessimismo é tão grande que se discute
mais da ameaça que a imigração representa e pouco a ameaça sobre os imigrantes. Além disso,
existe, nas discussões globais sobre imigração, uma tendência de adoptar uma atitude negativa
que incide sobre os Estados de acolhimento e pouca atenção é conferida aos imigrantes e os
Estadas de origem.

39
6.1.3. Impacto na segurança

Do ponto de vista de segurança, os imigrantes podem ter um impacto positivo e / ou negativo nos
seus Estados de origem, nos Estados de acolhimento ou na relação entre ambos. Neste contexto,
Myron Weiner citado por Franzblau (1997: 3-11), defende que os refugiados ou migrantes podem
constituir uma oposição ao governo do país de origem; uma ameaça política ao regime político
do país de acolhimento; os migrantes e / ou refugiados podem ser, simultaneamente, uma ameaça
e um benefício cultural; podem ser um fardo ou uma contribuição sócio-económica; e podem ser
tomados como reféns, o que constitui um risco para os Estados de origem11.

Em Moçambique, a percepção é de que os imigrantes (legais e ilegais) criam um impacto


negativo na segurança. Este impacto negativo incide sobre a segurança pública e não sobre a
segurança do Estado, a segurança nacional, definida segundo a Teoria Realista. Neste contexto,
os imigrantes não constituem uma ameaça a integridade territorial nem a sobrevivência do
Estado Moçambicano. Representam, apenas, uma ameaça a ordem e tranquilidade públicas.

6.1.4. Impacto da imigração na segurança do Estado

Em relação a segurança do Estado, os imigrantes ilegais, em Moçambique, estão concentrados na


materialização de interesses económicos e permanentemente a tentar passar despercebido para
não serem descobertos pelas autoridades estatais. Por seu turno, os imigrantes legais, igualmente
dedicados a actividades económicas, têm os seus direitos políticos bastante restringidos, de
acordo com a legislação Moçambicana. Neste contexto, não existem evidências (pelo menos até
agora) de que os imigrantes legais e ilegais, em Moçambique, possuem agendas políticas que
possam colocar em causa qualquer que seja o regime no poder. Além disso, os imigrantes não
constituem um grupo politicamente homogéneo.

Na sua intervenção, Lopes Sibinde12, teria asseverado que os imigrantes não constituem de facto
uma ameaça à soberania do Estado, mas sim pode eventualmente constituir ameaça à ordem e

11
Weiner, Myron 1992/ 93. Security, Stability and International Migration. International Security 17: 3.
12
Elemento da direcção nacional da migração.

40
tranquilidade públicas. Mesmo essa hipótese não é convincente porque, na prática, constata-se
que um imigrante, sobretudo o ilegal, tenta passar-se por despercebido.

Contudo, levanta-se o alerta segundo o qual, a longo prazo, a imigração pode afectar a segurança
na vertente identidade cultural e, provavelmente fazer surgir no seio dos imigrantes interesses
políticos que passem pelo acesso e controle do poder politico local e, quiça nacional. O alerta
maior incide sobre o facto de alguns países estarem a desenvolver políticas deliberadas de
exportação de pessoas a todo o mundo, de acordo com os seus interesses de curto, médio e longo
prazo.

Assim, muitas pessoas suspeitam de que Moçambique pode, eventualmente, receber ou estar a
receber pessoas por encomenda, a mando dos estados de proveniência, com interesses políticos,
económicos e sociais. No entanto, este é um comportamento normal dos Estados que se guiam,
fundamentalmente, por interesses e não deve constituir um problema de segurança se as
instituições responsáveis pela fiscalização e controle da imigração forem eficientes e eficazes.
Esta eficiência e eficácia dependem da existência de uma política e consequente estratégia de
imigração e, acima de tudo, de capacidades humanas e tecnológicas.

6.1.5. Impacto na segurança pública

Em relação a segurança pública, existem receios, pois não se conhece os cadastros dos
imigrantes legais e ilegais que se estabelecem ou circulam em Moçambique. Os receios residem
no facto de alguns dos imigrantes, principalmente africanos, dos Grandes Lagos e do Corno de
África, serem, presumivelmente, conhecedores da arte da guerra e as suas actividades não estão
sob controlo efectivo do Estado. Neste contexto, existem muitas dúvidas sobre as actividades dos
imigrantes que têm estado a prosperar de uma forma rápida e grandemente comparativamente
aos Moçambicanos.

Com efeito, foram detectados, pelas autoridades policiais, casos de imigrantes envolvidos na
falsificação de moeda. Além disso, existem alegações segundo as quais há envolvido em
agiotismo. Neste contexto, os imigrantes fazem circular, fora do circuito bancário, muito

41
dinheiro. Quando usam o circuito bancário, os imigrantes fazem-no para “lavagem de dinheiro” e
transferências monetárias, pois poucos, principalmente os africanos, têm contas bancárias em
Moçambique. No entanto, a maioria das transferências monetárias não ocorre no circuito formal,
bancário como ficou demonstrado no caso da apreensão de dinheiro na fronteira Machipanda
Neste contexto, é importante questionar até que ponto um provável abandono de imigrantes
poderá constituir uma ameaça a estabilidade económica e financeira de Moçambique.

Há evidências de que imigrantes legais e ilegais estão a explorar e a retirar, ilegalmente, do país,
recursos minerais, florestais e faunísticos valiosos. A título de exemplo, a exploração de ouro a
céu aberto nas províncias de Niassa e Manica; a pesca ilegal no Lago Niassa; o abate de madeira
em Cabo Delgado e Sofala; e a caça furtiva na reserva do Niassa. Neste contexto, a exploração
de minas a céu aberto, a desflorestação causada pelo abate indiscriminado de madeira, de
animais e a poluição dos rios e ribeiros podem constituir, a longo prazo, uma ameaça a segurança
ambiental de Moçambique1314.

Os imigrantes estão associados ao contrabando mercadorias lícitas e ilícitas. Com efeito, os


imigrantes legais alimentam, indirectamente, a nível da Cidade e Província de Maputo, o
“Mukhero” que nem sempre cumpre com as obrigações fiscais mas que garante a estabilidade
sócio-económica de muitas famílias. Assim, este não constitui o principal elemento de
preocupação do ponto de vista de segurança. A preocupação maior reside, por exemplo, no
tráfico de drogas que envolve, principalmente imigrantes ilegais mas, igualmente legais sobre os
quais existem muitas dúvidas relativamente a proveniência real do grande volume de dinheiro
que geram.

13

14
A segurança ambiental é, na actualidade, um assunto que tem um peso político internacional devido,
principalmente, a problemática das mudanças climáticas. No caso de Moçambique, a destruição do ecossistema pode
ocorrer a curto prazo mas a renovação pode levar muitas gerações se não se tomar em consideração este problema
que é multidisciplinar.

42
Adérito Notiçe15, afirmou que por detrás de imigração, oculta-se o crime organizado
transfronteiriço e que envolvem imigrantes e os nacionais que tem facilitado a circulação e
praticas ilícitas dos imigrantes.

Em relação ao tráfico de droga, os dados revelam que os imigrantes não estão envolvidos na
produção. O seu envolvimento esta na comercialização que faz parte de um circuito internacional
envolvendo cidadãos nacionais. Os casos bastante mediatizados de mulheres Moçambicanas
detidas no Brasil e no Aeroporto de Mavalane, em Maputo constituem exemplos de alegado
tráfico de drogas que é controlado por alguns imigrantes que estão legalmente em Moçambique e
simulam negócios formais para esconder esta actividade ilegal.

Uma vez detectados os casos de presença ilegal e actividades criminosas envolvendo imigrantes
legais e ilegais, estes são repatriados e/ ou responsabilizados criminalmente, de acordo com a
legislação internacional, nacional e, dependendo, da gravidade dos crimes. No entanto, muitos
imigrantes usam a corrupção como uma forma de garantirem a sua presença no país. Noutros
casos, os imigrantes promovem a corrupção para escapar o controlo das autoridades. Esta
situação envolve mais a entidade policial, de acordo com a opinião de alguns imigrantes.

Em termos de crimes violentos, os imigrantes legais e ilegais podem, alegadamente, estar a


contribuir para a importação de novos modus operandis e sofisticação de crimes. A título de
exemplo, a autoridade policial fala da explosão de caixas multi banco, os ATMs, em Maputo.
Este modus operandi não é, na perspectiva de autoridade policial, característico de
Moçambicanos de tal forma que não exclui a possibilidade de tais actos terem sido cometidos
por cidadãos estrangeiros. Neste contexto, foram, por exemplo, neutralizados 12 kenianos que
vinham a Moçambique com intenção de assaltar bancos. Na perspectiva da autoridade policial,
estas e outras situações podem, eventualmente, agravar-se a curto e médio prazo se se tomar em
consideração o facto de que a África do Sul está a aumentar o seu orçamento no sector de
segurança16. Esta situação poderá, provavelmente, fazer com que o criminoso da África do Sul
procure locais mais frágeis onde possa operar. Além disso, muitos imigrantes ilegais com

15
Vereador do conselho municipal da cidade da matola
16
Entre as razões que justificam o elevado investimento Sul-africano na segurança está o facto de a África do Sul ser
um dos países com a mais elevada taxa de criminalidade violenta e a realização do Mundial 2010.

43
pretensões de alcançar a África do Sul serão forçados a ficar em Moçambique. Portanto,
futuramente, é de prever que o número de imigrantes em Moçambique tenderá a crescer e isto
representa um desafio a capacidade do Estado em matéria de supervisão e controle.

O envolvimento directo de imigrantes nas actividades criminosas é um risco que eles procuram
minimizar ao máximo. Para o efeito, os imigrantes agem como mandantes, isto é, os autores
morais e os nacionais são os autores materiais, os executores vulneráveis devido a sua fraca
condição económica e financeira. Assim, no problema da internacionalização do crime,
Moçambique é vítima mas também pode se tornar agente tendo em conta, por exemplo, o caso de
Moçambicanos envolvidos na suposta tentativa de Golpe de Estado no Reino do Lesotho.
Segundo os imigrantes, o impacto negativo da imigração na segurança pública e até humana, em
Moçambique, é uma verdade que atinge uma pequena minoria de imigrantes, principalmente
Nigerianos e Paquistaneses, pois a maioria vive legal e honestamente.

Não menos importante, é o impacto que a imigração e os imigrantes podem representar a saúde
pública. Neste contexto, a crescente entrada de imigrantes de várias origens pode contribuir para
a propagação de doenças infecto-contagiosas como, por exemplo, a febre-amarela e o ébola. Esta
ameaça não militar a segurança está associada, principalmente, às regiões da África Ocidental e
dos Grandes Lagos mas que não existem evidências em Moçambique. Entretanto, o HIV/SIDA,
principalmente na zona centro de Moçambique, é uma ameaça real que pode estar, de certa
forma, associada sexo comercial envolvendo mulheres imigrantes Zimbabweanas. A ligação
entre a imigração e a saúde pública é um assunto que tem a ver com os mecanismos de
supervisão e controle de entrada e circulação legal e ilegal de estrangeiros e, porque não, de
Moçambicanos imigrantes quando entram em Moçambique.

Alguns imigrantes estão em Moçambique por uma questão de segurança humana. A sua fraca
condição sócio-económica forçou-os a imigrar. No entanto, para qualquer imigrante a imigração
constitui, igualmente, um risco a sua segurança humana como demonstram os casos de xenofobia
por todo o mundo e, particularmente, na África do Sul, em 2008.

44
A maioria dos imigrantes e dos cidadãos Moçambicanos não acredita que há probabilidade de
ocorrência de xenofobia, em Moçambique, devido a natureza tolerante, pacífica, não violenta do
povo Moçambicano. No entanto, constata-se que há certos comportamentos xenófobos não
violentos. Com efeito, há Moçambicanos que estão a pronunciamentos hostis pelo facto de
estarem a perder espaço e oportunidades de desenvolver negócios a favor dos estrangeiros. Além
disso, a facilidade que os estrangeiros têm de aceder a créditos bancários comparativamente aos
Moçambicanos tem provocado um certa animosidade, particularmente, nos círculos urbanos
onde é perceptível comentários como “este país é nosso mas os estrangeiros mandam aqui”. Este
é um sinal de frustração de algumas pessoas que atribuem responsabilidades por algumas
dificuldades que enfrentam no dia-a-dia aos imigrantes que estão, gradualmente, a assumir uma
posição de monopólio de pequenos negócios anteriormente desenvolvidos por moçambicanos.

A acção de certos imigrantes também contribui para a criação de “mentes e discursos


xenófobos” que constituem um risco a segurança dos imigrantes. A título de exemplo, tem sido
apresentadas reclamações de tratamentos racistas protagonizados por Sul-africanos brancos. A
Ponta d´Ouro, na Província de Maputo é um dos locais visados.

Portanto, a xenofobia em Moçambique manifesta-se de forma não violenta em alguns círculos


urbanos. Esta forma de manifestação constitui, de certa forma, uma fase latente de um problema
que se não for eficientemente gerido pode, eventualmente, tomar a forma violenta. No entanto,
até agora, a probabilidade de ocorrência de violência xenófoba contra a segurança dos imigrantes
é mínima porque não atinge uma grande maioria da população como é, por exemplo, o caso da
África do Sul.

6.2. IMPACTO DA IMIGRAÇAO NA ECONOMIA MOÇAMBICANA

O que se pretende neste capítulo é fazer uma leitura dos resultados da contribuição, ou não, dos
imigrantes no desenvolvimento económico do país, isto é, na economia Moçambicana. O Efeito
causado na economia de um país envolvido num processo de imigração depende de diversos
factores, de origem interna e externa, alguns dos quais (sobretudo os factores externos) estão

45
relativamente além da capacidade de influência do país de acolhimento. Contudo,
independentemente da conjuntura existente, os fluxos de imigrantes podem ter diversos efeitos
na estrutura económica.

6.2.1- Visões de alguns autores sobre o impacto da imigração na economia

A literatura considera que a imigração tende a estimular, sem pressões inflacionistas, a actividade
económica do país de acolhimento, nomeadamente o consumo acrescido de bens correntes. OIT
(2004). O país de acolhimento beneficia como um todo, da imigração, mesmo quando certos
grupos de imigrantes ficam em desvantagem, como os menos qualificados. Os imigrantes se
ocupam regra geral, de profissões que as populações locais não querem, para além de
demonstrarem um carácter empreendedor. (Almeida, 2003).

Segundo Stalker (2000), as imigrações influenciam o desempenho económico do país de


acolhimento dos imigrantes, nomeadamente numa perspectiva de médio e longo prazo, pelo
preenchimento dos labour shortges com uma mão-de-obra mais barata e flexível, permitindo um
uso mais eficiente da mão-de-obra e, desta forma gerar ganhos de produtividade17

De acordo com chiswick (2008:64), os imigrantes são diferentes dos naturais no que diz respeito
a maneira como encaram o mercado, sendo que os imigrantes são mais agressivos, aceitam
riscos, são vanguardistas/empreendedores e muitas vezes fisicamente e mentalmente mais aptos.
Normalmente quando se deslocam para um mercado é na busca de sucesso e bem-estar. Estes
imigrantes podem ser chamados de imigrantes económicos pois deslocam-se na busca de
melhores oportunidades. Por outro lado existem os imigrantes não económicos, que geralmente
fogem a fome, seca, desertificação, tirania, discriminação, perseguição, pobreza, conflitos, e
outros.

Quando os imigrantes económicos se integram num mercado, o seu impacto na economia dos
países receptores torna-se evidente pois, eles acrescentam valor no capital humano dos países de
acolhimento. De acordo com Chaswick (66-67), os imigrantes económicos tendem a ser os mais
17
A existência da mão-de obra, oriunda do estrangeiro aumenta a oferta de trabalhadores aliviando a pressão da
subida dos salários e, consequentemente da inflação.

46
capazes, mais fortes, mais determinados. Quanto mais hábeis e capazes os imigrantes forem,
melhor será a eficiência do mercado de trabalho no país de acolhimento porque, a elevada
capacidade e habilidade aumenta a produtividade do mercado de trabalho, do mesmo modo que
aumenta a eficiência no investimento em capital humano. Os mais hábeis e capazes aumentam a
eficiência porque usam menos tempo para completar tarefas, o que implica na diminuição de
custos das empresas (Chiswick, 2008:67). Os imigrantes não económicos podem tornar-se
economicamente activos no país de acolhimento e até superar os imigrantes económicos.

Segundo a teoria de Chiswick acima referida, podemos dizer que os imigrantes em Moçambique
dividem-se em imigrantes económicos e não económicos. Podemos considerar pela sua maneira
de estar no mercado os imigrantes asiáticos, árabes, da África ocidental e do corno de África
como imigrantes económicos enquanto os imigrantes da África Austral são imigrantes não
económicos.

O que se verificou durante o processo de entrevistas foi que a integração económica dos
imigrantes em Moçambique, depende dos grupos, das razões de saída do país de origem, da
capacidade financeira e da recepção dos imigrantes no país de acolhimento. O emprendedorismo
dos imigrantes depende muito dos factores acima mencionados. Em termos gerais, os imigrantes
do sudoeste asiático (indianos e paquistaneses) do médio oriente (árabes), da África ocidental e
do corno de África registam elevados índices de emprendedorismo nos vários sectores da
economia, principalmente no comércio.

Por outro lado existem os imigrantes trabalhadores não qualificados, ou com pouca qualificações
que dedicam-se mais ao comércio informal vendendo um pouco de tudo. Os imigrantes da região
austral (Zimbabweanos, Malawianos, Zambianos e Tanzanianos) são menos empreendedores e
trabalham normalmente por conta de outrem. O peso dos factores culturais neste tipo de
comportamento é sem dúvida determinante, a influência árabe na África ocidental e no corno de
África dita o comportamento económico destes povos enquanto práticas seculares de comércio
tornam os imigrantes do sudoeste da Ásia e do médio oriente exímios empreendedores.

47
Os estrangeiros que investem em Moçambique e estão devidamente legalizados, também
contribuem para o desenvolvimento da economia do país, pois, eles cumprem com todas as suas
obrigações fiscais. Os entrevistados referiram no entanto que nem tudo é positivo no que diz
respeito a presença dos imigrantes em Moçambique, principalmente porque o maior número de
imigrantes presentes em Moçambique não faz investimentos de grande porte, limitam-se a
praticar um comércio informal muito precário, que do ponto de vista de rendimentos para o país
não traz nenhum benefício.

6.2.2. Factores que Determinam o Sucesso Económico dos Imigrantes

Segundo Oliveira (2005: 18,40), existe uma série de factores que determinam o sucesso
económico dos imigrantes na sociedade de acolhimento:

Oportunidades estruturais Recursos pessoais Oportunidades étnicas


Contexto político e Classe social do indivíduo, Recursos do grupo étnico
institucional na sociedade de qualificações, experiência
acolhimento profissional e de negócio,
conhecimento linguístico
Legislação Idade, sexo, estado civil A história da comunidade
étnica e a sua trajectória
económica
A extensão e abertura do Recursos financeiros O funcionamento das redes
mercado de trabalho e sociais no seio da comunidade
comercial imigrante

O primeiro grupo de factores, as oportunidades estruturais, é o primeiro factor que determina o


sucesso económico dos imigrantes em Moçambique. Sem uma estrutura sociopolítica e cultural e
sem uma legislação que favorece a entrada, permanência e o desenvolvimento de actividades
empresariais, os imigrantes não teriam o sucesso económico que estão a ter. Depois da aplicação
das medidas de reajustamento estrutural impostos pelo Banco Mundial nos finais da década 80,
Moçambique tem adoptado uma política económica exemplar facilitando a entrada de novos
investimentos. A eliminação gradual dos procedimentos impostos no registo de empresas e na

48
concessão de alvarás de exploração foi um dos principais atractivos a entrada de imigrantes
económicos no país.

O segundo grupo de factores é determinado principalmente pelos recursos financeiros do


imigrante. Imigrantes que se estabeleçam em Moçambique com capital de investimento
provocam um impacto mais visível em relação aos que não venham munidos de capital. Com
base no capital de investimento o imigrante vai afectar toda uma cadeia económica ao alugar,
arrendar ou pagar por bens e serviços prestados. As qualificações e a experiência profissional e
de negócios que o individuo tenha também jogam favoravelmente para que ele tenha sucesso nos
seus negócios e que provoque um impacto positivo na sociedade moçambicana. A experiencia
em negócios e o capital demonstrado pelos imigrantes asiáticos (paquistaneses, indianos e
chineses) permite-lhes ter maior sucesso económico do que os imigrantes de outras regiões,
contrariamente aos imigrantes da região austral (Zimbabwe, Malawi e Tanzânia) que entram no
país, na sua maioria, sem grande capital e sem grande experiência comercial. Ao lado dos
imigrantes asiáticos, munidos de capital e experiencia encontram-se os imigrantes da África
ocidental (nigerianos, senegaleses e guineenses) e do corno de África (etíopes e somalis).

Dentro do terceiro grupo de factores (oportunidades étnicas), joga um papel extremamente


importante os recursos do grupo étnico. Grupos étnicos altamente coesos suportam os seus
conterrâneos nas sociedades de acolhimento, desde a facilitação a entrada ao país, a legalização,
a concessão de emprego e até na concessão de empréstimos. Os recursos do grupo étnico por
vezes podem ser de carácter familiar ou étnico, que disponibilizam capital para investimento
empresarial (Oliveira, 2005:20). A presença histórica de uma comunidade étnica no país de
acolhimento também contribui para definir a trajectória económica dos seus integrantes. De
acordo com Oliveira, a primeira geração de imigrantes contribui na integração de novos
imigrantes na sociedade de acolhimento. Pelo seu tempo de presença no território moçambicano,
os imigrantes mais antigos conhecem redes de apoio mas vastas (Oliveira, 2005:20).

Em alguns casos, as redes de imigrantes tem tido um efeito positivo na sua inserção profissional
e no mundo dos negócios. Estas redes obedecem ao princípio da solidariedade. Os recursos
étnicos são produzidos e reproduzidos por membros de um mesmo grupo. Baseiam-se em formas

49
de fidelidade, confiança, cooperação e solidariedade (Oliveira, 2005:27). De acordo com Light,
citado por Heisler (2008:87), imigração cria uma solidariedade reactiva, no sentido de que, os
membros do mesmo grupo étnico apoiam-se no país de acolhimento enquanto este apoio não
existe no país de origem. O sucesso de alguns grupos étnicos nos países de acolhimento deve-se
precisamente a essa solidariedade intra-grupo. A primeira vista, parece que os imigrantes
possuem maior informação sobre as oportunidades de negócio em Moçambique. O investidor
imigrante entra no mercado conhecendo a estrutura da oferta e procura de determinados produtos
empresariais. Este conhecimento é difundido pelos imigrantes pré-estabelecidos no país.

6.2.3- Impacto da Imigração nos Sectores da Economia

A economia de um país pode ser dividida em 3 Sectores fundamentais, o sector primário,


secundário, terciário e quaternário. O sector primário está relacionado à produção através da
exploração de recursos da natureza e abrange actividades como a agricultura, indústria
extractiva, pesca e pecuária. O Sector Secundário está relacionado com a transformação das
matérias-primas produzidas pelo sector primário em produtos de consumo, a indústria
transformadora e a construção civil são, portanto, actividades desse sector. O Sector Terciário é o
dos serviços. Os serviços são produtos não meterias que pessoas ou empresas prestam a terceiros
para satisfazer determinadas necessidades e incluem actividades como comércio, serviços
bancários, serviços administrativos, educação, saúde, transportes, seguros, turismo, etc. Este
sector engloba também actividades ligadas as tecnologia digital como a informática, multimédia
e telecomunicações. Em termos de sectores de actividade, verificou-se que os imigrantes
repartem-se um pouco por todos os sectores com maior peso no sector primário e terciário.

O sector primário verifica uma grande presença de imigrantes concentrados na sua maioria na
industria extractiva. A presença de imigrante brasileiros nas minas de carvão ao longo da
província de Tete representa um imput considerável para o desenvolvimento desta actividade. A
dinamização das minas de carvão na província de Tete motivou um boom económico nesta
província e nos corredores ferroviários que permitem o escoamento desta produção. O carvão
Moçambicano está cotado entre os melhores do mundo e a sua exploração vai incrementar as
exportações moçambicanas favorecendo desse modo o PIB e a Balança Comercial. Para além

50
dos brasileiros concentrados na mineração na província de Tete, existem várias nacionalidades
que fazem maioritariamente a mineração ilegal em províncias como Niassa e Manica na busca de
ouro e diamante. Nestes casos, o impacto económico é adverso aos interesses económicos do
estado pois, a maioria desta mercadoria é exportada de forma ilegal não contribuindo para as
receitas fiscais.

Na verdade, são poucos os imigrantes que se concentram em actividades produtivas de facto. O


sector agrícola é o menos favorecido em termos de investimentos de imigrantes. A excepção de
alguns farmeiros zimbabueanos que ainda se encontram na província de Manica, alguns sul-
africanos, portugueses, chineses, vietnamitas e imigrantes das Maurícias que exploram um
pequeno nicho do mercado agrícola ligado a produção de arroz, batata, floricultura, este sector
não demonstra grandes desenvolvimentos. Este cenário anacrónico para um país com grandes
potencialidades agrícolas resulta sobremaneira da incapacidade do estado criar incentivos como a
facilitação do crédito, infra-estruturas, falta de subsídios e a elevada carga fiscal sobre os
insumos agrícolas. A par do sector agrícola está o sector das pescas, onde a presença de
imigrantes é quase nula. As fragilidades produtivas do país não são bem aproveitadas pelos
imigrantes. Parece não haver por parte de muitos imigrantes suficiente vontade de arriscar na
área produtiva.

Em termos gerais, o sector secundário em Moçambique é bastante fraco e incipiente. O sector


industrial em Moçambique contribui apenas com 12 por cento para o Produto Interno Bruto
(PIB), uma percentagem considerada muito baixa, tendo em conta as potencialidades que o país
possui. O volume de produção do sector industrial é baixo devido a falta de investimentos
nacionais e estrangeiros no sector (Fernando Gil, AIM - 22.11.2007). O estado moçambicano
enfrenta grandes dificuldades na atracção de investidores estrangeiros para a criação de novas
indústrias e para a revitalização das mais de 300 indústrias paralisadas devido a guerra e as falhas
do processo de privatização da década 90. No entanto, regista-se a criação de várias indústrias de
pequeno porte pertencente a imigrantes portugueses, indianos, paquistaneses, maurícios,
principalmente ligados a industria alimentar (açúcar, bolachas, doces, pão, sumos, iogurtes, etc) e
têxtil (vestuário, calçado, etc).

51
Em relação a construção civil, existe uma considerável presença de imigrantes portugueses e
chineses proprietários de empresas de construção civil ou empregados em empresas nacionais. O
envolvimento dos imigrantes neste sector tem efeitos bastante positivos para o desenvolvimento
de infra-estruturas no país. Os imigrantes e as empresas dos imigrantes estão envolvidos na
construção de habitações e obras públicas (edifícios governamentais, estradas, pontes e infra-
estruturas de abastecimento de água nas cidades e vilas). Estas infra-estruturas trazem um
impacto positivo na economia e sociedade moçambicana. Normalmente, os imigrantes
envolvidos na construção civil possuem qualificações (skills) mais apurados dos que os
moçambicanos contribuindo desse modo para a qualidade das infra-estruturas e a rapidez da
execução das obras.

Por sua vez, com a chegada de muitos imigrantes em Moçambique assistiu-se a um Boom do
sector terciário, principalmente no comércio e turismo. A área comercial é a mais expressiva,
com o surgimento de novos negócios no país. Muitos imigrantes foram responsáveis pela
reabertura do comércio rural, um sector anteriormente em franca decadência. Várias lojas rurais
foram abertas e passaram a fornecer produtos essenciais às populações rurais reduzindo as
distâncias de deslocação para a aquisição destes produtos. O impacto dos imigrantes pode ser
visto em função da Oferta e Procura de bens e serviços essenciais. Durante muito tempo, a
procura de produtos essenciais nas zonas rurais era desfavorecida pela inexistência de uma oferta
diversificada e a baixos custos.

Os empresários imigrantes contribuíram sobremaneira para a revitalização da economia


moçambicana, tendo impulsionado o desenvolvimento de negócios em áreas como sapatarias,
lojas de roupa, mercearias, etc. A elevada capitalização dos imigrantes em relação aos nacionais
desprovidos de capital é notória. Entretanto, a criação do FIIL veio abrir oportunidades de capital
para muitos moçambicanos que entretanto começaram a investir nas mesmas áreas. A
experiência colhida, o conhecimento sobre os melhores mercados de oferta, a disponibilidade de
assumir riscos e os baixos preços praticados pelos imigrantes vem sufocando a emergência deste
empresariado nacional que vê no empresário imigrante não só um concorrente mas também
como adversário.

52
Em relação a importação e exportação de bens e produtos de Moçambique, é importante referir
que a maioria dos imigrantes vira-se para a importação. Pelo facto de estarem maioritariamente
ligados ao comércio e pelo facto do país não ter uma base produtiva capaz de alimentar este
comércio, o país tornou-se mais importador com a chegada de imigrantes comerciantes. Por
força deste factor, a balança comercial tornou-se mais deficitária, somente equilibrada pelos
grandes industrias exportadores como a Mozal, Gás Natural.

Em termos de parceiros comerciais, o fluxo de importações dos imigrantes permitiram que o país
estabelecesse ligações com novos mercados, normalmente representando os países de origem das
maiores comunidades imigrantes no país. Os laços comerciais com países como a China, Índia,
Nigéria, Brasil, e os países do médio oriente obedecem em certa medida ao volume de imigrantes
oriundas destes países. Deve-se referir que os artigos importados pelos imigrantes abarcam desde
os artigos de luxo aos artigos simples, desde os alimentares a maquinaria. São normalmente
importados produtos como: Sapatos, Roupa diversa, mobiliário de escritório e de casa,
electrodomésticos, consumíveis de escritório e produtos alimentares diversos. A inexistência de
uma base produtiva no país permite que se importe produtos elementares como agulhas,
alfinetes, sal, etc.

A segunda área que sofreu um Boom foi o Turismo, onde assistimos a construção de novos
hotéis, pensões e guest houses em quase todo o país. Ao nível das grandes cidades, vários são os
estabelecimentos hoteleiros pertencentes a imigrantes contribuindo significativamente para o
aumento da oferta de camas. Por seu lado, ao nível dos distritos e zonas rurais o número de
imigrantes que exploram o sector é bastante reduzido devido ao fraco retorno de investimentos.
Em termos gerais, o sector turístico é maioritariamente dominado por imigrantes sul-africanos
que exploram as potencialidades, principalmente nas províncias costeiras de Inhambane, Gaza e
Maputo no sul e Cabo Delgado no norte.

O sector turístico concorre hoje como um dos sectores em maior expansão no país contribuindo
significativamente em divisas e infra-estruturas. Todavia, a relação entre os investidores
estrangeiros e os cidadãos nacionais não tem sido pacífica e motiva vários conflitos em torno da
posse de terra, títulos de propriedade, destruição de ecossistemas, promoção da prostituição,

53
segregação racial, privatização dos espaços públicos e exploração do nacional pelos estrangeiros.
Vários entrevistados denunciam a inoperância das forças policiais e das instituições de justiça,
muitas vezes subornadas pelos investidores imigrantes.

A predominância de imigrantes no sector terciário também é sentida ao nível da banca comercial


pois, existe uma considerável presença de imigrantes portugueses neste sector. A maioria dos
bancos privados nacionais possui no seu quadro técnico e administrativo imigrantes portugueses
qualificados, contratados para desempenhar funções chaves de chefia e treinamento. No entanto,
de acordo com a Organização dos Trabalhadores de Moçambique – Central Sindical (OTM-CS),
nem todos imigrantes contratados pelos bancos e pelas empresas apresentam, necessariamente,
um elevado grau de formação, principalmente nos casos de indivíduos que ocupam cargos de
confiança.

6.2.4- Impacto da Imigração no Mercado de Trabalho

Quanto ao mercado de trabalho, o impacto dos imigrantes pode ser observado de dois ângulos: a
Oferta e a Procura. Em relação a procura, o reduzido tamanho do mercado de trabalho em
Moçambique que exclui grande parte dos jovens moçambicanos reflecte-se também na baixa
contratação de imigrantes. Ao mesmo tempo, não existe uma estratégia de emprego que possa
absorver a massa laboral imigrante. O discurso do governo tanto para os nacionais como para os
estrangeiros é o incentivo ao auto-emprego e ao empreendedorismo. Apesar do mercado de
emprego ser bastante pequeno, o governo moçambicano adoptou políticas que facilitam a entrada
de imigrantes no mercado de trabalho, especialmente os que são qualificados e capazes de se
adaptar. Como é sabido, o maior empregador em Moçambique é o Estado e os concursos de
ingresso privilegiam a mão-de-obra nacional. Somente em casos de inexistência de quadros
qualificados em certas áreas que demandam formação especializada é que o Estado recorre a
contratação de mão-de-obra estrangeira. A lei do trabalho também estipula uma série de
condicionalismo para a contratação de mão-de-obra estrangeira no sector privado.

54
Entretanto, de acordo com o presidente da Confederação das Associações Económicas de
Moçambique (CTA), Salimo Abdula, o sector privado continua a recorrer à mão-de-obra
estrangeira por falta de alternativa a nível interno. Para Abdula, a contratação de trabalhadores
estrangeiros continua necessária, apesar de ser dispendiosa uma vez que requer a
disponibilização de muitos recursos logísticos. Para Abdula, a necessidade de contratação de
mão-de-obra estrangeira prende-se com o facto das empresas nacionais não estarem somente a
competir ao nível interno mas sim ao nível regional no âmbito da integração regional e ao nível
internacional, como empresas dos outros continentes (AIM – 06.04.2009).

Facto assente é que a maioria dos imigrantes asiáticos, árabes, oriundos da África ocidental e do
corno de África não procuram o país com objectivo de concorrer para o mercado de trabalho,
enquanto os imigrantes vindos do Zimbabwe, Malawi e Tanzânia buscam, para além do negócio,
buscam oportunidades de emprego. Provavelmente devido a crise económica que se vive no
Zimbabwe e a fraca condição económica do Malawi, os imigrantes destes países não
demonstram um elevado nível de empreendedorismo dependendo muitas vezes de pequenos
empregos mal remunerados ou se baseando no mercado informal.

A inserção dos imigrantes económicos em Moçambique acontece de várias maneiras. A maioria


dos imigrantes em Moçambique trabalha por conta própria e se mostram mais empreendedores
que os nacionais. A experiência mostra que a maior parte dos imigrantes em Moçambique
trabalha em empresas dos conterrâneos e poucos são os que trabalham em empresas de
moçambicanos. A maioria dos imigrantes asiáticos, árabes, da África ocidental e do Corno de
África se empregam nas empresas dos seus conterrâneos e rapidamente mudam da situação de
empregado para empregador pois, através dos laços étnicos são favorecidos por empréstimos e
créditos para iniciarem um negócio próprio. Normalmente, o imigrante trabalha com os seus
conterrâneos por um tempo curto, mudando-se em seguida para uma actividade individual na
base de empréstimos. A experiência profissional conseguida em firmas de conterrâneos significa,
em muitos casos, a chave para o desenvolvimento de actividades independentes (Oliveira,
2005:15). No caso dos hindus e árabes, a fonte de capital, para além de ser individual ou basear-
se na rede étnica, ela costuma basear-se em associações religiosas.

55
O maior problema que Moçambique enfrenta é a excessiva onda de imigrantes ilegais. De acordo
com Chiswick (2008:71), os imigrantes ilegais tendem a ser pessoas sem nenhuma qualificação
ou com poucas qualificações em relação aos imigrantes legais e, por causa disso, os ilegais
tendem a empregar-se em empregos com baixos salários. Ou permanecem em actividades
clandestinas no comércio informal ou ainda em actividades de tráfico e extracção de minérios
preciosos, caça ilegal, abate ilegal de árvores entre outras actividades ilegais. Esta tendência
resulta do facto da maioria dos imigrantes ilegais serem oriundos de zonas pobres, sem
nenhumas qualificações e habilidades e sem recursos financeiros. Normalmente os imigrantes
ilegais não são imigrantes económicos.

Em relação a oferta, a contribuição dos imigrantes na criação de emprego depende muito do


tamanho das suas empresas. Na maioria dos casos, os imigrantes investem em pequenas e médias
empresas. O tamanho destas empresas determina o volume de contratações dos cidadãos
nacionais. Alguns estrangeiros criam emprego para os moçambicanos principalmente quando
estabelecem grandes empreendimentos ou grandes projectos. O peso da contratação de
moçambicanos depende também dos sectores da economia. No sector primário, as empresas de
mineração são responsáveis pela contratação de muitos moçambicanos. A par destas encontram-
se as empresas de produção alimentar. No sector secundário, as empresas de construção civil dos
imigrantes são actualmente aquelas que mais moçambicanos empregam, principalmente nas
obras públicas. Apesar de haver nichos consideráveis de imigrantes, a mão-de-obra nacional
representa a maioria dos trabalhadores contratados.

No sector terciário, a área comercial ganha maior vantagem na contratação de moçambicanos em


relação as outras áreas como o turismo. Por serem empresas de pequenas dimensões, as lojas dos
comerciantes imigrantes contratam de 1 a 5 trabalhadores nacionais e em alguns casos, os
comerciantes não empregam moçambicanos. Apesar da lei do trabalho incentivar, favorecer e
proteger a contratação de trabalhadores nacionais é notório que alguns estrangeiros abrem as
suas lojas comerciais e só contratam estrangeiros ou familiares. No comércio informal está
situação torna-se mais grave porque os imigrantes, nem sequer chegam a empregar
moçambicanos porque são eles próprios que fazem a gestão do seu pequeno negócio. Entretanto,
por causa da largura do sector comercial formal, onde existem várias lojas de pequena e média

56
estatura ocorre um alargamento do mercado de emprego. Ainda que em pequena escala, os
comerciantes imigrantes contribuem para a redução do desemprego no país18.

A par de uma análise em função da oferta e procura, o impacto dos imigrantes no mercado de
trabalho pode ser vista ao nível das relações laborais. A título de exemplo, o relacionamento
entre trabalhadores imigrantes e nacionais mostra-se em muitos casos bastante tenso
principalmente na construção civil. As constantes greves de moçambicanos empregados em
obras controladas por chineses demonstraram situações de exploração, descriminação e racismo
dos chineses para os moçambicanos e demonstraram uma grande diferença na cultura de trabalho
entre os dois povos. Outro problema com o qual a inspecção do trabalho se depara muitas vezes é
com as diferenças salariais entre os estrangeiros e os Moçambicanos. O relacionamento também
não é pacífico quando o imigrante goza de mais benefícios na relação de trabalho ou quando este
ocupa cargos de chefia passíveis de ser ocupados por nacionais.

6.3. IMPACTO SOCIOPOLÍTICO E CULTURAL

Do ponto de vista sócio-antropológico, o enfoque teórico recai sobre dois aspectos fundamentais:
a integração ou incorporação dos imigrantes e a assimilação dos imigrantes nos países de
acolhimento ou nas sociedades receptoras. A discussão teórica sobre a assimilação dos
imigrantes é a mais antiga e a mais dominante nos estudos sócio-antropológicos sobre a
imigração. Tanto a assimilação dos imigrantes como a sua integração nas sociedades de
acolhimento dependem de dois factores principais: esforços das sociedades receptoras em
admitirem imigrantes e a vontade dos imigrantes. As questões que se podem levantar aqui são: 1)
será que os imigrantes procuram se assimilar a sociedade moçambicana ou procuram
simplesmente a integração ou incorporação? 2) Será que a sociedade moçambicana quer
assimilar os imigrantes ou simplesmente integra-los? Que benefícios ou prejuízos Moçambique
tem partindo destas hipóteses em questão? Que impacto existe para Moçambique ao assimilar ou
integrar imigrantes?

18
Quando os imigrantes desenvolvem actividades empresariais, criam novos postos de trabalho e expandem a oferta
de bens e serviços na sociedade a preços competitivos (Oliveira, 2005:16).

57
6.3.1. Multiculturalismo ou Assimilação?

Um dos maiores impactos culturais da imigração é o surgimento de sociedades multiculturais


(multiétnicas, multilinguísticas e multireligiosas). Apesar de Moçambique ter uma herança
multicultural resultante do cruzamento de povos negros Bantos e Khoisan, povos brancos da
Europa e povos árabes do oriente médio, o país recebe hoje novos imputs culturais resultantes do
cruzamento dos povos moçambicanos originários com os povos imigrantes de diversas origens.
Estes novos imputs contribuem para uma nova miscigenação cultural derivada da agregação de
novas culturas, línguas, costumes e tradições diferentes.

Existem vários autores dos assuntos de migração que defendem a necessidade das sociedades
receptoras de imigrantes tornarem-se multi-culturais e diversas. Para estes autores, a diversidade
cultural contribui para o enriquecimento dos estados tanto a nível material e cultural pois, surge
uma nova cultura de trabalho, novos valores sócio-políticos, diversidade linguística, diversidade
na culinária, diversidade musical e na dança, etc. Exemplos são trazidos da realidade americana,
brasileira e sul-aficana que espelham a dimensão positiva da diversidade cultural. Os painéis
luminosos de lojas e restaurantes demonstram claramente a diversidade cultural de
Moçambiquie. Hoje, encontram-se restaurantes chineses, talhos portugueses, restaurantes
italianos, lojas de roupa brasileira, clínicas que aplicam métodos de tratamento chineses, etc.

Não haja dúvidas que a diversidade cultural pode trazer benefícios as sociedades de acolhimento.
Entretanto, a diversidade cultural pode ser interna e externa. Deve-se reconhecer que
Moçambique sempre teve uma diversidade cultural interna. Mas essa diversidade e
multiculturalidade são convergentes. Elas convergem para um único vértice - o vértice da
moçambicanidade, estabelecida pelas políticas de unidade nacional e do respeito pela pluralidade
étnica. Em relação aos imigrantes, a sua multiculturalidade é externa e por isso não é
convergente. Ela traz uma sociedade estruturada em camadas culturais distintas e específicas,
cada qual com sua própria lógica, seus valores e seus âmbitos (Martins, 2008:2).

Os perigos do multiculturalismo manifestam-se principalmente quando os imigrantes


estabelecem enclaves étnicos. Enclave étnico é um processo que emerge da concentração em

58
determinadas áreas de imigrantes de uma mesma nacionalidade representando uma ameaça
cultural. Os estados devem evitar a concentração de imigrantes por comunidades sob o risco de
se enfrentar choques e conflitos. A presença de grupos étnicos formados no curso do processo
imigratório, concentrados de forma expressiva pode suscitar manifestações de xenofobia por
parte dos naturais (Seyferth, 1997:95-96). Na perspectiva de alguns entrevistados, não há
dúvidas de que a xenofobia vai acontecer em Moçambique pois, os imigrantes que se concentram
em certas áreas passam a ter domínio sobre a vida económica e cultural dessa área e começam a
excluir os moçambicanos do seu meio. O nacional torna-se empregado do imigrante e estes
exploram-lhes como escravos e maltratam-lhes. No futuro, se o número de imigrantes crescer os
moçambicanos podem ficar violentos. A situação pode piorar com a abolição do visto de entrada
ao nível da SADC. Para que haja choques culturais entre imigrantes e nacionais, o tamanho, a
concentração e a homogeneidade da população imigrante contam muito.

Tamanho

Concentração Homogeneidade

A tríade, tamanho, concentração e homogeneidade deve ser controlada pelos decisores políticos
na sua política de imigração. Quanto maior o grupo, mais concentrado e homogéneo for, o grupo
tenderá a valorizar a sua cultura, o seu modus vivendi e dificilmente negociará a sua identidade
para assumir a identidade do país de acolhimento. No lado inverso, quanto menor,
desconcentrado e heterogéneo maior será a necessidade de negociar a sua identidade e assumir os
valores culturais do país de acolhimento, assimilando o modus vivendi do país de acolhimento. A
presença de Malawianos, Zimbabueanos e tanzanianos em comunidades concentradas pode
representar uma ameaça aos valores culturais e a segurança do estado. O risco Da xenofobia só
podia ser debelado através da imposição de uma política imigratória que distribua os imigrantes
por todo o país, de forma a promover o equilíbrio populacional ou através da assimilação

59
(Seyferth, 1997:96). As manifestações xenófobicas dos moçambicanos começaram com os
insultos aos imigrantes. A eles são dados nomes injuriosos e difamadores.

A assimilação dos imigrantes é vista por muitos autores dos assuntos de imigração como uma
questão estratégica para a sobrevivência de qualquer estado que admita a entrada de muitos
imigrantes no seu território. Autores americanos defendem esta posição desde as primeiras
grandes vagas de imigração para o território americano. A tentativa de construção de um novo
estado e a necessidade de criação do cidadão americano tornou os Estados Unidos num grande
defensor da teoria da assimilação. O imigrante era obrigado a assumir uma nova identidade
nacional e aprender novos valores defendidos pela sociedade americana19.

A assimilação é prática usada pelos estados modernos de forma a garantir a coesão social e a
valoração do sentimento patriota. Por causa disso, ela é assumida como elemento estratégico
para a sobrevivência das sociedades (Seyferth, 1997). Neste sentido, os estados receptores
procuram introduzir novos valores culturais sobre os imigrantes através da aculturação. Através
da aculturação, os estados procuram tornar os imigrantes iguais aos nacionais pois, o factor
cultural representa a grande fronteira de distinção entre os grupos numa sociedade20.

Enquanto o imigrante como indivíduo isolado pode facilmente sofrer o processo de


assimilação/aculturação, os imigrantes em grupo dificilmente se deixam assimilar pois, os grupos
erguem fortalezas para proteger a sua cultura. Esta situação é visível principalmente entre as
comunidades agrupadas de etíopes, somalis, indianos, árabes que resistem a pressão assimiladora
da sociedade moçambicana. De acordo com Charles Krauthammer (2005), o real problema não é
a imigração mas sim a assimilação pois, qualquer país pode ter imigrantes mas nem todos
conseguem assimila-los. Para ele, enquanto os imigrantes não forem assimilados, vão
19
Quando se fala de valores, fala-se de ideias colectivas, compartilhadas por pessoas numa sociedade, que definem
os critérios do desejável, aquilo que é importante, valioso, belo ou feio, justo e injusto, aceitável ou inaceitável, e
outros valores que são tomados em conta pelo grupo para sustentar a sua vida em sociedade.
20
Segundo a visão estruturalista de Levi-strauss, a cultura é entendida como uma estrutura, ele considera a cultura
como um património comum dos membros de uma sociedade e que este património é transmitido de geração em
geração. Como consequência, a cultura torna-se uma herança social e o elo máximo de ligação entre as gerações. A
cultura seria então, tudo aquilo que foi criado e construído por um grupo de seres humanos, por uma sociedade ou
por um povo. A cultura engloba um sistema de ideias, valores, crenças, costumes e os conhecimentos
compartilhados por esse grupo, sociedade ou povo (Etienne: 1997)

60
permanecer alienados dos valores políticos e culturais do país de acolhimento. Por seu lado,
Dave Gibson (2005), considera que a imigração sem assimilação é igual a invasão. A invasão de
estrangeiros constitui hoje um desafio para os estados. De acordo com o presidente brasileiro
Getúlio Vargas, “Um país não é apenas um conglomerado de indivíduos dentro de um trecho de
território, mas, principalmente, a unidade de raça, a unidade de língua e a unidade do
pensamento nacional (Seyferth, 1997:101).”

O primeiro obstáculo ao processo de assimilação é o direito internacional. A declaração universal


dos direitos do homem, a declaração dos direitos humanos dos indivíduos que não são nacionais
dos países onde vivem, a convenção No 143 da OIT e a convenção internacional para protecção
de todos os trabalhadores imigrantes e os membros das suas famílias são exemplo de alguns
instrumentos internacionais que limitam as capacidades dos estados assimilarem os imigrantes. O
direito internacional convida os estados a reconhecerem e respeitarem o pluralismo cultural, o
direito dos imigrantes manterem sua própria língua, cultura e tradição. Para além disso, estes
instrumentos convidam os estados a preservarem as identidades culturais e étnicas, os laços
culturais com os seus países de origem assim como dar possibilidade das crianças dos imigrantes
a oportunidade de terem uma educação na sua língua materna. Portanto, manter a cultura
originária e a língua materna é um direito dos imigrantes e isso implica a prevalência de quistos
étnicos.

A palavra quisto revela uma concepção negativa ao considerar os imigrantes como um cancro
para a sociedade Moçambicana. De acordo com Seyferth, citado por klumb (2009:3), “os
imigrantes, em geral, mantêm alguma ligação com a cultura e sociedade de origem [...], guardam
sempre alguma forma de identidade étnica, por mais que os laços com seus países de origem
estejam diluídos”. A lei moçambicana não faz nenhum esforço para quebrar a permanência da
cultura dos imigrantes. Alias, ela protege todos os direitos e liberdades fundamentais dos
cidadãos sem distinção de raça, credo, sexo, nacionalidade, idade, partido político, etc. Por força
deste dispositivo constitucional, o estado é impotente para forçar a assimilação dos imigrantes ou
dos seus descendentes. Alias, este dispositivo constitucional resulta da consciência do legislador
de que a população moçambicana é marcada por uma acentuada heterogeneidade étnica e por
isso possui uma diversidade cultural.

61
Contrariamente a outras sociedades mais experientes na recepção dos imigrantes, Moçambique
não tem nenhuma política de assimilação dos imigrantes para prejuízo do estado. O risco da
afirmação de identidades étnicas e religiosas por parte de algumas comunidades imigrantes e o
risco do surgimento de enclaves étnicos devem fazer parte de uma política firme de controlo de
imigrantes. A política de associativismo baseado na origem nacional deve ser controlada pelo
estado. Enquanto o impacto cultural dos imigrantes ainda não é muito manifesto, o estado deve
criar condições de induzir a assimilação, por parte dos imigrantes, da cultura dominante,
especialmente os filhos dos imigrantes, que admitem mais facilmente a introdução de novos
valores culturais. Os melhores mecanismos de assimilação são: o mercado de trabalho e as
instituições de educação21.

6.3.2. O Transnacionalismo Imigrante

O transnacionalismo imigrante refere-se a situação em que os imigrantes mantêm, constroem


(criam) e reforçam os laços com os seus países de origem (Heisler, 2008:95). De acordo com
Heisler, estes laços criam uma comunidade transnacional, uma nova identidade: a identidade
transnacional. O imigrante transnacional é cidadão ‘daqui’ e ‘de lá’ e envolve-se em actividades
transnacionais como: envio de dinheiro ao país de origem, viagens constantes ao país de origem,
comunica-se constantemente com o país de origem, criam associações ligadas ao país de origem,
assistem e escutam rádio e televisão do país de origem, votam nas eleições do país de origem, etc
(Heisler, 2008:96). O trans-nacionalismo imigrante pode ocorrer com maior frequência em zonas
fronteiriças e é cada vez mais facilitado pelos avanços tecnológicos criadas nos transportes e
comunicações e as facilidades criadas pela globalização.

21
No Brasil, A campanha de nacionalização (assimilação) foi implementada durante o Estado Novo (1937-1945),
atingindo todos os possíveis alienígenas. O primeiro acto de nacionalização atingiu o sistema de ensino em língua
estrangeira: a nova legislação obrigou as chamadas “escolas estrangeiras” a modificar seus currículos e dispensar os
professores “desnacionalizados”; as que não conseguiram (ou não quiseram) cumprir a lei foram fechadas. A partir
de 1939, a intervenção directa recrudesceu e a exigência de “abrasileiramento” através da assimilação tornou-se
impositiva. Assim, progressivamente, desapareceram as publicações em língua estrangeira, principalmente a
imprensa étnica, e algumas sociedades recreativas, desportivas e culturais que não aceitaram as mudanças; foi
proibido o uso de línguas estrangeiras em público, inclusive nas actividades religiosas (Seyferth, 1997:96-97).

62
O trans-nacionalismo emerge como uma questão de análise porque representa um desafio para os
estados de acolhimento. Pelo facto de não permanecerem permanentemente em Moçambique,
resultado das idas e voltas ao país de origem os imigrantes transnacionais acarretam problemas
de dupla lealdade, não fazem grandes investimentos que exijam a permanência no país e são
responsáveis pela maior remessa de divisas de Moçambique para os países de origem, muitas
vezes saindo sem declaração. Estes aspectos tomados de forma leviana não aparentam nenhuma
ameaça para a estabilidade e segurança do estado mas, numa análise mais fria percebe-se que o
imigrante transnacional representa uma fragilidade para os estados receptores porque o imigrante
transnacional permanece enraizado ao seu país de origem, culturalmente, politicamente e
economicamente.

Os imigrantes asiáticos árabes, indianos, paquistaneses e bengaleses residentes em Moçambique,


mantêm uma forte ligação com suas sociedades de origem e respectivas tradições culturais pois,
não existe nenhuma pressão da sociedade moçambicana para a sua assimilação. O que se observa
é a coexistência e o confronto diferencial no qual imigrantes buscam acomodar-se aos padrões da
cultura hospedeira sem, no entanto, perder seus traços distintivos, num esforço dirigido à
construção e manutenção das redes e identidades sociais (Fígoli e Vilela, 2004:1). O imigrante
africano é por natureza mais transnacional que o imigrante europeu. Os fortes laços familiares
enraizados na cultura africana impede o desenraizamento total dos seus locais de origem. Existe
no seio dos africanos um sentido de obrigação em ajudar os seus. Por força disso, a maioria dos
imigrantes africanos residentes em Moçambique são responsáveis pela maior remessa de
dinheiro para o exterior sem nenhuma declaração ao estado, são também responsáveis pela
criação das maiores redes de facilitação da imigração. Estas redes, são responsáveis pelo convite
e facilitação da entrada de mais imigrantes dos seus países de origem, tanto de forma legal como
ilegal.

Por força da sua característica transnacional, desenraizados de Moçambique, os imigrantes


transnacionais são muito propensos a se auto-excluirem dos processos sociopolíticos do país e
são também propensos a excluir os nacionais do seu convívio. Em virtude de se sentirem
diferentes dos nacionais eles criam espaços de inclusão baseados na sua etnia. Nesse sentido, a
consciência das diferenças tem promovido a construção de identidades étnicas, as quais são

63
artifícios culturais de interacção, organização e resistência ao desaparecimento social, físico e
simbólico imposto pela sociedade dominante (Fígoli e Vilela, 2004:4).

6.3.3. Integração Social dos Imigrantes

O maior interesse da integração é conceder direitos sociais aos imigrantes sem prejuízo das suas
identidades culturais. A integração do imigrante não significa a «assimilação» ou a supressão de
sua identidade cultural. Certamente, a integração requer esforço para entrar na vida social e
estabelecer relações de convivência, para aprender a língua da nação e adequar-se às leis e às
exigências trabalhistas mas não implica a aculturação. A integração dos imigrantes em
Moçambique depende de dois factores principais: a vontade dos imigrantes se integrarem e a
vontade dos moçambicanos integrarem.

A vontade dos moçambicanos integrarem depende de factores como raça, religião e a capacidade
financeira dos imigrantes. Em Moçambique, existem comunidades bastantes fachadas e que não
permitem a integração rápida dos imigrantes nem dos moçambicanos que não são originárias
dessa comunidade. Este tipo de comunidades é adverso ao multiculturalismo e podem manifestar
o xenofobismo. Entretanto, pode-se assumir que a atitude da sociedade moçambicana comporta
três comportamentos diferentes: receptividade, indiferença e hostilidade em relação a presença
de imigrantes no país.

No geral, os moçambicanos são muito receptivos aos imigrantes havendo no entanto uma
percepção diferente em relação a tipologia dos imigrantes. Aspectos raciais e étnicos têm um
peso muito grande na atitude dos moçambicanos. Imigrantes europeus e asiáticos (Paquistanês,
Indiano, Bengali) têm maiores chances de serem bem acomodados do que os imigrantes
africanos. Ao imigrante europeu e asiático está conotada a condição financeira e a criação de
oportunidades de emprego. Existe também uma grande receptividade dos imigrantes árabe-
muçulmanos nas províncias de predominância islâmica. Todavia, nas províncias de pouca
expressão islâmica manifesta-se alguma hostilidade. A percepção em relação aos chineses é
ainda de alguma resistência e hostilidade muito provavelmente devido a introdução bastante
recente na sociedade moçambicana. Por causa do pendor financeiro dos europeus e asiáticos são-

64
lhes criadas facilidades, de acesso a documentos, licenças e alvarás, muitas vezes em prejuízo do
cidadão moçambicano. Com efeito, são constantemente reportados casos de favorecimento a
imigrantes estrangeiros em todo o país. Pode-se inferir que os imigrantes contribuem para o
crescimento de actos de corrupção e clientelismo.

Na análise da receptividade dos imigrantes, também é pertinente avaliar a distância percorrida


pelo imigrante. As distâncias etno-linguísticas dos imigrantes do corno de África e da África
ocidental diferem grandemente da distância etno-linguística dos imigrantes vindos da África
austral. A semelhança cultural e linguística permite uma facilidade de integração dos
zimbabweanos, malawianos, zambianos e tanzanianos principalmente nas províncias próximas
dos seus países de origem. A mudança cultural não cria choques constantes. Esta situação
também beneficia aos imigrantes portugueses e brasileiros, que compartilham com os
moçambicanos a mesma língua e, de certa forma, alguns valores culturais. Em relação aos
imigrantes vindos da África ocidental, do corno de África e da África central, a grande diferença
etno-linguística cria um choque cultural verdadeiro obrigando a uma aprendizagem e mutações
drásticas. Todavia, o factor religioso também contribui para reduzir as distâncias etno-
linguísticas e criar laços de amizade.

Em termos gerais, a sociedade moçambicana é receptiva e acolhedora, por esse motivo, os


imigrantes tem tido sucesso nos negócios que provocam um impacto positivo na sociedade. No
sentido oposto, se a sociedade moçambicana fosse fechada e repulsiva em relação aos
imigrantes, eles não teriam chances de sucesso e o seu impacto seria negativo para a sociedade.
Por causa da receptividade dos moçambicanos, a maioria dos imigrantes que criam negócios em
Moçambique tornam-se bem sucedidos e expandem os seus negócios, aumentando gradualmente
o seu investimento no país. A receptividade do país cria confiança no imigrante e por via disso
mantêm as suas contas bancárias no país, reduzem as remessas de dinheiro para o país de origem,
estabelecem negócios maiores, compram imóveis, em poucas palavras pode se dizer que o
imigrante investe na permanência a longo prazo.

Existem no entanto momentos em que a sociedade moçambicana demonstra sinais de hostilidade


e indiferença. A hostilidade costuma manifestar-se em relação aos imigrantes que atingem

65
sucesso económico muito rápido num ambiente de escassez e pobreza, principalmente ao nível
dos distritos. Sempre que um grupo de imigrantes ou um imigrante acumula vantagens e
benefícios em detrimento dos nacionais e ou lesar os interesses da sociedade local (vender
produtos a preços baixos em comparação com os nacionais, namorar ou casar com as mulheres
mais belas, comprar bens de luxo ou construir habitações mais belas) provoca uma hostilidade
latente no seio dos moçambicanos, que se consideram lesados.

Nalguns casos os imigrantes são afastados do convívio social, ridicularizados, hostilizados pelos
nacionais porque eles são uma ameaça e um perigo para a posição social e económica dos
nacionais. São criados estereótipos que minam a convivência entre os imigrantes e os nacionais.
Os estereótipos mais frequentes são: todo o imigrante é criminoso, trafica droga, trafica
mulheres, são de baixo nível, sujos, feiticeiros, etc. Entretanto, ao nível dos maiores centros
urbanos, a presença dos imigrantes levanta sentimentos de indiferença. O citadino não se
escandaliza facilmente com os casamentos entre imigrantes e nacionais nem com a pujança
económica de alguns imigrantes havendo maior preocupação com a oferta de bens e serviços a
preços baixos.

Em relação a vontade dos imigrantes, existe um diferencial bastante grande em relação aos
imigrantes africanos e os imigrantes asiáticos e europeus. O imigrante africano, pelas suas
características raciais, culturais e até linguísticas tem maior propensão em se integrar na
sociedade moçambicana em relação aos imigrantes asiáticos e europeus. Normalmente, as
estratégias de integração dos imigrantes em Moçambique passam por 4 formas: a integração pelo
casamento, pelo trabalho, pela escola e pela religião.

Quanto a integração pelo casamento, destacar a grande resistência de alguns grupos em


estabelecer laços matrimoniais com os moçambicanos. Nestes grupos, a percentagem dos
casamentos intra-étnicos ainda é muito acentuada. Entre a comunidade indiana por exemplo
predomina, a endogamia, que é um sistema em que os acasalamentos se dão entre indivíduos
aparentados, relacionados pela ascendência, ou seja, é a união de indivíduos mais aparentados do
que a média da população. Raramente a comunidade hindu aceita casamentos inter-étnicos. Esta
tendência assiste-se também no seio de comunidades fachadas como os somalianos, etíopes,

66
libaneses, paquistaneses, chineses. O objectivo desta atitude é a continuação da descendência
étnica dos imigrantes e isso tem um impacto no aumento dessa população em Moçambique. Os
europeus e americanos são mais abertos ao relacionamento interétnico e existem muitos
casamentos entre brancos e negros.

Existem alguns casos de indivíduos que romperam com a endogamia étnica mas esta iniciativa só
é tomada pelos homens sendo raro ver uma indiana, paquistanesa, libanesa, chinesa, somaliana,
etíope casada com um homem negro moçambicano. Normalmente os imigrantes homens são
vistos como uma fonte de recursos financeiros para as famílias das suas namoradas
moçambicanas. Neste contexto, os imigrantes acabam ganhando algum suporte por parte de
famílias moçambicanas vulneráveis. Naturalmente, o impacto imediato deste tipo de casamentos
é o aumento de mestiços e mulatos no país. Esta mestiçagem não se manifesta somente ao nível
físico dos indivíduos como também no aspecto cultural dos mesmos.

A mistura manifesta-se visivelmente na culinária, na música, na indumentária e na linguagem


dos indivíduos. Moçambique concorre hoje para uma situação semelhante a do Brasil, onde a
população mestiça representa uma grande fasquia da população. Contudo, nem sempre esta
situação é apreciada por todos os moçambicanos. Em várias ocasiões assiste-se a manifestações
racistas promovidas por mestiços e mulatos contra negros e de negros contra mulatos. Existe
uma crença errada, por parte de grande parte da população, de que os mestiços e mulatos são
beneficiados e que gozam de melhores condições de vida. Aqui, os sentimentos de desigualdade
e privação relativa jogam um papel muito grande para incendiar o conflito.

A integração pelo trabalho é a estratégia mais fácil de integração de estrangeiros. Normalmente,


é a partir da convivência no trabalho que se estabelecem redes de amizade e solidariedade entre
os imigrantes e os moçambicanos, principalmente entre imigrantes africanos e os moçambicanos.
Em relação aos imigrantes europeus e asiáticos esta situação muda de figura. São raros os casos
do surgimento de redes de amizade e solidariedade. Existem situações de descriminação por
parte dos cidadãos de raça branca, asiáticos e em alguns casos árabes em relação aos
moçambicanos de raça negra. A enorme distância cultural entre brancos, chineses e
moçambicanos constitui também um grande impedimento para o estreitamento desses laços.

67
O envio dos filhos de imigrantes para as escolas públicas ao lado de crianças moçambicanas é
outra estratégia que permite uma maior integração da segunda geração na sociedade
moçambicana. Através da escola, os filhos de imigrantes aprendem não só a língua moçambicana
mas todo um sistema de valores defendidos pela sociedade e pelo estado moçambicano. Os
currículos escolares orientados para a unidade nacional, para a necessidade de defesa da pátria e
ainda para a igualdade e respeito pela diferença contribuem para formatar a segunda geração de
imigrantes e enquadra-los como moçambicanos. Ao nível dos distritos e das províncias mais
recônditas é frequente os filhos de imigrantes frequentarem as escolas públicas ao lado dos
moçambicanos e a integração aqui torna-se mais rápida. São os filhos dos imigrantes que
regressados a casa vão transmitir de forma indirecta a língua e os valores moçambicanos,
reduzindo desse modo o distanciamento dos país da cultura moçambicana.

Ao nível das grandes cidades, este cenário é relativamente diferente. A facilidade de abertura de
escolas particulares e escolas étnicas, que representam as nacionalidades existentes nessas
cidades, é muito grande. A título de exemplo, podemos encontrar a escola Sul-africana, escola
Sueca, escola Americana, etc. Provavelmente por motivos da classe económica e/ou interesse em
manter os seus filhos com os hábitos culturais e linguísticos dos países de origem, os asiáticos e
europeus não enviam os seus filhos para as escolas públicas. Os muçulmanos enviam os seus
filhos para a escola muçulmana, os europeus enviam os seus filhos para a escola internacional,
portuguesa, sueca, etc. Muitas destas escolas obedecem um currículo do país de origem e as
aulas são leccionadas na língua materna dos imigrantes. Não existe, por parte destes imigrantes,
nenhum investimento em aprender a cultura Moçambicana. O efeito desta prática manifesta-se
com a criação de círculos de amizade baseadas na relação étnico-racial, não existe nenhum
espaço de integração e envolvimento entre os nacionais e estes estrangeiros provocando em
alguns casos sentimentos racistas, de exclusão e manifestações de superioridade por parte dos
imigrantes chegando em alguns casos a manifestar discriminação. Este distanciamento pode ter
efeitos nefastos no futuro.

Uma das estratégias mais fáceis de inserção ou integração social dos imigrantes é a partir da
religião. A partir do momento que os imigrantes se apresentam nos cultos das confissões

68
religiosas presentes em Moçambique abre-se um espaço para a integração efectiva na vida social
da sociedade moçambicana. Por outro lado, a vinda de missionários cristãos e sheikes
muçulmanos tem um impacto imediato no alastramento e na evangelização de regiões outrora
ateístas. Enquanto a maioria dos missionários cristãos divulga a sua mensagem em português e
inclusive nas línguas locais, os Sheikes muçulmanos divulgam o sagrado alcorão em árabe.
Como consequência, a divulgação do árabe assume-se hoje como uma realidade. As madrassas,
que são as escolas de aprendizagem do alcorão, contribuem também para a propagação do árabe
entre os moçambicanos. Hoje, há mais falantes do árabe em Moçambique. Para além disso, o
alastramento do islão em Moçambique esta a ter um impacto nos hábitos alimentares, na
indumentária e no sistema de valores defendidos pelos seus crentes. Deve ficar claro no entanto
que não existe nenhum conflito entre o sistema de valores islâmicos e Moçambicanos pois, a
implantação da religião islâmica em Moçambique pré-data ao colonialismo e a independência.

6.3.4. Integração Política e Cidadania

Em direito e na assumpção original, cidadania é a condição que uma pessoa natural de um estado
tem de gozar de direitos que lhe permitem participar da vida política desse mesmo estado. A
cidadania é, portanto, o conjunto dos direitos políticos de que goza um indivíduo e que lhe
permitem intervir na direcção dos negócios públicos do Estado, participando de modo directo ou
indirecto na formação do governo e na sua administração, seja ao votar (directo), seja ao
concorrer a cargo público (indirecto). Tradicionalmente, para ser cidadão, o indivíduo devia ser
natural do estado. Portanto, a nacionalidade era o pressuposto principal da cidadania. Para se ser
nacional de um estado o indivíduo deve ter nascido nesse estado ou pedir para aderir ao estado
através da naturalização que passa por critérios de aceitação definidos nas respectivas
constituições. A nacionalidade moçambicana pode ser originária ou adquirida. Os direitos
políticos são regulados em Moçambique pela Constituição da República (2004). Segundo a
constituição, só gozam de direitos políticos os cidadãos moçambicanos. A constituição limita o
espaço de participação política dos cidadãos de nacionalidade adquirida, não estabelecendo
nenhum direito e dever político aos imigrantes. Este dispositivo constitucional aparece como o
primeiro instrumento de exclusão dos imigrantes na participação na vida pública.

69
Como conceder cidadania aos imigrantes sem naturaliza-los é uma questão impensável se tomar-
mos o conceito tradicional de cidadania como factor estanque. Num mundo contemporâneo
marcado por crescentes migrações internacionais e por uma trans-nacionalidade que permite às
pessoas mudarem de um país para o outro sem necessariamente aderir a uma nova cultura e
realidade, os Estados e as sociedades se questionam sobre o conceito de cidadania e de pertença
a uma dada sociedade (Bertonha, 2006). O reconhecimento da contribuição económica dos
imigrantes e seus descendentes nos países de acolhimento levanta cada vez mais questões de
cidadania, quer dizer, o relacionamento entre imigrantes e o estado deve espelhar a nova
realidade internacional. Vários analistas defendem a necessidade de alargar o conceito de
cidadania para incluir direitos e deveres sociais, económicos, culturais e abranger toda a panóplia
dos direitos humanos. Para estes autores, a cidadania não só envolve direitos mas também deve
envolver participação (Heisler, 2007:92). Segundo T. H. Marshall, citado por Heisler (2007:93),
existem três tipos de cidadania: a Cidadania Civil, Política e Social. Dentre os vários factores que
estão na origem das profundas transformações ocorridas no conceito de cidadania, a imigração
ocupa um lugar central (Cardoso, 2004:2).

Segundo Heisler, (2007:93) A declaração universal dos direitos do homem e as várias


convenções que protegem os direitos dos imigrantes e os direitos das minorias servem de base de
concessão da cidadania aos imigrantes. A vasta gama de direitos concedidos aos imigrantes e que
os estados são obrigados a respeitar, independentemente da nacionalidade do imigrante, permite
aos imigrantes o exercício da cidadania nos estados de acolhimento. Estes instrumentos
concedem cidadania aos imigrantes ao defenderem direitos individuais e colectivos aos
imigrantes: o direito ao trabalho e salário justo, direito ao associativismo e a ingressar em
sindicatos, direito a habitação, direito a culto das suas religiões, direito a, liberdade de opinião
etc… Hoje, mais do que nunca, os imigrantes exercem a cidadania ao participarem directa ou
indirectamente nas decisões que afectam as suas vidas.

Pode-se assumir que em Moçambique, os imigrantes usufruem de direitos de cidadania, sendo


unicamente limitados de exercer cargos políticos específicos e de votar e ser eleito em eleições
parlamentares. A constituição moçambicana abre espaço para a participação política limitada dos
imigrantes na vida pública do estado. Apesar da lei abrir espaço para o usufruto da cidadania a

70
todos os imigrantes, entenda-se cidadania no sentido mais abrangente do termo, nem todos os
imigrantes são abrangidos por ela pois, nem todos os imigrantes desfrutam das mesmas
condições de vida (Cardoso, 2004:6). Grande parte da população imigrante em Moçambique não
tem como fazer valer os seus direitos por vários motivos sendo os mais determinantes, 1) o
distanciamento por parte dos imigrantes dos centros de poder local e central, 2) analfabetismo ou
ignorância em matéria de direitos humanos e de liberdades fundamentais que lhes são garantidos
pelos tratados internacionais e pela legislação nacional, 3) condições de vida precária que lhes
impossibilitam advogar ou pagar serviços de advocacia nas instituições do estado e 4) devido a
incapacidade do estado Moçambicano prover bens, serviços e condições de empregabilidade aos
seus cidadãos.

No entanto, o exercício da cidadania passa, para além do usufruto de direitos e deveres, pela
capacidade de influenciar o poder político e a tomada de decisões públicas. A medida em que
famílias de imigrantes tornam-se socialmente mais integradas e economicamente mais prósperas
vão exigindo maior participação na vida pública do país. Pode-se dizer que a ascensão
económica dos imigrantes cativa-os a ter uma maior participação política em Moçambique.
Amiúde, os imigrantes vão se aproximando das elites políticas e vão firmando laços de amizade
e de negócios com estas elites. A aproximação entre imigrantes e elites governantes começa
desde os centros de poder local até ao governo central. Através de ofertas e trocas de favores, os
imigrantes vão se transformando progressivamente num grupo de interesse cada vez mais forte e
influente. Através da influência sobre o poder político, aos imigrantes são concedidos direitos de
exploração exclusiva de certas mercadorias, facilidades de importação e exportação de produtos,
créditos nas instituições financeiras, concessão de alvarás de forma facilitada e a protecção
policial. As relações de clientelismo estão enraizadas em toda extensão do território nacional. A
manipulação e influência dos imigrantes sobre o poder político superam, em alguns casos, a
manipulação e influência dos grupos sociais mais fracos.

Quando questionado sobre a concessão de cidadania aos imigrantes em Moçambique, a maioria


dos entrevistados limitou-se a relatar sobre os aspectos negativos dessa situação sem
exemplifica-los. Recorre-se principalmente a falta de lealdade com os estados moçambicano e a
defesa de interesses estrangeiros. Todavia. A emergência de políticos de origem imigrante ou

71
descendente de imigrantes ainda é algo impensável na realidade moçambicana. Todavia, a
participação associativa como forma de participação política e de conquista de espaços de
cidadania começa a ganhar força no seio de algumas comunidades imigrantes. As associações de
imigrantes são por excelência o primeiro veículo de inserção na vida política moçambicana. A
luta pelos direitos de cidadania concentra-se hoje na exigência de superação dos obstáculos
administrativo-legais que dificultavam a regularização da situação dos imigrantes que solicitam
autorização de residência e a exigência de integração efectiva das gerações descendentes
(Albuquerque, 2002:8).

6.3.5. Imigração e Género

Em termos de género, o contributo da população imigrante em Moçambique é bastante


diferenciado. O maior número de imigrantes residentes em Moçambique é do sexo masculino.
Existe, no entanto, uma pequena fasquia de mulheres imigrantes vindas maioritariamente do
Zimbabwe e que permanecem nas províncias centrais de Manica, Sofala e Tete. Estas mulheres,
que imigram por força da situação de crise económica no Zimbabwe não têm um peso
económico muito grande por não realizam actividades comerciais por excelência. Grande parte
delas são prostitutas e só uma pequena fasquia realiza actividades comerciais. As mulheres de
outras nacionalidades normalmente não imigram sozinhas sendo na sua maioria dependentes dos
seus maridos. O facto de serem acompanhantes retira-lhes a capacidade de contribuírem para a
economia moçambicana. Pode-se concluir que as mulheres não são imigrantes económicos.

Entretanto, existem mulheres acompanhantes que se tornam imigrantes económicas. As mulheres


que outrora executavam trabalhos domésticos mudam a sua postura em Moçambique. Muitas
tornam-se ajudantes nos negócios dos seus maridos e outras entram na actividade comercial,
fazem negócios próprios, organizam-se associações, estudam e concorrem nas universidades
públicas e privadas, ganham uma nova consciência de participação na vida pública, são activistas
e ganham consciência política. Com o trabalho assalariado, as mulheres libertam-se e assumem
um papel de vanguarda (Brettell, 2008:126-127). No seio das comunidades islâmicas o papel da
mulher obedece aos preceitos da religião islâmica. Muitas delas não exercem nenhuma
actividade comercial e permanecem afastadas da vida pública. Nestes casos, o contributo destas

72
mulheres é nulo. Nota-se por exemplo que as mulheres muçulmanas têm maiores problemas de
integração na sociedade moçambicana.

Todavia, através da organização feminina islâmica, uma organização de carris humanitário, as


mulheres muçulmanas procuram integrar-se na vida social moçambicana. Por via desta
organização, que envolve tanto muçulmanas nacionais, naturalizadas e imigrantes, a mulher
muçulmana tem a oportunidade de desenvolver programas de apoio as pessoas mais necessitadas
como velhos, crianças órfãs, comunidades carentes que, na maioria dos casos, não partilham do
mesmo credo. O seu envolvimento se estende ao nível nacional e são desenhados programas de
construção de escolas, reabilitação de centros de saúde, entre outros. Para além disso, esta
comunidade se envolve directamente para prestar auxílio humanitário em situações de desastres
naturais. Como se pode perceber, as estratégias de integração da mulher islâmica são diferentes
da estratégia do homem islâmico.

7. SUPERVISÃO E CONTROLO DE IMIGRANTES EM MOÇAMBIQUE

Em Moçambique, a supervisão e controlo de imigrantes é garantido pelas disposições legais,


plasmados no decreto nº 38/2006 de 27 de Setembro, que torna necessário regulamentar o regime
jurídico do cidadão estrangeiro, ao abrigo da lei nº 5/93,de 28 de Dezembro, onde o conselho de
ministros decretou, no seu artigo I, o regulamento que estabelece as normas jurídicas aplicáveis
ao cidadão estrangeiro, relativas á entrada, permanência e saída do País, os direitos, deveres, e
garantias.

Relativamente à entrada de imigrantes no País, o artigo 9, no seu nº1, estabelece que todo o
cidadão que pretenda entrar na República de Moçambique, por via terrestre, marítima ou aérea
obriga-se a entrar no Pais pelos postos fronteiriços oficialmente estabelecidos para o efeito;
apresentar, no posto fronteiriço, o passaporte ou documento equiparado valido, provar que possui
meios de subsistência e prestar informações adicionais que lhe forem solicitadas pelo inspector
de migração.

73
Em relação à fiscalização, o artigo 38, clarifica que será facultada a entrada livre dos
funcionários dos serviços de migração para o exercício da sua função fiscalizadora, nas
residências, Estações marítimas, fluviais, lacustres, aeroportos, caminhos-de-ferro, nos
comboios, navios, aeronaves e onde a sua presença seja necessária.

No entanto, o que acontece normalmente é a entrada e permanência de estrangeiros imigrantes


sem observância do legislado e regulamentos que regem sobre esta matéria, dai urge necessidade
de ampliação de mecanismos de supervisão e controlo. Sublinha-se que as instituições
encarregues para a supervisão e controlo, tem demonstrado fragilidades no seu exercício, isto
porque cada vez verifica-se muito afluxo de imigrantes ilegais que escapam as autoridades em
muitos centros urbanos, constituindo perigo à segurança e modus vivendo dos nacionais.

No entanto, somos da opinião de que as autoridades locais devem ser mandatários para recolher
dados referentes à imigração, sobretudo a ilegal e outras irregularidades de passagem clandestina
da fronteira, para posterior adopção, ao nível central, de medidas, estratégias e planeamento
operacional.

7. 1.Constatação sobre Supervisão e Controlo.

A equipa de pesquisa constatou no terreno que a supervisão e controlo são feitos, não de forma
eficiente, no tocante a imigrantes em geral e particularmente para imigrantes ilegais. Aparecendo
imigrantes que vivem em Moçambique sem documentos legais, vistos caducados, sem
documentos de autorização de permanência e residência, praticando actividades ilegais bem
como a deficiência de controlo do retorno de imigrantes repatriados.

De acordo com os entrevistados, regista-se dificuldades para a supervisão e controlo de


imigrantes, dado que estes, sobretudo os ilegais, quando são repatriados, depois voltam com
credenciais passados pelo centro de acolhimento de Nampula, chegando a embaraçar as
autoridades.

74
Outra situação constatada é o facto de aparecerem em quase todos os distritos visitados,
imigrantes que vivem em diferentes residências sem nenhuma comunicação por boletim
individual de alojamento, violando o artigo 33 no seu nº 1, que preconiza que os hotéis,
estalagens, motéis, parques de campismo, pousadas, casas de hóspedes e similares, bem como
todos aqueles que albergam estrangeiro ou arrende, mesmo por sublocação, ou cedam a qualquer
título, casa ou habitação a estrangeiro, ficam obrigados a comunica-lo, no prazo de cinco dias por
meio de boletim individual de alojamento, aos serviços de migração, nos locais onde não haja a
polícia da PRM ou administração local.

Alguns dos entrevistados atribuem a fraca supervisão e controlo dos imigrantes, a falta de
disponibilidade de meios materiais, meios técnicos adequados e recursos humanos qualificados,
a vulnerabilidade da fronteira terrestre e marítima, em virtude de a primeira ter característica
montanhosa e muito extensa e a segunda apenas por ser uma costa extensa.

7.2 Experiencia Europeia e Norte- Americana na Supervisão e Controlo de Imigrantes

Para este trabalho, elegeu-se as experiencias europeias e norte-americana na supervisão e


controlo de imigrantes, a sua pertinência, reside no facto de trazer a experiencia de como estes
países abordam este fenómeno de imigração, sobretudo a políticas de supervisão e controlo.

Deste modo, a união europeia (UE), defende um combate cerrado para travar a imigração,
contrastando deste modo, com o relatório de desenvolvimento humano 2009, lançado
recentemente pelo programa da ONU para o desenvolvimento (PNUD), que defende que a
migração é inevitável e pode melhorar a vida de milhões de pessoas no Mundo. Fazendo a alusão
a Africanos que vivem em diferentes partes do Mundo, onde as remessas atingem cerca de 40 mil
milhões de dólares ano para o continente.

De acordo com P. Huntington, Samuel (2006:233), os imigrantes, pelo contrário, tem elevadas
taxas de fertilidades e, por consequência, serão responsáveis pela maior parte do crescimento
futuro nas sociedades ocidentais. Como resultados, os ocidentais receiam cada vez mais “ estar
agora a ser invadidos, não por exércitos e carros blindados, mas por imigrantes que falam outras

75
línguas, veneram outros deuses, pertencem a outras culturas e também lhes roubam os empregos,
ocupam as suas terras, beneficiam da segurança social e ameaçam o seu modo de vida”.

No entanto, o discurso de S.Huntington, revela claramente que a Europa apela para um


sentimento anti-imigração, o que normalmente chamam na Europa de política de ‘’ imigração
zero”, acompanhada de uma fortificação nos meios de supervisão e controlo de imigrantes que
escalam aquele continente.

No entanto, a UE22 aprovou o que designou de pacto europeu sobre a imigração e asilo, aprovado
pelo conselho de ministros a 25 de Setembro do presente ano, cuja proposta foi apresentada pelo
Nicolas Sarkozy, no contexto da presidência francesa da UE, onde visa definir as linhas gerais da
UE nesta matéria e assenta em cinco pontos fundamentais, a saber:

1- Organizar a imigração legal, priorizando a adopção do “ cartão azul ”, para o


recrutamento de mão- de-obra qualificada.
2- Facilitar os mecanismos e procedimentos de expulsão e estabelecer nesse sentido
parcerias com países terceiros e de trânsito.
3- Concretizar uma politica europeia de asilo
4- Refrear o controlo das fronteiras
5- Proibir os processos de regularização colectiva

Salienta-se que esta posição da UE tem sido contestada pelos alguns membros da união, como é
o caso de algumas organizações da sociedade civil em Portugal, onde alegam que são homens e
mulheres que procuram fugir á miséria, fome, insegurança, obrigados a abandonar os seus países
como consequência do aquecimento global e outras mudanças climáticas ou que muito
simplesmente tentaram mudar a vida, mas a quem não foi reconhecido o direito a procurar
melhores condições de vida, tratam de indivíduos que não encontram outra opção, senão o
recurso à clandestinidade, muitas vezes vitimas de redes sem escrúpulos, e que se confrontam
com a lei que diz cinicamente que “ cada caso” é um “ caso”, fazendo de regra à excepção e
recusando à generalidade dos imigrantes o reconhecimento da sua dignidade humana23.
22
Site: http://www.blocomotiva.net.
23
Site:http://gladio.blogspot.com

76
A experiencia Italiana nesta matéria de supervisão e controlo de imigrantes reside no facto de
introduzir uma lei de testes de ADN, visto como sendo instrumento de perseguição dos ciganos,
regras selectivas e politicas securitarios24.

Uma situação que julgamos ser necessário comentar, tem a ver com aquilo que a UE considera
de sabotagem aos esforços de combater a imigração ilegal por parte da vizinha Turquia, que
constantemente interfere activamente com radar contra as patrulhas marítimas anti-imigração-
ilegal da UE no mar egeu. Atitude vista como reivindicação da Turquia, que alega que a UE não
paga o mesmo que paga a Grécia para ajudar a deportar os imigrantes ilegais, queixando-se que
recebe apenas 70 euros por cada imigrante ilegal em contraste com a Grécia que recebe 1000
euros.

Deste modo pode se afirmar que a UE 25 gasta milhões de euros só para lidar com a imigração
ilegal e criou a agencia Frontex (aferrolhamento das fronteiras da UE) de vigilância das
fronteiras para lutar contra a imigração clandestina, consubstanciado em:

. Limitação de reagrupamentos
. Imigração selectiva
. Expulsão de imigrantes indesejáveis
. Colocação de um sistema comum de informação sobre os vistos, ligando todos os consulados
. Generalização dos identificadores biométricos

P.Huntingnton, Samuel (2006:239), explica ainda que os Estados Unidos da América (E.U.A),
sobretudo na administração Clinton, endureceu o controlo sobre a imigração, tornou mais
rigorosas as leis que regulam o direito de asilo, ampliou os quadros dos serviços de imigração e
naturalização, reforçou o patrulhamento fronteiriço e construiu barreiras fiscais ao longo da
fronteira com México.

24
Site:htt://gladio.blogspot.com
25
Site:htt://imigrantes.no.sapo.pt.

77
A opinião de muitos observadores, quanto ao fenómeno é de que deveria existir um princípio de
responsabilidade partilhada que envolvesse os países de origem, de trânsito e do destino. Os
fluxos não deveriam ser impedidos mas sim geridos, racionalizados, com vantagens recíprocas
para os países de origem e do destino.

7.3. Diligências feitas pelas instituições de supervisão e controlo

Embora, se registe a falta de meios matérias e humanos qualificados para a supervisão e controlo
de imigrantes que escalam Moçambique, há que destacar algumas diligências embora periódicas
em conjunto entre a PRM e a Migração, consubstanciada em:

. Controlo e verificação nos autocarros colectivos, carros particulares, portos, aeroportos,


embarcações, comboios e aeronaves
. Rusgas nos estabelecimentos comerciais, casas de pastos e residências desconfiadas
. Repatriamento dos ilegais
. Expulsão em caso de delito

Contudo, a equipa de pesquisa constatou no terreno que as diligências, não chegam a efectivar-se
regularmente devido a falta de meios já referenciados anteriormente, mas mesmo assim, tem se
verificado um esforço para conter a supervisão e controlo. Vide a baixo o mapa dos dados
estatísticos de número de estrangeiros repatriados e expulsos dos últimos 10 anos.

DADOS ESTATISTICOS DE MOVIMENTO MIGRATORIO, NÚMERO DE ESTRANGEIROS


REPATRIADOS E EXPULSOS POR CONTRAVENÇÃO MIGRATÓRIA DESDE O ANO 2000 AO 1º
SEMESTRE DO ANO 2009
ANO Movimento Estrangeiros Estrangeiros Observação
Migratório Repatriados Expulsos
2000 6.200.189 291 0.0
2001 5.405.884 238 55
2002 3.480.652 328 0.0
2003 2.901.731 1.718 0.0
2004 8.113.351 2.950 02
2005 17.883.449 5.297 0.0 Ano de supressão de visto

78
com R.S.A
2006 6.525.829 7.359 0.0
2007 2.677.346 3.973 11
2008 5.689.102 5.454 128
2009 2.496.519 3.288 85
Fonte: Ministério do interior; direcção nacional de migração

Tal como reporta o mapa, o número de imigrantes oscila em cada ano que passa. As estatísticas
reportam em si que a supervisão e controlo são feitos embora com as dificuldades apontadas
anteriormente. Com destaque para o ano de 2006, onde se registou um número recorde de
repatriamentos 7.359 imigrantes ilegais e em termos de expulsões o ano de 2008 registou um
recorde de 128 imigrantes. Salienta-se que à percepção de que o número de imigrantes ilegais
tende a crescer em cada dia que passa, sobretudo nos distritos fronteiriços, cuja sua identificação
e localização, escapa as autoridades competentes, para fins de repatriamento.

8- CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES

Vários são os instrumentos jurídicos internacionais que protegem a pessoa do imigrante nos
países de acolhimento. A semelhança da declaração universal dos direitos do homem, todos os
instrumentos que protegem a pessoa do imigrante estabelece normas que servem de modelo para
a legislação dos estados particulares. Os governos dos estados que ratificam estes instrumentos
comprometem-se a aplicar essas disposições e obrigam-se a garantir protecção aos imigrantes
nos seus territórios. Influenciado pela legislação internacional, Moçambique adoptou uma
legislação aberta aos estrangeiros, sem, no entanto, mencionar a pessoa do imigrante. O facto de
nenhum instrumento jurídico moçambicano apresentar uma definição clara do cidadão imigrante
e a não existência de um conceito oficial de imigração e imigrante pode representar handicap
com efeitos negativos na definição de uma política de imigração. Contudo, a lei moçambicana
concede uma grande margem de actuação aos imigrantes permitindo-lhes usufruir das
oportunidades socioeconómicas que o país oferece.

 Moçambique, foi e continua sendo um país aberto a acomodação de estrangeiros de todas


as partes do mundo. Entretanto, essa abertura é hoje desafiada com uma entrada maciça
de imigrantes legais e legais no país. O número crescente de imigrantes que cada vez

79
mais procuram o país representa uma ameaça as fragilidades institucionais, logísticas
para às capacidades do Estado controlar este movimento. São cada vez mais alarmantes
os números de imigrantes vindos dos países da África (Austral, Central, Ocidental,
Grandes Lagos e Corno de África), médio oriente (Líbano), Sudoeste asiático (Paquistão,
Índia, Bangladesh), Ásia (China) América (Brasil) e Europa (Portugal) que entram de
forma legal e clandestina no país.

As autoridades competentes para supervisionar e controlar os imigrantes, enfrentam dificuldades


de ordem material e humano para levarem ao bom termo a tarefa que lhes é incumbida. Alias,
Moçambique para além de ser um destino preferencial de imigrantes legais e ilegais, tornou-se
num corredor de trânsito para imigrantes ilegais com destino a RSA. Enquanto os imigrantes
legais obedecem aos postos oficiais de entrada de estrangeiros, tanto pelas vias terrestres,
marítima e aérea, a maioria dos imigrantes ilegais prefere as rotas terrestres, devido a fragilidade
de supervisão e controle da extensa fronteira terrestre que o país tem. Em virtude destas
fragilidades e por causa dos atractivos que o país oferece, Moçambique figura hoje como um dos
grandes receptores de imigrantes na região. Com efeito, a estabilidade política, económica e
social, a facilidade de investimento e a integração regional atraem cada vez mais imigrantes
interessados em alcançar sucesso económico no país.

A maioria dos imigrantes que entram no país não possui nenhuma qualificação, entram na
condição de desempregados e representam uma categoria de imigrantes não económicos
exceptuando os imigrantes Portugueses, Brasileiros, Chineses, do Sudoeste Asiático e do Médio
Oriente que entram no pais na condição de empregados, possuem qualificações ou capital de
investimento. Tanto os imigrantes sem qualificações como os imigrantes qualificados se
concentram nos locais de grande interesse económicos, onde há muita circulação de dinheiro ou
existência de recursos naturais valiosos e facilmente exploráveis. Os círculos urbanos constituem
os locais onde os imigrantes desenvolvem as suas actividades, pois há maior circulação de
dinheiro e o meio rural ou suburbano é para acomodação, principalmente dos ilegais, mas,
também, por ser menos onerosa. O mercado informal é ponto de principal circulação dos
imigrantes no meio urbano mas, há, igualmente, uma percentagem significativa que opera no

80
mercado formal. Estes são, aparentemente, imigrantes legais, pois o exercício das suas
actividades não pode ocorrer sem obedecer a documentos e procedimentos legais.

Em termos do impacto dos imigrantes na segurança do estado e na segurança pública constatou-


se que, os imigrantes são, maioritariamente, vistos como um factor de ameaça a segurança para
os Estados de acolhimento. Por esse motivo, existe um grande pessimismo e medo da imigração
e dos imigrantes. Apesar deste pessimismo manifestado pela opinião pública, os imigrantes não
constituem uma ameaça a integridade territorial nem a sobrevivência do Estado Moçambicano.
Representam, apenas, uma ameaça a ordem e tranquilidade públicas. Efectivamente, há
evidências de que imigrantes legais e ilegais estão a explorar e a retirar, ilegalmente, do país,
recursos minerais, florestais e faunísticos valiosos e estão associados ao contrabando
mercadorias lícitas e ilícitas como o tráfico de drogas. Para além disso, os imigrantes legais e
ilegais podem, alegadamente, estar a contribuir para a importação de novos modus operandis e
sofisticação de crimes. Não menos importante, é o impacto que a imigração e os imigrantes
podem representar a saúde pública. Neste contexto, a crescente entrada de imigrantes de várias
origens pode contribuir para a propagação de doenças infecto-contagiosas.

Em relação ao impacto económico, constatou-se que os imigrantes contribuem em grande


medida para o desenvolvimento económico do país pois, eles são mais agressivos nos negócios,
aceitam riscos, são vanguardistas e são mais empreendedores. Com efeito, a entrada de
imigrantes contribui para o aumento de investimentos que criam postos de trabalho para os
Moçambicanos e aumentam a arrecadação de receitas fiscais por parte do estado. Todavia, a
maioria dos imigrantes presentes em Moçambique não faz investimentos de grande porte,
limitam-se a praticar um comércio informal muito precário, que do ponto de vista de receitas traz
poucos benefícios ao estado e não cria muitas vagas de emprego para os moçambicanos. Em
relação ao mercado de trabalho, verificou-se que a maioria dos imigrantes em Moçambique
trabalha por conta própria e se concentram em três áreas principais: o comércio, turismo e
serviços. Por outro lado, os trabalhadores imigrantes trabalham em empresas dos conterrâneos e
poucos são os que trabalham em empresas de moçambicanos. No entretanto, com a chegada de
muitos imigrantes em Moçambique surgiram novos negócios no país e alguns sectores de
actividade sofreram um Boom jamais visto, principalmente na área comercial.

81
Do ponto de vista sociopolítico e cultural, constatou-se que os imigrantes gozam de uma larga
liberdade cultural podendo manifestar as suas crenças religiosas, os seus hábitos culturais, usar a
sua língua de origem, e ainda gozam de todas as liberdades consagrados na declaração universal
dos direitos do homem. Com efeito, o estado moçambicano não exerce nenhuma pressão no
sentido assimilar os imigrantes residentes no país, permitindo desse modo que permaneçam
alienados dos valores políticos e culturais do país. O respeito aos instrumentos internacionais de
protecção aos imigrantes, adicionado ao respeito ao multiculturalismo é factores que
impossibilitam a assimilação dos imigrantes. Para além destes factores, o transnacionalismo
imigrante torna o processo de assimilação difícil pois, os imigrantes transnacionais mantêm e
reforçam os laços com os seus países de origem.

Em termos da integração dos imigrantes em Moçambique, observou-se que a sociedade


moçambicana é bastante aberta a integração dos imigrantes, apesar de existem comunidades
bastante fachada e que não permitem a integração rápida dos imigrantes. Em termos gerais
constatou-se que a atitude da sociedade moçambicana comporta três comportamentos diferentes:
receptividade, indiferença e hostilidade em relação a presença de imigrantes no país, dependendo
muitas vezes de aspectos raciais e étnicos. Em termos gerais, a sociedade moçambicana íntegra
mais facilmente os imigrantes da região Austral, os portugueses e os brasileiros em relação aos
imigrantes de outras regiões e nacionalidades. A receptividade da sociedade moçambicana
permite que os imigrantes tenham sucesso nos negócios e que provocam um impacto positivo na
sociedade. Normalmente, a hostilidade costuma se manifestar em relação aos imigrantes que
atingem sucesso económico muito rápido e a indiferença manifesta-se ao nível das cidades. Por
sua vez, Normalmente, as estratégias de integração dos imigrantes em Moçambique passam por
4 formas: a integração pelo casamento, pelo trabalho, pela escola e pela religião.

Apesar do estado criar condições de integração dos imigrantes no país, estes ainda não usufruem
de direitos de cidadania, no sentido dos direitos políticos pois, A constituição da República não
estabelecendo nenhum direito e dever político aos imigrantes. Todavia, ao se alargar o conceito
de cidadania para incluir direitos e deveres sociais, económicos, culturais e direitos humanos,
constata-se que os imigrantes gozam de direitos de cidadania. Sublinha-se que a medida em que

82
famílias de imigrantes tornam-se socialmente mais integradas e economicamente mais prósperas
vão exigindo maior participação na vida pública do país influenciando o poder político na
tomada de decisões que afectam as suas vidas. Neste sentido, a participação associativa como
forma de participação política e de conquista de espaços de cidadania começa a ganhar força no
seio de algumas comunidades imigrantes.

Paralelamente, verificou-se que existe uma grande diferenciação da participação dos imigrantes
em termos de género. Enquanto o impacto da população masculina é mais visível, o impacto da
população feminina não é muito notória. Esta situação deve-se fundamentalmente ao numero
reduzido de mulheres imigrantes em Moçambique. Por força disso, as mulheres não têm um peso
económico muito grande. Todavia, muitas mulheres tornam-se ajudantes dos seus maridos,
algumas criam negócios particulares e outras tornam-se mais activas no seio das organizações ou
associações de imigrantes.

Por último, pode-se afirmar que a fragilidade em termos de dados estatísticos são uma
fragilidade institucional pode contribuir para o surgimento de problemas estruturais a longo
prazo, sob o ponto de vista demográfico, de planificação de desenvolvimento e garantia de
estabilidade sociopolítica e segurança dos indivíduos bem como do Estado. Sublinhar no entanto,
que os receios das manifestações ainda não se fizeram sentir de forma violenta em Moçambique.
A imigração é e foi sempre uma constante na história da humanidade e Moçambique deve estar
pronto para lidar com este fenómeno pois, ela está a crescer e a assumir contornos que
ultrapassam a capacidade de supervisão e controle do Estado moçambicano.

8.1- Recomendações Finais

Deste modo, a recomendação que se pode fazer é de que as instituições de supervisão e controlo
devem ampliar esforços de mobilização de meios materiais e humanos para uma execução cabal
das suas tarefas e deve estudar e aperfeiçoar urgentemente estratégias e métodos de controlar os
imigrantes, consubstanciadas em:

83
 Supervisão e Controlo com rigor nos pontos de entrada, dos imigrantes que reúnem todas
as condições exigidas pela lei, bem como de sanidade mental, física e que demonstrem
capacidade de se instalar e trabalhar.
 Os métodos de supervisão e controlo devem ter em conta: fluxo de dados, percepção de
da situação, capacidade de reacção e intercâmbio da informação com outros Estados
 Necessário a existência de intercâmbio de informação entre as autoridades competentes
(guarda-fronteiras, alfândegas, policia, autoridades judiciais e ministério publico), e um
mecanismo de resolução de eventuais litígios de competências entre as autoridades.
 Ainda nos pontos de entrada, deve-se adoptar um sistema de testagem e Controlo de
estado de saúde de imigrantes, como forma de prevenir a propagação de doenças
contagiosas que eventualmente podem ser trazidas por estes.
 Mobilização de meios adequados e recursos humanos devidamente formados para vigiar
a extensa fronteira terrestre e marítima.
 Intensificação de supervisão e controlo de imigrantes, nas residências, pensões, hotéis,
estaleiros e nos pontos de maior concentração populacional, tais como: mercados, casas
de pastos, estalagens e outros lugares suspeitos.
 Adoptar uma política selectiva e criteriosa, do qual constitui prioridade para entrada de
imigrantes, os que reúnem alguma formação para desempenho das actividades que se
propõem.
 Os imigrantes que entram em Moçambique devem ser alvos de um maior
acompanhamento, independentemente do seu objectivo cá, como forma de fazer uma
melhor monitorização e controlo das actividades que os mesmos praticam cá.
 Aplicação com rigor do artigo 43, relativo aos imigrantes ilegais ou clandestinos, que
ficam obrigados a suportarem as despesas do retorno ou de repatriamento, incluindo
alimentação, alojamento e outros encargos administrativos.
 Moçambique deve desenvolver uma política e uma estratégia de imigração que possa
seleccionar os imigrantes que o país precisa admitir, concedendo visas a pessoas em
função das suas habilidades, nível escolar, qualificações, estado de saúde, níveis de vida e
o estatuto financeiro.
 Para atrair mais imigrantes económicos, o estado moçambicano deve criar condições
propícias ao investimento estrangeiro, reduzindo os procedimentos de criação de

84
empresas, reduzindo a carga fiscal e estabelecendo linhas de crédito que possam
beneficiar o imigrante.
 O Estado moçambicano deve adoptar uma política de assimilação dos imigrantes como
instrumento estratégico para a sobrevivência estado. A assimilação é importante para
garantir a coesão social e a valoração do sentimento patriota.
 O Estado deve evitar que grupos imigrantes etnicamente homogéneos se concentrem em
grandes números numa região pois, comunidades concentradas podem representar uma
ameaça aos valores culturais e a segurança do estado. Para alcançar este objectivo, o
Estado deve impor uma política imigratória que distribua os imigrantes por todo o país.
 A política de associativismo baseado na origem nacional deve ser controlada pelo Estado.
 O Estado deve criar condições para uma maior integração dos imigrantes concedendo-
lhes direitos económicos e sociais. Entretanto, o estado deve vedar direitos de cidadania
política aos imigrantes.

REFERENCIAS

Bibliografia

Livros e Artigos

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Legislação

Constituição da república de Moçambique, 2004.

Convenção de Viena sobre relações consulares de 24 Abril 1963.

Convenção de Viena sobre relações Diplomáticas de 18 Abril 1961.

Convenção internacional para protecção de todos os trabalhadores migrantes e os membros das


suas famílias, adoptada pela ONU a 10 de Dezembro de 1990

Convenção Relativa aos Trabalhadores Migrantes (convenção No 97 de 1949 da OIT, que faz
uma revisão da convenção sobre trabalhadores migrantes de 1939).

Convenção Sobre as Imigrações Efectuadas em Condições Abusivas e Sobre a Promoção da


Igualdade de Oportunidades e de Tratamento dos Trabalhadores Imigrantes (convenção No 143
de 1975 da OIT).

Declaração dos direitos humanos dos indivíduos que não são nacionais dos países onde vivem,
adoptado em 1985.

Declaração sobre os Direitos das Pessoas Pertencentes a Minorias Nacionais ou Étnicas,


Religiosas e Linguísticas adoptado a 18 de Dezembro de 1992.

Declaração universal dos direitos do homem aprovado a 10 de Dezembro de 1948 pela


Organização das Nações Unidas.

Decreto-lei 57/2003 de 11 de Dezembro, os procedimentos para a contratação de cidadãos de


nacionalidade estrangeira visando regular o regime jurídico do trabalho de estrangeiros em
território nacional.

Lei 5/93 de 28 de Dezembro, que estabelece o regime jurídico do cidadão estrangeiro em


Moçambique.

Lei do trabalho Lei No 23/2007 de 1 de Agosto.

88
Protocolo contra o Contrabando de Migrantes por Terra, Mar e Ar, adicionado à Convenção das
Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional, adoptado a 15 de Novembro de 2000.

Protocolo para Prevenir, Suprimir e Punir o Tráfico de Pessoas, Especialmente Mulheres e


Crianças, que complementa a Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado
Transnacional, adoptado a 15 de Novembro de 2000.

Regulamento da lei 5/93 aprovado pelo Decreto n.º 38/2006, de 27 de Dezembro que estabelece
os procedimentos a tomar em função da lei.

Fontes Primárias

Maputo

Luís Mambero (Secretário Permanente da Província de Maputo)


Capião Samuel Faduque (Director da Ordem Pública ao nível da Província de Maputo)
Adérito Notiço (Vereador para a área de Actividades Económicas e Serviços no município da
Cidade da Matola)
Eugénio Simbine (Director Provincial do Plano e Finanças da Província de Maputo)
Di-Stefano Xavier Honwana (Director Provincial da Migração em Maputo)
Arnaldo Chefo (Porta voz do Comando da cidade ao nível de Maputo)
Lúcio Jorge (Gerente do BCI, Dependência da Pigal)
Secretário Permanente da Cidade de Maputo
Mondlane Nataniel (Chefe do Departamento de Formação na Migração)
Rodrigo César Mabote (Director das Finanças no Governo da Cidade de Maputo)
Xavier Timane (Chefe do Departamento de Indústria ao nível da Indústria e Comércio no
Governo da Cidade de Maputo)
Francisco Mazoio (Organização dos Trabalhadores de Moçambique, Central Sindical (OTM-
CS))
Coffe (Chefe do Departamento Central do Movimento Migratório na direcção de Migração)
Babu (Armazenista da Gulf Trading, imigrante Indiano)
Alberto Chidadale (Administrador de Namaacha)
Marcos Waze (Chefe das Operações da Polícia da república de Moçambique em Namaacha)

89
Maria Macamo (Chefe do Posto Fronteiriço de Travessia de Namaacha)
Arlete (Directora das Actividades económicas em Namaacha)
Eugénio Makukule (Chefe do Departamento de Indústria na Direcção das Actividades
Económicas)
Reginaldo Macamo (Chefe de turno no Posto Fronteiriço de Travessia de Ressano Garcia)
Gabriel Bila (“Facilitador” de imigração ilegal em Ressano Garcia)
Catopole e Matavel (Comandantes da Polícia de Guarda fronteira do Posto Fronteiriço de
Travessia de Ressano Garcia)
Manica

Mário Inácio Omia (Secretário permanente da província de Manica)


Joaquim Zefanias (Secretario permanente distrital de Manica)
Aboubacar Dialo (Comerciante de roupa na cidade de Chimoio (mercado do ferro) desde 2007,
de nacionalidade Maliano, 26 anos de idade)
António Maquina (Secretário permanente da província de Manica)
Edson Mulanzira (Jovem de 22 anos, imigrante Zimbabweano, trabalhador de obras, fixado na
cidade de Chimoio desde 2007)
Mousinho Alberto Carlos (Director provincial do trabalho da província de Manica)
Fernando Tefule (Administrador do distrito de Manica– província de Manica)
Gelindo Baltazar Vumbuca (Sub-inspector e Chefe das operações da PRM no distrito de Manica)
Aboubacar Dialo (Comerciante de roupa na cidade de Chimoio (mercado do ferro) desde 2007,
de nacionalidade Maliano, 26 anos de idade)
Filipe Lucas Cumbe (Director provincial de migração de Manica)
Rogério Jorge Tomé (Chefe de departamento da policia de protecção– Chimoio)
Alberto Limene (Chefe do posto de migração de Machipanda– Manica)
Ibraimo Barry (Comerciante de roupa na cidade Chimoio desde 2008, nacionalidade de Guine)
Gausse Tara (Comerciante de roupa na cidade de Chimoio (mercado de ferro ) desde 2008, de
nacionalidade Maliano, 30 anos)
Koita Thirou (Comerciante de roupa na cidade de Chimoio (mercado do ferro) desde 2005, de
nacionalidade Maliano, 37 anos de idade)
Faizal Raul Daude (Motorista de camiões de longo curso da Empresa TRANSRIVER)
José Fernando Tefula (Administrador do distrito de Manica)

90
Joaquim Zefanias (Secretário permanente do distrito de Manica– província de Manica)
Marcelino Jaime Mugumanha (Inspector da policia e comandante da 7ª companhia da foça de
guarda fronteiras de Machipanda– Manica)

Sofala

António Maquina (Secretario permanente da província de Sofala)


Zacarias Cossa (Comandante provincial da PRM na província de Sofala)
Abdul Mutualibo (Comerciante de produtos de primeira necessidade em Caia, desde 2005, de
nacionalidade Bengali)
Abdul Majid (Comerciante de produtos da primeira necessidade em Caia, desde 1999, de
nacionalidade Bengali)
Amine Whael Vali Mahomed (Comerciante agro-retalhista na cidade da Beira, desde 1998,
Paquistanês de 32 anos de idade)
Michel w. Okoro (Importador e Comerciante de acessórios de veículos na cidade da Beira, desde
2003, Nigeriano de 42 anos de idade)
Maike Hudani (Comerciante retalhista na cidade da Beira, desde 2001, Indiano de 30 anos de
idade)
Abdul Mutualibo (Comerciante de produtos de primeira necessidade em Caia, desde 2005, de
nacionalidade Bengali)
José Cuele António (Administrador do distrito de Caia – província de Sofala )
João Loiane Gumende (Comandante distrital da PRM de Caia)
Maria Lavinea M. Hamede (Directora provincial de migração de Sofala)
João Loiane Gumende (Comandante distrital da PRM de Caia)
Maike Hudani (Comerciante retalhista na cidade da Beira, desde 2001, Indiano de 30 anos de
idade)

Tete

Claudina Maria de São José Mazalo (Secretária Permanente da Província de Tete)


Jamal Chande (comandante geral da Polícia da província de Tete)

91
Ofélio Jeremias (inspector chefe da direcção provincial do trabalho)
César Sampaio e António Namahate (Comando da Guarda Fronteira, Tete)
Jaime Sousa (Chefe do Departamento de Nacionais e Estrangeiros- Direcção Provincial de
Migração)
Mariano Miguel José (Director Provincial Adjunto- Direcção do Plano e Finanças)
Domingos Muleque (Chefe do Departamento do Comercio- Direcção Provincial da Industria e
Comércio)
Dr. Hermenegildo Santana Chimarzene (Docente de Metodologia de Trabalho Intelectual-
Universidade Católica de Moçambique- UCM)
Gilberto Cochelane (despachante aduaneiro)
Zé Rufino José Afonso (estudante da UP e funcionário da procuradoria de Tete)
Manuel Paulo (Adjunto Superintendente da Polícia- Chefe do estado Maior do 3º Batalhão da
Guarda Fronteira, Zobué)
Ofélio Amisse Alfredo (Comandante da Companhia, Sargento da Polícia- Comandante da 4ª
companhia de Zobué, 3º Batalhão da Guarda Fronteira, Zobué)
Gabriel Andre Chofomo (Chefe da Secção de Reconhecimento, 3º Batalhão da Guarda Fronteira,
Zobué)
Santos Rafael (Guarda da Polícia- Chefe dos efectivos do Batalhão, 3º Batalhão da Guarda
Fronteira, Zobué)
José Francisco Xavier (Chefe do Posto Migratório- Zobué)

Niassa

Ivete Alane (Secretária Permanente Provincial)


João J. Mahunguele (Comandante Provincial da Polícia, Niassa)
Dr. Manuel Domingos Cidade (Chefe da Repartição da Logistica e Finanças- Substituto do
Comandante da Companhia- Guarda Fronteira de Niassa)
Afonso Yassin (Chefe da Secção de Reconhecimento e Investigação)
Dra. Maria Ernesto Ndupa (Directora Provincial do Trabalho)
Luis David Mandau (Chefe do Departamento do Movimento Migratório- Director Substituto da
Direcção Provincial de Migração, Niassa)

92
Carlos Abudo Momade (Administrador do Distrito do Lago)
Inácio Angelo (Representante da Direcção Distrital de Migração)
José Napuite (Comandante Distrital da PRM)
Edson Felix (Representante da Direcção Distrital das Alfandegas)
Paulo Saide (Director Distrital das Actividades económicas)

Nampula

Armando Fietinies ( DIRECTOR PROVINCIAL DE IMIGRAÇAO)


Amisse António (DIRECTOR PROVINCIAL DE TRABALHO)
Arsenia Massigue( Comandante provincial)
Antonio Mussupai (INAR)
Hamide satar (representante da associação islâmica de Nampula)
Antonio Pilate( Administrador de Nacala)
Francisco Mucanheia (Secretario permanete Nampula)
Pa Fernao Massena (Director da afaculdade de direito da Universidade católica)
Rui Buco (Técnico de Emprego)
Mario Camilo (Director de trabalho de Nacala)

Cabo Delgado

João Motim Rodrigues (Director provincial de trabalho)


Raul Ossufo Omar (Director da Ordem e segurança, Cabo Delgado)
Alberto Estêvão Ntanga (Técnico de Emprego)
Alfredo Bento Muhurua (Chefe da repartição em Mueda)
Cassimiro Antonio Cadre (Chefe da repartição do reconhecimento de Investigação)
Higino Sumale ( Chefe das operações do comando distrital em mueda)
Bené( director de migração Cabo delgado)
Stik satar( Imigrante / Libanes)
Terry Leopold (IMIGRANTE DO SENEGAL)

93
Issufo Hassan ( Imigrante Tanzania)

94