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O Ano da Morte de Ricardo Reis

Literatura Portuguesa
Autor: José Saramago
Ano: 1984
Editora: Cia das Letras
Número de páginas: 465

A obra de José Saramago fala sobre Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa. Em seus
registros, Fernando Pessoa deixou escritos o ano de nascimento e o ano da morte de cada um dos
seus famosos heterônimos, exceto Ricardo Reis. Aproveitando-se deste fato, Saramago cria o
terreno para desenvolver sua narrativa.
Ricardo Reis é um médico e um poeta que trabalha no Brasil há vários anos. Ao saber da
morte de Fernando Pessoa, por meio de um telegrama de Álvaro de Campos (outro heterônimo),
Reis decide voltar a Portugal, a bordo do Highland Brigade. Ao aportar em Portugal, o poeta decide
se hospedar num hotel urbano, onde conhece Lídia (nome de uma das musas, presente na poesia de
Reis) e Marcenda.
A jovem Lídia é camareira, com ela Reis tem um caso carnal, longe de ser amoroso, apenas
de desejo. Lídia parece amar Ricardo, contudo entende que ele jamais poderá a desposar, pois ela é
apenas camareira do hotel e ele um médico. Lídia também tem um irmão marinheiro rebelde que se
levanta contra o movimento fascista imperialista que ronda a Europa e Portugal, anterior à Segunda
Gerra Mundial. E uma mãe, com pouca importância para o desenvolvimento da narrativa. Marcenda
é uma jovem, de família abastada, mas possui uma deformidade – um dos seus braços não se mexe.
Apesar de realizar todos os tratamentos médicos possíveis, Marcenda não consegue recobrar o
movimento de braço. Marcenda tem um pai, que usa os tratamentos da filha para encontrar um
affair em Lisboa. Lídia representa o prazer, Reis desconta todo o seu desejo carnal nela; Marcenda,
representa o amor, a pureza, o casal se sente culpado até mesmo por simples beijos.
No meio dos fatos, o fantasma de Fernando Pessoa passa a visitá-lo. Fernando tem vários
diálogos com o médico, sobre a vida, sobre o amor, sobre política, enfim um sem número de
assuntos. A Fernando são impostas regras, como não poder ler. Assim, todas as leituras dos jornais
são feitas por Ricardo Reis, para que Fernando se inteire do que acontece no mundo. Ademais, as
visitas são mais frequentes no início da obra e se tornam mais espaçadas com o decorrer da
narrativa.
Ao sair do hotel, Reis passa a trabalhar numa clínica como substituto de um médico
cardiologista e tisiologista. Vive num apartamento, onde recebe visitas regulares da criada. Recebeu
uma visita da jovem Marcenda também, além de trocar cartas. Numa das cartas, Marcenda fala que
irá na peregrinação de Nossa Senhora de Fátima, um gesto de fé pelo seu braço inválido. Reis
decide ir à peregrinação, na esperança de ver a jovem, sem sucesso. Nessa peregrinação há a morte
de um fiel, atestada pelo médico. Ao regressar, descobre que Lídia também foi à peregrinação.
Lídia engravida de Ricardo, mas entende que jamais poderá dar o nome do poeta ao filho.
De modo que o filho crescerá sem pai, porque Lídia (ao contrário do que desejava Reis) teria o
filho. Mas Lídia perde a criança. E, posteriormente, perde o irmão durante um atentado do próprio
contra o governo ditatorial.
Ricardo Reis morre pouco depois, a sua morte não foi exatamente morte. Pessoa o visita e
afirma que não poderá visitá-lo mais, seu tempo na terra acabou. Nisso, Ricardo simplesmente
acompanha Fernando para o outro mundo. Seria algo como se Ricardo Reis tivesse uma existência
independente de Fernando Pessoa, até o dia que ele se dá conta de que é a mesma pessoa. É como se
as pessoas de Fernando Pessoas tivessem uma existência própria até onde elas pudessem acreditar.
Para além do enredo romântico, Saramago fala bastante da ascensão dos governos
totalitários na Europa e seu regime de crueldade, inclusive como as pessoas lidam com essas
notícias. Ao que parece, Reis apoiava o regime que era instaurado em Portugal, Fernando Pessoa era
mais moderado no debate, Lídia era contra o regime, mas não tinha o que fazer e o irmão de Lídia
era a força de oposição radical ao regime.
É uma obra gostosa de se ler. Difícil em alguns aspectos, principalmente porque Saramago
abusa do discurso indireto livre, tão comum no modernismo – os personagens não tem falas
delimitadas no texto, suas falas se misturam a pensamentos e ações e às falas de outros personagens.
Depois que se acostuma, a obra fica realmente muito fluida, como se os acontecimentos ocorressem
de uma forma muito natural. A primeira vez que vi essa obra foi na biblioteca do CAC e dentre as
inúmeras obras de Saramago, decidi começar por essa. A leitura é recompensadora e nos introduz a
um estilo diferente da literatura clássica. O livro me chamou atenção pelo seu título, seu enredo, sou
um grande fã de Fernando Pessoa e tive muitas expectativas em torno da obra, que foram
prontamente atendidas conforme a leitura se desenrolava. É preciso dizer que a obra traz muitas
referências às poesias de Fernando Pessoa, com certeza intencionalmente.
Os maiores aprendizados com a leitura desse livro foram que não conheço tão bem a obra de
Fernando Pessoa como julguei um dia conhecer, preciso estudar mais sobre as ditaduras europeias
no período entre guerras e que o discurso indireto livre dá muita fluidez ao texto. Durante a leitura
os cenários, embora não muito detalhados, apareciam nítidos na minha mente. Os dias da obra
aparentavam uma cor cinza, um nublado triste, uma atmosfera pesada, a obra não conseguia passar
sutileza, mas antes um peso ao leitor, com um fardo.
A leitura é difícil no início, mas se torna mais fácil. Acredito que leitores habituados ao
estilo de Saramago não tenham tanta dificuldade em ler e compreender. Recomendaria o livro a
todos que querem conhecer o período entre guerras, a ditadura salazarista em Portugal, a ditadura
espanhola, Portugal e Fernando Pessoa.

Luis Gustavo Carvalho dos Santos