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Nesse semestre estudamos a “condensação” e o “deslocamento”, importantes

processos na produção do que Freud chamou de “formações do inconsciente”, os


sonhos, sintomas, atos falhos, etc. Esses processos são, no fundo, uma maneira
de “pensar” presente no Inconsciente, que o caracteriza, e que Freud chamou de
“processo primário”. Vimos também que, na Neurose Obsessiva – diferente do que
ocorre na Histeria de Conversão –, o recalque se utiliza de um outro mecanismo,
mais simples; “em vez de esquecer o trauma”, diz Freud, “subtraiu-lhe o
investimento afetivo [importância psíquica], de modo que na consciência resta
apenas um conteúdo ideativo indiferente, tido por insignificante”. Em outras
palavras, podemos dizer que, na Neurose Obsessiva, o recalque opera
principalmente pela via do deslocamento. Esse é um mecanismo muito importante,
portanto, na “confecção” – digamos assim – do sintoma obsessivo (ato ou ritual
obsessivo). Para essa Atividade 2, que vale (2,5), peço que você tente escrever,
com as suas palavras, como se formou o sintoma da paciente do Caso abaixo,
utilizando o que aprendeu sobre o “deslocamento”. Segue o Caso relatado por
Freud nas Conferências Introdutórias à Psicanálise (1916 - 1917): Uma senhora de
quase trinta anos de idade, que sofria de severa manifestação obsessiva e a quem
eu talvez tivesse podido ajudar, se um maldoso acaso não houvesse arruinado
meu trabalho — talvez eu ainda lhes conte o que se passou —, realizava, entre
outras, a seguinte e curiosa ação obsessiva, muitas vezes ao dia. Ela ia de seu
quarto ao quarto vizinho, postava-se ali em local determinado, junto da mesa que
se erguia no centro do cômodo, tocava a sineta para chamar a criada, confiava-lhe
uma tarefa qualquer, ou mesmo a dispensava sem nada solicitar, e voltava, por
fim, a seu quarto. Não se tratava de sintoma patológico grave, é verdade, mas por
certo suficiente para atiçar a curiosidade. A explicação foi encontrada da maneira
mais irreparável e irrepreensível, sem nenhuma contribuição por parte do médico.
De resto, nem sei como poderia ter chegado a uma suposição qualquer sobre o
sentido daquela ação obsessiva ou a uma indicação de como interpretá-la. Toda
vez que perguntava à enferma: “Por que a senhora faz isso? Que sentido tem?”,
ela me respondia: “Não sei”. Um dia, porém, depois de eu ter conseguido resolver
uma grande questão de princípios com que ela lutava, a resposta lhe veio de
súbito, e ela me relatou o que havia de pertinente àquela ação obsessiva. Mais de
dez anos antes, havia se casado com um homem muito mais velho, o qual, na
noite de núpcias, se revelara impotente. Naquela noite, ele caminhara inúmeras
vezes de seu quarto ao dela, a fim de repetir a tentativa, mas sempre sem
sucesso. Pela manhã, ele dissera irritado: “Vou sentir vergonha da criada, quando
ela vier arrumar a cama”. Em seguida, apanhou um frasco de tinta vermelha, que
por acaso se encontrava no quarto, e verteu seu conteúdo no lençol, mas não em
um ponto em que seria de se esperar encontrar semelhante mancha. De início, não
entendi o que aquela lembrança podia ter a ver com a ação obsessiva em questão,
porque só identifiquei coincidências nas idas e vindas de um quarto a outro e na
presença da criada. Então a paciente me conduziu até a mesa do quarto ao lado e
me fez ver uma grande mancha na toalha que revestia o tampo. Explicou-me
também que se posicionava em relação à mesa de tal maneira que a criada, uma
vez convocada, não tivesse como não ver a tal mancha. Agora a relação íntima
entre a cena posterior à noite de núpcias e a presente ação obsessiva não deixava
dúvidas, mas restavam outras coisas a serem compreendidas. Fica claro, acima de
tudo, que a paciente se identifica com seu marido; afinal, ela o representa, na
medida em que seu caminhar de um quarto a outro o imita. Devemos então admitir,
a fim de manter essa equivalência, que ela substitui cama e lençol por mesa e
toalha. Isso pareceria arbitrário, mas não foi em vão que estudamos o simbolismo
dos sonhos. Nesses, é também muito frequente encontrarmos uma mesa que deve
ser interpretada como cama. Mesa e cama, juntas, representam o casamento; é
fácil, pois, que uma seja substituída pela outra. A prova de que a ação obsessiva
possui um sentido já estaria dada; ela parece uma representação, uma repetição
daquela cena significativa. Mas não precisamos nos deter nessa aparência. Se
examinarmos as duas situações em maior profundidade, é provável que
encontremos a chave para algo mais: para a intenção da ação obsessiva. Seu
cerne está, evidentemente, na convocação da criada, a quem a mulher exibe a
mancha, em contradição com aquela afirmação do marido: “Vou sentir vergonha da
criada”. Ele, portanto — em cujo papel se encontra a esposa —, não sente
vergonha da criada: a mancha está, assim, no lugar correto. Vemos, portanto, que
a mulher não apenas repete a cena, mas também lhe dá continuidade e a corrige,
torna-a certa. Com isso, corrige também aquilo que, na noite de núpcias, lhe foi tão
penoso, tornando necessário o recurso ao frasco de tinta: a impotência. Assim, a
ação obsessiva diz: “Não, não é verdade. Ele não precisou sentir vergonha da
criada, não era impotente”. À maneira de um sonho, a ação obsessiva apresenta,
em uma ação presente, esse desejo como realizado. Ela serve ao propósito de
elevar o homem acima de seu infortúnio de então.

Resposta:

O sintoma da ação obsessiva da paciente é denotada através do deslocamento, ou


seja, ela transfere suas emoções e ações de acordo com o que foi experienciado
com seu marido, mesmo que de forma inconsciente, a ideia é aliviar a realização de
um desejo não vivenciado. O deslocamento acontece quando uma representação
recebe todo o investimento devido a uma outra, de modo que a segunda acaba por
substituir completamente a primeira. Ora, a ligação entre as duas representações
tanto pode ser por contiguidade quanto por analogia.

Fazendo uma alusão com o fato da impotência de seu marido, e o temor no qual a
criada descobrisse que não teria manchas de sangue no lençol da cama, o andar de
um quarto para o outro leva a interpretação que a neurose obsessiva era manifesta
como uma forma de anular, ou melhor, de corrigir toda aquela cena que teve
significância para ela. Além disso, chamar a empregada para provar que a mancha,
agora no devido lugar, serviria para reafirmar que agora estava no lugar correto, ou
seja, seu marido não precisaria mais envergonhar-se.

Segundo Freud, nossos sonhos têm um conteúdo manifesto (o que acontece no


sonho) e um conteúdo latente (o que o sonho tenta nos dizer). A maioria dos desejos
expressos em nossos sonhos seria de natureza sexual.