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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

INSTITUTO DE HUMANIDADES E SAÚDE

CURSO DE PRODUÇÃO CULTURAL

VITOR CIVIDANIS PATUELI CORRÊA LIMA

Resenha do verbete: “Políticas Culturais”. Dicionário Crítico de Políticas


Culturais.

Rio das Ostras

2021
COELHO, Teixeira. “Políticas Culturais”. Dicionário Crítico de Políticas
Culturais. São Paulo, Ed. Iluminuras, 1997, p.293-300.

Teixeira Coelho (São Paulo, Brasil, 31 de janeiro de 1944) é professor titular


da Universidade de São Paulo. Possui graduação em Direito, mestrado em Ciências
da Comunicação e doutorado em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e
pós-doutorado na University of Maryland, EUA. Concomitantemente, especialista em
Política Cultural, atua como colaborador da Catedra Unesco de Política Cultural da
Universidad de Girona, Espanha; coordenador do curso de especialização em
gestão e política cultural do Observatório Itaú Central; curador de diversas
exposições realizadas no Brasil e no exterior. Autor de livros sobre cultura e arte,
premiado pelo livro História Natural da Ditadura (Prêmio Portugal Telecom 2007).

O verbete ‘’Políticas Culturais’’ de Teixeira Coelho objetiva definir o que é


Política Cultural e seus complementos. Motivações; legitimações; orientações;
objeto; a questão nacional; circuitos de intervenção; modos ideológicos. Aqui, o
autor embasa suas definições baseado em aspectos sócio-culturais.

Em primeiro lugar, a política cultural é definida como um conjunto de


iniciativas oriundas do Estado e/ou instituições públicas ou privadas, que visam
promover a produção, distribuição e uso da cultura. Definido também, como
intervenções realizadas por essas entidades, a fim de satisfazer as necessidades
culturais e promover o desenvolvimento das representações simbólicas. Dessa
forma, essas intervenções se organizam como:

1. normas jurídicas, ou procedimentos tipificados.


2. intervenções diretas no processo cultural (apoio a manifestações culturais
específicas, construção de centros culturais, etc).

Assim, de maneira geral, o objetivo da política cultural é estudar os modos de


proposição das iniciativas, e garantir suas significações nos diferentes contextos
sociais que estão inseridas.

A definição de política cultural se apresenta de forma amplamente idealizada.


Entende-se que, os fenômenos culturais adotam a lógica geral da sociedade,
pautando as políticas culturais como um conjunto de intervenções dos agentes, com
objetivo de administrar um padrão de ordem política e social, ou iniciar uma
transformação social. Concomitantemente, surge outro tipo de definição, a junção
da política cultural com política social, servindo como recurso importante para
legitimar o Estado como entidade que cuida e dá voz a todos.

Estas interpretações destoam-se da realidade social. As motivações mais


usuais de política cultural são: a de difusão cultural, e demanda social. A primeira,
baseia-se no conceito de existir um núcleo cultural, de suprema importância, e que
deve ser compartilhado para que a maior parcela da comunidade possa usufruir,
ampliando o número de receptores ou apreciadores. A segunda, o agente não toma
iniciativas, mas reage de acordo com as reivindicações a eles atribuídas. Todavia,
apesar das diferenças teóricas entre as duas motivações, na prática as duas não se
desvinculam. Assim, nas duas situações, estas políticas demonstram ser volúveis,
inconstantes.

O embasamento destas políticas, se dá a partir de quatro paradigmas. O


primeiro, define-se atrelado a uma lógica do bem-estar social, tendo como objetivo
controlar, estabilizar a dinâmica social já que o acesso à cultura é visto como
complementação do indivíduo. O segundo, mostra-se como intervencionista,
buscando orientar a dinâmica social, procurando uma identidade (étnica, sexual,
religiosa, etc). O terceiro, manifesta a necessidade de um enquadramento
ideológico para o prosseguimento de objetivos. O quarto, pauta-se na prática
comunicacional entre o Estado e seus cidadãos. É evidente que, independente do
caráter da política cultural, uma prática comunicacional é extremamente necessária.
No entanto, se encontra em níveis bem abaixo dos necessários, se resumindo
somente a manter abertos os canais mínimos de comunicação entre a instituição e o
público.

Assim como as motivações, o objeto das políticas culturais também se


subdivide em duas conceituações: patrimonialista e criacionista. A primeira, visa a
preservação, fomento e difusão das tradições e costumes culturais. A segunda,
promove a produção, distribuição e consumo de novas obras culturais, privilegiando
a cultura média, como cinema, shows, e a superior, como museus, música de
vanguarda.

A partir de valores como o nacionalismo, pluralismo cultural ou globalização,


as políticas configuram-se de diferentes formas. Políticas nacionalistas
apresentam-se patrimonialistas ou criacionistas. A pluralista, também não exclui as
versões, e a globalizante pauta-se no criacionismo, utilizando o critério ‘’qualidade’’
como avaliação das demandas.

Além destas diferentes configurações, as políticas culturais também se


subdividem quanto aos seus circuitos de intervenção:

1. Mercado cultural: pautado na produção, distribuição e consumo da cultura.


Medidas de financiamento, facilitação de acesso econômico, por exemplo.
2. Cultura alheia ao mercado cultural: baseia-se na conservação e difusão dos
modos culturais, que não necessitam entrar no mercado cultural. Grupos
folclóricos, grupos de cultura popular, são exemplos são objetos destas
políticas.
3. Usos da cultura: define-se na criação de condições para o pleno desfrutar
dos modos culturais. Produzem cursos, seminários, atividades, que conse-
quentemente, atua como educação informal.

4. Instâncias institucionais de organização dos circuitos culturais: atua na


organização administrativa da cultura. Estruturando os agentes e instituições,
e determinando os recursos e a alocação dos mesmos em cada cenário
existente.

Estas políticas, empregadas isoladamente, perdem força, potencial.


Aplicá-las simultaneamente, resulta em uma sólida política cultural do Estado.
Organizar um sistema comunicacional, articulando estas intervenções inicialmente
distintas, demonstra um plano nacional de cultura concreto e efetivo.

Concluindo, o autor define como o último ‘’diferenciador’’, os modos


ideológicos das políticas culturais, são eles:

1. Dirigismo cultural: promovem ações culturais baseadas em moldes definidos,


utilizando a preservação do folclore como núcleo da identidade nacional.
Praticada principalmente por Estados fortes.
2. Liberalismo cultural: objetivam a adequação da cultura nas leis do mercado.
Apoiando a alta cultura, e a cultura veiculada pelos meios de comunicação de
massa. Maior dependência da iniciativa privada, ocasionando,
consequentemente, uma liquidação dos órgãos públicos da área cultural.
3. Democratização cultural: baseando-se na premissa de que a cultura é força
social de interesse coletivo, visa criar condições de acesso igualitário a todos,
indivíduos e grupos.

Em síntese, o autor define diversos padrões organizacionais que envolvem as


políticas culturais. No entanto, o texto não atua somente na parte de listagem/
definição dos processos, mas também provoca debates e conclusões sobre a real
situação do campo cultural nacional. Os novos rearranjos ideológicos e econômicos
no mundo, submeteram às políticas culturais, organizarem-se sob novas
perspectivas.

O enfraquecimento do Estado contemporâneo, somado ao direcionamento


das atuações a outras preocupações urgentes, configura, nesse cenário, a cultura
como atividade de segunda importância, não mais essencial. A recente dinâmica
dos veículos de comunicação, que constrói, desbasta e multiplica valores
infinitamente, também influencia nesta problemática, pois o Estado acaba não
possuindo mais aquele núcleo cultural, não sabendo o que privilegiar neste campo.
E, apesar de serem problemas essencialmente diferentes, contribuem
simultaneamente para a omissão do Estado no cenário cultural.

O verbete de Teixeira Coelho é de suma importância para a compreensão da


conjuntura contemporânea das políticas culturais, suas configurações e
desdobramentos. A autoridade do autor sobre a temática, e a utilização de textos
(referências) de autores e pesquisadores renomados no campo da cultura e
antropologia como Guilermo Bonfil, José Joaquín Brunner, constroem tópicos de
grande relevância para o entendimento concreto desta temática.

O cenário social definido pelo autor é conflituoso e inconstante, ocasionando


reflexões sobre a realidade nacional. Uma das mais impactantes, se dá a partir do
desgaste das políticas culturais. O texto, datado de 1997, na época proporcionou
debates importantes. Os impasses e adversidades relacionados a esse campo que
antes eram aparentes, hoje são estratosfericamente maiores. A inconstância das
políticas culturais, fator presente em todo o cenário nacional (passando, inclusive,
por gestões diversas), atualmente passa por um dos, se não o pior momento da
história das políticas culturais: a inviabilização do campo da cultura, seja na extinção
de elementos prioritários como o MinC (Ministério da Cultura), seja, a partir de 2020,
com o contexto da pandemia.

Em síntese, o verbete ‘’Políticas Culturais’’ de Teixeira Coelho torna-se um


exemplar no estudo das políticas culturais. O detalhamento das pautas que
permeiam este campo é um fator presente ao longo do texto. O autor apresenta de
maneira exímia, todas as questões, implicações e resoluções relacionadas à
temática. E, apesar de apresentar um cenário catastrófico sobre a situação do
campo das políticas culturais, apresenta-se como um excelente elemento para a
compreensão desta realidade nacional. Dessa forma, o verbete, assim como o
Dicionário Crítico de Política Cultural, são imprescindíveis para a construção de um
estudo sócio-cultural, que possibilita aos leitores um entendimento integral de todo o
contexto deste campo amplo e complexo das Políticas Culturais.
REFERÊNCIAS:

COELHO, Teixeira. “Políticas Culturais”. In: Coelho, Teixeira (ORG). Dicionário


Crítico de Políticas Culturais. São Paulo, Ed. Iluminuras, 1997, p.293-300.

Jose Teixeira Coelho Neto. Currículo Lattes, 2020. Disponível em:


<http://lattes.cnpq.br/0856465527112284>. Acesso em: 12/03/2021.