Você está na página 1de 14

As Coisas Novas:

porque TGA parou no tempo?

Autoria: Claudio Marlus Skora e Dayse Mendes

Eu sou eu e minhas circunstâncias


Ortega y Gasset

Resumo

A contribuição da disciplina de TGA para a formação do administrador brasileiro é


questionada neste artigo, principalmente pelo conteúdo ensinado aos discentes do curso. Para
tanto, analisamos a forma como a mesma foi inserida no currículo mínimo, seus principais
autores e ementas da disciplina de diversas faculdades e universidades. Concluímos
apresentando uma sugestão para que a mesma possa atualizar seu conteúdo e que os mesmos
não sejam tratados de forma dissociada da realidade da época em que foram analisados pelos
diversos autores estudados na disciplina. Esta proposta encontra-se embasada nas novas
diretrizes curriculares em análise no Conselho Nacional de Educação.

1) Introdução

“Cabe a nós professores brasileiros de administração, começar a preparar, desde


agora, a mocidade do nosso país para a nova era que se aproxima a passos rápidos”(ABREU,
1969). Esta declaração de Abreu vem ao encontro de nossos anseios e vale como leit motiv
para o desenvolvimento deste trabalho. Antes de aprofundarmos os motivos acima descritos,
cabe uma justificativa sobre o título. Abreu, no artigo citado apresenta um tópico denominado
“Disciplinas e Técnicas Surgidas Depois de 1945: as Coisas Novas”. As coisas novas,
segundo o autor, são basicamente o que as obras clássicas de TGA, surgidas na década de 70,
apresentam como abordagem sistêmica. Ora veja, as coisas novas de 1969 ainda são “novas”
segundo o conteúdo programático de TGA de grande parcela dos cursos de administração do
país, que na sua maioria utilizam as obras de Chiavenatto e Motta.
Neste ponto reside a intenção deste artigo. Surgida com os primórdios dos cursos de
graduação em administração brasileiros, a disciplina vem sendo ministrada, no que se refere à
forma e conteúdo, praticamente da mesma maneira como foi criada há mais de 40 anos. Em
que pese ser uma disciplina que retrata o desenvolvimento histórico da administração, e isto
realmente não se pode mudar na ânsia de uma renovação da disciplina, não nos parece que
esteja cumprindo com seu objetivo, qual seja:

"Disciplina de cunho teórico e prático, de caráter propedêutico para as demais disciplinas do curso de
administração de empresas. Situa a ciência administrativa no tempo e estabelece suas relações
interdisciplinares. Habilitando, desta forma, o aluno a ter uma visão contextual e obter um sentido de
finalidade do curso e da profissão que escolheu1"

Conforme TRAGTENBERG (1971, p.21), podemos dizer que “as teorias


administrativas são dinâmicas, elas mudam com a transição das formações socio-econômicas
[...] No sentido operativo, elas cumprem a função de elemento mediador entre a
macrossociedade e a microorganização pelo agente, o administrador. No sentido genético,
constituem-se em repositório organizado de experiências, cuja herança cumulativa é uma
condicionante das novas teorias[...].” Assim, se seu objetivo é fornecer uma “visão
contextual” e ainda “sentido de finalidade do curso e da profissão” ao aluno, não nos parece

1
ser possível atingir os objetivos propostos ministrando a disciplina sem abordar a
dinamicidade do contexto sócio-econômico atual. Somente desta forma poderemos
contemplar uma melhor formação do administrador brasileiro e dos cursos de administração
no país.
Em particular, a formação acadêmica do administrador também é um assunto que nos
preocupa. Pode-se dizer que, em termos weberianos, existe um tipo ideal de formação do
administrador e, por conseqüência, um tipo ideal de formação do administrador brasileiro.
Partindo desta premissa, podemos observar que, depois de quase meio século da criação do
curso de graduação em administração no Brasil, este ainda tem sido alvo, desde praticamente
seu inicio, de críticas no que se refere à sua eficácia. Mesmo sofrendo algumas mudanças ao
longo destes quase 50 anos, nenhum dos atores envolvidos no processo de formar
administradores (dentre eles alunos, professores, empresários) parece feliz com o resultado
alcançado pelos cursos de graduação. Dentre as críticas mais recorrentes encontra-se a
questão do currículo do curso. Parece-nos (e àqueles que criticam os cursos de administração)
que uma formação conveniente do administrador depende, entre outras coisas, de um
currículo adequado e, portanto, de disciplinas adequadas a esta formação. Não basta mudar o
currículo ou o nome das disciplinas, em especial se o conteúdo não for modificado.
Passaremos por uma chance de realizar uma mudança estutural a partir da aprovação
das novas diretrizes curriculares para o curso de administração em discussão no Conselho
Nacional de Educação (desde que aprovadas nos termos atuais ou mesmo se o sentido de
flexibilidade da proposta for mantido). Esta mudança apresenta-se tardiamente. Há tempos
verifica-se a necessidade de mudanças pois:"[...] creio ser inegável que os cursos de
administração no Brasil vêm experimentando um nítido envelhecimento e há muitas razões
para isso." (MOTTA, 1983, p. 53)
Conceber uma nova proposta integral para o curso nos parece ser extremamente
ambicioso e não poderia ser tratado em sua plenitude em um único artigo. Decidimos, então
dar nossa contribuição para a análise de uma das principais disciplinas de formação
profissional do curso: Teoria Geral da Administração.
Tomando por hipótese que a disciplina de TGA é realmente importante para a
formação do administrador2, cabe-nos analisá-la e repensá-la, tornando-a um instrumento
eficaz para dar suporte à prática administrativa.
Desta forma, o objetivo deste artigo é discutir a disciplina de TGA à luz da futura
implementação de novas diretrizes curriculares. Em um primeiro momento apresentamos um
breve histórico da formação dos cursos de administração no Brasil e da nova proposta de
diretrizes curriculares para o curso. Após, abordamos o sentido da disciplina de TGA no curso
de Administração. Nas considerações finais incitamos uma discussão quanto as formas e
conteúdos para a disciplina face à nova realidade.
Como professores brasileiros de administração, acreditamos que só por meio de uma
preparação adequada podemos preparar os futuros administradores para a “nova era que se
aproxima a passos rápidos” que Abreu preconizava. E ele já se preocupava com esta questão
há 30 anos atrás.

2) TGA e a formação do administrador

Neste tópico abordaremos o histórico do curso de administração no Brasil, desde sua


criação até os dias atuais, apresentaremos a proposta de diretrizes curriculares para os cursos
de administração e descreveremos como TGA vem sendo ministrada, com ênfase na análise
das obras mais conhecidas e utilizadas na disciplina.

2.1) Formas e normas: histórico do curso de administração

2
O primeiro contato, ainda que superficial, dos brasileiros com a ciência da
administração se dá na década de 1920, por meio de uma conferência pronunciada por
Afrânio Peixoto, na qual o romancista cita o taylorismo como técnica para aprimoramento das
operações industriais (SILVA, 1987). Acreditamos que estas primeiras referências
aconteceram provavelmente devido aos reflexos do grande depressão originada pela quebra da
bolsa de Nova Iorque e pela reestruturação que a economia brasileira passa a partir deste
fato3.
Esse primeiro contato sedimenta-se por meio da introdução no país da administração
clássica, feita pelo Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), órgão criado
em 1938 especialmente para atuar na reforma e modernização da administração pública. A
criação do DASP representou não apenas a primeira reforma administrativa do país, com a
implantação da administração pública burocrática, mas também a afirmação dos princípios
centralizadores e hierárquicos da burocracia clássica. (BRESSER PEREIRA, 1996).O DASP
foi o órgão público responsável pela difusão, na década de 1940 e décadas posteriores, das
teorias relacionadas à administração, em especial ao promover em novembro de 1944 e abril
de 1945, respectivamente, simpósios sobre Fayol e Taylor, propagando o taylorismo por todo
o país.
Confirmando e sedimentando a tendência do governo Getúlio Vargas para a
profissionalização da administração pública, a Fundação Getúlio Vargas (criada em 1944 no
intuito de racionalizar o aparelho estatal) funda em 1952, com o apoio das Nações Unidas, a
EBAP (Escola Brasileira de Administração Pública). Primeira escola de administração da
América do Sul, a EBAP desempenhou papel crucial para a institucionalização, no Brasil, do
estudo sistemático desta área de conhecimento, da profissionalização do administrador
público, e da assistência técnica aos aparatos de governo. Ao continuar em seu papel de
disseminadora da administração no país, a Fundação Getúlio Vargas funda em 1954 a Escola
de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP). Resultante da ação conjunta do setor
empresarial, do governo brasileiro e da FGV, com a colaboração de uma equipe de
professores brasileiros e da Michigan State University (EUA) na estruturação de seu sistema
acadêmico, a EAESP foi a primeira escola do país a oferecer um curso superior em
Administração de Empresas do Brasil (seu atual curso de graduação).
MATTOS e CARVALHO (1993) fazem uma avaliação da evolução dos cursos de
administração brasileiros desde sua criação até a década de 1980. Apresentamos a seguir um
resumo desta análise. Segundo os autores, os primeiros cursos de graduação em
administração, surgidos no Brasil nas décadas de 1950 e 1960 foram marcados pela influência
dos profissionais de nível superior até então mais comumente escolhidos para funções
gerenciais, tais como engenheiros, advogados, contadores e militares reformados. Tal
influência profissional podia ser verificada nos currículos dos cursos pela presença de
conteúdos de racionalização de processos e arrumação lógica de estruturas organizacionais.
“Na verdade, a principal metodologia que dava segurança aos que afirmavam a Administração
como ciência era a lógica racional que, aplicada agora aos negócios, à produção e aos serviços
públicos, lhes asseguraria êxito. A eficiência empolgava.” (p. 91). O contexto de uma
economia simples e de baixa competitividade aliado ao perfil dos profissionais de
administração (tanto docentes, como empresários) originou um formato de estudar
administração com base em generalizações ensinadas nos livros estilo manual, quer sob a
forma de ‘princípios’ (formulações gerais), quer de recomendações práticas, precedidos por
uma visão geral da doutrina administrativa dos “pais” da “nova ciência”. Mattos e Carvalho
afirmam que esta forma representou a primeira tradição no ensino de Administração
denominando-a de “tradição profissional”.
Para Mattos e Carvalho este perfil, característico do ensino da Administração nas
décadas de 1950 e 1960, passou a ser considerado ultrapassado desde o início da década de

3
1970. Esta mudança se deveu ao fato da adoção, pela academia, de um novo padrão, qual seja,
o da pesquisa. “Chegavam de forma massiça às livrarias traduções da literatura especializada
nos EUA, agora baseadas em pesquisas acadêmicas, cientificamente conduzidas, nas áreas de
psicologia social, sociologia das organizações, matemática aplicada às decisões,” entre outros.
(p. 91). Surgem nesta época as obras mais divulgadas (até os dias atuais) das teorias de
administração: a de Fernando Prestes Motta e a de Idalberto Chiavenato, sob o título de
‘Teoria Geral da Administração’. Tais obras demonstravam a contribuição da Academia à
Administração, desde a década de 1920 com Elton Mayo e suas conclusões das pesquisas de
Hawthorne, os T-lab, a Teoria Geral dos Sistemas ou mesmo a ‘Teoria Y’ de McGregor,
teorias que estimularam a vasta produção acadêmica especializada subseqüente. Conforme
Mattos e Carvalho, no Brasil, ainda na década de 1960, missões de intercâmbio acadêmico
trouxeram ao país pesquisadores de universidade norte-americanas e enviaram estudantes
daqui para pós-graduação naquele país, iniciando importantes centros de influência no eixo
Rio-São Paulo. “Formava-se então uma segunda tradição no ensino de Administração: a
‘tradição acadêmica’.” (p. 91)
Uma nova mudança no mundo administrativo ocorre no final da década de 1970: o
sucesso da administração industrial japonesa e de alguns métodos desenvolvidos nos EUA,
em um contexto internacional de intensificação da competição empresarial e disputa de
mercados (teoria Z de Ouchi, o método Deming, o TQC...). Para Mattos e Carvalho tais
mudanças “não surgiram das pesquisas dos sociólogos e psicólogos nas universidades
americanas da década anterior. O foco de interesse se deslocou das organizações e da
abordagem behaviorista no desenvolvimento de recursos humanos para centrar-se na gerência
(inclusive em seus aspectos de inovação e criatividade), na dimensão política do
relacionamento com o pessoal (inclusive a negociação e participação) e na estratégia de
negócios.” (p. 91-2) Nesta época, além dos acadêmicos, consultores de empresa, empresários
e executivos bem-sucedidos começam a propagar seus feitos, transformando suas experiências
práticas em best-sellers da área, inspirados na sabedoria gerencial e não na teoria acadêmica
abundante à época. De acordo com os autores essa nova evolução traz como conseqüência,
entre outras, a necessidade de repensar conteúdos da disciplina Teoria Geral da Administração
e outros comumente agrupados sob o título de teoria das organizações. Concordamos
plenamente com os autores no que diz respeito à necessidade de mudanças em TGA.
Descrita a evolução dos cursos de administração brasileiros desde sua criação em 1950
até a década de 1980, podemos abordar sua evolução a partir da década de 1990 até o
momento presente. Percebemos que a formação atual do administrador brasileiro encontra-se
normatizada, basicamente, segundo critérios definidos há três décadas atrás. Apesar de, desde
1995, os cursos de graduação em administração, existentes ou instalados, estarem sob a égide
de uma legislação de 19934, que fixou os mínimos de conteúdo e duração do curso de
graduação em Administração apresentando o elenco de disciplinas de formação básica e
instrumental, de formação profissional e eletivas e complementares, além de determinar a
duração do estágio supervisionado, esta legislação se baseou em outra definida na década de
1960.
O primeiro currículo mínimo para a graduação surgiu em 19665, fixando elenco de
disciplinas e demais orientações. Porém, conforme afirma BERNDT (1996) não foram
introduzidas mudanças significativas na estrutura do curso, a saber:
" Uma rápida comparação entre as duas resoluções, a de 1966 e a de 1993, mostra grande
semelhança nas matérias propostas. Alguns aprimoramentos nos nomes (recursos humanos no
lugar de pessoal) e algumas inclusões (informática e administração de sistemas de informação)
são as novidades. Talvez a maior diferença entre os dois currículos seja a redução da importância
da área de Direito: três matérias no primeiro e apenas uma no segundo e a existência de três
matérias optativas no primeiro. Quanto a carga horária total, no primeiro eram exatas 2700 horas
acrescidas do estágio supervisionado e no segundo o mínimo de 3000 incluído aí o estágio. Em

4
ambos os casos o tempo mínimo de integralização foi fixado em quatro anos" BERNDT(1996, p.
60). [Grifos não encontrados no original].

Já para COMINI e LIMA (1996, p.139) nas mudanças ocorridas "destacam-se a


introdução de informática e a melhor especificação de algumas matérias de formação
profissional como Administração Mercadológica, de Produção e de Sistemas de Informação".
Uma outra mudança no aprimoramento nos nomes é a substituição de "Teoria Geral da
Administração" por "Teorias da Administração” e derivados do plural da nomeclatura.
A primeira constatação que podemos fazer a respeito das normas que regem
atualmente a formação do administrador brasileiro na graduação é que no início do século
XXI formamos administradores segundo critérios estabelecidos há pelo menos 35 anos. Não
entendemos ser necessário explicitar as mudanças no contexto empresarial neste período, até
para não entediar os leitores com mais uma lista com palavras como qualidade total,
globalização ou nova economia, porém é inegável o distanciamento entre este e a realidade
ensinada nas duras cadeiras freqüentadas pelos acadêmicos de administração.
Alguns argumentos contrários a afirmação acima podem ser apresentados. O primeiro
reside na inclusão de disciplinas eletivas e complementares, de acordo com a legislação de
1993, de 32 % da carga horária do curso sendo estas fixadas por cada IES6, para contemplar
as disciplinas das diferentes habilitações e as chamadas "coisas novas" porém, do nosso ponto
de vista, não são suficientes para garantir uma atualização do curso, já que sua estrutura
fundamental encontra-se amarrada a uma seqüência de disciplinas e, principalmente pela
forma como alguns cursos são criados7.
Pode-se argumentar, também, que apesar do fato do elenco de disciplinas não se
alterar, o conteúdo ministrado foi alterado e este fato garante a "modernização" no ensino de
administração. Este ponto pode ser verdadeiro para disciplinas como Administração da
Produção8 ou Administração de Recursos Materiais ou Patrimoniais9. Tal argumento não é
verdadeiro para TGA. A análise das ementas, que detalharemos a seguir, apontam a utilização
de duas obras como as mais utilizadas nesta cadeira. Ambas tiveram sua primeira edição na
década de setenta.
Talvez, as novas diretrizes curriculares para o curso, em discussão no Conselho
Nacional de Educação, se aprovadas no modo apresentado possam alterar este perfil de
imobilização, desde que as IES tenham coragem e capacidade de aplica-las com criatividade e
originalidade. Na verdade, a questão da incorreta formação do administrador brasileiro é
discutida freqüentemente, desde a década de 1960. Ao considerarmos que uma educação
formal para a administração só começa no Brasil na década de 1950 (mais precisamente me
1952 com a fundação da EBAP), parece-nos que, desde o início, não encontramos o método
correto para ensinar nossos alunos a serem administradores e, pior, continuamos formando
administradores inadequados, apesar de o estarmos fazendo há quase meio século...

2.2) A proposta das novas diretrizes


A última versão das novas diretrizes do curso de administração10 em discussão no
Conselho Nacional de Educação (CNE) é datada de março de 2001. Não muitas alterações
foram sugeridas se compararmos com a versão original de fevereiro de 1999, apesar de
profundas discussões realizadas no âmbito dos congressos da ANGRAD, reuniões da CEEAD
e Seminários promovidos pelo INEP. Porém, se comparado com a resolução 2 de 4 de outubro
de 1993, do Conselho Federal de Educação que fixava o mínimos de conteúdo e duração do
curso há uma mudança significativa. Diferente das alterações incrementais ocorridas
anteriormente os cursos de graduação possuem finalmente a liberdade necessária para
flexibilizar e adequar os cursos às necessidades do contexto em que estão inseridos.
Basicamente os conteúdos do curso deverão ser enquadrados em cinco campos de
estudo diferentes, a saber:
5
“O primeiro campo é o de Estudos Sociais, Artísticos, de Investigação Científica e suas Metodologias; o
segundo compreende os Estudos Administrativos Gerenciais, Organizacionais, Estratégicos e suas
Metodologias; o terceiro envolve Estudos Econômicos, Financeiros, Mercadológicos, de Relações
Internacionais e suas Metodologias; o quarto corresponde aos Estudos Quantitativos e suas
Metodologias; e o quinto campo se refere aos Temas Transversais”.(CEEAD, 2001, p. 9)

Não são determinados o percentual de horas-aula destinado a cada campo de estudo,


nem mesmo o elenco de disciplinas que o curso deve ter. Algumas recomendações são
realizadas quanto à política de estágios, avaliações e também quanto às habilitações no curso,
com a proposta, não incisiva, de extinção das mesmas.
Perante a possibilidade de aprovação das propostas que estão sendo discutidas à quase
dois anos e meio há a necessidade de repensarmos toda a estrutura do curso de administração
e pelo menos desta vez a desculpa não poderá cair sobre o “engessamento” do curso.

2.3) A TGA e sua raison d’être


A educação do administrador deve tomar a forma de preparação para uma carreira
profissional. Deste modo, estrutura curricular e disciplinas devem ser condizentes com o
perfil estabelecido como o “ideal” para que o desempenho deste administrador seja adequado
à prática profissional. Faz-se necessária uma capacitação técnica que deve ser desenvolvida
tendo por base um conjunto de conceitos teóricos, de forma que o administrador possa ser
capaz de atuar na prática com maior discernimento e eficácia. Uma das disciplinas que se
predispõe a dotar o aluno desta base teórica é a Teoria Geral da Administração (ou, mais
recentemente, Teoria Administrativa). No entanto, até que ponto uma disciplina elaborada na
década de 1960 e que tem suas principais obras publicadas na década de 1970 (e que continua
sendo ministrada como na época, apesar da mudança de nome) pode suprir o aluno da base
conceitual necessária à sua época e contexto?
Para corroborar nossa afirmação de engessamento da disciplina realizamos uma breve
análise de ementas de disciplinas de TGA de 18 cursos de administração da Região Sul,
Sudeste e Distrito Federal. O resultado da análise demonstrou que, quanto à nomenclatura da
disciplina, tem-se 7 (sete) escolas que ainda adotam o nome Teoria Geral da Administração,
10 (dez) que adotam o nome Teorias Administrativas (ou variações) e 1 (uma), a FEA-USP,
que adota o nome Teoria das Organizações. Apesar da mudança de denominação da
disciplina, nossa pesquisa nos mostrou que em 16 (dezesseis) dos cursos analisados os livros
Teoria Geral da Administração ou Introdução à Teoria Geral da Administração, ambos de
Idalberto Chiavenato, são utilizados. Já a obra de Fernando C. P. Motta é utilizada por cinco
cursos do total analisado. Quanto à estruturação da disciplina, em várias ocasiões o conteúdo
programático dos cursos analisados limita-se a apenas copiar o sumário das obras citadas. Ao
analisarmos, a seguir, estas obras, justificamos o subtítulo de nosso artigo, ou seja, mostramos
que ‘TGA parou no tempo’.
A disciplina TGA surgiu no Brasil na década de 1950. Apesar de, no que diz respeito
aos conceitos administrativos, sempre nos pautarmos pelo desenvolvimento norte-americano,
neste caso vale lembrar que TGA é uma disciplina tipicamente brasileira. As faculdades
norte-americanas, em especial as mais aclamadas, utilizam por metodologia o estudo de caso,
e, de um modo geral, não tem uma disciplina que possa se comparar em conteúdo à TGA. É
interessante salientar que algumas dessas faculdades (como, por exemplo, Harvard e
Wharton) surgiram antes ou durante a época de Taylor (um dos pioneiros na elaboração de
teorias administrativas). Deste forma é mais do que natural que as faculdades de
administração norte-americanas trabalhassem (e continuem trabalhando) com a análise de
casos. O fato é que ainda não existiam teorias que pudessem ser estudadas pelos alunos

6
quando da criação destas faculdades. O caso do Brasil é oposto, as teorias já existiam quando
da formação de nossas escolas de administração, mas não eram utilizadas na prática.
A primeira pessoa a desenvolver o que se tornou conhecido posteriormente por TGA
foi Beatriz Wahrlich (1915-1994). Diretora e Professora de Administração de Pessoal da
EBAP, Wahrlich foi, segundo BRESSER PEREIRA (2001), patrona da Administração
Pública no Brasil, não só por ter sido uma das fundadoras da EBAP como também pela
qualidade de seus estudos, de sua pesquisa e de seu ensino. Foi, ainda segundo o autor, a
principal teórica da Reforma Desenvolvimentista no Brasil nos anos 1960 e 1970. Wahrlich
foi funcionária do DASP11, exercendo o cargo de Diretora da Divisão de Seleção deste. Sua
obra “Uma análise da teoria das organizações” é a primeira tentativa brasileira de abordar
todas as teorias administrativas existentes até o momento de sua primeira publicação em 1958
(com posteriores reedições que incluem as inovações criadas ao longo de 30 anos). A autora
defende a necessidade de uma concepção teórica das organizações, ressaltando porém a
existência de uma série de obstáculos para aqueles que resolvem trazer algum tipo de
contribuição às teorias administrativas, em especial pela dificuldade de generalização nas
ciências humanas. Ao defender a necessidade de teorias, a autora ressalta a necessidade de se
constituir uma base concreta para uma melhor atuação na prática administrativa.
Com este pensamento, Wahrlich desenvolve a obra citada, identificando e avaliando a
contribuição das principais abordagens administrativas, estruturando-as conforme as
similaridades das diferentes abordagens e de acordo com o desenvolvimento cronológico
destas teorias. Conforme WAHRLICH (1986, p.8) “as concepções sob as quais a teoria de
organização pode ser apreciada se enquadram em quatro categorias principais: a concepção
dos engenheiros, a concepção anatômica, a dos psicólogos e a dos sociólogos.” Por concepção
dos engenheiros entenda-se a contribuição de Taylor e sua Administração Científica. No que
se refere a concepção anatômica, Wahrlich discorre sobre Fayol, seus princípios e elementos
da administração. A exposição da concepção dos psicólogos é feita a partir da análise do
trabalho de Mary Parker Follet, baseado na questão da motivação dos indivíduos. Para a
concepção dos sociólogos, Wahrlich se vale da análise dos estudos de Mayo, Barnard, Simon,
Thompson e Selznick, entre outros, vendo a organização como um sistema de esforço
cooperativo. À obra são acrescidas, nas edições posteriores, uma revisão das concepções
analisadas nas edições anteriores, bem como as análises da abordagem estruturalista, da
abordagem sistêmica, da abordagem contingencial, da fenomenologia, do impacto da
informática, e da contribuição de Guerreiro Ramos. Como curiosidade, é interessante se notar
que, na quinta edição de sua obra, Wahrlich faz uma análise da abordagem contingencial
citando, entre outras, a obra de Chiavenato12 acerca do tema.
O primeiro livro denominado “Teoria Geral da Administração” tem por autor
Fernando Prestes Motta (professor da EAESP/FGV) e foi publicado em 1973. Seu formato
segue, de certa forma, a linha desenvolvida por Wahrlich, somente reagrupando os autores
segundo quatro enfoques, nesta seqüência: o prescritivo, o explicativo, o prescritivo-
explicativo, finalizando com o alcance e os limites da TGA. No enfoque prescritivo o autor
descreve e analisa o movimento da administração científica de Taylor e Fayol e o movimento
de relações humanas de Mayo e Roethlisberger, citando como precursora do movimento Mary
Parker Follet. No enfoque explicativo são descritos e analisados o behaviorismo (em que dá
destaque às obras de Simon, de Barnard e de McGregor, não citando dois nomes clássicos da
abordagem: Maslow e Herzberg), o estruturalismo, e a abordagem de sistemas abertos. No
enfoque prescritivo-explicativo descreve e analisa o desenvolvimento organizacional (D.O.).
Em alcance e limites da TGA, descreve como se desenvolve uma teoria de um modo geral e,
de modo específico, como se desenvolve uma teoria administrativa; descreve também, nesta
última parte, a abordagem contingencial. Tal fórmula de apresentação, segundo o autor,

7
deveu-se a um critério didático, em que se buscou semelhança de idéias e de momento
histórico.
A fórmula de associação dos diversos enfoques que, juntos, compõem a Teoria Geral
da Administração, criada por Motta é utilizada até hoje pela maior parte dos autores de livros
de TGA. Em que pese a forma ser a mesma, no que diz respeito ao conteúdo Motta se
sobressai por trazer não só a descrição das diversas abordagens, mas também uma análise
crítica e contextualizada das mesmas. Em sendo assim, os capítulos dividem-se em
introdução, origem, grandes figuras, idéias centrais, o conceito de organização e as críticas
sobre cada uma das abordagens. Como ponto negativo cabe ressaltar que, apesar das
sucessivas reedições da obra (a mais recente é a 21° edição), seu conteúdo continua
exatamente o mesmo de 29 anos atrás. É interessante destacar que, quando do lançamento da
obra, não se fazia distinção entre os termos Teoria Geral da Administração e Teoria das
Organizações. Só mais tarde o segundo termo toma a forma conhecida hoje de análise dos
processos organizacionais e, em especial, das questão de poder. De acordo com MOTTA
(1986, p. xi) “a teoria das organizações é fruto de uma mutação na teoria da Administração, a
partir da evolução da sociologia, da Ciência Política e da Psicologia social norte-americanas.”
Entretanto vale notar que a denominação adotada atualmente para a disciplina na
EAESP/FGV, da qual Motta faz parte, é Teoria das Organizações.
O livro mais utilizado por faculdades, professores e alunos de TGA é publicado em
1976. Denominada Introdução à Teoria Geral da Administração, esta obra, desenvolvida por
Idalberto Chiavenato, serve, de acordo com o próprio autor, como um manual introdutório,
uma antologia para aqueles que precisam de uma base teórica para sua prática administrativa
(atualmente esta obra pode ser encontrada também em uma versão compacta). A obra, que em
sua segunda edição foi ampliada e tornou-se Teoria Geral da Administração13 (editada em
dois volumes), também segue o formato desenvolvido anteriormente por Warhlich e Motta,
agrupando autores conforme sua abordagem, e tenta manter uma ordem cronológica de
acontecimentos (embora nem sempre siga tal orientação, vide, por exemplo, o fato de Weber e
sua burocracia estar disposto após a abordagem neoclássica, incluso na abordagem
estruturalista). Chiavenato discorre no Volume I de sua obra sobre as teorias por ele
denominadas de normativas e prescritivas da Administração, envolvendo a abordagem
clássica, humanística e neoclássica14. No Volume II, descreve as abordagens explicativas e
descritivas da Administração, envolvendo a abordagem estruturalista, comportamental,
sistêmica e contingencial da Administração. Chamamos a atenção do leitor para a semelhança
de estruturação de tópicos (denominando-os de prescritivos e explicativos) em relação à
Motta.
Não há dúvida de que, no que se refere à descrição das várias abordagens
administrativas nas obras de TGA de Chiavenato (ou na obra de Chiavenato, se
considerarmos que o conteúdo dos três livros de TGA são os mesmos), esta o é feita
exaustivamente. Todos os possíveis autores de teorias administrativas são citados
(independente de sua relevância). Chiavenato, assim como Motta, também busca trazer o que
ele denomina de uma apreciação crítica das abordagens. No entanto, a imagem representativa
de sua obra é a compilação. Várias são as críticas feitas a esse estilo de “compilador” e, com
relação a elas, Chiavenato, ao participar de um chat sobre educação a distância e os novos
caminhos da educação, responde: “porque reinventar a roda, se ela já foi descoberta?”
(CHIAVENATO, 2001). Obviamente não se espera inovação em fatos históricos. Entretanto,
acreditamos que ao tentar abarcar de tudo um pouco, tendo um imenso volume de
informações nem sempre concatenadas, a obra se torna um mosaico com uma série de pontos
nebulosos de entendimento. Mas, o que nos parece a crítica mais importante, é o fato de que
as obras de Chiavenato encerram-se na abordagem contingencial. Recordamos ao leitor que

8
tal abordagem foi desenvolvida na década de 1960. Em sendo assim, a obra mais utilizada de
TGA não aborda os mais novos desenvolvimentos em teorias administrativas.
Outra das obras mais utilizadas nos cursos de graduação é “Teoria geral da
administração” de Antônio Cesar Amaru Maximiano, lançada em 1996. Maximiano é
professor da cadeira Teoria das Organizações da USP (interessante notar que, em uma das
mais renomadas escolas de administração do país, a disciplina TGA voltou à denominação
original utilizada por Wahrlich). Maximiano argumenta que a prática e a teoria
administrativas modificaram-se radicalmente nos últimos 20 anos e que muitas das novas
idéias na administração não foram incorporadas ao ensino. Em sendo assim, tenta mostrar tais
inovações administrativas em sua obra. Traz, para tanto, a proposta de um novo
reagrupamento de abordagens e autores, mantendo o formato de linha do tempo dos demais
autores que trabalham com o tema. Maximiano apresenta junto às abordagens, temas
importantes em administração. Desta forma, a obra está estruturada em cinco diferentes
partes, quais sejam: fundamentos da administração, em que trata de conceitos administrativos
básicos; da escola clássica ao sistema toyotista, em que trata de Taylor, Ford e do modelo
japonês de administração; a escola humanista, em que trata de Mayo, e de processos
administrativos tais como cultura, liderança e motivação; as empresas e o ambiente, em que
trata do enfoque sistêmico, de estratégia e de ética e responsabilidade social; e de novos
paradigmas, em que trata dos seguintes temas atuais em administração: reengenharia,
administração participativa, benchmarking. Na segunda edição edição da obra, o autor traz
pequenas modificações, em especial na primeira parte ao incluir um tópico sobre teoria das
organizações (tratando de Weber, dos autores estruturalistas, de imagens das organizações e
de aprendizagem organizacional) e na última parte (tratando de realidade virtual, qualidade de
vida no trabalho e inteligência emocional). No que se refere a conteúdo, parece-nos ter sido
Maximiano influenciado pelos manuais americanos de administração geral, nos quais se
desenvolve, de maneira concomitante, os temas de administração e a evolução histórica das
abordagens.
Existem uma série de outras obras, publicadas ao longo dos últimos 30 anos com a
denominação TGA. Destacamos as seguintes: Teoria Geral da Administração: uma síntese, de
Eunice Kwasnicka. A autora usa o formato de linha do tempo e divide sua obra em três
grandes partes. Na primeira descreve o que denomina de escolas clássicas, quais sejam:
burocracia, abordagem científica (com ênfase em Taylor e seus colaboradores) e abordagem
da organização administrativa (com ênfase em Fayol e Mary Parker Follet). Na segunda parte,
denominada de escola neoclássica, descreve a escola de relações humanas (incluindo Mayo,
Barnard, Mary Parker Follet, Simon e Kurt Lewin), a abordagem comportamental (em que
trata de poder, motivação, liderança, entre outros) e a abordagem estruturalista (citando
Etzioni, Blau e Scott, Selznick e Thompson). A terceira parte trata da, segundo a autora,
moderna escola de administração, em que descreve a pesquisa operacional, a abordagem
sistêmica, a abordagem contingencial, modelos para entendimento da empresa (incluindo
APO e estratégia) e o aprendizado do futuro. Em que pese ser diferente a divisão, o conteúdo
é o mesmo das obras mais conhecidas, com um porém: ao tentar fazer um livro mais enxuto,
com uma linguagem mais simples (conforme a autora), a obra se torna um resumo quase
superficial das abordagens.
Outra obra a se destacar é o livro Teoria Geral da Administração: pensando e fazendo,
de Geraldo Caravantes, lançada em 1998. Sua obra é dividida em três partes. Na primeira o
autor trata de ciência, teoria e organização. A segunda parte traz as abordagens pré-
sistêmicas, a teoria geral dos sistemas e as abordagens pós-sistêmicas. A terceira parte traz
uma tentativa de reunir todas as informações das abordagens descritas, construindo o que o
autor denomina de um modelo operacional integrado. Esta é uma obra interessante sob dois
aspectos. O primeiro diz respeito à divisão feita pelo autor, considerando a teoria geral dos

9
sistemas um “divisor de águas” por trazer uma nova perspectiva de entendimento das
organizações. O segundo aspecto diz respeito ao fato do autor acrescentar pequenos trechos
da obra de autores relevantes de teorias administrativas. Este aspecto é inovador frente as
demais obras de TGA e importante, na medida em que aproxima o estudante das obras
originais.
A mais recente obra publicada sobre o tema data de 2001. Denominado ‘Teorias da
Administração’, o livro de Reinaldo Oliveira, de acordo com o autor, pretende “apresentar
uma abordagem adequada para os cursos de graduação [...] numa seqüência de escolas ou
teorias que obedece aos fatos e estudos, pela cronologia.” (OLIVEIRA, 2001, p. v) O livro
divide-se em seis partes, tratando dos conceitos básicos de administração, passando por todas
as abordagens (incluindo o que o autor denomina de perspectiva quantitativa, abordando
pesquisa operacional, administração de operações e sistemas de informação), concluindo a
obra com aspectos contemporâneos da administração em que trata de qualidade, projetos e
processos organizacionais.
Sublinhamos o fato de que, apesar das obras mais recentes tratarem de temas
contemporâneos da administração (embora nenhuma das obras esgote o assunto na medida em
que todas selecionam alguns temas em detrimento de outros), a obra mais usada pelas
faculdades de administração – Teoria Geral da Administração, de Chiavenato – conclui sua
análise das teorias administrativas com a abordagem contingencial (gerada na década de
1960), ou seja, nossos estudantes, de um modo geral, não tem acesso às “coisas novas”.
Deste modo, se admitirmos que “o estudo científico do fato e do sistema
administrativo [...] se encontra em permanente mudança, seja por força do dinamismo
ininterrupto de seus componentes internos, seja por força de suas relações externas com toda
sorte de fatores ou sistemas” (GUERREIRO RAMOS, 1983, p.4), verificamos que a
disciplina que deveria dar a base de entendimento da administração para nossos estudantes,
sob tal perspectiva, é falha.
Além disto, vale destacar outra incongruência da disciplina devida a utilização da obra
de Chiavenato. Ao analisar o estudo de teorias da administração, GUERREIRO RAMOS
(1983, p.2) preconiza que “mais fecundo e factível parece-nos ser a orientação de proceder ao
estudo da matéria, a partir de diretriz ou posição metódica, consciente, explícita, declarada,
mesmo que esse procedimento não seja exaustivo” declarando a impossibilidade de se ter
exaustibilidade no domínio da administração. Parece-nos que esta prescrição deveria ser
levada em consideração pelos autores de TGA, em especial por Chiavenato. A obra de
Chiavenato é ambígua nos seus objetivos. Ao mesmo tempo em que se diz uma análise geral
das teorias administrativas há uma tendência de tratar as abordagens sob o ponto de vista
comportamental. O próprio autor pondera no prefácio de suas obras que TGA “é uma
disciplina eminentemente orientadora do comportamento do administrador [o qual]
influenciará o comportamento15 de todos aqueles que trabalham sob sua direção e
orientação”(CHIAVENATO, 1999)[sem grifos no original]. Mais do que comportamento, a
disciplina deveria tratar de organizações e seus processos, e de como o entendimento destas
organizações e o entendimento dos processos administrativos mudou conforme foi mudando o
contexto no qual as organizações existiam, no qual processos administrativos foram
utilizados.
Na verdade, mesmo reconhecendo a complexidade de se trabalhar administração,
CHIAVENATO (1993) acaba justificando de modo simplório a denominação de geral, ao
declarar que esta denominação significa o “estudo da administração em geral, não se
preocupando onde ela seja aplicada, se nas empresas ou se nas organizações não-lucrativas”
(p. 2) – como se empresas não fossem organizações. Tal explicação, pouco sólida, conjugada
a uma orientação comportamentalista não declarada faz da obra mais conhecida e utilizada em
TGA um modelo que ajudou a levar a disciplina à série de inconsistências que apresenta

10
atualmente. Naturalmente cabe um mea culpa de todos que criticamos a obra mas
continuamos a utilizá-la como referência principal de nossas ementas e de nossa prática
docente.

3) Considerações finais
Nos últimos anos o curso de administração passou por um crescimento na oferta de
vagas e também na demanda dos candidados. Em 1997, 461 cursos em suas diversas
habilitações existiam no Brasil. Em 1999 este número é de 776. Somente no ano 2000 mais
301 cursos e habilitações são autorizadas pelo MEC. As vagas, que em 1997 chegam a 83 mil,
em 1999 são 123 mil. Muitos criticam o excesso de vagas, mas, segundo dados oficiais, para
cada novo calouro de administração em 1999 pelo menos 1,6 candidatos não o puderam
cursar devido ausência de vagas16 que o fazem ser o segundo curso mais procurado no Brasil,
incluindo IES públicas e particulares, pelo total de alunos e não por relação candidato/vaga.
Esta recente dinâmica do curso aumenta a responsabilidade de docentes e coordenadores com
os futuros administradores e sua inserção de acordo com as necessidades do mercado de
trabalho.
Questionamo-nos se é a disciplina de TGA interessante num currículo de
Administração, face às prováveis mudanças ocasionadas pela novas diretrizes curriculares e
ao contexto. Numa breve pesquisa, sem cunho científico, realizada com alunos de 3° e 4° ano
de duas faculdades de Curitiba (SPEI e Hoyler) pudemos constatar que, de acordo com estes
futuros administradores, a disciplina é importante. De um total de 290 respondentes, 91 vêem
a disciplina como extremamente importante, 105 a consideram bastante importante e 69 a
consideram importante, sendo que somente um aluno respondeu não ter a disciplina
importância nenhuma. Do total de respondentes, 90 alunos dizem já ter aplicado em várias
ocasiões os ensinamentos aprendidos em TGA e 159 em algumas ocasiões. Parece-nos que,
embora nossa pesquisa não tenha suficiente consistência para generalizações, devemos
reconsiderar a imagem de TGA como uma disciplina meramente introdutória e de pouca
aplicabilidade prática.
A disciplina de TGA, neste aspecto, em que pese sua importância, não atende a seus
objetivos e tão pouco contribui para a formação do administrador brasileiro. Pode se perceber
que, na grande maioria dos cursos, os professores detêm-se em autores como Taylor e para ele
dedicam cerca de 40% da carga horária da disciplina. Em alguns casos as “obras clássicas”
são adotadas em sua totalidade, sem complementações ou questionamento de pontos falhos.
Além do conteúdo inadequado ao contexto atual, a metodologia de ensino acaba, segundo
FREITAS (2001), centrando-se em aulas expositivas e estudo de casos. Desta forma,
ponderamos da necessidade de uma análise de outras possibilidades de trabalhar com os
conteúdos desta disciplina. Verificamos, através de nossa experiência docente (e de nossos
colegas) que algumas formas alternativas de ministrar a disciplina podem ser tentadas,
principalmente quando a flexibilidade passará a ser imperativa, segundo as novas diretrizes do
curso.
Entre as possibilidades praticadas atualmente, temos a adoção exclusiva de livros-texto
como os analisados neste artigo. Normalmente em turmas maiores que 40 alunos (que é a
grande realidade dos cursos no país) esse sistema é de difícil execução didática, uma vez que
nem sempre os alunos ingressantes estão preparados este tipo de atitude, devido a vícios do
ensino médio, como a utilização de apostilas.
Uma segunda possibilidade é a adoção exclusiva do formato dos manuais americanos,
encontrados no Brasil em obras como STONER (1997) “MONTANA E CARNOV (1998),
ROBBINS e COULTER (1998), BATEMAN & SNELL(1998) [que] demonstram que o
conhecimento da administração está mais próximo do paradigma sistêmico, envolvendo desde
a revisão histórica das escolas clássicas da administração, passando pelas ferramentas de

11
tomada de decisão, administração da qualidade, desenvolvimento de habilidades-motivação-
liderança, administração internacional e administração social (ética e responsabilidade
social).” (FREITAS & MAXIMIANO, 2001, p.8). O problema destes manuais reside
principalmente pelo pouco espaço destinado para a apresentação das abordagens, geralmente
um resumo de 10 a 15 páginas do total do livro e pela “contaminação” do contexto norte-
americano. Explicamos: no livro de STONER(1997) o autor em inúmeras vezes mostra sua
admiração pelos métodos japoneses de administração e a perplexidade dos norte-americanos
com tal fato. Já BATEMAN & SNELL(1998), por sua vez, apresentam o fenômeno da
globalização sob o ponto de vista norte-americano que com certeza é diferente do brasileiro.
Isso sem falar dos problemas de tradução, como acontecem na obra de MONTANA &
CARNOV (1998).
Partindo do pressuposto que as diretrizes sugeridas para o curso de administração
serão realmente aprovadas, trazemos uma proposta de análise e conseqüente alteração da
disciplina de TGA. De acordo com estas diretrizes, a disciplina passará a fazer parte do campo
de estudo denominado “Estudos Administrativos Gerenciais, Organizacionais, Estratégicos e
suas Metodologias”. Assim, sugerimos a distribuição do conteúdo em alguns tópicos que
podem ser agrupados em uma única disciplina ou disciplinas interrelacionadas, com carga-
horária a ser definida de acordo com a linha de formação de cada curso.
Em um primeiro tópico ou disciplina seriam abordados os conceitos fundamentais da
disciplina destacando processos, decisão, planejamento e outros. O objetivo seria apresentar o
“jargão” da profissão aos estudantes. Posteriormente seriam abordados em outro tópico o
contexto sócio-econômico brasileiro e mundial do século XX, objetivando situar o discente no
tempo-espaço. Como dissemos anteriormente, citando TRAGTENBERG (1971, p.21), “as
teorias administrativas são dinâmicas, elas mudam com a transição das formações socio-
econômicas”. Assim, antes de apresentá-las necessitamos discutir o contexto em que foram
surgidas, semelhante ao que fez MENDES (2000) relacionando Elton Maio com sua época.
Após, sugerimos abordar as “Teorias das Organizações” resgatando a nomeclatura
original da disciplina. Os autores principais seriam estudados em suas obras originais e os
conceitos por eles apresentados seriam comparados e discutidos conforme o contexto em que
foram escritos. Assim um aluno teria a visão, por exemplo, das mudanças na obra de Drucker,
que inicia seus escritos reforçando conceitos tayloristas e atualmente escreve sobre a nova
economia. Assim contemplaríamos estudos mais recentes de autores clássicos ou até mesmo
os modismos a que a administração está sujeita.
Por fim, seria de extrema importância um tópico para o estudo da Teoria
Organizacional Brasileira. Neste espaço autores brasileiros e também de amplitude regional
deveriam ser estudados para que os conceitos da administração pudessem ser passíveis de
reflexões de acordo com o contexto brasileiro. Por meio de estudos de casos de empresas
brasilieras poder-se-ia atingir o objetivo proposto.
A oportunidade para a modificação dos cursos de administração surgirá com as
diretrizes a serem aprovadas. Atualizar metodologias e objetivos de cada disciplina visando
melhorar a formação do administrador brasileiro é necessário e, citando novamente ABREU
(1969): “Esse é o desafio que a atual geração de professores de administração não pode
ignorar”.

Referências Bibliográficas
ABREU, A. B. Evolução da teoria administrativa e o administrador do futuro. Revista de
Administração Pública, Rio de Janeiro, v.3, n.2, jul./dez. 1969, p.33-71.
BAER, W. A Economia brasileira. São Paulo: Nobel, 1996.
BATEMAN, T.S., SNELL, S. A.. Administração. São Paulo: Atlas, 1998.

12
BERNDT, A. Qual é o sentido do currículo mínimo ? IN: Encontro Anual da ANPAD, 20,
1996, Angra dos Reis. Anais... Angra dos Reis: ANPAD, 1996, p. 57-65.
BRESSER PEREIRA. L. C. Da administração pública burocrática à gerencial. Revista do
Serviço Público, v. 47, n. 1, jan. 1996.
BRESSER PEREIRA. L. C. Do estado patrimonial ao gerencial. Disponível em:
<http://www.bresserpereira.ecn.br/papers/eb73patrim.pdf> Acesso em: 10 abr. 2001.
BRUM, A. . Desenvolvimento econômico brasileiro. 19. ed. Petrópolis: Vozes, 1998.
CARAVANTES, G. R. Teoria geral da administração: pensando e fazendo. Porto Alegre:
Age, 1998.
CEEAD – Comissão de Especialistas de Ensino da Administração. Diretrizes Curriculares
dos cursos de graduação em administração. Disponível em: <http://
www.mec.gov.br/Sesu/ftp/curdiretriz/administ/ad_diretriz.rtf> Acesso em: 27 de abril.
CHIAVENATO, I. Chat com Idalberto Chiavenato (04/05/2000). Disponível em
<http://www.zaz.com.br/chat/idalberto.htm> Acesso em 28 abr. 2001.
CHIAVENATO, I. Introdução à teoria geral da administração: edição compacta. São
Paulo: Makron Books, 1999.
CHIAVENATO, I. Introdução à teoria geral da administração. 4. ed. São Paulo: Makron
Books, 1993.
COMINI, G. M.; LIMA, M. C. Revisão Curricular dos Cursos de Administração: Balanço e
Desafios. IN: Encontro Anual da ANPAD, 20, 1996, Angra dos Reis. Anais... Angra dos
Reis: ANPAD, 1996, p.135-149.
FREITAS, A. G.; MAXIMIANO, A. C. A. Alternativas metodológicas para o ensino-
aprendizagem no ensino da administração. Disponível em:
http://in3.dem.ist.utl.pt/downloads/cur2000/papers/S16P07. Acesso em: 10 abr. 2001.
GUERREIRO RAMOS, A. Administração e contexto brasileiro. Rio de Janeiro: Editora da
Fundação Getúlio Vargas, 1983.
KWASNICKA, E. L. Teoria geral da administração: uma síntese. 2. ed. São Paulo: Atlas,
1989.
LACERDA, A. C. et alli. Economia brasileira. São Paulo: Saraiva, 2000.
MATTOS; P. L.; CARVALHO, E. O currículo do curso de graduação em administração da
UFPE: reparando seqüelas da reforma universitária. IN: Encontro Anual da ANPAD, 16,
1993, Canela. Anais... Salvador: ANPAD, 1993, p. 90-104.
MAXIMIANO, A. C. A. Teoria geral da administração. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2000.
MAXIMIANO, A. C. A. Teoria geral da administração. São Paulo: Atlas, 1997.
MENDES, D. Escola de relações humanas ou “como fazer amigos e influenciar pessoas”.
Revista Científica das Faculdades SPEI, v. 1, n.1, ago./dez. 2000, p. 1-19.
MONTANA, P.J., CHARNOV, B.H.. Administração. São Paulo: Saraiva, 1998.
MOTTA, F. C. P. Teoria geral da administração. 21. ed. São Paulo: Pioneira, 1997.
MOTTA, F. C. P. Teoria das organizações. São Paulo: Pioneira, 1986.
MOTTA, F. C. P. A questão da formação do administrador. Revista de Administração de
Empresas, Rio de Janeiro, v. 23, n.4, out./dez 1983.
ROBBINS, S. P., COULTER, M.. Administração. Rio de Janeiro: Prentice-Hall,1998.
SCHWARTZMAN, S. Estado novo: um auto-retrato. Disponível em: <http://
www.10minutos.com.br/simon> Acesso em: 10 abr. 2001
SILVA, B. Taylor e Fayol. 5. ed. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1987.
SILVA, R. O. Teorias da administração. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2001.
STONER. J. Administração. Rio de Janeiro: Prentice-Hall, 1997
TRAGTENBERG, M. A teoria da administração é uma ideologia? Revista de
Administração de Empresas, Rio de Janeiro, v. 11, n. 4, out./dez 1971, p.7-21.

13
WAHRLICH, B. Uma análise das teorias de organização. 5. ed. Rio de Janeiro: Editora da
Fundação Getúlio Vargas, 1986.
WOOD Jr., T. Delinqüência acadêmica. Carta Capital. São Paulo, n. 145, 25 de abril de
2001, p. 64.

1
Ementa da disciplina de Teoria Geral da Administração do Curso de Administração da Universidade da Região
da Campanha - São Borja (RS).
2
Fato este corroborado por uma pesquisa com coordenadores do curso da região de Curitiba e com alunos de
duas Instituições da cidade.
3
Para maiores informações consultar BAER(1996), LACERDA et al. (2000) ou BRUM (1998).
4
Resolução no. 2 de 4 de outubro de 1993 do Conselho Federal de Educação.
5
Um ano após a regulamentação do exercício profissional de técnico em administração.
6
Instituições de Ensino Superior
7
Ou seja, IES contratam consultorias especializadas no processo de implementação de cursos de graduação.
Estas, por sua vez, elaboram a grade curricular para uma Instituição em Garanhuns e oferecem a mesma grade
para outra localizada em Carazinho. Essa “macdonaldização” não é exclusiva dos cursos de administração, como
mostra WOOD Jr. (2001,p. 64).
8
Se consideramos a mudança de objetivo da disciplina: de uma visão técnica para uma visão estratégia da
produção.
9
Se incluirmos no conteúdo desta disciplina o estudo de Logística.
10
No site <<http://www.mec.gov.br/Sesu/ftp/curdiretriz/administ/ad_diretriz.rtf >> pode-se obter a versão
integral da proposta de Diretrizes para o curso de Administração apresentadas em março de 2001.
11
O DASP - Departamento de Serviço Público -, agência de grande poder e assessoramento direto ao Presidente,
foi responsável por trazer ao Brasil os princípios e ideais de uma administração científica e racional, que
escapasse das injunções dos interesses particularistas e político-partidários. Foi o DASP quem introduziu o
sistema de concursos públicos para os cargos federais, diminuindo assim, em certa medida, a grande pressão por
empregos que todos os governantes brasileiros sempre sofreram por parte de seus constituintes. O DASP foi
também o responsável pela idéia, até hoje bastante difundida, de que existe uma incompatibilidade radical entre
a "racionalidade" da administração e a "irracionalidade" da política. A outra idéia também difundida a partir daí
foi a da superioridade da padronização sobre a diversidade no manejo da coisa pública. (SCHWARTZMAN,
2001)
12
Administração de empresas: uma abordagem contingencial, obra publicada em 1982.
13
A propaganda institucional da obra no site do autor (http://www.chiavenato.com.br/)o descreve como “o livro
mais amplo e compreensivo sobre a teoria administrativa. É provavelmente a mais ambiciosa e reconhecida
compilação de abordagens e modelos de administração. Seguramente, este é um dos livros de administração mais
lidos no Brasil e em toda a América Latina. Escrito em dois volumes para ser ministrado em dois anos letivos
pelo menos, representa a referência básica da administração moderna, um valioso e amplo trabalho que oferece
ao leitor uma visão extraordinariamente rica e abrangente de todas as teorias administrativas, desde os seus
primórdios até os dias atuais. Este livro é considerado a Bíblia da Administração.”
14
Uma digressão sobre o que Chiavenato denomina de abordagem neoclássica é necessária. O autor trabalha
nesta abordagem princípios básicos da administração, tais como funções do administrador e estrutura
organizacional, destacando o trabalho de Peter Drucker. Se nos pautarmos em outros autores (ABREU, 1969;
KWASNICKA, 1995) que utilizam a denominação “neoclássica” para uma determinada abordagem
administrativa, verificaremos que estes a empregam para se referir a abordagem de Relações Humanas. O
próprio CHIAVENATO (1999, p.123) admite que os autores por ele apresentados nesta abordagem “não formam
propriamente uma escola bem definida” e que a denominação teoria neoclássica se deve somente a “um melhor
enquadramento didático”. Não há embasamento conceitual nesta escolha do autor e perde-se assim a orientação
da obra de agrupar autores segundo uma mesma abordagem e segundo uma ordem cronológica de
acontecimentos.
15
Talvez tantos comportamentos se devam ao fato do autor ser eminentemente um docente da área de Recursos
Humanos e ter dez obras relacionadas ao tema (o triplo de obras de TGA).
16
Os dados apresentados foram obtidos em diversas fontes como: Sinopse Estatística do Ensino Superior
Graduação anos, 1997, 1998 e 1999; ANGRAD pelo site <www.angrad.com> e MEC pelo site
<www.mec.gov.br>.

14