LOPES, Luís Carlos. A arquivística: ligações e imbricações. In:____. A nova arquivística na modernização administrativa.

Rio de Janeiro: Projecto, 2009. Cap. 2, p.87-130.

Página

87

88

89

90

OS ARQUIVOS E OUTROS CONHECIMENTOS Transcrição “A arquivística é um campo de conhecimento que foi estabelecido durante o século XX com algumas raízes mais antigas. [...] Os arquivos existem desde as primeiras civilizações; trata-se de arquivos artificiais, isto é, aqueles que resultaram da intenção humana de produzir e de acumular registros de suas atividades. Eles são, portanto, intencionais, artificiais e refletem a vida econômica, social, política e cultural do contexto do qual fazem parte. Pode-se afirmar, por analogia, que os arquivos mais antigos da humanidade são os compostos pelos fósseis.” “O estudo dos fósseis, fruto do desenvolvimento da capacidade humana de interpretar dados, é realizado a partir de documentos naturais deixados, sem qualquer intenção, razão ou interesse humano. São arquivos aos quais não se aplicam o princípio do respeito aos fundos e nem a teoria das três idades. Mas ocorre uma situação análoga quando os especialistas buscam identificar os lugares, os períodos e os conjuntos. Eles tendem a dar a esses documentos um valor informativo válido sobre o passado histórico-natural.” “[...] os arqueólogos que estudam as ruínas e que trabalham com objetos de povos e de civilizações desaparecidas. Eles trabalham com acervos artificiais, isto é, produzido pelos homens, sem que tivessem a intenção explícita de conservação, visando à preservação de registros históricos. [...] Os arqueólogos se ocupam de objetos e, de modo geral, os arquivistas se ocupam de documentos textuais e de outros que podem ser ‘lidos’, sem serem exatamente textuais. Ambos são grupos de profissionais que trabalham para apresentar resultados que interessam ao conjunto dos conhecimentos humanos. Isto é, eles revelam informações registradas em suportes específicos, usam metodologias diversas, mas, no final das contas, devem produzir conhecimentos que podem se interpenetrar.” “[...] estudos cognitivistas e de comunicação, administração, lingüística, informática, biblioteconomia, museografia e arquivística. Estas disciplinas são parte integrante, no sentido largo desta concepção, de um conjunto que, apesar de diversas interpretações, chama-se de ciências da informação, porque interligadas por um objeto de estudo comum: a informação.” INFORMAÇÃO: A MÔNADA DO SÉCULO XX Transcrição “[...] as mônadas são os elementos das coisas. A alma humana é uma mônada e Deus é ao mesmo tempo a mônada mínima e máxima, porque tudo vem dele [...] a mônada é uma ‘substância simples’ composta de um aggregatum das coisas simples. Elas não podem ser divididas, entendidas ou representadas por figuras. Elas ‘são os verdadeiros

Página 91

devem ser compreendidos como ‘elementos estáveis mínimos fornecidos pelos nossos sentidos’. as bibliotecas. indescritíveis e incapazes de mudanças. os dados são fragmentos das informações.. Ou se informar ou saber. informações e conhecimentos interligados entre si. que é o sujeito que formula a significação. filósofo atual da cultura francesa. [. indivisíveis. o senso comum e todas as concepções mágicas e religiosas do mundo.] o conhecimento não é como as mônadas de Leibniz.” “[... [.. nem qualquer outra media. os cérebros dos pesquisadores e dos artistas ainda são os lugares de armazenamento da cultura intelectual. que determina o sentido de acordo com o campo de estudos da informação produzida.. da explosão das mídias e das multimídias. as mônadas do século XX. eis a verdadeira escolha’.. 1995 p. não são mais do que partes. as mônadas constituem uma representação ideal do mundo da época em que o filosofo viveu.] Apesar das previsões espantosas dos apóstolos atuais. de nosso ponto de vista. por sua vez..] A informação pode ser dividida em dados que.. ‘a prece da manhã do filósofo consiste de hoje em diante a nunca mais abrir o jornal. incluindo-se os saberes científicos e artísticos. no sentido filosófico. de átomos ou células. os arquivos. [. Acredita-se que a idéia de considerar as informações como células do conhecimento é fraca e sem qualquer evidência cientifica.] trata-se apenas de conhecimentos fracos. (SERRES.. concorrem para ajudar na formação de pessoas na direção do mimetismo e da incapacidade de interpretação.] um sistema operacional baseado na mensagem selecionada no curso de sua exploração..68) Trata-se da mais séria objeção que nós conhecemos contra o oceano de informações difundidas no mundo atual..] as informações baseiam-se em dois elementos básicos: o emissor.. portanto. tecidos ou compostos de mônadas. [. tornam-se fragmentos do conhecimento.” “[. As informações fazem parte de vários tipos de conhecimentos isolados ou misturados aos fragmentos de saberes distintos. em uma palavra..” “As informações. Não se trata. Segundo ele.” A INFORMAÇÃO: TEORIA DE BASE E SUAS CONSEQÜÊNCIAS Transcrição “[. os museus.” “[.. ouvir o rádio.. orienta a sua obra na direção da luta contra a informação. [.] Portanto.] os dados. tais como são transmitidas hoje. irregular e aplicável aos diferentes níveis do pensamento humano. A diferença entre dado e informação poderá ser determinada pelo tipo de dados..... Note-se que isto se refere ao conhecimento em sentido amplo..92 93 94 95 96 98 Átomos da Natureza e. os Elementos das coisas’” “[.] Este sistema de transmissão começa por uma fonte de informação que produz uma mensagem ou uma seqüência Página 101 . e o receptor.] Portanto. [. O fracionamento do todo em mônadas funciona sob o mesmo modelo que o fracionamento atual do conhecimento em informações. preliminares e freqüentemente equivocados.] Os conhecimentos não são substâncias. porque o conhecimento é vasto. as quais são fragmentos do conhecimento.” “Michel Serres.. As informações.. divisões e fragmentos desiguais de certos tipos de conhecimento.

eventualmente. o conteúdo. no caso dos países mais ricos nos quais exista uma .. segundo elemento deste sistema.. deve ser o responsável pela emissão do sinal por meio de um canal pré-estabelecido.. ficaram fieis aos princípios formalistas da teoria da informação e sempre acreditaram na possibilidade da matematização da linguagem.. sem. isto é.. isto é. quarto elemento. é um problema estratégico.” “A teoria de Shannon é um pouco mais do que se explicou acima. [. acumular e. Considera-se.. todavia. [. sob o modo binário. a quantidade de informações que existem em um texto. O sistema distinto. [. da significação.. notadamente.] nas ciências da informação contemporâneas. todavia.” A INFORMAÇÃO: A VISÃO DAS CIÊNCIAS DA INFORMAÇÃO Página Transcrição 112 “Acredito que o conceito de sociedade da informação é aplicável. tais como. em alguns casos.. O matemático dividiu em três categorias o seu sistema de comunicação. [.. por meio da digitalização.. o ato de valorizar a observação e a análise dos conteúdos e. finalmente o sistema misto. porque será fundado nas bases das ciências humanas e da filosofia.. Eles.. ele deverá reconstruir a mensagem a partir do sinal. por exemplo. que se caracteriza por um sinal sonoro e uma mensagem estabelecida em uma seqüência de símbolos codificados. é o que fará a operação inversa do transmissor.] Este possível resultado diferirá da teoria matemática da informação. em principio. os usados pelo telegrafo.] O terceiro elemento do sistema é o canal. que implica um sinal e uma mensagem transmitida de modo continuado.” “A aplicação desta fórmula e de suas variantes pode servir para medir. em primeira instância... Esta ‘coisa’ mencionada por Shannon pode ser lida hoje como sendo as máquinas digitais que podem receber.] A tendência futura é o sistema digital ser o principal e.] O transmissor.] O autor expôs a sua argumentação por meio de uma série de fórmulas e deduções matemáticas. renegar integralmente os princípios de Shannon.102 104 108 109 de mensagem a serem transmitidas no terminal recepção. a pessoa ou a ‘coisa’ para a qual a mensagem é destinada. o único a ser utilizado no funcionamento das organizações. as informações registradas em suportes informáticos. [. que funciona como meio físico para transmitir o sinal.] O receptor. as quais são criadas de modo convencional ou emanam de recursos informáticos. que combina as características das duas categorias precedentes. em uma imagem ou som. a significação. como os do rádio e da televisão.] Os arquivistas e os outros profissionais das disciplinas conexas tem certamente observado que este método de medir a informação aplica-se. porque se toma por ponto de partida uma visão do tratamento cientifico das informações. propondo soluções para inúmeros problemas. por conseguinte. o sistema continuo.. matemáticos como Neumman e Wiener atravessaram os limites da disciplina que criaram.” “[. [. [.” “Precursor da era da informação. Eles devem também tomar consciência da possibilidade de transferir quase todas as informações existentes para este tipo de suporte. O quinto e ultimo elemento é a destinação. responder as mensagens..

lembrando que a informação tornase memória no cérebro humano. descobrir que a informação arquivística é raramente citada e.. nos seus córtex.” INFORMAÇÃO REGISTRADA OU MEMÓRIA? Transcrição “[.” IDEAÇÃO Página 121 129 . as três disciplinas apresentam dificuldades no âmbito ‘da identidade de seus objetos de estudo ou de seus campos de pesquisa’ (GIRA. que são também os significados das mensagens codificadas e registradas em suportes variados. trata-se de um saber em processo de gestação. isto é. no qual a arquivística e a biblioteconomia têm papéis a representar. como todos os que trabalham com a informação. tal como nos arquivos ou nos conjuntos de outros tipos de informações.] acredita-se que para os arquivistas é mais indicado terem em conta o sentido filosófico. assim como sólidas ‘infraestruturas de telecomunicação e de conhecimento’..” “[.. e é comum a quase todas atividades humanas contemporâneas. suas representações do mundo...] ‘em uma época onde o progresso tecnológico nos projetou na era da informação. As de atribuição e natureza museográficas detêm um lugar mais ou menos definido. quiçá. segundo ele. Esta atitude diminui a cientificidade das ciências da informação e freia o desenvolvimento da arquivística.. uma visão arquivística sobre a problemática da informação. parecem os mais indicados no contexto atual no que se refere aos resultados da análise sobre o sentido das informações armazenadas no cérebro. P. de reter... porque no campo das informações registradas ela é a mais fundamental.210). revela uma tendência persistente a emergir somente dentro de sua problemática especifica. assim como o estudo dos problemas relativos à psicologia e à fisiologia nervosa do ser humano.” “Entre os numerosos tipos de informação. a arquivística tem um papel particular. ao consultar livros e artigos sobre ciências da informação.115 116 118 ‘infraestrutura de informação’ já estabelecida. biológico e psicológico do termo memória. e não em qualquer outro lugar. talvez seja possível compreender melhor o nascimento da informação e as suas ligações com os conhecimentos preestabelecidos. deve atravessar a parede do formato –o documento. Ele questionou a existência de uma verdadeira ciência da informação que. As informações biblioteconômicas e comunicacionais possuem territórios bem demarcados. a informação’. [. É absolutamente aberrante perceber. mesmo quando citada.para ir na direção do conteúdo..] a problemática ligada às ciências da informação e especificamente aquela ligada à biblioteconomia é parecida aos problemas da arquivística (GIRA.1990). havendo a possibilidade da integração destes elementos. compreendida. a capacidade humana.” “[. o arquivista. ainda mais. A partir destas novas visões.” “[. Na sua opinião.] O aprofundamento do conceito de memória.. e de outras espécies. 1990.] Os arquivistas devem revisar a tendência formalista das teorias da informação e dar maior importância aos conteúdos. Mas a arquivística. Concordo inteiramente e acredita-se que é imperativo desenvolver.

que teve uma grande contribuição para área das ciências da computação e de forma curiosa para as ciências sociais também. Busca da mesma forma compreender o desenvolvimento da arquivística. entender quais problemas impedem o crescimento desta disciplina. Trabalha com a questão da memória.Este capítulo faz um paralelo entre a arquivística e outras ciências. contextualizando a verdadeira sociedade da informação. mas que na arquivística a‘memória’ são as representações que os profissionais têm do mundo. Busca responder questões relativas à informação. Aborda também a origem da teoria da comunicação desenvolvida por um matemático Shannon. conhecida como sociedade da informação. . Lembrando que a arquivística é nova. O autor compara o papel da informação na sociedade do século XXI. como na informática com a memória dos computadores para algumas pessoas. da época das primeiras civilizações. analisando que este termo pode ser aplicado em várias situações. ainda reflete sobre vários pontos negativos da sociedade atual. a expressão mônada da época da renascença. ou melhor. no decorrer da história é datada no recente século XX. comparando-a a outras como a biblioteconomia e museologia. mas que os arquivos existem já há milênios. como a arqueologia e as demais disciplinas que formam o leque das ciências da informação.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful