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Ascânio Lopes:Um poema.

Ascânio Lopes representa uma marca indelével na poesia nacional.Sua breve


passagem pela terra atesta o fato cabal de que ele era um poeta muito além de seu tempo.
Ler a poesia de Ascânio é uma experiência singular.Penso agora nesta idéia de
pathos ,de vivência única anterior a qualquer forma de racionalização,quando do lancinante
mergulho em Sanatório.
É preciso estar febril para penetrar neste mundo misterioso e fascinante de
Ascânio.Ele era tuberculoso,tísico,de frágil estrutura como atesta um retrato seu de há
muito.
Pesquisei um pouco acerca desta doença, a tuberculose,em sites de buscas e em
livros de medicina.Conversei com profissionais da área e voltei aquele tempo no qual a
referida ainda era mortal e incurável.

Se tivesse tempo,iria à sua cidade natal para sentir o ar que ele


respirava.Mesmo sabendo que não é o mesmo,eu estaria ali como uma testemunha daquele
lugar no qual o poeta criou a sua obra.Andaria pelas ruas,sentiria algo semelhante ao que
ele deve ter sentido.
Concordo como o filósofo Bérgson no sentido de que a história é também
impossibilidade vivencial.Esta diferença fundamental não deve redundar em qualquer
espécie de niilismo.Ela se apresenta como a abertura visceral da imaginação criadora.Todo
o intérprete é um recriador em potencial.Sua sensibilidade está enredada na obra
constituída.Seu movimento é mais lento,pois ele não é o autor.Tem que levar em
consideração os grilhões culturais nos quais está literalmente enredado.O som esganiçado
desta voz ecoa no escuro infinito da obra em si.O sentido mais profundo da palavra
comunicação residiria fatalmente neste abismo que separa e une as intertextualidades.A
diferença como potência geradora de literaridadeA literalidade entendida aqui como a
possibilidade de um mergulho na essência mesma da obra em questão.
É precisamente Martin Heidegger
Há multidões conflitantes em mim quando da execução deste referido ensaio.
O professor de língua inglesa se vê na obrigação de utilizar de forma
quase cartesiana a clareza explanatória considerando-se a natureza peculiar deste
trabalho.O professor está agora aprisionado pela necessidade de ser entendido.Neste
sentido, o exercício da sala de aula encontra sua extensão neste ensaio.
Ensinar uma língua estrangeira é mergulhar numa singularidade sem
igual.A diferença é a marca registrada deste processo.Tanto o professor quanto o aluno
acham-se tomados por uma sensação de estranhamento.A aquisição de uma língua
estrangeira é,precisamente, a instauração na psique do indivíduo,de um simulacro onde a
pulsão da linguagem se faz presente em carne viva.
Vejo-me na obrigação devido á delicada natureza deste processo a me
fazer claro,e,mais do que isto,vejo-me na obrigação de aliviar a minha ansiedade e a
ansiedade do aluno para que a transmissão de conhecimento possa efetivamente
acontecer.Há vários estudos que apontam para questões relacionadas á ansiedade em sala de
aula.Talvez seja este um dos ambientes mais sutilmente tensos do mundo em termos de
aprendizado.
O professor se aproxima do ensaísta no sentido mais bem
intencionado em relação a esta releitura de Ascânio.O poeta se opõe diametralmente a estas
posturas racionalizantes.O professor e o ensaísta procuram controlar a própria ansiedade
para que este correr de linhas torne-se cada vez mais inteligível.Traçam ambos
configurações possíveis num delicado trabalho de reflexão sentida.
O poeta, tomado de pronto por um chamamento qualquer,derrama
palavras compulsivamente,nos comunica algo diretamente aos sentidos.

..
Não sou e nunca foi um fã ardoroso das teorias.Sou um homem da
palavra e entendo que a poesia, em que pese também uma certa aversão de minha parte por
definições de todo tipo,é a arte da palavra
O professor, o ensaísta e o poeta estão aqui a falar sobre e não de
dentro do objeto em questão.Este esforço racional encontra sua validade se o situarmos na
esfera de uma interpretação criativa.
Os estudos de estética de recepção indubitavelmente representam
um considerável avanço para a contextualização da legitimidade e repercussão das
mesmas.Apontam para uma contextualização da obra e,definitivamente,contribuem para a
compreensão do porquê da aceitação e repercussão desta ou daquela obra em questão.
O problema reside no fato de que corre-se o risco de abandonar
nesta referida análise o que é propriamente literário em detrimento de estruturas modelares
aprioristicamente estabelecidas,a despeito de toda flexibilidade possível.O que é
especificamente,o objeto próprio em questão,o literário parece ficar muitas vezes em
segundo plano.

Era costume na época o apartar o tuberculoso do convívio


social.Roupas,talheres cuidadosamente afastados para que a contaminação não se
disseminasse.Este aspecto social da doença parece fundamental para que penetremos neste
poema.A solidão aqui eleita como a mola-mestra, como o melancólico setting no qual a
partir do qual o poema deverá ser digerido
A visão reinante no que concerne á crítica literária aponta para um
distanciamento entre autor e obra.Não se deve confundir quem escreve com aquilo que se
escreve.
Tal postura abre espaço para dúvida quando se lêem determinados poetas como
Ascânio e Byron,A maior dificuldade está neste algo que se sucede em nossas almas e que
nos diz que sabemos que a mentira é verdadeiramente algo que não pode ser.
Teoricamente me aproximo desta maneira de encarar o assim chamado
fenômeno literário.Arte,criação e real não são e nem poderiam ser a mesma coisa.Se assim
fosse não haveria necessidade para a existência da mesma.
É interessante observar que há muitos séculos atrás,os artistas não se
diferenciavam dos artesãos.Este exercício de simplicidade se perdeu no correr dos séculos
gerando equívocos tremendos.Ainda nos dias de hoje tendemos a crer numa espécie de
qualidade especial que deve ser outorgada a quem cria.O prestígio conferido a todo criador
difere daquele preceito grego que situava o artista na esfera do humano.

Deparei-me com tal poema muito por acaso quando estava a folhear uma
antologia de poetas brasileiros.O vagar silencioso por aqueles versos e inebriado estava
pela justeza e concisão de duas estrofes que me remetiam á estranheza tão familiar na
percepção do belo.Poeta admirado por ninguém menos do que Carlos Drummond de
Andrade,na minha opinião,tão perfeito quanto o mesmo.
O estudioso agora desacelera o passo e mergulha na obra durante anos
procurando traçar possíveis configurações.Nenhum destes dois discursos comporta a força
e a visceralidade da poesia.Não há , na manisfestação poética, a intermediação
racionalizante do sujeiro que percebe o objeto..A aparência na aparência é aqui ritualizada
no plano trágico.Uma mentira grandiosamente verdadeira.,a própria coisa que nos arrebata
de forma singular e tão somente.O ver aqui é nebuloso, há como que uma profusão de
formas e contornos literalmente imprecisos.As conexões nervosas confluídas no olho
chacoalhado em todo e qualquer topos.Um falar de dentro da coisa como o fêz Heidegger
em filosofia.
O interpretar ,quer queiramos ou não, pressupõe algo oculto.Vejo muitas leituras
interessantes que buscam traçar no texto aquilo que emerge ficcionalmente como tal e vai
de encontro a essência mesma da produção artística que é sempre ficcional.Ao invés do
oculto que pressuporia algo a ser revelado,o emergir de uma nova ficção.Todavia,mesmo
esta tentativa de resgate em nível de inscrição primitiva não nos afeta tão radicalmente
quanto á leitura envolvente de um poema.As palavras estão ressentidas,elas já foram
sempre suficientemente feridas antes de encontrar a sua vacuidade.nos textos que remetem
a um saber..
Ser chacoalhado ao invés de perceber,eis então uma diferença fundamental entre os
gêneros.Roçamos este nada através da fala poética,este nada, esta morte talvez....

2-O que legitima a obra de arte enquanto tal?


O séculos e mais séculos de produção artística apontam para um número infinito de grandes
obras.Estudos de estética da recepção apontam para círculos em basicamente três níveis.O
da produção o da comunicação