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PREFEITURA MUNICIPAL DE SOROCABA

Secretaria dos Negócios Jurídicos


Divisão do Contencioso Geral

Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito da ...... Vara Cível da Comarca de Sorocaba/SP.
P.A. nº 6.670/93

PREFEITURA MUNICIPAL DE SOROCABA,


pessoa jurídica de direito público interno, com sede nesta cidade à Av. Eng. Carlos
Reinaldo Mendes s/nº, Palácio dos Tropeiros, inscrita no CGC/MF sob nº
46.634.044/0001-74, por seu representante legal o Sr. Prefeito Municipal e por seu
procurador infra-assinado (doc. anexo), vem respeitosamente à presença de V. Exa.,
propor a presente

AÇÃO DE REINTEGRAÇÃO DE POSSE


COM PEDIDO DE LIMINAR

em face de JOSÉ PINHEIRO MACHADO, brasileiro, casado, marceneiro,


portador do R.G. nº 12.117.510 e C.P.F. nº 001.072.148/73; bem como, eventuais
ocupantes da área descrita no item nº 1 abaixo, todos encontráveis na Avenida
Ipanema nº 1.562, Jardim Ipanema, Sorocaba/SP; pelos fatos e fundamentos a
seguir expostos:
I - Dos fatos:

1)- A Municipalidade Autora é legítima proprietária


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e possuidora do imóvel descrito e caracterizado no memorial descritivo em anexo,


cuja descrição é a seguinte:

“terreno caracterizado por parte do lote nº 9, da


quadra “B” do loteamento denominado Jardim
Ipanema, nesta cidade, contendo a área de 136,70
m² (cento e trinta e seis metros quadrados e setenta
decímetros quadrados), pertencente a
Municipalidade, com as seguintes características e
confrontações: faz frente para a avenida Ipanema,
onde mede em cruva 10,25 metros; do lado direito
de quem da referida avenida olha para o imóvel,
confronta-se com o remanescente do lote nº 8 da
mesma quadra, onde mede 14,80 metros; do lado
esquerdo, confronta-se com o remanescente do lote
nº 10 da mesma quadra, onde mede 12,50 metros; e
nos fundos medindo 10,00 metros, confronta-se com
os fundos do lote 16, também da mesma quadra.”

2)- Referido imóvel está matriculado em nome da


Municipalidade Autora, sob nº 251, junto ao Primeiro Cartório Imobiliário de
Sorocaba, conforme documento que segue em anexo.

3)- Que a pedido do Réu José Pinheiro Machado, a


Autora permitiu, através do Decreto nº 9.390/95, o uso precário do imóvel retro
descrito, apenas para plantações de culturas rápidas, proibindo qualquer tipo de
edificação; tendo, para tanto, o referido Réu assinado "Termo de Recebimento e
Responsabilidade".

Contudo, a fiscalização municipal constatou que no


imóvel objeto da permissão de uso o Reú edificou uma casa de alvenaria e um salão
comercial.

Assim, por não ter cumprido os termos da


permissão de uso, a mesma foi revogada pelo Decreto nº 9.973/96. Todavia, o Reú
continua na posse do imóvel, caracterizando-se, portanto, o esbulho possessório.

I I - Do direito:

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4)- A Autora, além de legítima proprietária do


imóvel em questão, também é possuidora da área invadida, por força dos institutos
da afetação e da imprescritibilidade dos bens públicos.

5)- Nesse sentido, leciona o saudoso mestre Hely


Lopes Meirelles, verbis:

"A imprescritibilidade dos bens públicos decorre


como consequência lógica da sua inalienabilidade
originária. E é fácil demonstrar a assertiva: se os
bens públicos são originariamente inalienáveis,
segue-se que ninguém os pode adquirir enquanto
guardarem essa condição. Daí não ser possível a
invocação de usucapião sobre eles. É princípio
jurídico, de aceitação universal que não se adquire
direito em desconformidade com o direito" (in
Direito Administrativo Brasileiro, Editora
Revista dos Tribunais, 5ª edição, ano 1977, pág.
494).

6)- Além disso, os bens públicos estão fora do


comércio, nos termos dos artigos 65, 66, 67, 68 e 69 do Código Civil Brasileiro.

7)- Nesse sentido, o ensinamento do mestre Rudolf


von Ihering, quando escreveu, verbis:

"Não podem ser objeto de posse no sentido


jurídico as coisas sobre as quais não é possível um
direito de propriedade; e deve-se aplicar a mesma
regra às pessoas que não podem ser proprietários
(em Roma, os escravos e os filhos de família=.
Onde não é possível a propriedade, objetiva ou
subjetivamente, a posse não o é. A posse e a
propriedade caminham de mãos dadas; a inaptidão
da pessoa ou da coisa para a propriedade implica
sua inaptidão para a posse" (in A Teoria
Simplificada da Posse, São Paulo, José
Bushatsky, 1976, pág. 69).

8)- Já ensinava o Conselheiro Lafayete que, verbis:

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"... Há coisas que não podem ser objeto de posse,


como as que não podem ser apreendidas e aquelas
que estão fora do comércio - as ruas, praças,
portos, templos, cemitérios" (in Direito das
Coisas, volume I, págs. 40/41, parágrafo 6º).

9)- No mesmo sentido, a lição abalizada de Clóvis


Beviláqua, quando escreveu, verbis:

"... Entre as coisas corpóreas, se excluem da posse


privada: as inapropriáveis por serem de uso
inexaurível, como o ar, a luz, o mar alto; as coisas
públicas, de uso comum ou especial e as
dominicais" ( in Direito das Coisas, volume I, págs.
45 e 46).

10)- Analisando o direito alienígena, em especial o


da Argentina, que teve como parâmetro o "Esboço de Teixeira de Freitas",
verificamos pelos textos do mestre Pedro Guilhermo Altamira, a respeito dos bens
de domínio público, o mesmo raciocínio dos mestres brasileiros supra referidos.
Senão vejamos:

"Los bienes que constituyem el dominio público


están sujetos a un regimen jurídico distinto del que
rige los bienes del dominio privado - <latu sensu>
-. Los bienes públicos son <extra commercium>
desde el punto de vista del derecho civil y su
regimen se diferencia del de los bienes privados
por su inalinabilidad e imprescriptibilidad, mientras
dure su afectación o destino al uti siguli ou al uti
universi. La <inalienabilidad> y la
<imprescriptibilidad> son medios juridicos a través
delos cuales se tiende a haver efectiva la
protección de los bienes dominicales, a afectos de
que pueden cumplir el <fim que motiva su
afectacion>" (in Curso de Derecho
Administrativo, Editora Depalma, 1971, pág.
701).

11)- O compíscuo mestre português, na área do


Direito Administrativo, Marcelo Caetano, de há muito nos ensinava, verbis:

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"A expressão comércio jurídico usa-se para


significar aquele aspecto da atividade social que
consiste em travar relações sob a égide do Direito.
Quando se diz que uma coisa está no comércio
jurídico ou é juridicamente comerciável quer-se
exprimir a susceptibilidade dessa coisa ser objeto
de direitos individuais. As coisas fora do comércio
não podem, por sua natureza ou por disposição
legal, ser objeto de direito.
É o que sucede com as coisas públicas. As coisas
públicas estão fora do comércio jurídico privado, o
que significa serem insusceptíveis de redução a
propriedade particular, inalienáveis,
imprescritíveis, impenhoráveis e não oneráveis
pelos modos de Direito privado, enquanto coisas
públicas" (in Manual de Direito Administrativo,
Forense, 1ª edição brasileira, Tomo II, pág. 825).

12)- Não discrepa desses mesmos entendimentos


Tito Fulgêncio, o qual acrescenta, verbis:

"... Posse e propriedade são perfeitamente


paralelas; onde não há propriedade não pode haver
posse; onde a propriedade é possível a posse
também o é, visto como afinal são comuns as
condições de sua existência. Logo, podem ser
possuídas todas as coisas e direito de exercício
confundido com a posse de coisa material que
forem suscetíveis de compra e venda em circulação
econômica, não podem ser as fora de comércio" (in
"Da Posse e das Ações Possessórias", Forense nº
51, págs. 56/57).

13)- Como se tudo isso não bastasse, a


jurisprudência do Egrégio Primeiro Tribunal de Alçada Civil do Estado de São
Paulo, de forma uníssona e pacífica, é no sentido de que, verbis:

"... A destinação das coisas públicas é servir ao


público, não podendo a vontade privada desafetar
sua destinação e reduzi-la à fim privado" (in
JTACSP - Saraiva - 79/106).

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14)- O mesmo Egrégio Tribunal citado, através de


sua primeira Câmara, já decidiu que, verbis:

"POSSESSÓRIA - Reintegração de posse - Bem


público de uso comum (praça) - Inadmissibilidade
da posse privada - Oposição da Municipalidade
procedente, improcedente a reintegração - Recurso
desprovido" (in JTACSP - Lex - 141/142).

15)- Em se tratando de bem de domínio público, é


imperativo o reconhecimento da posse jurídica da entidade de direto público como
expressão de sua propriedade, no sentido de garantir e proteger o uso e gozo da
coletividade, arredando qualquer individualização ou privilégio ditado pela
ocupação particular.

16)- Nesse sentido, acórdão da Quarta Câmara do


Colendo Primeiro Tribunal de Alçada Civil de São Paulo, relatado pelo juiz Walter
Guilherme, inserto nos Julgados dos Tribunais de Alçada Civil do Estado de São
Paulo (Revista dos Tribunais - 121/256-259), verbis:

"Com efeito, tratando-se de área de domínio


público dispensado está o ente de fazer prova de
sua posse, porquanto o particular que ocupa área
pública, sempre o faz com mera tolerância do
Poder Público, não gerando ipso facto, qualquer
direito".

17)- Como vem sendo reiteradamente decidido,


bem público não pode ser objeto de posse, porque há obstáculo legal. Porque a
destinação das coisas públicas é servir ao público. Não pode a vontade privada
desafetar sua destinação, reduzir a fim privado. O que não pode ser objeto de
propriedade (Súmula 340 do STF) não pode ser objeto de posse, conforme Julgados
dos Tribunais de Alçada Civil de São Paulo (Revista dos Tribunais 105/139 -
Editora Lex - vol. 133/146), verbis:

"POSSESSÓRIA - Reintegração de posse - Bem


público - Inadmissibilidade do exercício de posse
sobre bens fora do comércio privado, enquanto
tiverem destinação específica - Hipótese em que os
demandados são meros detentores e não
possuidores - Inocorrência de esbulho mas tão
somente ato de desocupação voluntária praticado
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no regular exercício do poder de polícia - Liminar


indeferida - Recurso improvido" (in JTACSP - Lex
157/34).

18)- Inúmeros julgados de nossos Tribunais


defendem exatamente a tese de que não de adquire a posse de bem público, como se
vê do exame dos arestos abaixo colacionados:

"POSSESSÓRIA - Reintegração de posse -


Ocupação de área pública pertencente à
municipalidade e que ingressou em seu patrimônio
via decisão judicial em ação de desapropriação -
Existência de mandado de imissão na posse
expedido em favor da autora - Esbulho carac-
terizado - Impossibilidade da aquisição do imóvel
por usucapião por tratar-se de bem de uso comum -
Reintegração de posse procedente, afastado o
pedido de indenização em face da ausência de
comprovação de danos - Recurso parcialmente
provido" (in JTACSP - Lex 154/105).

19)- Outro julgado no mesmo sentido, com o


esclarecimento de que o invasor da área pública estava na mesma há mais de dez
anos, registrou com propriedade, verbis:

"POSSESSÓRIA - Manutenção de posse -


Ocupação de área por trayller de comerciante
ambulante - Configuração como terreno de marinha
e distinção como da marinha, pertencendo à União
e não ao Ministério da Marinha - Bem público de
uso comum no qual não pode haver posse do
particular, mas autorizada a sua utilização mediante
regulamentação e tributação municipal - Uso de
área a mais de 10 anos pela apelada que quedou
inerte ao ser instada a construir módulo de al-
venaria, além de não ter renovado sua licença
relativa ao exercício de 1988 - Pretensão
possessória exercitada com base no poder de
polícia inerente à municipalidade - Admissibilidade
- Turbação configurada - Manutenção de posse
improcedente - Recurso Oficial e voluntário
providos para esse fim" (in JTACSP - Lex
151/119).
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I I I - Dos pedidos:

20) Posto isto, temos que estão presentes os


requisitos para a concessão da liminar, bem como demonstrou a Municipalidade
Autora, os requisitos previstos no artigo 927 do Código de Processo Civil Brasi-
leiro, ou seja: a) provou sua posse, inclusive o domínio, muito embora não seja de
rigor a demonstração de tal prova; b) demonstrou o esbulho praticado pelos Réus;
c) provou a data do esbulho, muito embora a data não seja relevante, mas somente o
esbulho; e, d) demonstrou que os Réus continuam na posse do bem público
(conforme fotografias em anexo).

21)- Assim sendo, requer a Municipalidade Autora,


seja reintegrada liminarmente na posse da área descrita e caracterizada no memorial
descritivo em anexo e também descrita no item nº 1 retro, na forma prevista no
artigo 928 do Código de Processo Civil Brasileiro, ficando autorizada a demolir
quaisquer construções ou proceder a retirada de móveis, semoventes, coisas, ou
similar, existentes no local, bem como seja o mandado cumprido contra eventuais
ocupantes, expedindo-se mandado com os benefícios do parágrafo segundo, do
artigo 172 do Código citado, se necessário com auxílio de força policial.

22)- Requer após, a citação dos Réus, bem como


de eventuais ocupantes, com os benefícios do parágrafo segundo, do artigo 172 do
Código de Processo Civil Brasileiro, para no prazo de quinze dias, contestarem a
presente ação, sob pena de serem aceitos como verdadeiros os fatos aqui argüidos,
e sob pena de revelia, prosseguindo-se a ação em seus ulteriores termos até final,
quando então, deverá a mesma ser julgada procedente, e reintegrando-se a Autora
na posse definitiva da área descrita e caracterizada no memorial descritivo em
anexo e mencionada no item nº 1 retro, condenando-se os Réus em perdas e danos,
na forma do artigo 921 do Código de Processo Civil Brasileiro, além da condenação
nos ônus da sucumbência e demais cominações de estilo.

23)- Na hipótese do artigo 928 do Código de


Processo Civil Brasileiro (segunda parte), o que se aventa por argumentar e tão
somente para esse fim, esclarece a Autora que pretende ouvir em justificação, os
funcionários públicos que fiscalizaram a área (relacionados no comunicado de
invasão), cujos nomes constam dos citados documentos e relacionados no rol
abaixo.

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24)- Protesta provar o alegado por todos os meios


de provas em direito permitidos, sem exceção, provas essas que desde já ficam
todas requeridas, se necessárias.

25)- Dá-se à presente o valor de R$ 1.000,00.

Termos em que,
pede deferimento.
Sorocaba, 07 de setembro de 1998.

DR. JOÃO BENEDITO MARTINS


Procurador Municipal
- OAB 65.529 -

ROL DE TESTEMUNHAS:

Waldomiro Monteiro, funcionário público municipal aposentado, residente e


domiciliado à Rua João Frederido Hingst nº 150 - Jd Cruzeiro do Sul,
Sorocaba/SP e

Elias Teixeira Junior, funcionário público municipal aposentado, residente e


domiciliado à Rua Wilson Fusco nº 77 - Jd São Bento, Sorocaba/SP.