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CRENÇAS E VALORES

1- Muito se escreveu já sobre os acontecimentos do 1º de Maio, em que os incidentes


que envolveram Vital Moreira ocuparam o primeiro plano. Passado algum tempo,
importa reflectir: o que aconteceu foi um sintoma. Não sucedeu uma demonstração do
“sofrimento dos trabalhadores”, como depressa os dirigentes da CGTP quiseram fazer
crer, antes ocorreu mais uma demonstração de desrespeito e de falta de atenção ao
outro, como vem a acontecer na sociedade portuguesa.

O que é grave é a desculpa sistemática, a pretensa compreensão e a justificação


elaborada, surgidas à pressa depois de incidentes que o simples bom senso e a educação
mais elementar criticaram sem receio. Como é possível tentar legitimar comportamentos
que nunca poderão ser aceites, pelo facto de porem em causa a base do relacionamento
interpessoal e o diálogo democrático? Como é possível considerar “agent provocateur”
Vital Moreira, como afirma certo politólogo no Público de 3 de Maio?

É certo que os partidos convivem mal com quem os deixa e atinge notoriedade, mas a
simples tentativa de “explicar” aquelas atitudes deve merecer condenação. Impressiona
verificar como os agentes políticos tentaram tirar partido do incidente, com alguns a não
criticar o essencial: a falta de respeito por quem pensa diferente. É este afrouxamento da
crítica sobre a quebra das regras de convivência que permite desculpar a indisciplina na
sala de aula (por “problemas” dos alunos) ou a agressão do futebolista Pepe, depressa
apagada pela desculpa da “cabeça quente”. Convém clarificar: só teremos êxito como
educadores quando não transigirmos perante tudo o que colocar em causa a
possibilidade de nos ouvirmos uns aos outros.

2—Às vezes desaparecem os valores (como no exemplo anterior) e surgem as crenças.


O Público de 2 de Maio continha um artigo intitulado “Tratamentos para alterar
orientação sexual não são uma coisa do passado”. Tudo começou com a petição online
de um homem de trinta anos que reclama “um comprimido, uma injecção”, para fazer
face ao “enorme desgosto por sofrer de tendências homossexuais”. Na pesquisa do
jornal, destacam-se pela negativa declarações de psiquiatras portugueses que surgem na
tradição homofóbica de alguma psiquiatria, que felizmente o conhecimento científico há
muito condenou. Dezenas de anos depois da homossexualidade ter deixado de ser
considerada doença pela comunidade internacional, alguns dos nossos psiquiatras (com
responsabilidades!) falam de “homossexualidade primária”, com “cunho biológico
marcado” e de “homossexualidade secundária”, ou desenvolvem a possibilidade de “re-
enquadrar a identidade de género e as opções de relacionamento sexualizado”.

O problema não é saber se os psiquiatras podem tratar homossexuais, a questão é que


não devem. É certo que muitos homossexuais revelam sintomas psicopatológicos, mas a
análise cuidada dessas manifestações demonstra que elas são devidas à discriminação
sofrida: quem não se sentirá mal se for alvo sistemático de troça ou de humilhação? O
papel dos terapeutas, perante um eventual pedido, deverá ser o de capacitar para a luta
contra a homofobia, ajudando a que sejam capazes de afirmar a sua orientação sexual
primeiro junto de pessoas próximas, depois (se o desejarem) em contextos mais
alargados.

Quando psiquiatras portugueses admitem “tratar” a homossexualidade (alinhando,


portanto, na velha e ultrapassada ideia da “doença homossexual”), estão também a
manifestar intolerância contra quem é diferente. As declarações são ainda mais graves
quando já se iniciou entre nós a discussão sobre o casamento entre pessoas do mesmo
sexo, porque não faltarão referências a estas posições como justificativas da não
alteração da legislação sobre o casamento, embora elas não possuam qualquer
justificação. O caso é ainda mais sério quando a posição ideológica provém de alguém
com responsabilidade na Ordem dos Médicos, mas serve para todos: mais uma vez as
vozes de alguma Psiquiatria portuguesa continuam ao lado da ideologia mais retrógrada,
em vez de se colocarem no sentido do avanço da ciência.

Daniel Sampaio – Pública – 10.05.2009