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3ºTeste de Filosofia 2008/2009

1.Descrição e interpretação da actividade cognoscitiva

1.1. Estrutura do acto de conhecer

• Distingue os diferentes tipos de saber;


Objecto: uma
Saber-fazer actividade

Tipos de Proposicional Objecto: uma


conhecimento proposição
Relação indirecta

Contacto Objecto: algo concreto


(uma pessoa ou
objecto)
O que relaciona a relação de conhecimento?
A relação do conhecimento relaciona o sujeito (que conhece) com a realidade
(que é conhecida). Desta forma de um lado da relação está um sujeito consciente, e do
outro lado uma porção de realidade com a qual este está directa ou indirectamente
relacionada. A relação directa do conhecimento é um tipo de conhecimento do
conhecimento por contacto enquanto, que a relação indirecta do conhecimento é um tipo
de conhecimento proposicional.

Quando o objecto do conhecimento é uma actividade, chamamos-lhe saber-


fazer. Assim, o tipo de conhecimento expresso na proposição “eu sei nadar” é saber-
fazer, uma vez que o sujeito domina os procedimentos da natação. Este não é um tipo de
conhecimento que se adquira por mera observação ou conhecimento de factos, por
exemplo, o facto de eu saber nadar (saber-fazer) é diferente de eu ter tido contacto com
a água ou de conhecer a teoria da natação sem nunca ter praticado.

Quando o objecto do conhecimento é uma proposição, ou seja, uma verdade ou


facto, este chama-se conhecimento proposicional. Por exemplo, para sabermos que
nadar é um desporto, não precisamos de ter contacto com a natação ou de saber pratica-
la – podemos simplesmente ler este facto num livro. Assim, a expressão enunciada em 3
“Eu sei que tudo o que há para saber sobre nadar. Há anos que observo os melhores
nadadores e que leio sobre técnicas de natação.” exprime um tipo de conhecimento
proposicional, pois quem fala considera-se conhecedor dos factos relativos à natação.
No entanto, o facto de ele observar os jogadores exprime também conhecimento por
contacto.

Quando o objecto do conhecimento é concreto, chamamos-lhe conhecimento de


contacto, uma vez que temos que ter algum tipo de contacto directo com ele. Assim, na
frase “conheço o Brasil muito bem” está expresso um tipo de conhecimento por
contacto, uma vez que o locutor só pode conhecer o Brasil se tiver tido contacto directo
com este país, ou seja, se o tiver visitado. Quando dizemos, por exemplo, conheço o
Asdrúbal muito bem, estamos a exprimir um tipo de conhecimento por contacto.
A proposição “conheço o João, então sei que ele existe” é verdadeira, uma vez
que existe contacto directo entre o sujeito e o João. Não se pode ter contacto directo
com quem não existe. A proposição “se sei que o João existe, então conheço-o” é falsa,
uma vez que não existiu nenhum tipo de contacto físico com o João que leve a este
conhecimento – apenas o conhecimento proposicional não pelo conhecimento por
contacto.
O conhecimento por contacto uma vez que o sujeito está em contacto, através da
experiência, com a porção da realidade conhecida. Este inclui não apenas conhecimento
de pessoas e coisas, mas também conhecimento dos nossos estados mentais (estado
cognitivo). De facto, os estados mentais daquele que conhece são muitas vezes tidos
como a porção da realidade mais directamente conhecível.

• Tendo em conta a definição tradicional de conhecimento, distingue condição


necessária de condição suficiente;

Ter conhecimento verdadeiro de que algo é falso – reconhecer uma falsidade


– é diferente de ter o conhecimento de algo que é falso – acreditar numa falsidade.
Uma crença é uma relação entre o sujeito que tem uma crença e o objecto dessa
crença. Assim, é qualquer tipo de convicção, ou opinião, que uma pessoa possa ter. A
maioria dos filósofos defende que todo o conhecimento envolve uma crença, uma vez
que, quando sabemos algo acreditamos nesse algo (convicção). Assim, a crença é uma
condição necessária ao conhecimento, TODOS OS CONHECIMENTOS
IMPLICAM UMA CRENÇA. “Se eu sei, então eu acredito”. Possuir uma crença não
é o mesmo que possuir um conhecimento, uma vez que podemos acreditar em
proposições falsas. No entanto, quando acreditamos nestas não possuímos
conhecimento – o conhecimento é sempre verdadeiro. A condição necessária ao
conhecimento é ser uma crença. Mas um conhecimento não é uma condição suficiente à
crença, dado que nem todas as crenças são conhecimentos. Deste modo, o conhecimento
é apenas uma das condições necessárias, que no seu conjunto irão formar uma condição
suficiente à crença. – Podem existir crenças falsas e uma vez que o conhecimento é
factivo estas não podem ser consideradas conhecimentos!
O conhecimento é factivo, ou seja, não se pode conhecer falsidades. Dizer que
não se pode conhecer falsidades não é o mesmo que dizer que não se pode saber que
algo é falso. Assim, sem verdade não existe conhecimento – a verdade é uma condição
necessária ao conhecimento -. Uma crença verdadeira não é condição suficiente para o
conhecimento, porque crenças que são apenas verdadeiras por acaso, não são
conhecimento - o conhecimento não pode ser obtido ao acaso, tem de ser uma certeza –
logo, tem de ser justificado. Assim, a justificação é, também, uma condição necessária
para o conhecimento.
Pensar que se sabe algo é DIFERENTE de se saber realmente algo. Se de
facto soubermos algo, então temos a garantia de que isso que sabemos é verdade. Mas
podemos pensar que sabemos algo sem o sabermos de facto.
Ter a justificação para acreditar em algo não garante que a nossa crença seja
verdadeira, apesar de por vezes existirem boas razões para acreditar em algo, é racional
ter essa crença, mesmo que seja falsa. Assim, dado que o conhecimento é factivo, não
admite falsidades, a justificação por si só não pode ser condição suficiente ao
conhecimento, uma vez que pode estar associada a uma crença falsa.
Concluindo, a crença, a verdade e a justificação são condições necessárias ao
conhecimento mas nenhuma é suficiente.
O conhecimento é uma crença verdadeira e devidamente justificada (apoiada
em boas razões).

• Analisa a definição de conhecimento como crença verdadeira justificada;

Existem três condições necessárias para que uma proposição seja conhecida: temos
de acreditar nela, tem de ser verdadeira e tem de estar justificada. E nenhuma delas é
suficiente para o conhecimento. Mas se juntarmos as três condições, obtemos a seguinte
definição de conhecimento: conhecimento é uma crença verdadeira e justificada. A ideia
desta definição é que uma condição necessária e suficiente para ter conhecimento é ter
uma crença verdadeira justificada. Apesar de separadamente, nenhuma das condições
ser suficiente para o conhecimento, tomadas conjuntamente parecem suficientes. Se
alguém tiver uma crença, se essa crença for verdadeira e se além disso, houver boas
razões a favor da sua verdade, parece impossível que essa pessoa não tenha
conhecimento.

• Distingue conhecimento a priori de conhecimento a posteriori

Um conhecimento a priori é um conhecimento que se adquire através do


pensamento apenas, ou seja, é um conhecimento que se sabe independentemente da
experiência.
Um conhecimento a posteriori é um conhecimento que se sabe apenas através da
experiência, ou seja, é um conhecimento independente do pensamento.

Um conhecimento é derivado quando é adquirido através de argumentos ou razões-


Conhecimento Inferencial-.
Um conhecimento é primitivo, conhecimento não inferencial, quando o
conhecemos directamente (por exemplo através dos sentidos), ou seja, é um
conhecimento que não se baseia em nenhum anterior (crença básica).

1.2. Análise comparativa de duas teorias do conhecimento

• Explica a resposta dos cépticos ao problema da justificação do conhecimento

O cepticismo surgiu como resposta ao problema da justificação do conhecimento: É


possível conhecer algo? Segundo os cépticos não podemos afirmar sem erro que
sabemos seja o que for, assim, não sabemos realmente o que julgamos saber e aquilo a
que chamamos conhecimento pode não passar de uma mera ilusão. Podemos então
concluir que, a resposta dos cépticos à justificação do conhecimento é que este não é
possível, porque não existe justificação absoluta, segura e suficiente, que garanta a
verdade das nossas teses.
O conhecimento não é possível: uma vez que a justificação é uma condição
necessária ao conhecimento e esta, segundo o cepticismo, não é possível uma vez
que, por mais fortes que sejam as nossas crenças e por melhores que nos pareçam
as suas justificações, estas serão sempre falíveis ou insuficientes. Assim, se
nenhuma das nossas crenças estiver suficientemente justificada não existe
conhecimento.
Se há conhecimento, as nossas crenças estão justificadas.
Mas as nossas crenças não estão justificadas.
Logo, não há conhecimento.
• Explicita os argumentos cépticos das ilusões e erros perceptivos e da regressão
infinita da justificação;

A principal tarefa dos cépticos consiste em mostrar que as nossas crenças não estão
provadas. Assim, surgem-nos dois argumentos: o argumento das ilusões e erros
perceptivos; e o argumento da regressão infinita da justificação.
Argumento das ilusões e erros perceptivos: A percepção, modo como tomamos
consciência dos objectos através dos nossos sentidos, é relativa ao ponto de vista do
observador, uma vez que, em diferentes momentos, percepcionamos os mesmos
objectos de maneiras diferentes. Por exemplo, quando acabamos de comprar umas
calças e uma vezes estas parecem verdes e noutras parecem castanhas. No entanto, por
vezes, também experienciamos uma ilusão perceptiva, uma falsa imagem da realidade,
criada pelos nossos sentidos, ou seja, somos enganados pelos nossos sentidos. Por
exemplo, parece-nos ouvir um carro a passar quando, afinal, era apenas o cão a ladrar.
Como o conhecimento depende da justificação da crença e esta baseia-se na nossa
percepção, então o conhecimento não existe. ( as ilusões e erros perceptivos provam,
que é possível que as crenças baseadas na percepção sejam falsas). Muitas vezes podes
achar que estás a pensar correctamente e estás a ser enganado.
Argumento da regressão infinita da justificação: O único modo de tentar
justificar as nossas crenças é recorrendo a outras crenças, ora se tal acontece, nunca nos
podemos dar por satisfeitos, uma vez que as justificações que damos precisam elas
mesmas de ser justificadas e, assim, o processo de justificação continua infinitamente.
Dar-se-á uma regressão infinita da justificação, processo de recuo sem fim, o que nos
leva à conclusão que as nossas crenças não estão justificadas. * Assim, uma vez que não
existe justificação de crenças, não existe conhecimento. Confiamos na indução.
É um argumento à priori, argumento retirado da racionalidade, onde se
pressupõe que não existem crenças básicas, ou seja, não existem crenças que não se
baseiam noutras anteriores.
* Mas é por isso que, segundo os cépticos, a justificação não funciona. Os cépticos
argumentam que não podemos confiar nas nossas crenças, porque mesmo que uma
proposição nos pareça incontestável ela baseia-se sempre noutra crença e se regredirmos
até à crença de que ela parte, ela própria precisa de justificação, o que conduz a uma
regressão infinita (processo de recuo que não tem fim).
Se a justificação para as nossas crenças é inferida sempre a partir de outras
crenças, então nunca os podemos dar por satisfeitos; as justificações que damos
precisam elas mesmas de ser justificadas e, assim, o processo de justificação continua
infinitamente.
1) A justificação de qualquer crença é inferida de outras crenças.
2) Se a justificação de qualquer crença é inferida de outras crenças, então
dá-se uma regressão infinita.
3) Se há uma regressão infinita, as nossas crenças não estão justificadas.
4) Logo, as nossas crenças não estão justificadas.

• Distingue crenças básicas de crenças não básicas;

Crenças básicas advêm do conhecimento primitivo, assim, são crenças que não
carecem de outras crenças para ser justificadas, conhecem-se directamente.
Conhecimento Inferencial. Justifica-se a si própria e é o fundamento de todo o
conhecimento.
Crenças não básicas advêm do conhecimento derivado, assim, são crenças que
carecem de outras para ser justificadas, ou seja, conhecem-se através de argumentos ou
razões. É justificada por outras crenças.

• Explica a resposta fundacionista ao problema da justificação do conhecimento;

O problema da origem, das fontes do conhecimento ou do fundamento do


conhecimento, diz respeito ao contributo das diferentes faculdades ou capacidades
humanas (razão, sentidos e imaginação) envolvidas na sua formação e, sobretudo, saber
qual é a capacidade/faculdade dominante na constituição do conhecimento.
Ao contrário dos cépticos que não acreditam que o conhecimento seja possível,
existem outros filósofos que acreditam que sim, que o conhecimento é possível. Dizem-
se fundacionistas e defendem que a premissa dos cépticos não é verdadeira, porque há
crenças básicas que não carecem de outra crença que as justifique e são o suporte seguro
(fundamento) a partir das quais podemos inferir outras crenças. Por isso, o
conhecimento é possível. Uma boa maneira de compreender como os fundacionistas
encaram o conhecimento é compará-la com um edifício. O que o sustenta são os
alicerces. Ora, os alicerces do conhecimento são as nossas crenças básicas. Resta saber
quais são as crenças básicas.

Tanto para os empiristas como para os racionalistas o conhecimento é possível, embora


ambos discordem no que toca à sua origem, no entanto para os cépticos o conhecimento
é impossível já que defendem que não existem crenças básicas e nenhuma justificação é
satisfatória. Existindo crenças básicas como defendem os fundacionistas fica resolvida a
questão da regressão infinita.

• Distingue as duas correntes fundacionistas estudadas: o empirismo e


racionalismo;

Empirismo – é a corrente filosófica que, de uma forma geral, considera que a


experiência sensível é o fundamento e o limite dos nossos conhecimentos, uma vez que
defendem que não há conhecimento para além da experiência sensível. Dito de outro
modo, as nossas crenças básicas são fornecidas pela experiência.
A doutrina do empirismo foi definida explicitamente pela primeira vez pelo filósofo
inglês John Locke (XVII). Locke argumentou que a mente seria, originalmente, um
"quadro em branco" (ou uma “tábua rasa”), sobre o qual é gravado o conhecimento, cuja
base é a sensação. Todo o processo do conhecer, do saber e do agir é aprendido pela
experiência, pela tentativa e erro.

Racionalismo – é a corrente filosófica que atribui um valor superior à razão,


defendendo que os nossos conhecimentos procedem dela e não da experiência ou dos
sentidos. Seduzidos pelo rigor e clareza da matemática, os racionalistas acreditavam que
o conhecimento da realidade poderia constituir-se de forma puramente racional e
dedutiva a partir de certos princípios ou ideias. Esses princípios têm de ser claros e
distintos (evidentes), e por isso, não se podem encontrar nos sentidos (confusos e
incertos). As crenças básicas são dadas pela razão.
Corrente filosófica que atribui um valor superior à razão, defendendo que os nossos
conhecimentos verdadeiros, procedem dela e não da experiência ou dos sentidos. A
razão, por si só, dotando-se de um método apropriado, pode conhecer toda a realidade.

Em geral, o empirismo é uma corrente filosófica que se contrapõe em muitos


aspectos ao racionalismo. A contraposição torna-se mais clara se tivermos em linha de
conta o que o racionalismo tinha tomado como modelo a ciência moderna apenas no seu
aspecto matemático e que o empirismo tinha sido atraído por outro aspecto da ciência –
a importância da experiência. Deve também notar-se a oposição entre estas duas
correntes que traduz na diferente ideia que fazem das capacidades da razão: o
racionalismo entende que a razão por si só, dotando-se de um método apropriado, pode
conhecer toda a realidade; o empirismo entende que a razão depende dos dados
empíricos, que todo o conhecimento deriva da experiência e que podemos conhecer o
que está ao alcance dos nossos sentidos.

Os empiristas defendem que o conhecimento tem origem na experiência sensível,


enquanto que os racionalistas acreditam que o conhecimento tem origem puramente
racional e de forma dedutiva a partir de princípios ou ideias. Isto é, o racionalismo
defende que as nossas crenças básicas são obtidas pela razão e o empirismo afirma que
as nossas crenças básicas são obtidas pela experiência. No entanto, ambos acreditam
que o conhecimento é possível e apenas divergem quanto à sua origem.

Enquanto que os cépticos afirmam que não existem crenças básicas e que por
isso, o conhecimento não é possível; os fundacionistas apoiam que hà crenças
básicas que não carecem de outras crenças básicas e que, por isso, existe
conhecimento.
Enquanto que o racionalismo tem como modelo a ciência moderna apenas no
seu aspecto matemático, o empirismo consideram importante a experiência. O
racionalismo entende que a razão, por si só (dotando-se de um método
apropriado), pode conhecer toda a realidade, e o empirismo que entende que a
razão depende dos dados empíricos, que todo o conhecimento deriva da
experiência e que só podemos conhecer o que está ao alcance dos nossos sentidos.

• Identifica o objectivo de Descartes;

O objectivo de Descartes era derrotar o cepticismo, mostrando que a segunda


premissa do argumento céptico, as nossas crenças não estão justificadas, é falsa. Deste
modo, tinha que encontrar crenças básicas das quais seja impossível duvidar, certezas
absolutas. O método que Descartes usou para cumprir o seu objectivo foi a dúvida
metódica. Assim, o seu objectivo era provar que o conhecimento era possível,
edificando-o em bases sólidas, verdadeiras e irrefutáveis (crenças básicas).
O objectivo, primeiro e último, é encontrar os fundamentos de todo o
conhecimento: as crenças básicas em que todo o e qualquer conhecimento se apoia.
Enquanto esses fundamentos não forem encontrados, todo o conhecimento pode
ser ilusório, o que iria ao encontra do que os cépticos sustentam.
Deste modo, a investigação cartesiana é mostrar que os cépticos estão enganados
e, tal trabalho, implica levar os seus argumentos /razões muito a sério.
• Caracteriza a dúvida cartesiana;

A dúvida cartesiana/ dúvida metódica consiste em tomar como se fossem falsas


todas as nossas crenças acerca das quais se possa levantar a mais pequena dúvida. Serve
para ver se há crenças indubitáveis (crenças das quais não podemos duvidar; infalíveis).
Se este método funcionar, permitirá encontrar crenças de tal modo sólidas que nem
o mais radical dos cépticos poderá recusar. Ora, se nem o mais radical dos cépticos pode
duvidar de crenças assim, poderemos usá-las como fundamentos firmes para reconstruir,
com base nelas, todo o nosso conhecimento. Essas crenças serão, pois, as crenças
básicas de que precisamos para justificar todo o conhecimento e para refutar os cépticos.

O método:
→ Se for possível duvidar de uma crença, então essa crença não pode ser usada
como fundamento de conhecimento. Isto não quer dizer que seja falsa, apenas
quer dizer que não pode ser fundacional ou básica. Assim, para encontrar
crenças fundacionais ou básicas, Descartes tem de afastar todas as crenças em
relação às quais se levante a mínima duvida – mas não tem de provar que essas
crenças são realmente falsas.
→ Como existe um número elevadíssimo de crenças, Descartes não teria como
analisa-las a todas. Assim, Descartes decide analisar os princípios fundamentais
de cada um dos domínios do conhecimento. Se esses princípios mais centrais do
conhecimento se revelarem falsos, todas as crenças baseadas neles terão de ser
abandonadas.

A importância da dúvida:
→ Trata-se de começar tudo de novo, do princípio. Esse princípio tem de ser um
conhecimento que resista a todas a tentativas de o pôr em causa.
→ Se o conseguirmos encontrar, teremos o alicerce ou a base que será o
fundamento do sistema do saber que pretendemos firme, seguro e bem
organizado.

Esse princípio deve possuir, em suma, as seguintes características:


● Deve ser de tal modo evidente que o pensamento não possa dele duvidar.
● Dele dependerá o conhecimento do resto, de modo que nada pode ser conhecido
sem, mas não reciprocamente.

Avaliar a firmeza ou a solidez das bases em que assentam os conhecimentos que me


foram transmitidos. Essas bases são:
1) A crença de que a experiência é a fonte dos nossos conhecimentos, isto é, de que
o conhecimento começa com a experiência sendo os sentidos dignos de
confiança.
2) A crença de que existe um mundo físico que, por isso mesmo, constitui objecto
de conhecimento.
3) A crença de que o nosso entendimento (ou razão) não se engana ou não pode
estar enganado quando descobre conhecimentos verdadeiros.

Como avaliar a solidez destas bases ou destes alicerces?


Vamos submetê-los a um exame impiedoso, ou seja, vamos tentar encontrar razões
para duvidar da sua verdade, utilizando este critério duplo:
1) Considerar como absolutamente falso o que for minimamente duvidoso;
2) Considerar como nos enganando sempre aquilo que alguma vez nos enganar.

Separando o verdadeiro do falso:


→ Descartes sempre se preocupou em dirigir bem o seu espírito na procura da
verdade.
→ Para isso, inventou um método constituído por quatro regras simples das quais
se destaca a primeira.
→ Esta ordena que se considere como falso o que não for absolutamente verdadeiro
ou evidente (claro e distinto).

A dúvida metódica consiste em tomar como se fossem falsas todas as nossas


crenças acerca das quais se possa levantar a mais pequena dúvida. Esta poderá ser
um teste uma vez que, a partir do momento em que se encontra uma crença
indubitável, não é possível duvidar dela, será possível afirmar que o conhecimento
existe, pois será uma crença infalível, não pode estar errada.
Este teste serve para identificar as crenças em que podemos confiar, indubitáveis,
de crenças que estão erradas, assim permite um exame das crenças permitindo
eliminar as crenças sobre as quais haja a menor dúvida. Assim, permite seleccionar
as crenças básicas que os cépticos não conseguem refutar.

• Explicita a regra da evidência racional;

Na procura da verdade o pensamento deve orientar-se por uma regra fundamental, a


regra da evidência racional: «Nunca aceitar como verdadeira qualquer crença sem a
conhecer verdadeiramente como tal, isto é, não incluir nos meus juízos nada que não se
apresenta tão claramente ao meu espírito que não tivesse nenhuma ocasião para o pôr
em dúvida».
Os nossos sentidos enganam-nos muitas vezes, pois já nos fizeram tomar por
verdadeiro aquilo que só depois verificamos ser falso, como são os casos das ilusões
perceptivas e alucinações. É certo que dai não se segue que os nossos sentidos nos
enganem sempre. Mas como, a bom rigor, não sabemos quando os sentidos nos estão a
enganar, devemos rejeitar como se fossem falsas todas as informações provenientes
deles (regra da evidência racional).
É um critério usado para distinguir a verdade da falsidade, surge com o cogito.

• Apresenta os argumentos que justificam a possibilidade de Descartes duvidar


das crenças a posteriori e das crenças a priori;

As crenças a posteriori são aquelas que justificamos através da experiência sensível


utilizando os nossos sentidos, por exemplo acreditamos que o céu é azul porque vemos
o céu azul.
O argumento do sonho é o argumento que reforça o das ilusões e erros perceptivos
utilizado pelos cépticos, de modo a provar que não podemos confiar na experiência
empírica para fundamentarmos as nossas crenças - hiperboliza a dúvida relativamente
aos sentidos -. Este argumento diz que, quando sonhamos, temos as mesmas
experiências de quando estamos acordados, e que não há nada de concreto que me faça
distinguir o tal sonho da realidade. Assim, é possível estarmos a sonhar quando estamos
acordados, e tudo não passar de uma ilusão. Assim, para Descartes as crenças à
posteriori não são fundacionais uma vez que são crenças baseadas na percepção. Uma
vez, que as nossas percepções nos podem enganar, podemos, segundo a dúvida
metódica, duvidar destas. Assim, as crenças à posteriori não podem servir de base a todo
o conhecimento, ou seja, não podem ser fundacionais. -não são evidentes. Este
argumento abala a confiança na percepção, pois, a distinção entre o que percepcionamos
quando dormimos e estamos acordados não é segura. Logo, o mundo físico pode não
existir, a dúvida alcança a existência física. Os sentidos não são fonte segura do
conhecimento e há razão para acreditar que toda e qualquer realidade física é uma
ilusão.

Descartes estuda as crenças pensando não se estamos enganados em relação a elas mas
sim, se existe a mínima possibilidade de estarmos a ser enganados, relativamente a elas.
Assim, para este filosofo as crenças à priori também não são crenças fundacionais uma
vez que, pode existir um génio maligno que nos faça pensar que são obviamente
verdadeiras proposições que afinal são falsas. Por exemplo, uma crença do tipo 2+2=4,
que pensamos ser obviamente verdadeira pois é justificada pela razão ou pelo
pensamento, poderá afinal, ser falsa em resultado do poder desse génio. Deste modo,
uma vez que existe a possibilidade destas crenças serem falsas, as crenças à priori não
passam no teste da dúvida metódica. Há razão para acreditar que o nosso
entendimento confunde o verdadeiro com o falso.

• Explica a experiência mental do génio maligno

Uma experiência mental é quando imaginamos situações, por vezes muito fantasiosas e
idealizadas, com o objectivo de percebermos melhor certos aspectos de uma questão.
Tanto os cientistas como os filósofos recorrem frequentemente à experiência para testar
ou desenvolver teorias. Neste caso, Descartes pede para imaginarmos que existe uma
espécie de Deus enganador que, sem o sabermos, manipula os nossos pensamentos.
Trata-se de um génio porque revela poder semelhante ao de um Deus, mas não é um
Deus pois revela maldade ao querer enganar-nos sistematicamente para seu próprio
divertimento. Esse génio teria o poder de nos enganar sistematicamente provocando em
nós os estados mentais e as crenças que bem lhe aprouvesse. O génio maligno
conseguiria fazer-nos pensar que são obviamente verdadeiras proposições que afinal são
falsas. Assim, segundo esta hipótese, a nossa mente é completamente controlada sem
nos apercebermos disso. Logo, Uma crença de tipo 2+2= 4, que pensamos ser
obviamente verdadeira, poderá, afinal, ser falsa em resultado do poder e da acção do
génio maligno.

• Justifica a passagem da dúvida à primeira certeza;

Podemos agora ver qual o resultado da aplicação da dúvida. Ela pôs em causa toda a
dimensão dos objectos, quer sensíveis quer inteligíveis.
Nenhum objecto resistiu ao exame impiedoso da dúvida. Neste momento,
poderíamos julgar que reina o cepticismo: tudo é falso, nada é verdadeiro, ou seja, nada
resiste à dúvida.
Contundo, essa conclusão é precipitada porque, quando a dúvida atinge o seu ponto
máximo, uma verdade indubitável vai impor-se.
«Resolvi supor que tudo o que até então encontrara acolhimento no meu
espírito não era mais verdadeiro que as ilusões dos meus sonhos. Mas, logo em
seguida, notei que, enquanto assim queria pensar que tudo era falso, eu, que assim o
pensava, necessariamente era alguma coisa. E notando que esta verdade, eu penso,
logo existo (Cogito ergo sum),era tão firme e tão certo que todas as extravagantes
suposições dos cépticos seriam impotentes para a abalar, julguei que a podia aceitar,
sem escrúpulo, para primeiro princípio da filosofia que procurava».

Então, afinal existe proposições que passam no teste da dúvida metódica pois, não é
possível duvidar da crença “Se penso, existo”. Através da dúvida metódica foi
encontrada, finalmente, uma crença fundacional. Descartes defende que o Cogito é
uma crença básica, o mesmo é dizer, uma certeza inabalável.
O Cogito é uma certeza que não se descobre por meio do raciocínio, nem se
infere de coisa alguma. Trata-se de uma intuição racional, uma evidência que se impõe
ao nosso espírito como absolutamente clara e distinta.
Mesmo que os nossos sentidos nos enganem é preciso existir algo para ser enganado.
Vejamos:
i) Duvidar é um acto que tem de ser exercido por alguém.
ii) Para duvidar, seja do que for e mesmo que seja de tudo, é necessário que exista o
sujeito que dúvida
iii) A dúvida é um acto do pensamento que só é possível se existir um sujeito que a
realiza.
Logo, a existência do sujeito que duvida é uma verdade indubitável.

• Caracteriza o cogito cartesiano

1. Será o alicerce de todo o conjunto de conhecimentos que a partir dela descobriremos.


Será o primeiro princípio do sistema do saber.
2. É uma verdade puramente racional.
3. É uma verdade descoberta por intuição.
4. O «cogito» vai funcionar como um modelo de verdade: serão verdadeiros todos os
conhecimentos que forem tão claros e distintos como este primeiro conhecimento.
5. Ao mesmo tempo que revela a existência de quem de tudo duvida menos da sua
existência, a primeira verdade tem implícita outra: a essência do sujeito que duvida é ser
uma substância meramente pensante.
6. Ao mesmo tempo que descubro a minha existência como sujeito pensante, descubro
que a alma é distinta do corpo.
7. O Cogito corresponde ao “grau zero” do conhecimento no que respeita aos objectos
físicos e inteligíveis.
8. A primeira verdade é a afirmação da existência de um ser que é imperfeito.

• Explica como o cogito conduz ao solipsismo;

Descartes fala na 1ª pessoa. De facto, ele quer dizer, “Eu penso, logo, existo” e não
“Descartes pensa, logo, existe”. Só a primeira proposição passa no teste da dúvida. Cada
um de nós sabe sem dúvida possível que pensa, logo, existe. Mas daí não se segue que
possa saber o mesmo acerca de qualquer outra coisa além de si.
“Penso, logo, existo” é uma certeza que nenhuma dúvida pode abalar, pensa Descartes.
Mas porque?

«E tendo notado que nada há no eu penso, logo existo, que me garanta que digo a
verdade, a não ser que vejo muito claramente que, para pensar, é preciso existir, julguei
que podia admitir como regra geral que é verdadeiro tudo aquilo que concebemos
muito claramente e muito distintamente, havendo apenas alguma dificuldade em notar
bem quais são as coisas que concebemos distintamente».
Depois da descoberta de uma crença fundacional (sobre a qual poderia construir
o edifício do conhecimento), Descartes pergunta-se que características tem essa crença
que a torne indubitável. Assim, o cogito é uma ideia clara e distinta pois, é uma ideia
que se apresenta com tal evidência ao nosso espírito que não podemos duvidar da sua
verdade.
Registe-se que a clareza e a distinção não é um critério empírico ou a posteriori,
mas racional ou a priori (por isso Descartes fala em conceber e não em ver ou sentir,
ou perceber).
Munido deste critério, Descartes vai partir à procura de outras ideias que consiga
conceber clara e distintamente.

Com o cogito surge uma limitação, apesar de termos a certeza que, enquanto
pensamento, existimos, mas continua a poder ser falso tudo aquilo que pensamos:
pode ser uma ilusão ou um génio maligno. Assim, ficamos encerrados nesta
primeira e única verdade, o que leva ao solipsismo, há uma solidão do eu,
encarcerado em si próprio.

As crenças fundacionais são crenças na primeira pessoa!!!!!!


Exemplo:

Mas «Parece-me que está uma folha à minha frente», já é uma ideia clara e distinta, pois
não consigo conceber como posso estar enganado. Ainda que esteja com alucinações e
não haja qualquer folha à minha frente, é verdade que me parece que há uma folha à
minha frente. Esta é uma crença na 1ª pessoa (acerca de mim próprio) e é clara e
distinta, portanto, verdadeira. Mas «Está uma folha à minha frente», não é na 1ª pessoa,
(não é acerca de mim) e não é clara e distinta.

• Expõe os argumentos de Descartes a favor da existência de Deus;


•Se Descartes conseguir estabelecer a existência deste ser perfeito, terá alcançado
uma nova verdade que se irá revelar de importância decisiva.
• Trata-se de saber como, a partir da ideia de um ser perfeito, vai o sujeito
pensante estabelecer a existência real de um ser perfeito (Deus).
Como só o que é perfeito pode ser a causa da ideia de perfeito, Descartes conclui que
Deus existe.

Antes de tudo, descobre que tem a ideia de perfeição a partir da sua consciência
de que ele próprio é um ser imperfeito, na medida em que se engana. Ora, não poderia
ter a consciência de que é um ser imperfeito se não tivesse em si a ideia de perfeição.
Assim, vê com clareza e distinção que a sua ideia de Deus é a de um ser perfeito.
Com a mesma clareza e distinção vê ainda que a causa da ideia de perfeição não
pode vir de um ser imperfeito. O Imperfeito não pode gerar o Perfeito.
Tem de haver um ser perfeito, ou seja, que Deus existe.

Possuo a ideia clara e distinta da perfeição


A causa tem que ser tão perfeita como o efeito. (algo melhor não pode vir de
algo pior)
Sou um ser imperfeito e por isso não posso ser a causa da ideia.
Logo, Deus existe.

Mas, se esta ideia existe, será que existe um ser perfeito?

Um ser perfeito congrega todas as qualidades.


Existir é uma qualidade.
Logo, o ser perfeito, Deus, existe.

• Explica a necessidade da existência de Deus no sistema cartesiano

Uma vez que Deus existe, então nenhum génio maligno o pode incomodar. Deus é, por
definição, bom e não o pode querer enganar, o que garante, assim, a verdade das ideias
que concebe clara e distintamente e a correcção dos seus raciocínios. A partir daí,
Descartes já pode deduzir muitas verdades e construir com segurança o edifício do
conhecimento. Assim, Descartes chega à 3ª certeza: O mundo existe (o perigo do
cepticismo desapareceu).

o Deus é omnipotente e perfeito, e como tal, não engana. Por isso é a


garantia da objectividade das verdades racionais.
o «Concebo clara e distintamente que sou uma substância pensante, que
Deus existe e não me engana e que posso confiar na validade do meu
entendimento quando concebe que as coisas sensíveis são extensas.»
 Para mostrar a existência das coisas temos de garantir que a
consciência do sujeito pensante não pode por si só explicar
determinadas representações que temos das coisas corpóreas, isto
é, que aquelas supõem a existência efectiva de corpos exteriores.