Instituto Superior de Relações Internacionais – Maputo Dia Internacional de África Maputo, Maio de 2010

Autor: Emílio Jovando Zeca1
“O Panafricanismo, concebido no final do século passado e o movimento da Negritude no séc. XX, enquanto conceitos político-culturais globais de exaltação da personalidade africana e pleito pela causa do homem negro tiveram, no pós-guerra, grande repercussão por toda a África, pois foram os rastilhos que incendiaram a consciência dos nacionalismos africanos. Neles, cultura e revolta estiveram estreitamente associados e o seu sucesso foi tanto maior quanto os seus arautos possuíam a cultura e a língua do colonizador e as utilizaram como armas contra o próprio colonizador (...)”.
Manuel dos Santos Lima resume In “Humanismo africano e humanismo ocidental”

Tema:

A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE AFRICANA E OS LÍDERES MAIS REPRESENTATIVOS DESTE PROCESSO.
1. INTRODUÇÃO 1.1. Delimitação Espaço-Temporal O presente trabalho de pesquisa tem como delimitação espacial o Continente Africano. O horizonte temporal abarca o período que vai desde o início da década de 1960, chamado ano de África, porque vários Estados Africanos começaram a alcançar as suas independências e os nossos dias, período em que se busca uma identidade africana. 1.2. Contexto O presente artigo sobre a Construção da Identidade Africana e os Líderes Mais Importantes enquadra-se no contexto da tentativa de criação da identidade africana onde encontramos
                                                              
Estudante do 4˚ Ano do Curso de Relações Internacionais e Diplomacia, Bacharel em Filosofia e Bacharel em Relações Internacionais e Diplomacia pelo Instituto Superio de Relações Internacionais e Diplomacia.
1

1
 

elementos como as independências africanas e consequente do fim dos impérios coloniais em África; da guerra-fria da intensificação do processo de regionalização; da globalização e da crescente interdependência entre os Estados que resulta das multifacetadas dinâmicas, tecnológicas e a própria consciência do tempo e do espaço; de uma nova ordem mundial do pós guerra-fria e conflitos intra estatais, identitários e nacionalismos. O contexto do trabalho envolve todos aspectos acima arrolados. 1.3. Problematização África é um imenso continente e possui uma enorme heterrogeniedade étnica, pelo que é preciso evitar generalizações tanto na avaliação dos problemas como ao sugerir soluções. África possui uma rica variedade de valores culturais e de estimável qualidade humana que pode favorecer a humanidade inteira. Os Bispos Católicos Africanos, no Sínodo dos Bispos Africanos apontam os seguintes valores positivos africanos: o sentido do sagrado e do espiritual, o valor da família, o respeito e amor pela vida e pelos antepassados, a rejeição da ideia de aniquilar a vida, a solidariedade, a vida comunitária e a herança tradicional que privilegia o colectivo, em vez do individualismo, (Sínodo dos Bispos de África, 1995:47). Durante muito tempo, o continente africano foi visto como uma sociedade sem história, sem cultura, sem civilização. Na sua obra “Filosofia da História” (1830), Hegel declara que África não é parte da história do mundo, não tem movimentos nem progressos históricos próprios dela, porque nela não houve a manifestação do Espírito Absoluto. Em 1957, Padre Gaxott escreveu: estes povos2 nada deram à Humanidade. Hantington (1993:22), no seu artigo “The Clash of Civilizations?”, ao dizer que o mundo pós guerra-fria será multipolar e multicivilizacional onde os blocos de países serão reunidos segundo a identidade cultural e a partir da interacção de sete ou oito civilizações: ocidental, confuciana, japonesa, islâmica, hindu, eslavo-hortodoxa, latino-americana, e, possivelmente africana. Esta visão do autor mostra um certo cepticismo e põe em causa a existência de uma civilização africana.
                                                              
2

Estes povos referem aos povos africanos.

2
 

o continente está sendo influenciado pelo processo da globalização e regionalização. Sendo assim. mais esteve próxima às tentações de interpretações apaixonadas acerca das relações entre passado e futuro. verificamos que estão assentes no desenvolvimento espiritual e metafísico e não material. África é uma das regiões do mundo que. historicamente. urge questionar: como construir uma identidade africana se é que ela ainda não está construída? Como consolidar a identidade africana construída ao longo do tempo pelos líderes africanos? Qual deve ser a posição do africano. cultural e religiosa própria. da vontade. estamos perante um desenvolvimento espiritual da vida. buscando uma saída para um lugar no seio da ordem internacional. Félix Ravisson. com uma identidade política. a capacidade de colher as profundezas e a essência da vida e do real. da deontologia e da escatologia. tendo em conta o fenómeno da globalização: recour á noutre authentité or retour á noutre authentité? 3   . vemos que ela esteve sempre assente na teleologia. deontologia e escatologia. como o Mundo Ocidental. Charles Renouvoir.Ao olharmos para as bases da axiologia africana. Henri Bergson. que duma ou doutra forma põe. ocidentalização e está experimentando a modernização. democratização e inserção internacional. do ser e dos valores. Quando olhamos para matriz conceptual e axiológica da realidade africana. da intuição. económica. o continente africano segue sendo um lugar para o teste da razão crítica contra o monumento de preconceitos que foram erigidos pela fraca ciência e pela opinião desinformada. apelando para actividade espiritual não redutíveis à razão e a elas atribuindo um alcance metafísico. na construção da sua identidade. não obstante que África ainda ocupa um lugar marginal nas relações internacionais e ainda é ofuscada devido ao egoísmo e ambição de uns e erros de outros. Emile Bouttroux e os Neotomistas. às vezes simultaneamente. isto é. Nos nossos dias. ideias também defendidas por Espiritualistas Ocidentais como Maurice Blondel. da acção. em causa a sua identidade. Jules Lachelier. Escrutinada sob as ópticas da teleologia.

3. SãoPaulo. pois as instituições alcançaram sua forma actual através de alterações de suas partes componentes. (1999). 2. O método fazer uma reflexão sobre a origem e da identidade africana. Reflectir sobre a possibilidade da criação e consolidação de uma identidade africana. Verificar até que ponto colonialismo.1. 4   . Trazer os desafios para a criação de uma identidade africana tendo em conta a globalização.6. 1. processos e instituições do passado para verificar a sua influência na sociedade de hoje. 1. esta técnica consiste na recolha de dados sobre o tema de pesquisa. 3. citado por Silva e Menezes (2001:23). Método Analítico: este método permitiu fazer uma análise sobre os tipos de desafios que a que serão enfrentado no processo da criação e consolidação da identidade africana. Edições Atlas. Objectivo Geral 1. Metodologia do Trabalho Para fazer o trabalho foram utilizados os seguintes métodos e técnicas: 1. permitiu fazer a busca e a selecção de fontes secundárias que tornaram possível o desenvolvimento do trabalho tais como: Obras.5. António Carlos. 2. Verificar até que ponto a diversidade cultural dos Estados africanos pode contribuir ou não para a edificação de uma identidade africana. Como Elaborar Projectos de Pesquisa. Objectivos Específicos 1. Neste trabalho. Método Histórico: segundo Lakatos (2007:106-107) este método foi desenvolvido por Boas.4. e tem influenciado o presente e futuro da identidade africana. o Panafricanismo e a Negritude influenciam o passado.                                                                3 Gill. Revistas e Artigos Científicos. Ele consiste em investigar os acontecimentos. Técnica Documental: segundo Gill (1999)3.

Quais são os desafios para a criação de uma identidade africana tendo em conta a globalização e a criação dos Estados Unidos de África? 4. Qual foi e tem sido o papel dos líderes africanos no processo da criação da identidade africana? 2. influenciaram na construção da identidade africana e têm vindo a influenciar na consolidação da mesma. contribuíram. Panafricanismo e Negritude. Como o colonialismo influenciou o passado. foi influenciada pelo colonialismo. no período do fim dos impérios coloniais. Em certa medida. Apresentar os líderes mais importantes e o seu papel no processo da criação da identidade africana. nos últimos tempos. pode ter influneicado negativamente na construção e consolidação da identidade africana actóctone. A tentativa de identificação de uma identidade africana. a necessidade de construção de uma identidade africana. Hipóteses 1. REFERENCIAL TEÓRICO E CONCEITOS BÁSICOS 2. Questões de Pesquisa 1.1. Referencial Teórico 5   . e tem influenciado presente e futuro da identidade africana? 2. 4.7.8. com o sistema de assimilação. 2. 3. tem sido influenciada pelo processo da globalização. 1. Até que ponto a diversidade cultural dos Estados africanos pode contribuir ou não para a edificação de uma identidade cultural africana? 3.4. Os líderes africanos. em parte. 1. O colonialismo.

Segundo Nogueira e Messari (2005:166-167). Negam a anarquia como uma estrutura que define as Relações Internacionais. No debate entre agentes e estrutura. bem como no artigo publicado em 1992 por Alexander Wendt. Mundo este que podemos mudar. e que é produto das nossas escolhas. nem na capacidade de influenciar o outro. intitulada World of Our Making – Rules and Rule in Social Theory and International Relations. Para o presente trabalho. a teoria construtivista é pertinente para explicar o processo da construção da identidade africana. sendo assim. A anarquia (estrutura) internacional é socialmente construída e. agentes e estrutura são co-constitutivos uns dos outros e nenhuma precede o outro nem no tempo. Nesse sentido. no qual somos os protagonistas. pois para os construtivistas existe um conjunto de regras e normas que organizam e norteiam as mesmas. Anarchy is What States Make Of It. transformar ainda que dentro de certos limites (Nogueira e Messari. os pressupostos do construtivismo são: O mundo é socialmente construído. sociedade e indivíduos são co-constituídos. Uma vez que o construtivismo postula que o mundo é 6   . 2005:162). O objectivo em trazer os títulos dessas duas contribuições originais é destacar a premissa básica da teoria: vivemos num mundo em que construímos.O presente artigo sobre a Construção da Identidade Africana e os Líderes Mais Importantes será lido a luz da Teoria Construtivista e do Pluralismo. o sistema internacional pode variar entre conflito e cooperação já que a anarquia não é predeterminada. Teoria Construtivista A Teoria Construtivista surgiu pela primeira vez nos estudos das Relações Internacionais em 1989. com a obra de Nicholas Onuf.

(Viotti e Kauppi 1998: 200-201). axiológica e religiosa da identidade africana. Stevens And Sons. David (1742) Ensaios Morais e Políticos. Keohone (1984)9. Robert (1976) Perceptions and misperception in international politics. New York. Westwie. De entre os precursores do Pluralismo encontramos Locke (1960)4. interessados na política doméstica. Presença. para além destes autores. Pluralismo Segundo Sousa (2005:142-143). Joseph (1972) Transnational relations and world politics. como estudo da política doméstica. Jevis (1976)8. Boston. Surgiu no contexto de tentativa de responder aos novos desafios colocados pela complexidade crescente das questões internacionais e deu origem. 11 Nye. como política filosófica. John (1690) Carta Sobre a Tolerância. Ernest (1958) The uniting of Europe. Resenau (1966)6.                                                                 Locke. Vários pensadores não observavam as Relações Internacionais de per se.    5 4 7   . Iving (1972) Victims of groupthink. 6 Rosenau. Snyder (1950)10. Haward University Press. Cambridge. ele vai ajudar a explicar o processo da construção social. Editorial Presença. pensadores que tiveram um impacto significante na construção da imagem pluralista. Janis (1972)7. à perspectiva pluralista das relações internacionais. foco de análise do Realismo. Houghton. Hume. temos o impacto indirecto de outras teorias. Nye (1972)11 e Haans (1958)12.algo socialmente construído. Percepton University. económica. Nicols. Boulder. Economy. Richard (1950) Coping with complexity in the international system. Lisboa. 12 Haans. Hume (1740)5. Perception University. As discussões dos precursores do Pluralismo rondam em volta de dois temas: o liberalismo. cientistas sociais. 9 Keohone. No pluralismo. mas as observavam como economistas. política. e o interest group liberalism. Lisboa. CO. London. Esta perspectiva aparece também a contrapor os pressupostos realistas. teólogos. Perception 10 Snyder. 7 Janis. Robert (1984) After hegemony: cooperation and discord in world politics. a abordagem teórica pluralista das Relações Internacionais surgiu nos anos de 1960. tinham um interesse individual ou de grupo em oposição à unidade estatal (Estado). cientistas políticos. James (1966) The study of global interdependence essay on the transnational of warld affair. Perception. Mifflin. então. Todos possuíam um dominador comum. 8 Jevis.

3. Os Estados não são actores unitários uma vez que é composto por diferentes grupos de interesse. As Relações Internacionais. 4. sociais e ecológicos 8   . referendum. burocracias e indivíduos em competição. As organizações internacionais em alguns aspectos podem ser mais importantes e independentes que os Estados. instituição ou indivíduo.O Pluralismo baseia-se nas premissas do liberalismo. são caracterizadas pela diversidade de actores actuando na política internacional. segundo Viotti e Kauppi (1998: 199): 1. A visão pluralista das relações internacionais está baseada em quatros pressupostos. a má percepção ou estereótipos impedem que as decisões tomadas sejam as mais acertadas. Os actores transnacionais como as Companhias Multinacionais. a decisão não é tomada por uma entidade abstracta. 2. (Ventura 2002:5-8). como o Estado. Apesar de reconhecerem a importância dos assuntos relacionados com a defesa e segurança (high politics) o pluralismo reconhece a importância dos assuntos económicos. no contexto da teoria pluralista. Os Estados não são os únicos actores do Sistema Internacional. Atendendo que existem vários actores em interacção e que o processo de tomada de decisão reflecte um exercício de negociações entre os vários sectores e burocracias de um determinado Estado. Em certos casos algumas decisões terão de carecer de parecer público. Embora normalmente na imprensa se diga a decisão tomada por um Estado. uma vez que existem outros actores igualmente importantes. o conceito de interdependência representa o “cerne” das relações entre os actores internacionais. Para os pluralistas. Os Estados não são actores racionais uma vez que está sujeito a influências exteriores que condicionam e moldam as suas acções. tal decisão reflecte o posicionamento de um determinado sector. A agenda das relações internacionais é extensiva e alargada. grupos de defesa dos direitos humanos e grupos ambientalistas têm um papel importante nas relações internacionais.

por isso. segundo Smouts (2003. Conceitos-Chave 2. perdida ou resgatada. economistas. O pluralismo ajuda a explicar os diversos actores envolvidos na criação da identidade africana. Identidade A conceitualização da identidade interessa a vários ramos do conhecimento como história. antropologia. e tem portanto diversas definições. ou seja. rejeita-se a validade da dicotomia high/low politics. cultura. Salientam-se também problemas de combate à pobreza. O Paradigma Pluralista é pertinente para o presente trabalho porque traz uma visão diferente das Relações Internacionais. podendo ainda haver uma identidade individual ou coletiva. uma vez que para a sua edificação. académicos. que acompanham o indivíduo. líderes. No campo das relações internacionais. Identidade ainda pode ser uma construção legal. problema de gestão de recursos naturais. Ela refere ao conjunto de valores 9   . presumida ou ideal. conflitos e vê o Estado como uma entidade desagregada. religiosos. direito. filosofia. género.2. religião. conforme o enfoque que se lhe dê. 2. sobretudo na questão dos actores.1. todas as instituições e cidadãos africanos.2. no período imediatamente a seguir ao fim da guerra-fria. cooperação. Ele privilegia e dá importância a outros actores não estatais e defende que a Agenda dos Estados é extensa e não é restrita à questões de high politcs e questões militares. formas de inserção social na sociedade.resultantes da interdependência cada vez crescente entre os Estados. precisa-se de todos os seguimentos da vida d continente africano: Estados. políticos. A identidade está associada à cultura. relações internacionais. Dá importância a outros assuntos que fazem parte do campo da vida internacional: economia. e portanto traduzida em sinais e documentos. falsa ou verdadeira. a questão de identidade e sua construção emerge com grande vigor nas relações internacionais. 265-267). sociologia.

ela pode ser adquirida de forma tácita ou de uma forma socialmente construída. um grupo. a identidade é socialmente construída seja de forma individual ou colectiva. abarca o campo político e é um factor fundamental para a construção de alianças. também. Teoria Essencialista: diz que a identidade é inerente a essência da pessoa humana. políticas. sociais. Os grupos têm as suas identidades de forma consciente e pré-concebida. o indivíduo nasce. No que concerne as formas de Construção da Identidade. uma sociedade ou uma nação. Através de valores e identificação com a sociedade. como é o caso da educação formal ou informal. constrói a identidade do indivíduo e da comunidade ou sociedade. 10   . religiosa.que congregam um indivíduo. através de meios formais. A multiplicidade de identidades é que ajuda a aproximar ou distanciar um determinado indivíduo. política. No debate sobre a construção da identidade. o grupo. harmonização de interesses e pode ser fundamental para a criação ou resolução de conflitos. a sociedade. religiosas. cultural. Do ponto de vista de análise de conflitos. Os conflitos identitários ocorrem com a influência de uma mão externa que funciona como elemento instigador. a nação. Ela é construída de uma forma vernácula e tradicional. Na Construção da identidade de forma tácita. A identidade. esta teoria é defendida pelo grupo de determinista e pessimista. Teoria Instrumentalista: diz que as identidades são fonte de conflito quando instrumentalizadas. A identidade pode ser: Social. dentro de uma determinada comunidade e as interioriza de forma natural e na construção da identidade via construção social. grupo ou nação dos outros. cresce e desenvolve as suas habilidades e capacidades culturais. que reparam para as diferenças como elementos propensos para a ocorrência de conflitos. há 3 grandes correntes ou escolas de pensamento: 1. 2.

Kassotche (1999:17)13 adverte que o processo de globalização é distinto dos processo de internacionalização e multinacionalização. Dick (1999). Globalização Segundo Sousa (2001:91). 2. cultural e até religioso. eclipsando termos como internacionalização e transcomunicação. O Colonialismo é caracterizado geralmente pelo povoamento e domínio económico. sociais.3. político. 2. Na sua essência envolve direitos desiguais e exploração deliberada. culturais e políticas a nível mundial. Por exemplo: os marginalizados e pobres são propensos a construírem protótipos contra os líderes e detentores do poder. social. Citado por Picasso (2003:60). Colonialismo De acordo com Sousa (2001:38-39). manutenção de poder sobre uma população subordinada e a separação do grupo dominante da população. uma forma particular de imperialismo. valores e interesses. foi forjado nas escolas de gestão americana e em França tem coo sinónimo o termo mundialização. Ele traduz o extraordinário desenvolvimento das relações económicas. Teoria Construtivista: defende que a identidade é algo que resulta da construção social. o termo globalização assumiu um homegenismo discursivo. 13 11   . Colonialismo é uma teoria ou prática de estabelece controlo sobre um território estrangeiro e transformá-lo numa colónia. Globalização serve para designar um movimento complexo de abertura das fronteiras económicas e de desregulamentação. mas reconhece ser difícil falar da                                                                Kassotche. a partir dos anos 1980. Maputo. Globalization – Fears of the Developing Countries: Reflections on the Mozambican Case.2.3.2. O Colonialismo é. então. de origem anglo-saxónica.2. Ele envolve a colonização de territórios estrangeiros. que permitiu as actividades económicas capitalistas estenderem o seu campo de acção ao conjunto do planeta. A construção da identidade está muito ligada a questão das necessidades. ISRI. o conceito de globalização. Picasso (2003:60) afirma que recentemente.

Roma. ready made. enquanto que o centro-sul. Para o presente trabalho. Abril. não só há uma necessidade de uma identidade africana.600. depois de percorrer savanas. habitam mais de 800 etnias negras africanas. político. social. onde é preciso evitar generalizações na avaliação de problemas assim como ao sugerir soluções. 12   . De uma maneira simplista. que África é um continente imenso e com situações muito diversas. Esta diversidade étnica leva-nos a afirmar com Paulo VI (1967:6) na sua Mensagem apostólica Africae Terrarum14. berberes e os tuaregues. Esta separação geográfica também reflectiu-se numa separação racial. a multinacionalização. Em África. mas também uma nova procura de Estado. IDENTIDADE AFRICANA O continente africano limita-se ao norte pelo Mar Mediterrâneo. pelas potências colonizadoras. pela lógica de produção globalização. uma vez que trazem consigo o fenómeno da ruptura de fronteira crescente interdependência no campo económico. No norte do continente habitam os árabes. No seu entender. a internacionalização e dominado pela lógica de trocas.globalização sem considerar estes dois processo. é ocupado pela floresta tropical africana. a globalização abarca todos os elementos e fenómenos apontados pelos dois autores. ao oeste pelo Oceano Atlântico e ao leste pelo Oceano Índico. Vaticano. podemos dividir em duas zonas absolutamente distintas: centro-norte que é dominado pelo imenso deserto de Sahara (8. sendo esses dois últimos os que praticam o comércio transahariano. pela lógica da inovação.000 Km2). N˚ 4. uma vez que no continente. citada por João Paulo II (2000) na sua Exortação Pós Sinodal Sobre a Igreja em África. a                                                                14 L’Observatore Roamano (1994). No centro-sul. 3. cultural e até religioso. mas sim foram importados. Relatio Ante Disceptationem. os Estados não nasceram da dinâmica interna.

por sua vez. Mas o continente ainda carece de verdadeiros líderes como os que idealizara a libertação do continente. Um dos líderes africanos perguntou: o que é ser africano? Mas para sabermos que nós somos.1. há um exemplo extraordinário. a fraqueza das instituições e a falta de uma liderança interessada no assunto fragilizam o continente quando posto a prova com o fenómeno da globalização. não se consegue construir a paz no Darfur. 3. onde apesar dos acordos assinados. A falta de uma identidade africana consolidada. crescente interdependência e outros elementos identitários de outras culturas que põem em causa a identidade africana. porque não existe um sentido de identidade nacional nem um sentido de identidade comum em as partes conflituantes. os meios de informação para a consciencialização da necessidade da edificação de uma identidade africana autóctone. 2008:42-43). mas o caminho parece estar na mobilização da sociedade. que. a identidade individual.Após muitos anos de independência de vários Estados africanos. (Sesana. pensar que África possa um dia erguer-se das sequelas do passado colonial será sempre uma utopia. presente e futuro. onde estamos e para onde vamos? Essas três perguntas nos remetem a uma reflexão existencialista. É o que está a acontecer no Sudão. ou melhor. a identidade colectiva e o Estado são dois elementos importantes que devem existir antes de falar de uma identidade africana na escala continental e são elementos indispensáveis para a resolução de conflitos. como Nelson Mandela. Se não se mudar a dinâmica e o comportamento africano face a estes fenómenos. depois há um vazio enorme. Identidade Africana e o Colonialismo 13   . nos remete as três dimensões do tempo: passado. é importante perguntar: de onde viemos. o cidadão. não há uma receita fácil. Na Conferência Internacional sobre Cursed by Riches: Resourses and Conflicts in Africa realizada em Nairobi (2007) decidiu-se que para criar uma identidade africana ou qualquer que seja.

Esta unidade foi fomentada pelo Panafricanismo e pela Negritude. Essa ideia romântica do passado alimenta a ideia redutora e simplista de uma condição presente maravilhosa se não fosse a interferência exterior e que os únicos culpados dos problemas africanos devem ser procurados fora e nunca dentro. duma ou doutra forma. com o fim dos impérios coloniais em África e o advento das independências. Se havia uma instabilidade interna é porque ela vinha de fora. Identidade Cultural Africana e as Independências Segundo Pinto (2008: 223). cultural e até religioso. que era o lugar onde o inimigo morava. a falta de uma identidade comum. segundo Fanon (1961). É neste contexto de definição da ameaça e busca da unidade contra o inimigo comum que a identidade começa a ser objecto de debates e discussão. criou um complexo de inferioridade a cultura africana postulando a valorização dos hábitos e costumes europeus como sinal de progresso e igualdade.2. (Couto. Esta visão estava presente no discurso e decurso das lutas de libertação em África. pós em causa a identidade africana. que deram o impulso inicial para o debate a respeito da identidade africa. social. porque. com o processo das lutas de libertação pelas independências. Os poucos maus de dentro é porque foram instrumentalizados pelos de fora. Esta preocupação pela criação de uma identidade africana estatal e continental emerge. juntamente. sem conflitos nem disputas. Depois de 50 anos de independência dos Estados africanos. Em África. não tinha sido superada e constituía uma preocupação. 2003: 92-102). 14   . político. persiste a ideia de que África pré colonial era um universo intemporal. Se olhamos para o passado. as etnias esqueceram-se das suas diferenças e centraram-se na tarefa de libertação contra o colono. o domínio colonial. 3.O Colonialismo é caracterizado geralmente pelo povoamento e domínio económico. um paraíso feito só de harmonia. Por alguns momentos. a pergunta que aparece é: O que fomos? Uma grande parte da visão que temos do passado do nosso continente é ditado pelos pressupostos que ergueram a história colonial e a história colonizada.

entre outros. Essas ideias de carácter alienante provocaram nos intelectuais negros do século XX a 15   . Fantz Fanon. A luta pela autodeterminação da população colonial negra trouxe ao cenário político-cultural do continente africano dois elementos importantes: o movimento de negritude e o Panafricanismo. nesse sentido a valorização de suas manifestações culturais tornam-se essenciais na luta contra o racismo. O movimento de Negritude nasce em meio à necessidade dos europeus. de manifestar a suposta inferioridade dos negros. Aimé Cesaire. 1997:19). Na obra “Os Condenados da Terra”.1. Negritude e o terceiro mundo não alinhado. a Negritude foi promovida pelos escravos das Antilhas francesas e movimentos de estudantes e literários de Paris. (Adilson. Fanon (1961) escreve sobre o complexo de inferioridade que se instalou na cultura africana e contra a valorização dos hábitos e costumes europeus como sinal de progresso e igualdade. Julius Nyerere. 3.Um grupo de factores internos e externos contribuíram para a ideia da necessidade de formação da identidade africana no período colonial e depois das independências africanas. no período colonialista iniciado no século XV. 2006). Edward blyden. Nkrumah. "Cahier d'un retour au pays natal". contribuíram para a formação da consciência africana em torno da necessidade desenvolver uma identidade própria e livre a influência externa. (Appiah. desvinculando-os de qualquer capacidade intelectual por serem supostamente primitivos. Senghor. em 1938. Negritude Tendo como princípios a valorização da identidade e da humanidade dos negros. nomeadamente: Panafricanismo. O filósofo africano Kwame Appiah ressalva que ideologias como o Panafricanismo e a Negritude defendiam e (re)significavam a identidade africana. o negro é feito de emoção (elemento essencial em sua constituição). no seu livro de poemas. O termo "Negritude" aparece pela primeira vez escrito por Aimé Césaire. Segundo Léopold Sédar Senghor (senegalês). maior representante desse movimento. Sekou Touré.2.

a Negritude afirmava que o homem negro era tão homem quanto qualquer outro. No Brasil foi divulgada amplamente por Abdias Nascimento. o movimento Negritude recebeu críticas. Luís Dario.necessidade de combater essa visão. sendo considerado conservador e de “confirmação da teoria racista das diferenças genéticas”.2. Inicialmente. Revista da Fapa. Segundo Ribeiro (2001: 82-84)15. para todos os africanos. os negros poderiam passar a aceitar o preconceito. entre outros. tanto na África como em diáspora. o movimento representou um ato político de luta pela afirmação e independência africana. na Conferência de Londres. o Panafricanismo é um movimento político. tomou a feição duma simples manifestação de solidariedade fraterna                                                                15 16 Ribeiro.2. às quais os que empunhavam a Negritude queriam ser fiéis. Marcus Mosiah Garvey. intelectuais e materiais das populações submetidas ao colonialismo. Depestre. No contexto da descolonização. Assim. O Panafricanismo Segundo a Enciclopédia Universal Multimédia (1999). um “racismo às avessas”. René. 3. O termo surgiu pela primeira vez em 1900. filosófico e social que promove a defesa dos direitos do povo africano e da unidade do continente africano no âmbito de um único Estado soberano. e posteriormente levados para a arena política por africanos como Kwame Nkrumah. A teoria panafricanista foi desenvolvida principalmente pelos africanos na diáspora americana descendentes de africanos escravizados e pessoas nascidas na África a partir de meados do século XX como William Edward Burghardt Du Bois16. mesmo tendo influenciado directamente os processos de libertação da África. Nº 33. (2001) Descolonização da Ásia e da África. citado por Adilson (2006). e que havia realizado obras culturais de valor universal. (2008) Bom-dia e Adeus à negritude. Segundo esses intelectuais. O Panafricanismo caracterizou-se como um movimento cultural que buscava a igualdade de direitos e a melhoria das condições morais. 16   . Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Rio Grande do Sul.

levou essas sociedades a uma ruptura com o sistema. sociólogo negro dos Estados Unidos. em parte responsável pelo surgimento da Organização de Unidade Africana. inclusive influenciando e potencializando as diferenças tribais que permanecem na actualidade. que explorou esse cenário de tribalização. Relativamente popular entre as elites africanas ao longo das lutas pela independência da segunda metade do século XX. apareceu como um movimento racial. Esse problema foi potencializado pelo processo de colonização europeu. como um movimento cultural e como um movimento político. elas foram inseridas no sistema com um papel periférico e excludente. o Panafricanismo enriqueceu a luta de libertação da África. o que dificultou a construção de uma identidade africana na segunda metade do século XX. o continente africano entrou no século XXI ainda sobre a égide da exclusão. políticos e económicos. resultado de séculos de exploração e preconceito.E. Em sua longa evolução. Basicamente. O Panafricanismo é uma ideologia que propõe a união de todos os povos de África como forma de potenciar a voz do continente no contexto internacional. Os países surgidos da descolonização na África não receberam investimentos que desenvolvessem as economias locais e melhorasse a vida das populações.entre africanos e pessoas de ascendência africana das Antilhas Britânicas e dos Estados Unidos da América. entre os descendentes dos escravos 17   . Nesse sentido. Perante as economias globalizadas. Dubois. de forma alguma. Na verdade. Seu principal representante foi W. a ideia de uma união de todas às nações africanas teve como obstáculo a diversidade étnica e cultural do continente (várias Africas). O processo de descolonização difuso e subordinado jogou os povos africanos em gravíssimos problemas sociais. assumindo um carácter anti-imperialista e aproximando-se do socialismo. O processo de descolonização da África trouxe a emancipação política para muitas colónias mas. Os recursos foram espoliados. a produção de subsistência foi desestruturada e não ocorreu uma industrialização que lhes garantisse autonomia económica.B. o Panafricanismo tem sido mais defendido fora de África.

africanos que foram levados para as Américas até ao século XIX e dos emigrantes mais recentes. por exemplo. divididas pelas imposições dos colonizadores. a afirmação do que somos está baseada em inúmeros equívocos. a mandioca. Ibid. o presente desagua em nossas vidas de forma incompleta. nos deparamos com a pergunta: Quem Somos? Mas se o passado nos chega de forma deformada. porque para além da sua origem. O coco é indonésio. a mandioca latino-americana. a manga. buscamos a nossa identidade. Todos estes produtos foram introduzidos em Moçambique e em África. mas é moçambicana pelo modo como a amarramos. Identidade Africana e a Globalização Com o fenómeno da globalização e crescente interdependências dos povos. 1997:53). Mas o que é verdadeiramente nosso? Muitos acreditam que a capulana. mas o prato que preparamos é nosso. Valorizavam a realização de cultos aos ancestrais e defendiam a ampliação do uso das línguas e dialectos africanos. porque cozinhamos à nossa maneira. a capulana pode ser do exterior. a goiaba. Eles propunham a unidade política de toda a África e o reagrupamento das diferentes etnias. Por exemplo. Ao analisarmos o presente. Ao olharmos para o futuro. a papaia são produtos moçambicanos. Este aspecto traz consigo a ideia da aculturação e que nenhuma cultura ou identidade está isenta de aspectos de outras culturas. a pergunta que nos aparece é: o que pretendemos ser? O futuro é incerto e vários fenómenos põem em causa essa busca de identidade. proibidos ou limitados pelos europeus. o caju. (Monteiro.). “não é possível pois conceber uma cultura tão isolada que não tenha nenhuma espécie de relação com as outras”. 3. Para colmatar essa deformação. Mas segundo Couto (2003. porque acredita-se que a afirmação da identidade nasce da negação da identidade dos outros.3. devido a crescente 18   . lhes demos a volta e as refabricámos à nossa maneira. Mas estas coisas acabam sendo nossas.

A identidade nacional é o pressuposto político e jurídico que tem acompanhado o processo de formação do Estado-Nação. mas o fenómeno tem efeitos multiplicadores. Em Moçambique. no Quénia e em quase todos os países africanos. nos países africanos. Ora. Segundo Maina Kiani. 2003). onde a demagogia fácil continua a substituir a procura de soluções. (Sesana. em África cresce o sentimento de que a globalização oferece oportunidades múltiplas para o continente. para além das diferenças tribais. territorial. Há por vezes um certo cinismo. os cidadãos não têm uma mesma e verdadeira identidade nacional. Segundo Picasso (2003:63-64). religiosa. diz o professor congolês Ernest Wamba. da 19   . Devido ao processo de globalização. Mas o futuro a nós pertence. Poucos acreditam naquilo que propalam. de modo a que o continente tenha uma identidade apesar das suas diferentes culturas. ao promover o nacionalismo. porque faltou a conquista de uma identidade nacional e por conseguinte não se desenvolve uma vida política democrática liberal multipartidária. no sentido de: Desperta aos povos africanos a consciência de que os problemas relativos ao bemestar das populações. África corres risco de ser um continente esquecido e secundarizado pelas estratégias de integração global. (Couto. o pressuposto para ser verdadeiramente livre e viver uma democracia real é a identidade.interdependência e aculturação dos valores de outras culturas devido a globalização e os seus efeitos. por exemplo. bastando fazer opções certas e corajosas. Se olharmos para Moçambique e Quénia. 2008:42). Chefe da Delegação dos Direitos Humanos do Quénia. incluindo identidade linguística. ao aumento do nível e da qualidade de vida das populações. o único factor que pode ser considerado determinante para a formação da identidade nacional é o factor histórico: a luta pela independência. Outro caso típico. é a República Democrática do Congo que nunca foi uma república nem uma democracia. política. O discurso da grande parte dos políticos são incapazes de compreender e entender a complexidade da condição identitária dos povos. a independência não foi totalmente real.

o processo da construção social. Promove e forja uma identidade africana e um sentido de destino comum entre os povos africanos. tribo. No continente africano existe várias identidades e a tentativa de criação de uma identidade africana pode ou não ser problemática. sejam enfrentados a partir da base. Esta realidade emerge como resultado de uma ameaça externa (globalização) e da necessidade de fazer face aos desafios trazidos por este fenómeno. A globalização vai para além das fronteiras nacionais e a família clã. cidadania global. de acesso ao mercado internacional. Mas isso depende da capacidade de manter em diálogo entre os diferentes segmentos identitários dos diferentes países.justiça social. devem ser tratados conjuntamente num ambiente de unidade e espírito de concórdia. raça de um país ou continente. religião. entre outros. de forma participativa e com os meios específicos e produzidos pelos próprios africanos. economia global. diz que a globalização traz outras categorias que se impõem igualmente globais: o mundo como aldeia global. são comuns. Mazula (2001). de segurança. Desafios Para a Criação de uma Identidade Africana. Contribui para que os problemas africanos. etnia. Temos duas possibilidades: recour a notre autentité ou retour a notre autentité. da paz e desenvolvimento. 20   . Estado global. o aumento de poder no sistema internacional. acesso ao capital. mas do que nunca. mercado global. de dívida externa. O processo de aculturação faz das identidades algo heterogéneas. Face ao processo de globalização e constante contacto entre as culturas.4. 3. vários desafios são apresentados às culturas e as suas identidades e a cultura e identidade africana não escapa essas influências. articulando as experiências sócio-culturais locais dos povos e os conhecimentos empíricos sobre cada caso específico. apoiados pelo construtivismo que postula que o mundo é algo socialmente construído. Confrontados com esses fenómenos e as nossas fragilidades. citado por Picasso (2003:62).

não obstante que tenham elementos culturais e identitários de outras culturas. Por exemplo: a índia possui uma multiplicidade de línguas e castas. Sendo assim. respeitando a heterogeneidade continental que se manifestam nas várias etnias que existem nos diversos países africanos. com várias identidades. É imperioso que os africanos sejam eles mesmo. que sejam eles mesmos. 3.política. religiosos. ou seja. Para que isso aconteça é imperioso recorrermos aos postulados do puralismo que advogam a pluralidade dos actores. sendo outros. Para tal é preciso recorrer aos valores positivos da cultura africana. com responsabilidade. economistas. da erosão da criatividade e da ausência interna e internacional de debates a esse respeito. líderes. porque a maior pobreza provém da falta de ideias. académicos. associar esses valores aos valores positivos das outas culturas e civilizações. ou seja. económica. Desde o período colonial. A multiplicidade linguística e religiosa são obstáculos à formação de uma identidade africana real. devemos criar a nossa própria história e a nossa própria identidade. Os africanos devem elevar a sua dignidade e coragem e sentirem que são capazes de superar as condições adversas e edificar uma identidade cultural. todas as instituições e cidadãos africanos. inventar novos paradigmas de integração identitária e. construção e consolidação da identidade africana é um desafio de todos os seguimentos da vida do continente africano: Estados. Papel dos Líderes na Construção da Identidade Africana N construção da identidade africana. vários líderes africanos e descendentes de 21   . Tendo em conta que África é uma continente heterogéneo no campo étnico. Esta multiplicidade deve ser olhada como sendo um valor positivo. políticos.5. o que não acontece com a realidade africana. criar um novo olhar para analisar a realidade africana. mas encontrou no Hinduísmo a sua identidade. é importante construir uma identidade continental homogénea. axiológica e religiosa da identidade africana cabe a todos os africanos. a liderança tem vindo a desempenhar um papel fundamental e crucial.

No período de afirmação. Os ecos de Langston Hughes. declarava: "Naturalmente. no período de afirmação “os homens de cultura africana falavam mais de cultura africana do que de cultura nacional” e. Segundo Gomes (1985). Estes tiveram grande influência de africanista da diáspora. Burghardt Du Bois. Sylvester Williams. Seguindo-se à proposta da “personalidade africana” (african personality. representaram um estímulo para o indigenismo haitiano. um homem que há mais de meio século militava pelo Panafricanismo. E. Harlem Renaissance. Senghor. Juluius Nyerere. H. o Dr. Segundo Fanon (1961:207-209). a África é a minha pátria. para os estudantes antilhanos reunidos em torno da revista Légitime Défense e para os poetas que iriam expressar o projecto da négritude. 1893) por Blyden (descendente de escravos oriundos do Togo) em congresso de Freetown (1900). Participante do evento. a fim de suscitar um movimento de solidariedade a favor dos negros colonizados. organizou a Primeira Conferência Panafricana. advogado de Trinidad e Tobaco. na diáspora." Em 1897. no decorrer do Congresso de Londres. Um grupo de líderes como Nkrumah. Sékou Touré. Countee Cullen e Richard Wright (romancista) também iriam chegar aos poetas da África de língua portuguesa. Du Bois já afirmava: "Se o Negro devesse um dia desempenhar um lugar na história do mundo. seria graças a um movimento pan-negro. entre outros desempenhou um papel muito importante. W. fizeram grandes esforços para criar a consciência da liberdade africana e da necessidade de criar uma identidade africana autóctone. negro americano. Muguiba Keita. a literatura se propunha como “literatura de negros” ou do “mundo negro”. o intelectual africano era guiado por uma postura de adesão à condição do homem negro e seu mundo mental tinha por base os traços comuns das culturas africanas. os autores do Renascimento Negro. que precede a luta de libertação nacional. Essa postura fraterna antecedeu a viragem decisiva para o aprofundamento na cultura nacional e a eclosão da luta armada.africanos." 22   . por exemplo.

sobretudo. em 1905. porém. contrabalançava os próprios Africanos a influência dos Negros americanos. no Congresso Panafricano de Manchester. em 1927. destacou-se como voz de protesto contra a política imperialista na África. brancos. tornava-se a viga mestra dos congressos panafricanos que se realizaram sucessivamente em Paris em 1919. sintetizando as preocupações de Du Bois e de seu grupo. tudo isto no quadro de uma opção socialista ou socialista-marxista. Os temas antiimperialismo e anti colonialismo eram discutidos e. presidido por Du Bois. no quadro da Associação Universal para a Promoção dos Negros lançou a palavra de ordem de "regresso à África". A vida tempestuosa de Garvey foi marcada pela prisão e acabou obscuramente em Londres. E imaginou um Paraíso em que os anjos eram negros e os demónios. em Londres Lisboa em 1923 (em Portugal. que como ele. marcadamente racial. de que se proclamava presidente provisório. e exerceu influência 23   . Não hesitou em colaborar com os racistas do Ku Klux Klan. W. preconizavam que os Negros americanos fossem mandados para a África. Isso se confirmou. depois da segunda guerra mundial. explicitamente reivindicada a independência nacional. mas por razões inversas.B. a Associação Nacional para a Promoção das Gentes de Cor (base do "Black Renaissance"). Marcus Garvey. Pela primeira vez. jamaicano truculento que considerava a pele do mestiço Du Bois demasiado pálida para um negro. a ideia pan-negrista tornava-se uma reivindicação política. O Manifesto do Movimento do Niágara. em que era nítida ainda a predominância dos anglófonos. Aquele. uma Liga Marítima da Estrela Negra. Garvey devotou-se febrilmente à criação de organismos que concretizassem a ideia à qual se dedicara profundamente: um império racial africano.Por sua vez. que fundara. doutor em Filosofia e historiador cujos trabalhos revelaram aos companheiros negros um passado africano do qual se deviam orgulhar. por seu lado. em Londres e Bruxelas em 1921. Du Bois (nascido em 1863 e considerado o pai do Panafricanismo contemporâneo). pela primeira vez. desde 1912. De início. um Parlamento Negro. em Nova Iorque.E. fundara-se a "Junta de Defesa dos Direitos de África”). em favor das independências. em 1900. proclamou a "igualdade absoluta entre todos os cidadãos brancos e negros".

o direito ao emprego.considerável sobre personalidades como Asikiwe Nandi. sociólogo e doutor em medicina. ficamos muito felizes. criadores da nova geração negra. inimigo ferrenho da assimilação e defensor das contribuições das culturas negras para a civilização mundial. pois sabemos edificá-los. o tantã ri. Seu livro Almas Negras (1903) tornou-se modelo para os intelectuais do movimento do Renascimento Negro (entre 1920 e 1940). mas esta heterogeneidade dever ser vista como sendo uma rica variedade de valores culturais e deve ser vista como uma estimável qualidade humana que pode favorecer o progresso da humanidade inteira. Na literatura. 24   . Du Bois exerceu também profunda ascendência sobre escritores negros americanos. sendo considerado a declaração de independência do artista negro: Nós. GENERALIZAÇÕES FINAIS África é um imenso continente que possui uma heterogeneidade étnica enorme. o romance Batouala (1921). E feios também. O humanista Jean Price-Mars. pouco importa. de 23 de Junho de 1926. ficamos felizes. o movimento glorificava a sua cor. foi um dos grandes inspiradores de Léopold Sedar Senghor. Defendia a origem africana. Se isso agrada à gente de cor. à igualdade. tanto faz. O tantã chora. O importante é ter a capacidade de manter em diálogo entre os diferentes segmentos identitários dos diferentes países africanos. É para o amanhã que construímos nossos sólidos templos. Kwame N‘ Krumah. futuro presidente da Nigéria. Sabemos que somos bonitos. Se não. livres dentro de nós. ao respeito e propugnava ainda pela assunção da cultura. Se não. Se isso agrada aos brancos. notabilizou-se à época como o Pai do Panafricanismo cultural. do martiniquenho René Maran. propunha-se como um libelo contra a colonização francesa na África. primeiro presidente da República de Gana (para quem o Panafricanismo foi uma das ideias-força) e Jomo Kenyatta. e estamos erguidos no topo da montanha. haitiano. ao amor. Diplomata. Esse programa foi revelado na revista The Nation. queremos exprimir nossa personalidade sem vergonha nem medo. Reagindo contra os estereótipos e preconceitos que circulavam a respeito do negro. primeiro presidente da República do Quénia. historiador.

A compreensão da identidade africana não é tarefa fácil. os vários desafios apresentados à identidades africana devem ser enfrentados recorrendo aos valores centrais da identidade africana. tendo em conta a heterogeneidade étnica do continente africano e as influências das outras culturas e civilizações é imperioso que os africanos sejam eles mesmo. sendo outros. criando autonomia e liberdade continental. Com a globalização e constante contacto entre as culturas. não obstante que tenham elementos culturais e identitários de outras culturas. o respeito e amor pela vida e pelos antepassados. 25   . a vida comunitária e a herança tradicional que privilegia o colectivo. a solidariedade. devem ser o móbil para a construção da identidade africana. a rejeição da ideia de aniquilar a vida. Neste processo. o valor da família. O colonialismo influenciou negativamente na identidade africana. porque criou um complexo de inferioridade que se instalou na cultura africana e contra partida postulava a valorização dos hábitos e costumes europeus como sinal de progresso e igualdade. em vez do individualismo. que sejam eles mesmos. O Panafricanismo. sem civilização e que os povos africanos nada deram à Humanidade é falaciosa. no período da transição do colonialismo para as independências. O Panafricanismo e a Negritude foram o ideal em torno do qual a identidade africana foi forjada.Os valores positivos africanos: o sentido do sagrado e do espiritual. sem cultura. A ideia de que o continente africano é uma área sem história. Foi uma construção necessária para gerar o orgulho da raça negra. a Negritude e outros elementos constituíram um grupo de factores internos e externos contribuíram para a ideia da necessidade de formação da consciência de uma identidade africana no período colonial e depois das independências africanas. porque o continente africano é fragmentado em inúmeras etnias que ainda não se encontram na paz e harmonia social. ou seja.

Lisboa. Igreja em África: Exortação Pós-Sinodal Sobre a Igreja em África e a Sua Missão Envangelizadora Rumo ao Ano 2000. Revista África e Africanidades. Helenise da Cruz e António Carlos Lima da Conceição (2010). Janeiro. Panafricanismo e a Descolonização Excludente aa África Pós 1945. Lakatos. Lopez. Metodologia Científica. Evaria Maria e Marconi (2009). N˚3. Couto. Negritude. A construção da Identidade Afrodescendente. Vol. Huntington. Paulo. História Contemporânea de África: desde 1940 Hasta Nostros Dias – De Nkrumah a Mandela. Edições Ulisseia. Ano 2. Paulo. Edição Revista e Ampliada. João Paulo II (1995).Rio de Janeiro. Ano LI. Na casa de Meu Pai. 72. S. 26   . Lisboa. Lisboa. Frantz (1961). Edições Atlas. Conceição. N˚566. Samuel (1993). Appiah. Mia (2003). Dougherty. Plur. José Luis Cortés (2001). Nº 29. Um Estudo Detalhado. James e Robert Pfaltzgraff (2003) Relações Internacionais: As Teorias em Confronto. (2006). Publicação Mensal. Vaticano. N˚ 8. Comboniano. Foreign Affairs. Edições Gradiva. Madrid. S. (1997). Rede Pública Estadual. Além-Mar.BIBLIOGRAFIA Adailson. Revista Espaço África. A Fronteira da Cultura. Os condenados da terra. 5ª Edição. 2ª Edição. Ediçõs Contraponto. Missionários (2008). Fevereiro. The Clash of Civilization. Setembro – Novemro. Editora Mundo Negro. São Paulo. Fanon. Kwame Anthony.

Dictionnaire des Relations Internationales. ELSEVIER. Brasil. Florianópolis. Setrmbto – Fevereiro. Brasília. Marie Claude. Universidade de São Paulo. II. Sesana. Silva. Editor Ministério de Negócios Estrangeiros e Cooperação de Moçambique. Renato Kizito (2008) Recursos e Conflitos. Éditions Dalloz. A Construção da África: Uma Reflexão Sobre a Origem da Identidade do Continete. Paula (1997). Picasso. S. Ano LI. Globalização. Revista Missionária Além-Mar. Simões Rodrigues Martins (2008). Ventura. Paris. Identidade e Diferença. Lisboa. Vol. Mensagem Apostólica. UNIP. Lisboa. 27   . Africae Terrarum. Pinto. AAS. Smouts. N˚003. Vaticano. Dario Battistella e Pascal Vennesson (2003). Revista Novos Estudos N˚ 49. Maputo. Centro Universitário Moura Lacerda e Faculdades. 3ª Edição Revisada .Montero. João Pontes e Nizar Messari (2005) Teoria das Relações Internacionais. Nº566. Centro Universitário UNI-FACEF. CEBRAP. Revista Electrónica Acolhendo a Alfabetização nos Países de língua Portuguesa. Editora Campus. Fernando (2005). Da Organização da Unidade Africana à União Africana: Percursos. Edna Lúcia e Estera Muszkat Menezes (2001) Metodologia da Pesquisa e Elaboração de Dissertação. Nogueira. Sousa. Universidade Federal de Santa Catarina. Paulo. Rio de Janeiro. Carla Arena (2002) A Abordagem Sistémica da Teoria Pluralista das Relações Internacionais: O Estudo de Caso da União Europeia. Janeiro. COC. Edições Afrontamento. Lições e Desafios. Paulo VI (1967). Dicionário de Relações Internacionais. Correntes e debates. 3ª edição. Tomé (2003).

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful