Instituto Superior de Relações Internacionais – Maputo Dia Internacional de África Maputo, Maio de 2010

Autor: Emílio Jovando Zeca1
“O Panafricanismo, concebido no final do século passado e o movimento da Negritude no séc. XX, enquanto conceitos político-culturais globais de exaltação da personalidade africana e pleito pela causa do homem negro tiveram, no pós-guerra, grande repercussão por toda a África, pois foram os rastilhos que incendiaram a consciência dos nacionalismos africanos. Neles, cultura e revolta estiveram estreitamente associados e o seu sucesso foi tanto maior quanto os seus arautos possuíam a cultura e a língua do colonizador e as utilizaram como armas contra o próprio colonizador (...)”.
Manuel dos Santos Lima resume In “Humanismo africano e humanismo ocidental”

Tema:

A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE AFRICANA E OS LÍDERES MAIS REPRESENTATIVOS DESTE PROCESSO.
1. INTRODUÇÃO 1.1. Delimitação Espaço-Temporal O presente trabalho de pesquisa tem como delimitação espacial o Continente Africano. O horizonte temporal abarca o período que vai desde o início da década de 1960, chamado ano de África, porque vários Estados Africanos começaram a alcançar as suas independências e os nossos dias, período em que se busca uma identidade africana. 1.2. Contexto O presente artigo sobre a Construção da Identidade Africana e os Líderes Mais Importantes enquadra-se no contexto da tentativa de criação da identidade africana onde encontramos
                                                              
Estudante do 4˚ Ano do Curso de Relações Internacionais e Diplomacia, Bacharel em Filosofia e Bacharel em Relações Internacionais e Diplomacia pelo Instituto Superio de Relações Internacionais e Diplomacia.
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elementos como as independências africanas e consequente do fim dos impérios coloniais em África; da guerra-fria da intensificação do processo de regionalização; da globalização e da crescente interdependência entre os Estados que resulta das multifacetadas dinâmicas, tecnológicas e a própria consciência do tempo e do espaço; de uma nova ordem mundial do pós guerra-fria e conflitos intra estatais, identitários e nacionalismos. O contexto do trabalho envolve todos aspectos acima arrolados. 1.3. Problematização África é um imenso continente e possui uma enorme heterrogeniedade étnica, pelo que é preciso evitar generalizações tanto na avaliação dos problemas como ao sugerir soluções. África possui uma rica variedade de valores culturais e de estimável qualidade humana que pode favorecer a humanidade inteira. Os Bispos Católicos Africanos, no Sínodo dos Bispos Africanos apontam os seguintes valores positivos africanos: o sentido do sagrado e do espiritual, o valor da família, o respeito e amor pela vida e pelos antepassados, a rejeição da ideia de aniquilar a vida, a solidariedade, a vida comunitária e a herança tradicional que privilegia o colectivo, em vez do individualismo, (Sínodo dos Bispos de África, 1995:47). Durante muito tempo, o continente africano foi visto como uma sociedade sem história, sem cultura, sem civilização. Na sua obra “Filosofia da História” (1830), Hegel declara que África não é parte da história do mundo, não tem movimentos nem progressos históricos próprios dela, porque nela não houve a manifestação do Espírito Absoluto. Em 1957, Padre Gaxott escreveu: estes povos2 nada deram à Humanidade. Hantington (1993:22), no seu artigo “The Clash of Civilizations?”, ao dizer que o mundo pós guerra-fria será multipolar e multicivilizacional onde os blocos de países serão reunidos segundo a identidade cultural e a partir da interacção de sete ou oito civilizações: ocidental, confuciana, japonesa, islâmica, hindu, eslavo-hortodoxa, latino-americana, e, possivelmente africana. Esta visão do autor mostra um certo cepticismo e põe em causa a existência de uma civilização africana.
                                                              
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Estes povos referem aos povos africanos.

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da acção. do ser e dos valores. o continente está sendo influenciado pelo processo da globalização e regionalização. Jules Lachelier. democratização e inserção internacional. ocidentalização e está experimentando a modernização. da deontologia e da escatologia. verificamos que estão assentes no desenvolvimento espiritual e metafísico e não material. tendo em conta o fenómeno da globalização: recour á noutre authentité or retour á noutre authentité? 3   . estamos perante um desenvolvimento espiritual da vida. em causa a sua identidade. Emile Bouttroux e os Neotomistas. Nos nossos dias. deontologia e escatologia. Charles Renouvoir. Quando olhamos para matriz conceptual e axiológica da realidade africana. como o Mundo Ocidental. às vezes simultaneamente. da vontade. buscando uma saída para um lugar no seio da ordem internacional. que duma ou doutra forma põe. historicamente. mais esteve próxima às tentações de interpretações apaixonadas acerca das relações entre passado e futuro. ideias também defendidas por Espiritualistas Ocidentais como Maurice Blondel. urge questionar: como construir uma identidade africana se é que ela ainda não está construída? Como consolidar a identidade africana construída ao longo do tempo pelos líderes africanos? Qual deve ser a posição do africano. apelando para actividade espiritual não redutíveis à razão e a elas atribuindo um alcance metafísico. isto é. Sendo assim. o continente africano segue sendo um lugar para o teste da razão crítica contra o monumento de preconceitos que foram erigidos pela fraca ciência e pela opinião desinformada. Félix Ravisson. vemos que ela esteve sempre assente na teleologia. a capacidade de colher as profundezas e a essência da vida e do real. África é uma das regiões do mundo que. na construção da sua identidade. com uma identidade política. não obstante que África ainda ocupa um lugar marginal nas relações internacionais e ainda é ofuscada devido ao egoísmo e ambição de uns e erros de outros. da intuição.Ao olharmos para as bases da axiologia africana. económica. cultural e religiosa própria. Henri Bergson. Escrutinada sob as ópticas da teleologia.

Objectivos Específicos 1. (1999). 1.1. Método Histórico: segundo Lakatos (2007:106-107) este método foi desenvolvido por Boas. 4   . António Carlos. Método Analítico: este método permitiu fazer uma análise sobre os tipos de desafios que a que serão enfrentado no processo da criação e consolidação da identidade africana. Trazer os desafios para a criação de uma identidade africana tendo em conta a globalização. citado por Silva e Menezes (2001:23).                                                                3 Gill.4. Ele consiste em investigar os acontecimentos. 2. Revistas e Artigos Científicos. Técnica Documental: segundo Gill (1999)3. O método fazer uma reflexão sobre a origem e da identidade africana. Objectivo Geral 1. Como Elaborar Projectos de Pesquisa. 3. Reflectir sobre a possibilidade da criação e consolidação de uma identidade africana. permitiu fazer a busca e a selecção de fontes secundárias que tornaram possível o desenvolvimento do trabalho tais como: Obras. pois as instituições alcançaram sua forma actual através de alterações de suas partes componentes. e tem influenciado o presente e futuro da identidade africana. Verificar até que ponto colonialismo. processos e instituições do passado para verificar a sua influência na sociedade de hoje.5. 3. Verificar até que ponto a diversidade cultural dos Estados africanos pode contribuir ou não para a edificação de uma identidade africana. Edições Atlas.6. Neste trabalho. SãoPaulo. Metodologia do Trabalho Para fazer o trabalho foram utilizados os seguintes métodos e técnicas: 1. 2. o Panafricanismo e a Negritude influenciam o passado. 1. esta técnica consiste na recolha de dados sobre o tema de pesquisa.

pode ter influneicado negativamente na construção e consolidação da identidade africana actóctone. Apresentar os líderes mais importantes e o seu papel no processo da criação da identidade africana. Referencial Teórico 5   .8. Qual foi e tem sido o papel dos líderes africanos no processo da criação da identidade africana? 2. no período do fim dos impérios coloniais. Em certa medida. A tentativa de identificação de uma identidade africana. Como o colonialismo influenciou o passado. O colonialismo. 4. 2. Até que ponto a diversidade cultural dos Estados africanos pode contribuir ou não para a edificação de uma identidade cultural africana? 3. Hipóteses 1. foi influenciada pelo colonialismo. Quais são os desafios para a criação de uma identidade africana tendo em conta a globalização e a criação dos Estados Unidos de África? 4. Os líderes africanos. Panafricanismo e Negritude. Questões de Pesquisa 1. nos últimos tempos. 1. influenciaram na construção da identidade africana e têm vindo a influenciar na consolidação da mesma.7. a necessidade de construção de uma identidade africana. 1. REFERENCIAL TEÓRICO E CONCEITOS BÁSICOS 2.1. tem sido influenciada pelo processo da globalização. contribuíram. e tem influenciado presente e futuro da identidade africana? 2.4. 3. em parte. com o sistema de assimilação.

O objectivo em trazer os títulos dessas duas contribuições originais é destacar a premissa básica da teoria: vivemos num mundo em que construímos. nem na capacidade de influenciar o outro. Anarchy is What States Make Of It. a teoria construtivista é pertinente para explicar o processo da construção da identidade africana. o sistema internacional pode variar entre conflito e cooperação já que a anarquia não é predeterminada. agentes e estrutura são co-constitutivos uns dos outros e nenhuma precede o outro nem no tempo. A anarquia (estrutura) internacional é socialmente construída e. Segundo Nogueira e Messari (2005:166-167). Para o presente trabalho. Uma vez que o construtivismo postula que o mundo é 6   . Teoria Construtivista A Teoria Construtivista surgiu pela primeira vez nos estudos das Relações Internacionais em 1989. transformar ainda que dentro de certos limites (Nogueira e Messari. com a obra de Nicholas Onuf. Mundo este que podemos mudar. no qual somos os protagonistas. os pressupostos do construtivismo são: O mundo é socialmente construído. No debate entre agentes e estrutura. Nesse sentido. intitulada World of Our Making – Rules and Rule in Social Theory and International Relations. Negam a anarquia como uma estrutura que define as Relações Internacionais.O presente artigo sobre a Construção da Identidade Africana e os Líderes Mais Importantes será lido a luz da Teoria Construtivista e do Pluralismo. pois para os construtivistas existe um conjunto de regras e normas que organizam e norteiam as mesmas. 2005:162). bem como no artigo publicado em 1992 por Alexander Wendt. sendo assim. sociedade e indivíduos são co-constituídos. e que é produto das nossas escolhas.

pensadores que tiveram um impacto significante na construção da imagem pluralista. Percepton University. teólogos. London. Pluralismo Segundo Sousa (2005:142-143). Hume (1740)5. 11 Nye. Economy.    5 4 7   . 9 Keohone. interessados na política doméstica. Resenau (1966)6. axiológica e religiosa da identidade africana. Editorial Presença. Lisboa. Robert (1984) After hegemony: cooperation and discord in world politics. tinham um interesse individual ou de grupo em oposição à unidade estatal (Estado).                                                                 Locke. política. Lisboa. Haward University Press. mas as observavam como economistas. Perception. Todos possuíam um dominador comum. à perspectiva pluralista das relações internacionais. Hume. 6 Rosenau. e o interest group liberalism. 8 Jevis. Houghton. a abordagem teórica pluralista das Relações Internacionais surgiu nos anos de 1960. Mifflin. 12 Haans. Snyder (1950)10. Nicols. Stevens And Sons. cientistas sociais. As discussões dos precursores do Pluralismo rondam em volta de dois temas: o liberalismo. David (1742) Ensaios Morais e Políticos. No pluralismo. Ernest (1958) The uniting of Europe. temos o impacto indirecto de outras teorias. Keohone (1984)9. para além destes autores. económica. Westwie. Jevis (1976)8. (Viotti e Kauppi 1998: 200-201). Perception 10 Snyder. Presença. De entre os precursores do Pluralismo encontramos Locke (1960)4. como política filosófica. Boston. 7 Janis. então. Esta perspectiva aparece também a contrapor os pressupostos realistas. Robert (1976) Perceptions and misperception in international politics. como estudo da política doméstica. Surgiu no contexto de tentativa de responder aos novos desafios colocados pela complexidade crescente das questões internacionais e deu origem. New York. Perception University. Janis (1972)7. cientistas políticos. Vários pensadores não observavam as Relações Internacionais de per se.algo socialmente construído. Joseph (1972) Transnational relations and world politics. Richard (1950) Coping with complexity in the international system. Iving (1972) Victims of groupthink. Nye (1972)11 e Haans (1958)12. CO. ele vai ajudar a explicar o processo da construção social. Cambridge. foco de análise do Realismo. James (1966) The study of global interdependence essay on the transnational of warld affair. John (1690) Carta Sobre a Tolerância. Boulder.

3. Atendendo que existem vários actores em interacção e que o processo de tomada de decisão reflecte um exercício de negociações entre os vários sectores e burocracias de um determinado Estado. no contexto da teoria pluralista. sociais e ecológicos 8   . Apesar de reconhecerem a importância dos assuntos relacionados com a defesa e segurança (high politics) o pluralismo reconhece a importância dos assuntos económicos. 2. A visão pluralista das relações internacionais está baseada em quatros pressupostos. tal decisão reflecte o posicionamento de um determinado sector. burocracias e indivíduos em competição. Em certos casos algumas decisões terão de carecer de parecer público. 4. uma vez que existem outros actores igualmente importantes. a má percepção ou estereótipos impedem que as decisões tomadas sejam as mais acertadas. Os Estados não são actores racionais uma vez que está sujeito a influências exteriores que condicionam e moldam as suas acções. Embora normalmente na imprensa se diga a decisão tomada por um Estado. (Ventura 2002:5-8). Para os pluralistas. Os actores transnacionais como as Companhias Multinacionais. a decisão não é tomada por uma entidade abstracta. grupos de defesa dos direitos humanos e grupos ambientalistas têm um papel importante nas relações internacionais. o conceito de interdependência representa o “cerne” das relações entre os actores internacionais. são caracterizadas pela diversidade de actores actuando na política internacional. As organizações internacionais em alguns aspectos podem ser mais importantes e independentes que os Estados. referendum. Os Estados não são os únicos actores do Sistema Internacional. As Relações Internacionais. instituição ou indivíduo. Os Estados não são actores unitários uma vez que é composto por diferentes grupos de interesse. segundo Viotti e Kauppi (1998: 199): 1. A agenda das relações internacionais é extensiva e alargada. como o Estado.O Pluralismo baseia-se nas premissas do liberalismo.

antropologia. direito. No campo das relações internacionais. O Paradigma Pluralista é pertinente para o presente trabalho porque traz uma visão diferente das Relações Internacionais. rejeita-se a validade da dicotomia high/low politics. religião. Dá importância a outros assuntos que fazem parte do campo da vida internacional: economia. filosofia. A identidade está associada à cultura. cooperação. no período imediatamente a seguir ao fim da guerra-fria. presumida ou ideal.1. 2. e tem portanto diversas definições. O pluralismo ajuda a explicar os diversos actores envolvidos na criação da identidade africana. líderes. perdida ou resgatada. precisa-se de todos os seguimentos da vida d continente africano: Estados. conforme o enfoque que se lhe dê. ou seja. falsa ou verdadeira. a questão de identidade e sua construção emerge com grande vigor nas relações internacionais. que acompanham o indivíduo.2. problema de gestão de recursos naturais. e portanto traduzida em sinais e documentos. Salientam-se também problemas de combate à pobreza. sociologia. religiosos.2. políticos. Ele privilegia e dá importância a outros actores não estatais e defende que a Agenda dos Estados é extensa e não é restrita à questões de high politcs e questões militares. 265-267). sobretudo na questão dos actores. género. todas as instituições e cidadãos africanos.resultantes da interdependência cada vez crescente entre os Estados. Conceitos-Chave 2. Ela refere ao conjunto de valores 9   . segundo Smouts (2003. conflitos e vê o Estado como uma entidade desagregada. economistas. formas de inserção social na sociedade. Identidade ainda pode ser uma construção legal. Identidade A conceitualização da identidade interessa a vários ramos do conhecimento como história. uma vez que para a sua edificação. académicos. cultura. podendo ainda haver uma identidade individual ou coletiva. por isso. relações internacionais.

Os conflitos identitários ocorrem com a influência de uma mão externa que funciona como elemento instigador. o grupo. como é o caso da educação formal ou informal. No debate sobre a construção da identidade. o indivíduo nasce. dentro de uma determinada comunidade e as interioriza de forma natural e na construção da identidade via construção social. 2. a sociedade. um grupo. A identidade pode ser: Social. abarca o campo político e é um factor fundamental para a construção de alianças. grupo ou nação dos outros. cultural. a identidade é socialmente construída seja de forma individual ou colectiva. a nação. esta teoria é defendida pelo grupo de determinista e pessimista. religiosa. Através de valores e identificação com a sociedade. Do ponto de vista de análise de conflitos. Teoria Essencialista: diz que a identidade é inerente a essência da pessoa humana. que reparam para as diferenças como elementos propensos para a ocorrência de conflitos. Na Construção da identidade de forma tácita. Os grupos têm as suas identidades de forma consciente e pré-concebida. Teoria Instrumentalista: diz que as identidades são fonte de conflito quando instrumentalizadas. sociais. cresce e desenvolve as suas habilidades e capacidades culturais. políticas. religiosas. uma sociedade ou uma nação.que congregam um indivíduo. também. A identidade. há 3 grandes correntes ou escolas de pensamento: 1. política. através de meios formais. constrói a identidade do indivíduo e da comunidade ou sociedade. No que concerne as formas de Construção da Identidade. harmonização de interesses e pode ser fundamental para a criação ou resolução de conflitos. ela pode ser adquirida de forma tácita ou de uma forma socialmente construída. A multiplicidade de identidades é que ajuda a aproximar ou distanciar um determinado indivíduo. 10   . Ela é construída de uma forma vernácula e tradicional.

então. cultural e até religioso. uma forma particular de imperialismo. O Colonialismo é. Globalização serve para designar um movimento complexo de abertura das fronteiras económicas e de desregulamentação. Colonialismo é uma teoria ou prática de estabelece controlo sobre um território estrangeiro e transformá-lo numa colónia. Citado por Picasso (2003:60). Kassotche (1999:17)13 adverte que o processo de globalização é distinto dos processo de internacionalização e multinacionalização. Na sua essência envolve direitos desiguais e exploração deliberada. Por exemplo: os marginalizados e pobres são propensos a construírem protótipos contra os líderes e detentores do poder. sociais. Ele traduz o extraordinário desenvolvimento das relações económicas. 13 11   . Colonialismo De acordo com Sousa (2001:38-39). 2. de origem anglo-saxónica.3. Globalização Segundo Sousa (2001:91).2. o termo globalização assumiu um homegenismo discursivo. Picasso (2003:60) afirma que recentemente.2. culturais e políticas a nível mundial. manutenção de poder sobre uma população subordinada e a separação do grupo dominante da população. O Colonialismo é caracterizado geralmente pelo povoamento e domínio económico. social. Teoria Construtivista: defende que a identidade é algo que resulta da construção social.3. A construção da identidade está muito ligada a questão das necessidades. ISRI. Ele envolve a colonização de territórios estrangeiros. 2. a partir dos anos 1980. Dick (1999).2. Maputo. político. eclipsando termos como internacionalização e transcomunicação. que permitiu as actividades económicas capitalistas estenderem o seu campo de acção ao conjunto do planeta. mas reconhece ser difícil falar da                                                                Kassotche. Globalization – Fears of the Developing Countries: Reflections on the Mozambican Case. foi forjado nas escolas de gestão americana e em França tem coo sinónimo o termo mundialização. o conceito de globalização. valores e interesses.

social. No norte do continente habitam os árabes. pela lógica de produção globalização. enquanto que o centro-sul. a internacionalização e dominado pela lógica de trocas. 3. uma vez que trazem consigo o fenómeno da ruptura de fronteira crescente interdependência no campo económico. IDENTIDADE AFRICANA O continente africano limita-se ao norte pelo Mar Mediterrâneo. No seu entender. a                                                                14 L’Observatore Roamano (1994).globalização sem considerar estes dois processo. Roma. Para o presente trabalho. cultural e até religioso. Abril. Vaticano. mas também uma nova procura de Estado. que África é um continente imenso e com situações muito diversas. 12   . Esta separação geográfica também reflectiu-se numa separação racial. a multinacionalização. No centro-sul. mas sim foram importados. pelas potências colonizadoras.000 Km2). os Estados não nasceram da dinâmica interna. depois de percorrer savanas. sendo esses dois últimos os que praticam o comércio transahariano. a globalização abarca todos os elementos e fenómenos apontados pelos dois autores. político. citada por João Paulo II (2000) na sua Exortação Pós Sinodal Sobre a Igreja em África. onde é preciso evitar generalizações na avaliação de problemas assim como ao sugerir soluções. podemos dividir em duas zonas absolutamente distintas: centro-norte que é dominado pelo imenso deserto de Sahara (8. uma vez que no continente. Em África. N˚ 4. pela lógica da inovação. não só há uma necessidade de uma identidade africana.600. ready made. berberes e os tuaregues. é ocupado pela floresta tropical africana. Esta diversidade étnica leva-nos a afirmar com Paulo VI (1967:6) na sua Mensagem apostólica Africae Terrarum14. habitam mais de 800 etnias negras africanas. De uma maneira simplista. Relatio Ante Disceptationem. ao oeste pelo Oceano Atlântico e ao leste pelo Oceano Índico.

Um dos líderes africanos perguntou: o que é ser africano? Mas para sabermos que nós somos. os meios de informação para a consciencialização da necessidade da edificação de uma identidade africana autóctone. 2008:42-43). pensar que África possa um dia erguer-se das sequelas do passado colonial será sempre uma utopia. depois há um vazio enorme. não se consegue construir a paz no Darfur. a fraqueza das instituições e a falta de uma liderança interessada no assunto fragilizam o continente quando posto a prova com o fenómeno da globalização. como Nelson Mandela. crescente interdependência e outros elementos identitários de outras culturas que põem em causa a identidade africana. há um exemplo extraordinário. nos remete as três dimensões do tempo: passado. que. ou melhor. 3. porque não existe um sentido de identidade nacional nem um sentido de identidade comum em as partes conflituantes.1. onde estamos e para onde vamos? Essas três perguntas nos remetem a uma reflexão existencialista. A falta de uma identidade africana consolidada. Se não se mudar a dinâmica e o comportamento africano face a estes fenómenos. o cidadão. (Sesana. Mas o continente ainda carece de verdadeiros líderes como os que idealizara a libertação do continente.Após muitos anos de independência de vários Estados africanos. é importante perguntar: de onde viemos. Identidade Africana e o Colonialismo 13   . a identidade individual. presente e futuro. É o que está a acontecer no Sudão. onde apesar dos acordos assinados. Na Conferência Internacional sobre Cursed by Riches: Resourses and Conflicts in Africa realizada em Nairobi (2007) decidiu-se que para criar uma identidade africana ou qualquer que seja. mas o caminho parece estar na mobilização da sociedade. por sua vez. não há uma receita fácil. a identidade colectiva e o Estado são dois elementos importantes que devem existir antes de falar de uma identidade africana na escala continental e são elementos indispensáveis para a resolução de conflitos.

2. (Couto. Em África. Se olhamos para o passado. 3. Os poucos maus de dentro é porque foram instrumentalizados pelos de fora. segundo Fanon (1961). um paraíso feito só de harmonia. pós em causa a identidade africana. Identidade Cultural Africana e as Independências Segundo Pinto (2008: 223). 2003: 92-102). político. a pergunta que aparece é: O que fomos? Uma grande parte da visão que temos do passado do nosso continente é ditado pelos pressupostos que ergueram a história colonial e a história colonizada. Esta unidade foi fomentada pelo Panafricanismo e pela Negritude. Por alguns momentos. que deram o impulso inicial para o debate a respeito da identidade africa. Depois de 50 anos de independência dos Estados africanos. o domínio colonial. que era o lugar onde o inimigo morava. com o fim dos impérios coloniais em África e o advento das independências. juntamente. a falta de uma identidade comum. sem conflitos nem disputas. com o processo das lutas de libertação pelas independências. duma ou doutra forma. Essa ideia romântica do passado alimenta a ideia redutora e simplista de uma condição presente maravilhosa se não fosse a interferência exterior e que os únicos culpados dos problemas africanos devem ser procurados fora e nunca dentro. Esta preocupação pela criação de uma identidade africana estatal e continental emerge. cultural e até religioso. Se havia uma instabilidade interna é porque ela vinha de fora. não tinha sido superada e constituía uma preocupação. as etnias esqueceram-se das suas diferenças e centraram-se na tarefa de libertação contra o colono. persiste a ideia de que África pré colonial era um universo intemporal. 14   .O Colonialismo é caracterizado geralmente pelo povoamento e domínio económico. criou um complexo de inferioridade a cultura africana postulando a valorização dos hábitos e costumes europeus como sinal de progresso e igualdade. social. porque. Esta visão estava presente no discurso e decurso das lutas de libertação em África. É neste contexto de definição da ameaça e busca da unidade contra o inimigo comum que a identidade começa a ser objecto de debates e discussão.

Fanon (1961) escreve sobre o complexo de inferioridade que se instalou na cultura africana e contra a valorização dos hábitos e costumes europeus como sinal de progresso e igualdade. maior representante desse movimento.1. nomeadamente: Panafricanismo. em 1938. de manifestar a suposta inferioridade dos negros. O filósofo africano Kwame Appiah ressalva que ideologias como o Panafricanismo e a Negritude defendiam e (re)significavam a identidade africana. o negro é feito de emoção (elemento essencial em sua constituição). Fantz Fanon. Negritude Tendo como princípios a valorização da identidade e da humanidade dos negros. Edward blyden. no período colonialista iniciado no século XV. 1997:19). Essas ideias de carácter alienante provocaram nos intelectuais negros do século XX a 15   . desvinculando-os de qualquer capacidade intelectual por serem supostamente primitivos. O movimento de Negritude nasce em meio à necessidade dos europeus. Senghor. Nkrumah. no seu livro de poemas. (Adilson.Um grupo de factores internos e externos contribuíram para a ideia da necessidade de formação da identidade africana no período colonial e depois das independências africanas. nesse sentido a valorização de suas manifestações culturais tornam-se essenciais na luta contra o racismo. "Cahier d'un retour au pays natal". O termo "Negritude" aparece pela primeira vez escrito por Aimé Césaire. Segundo Léopold Sédar Senghor (senegalês). a Negritude foi promovida pelos escravos das Antilhas francesas e movimentos de estudantes e literários de Paris. contribuíram para a formação da consciência africana em torno da necessidade desenvolver uma identidade própria e livre a influência externa. A luta pela autodeterminação da população colonial negra trouxe ao cenário político-cultural do continente africano dois elementos importantes: o movimento de negritude e o Panafricanismo. Sekou Touré. 3. Na obra “Os Condenados da Terra”.2. entre outros. (Appiah. Negritude e o terceiro mundo não alinhado. Julius Nyerere. 2006). Aimé Cesaire.

mesmo tendo influenciado directamente os processos de libertação da África. Revista da Fapa. O Panafricanismo Segundo a Enciclopédia Universal Multimédia (1999). No contexto da descolonização. o movimento representou um ato político de luta pela afirmação e independência africana. às quais os que empunhavam a Negritude queriam ser fiéis. (2001) Descolonização da Ásia e da África.2. Assim. Depestre. citado por Adilson (2006). o Panafricanismo é um movimento político. A teoria panafricanista foi desenvolvida principalmente pelos africanos na diáspora americana descendentes de africanos escravizados e pessoas nascidas na África a partir de meados do século XX como William Edward Burghardt Du Bois16. Segundo Ribeiro (2001: 82-84)15. tomou a feição duma simples manifestação de solidariedade fraterna                                                                15 16 Ribeiro. 16   . na Conferência de Londres.2. Rio Grande do Sul. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. intelectuais e materiais das populações submetidas ao colonialismo. tanto na África como em diáspora. um “racismo às avessas”. o movimento Negritude recebeu críticas. Inicialmente. e que havia realizado obras culturais de valor universal. os negros poderiam passar a aceitar o preconceito. Nº 33. filosófico e social que promove a defesa dos direitos do povo africano e da unidade do continente africano no âmbito de um único Estado soberano. 3. (2008) Bom-dia e Adeus à negritude. Marcus Mosiah Garvey. para todos os africanos. a Negritude afirmava que o homem negro era tão homem quanto qualquer outro. entre outros. Segundo esses intelectuais. René. O Panafricanismo caracterizou-se como um movimento cultural que buscava a igualdade de direitos e a melhoria das condições morais. sendo considerado conservador e de “confirmação da teoria racista das diferenças genéticas”. Luís Dario.necessidade de combater essa visão. No Brasil foi divulgada amplamente por Abdias Nascimento. e posteriormente levados para a arena política por africanos como Kwame Nkrumah. O termo surgiu pela primeira vez em 1900.

assumindo um carácter anti-imperialista e aproximando-se do socialismo. Relativamente popular entre as elites africanas ao longo das lutas pela independência da segunda metade do século XX. políticos e económicos. Os recursos foram espoliados.E. Dubois. sociólogo negro dos Estados Unidos.entre africanos e pessoas de ascendência africana das Antilhas Britânicas e dos Estados Unidos da América. Na verdade. como um movimento cultural e como um movimento político. que explorou esse cenário de tribalização. a ideia de uma união de todas às nações africanas teve como obstáculo a diversidade étnica e cultural do continente (várias Africas). Esse problema foi potencializado pelo processo de colonização europeu. Nesse sentido. inclusive influenciando e potencializando as diferenças tribais que permanecem na actualidade. Os países surgidos da descolonização na África não receberam investimentos que desenvolvessem as economias locais e melhorasse a vida das populações. levou essas sociedades a uma ruptura com o sistema. o Panafricanismo tem sido mais defendido fora de África. O Panafricanismo é uma ideologia que propõe a união de todos os povos de África como forma de potenciar a voz do continente no contexto internacional. o continente africano entrou no século XXI ainda sobre a égide da exclusão. a produção de subsistência foi desestruturada e não ocorreu uma industrialização que lhes garantisse autonomia económica. entre os descendentes dos escravos 17   . Basicamente. Perante as economias globalizadas. O processo de descolonização difuso e subordinado jogou os povos africanos em gravíssimos problemas sociais. apareceu como um movimento racial. resultado de séculos de exploração e preconceito. de forma alguma.B. o que dificultou a construção de uma identidade africana na segunda metade do século XX. O processo de descolonização da África trouxe a emancipação política para muitas colónias mas. Seu principal representante foi W. o Panafricanismo enriqueceu a luta de libertação da África. em parte responsável pelo surgimento da Organização de Unidade Africana. Em sua longa evolução. elas foram inseridas no sistema com um papel periférico e excludente.

a capulana pode ser do exterior. o presente desagua em nossas vidas de forma incompleta. mas é moçambicana pelo modo como a amarramos. Por exemplo.3. porque cozinhamos à nossa maneira.). Este aspecto traz consigo a ideia da aculturação e que nenhuma cultura ou identidade está isenta de aspectos de outras culturas. porque para além da sua origem. o caju. a afirmação do que somos está baseada em inúmeros equívocos. Todos estes produtos foram introduzidos em Moçambique e em África. Ao analisarmos o presente. “não é possível pois conceber uma cultura tão isolada que não tenha nenhuma espécie de relação com as outras”. 1997:53). divididas pelas imposições dos colonizadores. a goiaba. mas o prato que preparamos é nosso. O coco é indonésio. Mas o que é verdadeiramente nosso? Muitos acreditam que a capulana. Para colmatar essa deformação. Mas segundo Couto (2003. lhes demos a volta e as refabricámos à nossa maneira. devido a crescente 18   . a mandioca. a mandioca latino-americana. Identidade Africana e a Globalização Com o fenómeno da globalização e crescente interdependências dos povos.africanos que foram levados para as Américas até ao século XIX e dos emigrantes mais recentes. Ao olharmos para o futuro. a papaia são produtos moçambicanos. 3. proibidos ou limitados pelos europeus. a pergunta que nos aparece é: o que pretendemos ser? O futuro é incerto e vários fenómenos põem em causa essa busca de identidade. (Monteiro. nos deparamos com a pergunta: Quem Somos? Mas se o passado nos chega de forma deformada. Mas estas coisas acabam sendo nossas. por exemplo. a manga. Eles propunham a unidade política de toda a África e o reagrupamento das diferentes etnias. Valorizavam a realização de cultos aos ancestrais e defendiam a ampliação do uso das línguas e dialectos africanos. buscamos a nossa identidade. Ibid. porque acredita-se que a afirmação da identidade nasce da negação da identidade dos outros.

os cidadãos não têm uma mesma e verdadeira identidade nacional. nos países africanos. onde a demagogia fácil continua a substituir a procura de soluções. o pressuposto para ser verdadeiramente livre e viver uma democracia real é a identidade. porque faltou a conquista de uma identidade nacional e por conseguinte não se desenvolve uma vida política democrática liberal multipartidária. a independência não foi totalmente real. Devido ao processo de globalização. 2003). no sentido de: Desperta aos povos africanos a consciência de que os problemas relativos ao bemestar das populações. Se olharmos para Moçambique e Quénia. política. Ora. Em Moçambique. Segundo Picasso (2003:63-64). em África cresce o sentimento de que a globalização oferece oportunidades múltiplas para o continente.interdependência e aculturação dos valores de outras culturas devido a globalização e os seus efeitos. Outro caso típico. incluindo identidade linguística. no Quénia e em quase todos os países africanos. diz o professor congolês Ernest Wamba. bastando fazer opções certas e corajosas. o único factor que pode ser considerado determinante para a formação da identidade nacional é o factor histórico: a luta pela independência. religiosa. é a República Democrática do Congo que nunca foi uma república nem uma democracia. Mas o futuro a nós pertence. territorial. Poucos acreditam naquilo que propalam. ao aumento do nível e da qualidade de vida das populações. para além das diferenças tribais. da 19   . (Couto. Chefe da Delegação dos Direitos Humanos do Quénia. ao promover o nacionalismo. (Sesana. O discurso da grande parte dos políticos são incapazes de compreender e entender a complexidade da condição identitária dos povos. mas o fenómeno tem efeitos multiplicadores. Segundo Maina Kiani. por exemplo. de modo a que o continente tenha uma identidade apesar das suas diferentes culturas. Há por vezes um certo cinismo. A identidade nacional é o pressuposto político e jurídico que tem acompanhado o processo de formação do Estado-Nação. África corres risco de ser um continente esquecido e secundarizado pelas estratégias de integração global. 2008:42).

articulando as experiências sócio-culturais locais dos povos e os conhecimentos empíricos sobre cada caso específico. etnia. Mazula (2001). economia global. vários desafios são apresentados às culturas e as suas identidades e a cultura e identidade africana não escapa essas influências. são comuns. diz que a globalização traz outras categorias que se impõem igualmente globais: o mundo como aldeia global. religião. mas do que nunca. Face ao processo de globalização e constante contacto entre as culturas. acesso ao capital. o aumento de poder no sistema internacional. 20   . Mas isso depende da capacidade de manter em diálogo entre os diferentes segmentos identitários dos diferentes países. Temos duas possibilidades: recour a notre autentité ou retour a notre autentité. O processo de aculturação faz das identidades algo heterogéneas. de acesso ao mercado internacional. de segurança. cidadania global. de dívida externa. tribo. da paz e desenvolvimento. A globalização vai para além das fronteiras nacionais e a família clã.justiça social. Confrontados com esses fenómenos e as nossas fragilidades. raça de um país ou continente.4. Esta realidade emerge como resultado de uma ameaça externa (globalização) e da necessidade de fazer face aos desafios trazidos por este fenómeno. citado por Picasso (2003:62). devem ser tratados conjuntamente num ambiente de unidade e espírito de concórdia. o processo da construção social. Desafios Para a Criação de uma Identidade Africana. sejam enfrentados a partir da base. 3. Estado global. entre outros. Contribui para que os problemas africanos. apoiados pelo construtivismo que postula que o mundo é algo socialmente construído. No continente africano existe várias identidades e a tentativa de criação de uma identidade africana pode ou não ser problemática. mercado global. Promove e forja uma identidade africana e um sentido de destino comum entre os povos africanos. de forma participativa e com os meios específicos e produzidos pelos próprios africanos.

mas encontrou no Hinduísmo a sua identidade. com responsabilidade. da erosão da criatividade e da ausência interna e internacional de debates a esse respeito. ou seja. ou seja. Esta multiplicidade deve ser olhada como sendo um valor positivo. respeitando a heterogeneidade continental que se manifestam nas várias etnias que existem nos diversos países africanos. associar esses valores aos valores positivos das outas culturas e civilizações. sendo outros. A multiplicidade linguística e religiosa são obstáculos à formação de uma identidade africana real. com várias identidades.5. devemos criar a nossa própria história e a nossa própria identidade. porque a maior pobreza provém da falta de ideias. académicos. não obstante que tenham elementos culturais e identitários de outras culturas. religiosos. Tendo em conta que África é uma continente heterogéneo no campo étnico. Os africanos devem elevar a sua dignidade e coragem e sentirem que são capazes de superar as condições adversas e edificar uma identidade cultural. é importante construir uma identidade continental homogénea. todas as instituições e cidadãos africanos. Papel dos Líderes na Construção da Identidade Africana N construção da identidade africana. 3. construção e consolidação da identidade africana é um desafio de todos os seguimentos da vida do continente africano: Estados. que sejam eles mesmos. É imperioso que os africanos sejam eles mesmo. a liderança tem vindo a desempenhar um papel fundamental e crucial. políticos. Para tal é preciso recorrer aos valores positivos da cultura africana. Por exemplo: a índia possui uma multiplicidade de línguas e castas. líderes. axiológica e religiosa da identidade africana cabe a todos os africanos. económica. inventar novos paradigmas de integração identitária e. vários líderes africanos e descendentes de 21   . Desde o período colonial. economistas. o que não acontece com a realidade africana. Sendo assim. Para que isso aconteça é imperioso recorrermos aos postulados do puralismo que advogam a pluralidade dos actores. criar um novo olhar para analisar a realidade africana.política.

Muguiba Keita. 1893) por Blyden (descendente de escravos oriundos do Togo) em congresso de Freetown (1900). a África é a minha pátria. Juluius Nyerere. E. Segundo Fanon (1961:207-209). no decorrer do Congresso de Londres. por exemplo. H. advogado de Trinidad e Tobaco." Em 1897. Segundo Gomes (1985). Os ecos de Langston Hughes. organizou a Primeira Conferência Panafricana. na diáspora. a fim de suscitar um movimento de solidariedade a favor dos negros colonizados. a literatura se propunha como “literatura de negros” ou do “mundo negro”. declarava: "Naturalmente. Um grupo de líderes como Nkrumah. Sékou Touré. entre outros desempenhou um papel muito importante. Burghardt Du Bois. seria graças a um movimento pan-negro. Countee Cullen e Richard Wright (romancista) também iriam chegar aos poetas da África de língua portuguesa.africanos. Estes tiveram grande influência de africanista da diáspora. negro americano. os autores do Renascimento Negro. Senghor. que precede a luta de libertação nacional. No período de afirmação. o Dr. Participante do evento. um homem que há mais de meio século militava pelo Panafricanismo. representaram um estímulo para o indigenismo haitiano. Du Bois já afirmava: "Se o Negro devesse um dia desempenhar um lugar na história do mundo. para os estudantes antilhanos reunidos em torno da revista Légitime Défense e para os poetas que iriam expressar o projecto da négritude. o intelectual africano era guiado por uma postura de adesão à condição do homem negro e seu mundo mental tinha por base os traços comuns das culturas africanas. no período de afirmação “os homens de cultura africana falavam mais de cultura africana do que de cultura nacional” e." 22   . fizeram grandes esforços para criar a consciência da liberdade africana e da necessidade de criar uma identidade africana autóctone. Seguindo-se à proposta da “personalidade africana” (african personality. Harlem Renaissance. W. Essa postura fraterna antecedeu a viragem decisiva para o aprofundamento na cultura nacional e a eclosão da luta armada. Sylvester Williams.

de que se proclamava presidente provisório. preconizavam que os Negros americanos fossem mandados para a África. depois da segunda guerra mundial. em Nova Iorque. proclamou a "igualdade absoluta entre todos os cidadãos brancos e negros". que fundara. desde 1912. E imaginou um Paraíso em que os anjos eram negros e os demónios. em 1927. tudo isto no quadro de uma opção socialista ou socialista-marxista. em favor das independências. uma Liga Marítima da Estrela Negra.B. mas por razões inversas. Os temas antiimperialismo e anti colonialismo eram discutidos e. brancos. a Associação Nacional para a Promoção das Gentes de Cor (base do "Black Renaissance"). e exerceu influência 23   . contrabalançava os próprios Africanos a influência dos Negros americanos. pela primeira vez. que como ele. fundara-se a "Junta de Defesa dos Direitos de África”). no quadro da Associação Universal para a Promoção dos Negros lançou a palavra de ordem de "regresso à África". sintetizando as preocupações de Du Bois e de seu grupo. W. no Congresso Panafricano de Manchester. tornava-se a viga mestra dos congressos panafricanos que se realizaram sucessivamente em Paris em 1919. Aquele. sobretudo. em que era nítida ainda a predominância dos anglófonos. Du Bois (nascido em 1863 e considerado o pai do Panafricanismo contemporâneo). a ideia pan-negrista tornava-se uma reivindicação política. presidido por Du Bois. doutor em Filosofia e historiador cujos trabalhos revelaram aos companheiros negros um passado africano do qual se deviam orgulhar. Isso se confirmou. Garvey devotou-se febrilmente à criação de organismos que concretizassem a ideia à qual se dedicara profundamente: um império racial africano. em Londres e Bruxelas em 1921. destacou-se como voz de protesto contra a política imperialista na África.Por sua vez. por seu lado. jamaicano truculento que considerava a pele do mestiço Du Bois demasiado pálida para um negro. explicitamente reivindicada a independência nacional. um Parlamento Negro. O Manifesto do Movimento do Niágara. De início. Não hesitou em colaborar com os racistas do Ku Klux Klan. em 1900.E. Pela primeira vez. marcadamente racial. A vida tempestuosa de Garvey foi marcada pela prisão e acabou obscuramente em Londres. em Londres Lisboa em 1923 (em Portugal. porém. em 1905. Marcus Garvey.

É para o amanhã que construímos nossos sólidos templos. o romance Batouala (1921). notabilizou-se à época como o Pai do Panafricanismo cultural. inimigo ferrenho da assimilação e defensor das contribuições das culturas negras para a civilização mundial. sendo considerado a declaração de independência do artista negro: Nós. O importante é ter a capacidade de manter em diálogo entre os diferentes segmentos identitários dos diferentes países africanos. Esse programa foi revelado na revista The Nation. Se não. criadores da nova geração negra. Na literatura. O tantã chora. o direito ao emprego. ao amor. pois sabemos edificá-los. à igualdade. ficamos felizes. foi um dos grandes inspiradores de Léopold Sedar Senghor. Kwame N‘ Krumah. tanto faz.considerável sobre personalidades como Asikiwe Nandi. do martiniquenho René Maran. Sabemos que somos bonitos. futuro presidente da Nigéria. Se isso agrada aos brancos. Diplomata. E feios também. ao respeito e propugnava ainda pela assunção da cultura. Seu livro Almas Negras (1903) tornou-se modelo para os intelectuais do movimento do Renascimento Negro (entre 1920 e 1940). livres dentro de nós. Defendia a origem africana. Se isso agrada à gente de cor. o movimento glorificava a sua cor. mas esta heterogeneidade dever ser vista como sendo uma rica variedade de valores culturais e deve ser vista como uma estimável qualidade humana que pode favorecer o progresso da humanidade inteira. Reagindo contra os estereótipos e preconceitos que circulavam a respeito do negro. historiador. primeiro presidente da República do Quénia. haitiano. propunha-se como um libelo contra a colonização francesa na África. 24   . sociólogo e doutor em medicina. queremos exprimir nossa personalidade sem vergonha nem medo. pouco importa. de 23 de Junho de 1926. O humanista Jean Price-Mars. ficamos muito felizes. Du Bois exerceu também profunda ascendência sobre escritores negros americanos. o tantã ri. Se não. primeiro presidente da República de Gana (para quem o Panafricanismo foi uma das ideias-força) e Jomo Kenyatta. GENERALIZAÇÕES FINAIS África é um imenso continente que possui uma heterogeneidade étnica enorme. e estamos erguidos no topo da montanha.

que sejam eles mesmos. a vida comunitária e a herança tradicional que privilegia o colectivo. sem cultura. porque o continente africano é fragmentado em inúmeras etnias que ainda não se encontram na paz e harmonia social. a rejeição da ideia de aniquilar a vida. sendo outros. Neste processo. criando autonomia e liberdade continental. Foi uma construção necessária para gerar o orgulho da raça negra. tendo em conta a heterogeneidade étnica do continente africano e as influências das outras culturas e civilizações é imperioso que os africanos sejam eles mesmo. A compreensão da identidade africana não é tarefa fácil.Os valores positivos africanos: o sentido do sagrado e do espiritual. Com a globalização e constante contacto entre as culturas. 25   . O colonialismo influenciou negativamente na identidade africana. em vez do individualismo. o valor da família. a Negritude e outros elementos constituíram um grupo de factores internos e externos contribuíram para a ideia da necessidade de formação da consciência de uma identidade africana no período colonial e depois das independências africanas. não obstante que tenham elementos culturais e identitários de outras culturas. ou seja. sem civilização e que os povos africanos nada deram à Humanidade é falaciosa. O Panafricanismo. a solidariedade. A ideia de que o continente africano é uma área sem história. devem ser o móbil para a construção da identidade africana. os vários desafios apresentados à identidades africana devem ser enfrentados recorrendo aos valores centrais da identidade africana. no período da transição do colonialismo para as independências. O Panafricanismo e a Negritude foram o ideal em torno do qual a identidade africana foi forjada. porque criou um complexo de inferioridade que se instalou na cultura africana e contra partida postulava a valorização dos hábitos e costumes europeus como sinal de progresso e igualdade. o respeito e amor pela vida e pelos antepassados.

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