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Efeitos Presentes e Futuros da Justificaçã o‐ Reconciliaçã o

Exegese de Romanos 5:1~11

EFEITOS PRESENTES E FUTUROS DA JUSTIFICAÇÃO-RECONCILIAÇÃO

INTRUDUÇÃO

Paulo Sung Ho Won

Martinho Lutero, em sua introdução ao livro de Romanos, diz que “Esta carta é

verdadeiramente a mais importante peça do Novo Testamento. É o evangelho mais puro.

É de grande valor para um Cristão não somente para memorizar palavra por palavra, mas

também para ocupá-lo com isso diariamente, como se fosse o pão diário da alma. É

impossível ler ou meditar nesta carta. Quanto mais alguém lida com ela, mais preciosa ela

se torna e melhor ela saboreia.1 . Certamente, Paulo foi autor dessa carta que foi

destinada à igreja de Roma, formada em sua maioria de gentios. Provavelmente, essa

carta foi escrita em circa 56/57 A.D. para preparar a sua ida à Roma. O grande tema da

carta é: “a Justiça de Deus”.

Paulo desenvolve de maneira muito precisa a “doutrina da justificação pela fé”. De

1:18~3:20, o apóstolo mostra a necessidade da justiça de Deus diante da depravação

humana em geral: nesse caso, não há distinção entre gentios (1:18~32), moralistas

(2:1~16) e judeus (2:17~3:8). Todos pecaram “e estão destituídos da glória de Deus” (Rm

3:23) e todos merecem da condenação divina (3:9~20). A partir de 3:21 Paulo começa a

descrever a maneira pela qual Deus, por intermédio de Cristo, alcançou àqueles que

estavam perdidos, justificando-os. De 3:21 até 4:25, a mensagem é clara: apenas pela fé

em Cristo Jesus podemos ser inocentados dos nossos pecados, sendo conduzidos diante

1 Disponível em http://openlink.br.inter.net/gospel/prefrom.htm, acessado em 20 de junho de 2009.

Paulo Sung Ho Won – Reprodução apenas com expressa permissão www.paulowon.com

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da presença de Deus; para isso, o grande exemplo é Abraão. Porque Abraão? Ora,

Abraão, além de ser “pai” dos judeus, mostra que a justificação pela fé independe de

obras humanas, mas sim unicamente da graça divina: “Abraão creu em Deus, e isso lhe

foi imputado para a justiça” (4:3). Logo, isso quer dizer que a salvação não vem pela

observância da lei e das obras da lei, uma vez que Abraão é anterior aos códigos legais

dados no Sinai. Paulo não quer dizer que houve uma “mudança de planos” por parte de

Deus no Plano da Salvação, mas, que sempre, mesmo durante a vigência da antiga

aliança, a salvação era obtida pela fé, e não por obras. É diante desse quadro que

entramos no capítulo 5.

O texto analisado nesta exegese foi dividido em três partes: A justificação-

reconciliação na vida presente (5:1~5), o comentário de Paulo acerca da grandeza da

morte de Jesus que nos trouxe vida (5:6~8) e, em último lugar, as conseqüências futuras

da justificação-reconciliação na vida do cristão (5:9~11). Assim, há o entendimento de

que a ação graciosa de justificação por intermédio de Cristo alcança toda a nossa

existência: tanto a presente como a futura.

Juntamente com as análises técnicas lingüísticas e criticas do original grego, os

comentários exegéticos foram colocados dentro da mesma divisão. Optou-se por colocar

na íntegra o texto grego e sua tradução entre parêntesis para facilitar a visualização das

duas formas. Também, em último lugar, há um registro particular daquilo que temos de

grande lição, de aplicação direta em nossas vidas. A exegese que não faz voltar a nossa

vida é Deus é estéril, porém, a exegese que leva a um questionamento de nosso modo

atual de vida é muito fecunda.

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1. LIMITES DA PASSAGEM.

A análise detalhada de Rm 5:1~11 mostra que esta é uma passagem completa. Paulo faz

uso da partícula “ ο ν ” para começar esse trecho, com um desenvolvimento e raciocínio

completo. Assim, ele chega a uma conclusão daquilo que foi desenvolvido desde o

primeiro capítulo até o quarto, a saber, acerca da justiça de Deus.

Por outro lado, se olharmos também para Rm 5:12, texto posterior ao trecho

analisado, perceberemos o uso da expressão “dia< τοto”, ou seja, “portanto”, também

serve de início de um novo trecho, que é conclusão para o tema desenvolvido de

1:18~5:11. Também, pela análise de conteúdo dos trechos podemos chegar à conclusão

de

5:1~11: há a discussão da justificação pela fé e sua implicância na vida presente e

que Rm 5:1~11 e 5:12~21 podem ser analisados de maneira separada:

na futura;

5:12~21: temos a discussão da obra de Adão e da superioridade de Cristo.

2.

IDÉIA CENTRAL.

A

em relação a Deus, e a mais firme certeza de que a vida que vivemos Nele é cheia de

alegria, por causa da esperança da glória futura e eterna que nos é reservado em Cristo.

Nem mesmo as tribulações são um problema sério, uma vez que estas podem ser usadas

por Deus para nos aprovar e firmar ainda mais a nossa expectativa em seu Reino e em sua

Pessoa.

justificação pela fé, por meio de Jesus Cristo, gera em nós a plena reconciliação e paz

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3. TRADUÇÃO DE RM 5:1~11. 2

1 Portanto, tendo sido justificados pela fé temos paz com Deus, por meio

de nosso Senhor Jesus Cristo 2 por intermédio de quem obtivemos acesso pela fé

a esta graça na qual permanecemos firmes; e nos alegramos na esperança da

glória de Deus. 3 Não somente isso, mas também nos orgulhamos nas

tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; 4 e a perseverança,

um caráter aprovado; e o caráter aprovado produz esperança. 5 E a esperança não

nos desaponta, porque o amor de Deus tem sido derramado em nossos corações,

por meio do Espírito Santo que ele nos concedeu.

6 Realmente, Cristo morreu em lugar dos ímpios, a seu tempo, quando

ainda éramos moralmente fracos. 7 Dificilmente alguém morreria em lugar de um

justo, pois em favor de quem faça o bem alguém teria a coragem de morrer. 8

Mas Deus demonstra seu próprio amor para conosco porque Cristo morreu

quando ainda nós éramos pecadores.

9 Portanto, muito mais agora, tendo sido justificados pelo seu sangue,

seremos salvos, por meio dele, da ira. 10 Porque se nós fomos reconciliados com

Deus por meio da morte de seu filho, quando éramos inimigos dele, muito mais

estando reconciliados, seremos salvos pela sua vida. 11 Não somente isso, mas

nos alegramos também em Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo, por

intermédio de quem recebemos, agora, a reconciliação.

2 A tradução do trecho foi feita com base na NA 27 , Rega (2004) e Gingrich (1984). Porém foram consideradas também as traduções da Nova Versão Internacional (NVI) e da Almeida Século XXI (abreviada neste trabalho como A21).

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4. COMENTÁRIO EXEGÉTICO.

A justificação do homem significa a paz com Deus, em outras palavras, reconciliação.

Isso que dizer que o grande amor de Deus nos transforma de “réus” em “inocentes”, de

inimigos” para “amigos”. Não há como entendermos essa dimensão do amor de Deus se

não for pela fé. É essa fé que nos abre todas as portas de acesso à presença de Deus.

Porém, a justificação e a conseqüente pacificação com Deus não possuem efeitos apenas

imediatos ou hedonistas, mas sim eternos.

A carta de Romanos é um poderoso referencial que tem sido esquecido em meio a

uma sociedade relativista e uma igreja, em grande parte, imediatista ou mercantilista.

Todo o esquema que o homem cria de barganha e troca com Deus desaba diante da

revelação da justiça e do amor divino derramado em nós por intermédio do Senhor Jesus.

O poder dessa justificação-reconciliação é tão grande que transcende “o momento da

conversão” atingindo o presente e o futuro. As tribulações de hoje possuem o propósito

de qualificar o cristão e de dar-lhe a esperança inabalável no Reino Eterno vindouro.

Ao introduzir esse trecho em seu comentário, Karl Barth diz, de maneira correta

sobre a paz que Cristo gera em nossos corações: “Esta paz não lhe advém de qualquer

comunicação do alem, nem de proteções naturais ou sobrenaturais, porém, pela certeza

do amor de Deus que é derramado abundantemente em seu coração pelo Espírito Santo,

que (sendo o próprio Deus) é o sustentáculo do “homem novo” o qual, pela fé, vê em

Cristo o generoso e poderoso “SIM” de Deus, vencendo a morte, para restaurá-lo na

condição de filho3 .

3 Barth, pg 235.

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4.1. A justificação-reconciliação na vida presente.

1. ∆ικαιωθντες ον κ πστεως ερ νην χοµεν πρς τν θεν δι τοκυρ ου

µ ν ησο Χριστο , (Portanto, tendo sido justificados pela fé temos paz com

Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo,)

O verbo usado por Paulo, dikaio>w , está no Particípio 1º. aoristo passivo que denota

uma ação única 4 e definitiva de Cristo sobre a vida daqueles que crêem Nele. Essa

justificação 5 , ou o ato de tornar alguém justo, nos leva ao imaginário jurídico da época.

Há que se perceber que a justificação é oposta à condenação, conceito este que foi

desenvolvido por Paulo de Rm 1:18~3:20. Podemos analisar por vários ângulos o

conceito de justificação dentro da teologia paulina. Em primeiro lugar, a justificação

indica que, de acordo com o imaginário jurídico, o réu é deliberadamente absolvido pelo

juiz. Em segundo lugar, a justificação implica que o evento escatológico é antecipado

trazendo para o presente o veredicto final do juízo de Deus 6 , a saber, a absolvição eterna

do antes condenado.

Porém, a justificação não emana da ação humana, mas sim de Deus. Dessa maneira,

Paulo nos explica que esse ato divino e gracioso de inocentar um condenado à morte

eterna só pode ser recebida mediante a fé. De acordo com Sttot, “a graça e a fé pertencem

indissoluvelmente uma à outra, uma vez que a única função da fé é receber o que a graça

livremente oferece7 . A fé tira do homem toda a possibilidade de jactância em si, uma

vez que somente mediante à confiança plena na graça divina é que temos imputado sobre

nós a condição de “justificados”, e sendo assim, absolvidos do juízo final.

4 Rega, pg 213.

5 δικαιοσ ύ νη é muito utilizado por Paulo que lhe confere a maior gama de sentidos. Há uma conexão muito estreita desse termo com o Antigo Testamento, ao falar da justiça de Deus e de como Ele justifica, ou seja, torna justo o seu povo. Cf. DITNT Vl1, pg 1128.

6 STTOT, John, A Cruz de Cristo, pg 171.

7 STTOT, John, A Cruz de Cristo, pg 170.

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É mediante a essa fé que “temos paz com Deus”. Nesse versículo temos pelo menos

um problema de manuscrito com relação ao verbo χω . Muitos manuscritos usam o

verbo no Presente do Indicativo Ativo χοµεν 8 . Porém, alguns outros manuscritos

importantes tais como a*, A, B*, C, D, K, L, 33, 81, 630, 1175, 1739* e Márcion

apresentam a variação χωµεν , no Presente do Subjuntivo Ativo 9 . Para Bruce, a variação

pode ter vindo de um “primitivo estágio de transmissão de texto” que seria antes da

redação final das epístolas paulinas. Bruce salienta que o acento na primeira sílaba das

duas formas faria com que a distinção fonética tanto do omicron, quanto do ômega,

desaparecesse, de modo que a sonoridade das duas palavras fosse idêntica 10 . Assim, a

tradução ficaria “tenhamos paz com Deus”. De acordo com Fitzmyer essa segunda

variação foi entendida pelos pais da igreja como “manter a paz” ou “continuemos em

paz11 com Deus. Segundo Cranfield, devido ao contexto de exortação, a primeira

alternativa deve ser levada mais em conta 12 .

Essa justificação pela fé nos conduza à um outro conceito de semelhante impacto

no pensamento paulino que é a Reconciliação. Não podemos dissociar os dois conceitos.

Alguns estudiosos colocam uma hierarquia dentro da relação entre Justificação e

Reconciliação. Fitzmyer, e.g., diz que a justificação parece estar subordinada à

reconciliação 13 enquanto que Cranfield diz que o fato dos homens serem justificados

implica que devem ter sido igualmente reconciliados com Deus 14 . De qualquer maneira,

que tipo de reconciliação é essa? Isso está expresso justamente na frase “temos paz com

Deus”. Essa paz não pode ser entendida em termos somente subjetivos ou relacionados

8 A NA 27 se utiliza dos manuscritos a 1 , B 2 , F, G, P, Y, 0220, cf. Fitzmyer. 9 Cf. Harrison, pg 58 e NA 27.

10 Bruce, pg 60.

11 Bruce, pg 61.

12 Cranfield, pg 106.

13 Fitzmyer, pg 395.

14 Cranfield, pg 105.

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apenas a resolução de algum tipo de conflito interno ou externo ao homem, porém, deve

seguir o conceito mais pleno do ~Alv' hebraico 15 . Esse termo que em grego foi traduzido

como ερ νη 16 implica não somente uma questão física, mas também, e sobretudo,

espiritual. Ela deve ser entendida no seu sentido positivo prosperidade, de plenitude de

um relacionamento com Deus.

Para Barth, “paz com Deus significa um acordo entre o homem e Deus, tornando

possível por meio da modificação da condição humana, vinda da parte de Deus, e

efetivada por meio do estabelecimento das relações normais da criatura com o Criador,

pela fundamentação do amor a Deus no temor do Senhor, o único e verdadeiro amor que

a criatura pode dedicar a Deus17 .

2. d ι ο κατν προσαγωγ ν σχκαµεν ( τπστει ) 18 ες τν χ ριν τα την ν

στκαµεν , κα καυχµεθα π λπδι τ ς δ ξης το θεο. (por intermédio de

quem obtivemos acesso pela fé a esta graça na qual permanecemos firmes; e nos

orgulhamos na esperança da glória de Deus.)

A grande questão é: de onde vem tal condição? A resposta é categórica: “por intermédio

da fé”. A preposição dia> tem um peso muito importante nesse trecho: ela se repete sete

vezes. Não somente isso: como se apresenta no texto, a preposição dia> é seguida por

genitivo 19 , indicando claramente uma relação de mediação que Cristo assume como único

possível mediador entre Deus e os homens caídos da graça. Tal questão tornou-se tão

15 Dunn, pg 247.

16 ε ἰ ρ ή νη no NT: a paz como antônimo da guerra e segurança eterna, sendo dádiva de Deus. Dentro do contexto de Romanos 5:1~11, Cristo é o mediador dessa paz, cujo conceito correlato é o da reconciliação. Cf. DITNT Vl 2, pg 1596.

17 Barth, pg 238.

18 Não há consenso entre os MSS da inclusão ou da exclusão. Pelo contexto, parece fazer mais sentido a inclusão da expressão.

19 Rega, pg 101.

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importante no pensamento cristão posterior que a tentativa da Igreja Romana em manter

um sistema de autopromoção mediante a ênfase nas obras e não na graça encontrou sua

maior resistência no movimento de Reforma do séc. XVI. Cristo é apresentado como

kurio>v, Senhor absoluto digno de ser considerado Mediador da justificação-

reconciliação. Alguns manuscritos não trazem a expressão “τπστει”, porém, mesmo

que esta não esteja presente, o seu conceito está implícito no trecho.

A obra de mediação de Cristo é detalhada no versículo 2, onde Paulo

provavelmente conduz o nosso imaginário para a sala de audiência de um rei. A figura do

rei era comparada ao dos deuses na antiguidade. Assim, adentrar em seu recinto de

maneira desrespeitosa e desonrosa poderia custar a vida. O ato do rei permitir a entrada

de uma pessoa expressa bem o termo “acesso pela fé a esta graça”, ca>riv 20 . Nós não

somos mais adversários ou inimigos do Rei, pelo contrário, fomos considerados justos e

da mesma forma dignos de entrar na presença de Deus e desfrutar da sua presença.

Conforme Bruce, existe uma variação de leitura do termo καυχµεθα , que vem

verbo kauca>omai 21 , cujo sentido é “jactar-se”, “orgulhar-se”, podendo ser traduzido

como “nos gloriamos” ou pelo subjuntivo “gloriemo-nos”. As versões inglesas traduzem

o termo como “boast”, ou seja, uma extremo orgulho, satisfação ou alegria. Esse orgulho

está focalizada na “glória de Deus22 .

De acordo com Dunn, o termo prosagwgh> é usado culticamente no sentido de ter

acesso ao templo onde está a presença de Deus. É nessa presença que permanecemos

firmes, tendo a esperança na glória de Deus. O ato salvífico de Cristo não tem eficácia

apenas no presente, muito pelo contrario, ela gera dentro de nossos corações esperança

20 No sentido de favor real, de misericórdia, encontrando paralelo com o ds,x, do Antigo Testamento.

21 Gingrich, pg 114.

22 Cf. NET Bible e NIV.

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futura na “glória de Deus”. A palavra ejlpiv, possui seu correspondente no hebraico,

denotando não uma expectativa incerta, mas uma confiança plena diante do futuro em

Deus. A vida do cristão não pode ser apenas resumida na condição do presente, mas

também na esperança futura. Paulo nos indica que vivemos numa tensão entre as coisas

do “agora” e do “por vir”. A expectativa é que a salvação seja plenamente completada no

dia escatológico final. Também essa mesma esperança não está relacionada com o

egoísmo humano, mas sim com a expectativa da plenitude do Reino que é dádiva do

próprio Deus: por isso, a esperança não depende das obras, mas sim da obra graciosa de

Jesus Cristo 23 . Para Calvino, a esperança “resplandece para nós desde o evangelho que

testifica que participaremos da natureza divina, pois quando virmos a Deus, face a face,

seremos semelhantes a ele24 .

3. οµ νον δ , λλκακαυχµεθα ν τας θλψεσιν, ε δ τες τι θλψις

ποµον ν κατεργζεται , 4. δ ὲ ὑ ποµον δοκιµ ν , δ δοκιµ ὴ ἐλπδα· 5. δ

λπς ο καταισχνει , τι ἡ ἀγπη το θεοῦ ἐκκχυται ν τα ς καρδ αις µ ν δι

πνεµατος γου τοδοθ ντος µ ν , (Não somente isso, mas também nos

orgulhamos nas tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; 4 e a

perseverança, um caráter aprovado; e o caráter aprovado produz esperança. 5 E a

esperança não nos desaponta, porque o amor de Deus tem sido derramado em

nossos corações, por meio do Espírito Santo que ele nos concedeu.)

E não somente isso”. Essa construção é usada diversas vezes por Paulo para ratificar e

confirmar seu desenvolvimento inicial. De acordo com Dunn, a expressão “ ο µ νον δ

era amplamente utilizado na literatura grega e judaica 25 . Paulo, ao expressar a esperança

futura da glória de Deus volta a analisar o impacto da justificação pela fé na vida

23 DITNT, verbete “esperança”.

24 Barth, pg 241.

25 Dunn, pg 249.

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cotidiana dos crentes em Cristo. Talvez hoje tenhamos perdido o significado real de

termos como “tribulação”, “perseverança”, “caráter aprovado” e “esperança”, pois

vivemos em um contexto totalmente diferente daquele vivido no primeiro século da era

Cristã.

Os seguidores de Cristo, na época de Paulo, estavam sob perseguição, não somente

na região da Judéia, mas também fora. Seguir a Cristo, naquele contexto, significava

muitas vezes ter que passar por apuros, sendo necessário até arriscar a própria vida.

Diante desse quadro de dificuldade aparente, Paulo nos conforta fazendo com que de

nossa condição presente, tenhamos os olhos fitos, novamente, na esperança do “por vir”.

Eles podiam realmente dizer que “se orgulhavam nas tribulações”. A expressão

καυχµεθα ν τα ς θλ ψεσιν 26 ”, de acordo com Fitzmyer pode significar “nós temos

orgulho em nossas aflições27 .

Em oposição ao pensamento secular, onde os problemas e as tribulações são

encaradas como coisas ruins, e até maldição divina, Paulo nos expõe de maneira clara que

a tribulação é um poderoso instrumento da graça divina para que o homem seja testado e

aprovado para poder ter a condição de desfrutar das eternas bênçãos de Deus na

eternidade. Enquanto esse tempo de refrigério pleno não chega, essa mesma tribulação,

que produz em nós aprovação, consolida a nossa esperança em Deus mediante Cristo. Tal

estado de paz que vivemos em Deus não significa ausência de algum tipo de sofrimento,

uma vez que não podemos comparar a dimensão da nossa paz com as tribulações que são

passageiras: “na paz de Deus existe um “sofrer”, um “submergir”, um “estar perdido” e

“ser estraçalhado”” (Barth:1999:244).

26 Danker argumenta que a expressão “ ἐ ν τα ῖ ς θλ ί ψεσιν ” é freqüentemente usada em um sentido metafórico: opressão, aflição, tribulação. Cf. Danker:2000. 27 Fitzmyer, pg 397.

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Na mentalidade dos primeiros cristãos, a tribulação produzia “perseverança”.

Uποµον ν 28 significa paciência, persistir. A tribulação era uma grande oportunidade

para que o próprio ego das pessoas fossem quebradas e que elas pudessem olhar e

depender de somente de Deus. Paulo nos leva a imaginar uma peça de jóia que é colocada

no fogo para ser purificada. O forno da purificação, nesse caso, seriam as tribulações. O

resultado disso, é que passamos a ter assim “um caráter aprovado”. A própria palavra

δοκιµ significa “característica de ser aprovado, daí, caráter29 . A ARA traduz δοκιµ

por “experiência” enquanto que a A21 traduz como “aprovação”. Esse caráter aprovado

das tribulações e dos testes da vida gera a esperança.

Tal esperança vem com a garantia de que não seremos decepcionados. Nossas

expectativas futuras em Cristo certamente serão satisfeitas, uma vez que o amor de Deus

tem sido derramado em nossos corações pelo Espírito Santo30 . O uso do termo τι , de

acordo com Dunn, indica que o que esse processo de aperfeiçoamento é garantido pelo

amor de Deus, ou seja, a esperança é selada pelo amor. Esse “ γπη τοθεοtem sido

traduzido de diferentes maneiras: como genitivo objetivo (“nosso amor por Deus”), como

genitivo subjuntivo (“o amor de Deus por nós”), ou até mesmo pelos dois indicando um

genitivo geral ou pleno 31 . A sequência da sentença deixa claro que se refere ao amor de

Deus que ele "derrama em nossos corações", que é o próprio Espírito Santo. De qualquer

maneira, está explícito no texto a tentativa de Paulo mostrar que a nossa vida futura, tanto

quanto a vida presente, está baseada no fundamento do amor, que produz esperança

mediante a fé. A tríade fé-esperaça-amor é um fundamento no pensamento paulino 32 .

28 De acordo com Danker, significa a capacidade de suportar e superar as dificuldades através da paciência e perseverança. Cf. Danker pg 1039.

29 Gingrich, pg 59.

30 Há o uso do tempo perfeito indicando uma ação que se inicia no passado, mas que tem continuidade presente.

31 Cf. NET Bible.

32 Cf. 1Co 13:13.

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O amor é derramado em nossos corações. O coração, καρδ α, entendido não como

um órgão físico, mas compreendido segundo a concepção judaica ble, como centro de

todo o entendimento, dos sentimentos, e de toda a interioridade humana, contrapondo-se

à aparência externa 33 . A ação de Deus inicia-se, assim, a partir do nosso interior,

atingindo as nossas ações exteriores. O verbo também se encontra no tempo perfeito, o

que indica que a ação do derramar se iniciou no passado, mas que tem continuidade até

agora.

O Espírito Santo não faz mais morada em templos físicos, mas no interior daqueles

que crêem em Cristo (1Co 3:16). A razão pela qual podemos estar firmes nessa esperança

divina, sem medo de ser “envergonhado”, por uma lado, é a ação a partir do coração

humano que é por meio do Espírito Santo. Diferente do Antigo Testamento, quando o

x;Wr era derramado a apenas poucas pessoas, ele é derramado agora em “nossos

corações”, cumprindo as profecias do “derramamar do Espírito” sobre todas aqueles que

crêem (Cf. E.g., Jl 2:28,29). O verbo dido>nai , “dar”, está no particípio aoristo passivo,

indicando que o derramar do Espírito é uma “dádiva” divina, ou seja, algo concedido por

Deus de acordo com a sua vontade, soberania e graça.

4.2. Comentário de Paulo: a magnitude da morte que nos gerou vida.

6. τι γρ Χριστ ς ντων µ ν σθεν ν τι κατκαιρν πρ σεβν πθανεν.

(Realmente, Cristo morreu em lugar dos ímpios, a seu tempo, quando ainda éramos

moralmente fracos.)

O homem, antes de ser justificado pela graça mediante a fé, vivia em um estado de

33 Wolff, pg 84.

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ajsqenh>v, ou seja de “fraqueza34 (tal fraqueza parece ser mais moral do que física).

Porém, justamente por aqueles a quem Deus considerava fraco, ele enviou o seu Filho a

fim de que, mediante a sua obra, eles fossem salvos. Além da fraqueza moral, é

salientado que o homem é σεβν ou seja, ímpio: nas palavras de Fitzmyer, “um

homem sem reverência a Deus”, ou no inglês, godless 35 , demonstrando mais uma vez a

condição de separação com Deus, pelo pecado, que o homem estava antes de ter um

encontro com Cristo. Foi pelo fraco e pelo ímpio que Jesus morreu. Aqui está o cerne

daquilo que cremos ser a mensagem do Evangelho: Jesus morreu por aqueles que não

conheciam a Deus, para que através dessa morte, o amor de divino fosse revelado

cabalmente a todos aqueles que ouvissem da mensagem evangélica. Tudo isso obedece o

tempo, ou seja, o kairo>v divino. Alguns enxergam uma conexão desse “tempo” com o

momento escatológico” devido a ênfase dada nas tribulações. O importante é que Deus é

soberano sobre o “tempo cronológico” humano. O plano de salvação não foi uma solução

feita às pressas”, mas sim, pensado desde a eternidade e colocado em ação “a seu

tempo”.

7. µλις γρ πρ δικαου τις ποθανεται· πρ γρ τοῦ ἀγαθοτχα τις κα

τολµᾷ ἀποθανεν· (Dificilmente alguém morreria em lugar de um justo, pois em

favor de quem faça o bem alguém teria a coragem de morrer.)

Parece que Paulo abre espaço para um comentário particular acerca da morte de Jesus

nesse versículo. Como entender essa observação? Não existem pessoas que morrem por

pessoas justas, e são muito poucas as pessoas que podem morrer por pessoas

consideradas boas ou “por uma boa causa36 . Se esse fato é real, quem morreria por

fracos” e “ímpios”? Diante dessa contraposição de idéias, há, sem dúvida, uma

34 Cf. Gingrich, pg 36.

35 Fitamyer, pg 398.

36 Fitzmayer, pg 399.

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exaltação implícita de Paulo da obra salvífica de Cristo, concretizada na cruz. Na posição

de Paulo, somente Deus poderia fazer algo que, na visão humana, seria um enorme

paradoxo, ou seja, faria mais sentido morrer por alguém que valesse a pena do que por

uma pessoa que é meu próprio adversário.

8. συν στησιν δ τν αυτοῦ ἀγπην ε ς µ ς θες τι τι µαρτωλ ν ντων

µ ν Χριστ ς πρ µ ν πθανεν . (Mas Deus demonstra seu próprio amor para

conosco porque Cristo morreu quando ainda nós éramos pecadores.)

Essa é a razão pela qual Deus escolheu os “fracos” e “ímpios” para enviar o seu Filho em

sacrifício definitivo. Deus demonstra, ou mostra (suni>sthmi), o seu amor por nós não

apenas pelo fato de Cristo ter morrido. Paulo não deseja discutir na morte por si mesma,

mas a qualidade dessa morte. Jesus morreu não para ser um mártir político e insuflar

posteriormente a mente dos seus seguidores por um propósito secular, mas sim, Cristo

morreu pelos transgressões de pessoas que ainda estavam mergulhadas em seus pecados.

É em favor ( pe>ρ ), dos µαρτωλ ν , ou seja, pecadores, é que Cristo morreu.

4.3. Os efeitos futuros da justificação-reconciliação.

9. πολλο ν µ λλον δικαιωθ ντες ν ν ν ταµατι ατοσωθησ µεθα δι

ατοῦ ἀπτς ργς . (Portanto, muito mais agora, tendo sido justificados pelo seu

sangue, seremos salvos, por meio dele, da ira.)

Paulo complementa o desenvolvimento do versículo anterior. Se Deus demonstrou o seu

amor por meio de Cristo quando ainda éramos pecadores, muito mais agora que somos

justificados seremos salvos da ira divina. Paulo leva seu raciocínio mais longe: se Cristo

morreu por pecadores, quanto mais, ou muito mais (πολλο ν µ λλον) ele nos salvará

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da ira vindoura de Deus (acerca da qual Paulo explica em Rm 1). A expressão traduzida

como “muito mais ainda” na NVI, é usada por Paulo diversas vezes nos seus escritos, e

pelo menos quatro vezes dentro do versículo 5. De acordo com Dunn, a fórmula

recorrente “ πολλο ν µ λλον” no corpus paulinus vem do exemplo rm,Axw" lq; (leve e

pesado) dos escritos rabínicos 37 , ou seja pares de idéias que se completam no final.

Paulo volta ao verbo que iniciou o capítulo 5: δικαιωθ ντες . Ele faz um contraponto

entre a situação atual do crente e a sua condição futura. No presente, estamos justificados

por seu sangue (ν ταµατι ατοσωθησ µεθα ) e no futuro, seremos salvos de sua

ira. O substantivo ργς pode ser entendido aqui como o juízo final de Deus, o dia em

que ele exercerá a sua justiça de acordo com o conceito veterotestamentário do ~AyI hw"hy>,

o “Dia do SENHOR”. De acordo com Dunn, a adição do aoristo, seguido pelo futuro,

demonstra uma tensão escatológica presente no desenvolvimento de Paulo 38 . Mais uma

vez temos a tensão entre o “agora” e o “ainda não”.

10. εγρ χθροὶ ὄ ντες κατηλλγηµεν τθεδι τοθαν του του ο ατο,

πολλµ λλον καταλλαγντες σωθησ µεθα ν τ ζω ατο· (Porque se nós

fomos reconciliados com Deus por meio da morte de seu filho, quando éramos

inimigos dele, muito mais estando reconciliados, seremos salvos pela sua vida.)

Mais uma vez, Paulo recorrendo à expressão “ ε(…) πολλµ λλον”, forma mais usual

que “ πολλο ν µ λλον”, ressalta a magnitude da obra da Cristo na vida dos salvos.

Porém a tensão passa a ser entre o “inimigo” e o “reconciliado” de Deus. O inimigo de

Deus é aquele que de acordo com Cranfield é “hostil” a Ele 39 . Jesus, mesmo diante da

hostilidade e da inimizade estabelecida entre Deus e os homens, “deu o primeiro passo

37 Dunn, pg 257.

38 Dunn, pg 257.

39 Cranfield , pg 111.

Efeitos Presentes e Futuros da Justificaçã o‐ Reconciliaçã o

em direção do homem, reconciliando em si as duas partes. Logo, já não há mais

inimizade entre Deus e a humanidade que crê Nele. Diante disso, a tarefa de salvar pela

sua vida os que já são reconciliados parece ser mais fácil. Paulo tem a preocupação de

não dissociar a justificação da reconciliação.

Ainda segundo Cranfield, a reconciliação possui uma conotação mais pessoal do

que a justificação, termo mais repleto de um sentido mais jurídico-forense. Essa

reconciliação foi conquistada mediante a morte do “seu filho”. Para Calvino, “dizer que

fomos reconciliados com Deus por meio da morte de Cristo significa que foi um

sacrifício expiatório, através da qual Deus foi pacificado com relação ao mundo40 .

A idéia de uma reconciliação mediada por uma pessoa era familiar no Antigo

Testamento (e.g., Moisés, Arão, Finéias). Porém, diferente do Antigo Testamento, no

Novo, Deus além de tomar a iniciativa, Ele mesmo age em favor dessa reconciliação.

Estando já reconciliado com Deus por Cristo, “seremos salvos pela sua vida” (A21). O

termo zwh> dentro desse contexto não aponta apenas para a vida presente, mas

prioritariamente para a vida do Cristo ressurreto. Assim, Paulo lança esperança no

coração dos cristãos no sentido de que a nossa condição de reconciliados com Deus gera

uma conseqüência futura, que é a participação da ressurreição de da vida eterna no Filho.

Essa vida eterna foi justamente conquistada pela morte, pela qual é selada a

reconciliação. Portanto, a morte do Filho gera vida eterna no Filho.

11. οµ νον δ , λλκακαυχµενοι ν τθεδι τοκυρ ου µ ν ησο

Χριστο , δι ο ν ν τν καταλλαγν λβοµεν . (Não somente isso, mas nos

orgulhamos também em Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo, por

intermédio de quem recebemos, agora, a reconciliação.)

40 Calvino, pg 198.

Efeitos Presentes e Futuros da Justificaçã o‐ Reconciliaçã o

Paulo tem algo a mais a dizer: “e não somente isso, mas também” ( οµ νον δ , λλ

κα) que podemos viver uma vida de alegria, orgulho, gl ó ria e exultação em Deus. Se

antes éramos inimigos separados por um abismo intransponível, agora, desfrutamos de

um grau de proximidade tal, que estamos em Deus ( ν τθε41 ). Algumas versõ es

variam na tradução de καυχµενοι : a maioria das versões do português, como a A21,

trazem: “nos gloriamos”, porém, em versões inglesas como a NIV encontramos: “we (…)

rejoice”. Porém, os dois sentidos, gloriar, orgulhar ou alegrar, se complementam em

expressar o estado de espírito das pessoas que foram justificadas-reconciliadas com Deus.

Como não poderia deixar de ser, Paulo tributa a Cristo a realidade da proximidade

com Deus. Quando lemos δι τοκυρ ου µ ν ησο Χρισ τοdevemos ter em

mente que esse Cristo que nos reconciliou com Deus é Senhor Absoluto sobre todas as

coisas. Foi por meio dele que recebemos agora ( ν ν ), ou seja, desfrutamos no presente

momento, o privilégio de n ão mais sermos chamados de inimigos, mas amigos de Deus.

Se entendermos que a justificação-reconciliação é obtida por meio de Cristo, logo, a lei e

as tradições judaicas perdem espa ç o e o seu papel priorit ário na vida dos crist ãos. N ão

podemos mais ser considerados qyDIc; pelas obras, mas di>kaiov em Cristo. O Aoristo

λβοµεν indica que a ação da reconciliação teve um começ o pontual no passado, porém

ela é desfrutada até o agora (ν ν ) e serve de ponte para a esperanç a do futuro 42 .

41 Caso Locativo.

42 Dunn, pg 261.

Efeitos Presentes e Futuros da Justificaçã o‐ Reconciliaçã o

5. SIGNIFIC Â NCIA DO TEXTO E CONCLUS Ã O.

Esse texto onde Paulo nos mostra a dimens ão da justifica ção pela f é, é base para aquilo

que entendemos ser a salvação por intermédio de Cristo. Entendemos que nesse

processo, o m érito humano é irrelevante comparado com a graç a manifesta de Deus na

pessoa de seu Filho Jesus. Essa justificação e reconciliação com Deus faz-nos viver numa

dimensão diferente de vida em relação àquelas pessoas que não conhecem da Verdade. Se

o mundo busca viver e gozar ao máximo da sua existência efêmera sobre a terra, sem

nenhuma perspectiva verdadeira do post-mortem, nó s podemos viver essa vida motivados

pela esperanç a de estarmos eternamente na presenç a da gl ó ria de Deus . Isso nos leva a

viver uma vida cristã de equilíbrio entre o agora e o por vir: não vivendo como se o

amanhã n ão existisse, e tão pouco não vivendo o hoje em função do amanhã. A

Justificação-Reconciliação de Deus pode ter in ício pontual na nossa existência, porém,

seus efeitos e seu poder se estendem não somente aqui na terra, mas como também na

eternidade.

Algumas lições s ão importantes nesse trecho estudado: primeiramente, somos

justificados pela f é, mediados pela obra redentora de Jesus Cristo. Isso é importante

porque nos revela que tudo o que somos, nessa nova condição de vida em Cristo, vem do

pr ó prio Cristo. Não há méritos pelas quais o homem possa se gloriar. O ú nico motivo que

o texto apresenta para nos gloriarmos é na esperan ça da gló ria de Deus .

Em segundo lugar, por intermédio do sacrifício de Jesus, temos paz com Deus. Não

somos mais ímpios condenados ao inferno, pelo contrario, pela graç a fomos salvos e

inocentados. Nossa relação de separação com Deus foi anulada e unida por Cristo, e

sendo assim, podemos viver não somente com paz com relação ao pró prio Deus, mas

também em relação à minha pró pria vida e a dos meus semelhantes.

Efeitos Presentes e Futuros da Justificaçã o‐ Reconciliaçã o

Em terceiro lugar, a paz que Deus nos concede nos permite viver, mesmo que sendo

sob as piores condições de sofrimento e tribulação, porque a paz nos faz estar abertos à

ação de Deus em todas as circunstâncias, inclusive nas dificuldade. Nesse processo nasce

a verdadeira esperanç a. A tribulação tira o foco de nossas vidas e a centralidade de nossas

necessidades. Ao vermos a nossa fragilidade em meio às dificuldade, desviamos nosso

olhar a Deus que se torna ú nica fonte de for ç a e conforto. As tribula ções geram n ão

apenas a expectativa da solu ção dos problemas, mas do descanso eterno, da paz eterna, a

ser completada e desfrutada naquele dia. Por isso, podemos nos alegrar nas tribulações.

Em quarto lugar, Paulo nos faz meditar acercada grandeza da obra de Cristo na

Cruz. Em poucas palavras, ningu ém faria isso: nem por justos, t ão pouco por pecadores.

Por ém, o amor de Deus se manifestou no mundo na pessoa de Jesus. Somente por meio

Dele é que podemos desfrutar da real justificação.

A justificação, em ú ltimo lugar, só pode ser entendida e vivida juntamente com a

reconciliação. S ão dois lados de uma mesma moeda . Tanto o aspecto legal, com

relação à lei e à justi ç a, quanto o aspecto relacional, s ão solucionados em Cristo Jesus.

Com base nisso, de acordo com os vers ículos 9 e 11, podemos ser salvos da ira e

salvos pela sua vida . J á n ão h á ju ízo, no sentido de condenação, para os que cr êem.

Aqueles que entendem o Evangelho e se submetem a ele podem gozar também da vida

em Cristo. Justificados e reconciliados podemos viver o hoje da melhor forma possível,

com a firme esperanç a de que há o amanh ã e de que mesmo na eternidade nunca

deixaremos de ser em Cristo justificadose reconciliadoscom Deus.

Efeitos Presentes e Futuros da Justificaçã o‐ Reconciliaçã o

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