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PUBLICAÇOES

D.\

BIBLIOTECA X.\C:IO~.\r

REIMPRESSÕES

II

MARCO

PAULO

O LI\'HO

\"HO

DE

DE

:\lAHCO

P;\llLO- O LI-

\"E?\F ro- C.\HTA

l\ICOLAO

DF JERO~I.\10 DE SA~TO ESTEV.:\\1

conform\! a imprcssiio de Vah.:ntim Ft:rnandcs, fci ta cm I isboa cm 1So2; com trcs jtc-símiles. introduç,lo c indict:s

I'OR

FlU='Cisco 1\l.\IH \

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-r:vr:s

Pn~FIH,\

BIBLIOTECA

NACIONAL·

LISBOA

LISBOA

ÜfiCINAS GH \FICAS DA BIBLIOTI:.C\ ;\ACIONAL

192:l

INTl\ODUÇAO

O liYro, conhecido na literatura portuguesa pela denominação de Jlarco Paulo, con1preende tres obras, que conten1 noticias acerca dos poYos do Oriente, especialmente da lndia. Os seus títulos, con- forme se lcen1 no principio de cada uma delas, são:

I.- Liuro de .J.'larco Paulo de f,

enc\a,

das condiçoóes e cusfw1ll!S

das gentes e das terras c prouincias orientacs. II.- Liuro de .J.\'icolao J"cneto, da J'ida c custumes da gente de India e de todallas regiões orientaes. III.- Carta que Jenmimo de santo L"stc:uam escreuc:o de 1i·ipoli a Julzam Jacome Jlayc:r em Baruti.

A prin1eira destas obras, que é a principal pela sua in1portancia

e pela sua extensão, deu o lH>nle ao liYro.

O .Jlarco Paulo foi impresso en1 Lisboa por \"alentinl Fernandes

alen1ãn, que o concluiu a 4- do mcs de Fc' creiro de 1 5o2; o

por que Yalentin1 Fernandes empreendeu a impressão destas trcs obras, foi, como ele nll'smo declara, «a serYiço de Deos c aYisa- nlcnto da~ que agora Yáo pcra as ditas lndias)). ~ão é par:~ passar en1 silencio, que as tres obras reunidas neste liYro, c im- pressas e publicadas passados apenas dois anos, dL'pois que \"a'\co da \.ama tinha Yindn do descobrin1ento do caminho n1aritimo da lndia, são as relações· de Yiagens de alguns Italianos, que nos se- çulos xm c xv haYian1 chegado por Yia de terra [t, regiões Ja India.

litn,

Jucles

11

O Jlarco Paulo foi o terceiro li\ ro impresso cm linguagem por- tugucsa por Yalcntim Fcrn andes; é por tanto um monumento prc- ciosissimo da arte ti pogratica cm Portugal, c lambem uma cspccic

hibliografiLa de grande raridade, porque dele é conhecido pequeno

numero de cxcn1plarcs

,toria da

se o livro tem muito grande \·alor bi-

bliograflco, o seu assunto é da maior importancia para a hi

geografia, pela influencia que exerceu sobre o progresso dos dcsco-

brinlcntos feitos pelos Portugueses nos scculos xv c xvr, c mostra
"

que eles possuían1 completo conhecimento das noticias, que entre as

\las

. nth;óes ocidentais ha\·ia úccrca das gentes c terras do Oriente

\lén1

disso este li\TO contem a Yersão portuguesa da relação das YÍagens de 1\1arco Paulo, a qual foi terceira tradução que se fez da mesma relação; a Yersão portuguesa da relação das Yiagens de ~icolo dei Conti, cujo texto latino poucos anos antes tinha sido impresso; c cmfin1 a Yersão portuguesa da carta de Jcronimo de santo Estc- Yanl, cujo original, proYaYcln1ente escrito em italiano, é até agora desconhecido. En1fin1 o .Jfarco Paulo é um notaYcl texto da lin-

guagenl portuguesa dos prin1ciros anos do seculo xYr, conhecido sútncnte dos bibliografas c de poucos eruditos. Por todas estas ra- zões se en1prccndeu a rcin1prcssão do n1csmo liYro com o fim de pc>r á disposição dos historiadores, gcografos c cultores da literatura portuguesa, un1a obra notavel por tantos titulos. No que se segue não nos ocuparemos em referir as condíções particulares de Yida dos Italianos, cujas relações de Yiagens são rein1prcssas adcante, nen1 en1 identificar os nomes dos paises, ilhas, c cidades nelas n1encionadas: esse trabalho já tem sido feito por

notaYcis escritores, con1o Ranu1sio nas ~\

na sua obra n1onun1cntal e exhaustiYa acerca de !\Iarco Paulo ( 1). Aqui lin1itar-nos-hen1os a considerar o destino e influencia que as n1csnu1s relações tiYeranl na literatura portuguesa. Para facilitar as inYcstigações juntou-se un1 indice ren1issiYo dos nomes proprios.

al'igationi

e viaggi, e Yulc

(1)

Tlze book of ser

\!.trco

Polo tlze renetian concerning the Kingdoms and mar-

t•els of tlze E.1st, translated and edited by Colonel Sir Henry Yule. third edition, reYised by Henri Cordier. London. 19oJ (dr)is Yolumes). Esta obra magistral deye ser consultada cons- tantemente para a compreensão das Yiagens de :\larcu Paulo. em tudo o que respeita ao

ori 0 inal da relaç;"io

das mesmas Yiagens, suas versóes: manuscritos e impressóes.

~~rRODUCÁd

~

I.- nESCRIÇÁO J)()

J>.lLErJTJCO

O exemplar do .Jiarco Paulo pertencc.·nte ú Biblioteca 'acional de Lisboa ( 1), onde tcn1 a numeração de resen·ado -t-3 1 (antigo B-64), é um Yolunle do formato de 4-. 0 encadernado, sendo as pastas cober- tas de carneira de ct>r de castanha. O liYro tem 1 oG folhas dispostas en1 dezasetc cadernos, sendo o primeiro de quatro folhas duplas, os quinze seguintes de tres folhas duplas, e o. ultimo de quatro folhas du-

plas. A.s folhas ten1 o, 111 2jS de altura e n, 111 1 ~) de largura, mas foran1 aparadas pelo encadernador; o papel das folhas é de linho encor- pado, un1 pouco an1arelado, com a marca de agua de tres linhas re- tas paralelas de alto a bai\.o.

completa tl'nl

o 10 , 1 3o de comprimento, e em n1edia 5o letras. As linhas formam uma se'> coluna de <>, 111 21 ó de altura; e alén1 d'estas linhas ha outra na

parle superior, con1 o titulo da obra, que con1eça na pagina Yerso c termina na pa"ina reto se'Tuinte. ~a pagina reto de cada folha ha ainda, na parte superior ú di- reita, a indicação da folha em n tlllleração ron1a1HL 'a parte inf~rior da pagina reto de cada folha estú marcado o registo do caderno

com as letras do alfabeto a, b, c,

folha do caderno cn1 numeração romana. En1 algumas folhas falta

q. seguido da indica~é.Ío da

J.

.\ pagina inteira de texto ten1

3 5 linhas; a linha

t')

tl

esta ultima ntm1eração. A correspondencia da nun1eraçüo dos cadernos c das folhas é a segumte:

::'\umo:rao;ão Jos cnJano"

1.° CaJcrno: .\, .\ij, .\iij, .\iiij, .\\.} ,

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3.° Caderno:

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b, bij, biij, hiiij, lw,fFol. vij,

Foi. viij, Foi. ix, Fui.

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x, I·ul.

(t) As provas do .\l.rrco J>.wlo foram corri~ida, l'"r um.t copia f,,t··~rafica llo c\.cm- plar da Biblioteca Nacional, feita cm t~JO].

~

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I "~~Tt<out·ç.\o

~umcruçáo Joa cndnuos

'umrraçáo das f•,Jhaa

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XVJ.

I3.° Caderno: m, mij, miij, miiii,I Foi. lxvij, Fol. lxviij, Foi. lxix, Foi.

 

m,·, nwj

-l lxx, Foi. lxxj, Foi.

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Caderno:

n, nij, niij, niiij, nv,f Foi. lxxiij. Foi. lxxiiij, Foi. lxX\·, Foi.

 

nvj

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Jxx,·j, Foi. lxx,·ij, Foi. IxX\·iij.

I 5.° Caderno: o, oij, oiij, oiiij, ov,I Foi. lxxix, Foi. hxx, Foi. Ixxxj, Foi.

-l Ixxxij, Foi. lxxxiij, Foi. Ixxxiiij.

IG.° C~tderno: p, pij, piij, piiij, pv,{ Foi. }xxx,·,

lxxxniJ, Foi. lxxx•x, f ol. xc.

j Foi. xcj, Foi. xcij, Foi. xciij, Foi. xcdiij,

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XI

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q'·J, qnJ, qnq

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O.XI

IIJ.

\,rO.Xl

O.XI

\IJ,rO.

As letras, con1 que cstú in1prcsso o Jfarco Paulo, são do tipo denon1inado n1eio gotico, c de trcs corpos:

1 . 0 n1onacal: neste corpo são in1pressas: a letra inicial da pa- laYra Jiarco do rosto, a letra inicial do texto da epistola, as letras iniciais do texto dos prin1ciros capitulas das trcs partes do Livro de Jiarco Paulo, e as letras iniciais do texto do Lh,ro de ~\""icolao Ve-

neta, c da Carta de Jeronimo de santo Estevam.

2. 0 n1aior: neste corpo são impressos o rosto do liYro, cxceto as palaYras 1.liarco pau/o, e os títulos das obras c dos capitulas.

INTRODUCÃO

v

.

3. 0 menor: neste corpo são impressos o texto, as tavoas dos capitulos, a numeração das folhas, c o registo dos cadernos. Além destes corpos de letra, a primeira letra de cada capitulo é un1a capital, induida dentro de um rctangulo adornado con1 ara- bcscos. A segunda letra é maiuscula do corpo n1cnor.

O titulo da obra, que está na parte superior das paginas, é

tm prcsso

Dos sinais de pontuação só é cn1prcgado o ponto; geralmente, quando o ponto corresponde á virgula ou ponto c virgula, a pala- vra seguinte começa por letra n1inuscula; c quando corresponde ao ponto final, a palavra seguinte con1cça por n1aiuscula. Os pcriodos são separados uns dos outros geralmente por n1cio

do sinal ~1, anteposto ú primeira pala\Ta; umas vezes logo cm se- guida {t ultima palavra do pcriodo precedente, outras vezes con1e- çando linha nova.

.

.

cn1 corpo n1cnor.

O contcudo do livro é o seguinte.

H.osto do livro: na parte superior a esfera arn1ilar dentro de un1 rcctangulo de linha dupla.

Ao n1cio o titulo principal do livro: i\Iarco pau/o, cn1 gran-

des

ramos.

letras

do

tipo

n1onacal,

sendo

a

primeira

adornada

con1

Logo cn1 seguida, cn1 duas linhas de corpo n1aior.

Ho liuro de

Ho Ira/lado da carta de huú genoues das ditas terras.

Ao fundo cm quatro linhas de corpo n1aior:

J'encto.

~.\]~colao

C~OIIl priui/egio de/ R.e)'~ noSSO senhor.

que llen/llllÍ faça a Ímpres-

sam deste liuro. nem lw J'enda em todo/los seus regnos e senhorios sem liçença de T""a/entim fernande\ so pena contenda na carta do seu preui- legio. Ho preço dei/e. Cento e de\ reaes. Á direita da esfera armilar ha o carimbo da antiga Real Bi- blioteca Publica, c ao fundo da pagina o carin1bo da Bibliothcca ~acional de Lisboa.

pagina do rosto são

dados són1ente os nomes de ~{arco Paulo, c de ~icolao Vcneto, scn1 os titulos das respectivas obras; do que resulta que ficam sem ante-

cedentes as palavras das ditas terras, con1 que é _enunciada a carta

Não é para

passar sen1 reparo, que

na

de .leronimo de ~;anto Este\'am, e que são certamente a Judia e lc:na.~

oric:nlais 1 ljlle constam dos títulos Jo l.il•ro de: .Jlarco Paulo c do f.ivro

de: }\yicolau

J,.c:nelo.

IFoi.

.\, 1'- .\i j,

1•]: l:):>istola sobre a tralladaçáo do /iuro de l,.alc:utim Fc:nzande;.

l/arco pau/o pot

l/arco

pau/o feita pc:r

l Foi. ~\ij,1•-.\iij, 1_']: Introducçam c:m o liuro de T'Yalentim Fc:nw ndC:)

·

[Foi.

Sc:nlruria.

.\iij, 1'J:

Capitulo.\' das prouincias du titulo Real de 1'o.Ha

[Foi.

.Aiiij, r-AY, r]: ])as Ethiopias.

[Foi. Ax, r-Ax, 1']: Da prouincia de Arabia. [Foi. A'", 1']: Da prouincia de Pc:rsia. rFol. AY, 1'-· AYj, 1']: Da India. [Foi. AYj, 1'-AYij, rJ: Prologo daquele que tralladou o Jlarco pa ulo da liugoa ytaliana em latim.

liuro pri-

[Foi.

AYij,

r- AYiij,

1']:

Ta uoa

dos

ct:tpitulos

do

mc:zro.

[Foi. j, r- xx.Yj, ;.] : Liuro primeiro de ~lLtJrcopaulo, en1 sessenta

c

sete capítulos.

A

pagina recto da folhaj, onde con1eça o Lil'ro de ~".!arco Paulo,

c

profusamente ornan1entada. ~a parte superior ha un1 rcctan~ulo

lirnitadn por linha dupla; dentro do r~cta~1gulo é desenhada uma nau armada de artilharia c tripulada, naYegando sobre as aguas do n1ar. Aos lados do rcctangulo ha duas tarjas co"n1 ornatos de anitnais de fantasia e plantas. Ao n1cio cn1 corpo n1aior estú o titulo con1plcto do liYro prin1eiro c do capitulo prin1eiro; c a seguir o principio do capitulo prin1ciro.

As nlargens da pagina são cobertas COlll tarjas, as quacs são adornadas con1 anin1ais de fantasia, ratnos c flores. ~o canto direito a tarja inferior é substituída por un1 escudo de linha dupla, cujo can1po está cm branco.

lFol.

gundo.

XXYJ,

r·- xx.Yij,

1']:

·Tauüa

dos

capitulas

do

liuro

se-

INTRODUCAO

.

Vtt

[Foi. xxYiij, r- h·ij, 1']: Liuro segundo de .Jlarco pau/o) en1 se-

tenta capítulos.

[Foi. lviij, r c vJ: Tauoa dos capítulos do /iuro terceiro.

lFol. lix, v- Ixx,·ij, 1']: Liuro terçeyro de coenta capítulos.

l/arco

pau/o, en1 cin-

lFoi. lxx,·iij, r -lxxix, 1']: l.iuro de ~\"'ico/ao Veueto. Prolu:mio. !Foi. lx:\Í:\, J'- lxx'., r]: l)rologo de Pogioflorentim.

I Foi.

lxxx, r-lxxxYij, 1'J: Liuro de .•Yicolao Veneto.

[Foi. hxx,·ij, 1'- xc,·, JJj: J)a 1'Ída e custumes da f{Cilte de Judia.

I Foi. xcYj, r- :\cYiij, r]: ~t carta do ge1wues.

Enccrran1ento do liYro: Foi. xcYiij, 1'. Na parte superior da pagina está mna estampa, que é a divisa do impressor Valentin1 Fernandes-; esta diYisa ten1 por empresa un1 leão coroado assente sobre as patas posteriores, erguido, con1 a cauda, en1 parte bifurcada, leYantada até ú altura da corôa, apre- sentando un1 escudo sustentado por n1cio de uma correia con1 ti- vela lançada por trüs da cabeça c ton1ado pelas patas anteriores. 1\o escudo corno muto está a letra \, en1 cujo angulo inferior tcr- nlina uma haste que a dois terços da altura tcn1 un1a fita ou 1la- nlula, c na parte superior uma pequena cruz. Do escudo pende un1a fita con1 as letras ISY\\.H; por baixo da 1lta ha un1 olho, da qual

G.tenl cinco lagrin1as. A diYisa é cercada por unHl grega c depois por un1a linha forn1ando rcctangulo. Por ti>ra do rectangulo ha tar- jas adornadas de anitnais c aYcs de fantasia, c de plantas con1 Hores. A letra V é certan1entc a inicial do non1e Yalentim do impres- sor; n1as não saben1os a interprL'ta~ão da legenda da ti ta. O impressor jú tinha usado esta divisa no cncerran1ento do livro Jfisturia de respasiauo, impresso por ele en1 I -+9(). A letra Y c a haste volteada da tlan1ula e ternlinada cm cruz encontra-se no sinal publico feito pelo proprio Valcntin1 Fernandes

. meou interprete e corretor dos n1ercadores alemães, residentes en1 Lisboa, datada de :! 1 de feyerciro de I 5o3. rC/wnce/ari"a de/ rei

cn1 seguida ao registo da carta, pela qual cl rei D

.\lanucl o no-

\III

Por

baixo

da

que tcrn1ina assim:

IN rtHJI>liCÁO

.

divisa segue-se a subscrição cm cc'rpo menor,

al/cmaão. l:"m a muy nobre

çidadc Lyxbo.1. l:"ra de Jlil c quinhentos c dous an1ws. Aos quatro dias do mes de F'curcyro.

Imprimido per Jraleutym fernandci

"

:\o rosto do

l/arco

Paulo o impressor Yalcntim Fernandes de-

clara, que cl rei D. ~vlanucl lhe concedeu o privilegio de que nin- guem poJcss~ fazer a in1prcssão do mesmo livro, nem vendê-lo cm todos os seus reinos c senhorios, sem licença do mesmo impressor sob a pena conteuda na carta do seu privilegio. Esta carta, pro- YaYeln1cnte ah·ará, não se encontra registada nos Ii vros que restam

da Chancelaria de/ rei D

O preço do livro foi taxado en1 cento e dez reais, como se de-

~."Ianucl.

clara no rosto.

~ão é

sabido o

nun1cro de

exemplares da edição do ~llarco

Paulo, n1as é de supor que fosse pequeno, con1o de todos os li,Tos i111prcssos na prin1cira n1etade do seculo xn; comtudo o livro parece ter-se espalhado não só no país, n1as tamben1 fóra dele. Do li,To

foi feita un1a tradução cm latin1 por Simon Grinaeus, impressa em

orbis r egionum (I); e dele se utilisou João

Basle cn1 I 53 2, no ;

Batista Ran1usio para estabelecer a recensão italiana publicada no segundo ,-olun1c das .1Yavigationi e l'iaggi, in1presso em Veneza em

\rovus

ISSg (2).

Os exemplares do conhecidos os seguintes:

liarco

Paulo são extren1amente raros; são

1. Biblioteca ~acional de Lisboa, resen-ado 43 I (antigo B-64).

d. n. 0 26 (3).

2. Biblioteca

3. Biblioteca :\acional de Paris.

4· .Museu Britanico de Londres.

Publica de Evora, Gab. E. 5.- C.

1.

(1) Yule.

(2) Yule, The book of ser J/arco Polo, I, p. g6 a 101. (3) Antonio Joaquim Lopes da Silva Junior, Os reservados da Bibliotheca Publica

The book o! ser _\f.Irco Polo, I. p. g5 e g6.

INTRODUCÁO

>

5. Biblioteca particular de ~1. Alfred H. Huth, Biddesden, An- doYcr, Inglaterra (1). :\a Biblioteca da Academia das Sciencias de Lisboa e:\.istc un1a

copia nú1nuscrita do .Jlarco Paulo, feita de un1 e:\.en1plar do in1presso

l·~ste n1anuscrito ((~ab. n. 0 3, 1· 1o, 11. 0 3) é un1 liYro de

cn1 i ;J .Sn2

fonua{o ·de folio, de 14-G folhas ntm1eradas en1 293 paginas (falta a

pagina 2~Hi). O liYro é de papel aln1asso branco, pautado de azul, con1 n1arca de agua. Cada pagina cotnpleta tcn1 35 linhas en1 un1a

sú coluna, lin1itada por do1s traços a lapis deixando pequenas rnar-

gens. A letra é do n1eaJo do scculo

XI~ ( 2 ).

(1) 1\lax B:ihme, J>ie grosseu deutung, Strasshu rp;. 1~10~. p. 3.

Reises.wmllungen des 16. J,tlzrlumderls. und ihre Be-

(2)

No fim do livro, ao fundo da pagina 2~)3 está escrita a lapis a seguinte nota do

encadernador.

Zeferino+·

Titulo pedido.

Na guarda lto fim está escrito a lapis.

Eugenio da Fonseca Peixoto.

Preço 2rJ.'t!moo.

O livro estLi. encadernalto~ tendo as pastas e lombada cobertas de carneira de cór de castanha com malhas; na lombada tem sobre carneira preta o titulo seguinte a letras douradas:

Histori.t d.t /ndi.t I de Jl.trco P.wlo I e o lit•ro I de I .\'icul.w l'eudo.

Nesla copia corrigiram-se alguns erros da impressão, dc:sti;:eram se as abrevi.J.turao;

cm conformidade com a ortografia usual, c a algumas palanas deu-se a forma moderna.

r:: provavcl que esta copia t;nha sido feita com o intento de reimprimir o Jl.:zrco P.wlo.

Segundo informações prestadas pelo livreiro-editor Sr. Zeferino, esta copia foi feita por uma pessoa, que tinha boa caligrafia, e a quem disseram que poderia facilmente ven- de-la. O mesmo Ii,·reiro editor se encarregou de mandar encadernar o livro, o que se fez

copia foi feita

depois de 18tio.

no encadernador

Lisboa, que te,·e estabdecimento no Largo lto Carmo

\

INTIHJI>UC:AO

.

II.-()

1.\/J>RJ·:SSOR

V.II./·,'.\"TJ.\1 FFJ<XA.\'/JI·:S (a)

O impressor do livro de Jlarco Paulo designa-se a si mesmo pelo nome de Valentino de ~loravia na subscrição do primeiro livro

da Jri/a Clzristi terminado cm 14 de .-\gosto de 149S; pelo de \.alcn- tino de llH>ravia na subscrição do Ji,-ro da llistoria de Trespasiano, terminado en1 20 de Abril de 1496; c por Valentim fernandcz alc-

nHtão na subscrição do livro

Paulo, terminado en1 4 de Feve-

reiro de 1 5o:!, c na ~ubscrição dos Autos dus Apostolus tern1inados cn1 1 G de Dezembro Je 1 5o5.

\Iarco

(I) :\l:erca dt: Valt:ntim Fernandes \'eja-se:

Diogo Barbosa Machado, Bibliotlzcc.t lusitana tomo III; p. 768.

lnoccncio F. da Silva, Diccionario tomo \'I, p. 128.

Antonio Ribeiro dos Santos, Jlemori.t sobre as origens d.1 typogr.tphia cm Portugal

110 secztlo xv: nas Jlemorias d.t litteratura portuguc;a da :\. R. S. L, tomo \'111. p. 1 - 7G:

e l'.Jemori.t p.tr.t .t lzistori.t d.t typogr.1plziJ portugue;a no seculo xv1, ibid::m;

(dr. Venancio Deslandes), Do.:umentos par.1 .1 historia d.t t_ypogr.tplzia porwguer.t

nos see~tlos xn e xv11. Lisboa; 188J-I882, p. 3 a 6.

Venanc io Deslandt:s, Documentos par.:I a historia da typogr.:1phia cm Portugal no.;

secztlos xn c xv11~ Lisboa;

Xa,·it:r da Cunha, Xoticia de um precioso livro d.1 Bibliotheca S.tcion.tl de Lisbo.1

(Reportorio dos temposj, Coimbra; 1888. Luciano Pereira da Sih·a. As t.tbu.ts nauticas portugues.1S e o Almmzach perpetuum

de Ztcuto. Coimbra. 1916. Cond-: de Sabugosa. A R.1inh.1 D. Leonor. Lisboa, (1921). p. 3oo a 3o8.

Obras complet.ts do Cardeal Sar.th•a (D. Francisco de S. Lui;). Lisboa; 1876, tomo

77- q+

bibliogr.tphico portugue;: tomo I; p. 3~17 c 3y8;

p.

1888: I.

p.

1 a

;.

YI, 11. 0

13+

Gabriel Pereira. As ilh.ts do .ltl.mtico, chronic.ts de Valentim Fernandes, allem:io. (Separata da Revist.1 Portugue;.t coloni.tl e m.tritima). Gabriel P-:reira. Diogo Gomes, As relações do descobrimento d.t Guiné: e d.ts illz.1s dos Açurcs, Jladcir.1 e C.tbo l"erde. (Sep3rata do Boletim da Socied.tde de Gcogr.tplzia de Lisboaj. Dr. Schmdler. l eber l"alentin Fern.mdc:;~ Alem.í, wzd seine S.wzmlzmg von .Y.tch- ridzten iiber die Entdeckwzgen und Besit;ungen der Portugiesen in Afric.t und Asicn bis

;um J,tlzrc I5o8. :\lunchen. I8-t-7·

Friedrich Kunstmann. lr.1lentin Ferdin.m.is, Besclzreibung des ll"estkiiste Africas bis ;um Senegal. Ernst Volger, Die ,'i/tcsten Drucker wzd Druckorte der Pyren.iischen H.1lbinsel, .\'eues Lausit;er .U.tga;in. Bd. 49· von Hantzch. Dcutsclze Reisende des 16. J.thrhundcrts, Leipziger Smdien. 189S.

K. Haeblt:r, Tipogr.~fia lberic.1 dei siglo XV, Leipzig, 1902. p. 72 e 73.

1\la:\ B"ihm-:. Die grossen Reises.tmmlungen der 16. J.tllrlumderts rmd ihre Bedeu-

twzg. Stra-.hurg. I~JO+

INTRODU CÁO

'XI

~

Yalcntim era o seu non1c proprio; Fcrnandci' c o patronimi(o que ele adoptou ú n1ancira dos Portugueses, pro,·a,·cln1entc porque

seu pai se chanlé:n· a Fcrdinand; .\I ora ,-ia indica o paiz donde era natural, 1\lührcn, na \ustria; cnfin1 alcn~aão era a denotnina\ã<>

Lisboa ( 1) por ser natural da

A llen1anha. Yalcntin1 Fernandes ,·eiu con1 outros in1prcssorcs al- lemães para l>ortugal e~er(er a sua profissão; não se sabe o ano

da sua ,·inda, n1as foi antes de

\ alentin1 Fernandes estabeleceu-se en1 Lisboa e~cr(endo a sua profissão de itnprcssor; primeiramente foi associado (0111 :\i(olao de

s~rxonia, c imprin1inll11 Cl11 I 490 o BreJ'iario l:'borCilSL' <

14-9S a Tí"ta C/zristi cn1 português. Depois, s<'>, in1prin1iu cn1 149G a 1listoria de respasiano Cl11 português, cm I 5oo as obras de Cata/do Siculo cm latim, cm 1So2 o li \TO J1larco Paulo cm português. De-

pois novan1cnte associado con1 João Pedro Buonhomini, de Crc- 111<>na, imprin1iram cn1 15o-+ o Catecismo peque11o de doutrina, c novamente só, in1primiu cn1 15oS os Actos dos .!posto/os cm por- tuguês.

conce-

deu-lhe o pri,·ilcgio da in1pressão dos livros dos Regimentos dos Jui- ;:cs e Q!ficiaes (2 ). El rei D. 1\lanuel contratou con1 Yalentin1 Fernandes, provavel- 111cntc cm 1S 12, a in1prcssão de mil cxcn1plarcs dos cinco Ji,Tos das Ordenações; o primeiro <.los cinco Ji,-ros foi acabado a 27 de Dczcn1- bro de 1512; c a impressão de todos os outros csí.a,·a tcrn1inada em 1 5 •-+; c os exemplares foram entregues ao Hospital de Todos os Santos, ao qual cl rei O. \lanuel os doara. \'alcntim Fernandes traduziu do castelhano, c pron.n·eln1cntc in1primiu o Rcportorio dos tempos, do '-}tHtl todt.n·ia a mais anttga impressão de que ha notícia é de 1 521.

porque usualn1cnte era (onhccido cn1

14-9<>.

'n1

latin1, c cn1

Por aln1rú de 22 de fevereiro de 15o3 el rei D

\lanucl

(I) Cf. Schmellcr, obr.t cit.tda, p. 7-8. rclluü homem de Lagos, que se .:hama\'a Pcro .\llcmam. nom sey se por sccr natural daquella terra de .\llemanha. se por alcunha que lhe poscrom.u (G. E. de Zurara, Clzronica do descobrimento e conquist.1 de Guiné, p. 2tÍ2). (·l) .\ obra conhecida. por impressões posteric,rcs. soh o titulo Regimento du as- trol.Jbio c do qu.tdrmltc, de que os na,·egadon.:s se havi:\m '-\c prm er para as suas 'iasens.

fui impressa por Gcrm~o Galhard~:,

·

I NTHOI>I ·ç.:\o

Valentim Fernandes não foi um merr' t:om pnsitor ti pografh:o

c impressor; parece ter possuído instruçã(, Iiteraria, ~ohrctudo dassi(a, mais do que vulgar. \lém Ja sua língua materna sabia

a língua latina, c alcan~ou suficiente conhecimento das línguas por- tuguesa c castelhana. Traduziu do latim cm pnrtugues o /Jivro de

rendo, c do castelhano cn1 portugucs o Reportorio dos Tem-

pos composto por André de Ly, de Saragoça; traduziu, ou talvez -n1clhor, c:\.trahiu de un1 livro cn1 latim as breves noticias acerca das proYincias do titulo dei rei D. ~lanucl, isto é, de Ethiopia, Arabia, Persia c India. Escreveu crn português o prolzemio da Vüa Clzristi,

a epístola c introdução ao Lil,ro de Jlarco Paulo, o prolzemio do

Vicolao

LiJ,ro de

Y"icolao

Veneta, c o prologo do Reportm·io dos tempos.

Como Valcntin1 Fernandes se interessava muito pelas desco- bertas dos Portugueses (2), con1pôs cn1 portugucs uma obra, que tem por titulo Chronicas das ilhas do Atlantico, con1prcendendo nela a~ ilhas Canarias, !\ladeira, Açores, Cabo Ycrde, S. Thomé e Anno

Bom. Esta obra é un1a con1pilação de noticias acerca das mencio- nadas ilhas, que alcançou de relações escritas, e do que ouviu con- tar a alguns n1arinheiros, e algun1as vezes refere os nomes dos seus

Bohemia, que no con1eço do seculo XVI estava

en1 Lisboa, escreveu cn1 latin1 a relação que lhe fez Diogo Gomes, al- n1oxarife do paço de Sintra, acerca do descobrimento da Guiné, e das ilhas Canarias, Açores, Madeira e Cabo Yerde. Valentim Fernandes juntou cn1 un1 volume n1anuscrito as duas mencionadas obras, Chro11icas das ilhas do Atlautico, c as Relações de Diogo Gomes, pro- vavehnente con1 intenção de o in1prin1ir, o que não teve efeito; mas

inforn1adorcs.

.\lartim de

(2}

Fernão Lopes de Castanheda. Historia do descobrimento e conquista da lndi.1

pelos Portugueses: liv. I. cap. xxviii) conta. que um Valentino ~loravio dizia ter achado, aos 9 dias de Agosto de I5o5. nas raizes do monte da lua, a que chamam agora a rocha de Sintra, junto da praia do mar. debaixo da terra~ tres colunas de pedra quadradas~ tendo cada uma em uma das faces letras romanas. que sómente em uma das colunas podt!ram ser lidas, por as outras estarem gastas do tempo: e que as letras formavam um titulo e quatro versos tudo em latim: em que a Sibila profetizava. que quando o ocidente vir as riquezas do oriente. o Ganges, o Indo. e o Tejo seráo cousa maravilhosa de ver. ~las segundo outra narração as mesmas pedras j~t haviam sido achadas se:s anos antes, ficando aban- donadas na praia do rio das Maçãs. poucos dias antes de :\!icohu Coelho ter chegado a Cascais, vindo diJ descobrimento da lndia com Vasco da Gama. do qual se apartara e adeantara para dar a el Rei D. Manuel a noticia que seria tanto do seu agrado.

INTRODUCÁO

XIII

~

o n1anu-;crito existe ainda na Biblioteca de 1\lunich. do qual foi extraída un1a copia que está depositada na Biblioteca Nacional de Lisboa ( 1). Valentin1 Fernandes em I 5o2 era escudeiro da Rainha D. Leo- nor, viuva de cl rei D. João II, e foi non1eado corretor e interprete dos n1ercadores alcn1ães residentes en1 Lisboa, por carta dei rei D. Manuel datada de 2 I de fevereiro de I 5o3; c en1 I 5o6 serviu de in- terprete ao Dr. Jcronin1o ~lonetario, fisico dei rei D. ~Ianucl. Igno- ra-se o ano do seu falecin1cnto, mas sabe-se que era falecido en1 4 de .1\laio de I 5 I 9 (2). A assinatura c sinal publico de Valentim Fernandes existe cxa- rada en1 seguida ao registo da carta dei rei D. ~lanucl, acin1a nlcn- cionada, na Challcelaria do n1esn1o rei, liYro 35, foi. 53.

( 1) Gabriel Pereira, As illz.ts do .-ttl.mtico, dzronic.ts de l".tlentim

Fern.mJes, alem:io:

Lisboa. s. d.; Diogo Gomes, As rel.tções do descobrimento d.t Guiné, e J.ts i/lz.ts dfJs .lço-

res, .\!.tdeir.t e Cabo Verde; Lisboa. 1899·

(2) Consta por um auto de demarcação dos pinhais de D. Isabel de \lbuquerquc. cm .\lhos Vedras, datado de 4 de 'laio de 1519, que o pinhal do Esteiro pania com her- deiros de Valentim Fernandes. e çom outros de: 1.>. Isabel de: .\lbuquc:rque. (.·lrchi,•o llistu-

'\I\'

INTHOI>UC:ÃO

.

III.- F/·.".\"1 (J.~ IJI·: (JI E /'R() n~·.\1 /.\/F/J/.1 T.I.\1/·:XT/~

1 /R. l/H ·(:.to 1'01< /"CGl "J·."S.l

/J() .\/.lRC(J /'AI L()

C:onforme declara o proprin \·alentim Fernandes (foi. Aij, v),

os capitulo'\ relatiYos ás pnn·incias do titulo real de D

\lanucl,

i~to

e, acerca da Ethiopia, \rabia, Persia c lndia, foram tirados (tradu- zldos) para a linguagcn1 portuguesa, de um livro cm latim, que foi enYiado de Hnn1a a cl rei D. João II. Este liYro certamente foi incor- porado na li Yraria real, c é de presumir que \Talentim Fernandes o lesse ali no ten1po etn que se ocupava da in1pressão do Jfarco Paulo, isto é, pelos anos de 1 5o 1 c I So2. São conhecidos os títulos dos liYros que constituian1 a livraria dei rei D. ~lanucl em I 522, por um n1anuscrito atualn1entc depositado no Arquivo ~acional 1Casa da Coroa n. 0 I 58). Entre os liYros n1cncionados cncontran1-se os se-

guintes (I) :

1 o. Liuro da terceira parte do Especulo estaria/, em latinz, coberto de J'eludo roxo, com !mas brochas pequenas de prata. 9S. Liuro grande Tolomeu esprito de pena enz purgaminlzo.

~= possível que Yalentin1 Fernandes coligisse destes livros as noticias acerca das n1encionadas regiões, Ethiopia, Arabia, Persia e lndia; comtudo con1o ele pron1ete a tradução con1pleta do mesn1o liYro que era escrito en1 latin1, não parece pro,·avel que fosse nenhun1 daqueles que acima são n1encionados. ~Iarco Paulo, de Yeneza, fez as suas viagens pelas terras do oriente nos anos de 1270 a 1296; c quando depois de voltar a Ye- neza, foi feito cativo na batalha de Curzola, c levado para Ge- nova, ele ditou a relação, do que vira e ouvira acerca das gentes e paizes do oriente, a Rusticiano de Pisa, seu con1panheiro no carcere do cativeiro, o qual a escreveu en1 francez. Esta primeira redação foi trasladada en1 língua toscana, e desta passada a latin1 por Frei Fran- cisco Pipino.

(t)

Sousa Vitcrbo. A livraria real. especialmente 110 reinado de D. JI.muel, Lisboa:

INTHODUC.~O

XV

~

Frei Francisco Pipino, natural de Bolonha, religioso da Ordem

dos Pregadores, fez a versão latina da relação da viagen1 de ~\arco Paulo, cn1 cumprimento da ordcn1 dada pelos seus superiores, pro- vavchnentc no Capitulo geral da Ordcn1 celebrado en1 Bolonha cm

I 3 I 5. Frei Francisco Pi pino dividiu a sua obra cn1 trcs li,-ros, pondo no principio do primeiro livro a parte que constitue a introdução. O pritnciro livro consta de sessenta c sete capítulos; o segundo de setenta; c o terceiro de cincocnta; n1as faltan1 no fin1 da obra os ca- pítulos n1eran1cnte historicos. Parece que esta versão latina fói feita pelos anos de I 32o, isto é, nos ultin1os anos de vida do proprio 1\larco Paulo. O texto latino é redigido en1 forn1a de con1pcndio ou rcsun1o, c contcn1 algmnas incxatidõcs.

A versão latina de Frei Francisco Pipino foi in1prcssa cn1 Lllll

voltnnc de 74 folhas de fonnato de 4. 0 , scn1 titulo ncn1 paginação. c com os n1csn1o tipos con1 que foi itnpresso o Iti11erarium de Jc:mz de Jlandc:JJille, isto é, por (icrard de Lccn, cn1 Anvcrs, pelos anos de 1485. Este hvro é extremamente raro, c a mais antiga versão latina

que se conhece; c:\istc na Biblioteca :\"acional de Paris, o-2- I, Hé-

l-ii versos n1anus~ritos: na Biblio-

teca de S. ~!arcos de Veneza, Cla. X, cod. lat. LXXll; no \luscu Britanico, Harleian .\lss. 5t 15, Arundcl XIII. A versão portuguesa do LiJ,ro de _jfarco Paulo foi feita do tc"\.to latino de Frei Francisco Pipino, cotno claran1cnte resulta do pro- logo de Frei Francisco Pipino. cuja tradução precede a versão por- tuguesa. C01no o texto latino, a versão portu~ucsa é tatnhcnl divi- dida cn1 trcs lin·os; o primeiro tcn1 sessenta c sete capítulos, o scgttndo setenta, c o tcr("eiro cincocnta. A versão portuguesa é pois con1plcta. Tanto quanto se pode a,·aliar pela ("Onlparação do te-xto latino con1 a versão portuguesa na parte correspondente ao pro- logo, aos prin1ciros quatro capítulos do livro prin1ciro, c ao cap. :\iij do li' ro terceiro, unicos cujo tc:xto latino alcançamos, a versão por- tuguesa é a tradução literal do texto latino de Frei Francisco Pi- pino, scn1 outras tnnditicaçõcs que as usuahncnte l'111prcgadas pc- los escritores portugueses do scculo X\", que traduliranl obras da

lingua latina.

scrvc. Desta versão latina e>

isten1

O Li1•ro

de

\7colao

Tpcndo é a traJu~~ío da relação da viagem

'\ \

I

h

I I<OIJLJC" AO

que '\icolo dei Co11ti, natural de \"cnc;a, fc.1. a JnJia na primeira

tnetadc do scculo x,

Braciolini, natural de Florença, c sc~rctario Jo papa J:ugcnio 1\.

( 1 43 1-1447), c in~erta por ele na obra l}l ac compús cm latim, inti- tulada Ilisloria de J'aridale for/una•; aquela obra compreende não sú a narração Ja ,·iagcnl llllc :\icolo dei Conti, fel á lnJia, as~im cmno as noticias que ao n1esn1o Poggio deu acerca da vida c cos- LI.JlllCS Jos lndios; Jnas tmnbcn1 as noticia~ acen:a da Tartária, que o mcsn1o Poggio obteve Jc um homem que veio a Florença, c a1irmava ter sido cn,·iado ao papa pelos christãos da sua terra; c c1ntin1 noticias acerca da Ethiopia, que Poggio tamben1 obteve de alguns hon1ens naturais deste país, que vieram a Florença, c alirmantm scrcn1 enviados ao papa pelos christãos da sua terra para tratar das cousas da fé. A relação de "'\icolo dei Conti foi impressa en1 latim pela prin1cira vez cm 1492, sob o titulo de lndia rccognita, seu De JJarictatc fortuna!; mas a obra completa de Poggio sún1cnte foi publicada, segundo un1 manuscrito de I 4So, sob o titulo Historia de J'aridate .fortuna:, en1 Paris en1 I 72J. O LiJ•ru de .1\Ticolao T"eneto é uma tradução muito verbal do texto latino da relação con1posta por Poggio Braciolini, provavel- nlente feita sobre u edição impressa en1 I 492; e as pequenas dife- renças, que se notan1 entre o texto e a versão portuguesa, deven1 ser consideradas con1o liberdades que os tradutores daquela epoca se pcrmitian1. Se na Yerdade a tradução da relação de Kicolau Veneto foi feita pelo proprio Yalentim Fernandes, con1o ele declara ( 1), e de crer que tenha sido corrigida por un1 letrado que conhecia bem a linguagen1 portuguesa, porque nela não se notam os barbarismos, que se obscn·an1 etn outras obras escritas pelo impressor Yalentim Fernandes (2).

A Carta que Jeronimo de santo EsteJ•am escrCJ'ell de Tripoli a

em Barutz~ a I de seten1bro de 1499, contem

a relação da YiageJn que o n1esn1o Jeronin1o de santo EstcYam fez

Esta rclaçã(J foi escrita cm latim por Po~gio

Jolzam Jacome

~.liayer

(1) Veja-se o Prohemio, foi. 78, J'.

(2)

Cf

ls ilh.1s do Atl.!lllico, chronicas de Vale111im Fcnz.mdes, allem:iu, publicadas

INTHOr>UÇÃO

XVII

cm con1panhia do seu con1patriota .leronimo -\Jorno üs rcgic>es das

Indias orientais ( 1) . .Jeronin1o de santo Estc,·an1 c .leronin1o \dorno cran1 nego- ciantes d~ Genova, que empreenderam a viagen1 pro,·avehnentc levados do desejo de visitar as regiões, donde pro,·inham as nlercado- rias indianas, sohre tudo_ as especiarias c as pedras preciosas. Par- tiram de Gcno,·a pelos anos de 149-1-, c depois de n1uitas ,·icissitudcs

atingiram o Pcgu, onde faleceu Jcronimo Adorno a 27 de dezembro

de 1-J.~)(). Jeronimo de santo Estc,·am, de regresso ao seu país, es-

te\ e cn1 Tripoli da Siria, donde a 1 de scten1hro de 1499 escrcYcu ao seu an1igo Joáo Jacon1e 'laycr, que estava en1 Bairut, c pro,·a- ,·elnlcntc dali ,-cio para Geno,·a.

Jcronimo de santo Estevam parece ser o mcsn1o que o patrício Nicolo Oderigo recon1endou a Cristovan1 Colombo, para que o faYo-

rcccssc, como se depreende da carta deste de 2 1 de n1arço de 1 So2.

De Jeronin1o Adorno não ha outras noticias que as contidas na

carta; pnn·aveln1cnte pertencia ü t~1n1ilia patricia Adorno, da qual trcs irn1ãos ,-icranl para Portugal no principio do scculo xn, c de- pois se estabeleceram no Brazil, onde se dcdican1n1 ü planhh;ão da cana de açucar c ü cxtraçáo dele, com o que adquiriran1 grandes nquczas. O non1e do dcstinatario da carta é na Ycrsão portuguesa Joham Jacon1c ~layer, mas Hamusio corrige 'laycr cm ;\laincr, no que é se- guido por De Gubcrnatis, .\n1at Jc S. Filippo e Prospero Pcragallo. A troca do non1e explica-se facilmcnt~ supondo que no original a palavra \layncr era escrita ~\laS·cr, c que o con1positor tipogratico. por não ter a letra _f, cn1pregou _r-, assin1 con1o náo tendo 'i conl- põs pãiço cn1 ,-ez de paíço (2); c que, sendo \'alcntim Fcrnanl.ics alc- nláo, lhe era mais conhecido o apelido 'laycr que \layncr. O apelido ~laincr era usado de algunHlS famílias de Gcnova; c é provavel que alguma pessoa de fmnilia deste apelido recebesse a carta do seu pa-

11) Prospero

P.:ragallo.

Vi.lggio

de

Geronimo

Je

S.mto Stej.:mo e di Jeronimo

.ldorno m

/ndi.t

11el

r

.

.JtJ

f.-1-/.~1'1·

no

Bolletitw ddl.t Soâel.l Geogr.tfic,l /t.t(i.nl.1. H om a~

·~~o•. p. 2f-f0.

l:!) Yeja-sc li' ro prinwiro. cap. :\.ÍX c 'ü'iiij,

"\\'III

I "'\THOUI JCÁO

.

rente .loham Jacomc .\laynl:r, c que manda~sc uma copia, ou P('r \·cntura o original, a algum seu contcrranco cstahclcciJo cm Li~bod como negociante, c este a comunicasse ao irnprcssor Valentim Fer- nandes, que inseriu na sua obra a tradução portuguesa.

"

IV.- CO.\IU

O

LIJ"RO

INTRODUCÃO

DF:

JIARCU

~

P.-lf"I.O

FOI

TRAZIDO

-l

~IX

POR.Tl'G.tL

O LiJ,ro de 1\farco Paulo foi conhecido cn1 Portugal na prin1cira

n1etadc do seculo xv, certan1entc pela versão latina de Frei Fran-

cisco Pipino. Cnn1 efeito na relação

D. Duarte (1433-1438), que é contida no Codicc da Cartuxa de Evora, le-se a seguinte Ycrha ( 1):

dos livros do uso dei ret

.Jiarco Paulo latim e lingoagenz em hum J'olumc.

Conforme a un1a tradição corrente cn1 Lisboa no tln1 do scculn

-xv, c referida por Yalentin1 Fernandes, o LiJ,ro de

trat.ido para Portugal pelo infante D. Pedro, filho dei rei D. João I. Eis cnn1o Valcntin1 Fernandes refere esta tradição na epistola dirigida a el rei D. ~lanucl (2): cc Sobre csto ou ui nesta vossa çidadc Rcy prudcntissin1o. que o presente liuro os \ cnczianos teucron1 es-

condido n1ujtos annos na casa do seu thcsouro. E no tcn1po ~ ho llfante Don1 Pedro de gloriosa n1en1oria vosso tyo chegou a Yc- nct.a. c dcspois das grandes festas c honrras que lhe foran1 fcit<.ls pcllas liberdades que ellcs ten1 nos vossos rcgnos. con1n por ho cllc n1ercçcr. lhe offercçcron1 cn1 grande presente o dito liuro de ~larco paulo. que se regesse por cllc. pois descjaua de vccr c andar pcllo n1undo. Ho qual liuro dizcn1 que esta na torre do tonÜ"~O. c csto se assy he qucn1 ho sabcra n1elhor que a Yossa real Senhoria,,. Esta tradição é verdadeira na parte que respeita ü cxistcncia

do liYro de ~larco Paulo na liYraria dei rei

no inYctltario do guarda roupa dcl rei

fessa ter recebido, en1 23 de dczcn1bro de 15 22,

o seguinte (3):

.\lanucl, H.uy Leite con-

.\lanucl. Conl efeito

\[arco

Paulo foi

1uc

n.

D.

entre outros artigos

Item.

Outro liuro de letra de pena que se chama Jfarco Paulo

coberto de J'eludo cremcsym com Ju.1s brochas de prata anylada.

O

tnodo de encadernação deste liYro n1ostra que era tido cm

grande cstinu1çãn, provaYeln1entc por ter sido dado a rei ou príncipe.

(1)

Bihliotc~a Nacional de l.ishoa. Cod. 1.-t)-.~5. foi. :\1i.

(2) .\I,Jrco PLTulo, fui. Aiij. v.

{3)

.-lrchivo historico portu;; uc:;, vrJiumc II (I~~~~·;). p. 3~o.

I ~THOIJUCÃ<)

~

() li,To cm latim era sem duYida ~opia da 'cr-,ão latina de Frei Fran(isco Pi pino, feita pelos ano~ de 1 :~:to, c que muitc, se vul- garisou cm ltalia, c depois f(,j impressa cm 14~5. A parte do livro

cm linguagem (portu~ucsa) era a Yersão do texto latino de Frei Fran~isco Pipino, á qual cstén·a junta.

O

LiJ•n, de Jlarco Paulo, que pertenceu á Ji,Taria real, e atudln1cnte

não ha n1ai~ notióa do

Depois do reinado dei rei

\lanucJ

nJo existe na Biblioteca da Ajuda. ~las é sabido de todos a~ grandes

,.i(issitudcs porque passou a liYraria real; alén1 das partilhas que se 1izcram por n1ortc de alguns reis, contribuiran1 para desbaratar a

antiga liYraria real, a anexação de Portugal a Hespanha, a inYa~ão

dos cxercitos de 1\apolcão, a ida da família real para o Brazil, c os

tren1ores de terra c os incendios que se lhe seguiram. ~= proYa,·cl

que cm 1101a destas perturbaçóes o liYro desaparecesse; c ~orno não

ha noticia da sua cxistencia f<>ra de Portugal, é de presumir que

fosse destruido pelo incend io de 1755.

INTRODUCÃO

XXI

V.-Al'TOR

D.l

l.ERS.ÍO

>

PON.TCCl't:S.l

DU

LH'RO

J)J~· MARCO

PAI LO

:\áo se sabe ao certo '-lucn1 fosse o autor da Yersao por- tuguesa do Lil,ro de Jlarco Paulo. Esta tradw;ão é atribuída por alguns escritores ao prnprio infante n. Pedro (I); c de n1CSI110 diz '-}UC para C<.lYalciro c náo letrado, entendia ral.oaYdnlcntc o latim (2); segundo refere Huy de Pina, o inf~tntc D. Pedro ccfoy ben1 latinado, c assaL n1ystico en1 cicncias c doutrinas de letras, e dado tnuyto ao estudo; cllc tirou de latin1 cn1 linguajcn1 o Regimento de l'I~Plcipes que Frcy Gil Corrcado con1pos, c assy tirou o li,-ro dos Ojl)--cius Jc Tullio, c Ycgccio De lle .Jlilitari, c cmnpos o liYro qu~ se di1. da Jrirtuosa Ben!fe_yturia COlll Ullla cont~:ssanl a qualquer L"hristão 111UY proycytosa" (Cizrunica de ]). ~ffunso J~ ca p. 1 2 5) (3). &\ traJu~üo de outras obras esc ri tas cn1 latin1 encarregou a alguns letrados da cork, principaltncnte ao Dr. \·asco Fernandes de LuL"cna (-tl En1 rcla~ão ao LiJ,ro de Jlarco Paulo náo ha nenhun1a noticia positiYa; n1as con:-.i- dcrando a extensão de:-\ta obra c o seu especial assunto, é pro,·ayd que t(>ssc tradu1ida cn1 linguagcn1 portuguesa por ordcn1 dele, n1as por algum dos seus letrados. Antonio H.ibeiro dos Santos é de parecer '-}llC o /Jh•ro de Jlwco Paulo, e o de l\icolau \·cneziano, c a carta de un1 gcnoYês f(n·an1 tras- ladados cn1 linguagen1 pelo in1prcssor Valcntin1 Fernandes (5). O Card\?al D. Francisco d~ S. Luiz diz, que scn1 cn1bargo de

( 1) llm manuscrito dei las (das Viagens dt: :\hrco P.aulo] füra otft:n.:cido unte:~ de

1

pX

ao infante D. Pedro. que o depositou na li' r.1riu

de seu irm;í.o cl rei l>.l>u.an~:. a~om­

panh<mlio CStl! C\.cmplar latino com uma \ crsáo sua, 'iUC i.llll.h\ .I .adjunta. ( rcoliltJ Braga.

Poet.rsp.1i

Tci.mos.

Porto. 187.!. p. 1q.).

(2) C.

1\l.

dt:

\·asconccllos e T. Braga. Gesdzichte ,ler J>m·tugiesisdtetz l.illt'r,rtur.

p. :q.ti.

n.

Tullio pelo infame 1>. Pcdru

Rt•m-

Jeitoria do l11j.mte D. Pedro, Porto. ~~~10. prologo de José Pereira de ~;unp:tio). (4) O li, ro Je Cícero I>e Seuet·tutc!, c o P.megirico .fe Ji·.rj.mo ror Plínio toram tradu.t.idos pelo Dr. Vasco F~:rnandcs de Lucena~ ~:o li, rode Ciccro /)e .lmidti.t foi tra- duzido pelo prior do Com t:nto Jc S. Jorge de Coimbra. (Gt•schic:llte der l)orlu~iesisduu

l.itter.llur. p. 3-t-6. n. -h S. 6). (5) .Hemori.t p.tr.:z ,t /zi:;tori.t .f,r tipogr.tphi.t portu;: llt'S.t 110 sc?culv \.\ 1. p. ~~~-Cf. Conde

(3) l'ma

copia

Ja

traduç;ío

do

linu

oj/iâis ~

l

:

/)~

e~iste na livraria

da Academia Real de llistoria em :\l

tdrid

(O Li1•ro ,f.l 1·;,·t110.~

r

Sabugosa, .1 R.tiulz.t l>. Leonor. p. 2~19 c Jo1.

ie ~

XXII

h IHOUU(' ÁO

parecer pelas fra~es, que se Icem na rubrica Ja cpislola dirigida a cl rei I>. \lanuel, que \ alcntin1 Fernandes foi o traductor do I~ÍJ'ru de .Jlarco l)auln, tem por nutis pn)\·avcl yuc e~tc não escreveu senão

a l'fÍslula c a introdução do mesmo liYrt!, c que o corpo da r,hra foi traduzido por outrem, c é Jc data n1ais antiga ; c Já cnn1o razão encontrar-se no catalogo dos Ji,-ros do uso dei rei D. Duarte lnen- cionado un1 volun1c do LÍJ'ro de Jiarco Paulo por linguagem; c que

"

se esta é, con1o parece a tradução in1pressa cm 1 So2, não é vcrisimil

que a n1es1na tradução fosse feita por \"alcntin1 Fernandes cerca de

setenta anos antes do tempo em que ele a imprimiu

( 1).

Innnccncio Francisco da Sih·a diz que não é provaYcl que o impressor Yalcntin1 Fernandes, que haYia pouco tempo viera para Portugal, tivesse adquirido conhecimento ~uficicntc para empreen- der por si n1csn1o a tradução do LiJ,ro de .Jiarco Paulo; c que tah·ês se servisse de algum manuscrito que lhe fosse confiado

da liYraria real, onde existia cm um manuscrito a tradução cm 1in-

guagen1 portuguesa do Li1 1 ro de

D. Duarte (2). 1\lax Bohn1e atribue, con1o era de esperar, a tradução por- tuguesa do LiJ,ru de Jiarcu Paulo ao proprio impressor Yalcntim Fernandes, acrescentando que a fizera nas suas horas de des-

canso (3). O in1pressor Valentim Fernandes declara, que os capítulos rela- ti,·os ás províncias do titulo rial, isto é, Ethiopia, Arabia, Pcrsia c India, foran1 tirados por ele de um liYro em latin1 para a lingua- gen1 portuguesa, e pron1cte trasladar todo o n1esn1o liYro, quando esteja desocupado, e se tiver reconhecido que a sua trasladação não é desagradaYcl (Aiij, JJ). Egualn1cnte na rubrica do prolzemio do Li- J'ro de JYicolao Veneta, tan1ben1 Yalentin1 Fernandes diz ter trasla-

icolao

e ajuntOU este }iYrO ao

dado do latin1 cn1 linguagcn1 portuguesa o n1esn1o Livro de 1\

liarco

Paulo desde o tempo dei rei

r

ellefo;

C 110 prolzemfo declara que trasladou

de ~larco Paulo por julgar fazer serYiço a el rei e aos seus subditos

(•) Obras completas

tomo

VI:

11. 0

13+

do

Cardt•al S.-zr.tiva (D. Francisco de S. Lui:;). Lisboa~ 187G,

(2) Diccwn.trio bibliographico portugues. tomo '"'· p. 128. (3) l\lax Bühme. Dze grosscn Reises.wmzlzmgen wzd ihre Bedeutrmg~ p. 5.

fNTH.ODUCÂO

~

XXIll

(tol. 78, P). Analoga declaração se faz na pagina verso da folha de rosto do Reportorio dos tempos (edição de 1 55 2, por (iern1ão <ialhar- do), c certan1ente estava no rosto da prin1itiva edição; naquela se diz q uc foi trasladado do castelhano en1 portugues por Valcntin1 Fernandes, alen1an1 ( 1). A rubrica da epistula dirigida a el rei D. !\lanucl con1eça assin1:

(( Con1eçase a e pi~tola sobre a tralladaçan1 do liuro de ~1 arco Paulo. Feita por Valentyn1 Fernandez t.•scudcyro da exçcllentissin1a l{aynha Dona Lyanor. Enderençada ao Scrcnissin1o c Inuictissimo Hcy c Se- nhor Don1 En1anucl o prin1e) ro. » As palavrasfí:i/a c endcrenrada são coordenadas; c se a palavra feita poderia rcferír-se tanto a epistola con1o a lralladaçam, a pala' ra cndercnçada destaz a l.ILI\ ida. c n1os- tra que a epistola foi feita por \.alcntin1 Fernandes, c não a tralla-

dacam.

>

Con1tudo

en1

nenhun1a

passagcn1 do

Lil'ro de

Jlarco

Paulo,

nen1 na introduçâo do /Jivro de

},[arco Paulo, diz que ele fez a tradlh;ão do [iJ,ro de Jlarco Paulo, nu

qucn1 a tez. Ainda declara no prohemio do LiJ'ro de ~Yico/ao rc:neto

qne se lhe fazia Inuito gn1vc, isto é, lhe era ri1uito diticil traduzir do lati1n cn1 linguagem portuguesa, por desconhecer a signitkação Jos

,·ocabulos. E na carta cn1 q uc dedica a .\ntonio

rio dei rei D. 1\lanucl, a tradução do Reportorio dos tempos. diz:

«Detrrn1inci entretanto de trasladar este presente Reporlorio [dos tempos] de Castelhano cm Portugucs sendo cu alhco en1 a lingoa. n1ais que en1 a vontade, trabalho recebo nisso querendo cu apro- veitar aos sin1prizcs que en1 a lingoa Ca~telhana não san1 tan1 es- pertos.» (2)

Carneiro, secreta-

ncn1

na

epístola a

el

rei D

\lanucl,

Cotnparando a linguagcn1 da versão portuguc~a do !Jil'ro de Jlarco Paulo con1 a do /Jeal Conselheiro dei rei D. Duarte. escrito

antes de

t-t-38, c con1 a da Cronica do descobrimento e conquista de

Guiue por Gon1es Eann~s de Zurara, concluida antes de t-t-53, re- conhece-se que a linguagcn1 da versüo portuguesa do Lil'ro de Jlan.:o

( 1) XaVJcr da Cunha, 1Yotic:i.t de um precioso livro d.t Biblioteca \",rc:ion.tl de Lisbo.r,

( Reportorio dos Tempos por V.rlentim Fernmrdes .tlem.wr.I.ishoa. 15 5:!). Coimhra, 1XX~. p. ti.

(2)

Reportorio

do<;

cional n." .ft)O).

tempos. ediç~1o de 15ri_l, foi. 1. v. (Hcsen ado da Biblioteca :\a-

X\IV

I~ 1 JH Wl1C Ão

.

}Jaulo c mais moderna do que a d Jua~ ohra~. Por outra parte como na vcrsJo portuguc~a do I.ÍJ'nJ de \/arco }Jaulo 'c observam formas divcr~as de uma mesma palé.n-ra, corrc~pondcnte~

a cpocas diferentes da lingua portuguesa ( 1), é licito ~upúr yuc para

a impressão da ,·crsão portuguesa do /.iJ•nJ de

sor \'alentim Fernandes se scn·iu de algum manu~crito copia do que existia na lin·aria real, cuja escrita foi modificada para a púr ern conformidade com a linguagem usada no tempo da impressão, ficando, por lapso ou descuido do escri,·ão da copia ou do rcYisor, as fornu1s antiquadas que se encontram no Ji,-ro impresso. De tudo o que fica dito conclue-se que a tradução do LiJ,ro de .J,.),farco Paulo impressa não foi feita por \' alentim Fernandes, porque

se ele fosse o tradutor, tc-lo hia declarado, como fez para os n1cncio- nados capítulos, c para o LiJ,ro de ~\., T'"eneto, c para o Reporto- rio dos tempos. Deve ainda obsen·ar-se, que esta conclusão é con- firmada pelo facto de se cncontraren1 na versão in1pressa do Li1'1·o do Aiarco Paulo as frases: Cambalu em nossa fingoa quer di1_er a cidade do senhor Oiv. II, cap. x); Quinsay. que quer dii_et· em nossa lingua çidade do çeeo (liv. II, cap. lxiiij); sollzado, que se chama e11tre nos cuberta (liv. III, cap. j); que era chamado em a nossa lingoa Velho (liv. I, cap. xxviij); que não poderian1 ser usadas por Yalentim Fer- nandes que era alen1ão, pois que se a tradução fosse dele diria:

que em lingoagenz portugues quer di{er, como se lê na rubrica do prohemio do LiJ,ro de .1\Ticolao T"eneto. Alén1 disso a linguagem e es-

Paulo revelam, que o

seu autor possuía conhecin1ento da língua portuguesa e cultura !ite- raria n1uito superior á do autor da epistola e introdução do Livro de

Paulo e do prohemio do LiJ•ro de .•Yicolao Ve11eto. Por outra parte sabe-se que Yalentim Fernandes era muito aceito da rainha D. Leonor, YiuYa dei rei D. João II, e irmã dei rei D. N1anuel, e da qual se intitulaYa escudeiro (2); pode pois su- por-se con1 grande Yerisinlilhança, que, por interyenção da n1esma

tqucla~

\!arco

}Jaulo, o impres-

icolao

tilo da Yersão portuguesa do LiJ'ro de

\Iarco

(1)

Como

por exemplo pouoraçom e pouoaçom

(liv. I, cap. xx), arçam do verbo

arder (liv. II. cap. lxiiij) e feçam do verbo feder (liv. III. cap. xv).

(:l) Yt:jam-sc as rubricas da episto/.1 e do prolzemiú do Livro de Sicolao lreneto.

{r-;THODLJCAO

~

rainha O. Leonor, o in1pressor \'alcntin1 Fernandes akançassc un1a copia da antiga versão portuguesa do IA.J'ro de .Jlarco Paulo, que existia na livraria rial. Todavia no fin1 Ja introdução do 1JiJ 1 nJ de

.J.l!arco Paulo (Aiij r, J') parece deprcenJcr-st· que o in1prcssor nüo se sen·iu, para a impressão, do n1anuscrito en1 linguagen1 portuguesa.

na livraria real

que andava junto do livro e1n latin1. c ~o.]UC existia d~sdc o tcn1po Jcl rei D. Duarte.

A suposição, de

que a Yersão portuguesa do LiJ'ro de

\/arco

Paulo foi feita pelo in1pressor Yalentin1 Fernandes, parece que ~ abandonar-se, porque nela se obscrvan1 forn1as anti~.-]W.H.ias de algu- nlas palavras, c não se notan1 os barbarisn1os que são trcqucntcs en1 utna oh r a escrita pelo im prcssor \ alentin1 Fernandes ( 1 ).

icvc

(t) .-ls ilhas do .ltla11tico, chro11ic.ts dt• l .1le11tim Fern.wdes, .11lt•m.1o. puhlicaJa~ por

Gahriel Pereira. l.isboa. separata do n. 0 3:z a

311 da Re1•ist.1 Pt~rlut;ru?~.ta•loui,II e m.1ritim.t.

J\.X \

I

Jr.n IH>I>IiÇÁO

VI- ~'J.tr;F:J\'S IJ() //\FAX'/ 1~· /J. fJ/·.'J)JU) ft)

O infante 1>. Pedro, quarto filho dei rei D. João I c da rainha D. Filipa de LcnLastrc, nasLCU cn1 Lisboa a 9 de dezembro de 1392. :\a sua adolcsccncia recebeu cuidadosa educação moral c religiosa, c no cxcrLicio das letras c das arn1as. Acompanhou cl rei ~cu pai na frota, con1 que empreendeu a conquista da cidade de Ceuta, indo "cotno capitão das galés de alto bordo. Depois que a cidade de Ceuta

foi tomada cm 2 I de agosto de 14 I 5, cm ~s do n1csn10 n1ê~ foi armado cavaleiro por cl rei seu pai na mesquita da n1esma cidade que tinha sido consagrada cn1 igreja. Quando a frota regressou ao reino, cl rei con1 os infantes c fidalgos desembarcaram cm Tavira; c ali o in- fante D. Pedro foi feito duque de Coin1bra. Em 1 1 de outubro de 1420 el rei fez-lhe doação da vila da Covilhã, c dos lugares de Tcn- tugal, Pereira, Condeixa c Monte-mór o \'elho. O infante D. Pedro pelo seu genio e pelo seu aspeto tinha grandes semelhanças cotn a rainha D. Filipa de Lencastre, sua n1ãe; era honesto, prudente c de grande autoridade; e o chronista Ruy de Pina (Cizronica de

D. Afonso J~ cap. 1 2S) descrevendo as suas feições, diz que o infante

D. Pedro tinha «Os cabelos da cabeça crespos, e os da barba algum tanto ruyvos cotno Yngrés». Levado do seu genio cavaleiroso (2), tendo alcançado licença

(1) Acerca das viagens do infante D. Pedro veja-se:

Leal Conselheiro por el rei D. Duarte, cap. 43 e 44·

G.

E. de Zurara, Cronic.r do Conde D.

Pedro, li v. li~ cap.

13, 27

e

38.

D.

Antonio

Caetano

de

Sousa. Historia genealogica da Cas.1 re.rl Portugues.1.

tomo II, Lisboa, 17J6, p. 69 e seguintes. Oliveira Martins, Os filhos de D. Jo:io I, 2. 8 edição, tomo I, p. t 1S e seg. Chronica do Inf.mte D. Pedro, por Gaspar Dias de Landim, Lisboa, 1882.

Resumo /zistorico da vida, ações, morte e ja:;igo do Infante D. Pedro, duque de Coim- bra, Regente do rei11o de Portugal na menoridade de el rei D. A.ffonso V, pelo .\bbade .\.

D. de Castro e Sousa, Lisboa, 18-4-J.

reina

Cma obr<l inedit<1 do

Doíi.1 Isabel),

Condestavel D. Pedro de Portugal, (Tr.1gedi.1 de l.r hzsifJIIC

publicada por Carolina Michaelis de Vasconcellos, na Homenaje .i

.\lenender )" Pelayo, Madrid, 18gg, tomo J~ p. 637-7h, especialmente p. 67o-68o.

Sousa Viterbo, Dois companheiros do bifante D. Pedro, na Revista militar, tomo 5-+

(1902), n. 0 21, p. tJ+2-Õ+~).

andou

(2) A obra conhecida pdo titulo de Livro do Infante D. Pedro de Portugal, o qu<ll

.rs sele partidas do mwzdo, por Gomes de Santo Estevão, hum dos doze que foram

INTROI>lJCÁO

,

XX\"11

dcl

rei seu pai, ofereceu os seus serviços ao in1pcrador Segisnumdo.

rei

da Hungria c da Bohcn1ia, cujos estados cran1 an1caçados pelos

Turcos. O imperador Scgisnumdo aceitou o ofcrecitnento, c por carta

datada de 27 de fevereiro de I-t-I8, feita cn1 Constancia, doou ao

infante D. Pedro

cendentes, con1 o soldo anual de 20 mil ducados ou florins de ouro a contar do dia cn1 que o infante partisse de Portugal para a corte da Hungria. O infante não prestou pcssoahnentc o juran1cnto de vassalagcn1 ao in1perador, tnas deu procuração a João Telles para esse fitn, o que este fez totnando conta do ducado en1 non1e do infante. ~ão são conhecidos os tnotivos '-}liC rctiveran1 o infante en1 Portu- gal; n1as é certo que ele não saiu do reino senão en1 1425. O in- fante D. Duarte seu innão deu-lhe un1 conselho por escrito, c D. Pedro partiu con1 pouca tenção de voltar a Portugal. O infante saiu do reino cm 1-1-25; con1 ele foran1 alguns fidal- gos, entre os quais cnlnl Alvaro Vaz de .Alnulda. ~\h·aro c;onçalvcs de Ataidc, c alguns hon1cns de armas, entre eles Vasco Pires Gantc, de Elvas, que era escudeiro dcl rei D. João L O infante dirigiu-se de Portugal para Inglaterra, onde foi hon- radatnentc recebido c festejado por cl rei Henrique Yl, seu sobrinho,

que lhe conferiu a ordem da Jarreteira (OrJcr of thc Gartcr); n1as só n1ais tarde, a 22 de Abril de 1427, foi eleito cavaleiro entrando no lugar vago de Thomaz Beaufort, duque do Exctcr, que falecera

o ducado (marka) de Treviso ( 1) a ele c seus des-

f.26

cn1 27 de Dczen1bro de L (2).

cm sua companhia. é a rcla

confunde-se o infantc D. Pedro com l> \tfonso, conde de 11arcelos: fillv, natural dei rei

l >. João I. o '-)Ual efectivamente fez uma viagem ú Terra Santa antes de q.1S (G

Zurara. Cronica da tomada de Ceut.t, cap. \"III). A mencionada ohra foi composta pro-

vavclmt:ntc no scculo X\"1. servindo-se liaS noticia' das via~cns ;i Terra Santa t;ío frc-

'-JUentcs no fim da edade m:dia

( 1) O ducado (marka) de Treviso era situado entre a Italia oriental t: os paiJ'es '-)Ue

planiccs entre o litor.\1 \encto. no fundo

llo .\driatico, c os primeiros socalcos da cordilheira dos Alpes. Era fre'-)uente naqude tempo os reis darc~l aos soldados de fortuna. que vinham ajulla-lns na-; guerras. pra :as

ncram a pertencerá Austria; e estendia-se p

\ mais mlti~a imprcss;ío. de '-JllC ha noticia. e de 155-t.

:<.ío

de via~cns ficti~ias atribuídas ao infante 1>. Pedro

\li

\. de

:las

lias fronteiras para as guardarem c defenderem.

(.!)

llcnry ~lajor. l.id.l do Infante

/). 1/en,.ique de J>ortu!{.ll. trad. ptJrtugucsa. !.is-

'<X \'III

JSlltOUIJCÁO

De Inglaterra o infante pa~sou a Flandres a vi.,itar o dth.JliC de Borgonha. Dc~cmharcou cm Ch tende; c estava ali cm 22 de Dezem- bro de 142S. ~o dia da sua chegada c no seguinte o "ienado da ci- dade ofereceu ao infante a taça de vinho d•: honra. segundo o tra- dicional costun1c dos Flan1cngos, repetindo-se a mesma cerimonia no dia de H.cis, fi de Janeiro de 1426. ~este dia o infante foi en- contrar-se com Filipe, duque de Borgonha no castelo de \\ eynau- dach, onde lhe estaYa preparada uma caçada de monte. ~o ultimo dia de .J anciro a cidade de Bruges ofereceu-lhe o espectaculo de um torneio no Bucrch, un1a reccção no senado, c á noite um sarau. De Bruges o infante escreveu uma larga carta a seu irmão o infante D. Duarte (r).

En1 Abril, depois da Pascoa, o infante foi para Gand, onde o duque de Borgonha o cspcraYa, hospedando-o no seu proprio palacio En1 n1cado deste ano o infante chegoll á corte do imperador Scgisn1undo, que então estaYa na Hungria; e o assistiu nesse ano c no seguinte de 1427. Durante este ten1po o infante acompanhou o in1- perador en1 n1uitas guerras contra os Turcos en1 Balafia (Bohen1ia) e Russia, onde n1ostrou seu grande valor e experiencia das cousas da guerra, e en1 que alcançou não pequena gloria. Não se saben1 os n1otiYos que o infante teYe para abandonar o scn·iço do in1perador Segismundo; mas é certo que o deixou, des- contentando-o pelo que lhe reYogou a doação do ducado (marka) de

TreYiso. Con1 o infante Yeiu un1 certo

~a prin1aYera de 1428 o infante estaYa em Yeneza, onde lhe fizcran1 grandes honras e festas pelas liberdades (priYilegios) que os Ycnezianos gozayan1 cm Portugal, con1o por ele o merecer. Diz-se,

\Iatheus,

natural da Polonia.

( 1 J Lil•ro

da

Cm·tuxa

de Evor.1. copia manuscrita da Biblioteca "\'acional deLis-

boa. L-ti-

J-5,

foi.

3:.!

r.

a -1-7· r. ;'\Jo fim desta carta o infante D. Pedro diz : <<Senhor dt:

muitas destas cousas eu bem creo que atee agora fui grande pane ajudador. mas prom·esse

a Deos que todos tin:ssem tal nmtade de ser emendado que eu tenho. e com a sua ajuda

entendo que o seria em

n<io ser em culpa delles; e ainda que eu bem sey que por azo de minha partida o Senhor H.ey e HJj tendes agora mais en.:arregos. se me Deos encaminhar bem. e minha Yida aja. ou ala tornar de socego. cu c-.pcro nclle de yos es.:usar daquelles que por meu aso tendes de presente. e ajudar em toda outra cousa que eu sentir que he Yosso sen iço: e emenda

daL]UCstes .:mpachos.•'

hreYe temr•o; e se me de la parti: hüa das razões foi por mais

'

INTHODUCÁO

>

).XIX

que ali lhe foi oferecido con1o grande presente o l.i1•ru das J'iage11s de .Jlarcn l'aulo, para que se regesse por ele, pois desejava ver c an- dar pelo mundo. De \'cncza, passando por Chioggia, Ferrara c Padua, ,·eiu a l{oma, onde f(>i benignamente recebido pelo papa 1\lartinho V, que, por Bulia de 1 o de _\la io de L concedeu aos reis de Portugal a faculdade de scrcn1 ungidos na sua coroa\ão, como os dos reinos de Frant;a c de Inglaterra, c de os infantes poderem reger o reino como filhos primogcnitos, c havcrêm coroa como de rei. De Homa vciu a Barcelona, onde esta nt cn1 Julho de 142R; dali passou a Aranda dei Ducro a visitar cl rei D. João 11, seu primo, e a Penafiel visitar o rL·i de ~avarra. En1 Sctcn1hro era jü cm Portu- gal, assistindo, cm 22 do n1csmo n1ez cn1 Coimbra, ao casamento do infante D. Duarte, seu irn1ão, con1 D. Leonor de Aragão ( 1 ).

J.2~,

11)

\" eja se

1~)5 r-

a

( :.1r1.1 Jo

de

22

19~1 r).

b~f:mte IJom .·hu-riqw.' .t e/ Re_i /)om Ju.;, Je bo.1 memnri.t

l.i,hoa. \ts. :'1:

seu p<rj d.md"llre cnuta de cnmn ::e .fi;er.t em Coimbr.t o c,umm•utn Jo ir~fante /). /)u.trle.

:H:'II /rm:io. datada

d~: ~dcmhnJ lh: !f:!X. fHihli•,tc'-·a :"Jal'ional lk

1 -

2ti. foi.

XXX

fN IIHJIJIJC'Áo

\'11-0

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\IF.tno

ATI~· AO

1./TFR.lTf'R.l

/J()

SJ.;r:t·J.()

/'fJJ<1t·r;I"J·:S.1

XVII

,\ mais antiga referencia, que se encontra na literatura portu-

guesa, acerca do <irão Cam (Khan), imperador dos Tartaros, de cujo poderio c grandezas dá tantas noticias o Jfarco Paulo, C"-Ístc cm

uma tro,·a do (

,ancioneiro

do

Vaticano (I I 98) ( 1):

Joan Ba,·cca c Pcro d'Ambrôa ar departiran logo no Gran Can e pclcjaron sob'rcsto de pran.

Esta tro,·a é de Pedr' An1igo de Sevilha, que ftoreceu no rei-

nado de D. Afonso III, pelos anos de I 260. A indicada referencia

Paulo, porque é anterior ás

viagens do celebre Yeneziano; n1as refere-se á destrui~ão do califado

de Bagdad, c á fundação do in1perio dos Tartaros na Pcrsia, que tanto ecoaram en1 toda a Europa (2). É na Chronica do descobrimento e conquista de Guiué, escrita por n1andado dcl rei D. Afonso Y, pelo cronista Gomes Eannes de

\Iarco

Paulo. Antes de tudo deve obsen·ar-se que Zurara escreveu a men- cionada Chronica en1 Lisboa, e que ele serda na livraria rial, onde podia ler o Livro de .~ Paulo em latin1 e linguagem portuguesa; c que parece ser nesta lingua que o leu, porque o cita pelo non1e de .J.\Iarco Paulo, con1o se lê na versão portuguesa im- pressa. O n1anuscrito da n1esn1a cronica é datado de 18 de Fevc-

r~iro de I453, o que n1ostra que na primeira n1etade do seculo xY o

Li1 1 ro de

feitas na n1cncionada cronica são de grande in1portancia para a re- solução do problen1a literario acerca do autor da versão portuguesa do LiJ,ro de .J.\Iarco Paulo. parece con,-eniente trans(revê-las aqui.

não póde provir do

Lil,ro de .J liarco

Zurara, que se encontra a prin1eira referencia do Lil,ro de

lfarco

liarco

Paulo existia

na livraria rial. Con1o as citações

(1) C,mcioneiro do V.1licano. 11~18. v. 1S-17; d. Carolina :\liclüidis de Vasconctllos.

R.md![losse, GS.

I NTRODOCÁO

XXXI

~

A primeira citação é tcita no texto da cronica ( 1): (I E alguús dis- scrom dcspois que ouYiram di~:cr a alguús daqucllcs ,\louros que per accrtamcnto vicron1 a nosso poder, que os seus parceiros comcron1 aquclles mortos, c como quer que alguús outros dissessem o con- trairo, querendo scusar seus parceiros de causa tam cnorn1c, toda- vya hc certo que seu costume he de con1crcn1 huús aos outros os figados, c bcbercn1 o sangue, c csto di1cn1 que nom fazem gccral-

n1cntc, se non1 a alguús que lhes n1atatn seus padres, ou filhos, ou irmaãos, contando csto por húa nuty grande YÍngança. E csto n1c parece que nom hc de duvydar, que no livro de ~I arco Paullo se di1, que gccralmcntc se costun1avam estas cousas antrc nutytas naçoõcs daqucllas partes oricntaaes. c ainda vejo que hc antrc nos comuú fallan1cnto, quando nuoamos dalguú hnn1cn1 que tem odyo a outro, que tanta ma voontadc tem a aqucllc seu contrairo, que se podcssc lhe con1crya os ligados, c hchcrya o sanguc>l. Parece que a passagcn1 do LiJ•ro de Jlarcn Paulo, a que alude Zurara é (2): ((Os n1oradorcs da ylha de Cipangu quando prendem alguú hon1cn1 estranho. se ho catiuo se pode rcn1ijr por dinheiro. sol- tanl ho dcspois que rcçcbcn1 o dinheiro. c se non1 pode aucr o preço pcra sua rcndiçan1. n1atamno c comcrnno cozido. E pcra este con- uitc conuidan1 os parentes c an1igos que comcn1 de muy hõa mente as tacs carnes. dizendo que as carnes hun1anas son1 111ilhorcs. c de

n1uyto n1ilhor sabor q uc as outras

carnes».

A segunda citação é cm nota ü seguinte passagcn1 do te~to (3):

((As molhcrcs som acerca COI11UÚCs, c CotllO alguú YCI11 onde estÜ o outro, logo lhe dü a n1olhcr por gasalhado, c contam por n1al a qucn1 o contrairo faz)).

E cm nota: (\Diz 1\larco Paullo que nos rcgnos do <iram Tar- taro, ha outros hon1cés semelhantes, os quaacs quando recebem seus hospedes, pensando de lhe fazer pn.llcr, lhe lci~an1 suas n1olhcrcs

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<i.

E.

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Zurara. Chronic.t do descobrimento e couquist.r de Guirré. Pari~. 1Kp •

:.tp.

H VIl. p. 226-227.

p.

(2)

13)

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I.

l.i1•ro de Jl.rrco P.wlu. liv. III. cap. VIl; d. II. 67. e III.

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(i.

E.

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Zurara~ ( 'lzrunic.r do de.:;cobrimt'rrto t' CtJII,]'tist.l de Guiné. ~ap. 1.\:X:'\.

I"'TIHJIJI"C:Ál)

~rccndo que assy (omo lhe cllcs fazem cm c-,tc munJo, a~sy lhe faram os dcoscs no outro. E C!',lO tccm porltUc !',(JJ1l iJollatra~ que nom tem lcy, soomcntc 'i,·cm nayucllas primeira~ iJollatrid~n. São Juas as passagens do Lil'ro de Jfarco l'aulu, a yue parece aludir Zura_ra. A pri1ncira é: < 1 ( )s moraJr,rc~ Jesta prouincia ~de Cayndu] som yJolatras. c cm tal n1ancyra pelos seu~ ) JrJios ~om tirados do seu syso. que (rccm Je aucr !',lia graça se as prnprias mo- .)hcrcs c filhas dcrcn1 aos cmninhantcs. porque yualqucr caminhante que per elles passa c se for a (asa de qualquer dcllcs. loguo ho ~e­ nhor da casa chama a i11olhcr c filhas. c toJas as outras molhcrcs que tcn1 en1 casa. e mandalhcs que cn1 todallas cousas obedcçan1

ao hospede e a seus companheiros. e dcspoys deste n1andado par-

tese c leixa en1 a propria casa ho estrangeiro (001 seus companhei- ros assi con1o senhor della. nen1 presume n1ais tornar em quanto este outro hy quiser n1orar. E ho estrangeiro dependura ante as

portas ho son1brcyro ou a touca ou alguú outro synal. E quando ho senhor da casa se quer tornar pensando per ventura que sería ja partido. se vijr ho sinal ante a porta logo se torna. E assi ho estran- geiro pode hy estar dous ou tres dias. E esta çiguidade e abusan1

tan1

E.?:rande de receber assi os estranaeiros hc o-uardada por toda a

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prouincia de Cayndu. e isto notn he teudo por alguú Yituperio. E esto fazen1 por honrra dos seus deoses. e creen1 que por esta beni- gnidade que fazen1 aos can1inhantes n1ereçeratn auer dos seus deo-

ses auondan~a dos fruytos da terra>> ( 1). A ~egunda passagcn1 do Livro de Jiarco Paulo é: <<Os homées

son1 ydolatras e assi son1

pcllos seus ydolos do seu cntendin1ento tan1 derribados longuo tempo

per aca que se alguú can1inhante passa por aquella terra e quer

pousar en1 casa de alguú cidadão de Catnul. elle ho reçebe leda- n1cnte. c n1anda aa sua n1olher e a toda sua fan1ilia que lhe sejan1 obedientes en1 todallas cousas en1 quanto elle quiser com elles estar.

E assi a n1iserauel de sua n1olher obedece en1 todas as cousas ao

daquella terra [da província de Can1ul]

>

seu hospede assi con1o a seu n1arido. As n1olheres desta terra son1

(1)

LiJ'rO de Jlarco P.wlo, livro II~ cap. xxxviij.

INTHOIHJCÃO

XXXIII

:>

frcmosas mu~ to. n1as os n1aridos deli as todos por seus Jeoses som assi çeguos cm aquella sandiçc. que cllcs n1csmos lhes contam por honrra ho que suas n1olhcrcs scjan1 sogeitas aos cmninhantes dos quais son1 tcudos por h(mH~s çiuces c ,·ijs)) ( 1).

Se as cita~ões de (~omcs Eanncs de Zurara fossen1 te:\tuais, po- deria reconhecer-se se a 'crsão portuguesa do /JiJ•ro de Jlarco Paulo, publicada em 1 5o2 por Valentin1 Fernandes, era a tradução l'11l lingua{(cm que anda,·a junto do te:\to latino desde o reinado dei rei n. Duarte; infelizmente as citaçóes não são te\tuais, 11HlS sún1cnte por e\.trato c quasi de n1cn1oria. c por isso não podem pro- Yar a conjetura indicada acitna, ainda que a sen1elhança de lingua- gem c o en1prego de certas palaYras a tornan1 muito proYaYcl (2). l\o reinado de D. João 11, o /JÍJ'nJ de Jlarco Paulo era lido na corte, n1as parece não se dar grande credito a algtmu1s das suas narrações. CristoYam Colombo, italiano de nação, Yciu a Portugal

. con1o cl rei nüo aceitasse o oferecin1ento por não se

dar credito ü narração do IJiJ•ro de Jfarco Paulo (3), Colon1bo foi oferecer os seus serYiços aos reis de (:astclla, que depois de muito importunados lhe deran1 alguns naYíos, cotn os quais Colombo des- cobriu as Antilhas, que ele julgou ser a ilha de Cipango. Ruy de Pina (Chronica de/ Rei D. João II, cap. lxvj) c Garcia de Resende (Chronica de/ Rei D. João II. cap. cl:xv), contam que CristoYan1 Co- lon1ho, Yindo desta descoberta arribou ao porto de Lisboa a f) de ~1arço de 1493, do que el rei f-icou n1uito anojado. João de Barros (Dccada I, liv. Ill, cap. XI"! refere as cousas rc- latiYas ao oferecimento de Cristo,·an1 Colon1ho quasi pelas n1esn1as palaYras de Garcia de H.esende; depois acrescenta: c' Segundo todos

.João 11 para fa7cr o descobrin1ento da ilha

oferecer-se a de C ipango;

el rei D

{I}

(2)

Livro de .Varco Paulo. li\'fO I. cap. xh j.

O

texto

latino

do

l.iJ 1 rO de .U,trco P.wlo continuou a fa7er pane da livraria

rial; isso resulta de que o mesmo livro existia na mesma livrari.t no tempo dei rei 1>. Manuel. tYeja-se illras "-IX. nota 3). ~: par.t notar que não e\.istissc entre os liHOS de 1>. Pedro, con~lestavd de Ponugal. c depois rei de .\ ra~;ío. filho do infante ll. Pedro. o re~cme. Veja-se o seu catalogo ( re()filo Bra~a. lfistori.t .i.1 l"uiJ•cr·si.i.tdc. tomo I. p.

~31-23.+).

(3) Li1•ro de Jf.1rco P.wlv. li\". m ~ar. ij.

XX"-IV

atirn1am Christovão Colom era \.Jenoe~ de na~ão, hon1cm c~perto, eloquente c bon1 latino, c n1ui glorio~o c1n seu!') ncgodos. L l:omo naquelle tcn1po húa das potcnl:ias de ltalia llllc mais na,·cga' a por razão das suas men.:aJo~ias c (onlcrdo, era a na~ão Cicnocs: c~te seguindo o u~o de sua patria c n1ais !')lla propria indinação andou

navegando por o mar de Levante tanto tempo, té que 'eo a estas partes Je Hcspanha, c deu se á na vcgação do mar Ol:cano scguindc,

a orden1 de vida que ante tinha. E vendo ele que cl rei D. João ur- ~dinarian1cnte n1andava dcs(obrir a costa de Afril:a com intenção de per clla ir ter ü India, l:Onlo era hon1cn1 latino c curioso cm as cou- sas da gcographia, c lia por .\larco Paulo, que fallava modcrada- nlcntc das (OUsas oricntaes do reino de Cathayo c assy da grande ilha Cypango, veo a phantasiar que por este n1ar O(cano occidcntal se podia navegar tanto te que fossem dar nesta ilha Cypango c

El rei por que via ser este Chris-

tovanl Colon1 hon1en1 fallador e glorioso cn1 mostar suas habilida- des c mais fantastil:o c de in1aaina(ócs l:Onl a sua ilha Cvpan''O

outras terras

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que certo no que dizia, dava lhe pou(o credito. Con1 tudo á força de ~uas in1portunações n1andou que estivesse com D. Diogo Ortiz Bispo de Çepta, e com mestre Rodrigo c n1estrc Josepe, a quem

clle (OOletia estas cousas da cosn1ographia e seus descobrimentos;

c todos ouverão por vaidade as palavras de Christovão Colom, por

tudo ser fundado cm n1aginações e cousas da ilha Cipango de Marco Paulo, e não en1 o que H yeronimo Cardano diz ( 1). E com este desengano espcdido dei rei se foi pera Castella, onde tambem andou ladrando este requerimento em a corte dei rey D. Fernando scn1 o querer ouYir: té que por n1eio do Arcebispo de Toledo D. Pero Goncalves de ~·1cndoca el rev o ouuio. Finaln1ente rece- bida sua otfcrta, el rey lhe n1andou armar tres caraYelas em Paios de ~1aguer, donde partio a tres dias de Agosto do anno de 1492». Con1o quer que fosse, parece que tanto a versão latina de Pi- pino, con1o a versão portuguesa do LiJ•ro de Jlarco Paulo, caiu en1

desuso pelo n1eado do seculo xv1, oú porque sendo pequeno o nu-

,

,

.J

(1) Hierunymu

sapientia.

Cardanu, physico

(medicu)

de

\lilátJ.

nu

linu

que compoz, De

I!'JTROI>UÇÁO

:\X\. V

n1cro de exemplares da impressão feita por Yalcntim Fernandes, cm brCYC dcsaparCCCSSCnl, OU r<:>rquc no\·as ediçÕeS mais qcscnn>h·ida~ se vulgarizassem; o facto é que a partir de João de Rarros, os es- critores portugueses do scculo XYI, que se o(uparanl dos descobri- mentos .dos Portugueses, lcran1 o LiJ,ro de Jlarco Paulo, não pela versão latina de Frei Francisco Pi pino, ou pela versão portuguesa in1prcssa por Yalcntin1 Fernandes, nu1s pcia rcccnsão ítaliana de João Baptista Hamusio, cuja primeira edição foi publicada en1 I 559. ~luitos cs(ritores nacionais, '-luc contan1 os feitos dos portu- gueses no Oriente, (itan1 as relações das Yiagcns de \lar(o Paulo c de T\icolao Veneto; entre eles mencionaremos Jo,\o de Barros rJ)eca- das da Asia), Diogo do Couto (J)ecadas da _-l.'iia), João de Lucena (Vida de 5;_ Fi·ancisco XaJ•ier) c .\lanucl (;odinho de Hcrcdia rJ)es- crição de Jfa/aca); aqui porém súmcntc nos rcfcrircn1os a Diogo do

Couto, l'orquc ,·iycndo muito tcn1po na lndia portuguesa. teve c>Lasião de verificar a cxatidão das noticias dadas pelos Yiajantcs venezianos,

\n-

tcs de tudo dc,·c observar-se que Diogo do Couto emprega sempre as dcnon1inacõcs italianas de .\larco PoJo Vcneto c .\liccr de Conti lDcc. 1\, li,·. IX, cap. \"1), o que mostra que ele não se serviu da versão portuguesa das relações dos mcn(ionados Yiajantcs, mas da rc(cnsão italiana de João Batista H.amusio. Entre as cita~ócs de Diogo do Couto apenas transcrc,·crcmos as trcs seguintes, porque nelas são indicados o livro c folha cn1 que leu a passagem. De(. 1\", li v. X, cap. 1: .\I arco PoJo \ cncto no scf!undo li- \TO do seu ltincrario, foi. I G, falando da pro,·incia de Tcndur. diz que junto dclla ha duas regiões chatnadas Og c \lagog, e os que ncl- las n1oram se chan1an1 l Tng c .\longal. 1_Cf. l.iJ•nJ de Jlarco Paulo.

li,·. I. (ap. Jx,·, foi. 24, r). Dcc. 1\', Ji,·. X, (ap. II: Este [Tamochin1l ajuntando grandes

cxercitos sahio daqucllas partes de (;corza c Bargu, nos annns de n1il cento c sessenta c dous de Christn (segundo a conta de

entratll.io pelas proYincias Tur~stan c Ca-

thayo, a poucos golpes as sojciton com seu n1uito saber c esforço, c

(otnp~lranJo-as con1 as narrações dos gentios c sua:-, escrituras

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Polo. li,·. 1, fol.

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Dcc. V, li v. \"I. l.:ap. li: .\\arco Polo \ encto, livro terceiro tc,lio cincocnta c cinco, Jiz yue ten1 os .\louros pcra ~i, que debaixo daquela pedra estava o sepulcro Jc \Jan1. E diz n1ais que _os CJCn- tios naturacs contayan1, que hum filho de hum rey chamado '-;ngo- nlombarcão, desprezando o reyno, se recolhera aqudla serra a fazer YÍua santa, c que dalli sobira aos Ccos. Esta~ noticia~, que no tc:xto de Rusticiano se lêcn1 na descrição da ilha Je Ceilão (cap. dxxiij;, faltmn n~ Ycrsão portuguesa (Cf. LiJ,ro de .Jlarcu Paulo, Jiv. 111,-cap. XÀij, foi. b.iiij, 1').

INTRODUC:\.0

XXXVII

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\'III- 1.\IPOR1.lXCI.l .W.'/f·:.\TJFICA /JO /./1"RO /JH J/.l/?.1 .'0 P.-1 rJ.U

O LiJ,ro de ~l/arco }Jaulo contcn1 graa1dc nun1cro de noticias