Você está na página 1de 6

Apontamentos sobre a história e desenvolvimento da

impressão
Jorge Bacelar∗
Universidade da Beira Interior

Índice a massificação se pudesse concretizar plena-


mente.
1 Raízes tecnológicas 1 A história da impressão é longa e com-
2 Gutenberg e o momento histórico na plexa. Seria excessivo proclamar a imprensa
Europa ocidental 2 a causa das mudanças sociais, políticas e psi-
3 A impressão e o pensamento moderno 4 cológicas a que está associada. Mas a ela
4 Desenvolvimentos na tecnologia da se deve uma marca indelével em todos os
palavra impressa 5 aspectos da cultura europeia, ou pelo me-
nos, aceitar-se-á pacificamente que consti-
tuiu o instrumento de mudança que permi-
tiu a emergência da ciência, religião, cultura,
Resumo política e modos de pensar vulgarmente as-
sociados à cultura ocidental da era moderna.
A invenção da imprensa de caracteres mó-
veis é considerada a origem da comunicação
de massas por constituir o primeiro método 1 Raízes tecnológicas
viável de disseminação de ideias e de infor- A invenção da imprensa só foi possível pela
mação a partir de uma única fonte para um invenção e refinamento das técnicas de fa-
auditório numeroso e disperso. Analisando brico de papel na China ao longo de vários
mais atentamente os fenómenos que consti- séculos. Em 105 d.C. os Chineses desen-
tuíram a génese da impressão com caracteres volveram o papel de farrapos, fabricado com
móveis, verifica-se que esta resulta da con- fibras vegetais e trapos velhos, constituindo
fluência de factores culturais e tecnológicos uma alternativa económica às pesadas pastas
que se vinham desenvolvendo ao longo dos de bambu e cascas de árvores ou ao preci-
três séculos precedentes. A cultura da pala- oso e dispendioso papel de seda. Os segredos
vra impressa e a tecnologia tipográfica pre- desta técnica foram revelados aos árabes por
cisaram igualmente de atravessar séculos de prisioneiros chineses no século VIII sendo
mudança após o tempo de Gutenberg até que posteriormente introduzidos na Europa nos

Maio 1999 séculos XII e XIII. Muito antes de Guten-
2 Jorge Bacelar

berg, as inovações chinesas nas tintas, im- amente. A necessidade de documentação au-
pressão xilográfica e impressão com carac- mentava com o desenvolvimento do comér-
teres móveis de argila, tinham já prestado o cio, assim como com o aumento da com-
seu contributo para a divulgação da palavra plexidade dos processos de governo e admi-
impressa. Apesar de ter demorado séculos nistração política e religiosa. Por seu lado,
a chegar à Europa, o seu impacto cultural os processos comerciais mais sofisticados e
só aqui se fez efectivamente sentir. O uso o número de funcionários necessários para
desta tecnologia de caracteres móveis na es- manter em funcionamento as crescentes bu-
crita chinesa, que emprega milhares de ideo- rocracias políticas, religiosas e comerciais,
gramas, implicava um esforço e um dispên- criaram a necessidade de um sistema de en-
dio de recursos materiais insuportável. As- sino que produzisse esses mesmos funcio-
sim, o seu impacto na eficácia da produção nários. Para tal era necessária a existência
só se viria a verificar no ocidente, pela fácil e disponibilidade de material escrito. Du-
adequação e adaptação dos 26 caracteres do rante séculos, os monges copistas garanti-
alfabeto latino a esta tecnologia. Algumas ram a manutenção e a reprodução dos textos
teses na historiografia afirmam que o carác- sagrados, mas o mundo secular emergente
ter normalizado, sequencial e linear da tipo- criou a sua própria versão de copista, sur-
grafia se adaptou admiravelmente ao particu- gindo o amanuense profissional. Os novos
larismo ocidental, direccionado para o pro- scriptoria ou lojas de escrita que surgiram,
gresso técnico e para a conquista caracterís- empregariam virtualmente qualquer clérigo
ticas que favorecem a mudança rápida e in- letrado que procurasse trabalho.
tensiva. Apesar do seu rápido aumento, os ama-
nuenses não conseguiam dar resposta à cres-
cente procura comercial de livros. Outro po-
2 Gutenberg e o momento
tencial campo de negócio era a venda de in-
histórico na Europa ocidental dulgências, folhas de papel oficial da Igreja,
As rápidas mudanças culturais que se faziam concedendo o perdão pelos pecados cometi-
sentir na Europa desde o início do século dos, emitidas a troco de fundos destinados à
XV estimularam uma crescente procura (e construção de edifícios e a outros projectos
a necessária produção) de documentos es- dirigidos para a expansão do seu domínio.
critos mais baratos. Desde a sua introdu- De facto, tiragens de 200.000 exemplares já
ção na Europa, no século XII, o papel foi-se eram vulgares pouco depois das indulgências
afirmando como alternativa viável ao vellum manuscritas se tornarem obsoletas.
e ao pergaminho, que constituíam à época Gutenberg, ourives na cidade de Mainz,
os meios convencionais de para o registo e pressentiu o potencial de lucro duma tecno-
transporte da informação escrita. O papel de logia que pudesse dar resposta a estes pro-
farrapo foi-se tornando cada vez mais barato blemas e, para o efeito, contraiu um emprés-
e abundante e, simultaneamente, a alfabeti- timo que lhe permitisse desenvolvê-la. Para
zação expandia-se. Em parte, os dois pro- tal, desenvolveu e adaptou características das
cessos aceleraram por se estimularem mutu- tecnologias têxtil, papeleira e de prensagem
de uvas já disponíveis na época, mas a ino-

www.bocc.ubi.pt
Apontamentos sobre a história e desenvolvimento da impressão 3

vação mais significativa reside no estabele- trolar a actividade dos impressores do que ti-
cimento dos processos de moldagem e fundi- nha sido controlar os copistas, tanto religio-
ção de tipos móveis metálicos. Cada letra era sos como seculares, durante séculos. A pro-
gravada no topo de um punção de aço que era dução e distribuição de uma variedade ex-
posteriormente martelado sobre um bloco de plosiva de textos tornou-se rapidamente im-
cobre. Essa impressão em cobre era inse- possível de conter. Cópias impressas das te-
rida num molde, e uma liga de chumbo, an- ses de Lutero foram rapidamente divulgadas
timónio e bismuto era aí vertida, originando e distribuídas, desencadeando as discussões
uma imagem invertida da letra que era en- que viriam a iniciar a oposição à ideia do pa-
tão montada numa base de chumbo. A lar- pel da Igreja como único guardião da ver-
gura dessa base variava com a dimensão da dade espiritual. Bíblias impressas em lin-
letra (por exemplo, a base da letra i não che- guagens vernáculas, em alternativa ao latim,
garia a metade da largura da base da letra alimentaram as asserções da Reforma Pro-
w). Esta característica permitiu enfatizar o testante que questionavam a necessidade da
impacto visual das palavras e dos conjuntos Igreja para interpretar as Escrituras - uma re-
de palavras, evitando o efeito individualiza- lação com Deus podia ser, pelo menos em
dor das letras, característico do monoespace- teoria, directa e pessoal.
jamento. Com este princípio estabeleceu-se No plano da fixação das normas da lin-
uma norma de elegância estética e sofistica- guagem (ou pelo menos, da escrita) pode-
ção para a perfeita e impecável regularidade se referir o papel desempenhado por William
de uma página impressa. Caxton, que, em 1476, estabeleceu em Ingla-
Gutenberg produziu uma Bíblia impressa terra a primeira tipografia. Caxton tinha sido
em latim, que viria a ser o seu trabalho de um tradutor prolixo, e viu na tecnologia da
consagração. Uma tiragem de cerca de 300 imprensa de caracteres móveis um excelente
exemplares em dois volumes, vendidos a 30 veículo para a promoção e divulgação da lite-
florins cada, ou seja, cerca de três anos do ratura popular. Verificando que o Inglês pa-
salário de um sacerdote, não foi suficiente, decia de tantas variações regionais que mui-
apesar do sucesso da sua invenção, para pa- tas pessoas eram incapazes de comunicar
gar as dívidas contraídas. A sua oficina foi com outras, mesmo dentro do mesmo país,
penhorada, as suas técnicas tornaram-se pú- Caxton editou, imprimiu e distribuiu uma
blicas e para os credores foi transferida a pro- variedade de livros, determinando e contro-
priedade dos direitos comerciais relativos às lando a soletração e a sintaxe em todos os tí-
Bíblias de Gutenberg. tulos produzidos na sua oficina, contribuindo
Passadas as resistências iniciais, o clero assim largamente para a estandardização da
viu as vantagens do poder da impressão. língua inglesa, vindo estes procedimentos a
Indulgências impressas, textos teológicos e ser gradualmente adoptados em todos os paí-
mesmo manuais de instruções para a condu- ses onde a tipografia se ia estabelecendo.
ção de inquisições, tornaram-se instrumen-
tos comuns para a disseminação da influên-
cia da Igreja. Mas o reverso da moeda tam-
bém se fez sentir: era muito mais difícil con-

www.bocc.ubi.pt
4 Jorge Bacelar

3 A impressão e o pensamento despertando uma incontrolável fome de edu-


moderno cação nos menos privilegiados de nascença.
A tecnologia da impressão desencadeou
A revolução científica que viria a questionar uma revolução nas comunicações que viria
as verdades à guarda da Igreja foi igualmente a tocar muito fundo nos modos de pensar
uma consequência directa da tecnologia da e nas interacções sociais. A impressão, em
impressão. O princípio científico da repetibi- conjunto com a linguagem falada, com a es-
lidade, garantido pela verificação imparcial crita e os meios electrónicos, é considerada
de resultados experimentais, estabeleceu-se um dos marcos de mudanças fulcrais na his-
como paradigma, graças à rápida e ampla tória da comunicação e que viriam por sua
disseminação, pela imprensa, de reflexões e vez a influenciar as mudanças sociais e inte-
descobertas científicas. Acelerando a troca lectuais subsequentes.
de ideias, estimulou a produção de conhe- A cultura oral passa de geração em gera-
cimento científico, contribuindo para o nas- ção através de uma atmosfera de interacção
cimento de uma comunidade científica que pessoal emotiva e sensorial. A escrita facilita
funcionasse sem constrangimentos geográfi- a interpretação e a reflexão, uma vez que a
cos. Sistematizaram-se assim metodologias memorização já não é tão essencial para a co-
e acrescentou-se sofisticação ao pensamento municação e o processamento das ideias. A
racional. À medida que mais e mais livros história registada pode ser acrescentada e ac-
se tornavam acessíveis, o corpo de conhe- tualizada ao longo dos tempos. O texto ma-
cimentos expandiu-se, originando o surgi- nuscrito originou uma variação nas tradições
mento de índices e de sistemas de referência orais: o hábito comunitário de contar histó-
cruzada como formas de possibilitar a gestão rias, associando à palavra a expressão corpo-
da informação disponível, bem como para ral, a dança, etc., transforma-se na leitura do
associar criativamente ideias e assuntos apa- texto, por um orador, para o grupo.
rentemente distantes e sem qualquer relação. A impressão, por seu lado, estimulou a
Estas inovações no acesso ao conheci- procura da privacidade. Livros mais bara-
mento científico e às estruturas do pensa- tos e portáteis, levaram à leitura silenciosa e
mento humano que acompanharam o estabe- solitária. Esta orientação para a privacidade
lecimento da imprensa na Europa influencia- integra-se num movimento mais amplo de
ram igualmente as artes, a literatura, a filoso- conceptualização e reivindicação de direitos
fia e a política. A inovação explosiva que ca- e liberdades individuais, cujo surgimento a
racterizou o Renascimento foi amplificada, e imprensa estimulou e contribuiu para divul-
em parte gerada, pela imprensa de caracteres gar. A impressão impregnou a cultura oci-
móveis. A rígida estrutura social que deter- dental com os princípios da estandardização,
minava o estatuto de cada um em função do da verificabilidade e da divulgação de ideias
seu nascimento e do património familiar co- e conhecimentos, a partir de uma fonte, e sua
meçou a diluir-se, com o surgimento e ascen- disseminação por muitos receptores disper-
são de uma classe média intelectual. A pos- sos geograficamente. Tal como influenciou
sibilidade de modificar o estatuto individual profundamente a reforma do pensamento re-
graças à ambição e ao mérito pessoal, foi ligioso e do método científico, as inovações

www.bocc.ubi.pt
Apontamentos sobre a história e desenvolvimento da impressão 5

da imprensa desafiaram igualmente o con- 4 Desenvolvimentos na


trolo institucional. A imprensa estimulou a tecnologia da palavra impressa
procura e o credo numa verdade fixa e veri-
ficável, assim como abriu caminho aos ho- Um grande número de inovações tecnológi-
mens para o livre arbítrio e ao direito de es- cas acrescentaram a importância, o carácter
colher individualmente percursos intelectu- e o papel da imprensa na cultura. Monotype
ais e religiosos. e Linotype, métodos mecânicos de fundição
Se num primeiro tempo a tipografia cons- e composição de tipos móveis, alternativos
tituiu, por si, uma revolução, séculos mais à composição manual, foram lançados ainda
tarde passaria a ser instrumento de revolu- antes do virar do século (1884 e 1887) e mar-
ções: veja-se como exemplo, o papel que a caram um salto significativo na velocidade
imprensa desempenhou nas colónias ingle- de produção. Os processos de composição
sas da América, divulgando e defendendo as passaram por inúmeras transformações com
ideias visionárias que deram forma à Revolu- o desenvolvimento da composição fotome-
ção Americana ou, mais tarde ainda, o papel cânica, que marca o fim da época da com-
que desempenhou nos aparelhos de agitação posição a quente, ou seja com ligas de me-
e propaganda para a disseminação dos ide- tal fundidas, despejadas em moldes para pro-
ais de todos os movimentos ideológicos re- duzir letras, números e sinais, e o início da
volucionários que, a partir de finais do século composição a frio, primeiro pelo recurso à
XIX, se propuseram transformar o mundo. máquina de escrever, que tornou comum e
Até ao século XIX, a tecnologia estabe- acessível o look da impressão normalizada e,
lecida por Gutenberg foi apresentando al- de seguida, à tecnologia fotográfica, depois
guns melhoramentos, mas no essencial man- à electrónica, ao tubo de raios catódicos e à
tinha as características dos primitivos prelos tecnologia laser. A máquina de fotocópias
do século XV. O fabrico de prelos em aço permitiu finalmente o acesso do documento
em vez de madeira, movidos pela energia da impresso a todos. Os processadores de texto
máquina a vapor e a alimentação de papel transformaram as tarefas de edição e trouxe-
em bobine, em conjunto, contribuíram para ram novas características e flexibilidade aos
o vertiginoso aumento da eficiência da im- processos de escrita. A impressão informati-
prensa. Estes avanços tecnológicos permiti- zada já percorreu vários degraus evolutivos,
ram em 1833 a redução para o preço de um desde os primeiros discos de margarida e im-
penny do jornal diário New York Sun. Para pressoras de agulhas, até aos actuais e co-
alguns historiadores, esta penny-press cons- muns processos de impressão caseiros: jacto
titui o primeiro mass-medium genuíno: nas de tinta, laser e transferência térmica.
palavras do seu fundador, Benjamin Day, o Tanto a Internet como a interactividade
seu jornal estava concebido para "apresentar dos produtos multimedia estão a revelar no-
ao público e a um preço acessível a todos, as vos métodos para a aplicação e uso da pala-
notícias do dia". vra impressa, acrescentando-lhe novas possi-
bilidades culturais. A palavra visível é agora
utilizada na interacção social em tempo real
e para a navegação individualizada em docu-

www.bocc.ubi.pt
6 Jorge Bacelar

mentos interactivos. É impossível antever o


impacto cultural destes novos processos de
uso da palavra escrita. A distância histórica
é indispensável para uma avaliação dos fe-
nómenos que nos envolvem neste momento,
mas é muito provável que este período venha
a marcar mais uma transformação radical no
uso, importância e carácter da comunicação
humana.

www.bocc.ubi.pt