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Clássicos

Liberais
Entre os
cupins e
os homens
Og F. Leme
por Roberto Fendt

Parte Integrante da Revista Banco de Idéias nº 48


ÍNDICE

I. A ORIGEM DOS PROBLEMAS SOCIAIS ...................................................... 5

II. CONDIÇÃO HUMANA E LIBERDADE ....................................................... 6

III. DOIS MODELOS EXTREMOS DE ORGANIZAÇÃO SOCIAL .......................... 9

IV. DOIS MODELOS EXTREMOS DE ORGANIZAÇÃO POLÍTICA ..................... 12

V. DOIS MODELOS EXTREMOS DE ORGANIZAÇÃO ECONÔMICA .................. 15

VI. DESCENTRALIZAÇÃO, DIVISÃO E PLURALISMO ................................... 18

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I. A ORIGEM DOS PROBLEMAS os dois extremos é um acordo co-
SOCIAIS munitário que propicie a criação de
uma entidade acima de todos – fracos
e fortes – e que “imparcialmente” zele
A visão etnocêntrica e antropo-
mórfica do mundo tem levado o pelos interesses da comunidade. Assim
nasce o Estado e seu braço executivo,
homem a identificar-se como homo
sapiens. Chama a si de “animal o Governo: para que ninguém vire
social”, com o intuito de estabelecer opressor, todos concordam em criar
uma suposta diferença em relação aos uma entidade superior, equidistante e
outros animais. equânime, que zele pelos interesses
Em termos rigorosos, no entanto, o comuns. Essa entidade é o fruto de um
homem é tão social como antissocial: mal (concentração do poder) que não
ele tanto coopera, como compete; deveria ser apropriado por ninguém
aplaude e inveja; ajuda e agride. A em particular. Com o Estado, pro-
abelha, a formiga e o cupim são, do cessou-se a troca de um mal (a concen-
ponto de vista da coerência e do tração potencial do poder de par-
altruísmo, muito mais sociais, isto é, ticulares) por outro mal (a concentração
entregam-se por completo e sempre à atual do poder público), na expectativa
comunidade. de que a concentração de poder que
Viver em sociedade significa coexistir estaria nas mãos do Estado seja menor
com outras pessoas, todas diferentes do que a concentração de poder que
entre si, com propósitos pessoais espe- estaria nas mãos dos particulares, se o
cíficos, com interesses diferenciados, Estado não fosse criado.
com a necessidade de compartilhar A definição dessas duas alternativas
valores, princípios, normas e objetivos. pode emanar de duas fontes: de
O drama de qualquer sociedade alguma autoridade divina, ou, então,
advém do fato, quase escandaloso, de de maneira impessoal, através do
indivíduos diferentes, biológica e intercâmbio espontâneo e livre entre os
eticamente diferenciados, com inte- homens, de cujo processo surgiria um
resses pessoais conflitantes, ciosos de código de conduta geral e abstrato,
seus propósitos pessoais (isto é, aplicável igualmente a todos e fruto de
egoístas), se disporem à coexistência, uma ação comunitária anônima.
se possível, em clima de liberdade. A alternativa que acabou impondo-
Uma convivência em regime de anar- se foi a primeira. A ordem que se instalou
quia, isto é, sem governo, prova- era, obviamente, do tipo absolutista e,
velmente levaria, no tempo, ao domínio imperou, assim, durante séculos, o poder
dos mais fortes sobre os mais fracos, coercitivo do Estado, inspirado em leis
dos mais capazes sobre os menos divinas, reveladas em caráter exclusivo
capazes, com a resultante concentração para as autoridades eclesiásticas.
do poder nas mãos de uma oligar- Com a Renascença se inicia o
quia e, afinal, no domínio de poucos processo de liberação do homem, que
sobre muitos. passa de maneira progressiva a confiar
Viver em isolamento é penoso; viver na sua própria capacidade pessoal de
em grupo é melhor para os que têm buscar a verdade e adquirir conhe-
êxito e acumulam poder do que para cimento. Rompe-se, assim, o monopólio
os menos aquinhoados, que acabam epistemológico de origem divina e
cedendo poder. A maneira de conciliar inicia-se o desenvolvimento das ciências

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e da tecnologia, simultaneamente com nossos representantes no poder público,
as transformações sociais que cul- o controle do poder do Estado pela
minam, afinal, nas sociedades liberais Nação, etc.
dos séculos XVIII e XIX.
Na raiz do novo processo estavam II. CONDIÇÃO HUMANA
as figuras de Descartes e Bacon, espe- E LIBERDADE
cialmente o primeiro, com sua entu-

O animal
siástica confiança nas possibilidades da que ri; o animal social;
razão humana de encontrar-se com a homo sapiens. São algumas das
verdade. Se é dado ao ser humano características que o homem tem
conhecer, ele pode ser livre. Descartes atribuído a si mesmo, com a finalidade
simboliza, de fato, a libertação do de se diferenciar dos animais. Mas não
pensamento humano e suas imediatas é por saber rir que o homem adquire a
e revolucionárias consequências, já a sua humanidade. Ao contrário, é por
partir da Renascença, nas artes, nas ser humano que ele aprende a rir e a
ciências e na tecnologia, às quais se chorar. De onde provém a sua huma-
associaram, em salutar reciprocidade, nidade, essa condição que efetiva-
as mudanças sociais que desem- mente o torna diferente de todos os
bocaram no estuário do liberalismo. outros animais?
Mas que significa essa retomada É esquizofrênica no homem a
pelo homem das rédeas do seu des- necessidade que tem de ser livre e, ao
tino? Que a fé e a submissão foram mesmo tempo, de alienar parte dessa
substituídas pela razão e pelo questio- liberdade ao se dispor a viver em
namento, vertentes que têm como sociedade, isto é, pela necessidade de
desaguadouro a verdade (ou a sua conciliar o ser solitário – para ser livre
busca), como condição a liberdade e – com o ser solidário – para viver em
como objetivo a construção de uma sociedade. Na realidade, em socie-
sociedade de homens livres e iguais dade os homens vivem em estado de
perante a lei, qualificados para buscar, permanente e fundamental solidão
através do intercâmbio, a sua própria junto aos outros homens. A sua vida, a
identidade e a sua razão de ser, qua- vida de cada um, é algo intransferível
lificados para viver com dignidade a e que apenas pode ser vivida por ele
sua própria vida, experiência intrans- mesmo, conforme nos ensina Ortega y
ferível que requer antes de mais nada Gasset. Dessa forma, viver em socie-
liberdade e ordem, ou ordem e liber- dade é compartilhar solidões. O riso é
dade, de vez que a segunda pressupõe uma das formas de que se vale o
a primeira. homem para fazer face à sua tragédia
A sociedade moderna, que nós ontológica.
liberais desejamos livre e democrática, A capacidade de rir e de chorar
enfrenta um fato novo como ela: a ação implica a necessidade de saber co-
social baseada no intercâmbio livre e locar-se em papéis e situações alheias.
inteligente, despido de preconceitos e Há também razões para dizer-se que
rico de tolerância, um esforço deli- ele é o “animal social”. Mas há outros
berado e heróico de transformar em animais que também vivem em socie-
debate objetivo assuntos subjetivos e dades organizadas. Além disso, o
complexos, suas soluções alternativas, homem é tanto animal social, como é
os meios para os objetivos consensuais, antissocial, sendo que essa ambi-

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valência comportamental constitui uma O ideal liberal se orienta no sentido de
característica muito mais identificadora uma sociedade na qual essa busca
da condição humana do que a sua pessoal da diferença individual não
alegada sociabilidade. A sociabilidade exija heroísmo, mas uma sociedade
do homem é fruto de sua interação com livre, tolerante e não-preconceituosa;
os outros homens, em sociedade. Por uma sociedade que proporcione con-
outro lado, a sua propensão a ser antis- dições para o desenvolvimento pessoal.
social talvez esteja mais relacionada a O processo de socialização ou
uma condição “natural” (isto é, não humanização transforma o indivíduo
social), inata, de fundo filogenético, e (entidade biológica) em pessoa (ser
que o leva a empenhar-se tanto na sua humano), introjetando-lhe valores e
autoafirmação. padrões de comportamento, o leva
Mas de onde provém a humanidade a desenvolver uma consciência e a
do homem? O que torna o homem impô-la sobre seus instintos, a assumir
realmente diferente dos outros animais? papéis e, afinal, a converter-se em ser
Ortega y Gasset afirmou que “a vida político. Trata-se de um processo espon-
nos é dada, mas não nos é dada tâneo, livre e anônimo, que dispensa
pronta”. A fatalidade é comum a todos um plano ou projeto imposto por
os seres viventes; ao mesmo tempo, a alguém ou por alguns sobre os demais.
vida condicionada pela liberdade e a A condição fundamental desse processo
incerteza é exclusiva do homem. é a existência de liberdade.
Mas se o homem nasce fruto da Diante das circunstâncias da sua
fatalidade, daí para a frente sua vida vida, o homem tem que fazer opções
é algo a ser “criado” ou “inventado” entre alternativas. Como disse Ortega
por ele mesmo, em ambientes de y Gasset, o homem é necessariamente
incerteza. Esse vir a ser exige, como livre, pois carece de identidade cons-
condição fundamental, liberdade, isto titutiva, isto é, o homem é mera po-
é, ausência de coerção. tência para ser, e ele se faz esse mesmo
Se esse aventureiro humano vive em diante da suas circunstâncias.
sociedade, o mínimo que se pode exigir A consciência é traço distintivo da
dessa sociedade é que não atravanque condição humana, é a autopercepção
a sua aventura de vida, que lhe dê simultânea da identidade sociocultural
passe livre para buscar-se a si mesmo. da pessoa e da sua própria identidade
Sobretudo, que não o iniba. Em outras individual. É, portanto, a noção dupla
palavras, a aventura de buscar-se a si de igualdade (as socioculturais) e
mesmo requer liberdade e igualdade diferenças (as pessoais); e de sentir-se
aos olhos da lei. ao mesmo tempo solidário e solitário.
Que significa buscar-se a si mesmo, Ter consciência, portanto, é saber na-
identificar-se? A busca de identidade é vegar entre direitos (os direitos de bus-
busca de diferenças individuais, e não car-se a si mesmo) e obrigações (as
de igualdade com os seus pares. As obrigações relativas ao respeito aos
diferenças fundamentais para cada um direitos dos outros). Consciência é,
de nós são as mais difíceis e as que então, civilidade, essa inconfortável
vão exigir coragem pessoal (o heroísmo necessidade de disciplinar os anseios
da autoafirmação), tolerância social pessoais em face dos limites que
para com as diferenças pessoais de a sociedade impõe. Que limites são
cada um, muito empenho e muita sorte. esses? Numa sociedade de cupins,

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formigas ou de abelhas o problema nação, que ele é um mal necessário.
não existe, pois já foi previamente Mas que seja, então, o menor possível:
resolvido e consta de uma pro- quanto menos Estado, melhor.
gramação genética adequadamente Em síntese, para ser humano o
situada para ser instintivamente homem precisa do convívio com outros
obedecida. Numa sociedade tirânica, homens. A preservação da própria
autoritária, ditatorial, despótica ou liberdade, por sua vez, requer um
absolutista o problema está resolvido ordenamento social, para cuja for-
também, pelo menos enquanto per- malização e administração se cria um
durar esse exercício exacerbado Estado que, por constituir elevada dose
do poder. de concentração de poder e, portanto,
E numa sociedade de seres humanos significar ameaça à liberdade dos
livres? O problema essencial da socie- cidadãos, deve ser contido. Em outras
dade moderna é o de encontrar meios palavras, é indispensável a existência
para que os limites aos anseios indi- de ordem; o problema está em saber
viduais sejam democraticamente que tipo de ordem e que quantidade
estabelecidos pela livre interação dos de ordem.
membros da sociedade, e de forma ***
tal que o curso da privação individual A diferença fundamental entre
seja minimizado. coletivistas e individualistas reside na
A humanização se dá através de um identificação do sujeito da liberdade.
sistema de relações que é simulta- Tanto coletivistas socialistas como
neamente cooperativo e competitivo. individualistas e liberais se declaram
Uma forma de conciliar a contradição amantes da liberdade, da demo-
entre “viver em liberdade” e ao mesmo cracia, do ideal de dar-se a todos
tempo “conviver em sociedade” foi a oportunidade de acesso às vantagens
criação do Estado, uma entidade su- da vida comunitária. A diferença
perior a cada um e a todos os membros fundamental entre eles decorre do fato
da comunidade e que, por delegação de que os coletivistas e os socialistas
universal, zelasse para que a liberdade identificam o Estado como o sujeito da
(ou os direitos) de cada pessoa termi- liberdade, ao passo que os indivi-
nasse onde se iniciasse a liberdade dualistas e liberais colocam esse sujeito
(os direitos) alheia. na pele do indivíduo. Daí a enorme
Lamentavelmente, pelo menos para diferença que há entre essas duas
aqueles que, como eu, são liberais, o expressões: sociedade livre e uma
anarquista da vida comunitária sem sociedade de indivíduos livres. No
governo parece impossível, porque primeiro caso a ênfase é no Estado e,
haveria tendência à concentração portanto, é a vontade e a ação dele
cumulativa das diferenças e, portanto, que devem ser livres; nessa circunstân-
do poder (os mais fortes tenderiam a cia, os indivíduos se subordinam ao
ficar progressivamente mais fortes) e, Estado, a seus objetivos “superiores”.
consequentemente, a substituição de No segundo caso, ao contrário, a
um sistema baseado na liberdade por ênfase recai sobre os indivíduos e,
algum regime tirânico. O liberal, portanto, é a vontade e a ação indi-
portanto, se contenta em defender viduais que se impõem e a elas se
limites rigorosos para a jurisdição do subordina o Estado como instrumento
Estado, após reconhecer, com resig- incumbido de zelar pela ordem social,

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a liberdade, a justiça e segurança dos sob a forma de Estado e Governo,
indivíduos. ambos estão a serviço de seus cidadãos.
O Estado liberal é apenas um Em um Estado tirânico, absolutista,
expediente para assegurar um am- autoritário, despótico, no qual os
biente compatível com a realização interesses do Estado se sobrepõem aos
dos propósitos individuais. É uma interesses dos cidadãos, tudo se passa
instituição a serviço dos membros da como se estes se subordinassem a um
sociedade. comportamento altruísta, imposto pelas
autoridades ou por uma programação
III. DOIS MODELOS EXTREMOS DE genética.
ORGANIZAÇÃO SOCIAL A imposição tirânica do altruísmo
significa violação da própria condição

A penas as sociedades livres dão a humana, porque nega ao homem a


seus membros a oportunidade de possibilidade de desenvolver suas
desenvolver autonomamente as suas potencialidades e de realizar a sua
potencialidades, de buscarem a sua aventura de viver e de cumprir o seu
identidade e a sua vocação e de de- destino incerto e desconhecido. O
senvolverem os seus projetos individuais altruísmo seria, nesse contexto, uma
de vida. As sociedades voltadas não contradição em termos.
para os objetivos dos seus membros, Por outro lado, o resultado final do
mas para a finalidade de uma “to- processo de interação livre tende a
talidade”, de um “agregado”, do “bem favorecer não apenas cada agente
comum”, de um “desenvolvimento individual, mas a totalidade dos ho-
nacional” indefinido sufocam as vo- mens. Isto é, tudo se passaria como se
cações e o desenvolvimento dos seus suas ações egoístas individuais resul-
integrantes a fim de beneficiarem os tassem, pela sinergia do intercâmbio,
seus próprios propósitos. em consequências altruístas. As so-
Procurarei dramatizar esses dois ciedades de homens livres não são,
tipos extremos de organização social portanto, geradoras de um jogo social
distinguindo as sociedades soit disant de soma zero, mas produzem resul-
livres, mas cujos cidadãos não são tados mutuamente benéficos e su-
efetivamente livres, das sociedades de periores à contribuição pessoal de cada
homens livres, em cujo caso a orga- um ao processo.
nização social, a ordem e o Estado O individualismo seria, então, o
estão a serviço dos seus cidadãos. gerador mais eficaz de sinergia do que
Nas sociedades não-liberais os seus o coletivismo. A conclusão seria a de
membros são meios para a realização que a sociedade dos homens livres, nas
dos fins da coletividade. Os propósitos quais o Estado está a serviço dos
individuais ou não existem ou, quando cidadãos e os indivíduos podem lutar
existem, são subordinados aos objetivos pelos seus interesses pessoais, seria
da comunidade. Nas sociedades de a organização não apenas mais com-
homens livres, as sociedades liberais, patível com a sociedade humana, mas
a organização da comunidade se faz também a que ensejaria níveis supe-
com a finalidade de criar um ambiente riores de bem-estar material.
favorável ao bem-estar e desenvolvi- Passemos agora a outro tema. Os
mento de seus membros individuais; animais têm comportamento instintivo,
quando a organização se institucionaliza ao passo que a consciência do homem

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o levou a adquirir um ethos, isto é, uma limitação do Estado às tarefas que
base moral, e a se transformar num ser efetivamente não possam informal e
político. São muitas e importantes as espontaneamente ser cumpridas pelos
consequências dessas diferenças entre cidadãos, exceto a custos extremamente
os homens e os outros animais, sejam elevados; e, depois, torná-lo tão
eles “sociais” ou não. Os homens são descentralizado quanto possível, a fim
qualificados para a ação social, um de minimizar a concentração de poder
atributo essencial e exclusivo das que tem como contrapartida a agres-
sociedades dos homens livres. Através são à liberdade dos cidadãos.
dela os homens têm que chegar a um Por outro lado, não terá sucesso a
acordo entre si acerca dos objetivos da organização que se basear no suposto
sociedade de que são parte e dos de que o homem é ou pode ser trans-
meios de alcançá-los; sobre a forma e formado em altruísta, pois ele tem
os limites do Estado e do Governo; interesses particulares, preferências
sobre o sistema de representação e as específicas e geralmente se dispõe a
maneiras de escolher seus represen- lutar por ambos.
tantes; sobre o controle do Estado pela Qualquer tentativa de querer torná-
Nação; e, finalmente, sobre os proble- los iguais significa ter que tratá-los de
mas comuns, seus graus de importância maneira diferente, por privilégios e
e suas respectivas soluções. vantagens arbitrárias. Esse tipo de con-
Mas, diante das diferenças indivi- cepção igualitária, além de ingênuo, é
duais, como podem os homens chegar extremamente injusto e geralmente
a um acordo entre eles sobre qualquer ineficiente na prática. É o oposto da
conjunto de problemas? Que tipo de concepção humanista, individualista,
organização social poderá oferecer democrática e liberal, da igualdade dos
condições mais adequadas para o homens perante a lei (na realidade, de
debate e o entendimento requeridos por leis iguais para todos), de cujo princípio
esse acordo? decorre o caráter impessoal, genérico
Se a prioridade é com a indivi- e abstrato das normas jurídicas.
dualidade dos seus membros e se esta Finalmente, a organização da socie-
requer a liberdade como condição ra- dade humana, para ser eficaz, tem que
dical, a ordem a ser estabelecida deve reconhecer as ambivalências, dualismos
respeitar os cidadãos e seus projetos e contradições da condição humana,
de vida; estes são os fins supremos erigidas com uma visão suficientemente
dessa sociedade, e o Estado é apenas cínica e precavida a respeito do caráter
um meio para a realização desses fins. apenas parcialmente confiável do
Se é “natural” que nas sociedades homem. Mecanismos devem ser tam-
de animais gregários os indivíduos que bém acionados para desenvolver o
a integram se subordinem aos interesses caráter do homem, tornando-o mais
do “todo”, constitui agressão à condi- apto para a ação social. É este o papel
ção humana a submissão individual fundamental que pode ter a educação
dos indivíduos aos propósitos do em seu sentido mais amplo, de amor-
Estado; os indivíduos é que são os fins, tecedor do preconceito e da intolerância.
e o Estado é nada mais do que um Mas se a educação do compor-
meio para a consecução desses fins. tamento é fundamental no desenvol-
Impõe-se, portanto, como orien- vimento de uma sociedade liberal,
tação básica a necessidade da rigorosa também o é a educação em sua versão

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convencional, especialmente importante fruto da tradição ou da solicitação
no seu tríplice aspecto de criadora de biológica – mas são parte inerente da
um universo comum de discurso, na totalidade de cada um; são parte dos
aceleração do crescimento econômico seus direitos, como o é o direito de
e no desenvolvimento de uma classe propriedade. Nas sociedades dos
média quantitativamente expressiva. insetos esse problema não parece
O falecido professor Frank Knight existir, de vez que as necessidades
estava cheio de razão quando obser- individuais são biologicamente deter-
vava que a busca da “verdade” e do minadas. Mas nas sociedades hu-
“progresso” nas sociedades liberais manas, quando o Estado se arroga o
apresenta forte potencial de conflito direito de planejar o consumo dos
com relação ao outro valor básico que cidadãos e estabelecer controle de
é a “ordem”, pois os primeiros cons- preços, contingenciamentos, proibições,
tituem elementos geradores de mu- impostos discriminatórios, etc., ele está
danças. A educação pode constituir de fato privando esses cidadãos de
ajuda decisiva na qualificação de uma dose significativa de parte da sua
sociedade para a tarefa de minimizar liberdade pessoal.
os conflitos que geralmente vêm no Se se dispõe de um mecanismo
bojo dos processos de mudança social. impessoal, eficiente e livre como é o
Os temas seguintes se referem a mercado, por que substituí-lo pelo
conformismo e imobilismo versus incon- poder coercitivo ineficiente, no caso,
formismo e mudança; necessidades arbitrário do Estado? Porque alienar a
limitadas versus necessidades infinitas. soberania do consumidor em favor da
Imobilismo e conformismo são condi- tutela do Estado?
ções típicas das sociedades estáticas, O assunto seguinte diz respeito à
estagnadas e alicerçadas em tradições. uniformidade versus diversidade e
Também as comunidades dos animais pluralidade. As organizações sociais
gregários assim o são por força do liberais, “abertas” e democráticas
determinismo genético. O mesmo vale caracterizam-se pela diversidade e pela
para as sociedades fundadas na ideia pluralidade, e tendem a demonstrar
da luta de classes. A hipótese de que, disposição para experimentar e mudar.
em regime de liberdade, um parceiro As organizações não liberais e “fe-
do jogo econômico apenas pode be- chadas”, ao contrário, tendem a ser
neficiar-se à custa das perdas de seu monolíticas, a apresentar elevados
respectivo parceiro não faz sentido graus de uniformidade e apego ao
numa sociedade em processo de cres- status quo. A pluralidade e a diversi-
cimento continuado e na qual são efi- dade são compatíveis com menor grau
cazmente assegurados os direitos dos de poder conferido ao Estado e à sua
cidadãos, especialmente os direitos eco- dispersão, ao passo que a uniformidade
nômicos de livre entrada no mercado e a concentração do poder, bem como
e os de propriedade privada. o “conformismo”, tendem a aumentar
Nas sociedades estagnadas e im- em função do tamanho e densidade
pregnadas de imobilismo tudo se passa do Estado. É claro que as sociedades
como se as necessidades de seus dos animais gregários se aproximam
membros fossem limitadas. Ora, as muito mais, quanto a essas caracte-
necessidades humanas são ilimitadas rísticas, das organizações não liberais
e, portanto, insaciáveis. Elas não são e “fechadas”.

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Antes de passar para o ponto se atrever a dizer o que é importante
subsequente, farei uma última re- ou secundário para os outros. Ainda
ferência ao problema da uniformidade assim, é coisa corriqueira nas organi-
versus diversidade. Trata- se da zações não-liberais, e é certamente
conhecida preferência dos regimes não parte do cotidiano dos brasileiros. O
liberais pelas políticas sociais que mesmo tipo de arbitrariedade e
procuram nivelar as pessoas “na arrogância se faz presente quando se
chegada” e que contrastam com a pretende definir o bem comum.
predileção liberal, por ser esta mais A conquista pelo homem, então, de
compatível com a liberdade e a condições para fazer não o prosaico,
equidade de tratamento, ao optar pela mas aquilo que a juízo de cada um é o
igualdade “na largada”. É nesse sentido necessário, ou prazeroso, ou inte-
que entendo o princípio da “igualdade ressante, ou importante, significou, na
perante a lei”: cada um de nós que realidade, ampliação da sua liberdade
nasce ou vive numa determinada para forjar a sua própria vida, de
sociedade, dela recebendo benefícios acordo com suas características
e para ela contribuindo com seu pessoais. O homem conseguiu, através
trabalho, deve ter, respeitadas as da tecnologia, diminuir a coerção das
diferenças pessoais, condições iguais forças da natureza sobre a sua
de acesso às oportunidades. Mas essas capacidade de viver a “sua” vida, e o
oportunidades, a rigor, não podem ser processo não parece haver terminado
iguais enquanto as pessoas não ainda. É um contrassenso, por con-
nascerem iguais; além disso, a sorte as seguinte, que um grupo de burocratas
trata de forma desigual. O máximo, venha subtrair-lhe, através de arro-
então, a que se pode aspirar é que gante e grotesca tutela, parte dos frutos
sejamos todos tratados de maneira dessa extraordinária conquista, di-
igual pelas leis; que todos tenhamos zendo-lhe o que pode e o que não
liberdade para a construção de nossas pode consumir, e que equivale a ditar-
vidas, que possamos adquirir as lhe a forma de viver.
condições mínimas de saúde e de
educação, e que tenhamos nossos IV. DOIS MODELOS EXTREMOS DE
direitos pessoais de propriedade pre- ORGANIZAÇÃO POLÍTICA
servados. São exatamente as socie-
dades baseadas na tríade ordem-li-
berdade-justiça as que mais se apro- O problema político decorre basica-
mente do fato de as pessoas serem
ximam dessas condições. diferentes e constitutivamente com-
O passo seguinte nos leva ao pro- prometidas com os seus próprios
blema da adaptação à natureza versus projetos de vida, condição que exige
a adaptação da natureza e das cir- liberdade. Por outro lado, apenas em
cunstâncias às necessidades do sociedade o homem se humaniza. Mas
homem. É muito comum nos países viver em sociedade significa a exposição
pouco respeitadores das liberdades de todos a situações potenciais de
humanas o constrangedor espetáculo conflito e de eventual dominação de
em que o Estado define o que é uns sobre outros. Esta é a razão de ser
essencial e o que é supérfluo para a das regras gerais e de comportamento
Nação. É preciso dose fortíssima de que estabelecem as circunscrições para
arrogância e pretensão para alguém o exercício das liberdades individuais.

12 ENTRE OS CUPINS E OS HOMENS


A articulação dessas regras entre si gera Estado e a necessidade do seu controle
o ordenamento geral, e a sua gerência pela Nação.
faz surgir a figura do governo. Estado A democracia está mais preo-
e Governo representam concentração cupada com o problema da origem do
de poder, algo que está em conflito com poder, sua representação e sua divisão.
a liberdade. Para as pessoas amantes Enquanto os liberais indagam “quanto
da liberdade, o problema então está poder?”, os democratas perguntam “a
em conciliar ordem (que implica o quem pertence o poder?” e respondem:
poder coercitivo do Estado) e liber- “ao povo!” A democracia é o povo no
dade. poder, através de seus legítimos
Da mesma forma que no capítulo representantes. É natural, portanto, o
anterior concebemos dois modelos ou casamento das idéias liberais com as
paradigmas extremos de organização democráticas: quanto menos Estado (e
para a solução dos problemas sociais, Governo), melhor; quanto mais diluído
poderemos pensar também em dois o poder, melhor. É dessas duas fontes
sistemas organizacionais extremos para — a democracia e o liberalismo — que
a solução dos problemas políticos. emanam os Estados modernos de ho-
Podemos contrastar “a regra da mens livres.
autoridade” com a “autoridade das O reconhecimento crescente de que
regras”; a primeira alternativa se refere a economia de mercado (isto é, a
a todos os tipos de organização política liberdade no âmbito econômico) é
nos quais o cidadão se subordina (em requisito indispensável às demais formas
vários graus) à vontade e ao poder do da liberdade constitui um dos acon-
Estado; a segunda tem em vista as tecimentos mais importantes da atua-
organizações democráticas e liberais, lidade e, provavelmente, contribuirá de
nas quais o Estado está subordinado maneira sensível para o fortalecimento
aos propósitos dos cidadãos e sob seu do movimento liberal. Certamente se
controle. No primeiro caso cabem os encontram em posição inconfortável
regimes tirânicos, autoritários, abso- aqueles que contraditoriamente ad-
lutistas, ditatoriais ou que outros nomes vogam a liberdade política e o regime
possam merecer em face de suas democrático, ao mesmo tempo em que
peculiaridades, mas todos tendo em se mostram ferrenhos defensores da
comum a sobreposição dos objetivos intervenção estatal na economia.
do Estado aos propósitos individuais. ***
No segundo caso estão as várias mo- Já sabíamos que a ordem, qualquer
dalidades de regimes políticos ins- ordem, é preferível ao caos quanto aos
pirados na liberdade dos cidadãos, resultados econômicos. Estamos,
geralmente identificados como de- agora, tornando-nos cada vez mais
mocracias liberais. conscientes de que alguns tipos de
Mas a despeito de democracia ordem são mais compatíveis do que
e liberalismo se inspiraram no mesmo outros com relação à liberdade pessoal,
valor fundamental que é a liberdade, ao bem-estar econômico e às oportuni-
a rigor significam coisas diferentes (se dades pessoais; e não parece haver
bem que convergentes). A preocupa- dúvida de que apenas um ordenamento
ção do liberalismo é com a liberdade econômico baseado na livre iniciativa,
e, portanto, com o seu corolário; isto na propriedade privada, nos lucros e no
é, a limitação do poder coercitivo do mecanismo de preços – a ordem da

ENTRE OS CUPINS E OS HOMENS 13


economia de mercado – é compatível dispêndios) a favor de coisas igual-
com o regime político da democracia. mente individualizadas; a maior parte
Se a economia de mercado é condi- dos acordos envolve apenas as partes
ção necessária, mas não suficiente, para interessadas; o mercado enseja ampla
a democracia, que outras condições se diversidade para manifestação da
fazem necessárias? Estou pessoalmente preferência dos agentes, assegurando-
convencido a respeito de mais duas: lhes representação proporcional. A
primeiro, todo um ordenamento ali- economia de mercado é, na realidade,
cerçado na generalidade e no caráter um plebiscito permanente e informal.
abstrato das leis, na eficácia da ad- O processo político coloca os cidadãos
ministração da justiça, bem como na diante de grandes blocos de alterna-
eficácia e legitimidade do processo de tivas, dificultando-lhes ou mesmo
representação e decisão; segundo, a impedindo-lhes a manifestação parti-
capacidade efetiva do controle do cularizada das suas preferências. Milton
Estado pela nação. Friedman diz com pertinência que o
Frank Knight nos mostrou que o mercado gera a unanimidade sem
sistema moderno da liberal-demo- conformidade, enquanto que o pro-
cracia se baseia num processo de livre cesso político gera a conformidade,
intercâmbio. No plano econômico, há sem assegurar a unanimidade! O
a troca livre voluntária de bens e ser- processo político mobiliza muito mais
viços entre os agentes privados, uma as emoções humanas, pois ele tem a
relação ao mesmo tempo competitiva ver, em última instância, com valores,
e cooperativa, mutuamente vantajosa. princípios e preferências subjetivas; e
No plano político-social, e especial- nos debates políticos estão quase
mente na vida política, há também um sempre presentes elevadas doses de
intercâmbio de ideias, opiniões, preconceito e intolerância. Tudo isso faz
argumentos e informações. Enquanto com que as decisões “impessoais” de
o instrumento do intercâmbio socio- mercado sejam mais racionais e efi-
político é a linguagem humana, a cientes, além de menos conflituosas do
comunicação econômica se faz princi- que as decisões políticas. É mais um forte
palmente pelo sistema de preços. Esses argumento para que, sempre que
dois meios de comunicação são o possível, pelos critérios econômicos de
resultado espontâneo, não progra- divisão do trabalho entre governo e
mado da interação humana; ninguém mercado, se prefiram as soluções de
em particular os inventou; constituem mercado às soluções políticas.
produtos sociais anônimos. Nesse contexto é enorme a im-
A linguagem do sistema de preços, portância que Knight concedia ao papel
entretanto, é mais objetiva, mais “fria” da educação geral, mas sobretudo
e precisa do que a linguagem humana como instrumento para superar o
propriamente dita. O mercado, todo preconceito e a intolerância. Nas suas
ele, o sistema de preços incluído, é próprias palavras, “education of the will
muito mais racional do que a “arena” much more than of the intellect”. O
política. Na interação econômica do interessante é que essa importância da
mercado as transações normalmente educação na área política é a rigorosa
envolvem interesses pessoais diretos, contrapartida da importância da edu-
específicos; as decisões se expressam cação na preparação do agente eco-
através de “votos” (representados pelos nômico para um desempenho com-

14 ENTRE OS CUPINS E OS HOMENS


petente no processo do desenvol- através de um sistema de planejamento
vimento econômico. Além disso, a central; ou (2) os problemas econômicos
educação básica, através das suas são resolvidos de maneira impessoal e
consequências no âmbito econômico, livre, através da interação voluntária
produz outro efeito relevante para o dos agentes particulares no mercado.
processo político, pois, ao acelerar o No primeiro caso, trata-se do processo
crescimento econômico e expandir a decisório do tipo top-down, isto é, de
classe média, oferece ao processo cima para baixo. No segundo caso, as
político democrático o benefício da decisões resultam do livre e voluntário
ampliação desse seu ingrediente intercâmbio dos indivíduos, cabendo
indispensável que é exatamente a ao Estado apenas algumas atribuições
“classe média”, uma classe média específicas que novamente não podem
quantitativamente expressiva. ser eficientemente exercidas pelo
Posso, agora, voltar ao problema mercado; trata-se do processo decisório
das condições exigidas por uma liberal- do tipo bottom-up, isto é, de baixo
democracia. Uma delas é a economia para cima. O primeiro paradigma or-
de mercado, não apenas pelos resul- ganizacional é geralmente conhecido
tados econômicos superiores que como planejamento central, e o se-
produz, mas principalmente porque a gundo é alternativamente denominado
liberdade econômica é condição economia de mercado, sistema de livre
necessária para a liberdade política. iniciativa ou capitalismo.
Outra condição é o império da lei e a Pelo fato de ser a economia de mer-
igualdade dos indivíduos perante ela, cado fundamentada na liberdade
o que exige instituições eficazes. Essas individual, compatibiliza-se natural-
duas condições compõem as linhas mente com os regimes sociopolíticos
principais de ordenamento geral da liberais, igualmente baseados na liber-
sociedade, um grande cenário na- dade individual e na minimização do
cional. Mas o cenário apenas não papel do Estado.
basta: é preciso que os atores sejam O sistema econômico do plane-
adequadamente qualificados tanto jamento central, estribado no arbítrio e
para ação política como para o desem- no poder coercitivo do Estado, implica
penho econômico. E essa é a função a alienação da vontade e da liberdade
da educação. Supondo que os atores econômica individuais e, por isso, é o
se tornem preparados, da sua melhoria complemento organizacional natural
qualitativa deverá provavelmente dos regimes políticos não liberais.
resultar a expansão da classe média. Uma característica dos regimes
socialistas e marxistas é a abolição da
V. DOIS MODELOS EXTREMOS DE propriedade privada ou sua sensível
ORGANIZAÇÃO ECONÔMICA redução, com a consequente trans-
ferência, para o Estado, dos chamados
A ordem econômica, da mesma
forma que a social e a política,
“meios de produção”. Por outro lado,
a propriedade privada é característica
pode basear-se em dois paradigmas inalienável da economia de mercado:
extremos: (1) os problemas econômicos não pode haver economia de mercado
da sociedade são solucionados sem propriedade privada.
autoritariamente por um grupo de Se não houver propriedade privada,
pessoas no Governo, geralmente ela será, obviamente, pública. Isso

ENTRE OS CUPINS E OS HOMENS 15


acarreta enorme e desnecessária recursos) para determinados fins
concentração de poder econômico no implica necessariamente o sacrifício dos
Estado, colocando-o muitíssimo além demais fins que competiam por tais
do estritamente exigido pelas atividades meios; implica o sacrifício de opor-
que a rigor não caberiam ao mercado. tunidades alternativas. Por esse motivo
Além disso, o Estado estaria em con- se dá a essa renúncia o nome de abrir
dições de exercer pressões coercitivas “custo das oportunidades perdidas” ou
não apenas sobre os agentes econô- “custo de oportunidade”, como é mais
micos privados, como também sobre conhecido o conceito.
os agentes políticos, levando-os a um Há quatro grupos de problemas
comportamento incompatível com seus econômicos: 1. Que bens e serviços
próprios interesses e preferências produzir e em que quantidades (pro-
pessoais. Presença de coerção é au- cura); 2. Como produzi-los (oferta);
sência de liberdade. Logo, se há con- 3. Para quem (distribuição); 4. Como
centração exagerada da propriedade aumentar a produção por habitante no
nas mãos do Estado, compromete-se a tempo (crescimento).
liberdade individual e inviabiliza-se a O planejamento central subordina
integridade de uma sociedade que os agentes econômicos individuais às
pretenda ser liberal-democrática. decisões do Estado, que dá respostas
A liberdade individual varia inver- àqueles quatro grupos de problemas.
samente com o grau de concentração No sistema da economia de mercado
de propriedade nas mãos do Estado, são os agentes particulares que, através
entre o tipo extremo de organização no da interação livre e voluntária com seus
qual a propriedade privada é inexistente pares e com base nas indicações que
e a sua antítese, aquela que apenas recebem dos preços no mercado, dão
concede ao Estado os meios absolu- solução àqueles problemas.
tamente necessários para a função que A liberdade dos agentes econômicos
efetivamente lhe pertence (as sociedades é condição fundamental da economia
de economia de mercado puras). de mercado, mas essa liberdade não
A essência do nosso problema é a é absoluta: os direitos de cada um
opção entre sermos uma sociedade terminam nos limites dos direitos dos
coletivista ou uma sociedade liberal e demais. Isso requer um ordenamento
democrática. Se a segunda alternativa geral, para cuja formalização e admi-
é a que preferimos, teremos então que nistração existe o Estado. Do ponto de
restaurar imediatamente a economia de vista econômico, sobressaem nessa
mercado em nosso país, recolocando ordem geral, pela importância que têm
o Estado a nosso serviço, e dentro da para o funcionamento do sistema, a
esfera de competência que cabe na definição e a aplicação dos direitos de
economia nacional. propriedade. Na realidade, juntamente
Que é, afinal, uma economia de com a preservação da segurança, esta
mercado? Quais são os seus requisitos é a grande tarefa do governo. Dentro
fundamentais? O problema econômico do quadro geral dessas normas gerais
é um problema de escassez de meios de organização e comportamento se
em face de excesso de fins. Ele surge incluem as regras econômicas que
quando meios escassos são postos estabelecem o ambiente competitivo ou
diante de fins alternativos, de modo que concorrencial de mercado. Finalmente,
a utilização de certos meios (isto é, é próprio do Estado uma ação supletiva

16 ENTRE OS CUPINS E OS HOMENS


ou compensadora em face de exter- Três problemas são subversivos para
nalidades (negativas e positivas), dos a economia de mercado: as empresas
bens públicos e de situações em que o estatais, a inflação e a expansão dos
custo das transações limite a capa- bolsões de miséria. O que há de comum
cidade dos agentes privados na to- na etiologia desses três males sociais é
mada de decisões. o Governo como agente ativo nos dois
Esse conjunto de atribuições primeiros casos e como agente omisso
concede ao setor público uma elevada no terceiro. Ele causou os dois primeiros
dose de presença no mercado. Por por fazer o que não devia e, ao deixar
representar simetricamente grande de fazer o que devia, permitiu que o
restrição à liberdade dos particulares, último surgisse e crescesse.
não há motivos para autorizar-se a sua A economia de mercado requer,
expansão, e sim para que a nação para ser eficiente, uma ordem com-
exija rigoroso controle no sentido de petitiva. Essa ordem competitiva é
impedi-la. agredida com enorme contundência
Além da necessidade de conter o pela presença maciça das empresas
tamanho do Estado, a economia de estatais. Como podem os particulares
mercado requer mais as seguintes competir com o governo? Como se não
condições: que as “regras do jogo” bastasse dispor do poder coercitivo que
sejam competitivas, isto é, que os lhe é próprio, o setor público dispõe
agentes econômicos não disponham de poder econômico monopolístico em
de poder coercitivo individual de afetar alguns casos e oligopolístico em outros.
preços no mercado; que existam direitos Como se não bastasse, cria e sanciona
de propriedade bem definidos e res- reservas de mercado em inúmeros
peitados e os contratos sejam cum- setores, conspurcando os mercados,
pridos; que exista liberdade de “en- gerando privilégios, comprometendo a
trada” e “saída” no mercado; que o eficiência, promovendo a corrupção e
sistema de preços funcione com efi- cerceando a liberdade.
ciência competitiva; que o lucro seja A economia de mercado e a ordem
respeitado como um dos direitos legí- competitiva, para serem eficientes,
timos dos agentes econômicos. dependem do funcionamento eficaz do
É também de capital importância sistema de preços, pois é ele que orienta
que a ordem seja competitiva e que os agentes econômicos quanto ao
sejam preservadas a liberdade dos encaminhamento dos fatores de pro-
indivíduos e a eficiência econômica. Na dução entre as suas utilizações alter-
realidade, liberdade individual e efi- nativas.
ciência econômica social estão Podemos voltar, agora, às duas
estreitamente relacionadas. Se, por um últimas condições de uma economia de
lado, essa afinidade entre liberdade e mercado: “liberdade de entrada” e
eficiência econômica é favorável “lucro”. Uma das condições funda-
porque estimula o crescimento eco- mentais da economia competitiva de
nômico, por outro lado ela pode, por mercado é a “liberdade de entrada”
força de seus próprios méritos, gerar dos agentes e econômicos privados. A
problemas para a sociedade, pois “liberdade de entrada” é um expe-
normalmente induz mudanças e estas diente eficaz contra a concentração do
podem entrar em conflito com a ordem poder econômico. A “liberdade de
estabelecida. entrada” é complemento natural e

ENTRE OS CUPINS E OS HOMENS 17


indispensável da liberdade individual liberal desemboca, por exemplo, na
em seu sentido mais amplo. organização nacional de tipo federativo
A última condição é o lucro, e não – União, Estados e Municípios –, a
é a menos importante. Uma das preocupação democrática leva à idéia
realidades do mundo econômico é a clássica da divisão tripartite do poder:
incerteza; no mundo empresarial, ela legislativo, executivo e judiciário.
não admite seguro. Lucro é a diferença Essas duas vertentes de princípios
entre os resultados esperados e os organizacionais compatíveis com o
resultados obtidos. Pode ser zero, máximo possível de liberdade e le-
negativo ou positivo. É a contrapartida gitimidade representativa convergem
da incerteza e constitui um prêmio pelos para as três condições que dão título a
acertos do empresário ou um castigo este capítulo: descentralização, divisão
pelos seus erros. Mas é o lucro que e pluralidade. Faz sentido, numa orga-
incita à iniciativa, à mudança, à nização de cunho federativo, que se dê
inovação, à criação e ao empenho. Os aos municípios o máximo possível de
economistas ligados à tradição da autonomia, em detrimento do poder
Escola Austríaca o identificam com o dos estados e da própria União. E o
processo de descoberta, pelo empre- corolário prático liberal-democrático
sário, de oportunidades de mercado. pode ser formulado através do seguinte
Numa economia de mercado, para princípio geral: não deve ser atribuída
eliminar-se o lucro seria necessário ao Estado (Governo) a solução de
eliminar a incerteza. problemas que, por considerações de
custos (incluindo o da liberdade) e
VI. DESCENTRALIZAÇÃO, DIVISÃO E eficiência (inclusive a administrativa),
PLURALISMO possam ser assumidos pela economia
de mercado; não devem ser atribuídos
O liberalismo se preocupa com a
limitação do poder coercitivo do
aos estados o que os municípios pu-
derem fazer; não devem ser confiados
Estado e com a sua descentralização, à União os problemas que os estados
o princípio da subsidiaridade. O federativos possam solucionar. Além de
pensamento democrático dá ênfase à abrandar os males decorrentes da
divisão do poder, não apenas como existência de um poder público coer-
forma de abrandá-la, mas também de citivo, a aplicação desse corolário
controlá-lo pelo resultante sistema de seria coerente com relação às idéias
“freios e contrapesos” (checks and de descentralização, divisão e plu-
balances). Enquanto a preocupação ralidade.

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