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Musculação no envelhecimento: Em busca da fonte da juventude

A observação do comportamento da pirâmide populacional ao longo das últimas décadas pôde


nos dizer que em 2025, mais de 25% da população será composta de indivíduos maiores de 60 anos1.
Pessoas idosas que envelheceram de forma sedentária apresentam redução da força muscular
(60% ao longo da vida)2, da flexibilidade (23%)3, da resistência aeróbia (até 3,5% ao ano após a
terceira década de vida)4, perda de equilíbrio (65% apresentam alguma forma de desequilíbrio)5,
sarcopenia (diminuição acentuada da massa muscular observada em mais de 30% dos idosos) 6, e como
conseqüência dessas alterações a aptidão física para realização das tarefas cotidianas fica prejudicada, piorando de
forma significativa a qualidade de vida destes indivíduos7.
Se não fossem por si só graves as condições do envelhecer sedentário, cada membro dessa faixa etária ainda
apresenta concomitantemente, em média, três doenças que necessitam de diagnóstico e tratamento adequado8.
No intuito de amenizar este quadro, visando a prevenção de novos agravos ou como adjuvante terapêutico, o
Colégio Americano de Medicina do Esporte e a Associação Americana do Coração (American College of Sports
Medicine, American Heart Association) recomendam que indivíduos idosos realizem pelo menos duas sessões de
musculação por semana9.
Especialistas argumentam que, se uma única forma de exercícios tiver que ser escolhida para o indivíduo
idoso, esta deve ser a musculação, preferivelmente aos exercícios aeróbios, pois a prática regular da musculação
aprimora com excelência as principais capacidades físicas necessárias à realização das atividades do dia-a-dia10.
Estudos envolvendo os benefícios da prática regular da musculação por pessoas idosas revelam aumento da
força muscular em mais de 200%11, da flexibilidade em mais de 20%12, da capacidade de caminhada em mais de
35%13, do equilíbrio (reduzindo diretamente o número de quedas)14, aumento do volume muscular (redução da
sarcopenia)6, promovendo aumentos da aptidão física geral e qualidade de vida7.
Não só nas capacidades físicas necessárias à vida diária a musculação oferece seus benefícios. Melhoria de
parâmetros metabólicos (melhor metabolismo da glicose, redução do colesterol do sangue, e redução dos
marcadores inflamatórios), hemodinâmicos (melhor condicionamento cardiovascular e redução da pressão arterial),
redução do risco de desenvolvimento de doenças como o Diabetes e doença coronariana (em mais de 20%),
também são observados15-17.
A musculação oferece inúmeros benefícios para os idosos (quer sejam eles saudáveis ou portadores de
alguma doença), que caminham em sentido contrário ao do envelhecimento e do sedentarismo16.
Pesquisadores da Universidade da Califórnia18 especularam que a musculação pode ser uma possível fonte da
juventude. A afirmação se deu pelos resultados de um estudo com mapeamento genético, realizado com 25 idosos
praticando musculação em duas sessões semanais por seis meses, sendo posteriormente comparados a indivíduos
jovens. Os idosos apresentavam comparativamente aumento da atividade de genes relacionados ao controle do
ciclo celular, reparo de DNA e morte celular. Isto traduz que as células estavam sofrendo de algum modo uma
constante desregulação, com necessidade de reparos freqüentes do material genético, e que muitas mortes
celulares estavam sendo induzidas nestes indivíduos.
Por outro lado, genes relacionados ao metabolismo energético e função da mitocôndria (organela que quando
apresenta suas funções alteradas é tida como grande contribuinte do envelhecimento),
apresentavam sua atividade diminuída, traduzindo uma menor capacidade de geração de
energia e caracterização molecular do declínio funcional dos idosos.
Os resultados do estudo mostraram que mais de 175 genes foram alterados
positivamente após a prática da musculação, e houve reversão das alterações observadas.
Essa reversão, após o mapeamento genético, permitiu aos pesquisadores afirmarem que os
idosos do estudo apresentavam um perfil genético da sua musculatura semelhante ao dos jovens,
sendo a prática de musculação, portanto, promotora de uma jovialização do perfil genético
(muscular) de pessoas idosas.
Muito já se pensou sobre o fato da musculação não ser uma atividade adequada para
indivíduos idosos, com baixa capacidade física, debilitados, ou portadores de doenças crônicas.
Porém este pensamento vai de encontro à extensa documentação científica de que a musculação é uma
modalidade segura e eficaz para estas pessoas, mesmo se tratando de indivíduos muito idosos (acima de 80 anos),
fragilizados, institucionalizados, e até mesmo os que se encontram hospitalizados 19-23.
O controle sobre a atividade é conseguido com facilidade pelo profissional que acompanha as sessões de
exercícios (cargas utilizadas, amplitudes adequadas, posição do corpo, velocidade de execução dos movimentos,
número de repetições e séries, duração da sessão e freqüência semanal)24.
A avaliação médica prévia, proporcionando o adequado controle clínico e encaminhamento à atividade, bem
como a procura de locais e profissionais habilitados para a prescrição e acompanhamento da prática de musculação
com segurança e eficácia, têm caráter fundamental para o aumento do número de praticantes desta modalidade,
julgada essencial para esta faixa etária, mas que apenas 12% o fazem25,26.
Em resumo, em tempos onde a expectativa de vida aumenta progressivamente e há o desejo de manutenção
da aptidão física, independência funcional e qualidade de vida nas idades mais avançadas, a musculação pode ser
considerada uma excelente promotora do envelhecimento saudável, minimizando as alterações danosas do
senescer sedentário.

“As partes do corpo que tem função, se usadas com moderação e exercitadas nas funções em que
estão adaptadas, tornam-se desenvolvidas e envelhecem lentamente. Quando inúteis, tornam-se mais
predispostas a doenças, crescem com defeitos e envelhecem rapidamente” (Hipócrates, 450 AC).

Dr. Lucas Caseri Câmara – CRM: 117.441


Médico, especializado em Fisiologia do
Refrências: Exercício na Saúde, na Doença e no
Envelhecimento – CECAFI – FMUSP, e em
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