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A ginga dos adôs 1

Fernanda Otoni-Brisset

Quando a crença no pai não é mais o farol que ilumina a estrada principal, a juventude, como placa sensível de uma época “sobre a qual se registram todas as crises do discurso corrente, crises da representação, crises nos modos de gozar” 2 , pode servir de guia em direção à nossa responsabilidade. Os jovens são portadores de uma coisa sempre nova, incabível, inquietante. Eles não têm outra escolha senão fazer com que isso tenha cabimento no seu tempo. Da infância foram despertados pela eclosão de um gozo novo cuja força furou, num só golpe, a autoridade suposta ao Outro e a imagem do corpo infantil, cavando o túnel que terão de atravessar. Na infância, via de regra, o gozo do corpo se acopla à cápsula significante recolhida da ordem familiar e por aí se aninha. Tal encaixe, em certos casos, define e dirige o circuito por onde o infans recupera a satisfação autoerótica ao se fazer objeto precioso o falo. Passada a infância, tal solução se desfaz. O jovem falasser aí se dá conta de que não há relação, não há garantia, não há lei que diga o que fazer com esse Um do gozo disjunto do Outro que faz do seu corpo um outro para si mesmo. Entra em jogo como cada um vai se virar com esse gozo estrangeiro. Como amarrá-lo? Com quais conectores o falasser poderá contar para resolver o impasse dessa real disjunção? Convidei os colegas analistas Cristiane Barreto, Cristiane Cunha, Cristina Nogueira, Débora Matoso, Kátia Mariás, Ludmilla Feres, Márcia Mezêncio, Mônica Campos, Musso Greco e Raquel Marinho para conversarmos sobre a experiência da psicanálise com adolescentes e sua articulação com a lei e o fora da lei. O convite não foi por acaso, pois, como sabem, cada um desses colegas experimentou os impasses dessa articulação no seu encontro com os jovens na cidade. Os projetos com os quais se envolveram, muitos deles, foram responsáveis por inventar instalações inéditas para servir

1 Este artigo é a versão integral do trabalho apresentado em plenária da XX Jornada da Seção Minas e será publicado no livro organizado pela colega Heloisa Caldas, junto com Aline Bemfica e Clarice Boechat:

“Errância, adolescência e outras estações”. Uma publicação da EBP, com lançamento previsto para o XXI Encontro Brasileiro, em novembro/2016.

2 ROY, D. La jeunesse des ado. 2016. Disponível em: <http://www.hebdo-blog.fr/jeunesse-des-ados/>.

ao adolescente, nessa encruzilhada, contando com a psicanálise de orientação lacaniana nas montagens dessas instalações. Da experiência inaugurada por cada um, procuramos ler as respostas dos jovens e o que podem nos ensinar sobre o gingado contemporâneo entre o par a lei e o tô fora da lei. Este texto acolhe as ressonâncias desse encontro.

Nota do enfraquecimento do pai O que foi se esclarecendo é que a função do pai, que no último ensino de Lacan tornou-se um conector em condições de amarrar os três registros, “se degradou à medida em que os constrangimentos naturais foram rompidos pelo discurso da cincia”, conforme nos alerta Miller:

Os adolescentes, me parece, padecem especialmente dos impasses do individualismo democrtico, que ele mesmo o produto da derrocada das

e do enfraquecimento do Nome-do-

Pai no seu desaparecimento, mas seu enfraquecimento. Isso tem efeitos profundos de desorientação que se fazem sentir mais nos adolescentes de hoje. 3

ideologias, das grandes narrativas (

)

Hoje, isso se mostra nos assuntos de família às questões de sociedade.

A certeza do (não é) pai Lacan afirmara que “a essência e a função do pai como Nome” decorre de “nunca se poder saber quem é o pai”. É dessa incerteza que cada um fabrica sua ficção de um pai. Mas a aliança do discurso jurídico com a técnica científica lançou a desordem nas relações de filiação ao fazer prova genética sobre a certeza do (não é) pai. É “absolutamente certo” que a pesquisa biológica da paternidade tem “incidência na função do Nome-do-Pai”, afirma Lacan 4 . Ela tinha 13 anos e era a princesinha do pai. Com a separação do casal, ele pede exame do DNA dos filhos. E a princesa virou bastarda, para surpresa do pai, que dela se desprega instantaneamente. A menina perplexa silencia e larga seu corpo ao imundo. Ele, aos 14 anos, escuta do pai: “Não sou seu pai biológico, vou entrar na justiça e deixar de pagar a pensão, mas quando estiver ao meu lado pode me chamar de pai.” O

3 MILLER, J.-A. Em direção à adolescência. 2015. Disponível em: <http://minascomlacan.com.br/blog/em- direcao-a-adolescencia/>.

4 LACAN, J. O Seminário, livro XVI: De um Outro ao outro. (1968-1969) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008. p. 149-150.

garoto larga os estudos e se aproxima do traficante do bairro, apesar de não usar drogas. Por quê? Ele responde: “Não sei. Gosto de ficar do lado dele, vê-lo fazer negócio!” Quando o Nome-do-pai vira mercadoria, um produto científico, que se negocia nos tribunais, uma desfiliação do registro pode acontecer. Mais além da relação que não há, verifica-se aí que há Um gozo que se destaca à deriva: um gozo imundo, traficante, clandestino e fora da lei.

O filho tem acesso direto a um pai que não sustenta mais a sua função

paterna, tornando uma pessoa anônima, humilhando o filho que disso se envergonha. O pai não está mais ali para velar o objeto real, dando um nome ao real. Ao contrário, não há mais ninguém para introduzir o filho a uma dívida simbólica, devido à função do nome do pai. Cabe ao sujeito subjetivar essa dívida. Como não se sente em dívida, se sente fora da lei.

essa posição de rebotalho os levam a atacar o laço social que está na raiz da linguagem, tornando-se sua única consistência. 5

(

)

O falasser aí vive a experiência de um desatamento. Para Éric Laurent, trata-se de um fato de gozo. “Marca-se no discurso um lugar de impossível e há uma identificação com esse ponto.” 6 Mas não se trata mais de uma identificação freudiana ao pai. Miller enfatiza que “não há identificação, há pertencimento, propriedade” 7 de Um gozo que corre solto, sem Outro, fazendo operar a língua do corpo. Lacan, em seu último ensino, considerará que, em nossa época, o corpo próprio é o que vem no lugar das identificações. Não há relação, há o Um!

Um grampo para cada Um fora da lei “Eu tenho que ser bandido, veio, esse negócio de ser homem na quebrada, cê não tem ideia do que é isso”. Se as adolescências são várias, seja qual for, cumpre a tarefa de atravessar o furo da inexistência da relação por onde o Um fora da lei força sua passagem. E d’isso não se pode ter ideia. O jovem, como trabalhador aplicado, tem por tarefa enlaçar esse real do gozo, que parece escapar, a um corpo. Desse esforço pode advir um semblante,

5 LACADÉE, P. O uso do Nome-do-pai: a ferramenta do pai e a prática analítica. Curinga, Belo Horizonte, n. 23, nov. 2006.

6 LAURENT, É. Inconsciente e acontecimento de corpo. Correio, Belo Horizonte, n. 78, p. 32, 2016.

7 MILLER, J.-A. Un-cuerpo. In:

El ultimíssimo Lacan. Buenos Aires: Paidós, 2013. p. 108.

um artifício que dê forma a essa “desordem provocada na junção mais íntima do sentimento da vida” 8 . Grampos são necessários para aí operar uma conexão. Junto aos jovens infratores, isso pouco funciona no regime do pai. As soluções passam mais por um esforço em inventar formas pontuais de amarração, tantas vezes precárias, instáveis e, portanto, provisórias. Misturar-se em gangues, fazer-se bandido, habitar as ruas numa errância ou anestesiado, mostram-se como arranjos subjetivos nesse deserto do Outro. Um adolescente, fora de si, entrega o objeto na porta de entrada, na urgência de algum fazer com isso que cai do corpo. Ele fez um cocô no meio da sala de espera. Na conversa com o analista praticante solta: “a gente não nasce, a gente é peidado”. A ele é ofertado um fazer com objetos, numa oficina com material de reciclagem. Uma aposta na arte como artifício, o que pôde favorecer uma conexão particular face ao que é disjunto pela própria natureza uma salvação pelos dejetos , a cada dia. Um outro adolescente chega algemado no serviço de saúde: “Eu fui desmontada. Tiraram minhas roupas, meus apliques. Não sou isso que você está vendo. Sou isso.” Mostra uma foto. Vestir-se de um gênero parece fazer um corpo. A analista aposta nas articulações que ali se enunciam e a faz chegar ao teatro. “Ali eu me visto como homem mesmo e encarno uma mulher. Eu sou representante da transcessibilidade”. Cenas grampeadoras de um corpo que tende a sair fora. Esses casos nos ensinam: um grampo não é uma algema!

Nota sobre o castigo

O menino criminoso é aquele que forçou uma porta que se abre para um lugar proibido. Ele quer que essa porta se descortine para a mais bela paisagem do mundo: exige que a prisão que mereceu seja cruel. Digna, enfim, do mal que ele se permitiu para conquistá-la. 9

Freud dissera que o crime visa justamente ao castigo e que a culpa antecede o delito. Será sempre assim, para todos, ainda hoje? Miller chama a atenção para a decapitação em praça pública pelo Estado Islâmico e pergunta se não haveria aí uma nova

8 LACAN, J. De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose. (1957-1958) In:

Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1998. p. 565.

9 GENET, J. A criança criminosa. (1958) In: BASTOS, R.; ANGELO, D.; COLNAGO, V. (Orgs.). Adolescência, violência e a lei. Rio de Janeiro: Cia de Freud, 2007.

Escritos.

aliança da identificação com a pulsão de morte. 10 Essa leitura nos permite colocar em série a captação e radicalização de jovens jihadistas, a filiação ao tráfico, os linchamentos, os movimentos extremistas que visam ao rigor do castigo ao instalar uma autoridade brutal. O mesmo está em jogo na ideia de redução da maioridade penal: a face obscena do castigo ferrando no corpo próprio um gozo fora da lei, desmesurado. Tais arranjos não são “da ordem do semblante”, pois estão ligadas “a um real do gozo que não vai se desfazer assim, como desatarraxar pequenas cavilhas” 11 . Qual a resposta da psicanálise face a esse narcisismo da causa triunfante? “Como eu acho que estamos lidando com o real, a conclusão política que eu tiro desta consideração

a única maneira de acabar com ele é vencê-lo.” 12

psicanalítica é que com esse discurso, (

),

Como vencê-lo? Freud, em um simpósio sobre suicídio, diz que “as escolas devem conseguir mais do que não compelir seus alunos ao suicídio; devem lhes dar o desejo de viver, oferecendo- lhes apoio e amparo numa época da vida em que as condições de seu desenvolvimento os levam a afrouxar os vínculos parentais.” 13 Essa orientação freudiana deveria se estender a instituições cuja responsabilidade se dirige às crianças e jovens. Contudo, a mortalidade de jovens, entre 12-24 anos, no Brasil de hoje, é maior que a da guerra. As instituições mostram-se enfraquecidas quanto à função que delas se espera. Adolescentes dão testemunhos da mão de ferro, sem palavras, daqueles a quem são entregues e que deveriam, por lei, protegê-los. Contudo, alguns adolescentes têm respondido à essa mão de ferro de maneira surpreendente (há algo de novo aí?): Um jovem é pego pela polícia e, quando começa a ser espancado, sabe que poderia morrer. Supondo saber o que eles querem, acena com o que não tem. Mente aos policiais dizendo que tem drogas e armas na sua casa. Seu ato visa fazer sua família saber que ele está nas mãos da polícia. Provocar esse saber é o artifício do qual o menino lança mão para temperar a mão de ferro que o tortura. “Polícia também tem

10 MILLER, J.-A. Em direção à adolescência. 2015. Disponível em: <http://minascomlacan.com.br/blog/em- direcao-a-adolescencia/>.

11 MILLER. Em direção à adolescência.

12 MILLER. Em direção à adolescência.

13 FREUD, S. Contribuições para uma discussão acerca do suicídio. (1910) In:

brasileira das Obras Completas. v. XI. Rio de Janeiro: Imago, 1980.

Ediçao Standard

medo”. Assim faz da falibilidade do Outro uma forma singular de vencê-lo. Sem nele crer completamente, serve-se de sua vacuidade na formulação de uma saída ao impasse. Sem crer na função do Estado, leva-se em conta suas falhas. Algumas vinhetas aqui relatadas demonstram que vale considerar tratar-se de uma geração que responde aos efeitos de uma época marcada pelo enfraquecimento do nome do pai. A palidez dos semblantes e o vácuo instalado pelas mutações da ordem simbólica, muito precocemente, descobrem no corpo próprio o troumatismo que faz saber da inexistência da relação entre a lei e o fora da lei. Diversas são as formas com que cada um, ali implicado, responde a esse impossível. Uns aí se fixam impregnados, outros mostram seu gingado, um saber fazer com isso.

A intrusão da psicanálise Certo é que, apesar do depauperado pai contemporâneo, não há adolescente sem Outro. Ainda que enfraquecido, não desapareceu - a linguagem está aí e opera. “Essa operaço requer frequentemente um trabalho de elaboraço, uma participaço decidida da parte dos adultos de referência.” 14 Esse encontro pode ser decisivo em direção à saída do túnel e muitos jovens, em seus relatos, marcam um antes e um depois de seu encontro com oficineiros, orientadores sociais, agentes comunitários, acompanhantes, arte-educadores, rappers, grafiteiros e mesmo com instituições. Mesmo nos dias pálidos de pai, a função e responsabilidade do adulto participa da montagem de artifícios conectores. Entretanto, hoje, tal operação parece se servir menos da identificação a um modelo que por ali se oferta e mais da marca real de um encontro contingente, entre palavras e corpos, cujo modo de inscrição abre alas para a passagem do que é próprio a cada Um. Laurent ensina que “o modo de inscrição é um furo. A marca real é um furo que faz com que significantes se tornem inesquecíveis para aquele que o recebeu” 15 . Em programas e instituições dos quais a orientação lacaniana participa, recolhemos relatos sobre o que se passa nos encontros entre adolescentes e adultos em

14

COCCOZ,

V.

A

clínica

dos

adolescentes:

entradas

e

saídas

do

túnel.

2009.

Disponível

tunel/>. 15 LAURENT, É. Inconsciente e acontecimento de corpo. Correio, Belo Horizonte, n. 78, p. 33,

mês
mês

2016.

em:

oficinas, atividades criativas e conversas. Ali acontece uma transferência que não opera da mesma forma que aquela que supõe um saber ao Outro. É uma transferência de trabalho que, conforme ensina Lacan, induz que o corpo aí se implique, numa parceria que consente

a uma satisfação singular, quando um saber fazer autêntico aí se revela. 16 Não se trata de

fazer igual ao mestre, mas de fazer passar pelo furo aí inscrito, a substância que faz andar o

fazer de cada um à sua maneira. São encontros onde ao fazer juntam-se as palavras não se faz sem conversar. Uma orientação lacaniana! Por exemplo, em momentos de guerra entre os jovens do tráfico, um adulto chega junto com seu corpo de palavras e muitas vezes “faz andar” o conflito. “Lá onde ia ser a morte, a bala, ele chegou e chamou pra conversar e fez andar", diz um jovem. Ao franquear

a palavra, abre-se ali um intervalo que produz deslocamentos, desviando a pulsão do seu

fim, num circuito ampliado que desenha um enquadre para que o que corria solto possa andar articulado. A intrusão da psicanálise aí, como passageira clandestina do discurso de várias políticas e práticas institucionais com jovens na nossa cidade, joga sua partida:

Se pode ser vantajoso que se acrescente às meninas e meninos ‘a psicanálise’, é porque esta, se apoiando sobre as fontes do discurso, permite desatar as amarras das coerções modernas e lhes fazer signo de que, se eles estão irremediavelmente sós para se confrontar com o real do sexo, eles não são, apesar disso, os únicos a ter que se virar com isso

17

“Nem só de pai vive o homem” 18 A era das redes entre nós Fato é que, se por um lado, o enfraquecimento do pai tem produzido efeitos como

o recrutamento pelo Estado Islâmico ou pelo Tráfico, filiações rígidas a comunidades de

gozo, passagens ao ato, dentre outras soluções que fixam a aliança da identificação com a pulsão, por outro lado novas formas de viver a pulsão por meio de conexões vivas se

manifestam em movimentos como o Ocupa Escola, o Passe Livre, a Marcha das Vadias, o Dia do Orgulho Gay, dentre outros. Lacan, no Seminário 17, disse aos jovens de 1968 que eles estavam querendo um Mestre. Será que os jovens do século XXI também? Não é o que parece! Os movimentos atuais surpreendem-nos ao inventar formas de enodamento inéditas, novos modos de

16 LACAN, J. Ato de Fundação. (1964) In:

17 ROY, D. Proteção da adolescência. Trad. Cristina Drumond. Mental, Quel avenir pou l`adolescence?, Paris,

n. 23, p. 54, dez. 2009.

18 Expressão enunciada pela colega Cristiane Barreto.

Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

respostas e organização que passam por um saber fazer com o gozo, o Outro e o furo que os atravessa. Do ponto de vista do laço social, apontam para um Estado poroso, aberto à diversidade, articulado a um direito plural incompatível com a lógica do pensamento único. Os jovens que aí se engajam, com seu corpo e desejo, confirmam a profecia lacaniana que estava por vir uma geração com uma tolerância social inédita no que diz respeito às pulsões. 19 Uma geração que não se identifica com as soluções prêt-à-porter, universais, mais ainda acolhe respostas diversas cuja amarra não só se faz em função do falo, do pai, do Édipo, da castração etc. Quando não há mais a crença ao pai, o que fazer para viver junto? Os jovens ensinam que podem prescindir do pai, ao se servir de artifícios conectores, a cada vez. Se o pai deixa de ser a estrela-guia, descobre-se a constelação.

Movimentos constelares Movimentos e manifestações políticas com grande presença de jovens, como os Occupy, têm demonstrado, nos últimos anos, inclusive no Brasil, um novo modo de fazer política, para além da lógica partidária, sem identificação a um líder ou a um ideal. Apenas usam seus corpos para ocupar o que entendem como próprio. Menos identificação e mais propriedade e pertencimento, reunindo por meio de chamadas abertas nas redes sociais a presença de uma força horizontal, múltipla e autogestionária. Constelação é um termo que pode nos ajudar a pensar as formas como muitos jovens se enlaçam e se deslocam sem estarem maciçamente identificados. Com Miller podemos dizer que o uso do termo constelação aqui se justifica por ser “um significante paradoxal, porque ele não tem par” 20 . Não há uma relação intrínseca entre esses Uns (S1s) soltos, por princípio, e estão reunidos tal como as insígnias. "A questão da insígnia torna-se então aquela do significante Um, que contradiz a definição do significante. Eis um

19 MILLER, J.-A. Lacan et la politique. (2003-2004) Disponível em: <https://www.cairn.info/revue-cites-

2003-4-page-105.htm>.

20 MILLER, J.-A. Ce qui fait insigne. (1986-1987) Disponível em: <http://jonathanleroy.be/wp-

significante que não é como os outros, pois exige que a gente o pegue como um Um-todo- só." 21

Miller sublinha que Lacan visava com o termo constelação dar a ver a lógica de um outro modo de agrupamento significante que não segue uma lógica universal, que não se articula como uma cadeia. A reunião arbitrária desses Uns se faz segundo uma lógica não toda, numa adesão contingente em redes de amarras variáveis e de curta duração. Simplesmente, Occupy! Participa desse fato contemporâneo que “o saber do jovem está no bolso” 22 e passa pelo objeto que o conecta às redes constelares sociais, colaborativas, discursivas. Essa geração de uns-sozinhos, não todos evidentemente, parece saber que a solução para a inexistência da relação sexual não está no Outro cada Um que se ocupe da sua causa sem par, o que leva o analista lacaniano, como parceiro nessa travessia, a se orientar pelo que ensina a clínica do falasser, sustentando uma política orientada ao singular do sinthoma.

Para concluir “É preciso, em primeiro lugar, renunciar à ilusão de um sentido único da historia em direção a secularização.” 23 A pluralização está no horizonte: várias adolescências, várias entradas e saídas, vários objetos, vários nomes do pai, vários artifícios conectores. Se, no início do relatório, apresentamos duas vinhetas em que o encontro traumático com a falha do pai produziu como efeito a impregnação do Um do gozo no corpo, num curto-circuito, eis aqui uma outra história:

Ele tinha 11 anos e estava de férias com o pai quando este, embaraçado, lhe comunica que, por instrução de seu advogado, fez o exame de DNA que revelou que ele não era seu filho. O corpo se agita, se revolta: “O que eu espero é que me peça desculpas. Desculpas por dizer que eu não sou seu filho.” Ele não abre mão da incerteza como um agente da ficção. Ocupa seu lugar de filho do pai e daí não arreda o pé. Um occupy. O Nome do pai parece ser para ele da ordem da propriedade, do seu usufruto. Ele parece saber que o que faz um pai não é o DNA, um pai é um semblante, um artifício contingente

21 MILLER. Ce qui fait insigne, p. 101.

22 MILLER, J.-A. Em direção à adolescência. 2015. Disponível em: <http://minascomlacan.com.br/blog/em- direcao-a-adolescencia/>.

23 LAURENT, É. Das crises identitárias aos triunfos das religiões. Curinga, Belo Horizonte, n. 41, p. 105,

mês
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2015.

a cada um, um clips que segura as ficções sutilmente tecidas a partir dos furos desse encontro. Para muitos adolescentes, foi ao topar com o irredutível, que passa pela fragilidade de um pai, que a saída do túnel se esclareceu.

Peças soltas, que resistem Pichadores lotam a praça numa manifestação pelos seus direitos. O que eles querem? Garantir que o crime de pichar tenha uma pena proporcional ao que fazem, nos termos da lei. Eles pedem ao Estado que siga a lei, para que possam transgredi-la. Enquanto isso, do outro lado do mundo, pichadores brasileiros foram convidados

para um workshop em Berlim. Encontram-se diante dos tapumes em frente a uma Igreja, ali colocados para sua apresentação. Suas tintas subiram os tapumes e foram mais longe, escalando as paredes seculares, até bailarem com os sinos. A polícia os prendeu e quase foram deportados, não fossem os organizadores traduzir o que ali acontecia: pichar é assim! Estavam ali pra isso e confirmam, com Lacan, que “o que se produz como perversão reflete, no nível do sujeito lógico, o protesto contra o que o sujeito padece no nível da identificação.” 24 Convidados a responder publicamente pela arte que fizeram através de entrevista coletiva, sem tapumes e igrejas, só tinham palavras, afinal. Não sei o que disseram. Talvez entoaram um rap, fazendo da rima um revestimento do insulto devido à contingência ressonante na caixa acústica dos corpos de um por um. Afinal, são jovens e, mais do que

nunca, eles sabem que a resposta não virá da lei, do pai

Cabe ao falante

do corpo lançar-se à ginga da vida e esta não será sem “os acasos que nos fazem ir a torto e a direito”.

não há garantias

24 LACAN, J. O Seminário, livro VI: O desejo e sua interpretação. (1958-1959) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2016. p. 569.