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Apesar da perseverança

com a qual Sigmund Freud


se dedica a provar a
A INVENÇÃO
existência da sexualidade
infantil, mesmo no interior
da comunidade psicanalíti-
ca, a infância não foi paci-
DA CRIANÇA
ficamente conceitualizada.
A relutância de toda uma
sociedade em aceitar a
DA PSICANÁLISE:
revelação da precocidade
do ser humano traduziu-se,
entre os psicanalistas, em
embates cuja representação
DE SIGMUND
mais concreta foi a das
controvérsias ocorridas em
1926-27 entre Anna Freud e FREUD A
Melanie Klein. Foi esta
última que defendeu a pre-
cocidade extrema do Com-
plexo de Édipo, abrindo
MELANIE KLEIN
assim espaço para uma
visão estrutural da infância.
Psicanálise; Infância;
Melanie Klein
D lana M y r i a m L i c h t e n s t e i n L>orso
THE INVENTION OF THE
PSYCHOANALYSIS CHILD
OF: FROM SIGMUND FREUD
TO MELANIE KLEIN

Despite the patience C^uidado, crianças podem ser muito perigosas.


devoted by Sigmund Freud Só vendo para creer que seres de menos de um metro,
to prove the existence of sem nenhum tipo de poder paranormal, possam ser con-
childhood sexuality, even
in the heart of the psycho- sideradas capazes de encarnar o demônio e a mais per-
analytic groups, the concept versa das perdições. No entanto a fantasia e sua gêmea
of childhood has been not vistosa, a ficção, não cessam de assim qualificá-la. O cine-
unmistakably established. ma é o palco preferido de repetidas versões de crianças
The relutance of a hole
assassinas, sádicas ou perversas, estejam elas possuídas
society to accept the unveil-
ing of such a precocity in ou não, vide O exorcista, Poltergeist, Anjos malvados e
the human being brought outros. É a aparente paradoxa entre a inocência infantil e
up, among psychoanalists, a perversão adulta que produz o aspecto particularmente
conflicts which the most
chamativo da maldade infantil. Porém não só o mal mas
representative case has
been the controversies também o sexo na infância foi fonte de muita controvér-
betwen Anna Freud and sia. Embora o mal e o sexo sejam o que o humano tem
Melanie Klein. It was the de mais enigmático resistimos o quanto podemos a ver as
latter, defendig the extreme crianças envolvidas nisso.
precocity of the Oedipus
Complex, who gave room, Não é à toa que a afirmação mais provocante de
to a structural view of Sigmund Freud não foi, ao ver do próprio, que se possa
childhood. adoecer de desejos inconfessáveis, constatação a que foi
Psychoanalists;
Childhood; Melanie Klein • Psicanalista, Membro da Associação Psicanalítica
de Porto Alegre
levado pela clínica e pela análise de seus sonhos, mas sim a
descoberta da sexualidade infantil. Uma descoberta muito diferente
de um continente nunca antes aportado. Seria algo como descobrir
o Big Ben em Londres e afirmar a sua existência a milhares de
incrédulos ingleses. Digo isto porque todo ser humano já foi crian-
ça um dia, queira lembrar ou não.
A infância faz sua entrada na elaboração psicanalítica através
do relato das histórias de sedução das histéricas: a maior parte
destas afirmava ter sido desejada sexualmente pelo pai, ou susbsti-
tuto, que teria manuseado seu corpo de alguma forma que suge-
risse essa atração anormal.
Foi assim que a teoria psicanalítica em seus primórdios foi
jogada na máquina do tempo. Ali onde pensava se estar as voltas
com magnitudes de energia represadas, liberadas via sintoma, e t c ,
irrompe o relato, a história, a versão. Explicando melhor: num
primeiro momento, a compreensão do doutor Freud para os fisio-
lógicamente inexplicáveis fenômenos da histeria não foi muito
diferente da dos antigos que os atribuíam à fúria uterina da fêmea
insatisfeita. Os primeiros casos de Freud, encontravam na abstinên-
cia sexual uma lógica explicação para a possessão de uma parte do
corpo por algo que não encontrava outra expressão.
Partindo da admissão de uma fonte erótica para a histeria, o
que é já em si interessante, pois reconectava as descobertas de
Charcot com séculos de história da medicina, Freud foi mais longe,
ao admitir, logo a seguir, que se tratava de um discurso inscrito no
corpo.Tratava-se de um desejo recalcado cuja insatisfação encon-
trava saída no sintoma histérico. Porém, mais um passo ainda
esperava, o de inserir este desejo recalcado na história da paciente.
Os relatos que o psicanalista escuta confirmam o que a viagem
interior de Freud indicava, a histérica sofre de reminiscências, é do
passado que provém as histórias que dão lógica ao evento. Porém
há o detalhe que faltava: estas reminiscências não são de algo que
ela viveu, mas de algo que ela desejou ter vivido.
O caso prínceps para compreender este mecanismo não está
nos Estudos sobre a histeria, encontra-se relatado no Projeto para
uma psicologia científica de 1895. Trata-se da mesma jovem que
anos depois tem um sonho seu celebrizado com o apelido de
"Sonho de Irma", ela queixa-se de que não pode entrar em lojas
sozinha. Esta dificuldade aparentemente resulta de que aos oito
anos teria sido assediada por um homem em uma confeitaria. O
problema é que, pouco tempo depois, ela retorna a esta loja, como
em busca de novas carícias e é nesta volta que reside a lembrança
patógena, no fato da menina, ao ir de encontro a essa situação que
se supunha que ela só tinha motivos para evitar, ter engajado um
desejo na sedução (Freud, 1990)
Portanto, a descoberta da importância da infância decorre da
existência não só de uma sexualidade infantil, mas de um sujeito
sexualmente desejante na infância. Assim, a psicanálise passa a se
conectar com a história do sujeito, de um sujeito introduzindo-o nos preceitos
um ser que desde muito cedo escreve morais desejáveis. Notórios moralistas
suas páginas com seus desejos, do calibre de Rousseau, dedicaram mui-
proibidos e realizados, admitidos e tas páginas ao cuidado necessário para
recalcados. A infância recebe em seus formar homens de boa cepa! Desde a
braços tudo aquilo de que se lhe con- revolução francesa, acredita-se que ber-
siderava ainda imune, acrescido do pro- ço não é destino, e investe-se na edu-
blema de que estas vivências são com- cação como fonte de riqueza e liber-
preendidas como formadoras, consti- dade de escolha.
tuintes. Isto obviamente faz da infância Certamente Freud não descobriu a
objeto de atenções teóricas e preocu- infância, ele apenas a "complicou", des-
pações pedagógicas. vendando o caráter interno deste pro-
Em 1905, num texto denominado cesso, fazendo da moral a herdeira do
Três Ensaios para uma Teoria Sexual, amor dos pais (constituição do super-
Freud descreve as modalidades do de- ego), colocando os desejos parentais no
senvolvimento da sexualidade infantil. lugar de molde do ideal, a fôrma com a
A criança sai deste texto transformada qual o sujeito se mede, e fazendo de
em "perverso-polimorfa", tendo sido tudo isto um imprevisível processo in-
desvendado o mapa do percurso pul- consciente sujeito a suscitar a neurose e
sional. Cria-se aqui um corpo ao qual outros sofrimentos.
embora não lhe seja negada uma certa Freud arrancou a ilusão de obje-
pertença à natureza, o faz de forma in- tividade da ainda jovem crença na pos-
trínsecamente pervertida, ou seja, busca sibilidade de fazer um homem novo,
algo que nada tem a ver com necessida- filho da liberdade com o saber. Não se
des ou funções vitais. Um corpo susce- deduza disto que não vejo em Freud o
tível de descaminhos, enfim, um corpo sonho iluminista: ele acreditava que da
pulsional. liberdade de discurso da criança, da di-
Ao retroagir à infância a origem da minuição do jugo que mantinha a se-
sintomatologia, Freud faz da história in- xualidade sob um véu de hipocrisia,
dividual de cada sujeito a responsável adviria um homem melhor. Freud acre-
pelo seu vir a ser. É importante ter bem ditava no poder liberador das palavras
claro que até o aparecimento da teoria que curam. O problema é que justa-
freudiana, buscava-se na história genéti- mente por sua visão complexa da subje-
ca do sujeito a origem de determinada tividade, da imprevisibilidade dos efei-
doença psíquica. Buscava-se na história, tos das vivências, Freud baniu qualquer
mas no sentido de sua história biológi- sonho de objetividade possível na cons-
ca, genética, a explicação para os males. trução educativa de um novo homem. A
Sabe-se já ao ler o Freud do início partir daí, não temos mais nenhuma
do século, que o mapa de uma subje- receita para gerar o homem liberto e
tividade é traçado na infância e, diferen- inteligente do sonho iluminista.
te dos desígnios unívocos de um mapa Se tivéssemos que nos contentar
astral, o nosso é construído aos poucos, somente com a existência da criança
passa por periódicas mudanças de perversa polimorfa dos Três Ensaios, vá
traçado, e se confunde com a gênese da lá. Mas não contente com as tramóias
nossa imagem corporal. complexas e imprevisíveis do desenvol-
Qual a novidade? Pode-se argu- vimento de um indivíduo, Freud gol-
mentar que os educadores já há duzen- peia o próprio eixo de nosso funciona-
tos anos sabiam que era preciso formar mento. Agarrados à lógica compreensí-
vel d o princípio d o prazer, ainda n o s considerava q u e "a vida instintiva da
mantinhamos mais p r ó x i m o s de algo criança persiste e m alguns adultos (pre-
mais natural: o q u e n o s guia seria uma c i s a m e n t e os n e u r ó t i c o s ) de maneira
forma c o m p l e x a de b e m estar. Porém, positiva e inconfundível" (Abraham,
mais uma vez, a o elaborar a q u e s t ã o da 1973, P 1 5 ) . Partindo-se desta linhagem
repetição, finalmente consolidada no cronológica direta dos sintomas, que
c o n c e i t o de pulsão de morte, Freud p ô s p e r m a n e c e r i a m c o m o restos de infância
limites ainda maiores na objetividade sobreviventes nos adultos, a análise
q u e a própria psicanálise almejava. Se poderia readministrar os p r o b l e m a s ger-
ainda p o d í a m o s depositar otimistas es- ados por faltas ou e x c e s s o s de c o e r ç à o
p e r a n ç a s n o caráter libertador da erradi- na educação de um determinado
c a ç ã o das hipocrisias religiosas e peda- sujeito.
gógicas, agora nada mais garante o ca- É preciso c o m p r e e n d e r que, para
minho para a felicidade, não existe Abraham, o m a p a subjetivo, ou seja o
rumo certo... traçado de nossa história por sobre nos-
Mas, por falar e m morte, p o r q u e sos c o r a ç õ e s e mentes, é determinado
alguém se apegaria àquilo que lhe c o n f o r m e as fases libidinais e direta-
a m e a ç a a existência? Porque n ã o p o d e - mente relacionado com a experiência
m o s dispor da bovina felicidade de ru- de termos sido e d u c a d o s . Assim, é fácil
mar a o matadouro inconscientes de nos- encontrar o p o n t o nodal d o p r o b l e m a e
so destino? Nossa natureza imprevisível corrigir a falha n o desenvolvimento, da
e mórbida, leva-nos a existir b o r d e a n d o qual o sintoma de hoje seria c o m o uma
a possibilidade de n ã o ter sido o u de luz n o painel indicando uma avaria n o
deixar de ser a qualquer m o m e n t o . Re- motor. Desta forma a relação c o m o pas-
m o e m o s s e m cessar nossas tristezas e s a d o é m e n o s dinâmica, assim, ignoran-
cultivamos as feridas da alma c o m apai- d o as lições da pulsão de morte o dis-
x o n a d o zelo. Por isso n ã o entregamos cípulo preserva a utopia d o mestre.
a o psicanalista de b o m grado nossas Anna Freud sonhou mais que
mazelas para q u e ele n o s livre delas. Ao ninguém c o m algum tipo de objetivi-
elaborar a repetição e m 1 9 1 9 , e m "Para dade n o vir a ser de um sujeito, apostou
Além d o Princípio d o Prazer", Freud e m m e c a n i s m o s e na possibilidade da
teorizou q u e só nos livramos de n o s s o s o b s e r v a ç ã o detalhada c o m o forma de
mais ocultos e arraigados sofimentos à investigação do desenvolvimento
c o n d i ç ã o de vivê-los uma última vez, na h u m a n o . Se p o d e m o s dizer q u e seu tra-
transferência, c o m o um casal q u e se b a l h o foi de grande valia para a psi-
separa troca um último beijo de adeus. cologia, p o u c o p ô d e ela c o m ele na
Assim, d e i x a n d o - n o s privados da e v o l u ç ã o da teria psicanalítica. C o m o
objetividade na e d u c a ç ã o e na terapêu- p e d a g o g a q u e era, apostou na reestru-
tica analítica, Freud d e i x o u n o s s o s s o - turação de um sujeito ainda criança
n h o s de c o n s t r u ç ã o de um sujeito m e - através de uma liberação de impulsos
nos sofredor bastante abalados. Mas recalcados e a c o l o c a ç ã o destes s o b a
n ã o faltaram os q u e sonharam a restitui- égide educativa d o ideal da analista.
ç ã o da utopia, a psicanálise c o m crian- E é aqui q u e t a m b é m se inicia a
ças e a e d u c a ç ã o psicanalíticamente ori- obra de Melanie Klein: o b e r ç o de sua
entada foi o b e r ç o dos e s p e r a n ç o s o s . teoria é p r e c i s a m e n t e o s o n h o p e d a g ó -
Karl Abraham, o discípulo dileto gico da educação psicanalíticamente
de Freud, foi um grande representante orientada de seu filho Erich. C o n h e c i d o
desta tendeência. Prova disto é que e m seu texto The development of a
child, apresentado em 1919, mas publi- se atemorizaram mediante o surgimento
cado em 1921, como Fritz (Klein, 1975). de sintomas em seus filhos.
É através do relato dos diálogos Assim como o pai do pequeno
que constituíram essa educação, da cuja análise foi relatada em 1909 por
atenção que dispensava às elucubra- Freud em Análise de uma fobia em um
ções de seu caçula, discutindo com ele menino de cinco anos, Melanie venceu
sobre a origem dos bebês, a existência as incertezas que abatem qualquer pai
de Deus e todas as ramificações de sua ou mãe, mesclando uma tolerância iné-
curiosidade, que Melanie apresenta sua dita aos sintomas de Fritz, com uma
candidatura e torna-se membro da So- crença no poder liberador da enuncia-
ciedade Psicanalítica Húngara. Esta ção das fantasias. Foi nesse processo
história é a da tentativa de assumir a que Hans conseguiu construir um lugar
maternidade e da elaboração do seu para seu pai e Erich para sua mãe e foi
ideal relativo a este filho que, embora assim que o pai de Hans e Melanie con-
fosse o terceiro, era o primeiro que con- seguiram ser pai e mãe.
cernia mais diretamente a ela, pois os Visto desde este ângulo, parece
outros foram criados com a forte pre- que temos aqui algo mais do que um
sença de Libussa, sua mãe. sonho pedagógico formal: encontra-se
The development of a child, encon- representada neste casal a gênese do
tra uma mulher já amadurecida por um que viria a ser a relação dos adultos e
profundo sofrimento neurótico, às vés- crianças no século XX. Vemos aqui a
peras do divórcio, mas já proveniente paternidade e a maternidade oriundas
de uma análise com Ferenczi. Este texto de um sofrido processo cheio de incer-
inaugural para Klein tem, exatamente tezas sobre o resultado e sobre as bases
como acontece no caso do pequeno en que se assentam o saber e a herança.
Hans, um seguimento onde a relação A condição de ser pais extrai aqui sua
com a criança é retomada, são dois vacilante condição de possibilidade de
momentos de uma análise. um saber, no caso a psicanálise.
Em ambos casos, Fritz e Hans, o Pais e mães desempenham seu ofí-
primeiro momento pedagógico tinha o cio sem nenhum tipo de automatismo
mote de uma apresentação do discurso hereditário. A paternidade se instaura
da criança como confirmação das teorias encarando os seus antepassados como
freudianas sobre a sexualidade infantil, uma terra de fertilidade duvidosa, rega-
porém, num segundo momento, já pre- da de neurose, sobre a qual plantar suas
sente o objetivo terapêutico, a criança próprias convicções. Assim as teorias
não era objeto de curiosidade mas sim infantis, teorias confeccionadas pela
de preocupação. Hans sintomatizou criança e utilizadas para compreender o
numa fobia e Fritz começou a apresen- mundo, quer sejam as sexuais, como
tar inibições variadas, revelando-se uma descoberto por Freud, quer sejam as
criança de desenvolvimento lento e limi- hipóteses cognitivas (herdeiras das pri-
tado. Isto teria sido talvez motivo para meiras), como teorizado por Piaget, são
desistir e considerar um equívoco as ini- o instrumento por excelência do vir a
ciativas de educação psicanalíticamente ser da criança.
orientada que foram empreendidas. Po- Observem esta virada fundamental
rém, estes pais psicanalistas, como estu- que é onde vai residir a marca de dife-
diosos e pacientes da psicanálise, pos- rença da psicanálise para a tradição
suíam uma ética pessoal que passava moralista: busca-se na criança um saber.
pela admissão da própria neurose e não Mais do que exercer a autoridade for-
maciora das convicções dos adultos de Melanie Klein e Anna Freud.
sobre a criança, a paternidade passa a Para Anna Freud, a clínica poderia
ser vivida como condição de ignorân- ser "adaptada" aos reveses da infância,
cia, os pais psicanalistas ao invés de mas a condição infantil é por ela con-
incutir procuravam saber junto da cri- siderada uma obstrução mais do que
ança qual sua versão do pai. Melanie uma especificidade. Nesta ótica, o
encarna esta virada como ninguém, sua paciente ideal é o adulto e ela relata,
crença na precocidade das fantasias e por exemplo, como fez "analisáveis, no
da constituição do sujeito faz com que sentido adulto, seus pequenos pacien-
tenhamos desde o começo uma subje- tes" instaurando a praxe de um preparo,
tividade com que dialogar, mais do que um "treinamento", com a criança, que
uma criança a formar. "durará tanto mais, quanto mais dis-
A obra de Melanie chega justa- crepante esteja o estado original da cri-
mente em um momento histórico no ança que acabamos de descrever em
qual o sexo e a morte começavam a ser relação ao paciente adulto ideal" (Anna
encobertos no discurso psicanalítico, a Freud, 1946, P.16 - 17)
marca da repetição sobre o imensurável Aos três requisitos que Anna Freud
desejo e a pulsão de morte perdiam considerava necessários para o desen-
espaço conceituai na medida em que volvimento de uma análise: (a) a cons-
teóricos supostamente ponderados os ciência da doença, (b) a confiança na
atribuíam a excessos senis do mestre. análise e no analista e (c) a decisão in-
A obra de Melanie mais uma vez terior de se analisar; a todos eles a
desmonta o caráter mecânico que a cri- criança respondia negativamente.
ança começava a assumir, fruto da Para a senhorita Freud, a consciên-
paixão pedagógica reinante. Seus textos cia da doença era inexistente nas crian-
são tão estranhos quanto o discurso da ças, a queixa vinha dos pais. A transfe-
criança para os poucos que tem cora- rência, que permitiria a confiança na
gem de ouvi-la. Na verdade, na clínica análise e no analista também impossí-
com crianças temia-se inúmeras coisas vel, pois não julgava possível a neurose
que faziam resistência à prática conven- de transferência na infância visto que "a
cional, desde a inadequação do sujeito velha edição ainda não se esgotou". Por
infantil à técnica, até o desencadeamen- último, a decisão interior de se analisar,
to de impulsos selvagens pela revelação pressupunha a existência de um sujeito
de conteúdos inconscientes em sujeitos de alguma forma constituído, com o su-
ainda não completamente civilizados. ficiente vivido de forma a produzir uma
Convém, no entanto, manter acesa a massa de subjetividade, de inconscien-
questão do que é que realmente consti- te, de fantasias, enfim, um lastro sobre
tuiu a dificuldade no advento desta o qual possa um sujeito fundar a queixa
prática, mantenhamos esta questão até e a transferência. Para supor isso numa
o fim do corrente trabalho... criança, é preciso crer numa constitui-
A clínica psicanalítica com crianças ção precoce, numa presença das figuras
deve suas origens ao pai de Hans e a parentais como constituintes da subje-
Hermine von Hug-Hellmuth, que con- tividade, internalizadas diria Klein,
duziu uma intervenção analítica com desde muito cedo.
seu perturbado sobrinho, inaugurando Com todos os entretantos listados
esta prática. Porém a análise de crianças por Anna Freud, era de se supor que só
tornou-se corrente, diferente do caráter poderia tentar-se algo parecido com
de excessão que tivera até ali, a partir uma análise em crianças da latência em
diante. A análise precoce, antes da incestuoso da análise realizada junto ao
óbvia e visível condição civilizada do papai Freud. Época de poucas papas na
ser humano alfabetizado da latência, língua...
era considerada um perigo, podendo Ao problema da adequação da psi-
inclusive liberar expressões da perigosa canálise à infância, devemos dar uma
sexualidade perversa polimorfa. resposta estrutural, que diz respeito à
Para Melanie o debate rumava por relação da criança com seu inconscien-
outros caminhos, pois, defensora que te: para tanto, precisamos acreditar que
era de uma intervenção mais analítica há uma constituição psíquica muito pre-
que terapêutica, denunciava em Anna coce, o que nos permitiria pensar em
os descaminhos de quem muito se pre- recalque e sintoma na infância. Porém
ocupa com a consciência, quer seja da se os há implica que algo maior do que
doença ou de qualquer outra coisa. o simples medo da autoridade real dos
Klein possuía uma verdadeira fé pais está produzindo efeitos, ou seja,
na importância de buscar a expressão uma criança não faria um complexo sin-
de conteúdos inconscientes e acreditava toma fóbico, ou não constituiria rituais
que a criança estava em melhor posição obsessivos, se para obter o amor dos
que os adultos para encontrá-los. "Po- pais ou testar o poderio paterno bas-
demos estabelecer um contato mais rá- tasse fazer uma demanda direta. A com-
pido e seguro com o inconsciente das plexidade sintomática da infância infor-
crianças" (Klein, 1975, P. 141), escreve ma de uma complexidade subjetiva,
ela em 1927, por ocasião dos embates precisamos, portanto, pensar as figuras
com Anna, e acrescenta "as crianças parentais como uma construção interna
não são fundamentalmente distintas dos do sujeito desde muito cedo, desde
adultos. Só o que ocorre é que nas cri- sempre diria Melanie. Eis aqui a neces-
anças o 'eu' não se desenvolveu ainda sidade de ocuparmo-nos da concepção
plenamente e portanto elas estão muito de constituição do sujeito em Klein.
mais governadas pelo inconsciente". Explicitando minimamente este
Evidentemente que estas con- processo: encontraremos uma boa fonte
dições de acesso ao inconsciente infan- para a suposição de um simbolismo
til, eram para Klein não só uma carta precoce, na aparentemente absurda
branca para a análise de crianças mas hipótese kleiniana de um édipo com-
também um argumento fundamental pleto em seres humanos que ainda con-
para criticar os desvios de sua rival, tam sua idade em meses, cujo vir a ser-
principalmente na acusação mais cor- apoia-se, ancora-se ainda corpo mater-
rente na época de que Anna não tinha no. Na "geografia do corpo materno"
análise pessoal suficiente para ousar como diria Klein.
trafegar pelo inconsciente alheio. Ar- Observamos no texto de Klein, sua
gumentadora inteligente, Melanie espe- concepção da gênese da imagem cor-
ta a adversária dizendo que "a questão poral a partir do corpo da mãe, pois ela
não é se a análise de crianças pode ir a concebe como um resultante do mo-
tão profunda como a dos adultos, mas vimento da libido, regido pelo princípio
se é o caso de faze-lo", indicando que do prazer, que leva à identificação das
Anna apresenta como impossível aquilo partes do próprio corpo com as do
que não quer e não se atreve a fazer. corpo da mãe que proporcionam satis-
Assim sugere a resistência da adver- fação, assim a boca passa a existir sim-
sária, impedida de se colocar em um bolicamente no seio. Através desta que
lugar de analista em função do caráter foi denominada de "identificação prima-
ria" (Petot, 1987, P. 65) o sujeito passa a um grande rio. Eis o amor de um filho
sexualizar as primeiras representações fazendo poesia da mãe e esta, por sua
de si e, assim sendo, o recalque advém vez, tomando suas palavras como
para transformá-las em símbolo. sábios dizeres reveladores de que a re-
A "geografia do corpo materno" é presentação do corpo próprio é uma
uma expressão oriunda de problemas forma de especularização, de ver-se
de orientação espacial de seu filho-pa- nela.
ciente Fritz, que encontraram solução Ao acreditar que é só nas fantasias
através da interpretação de fantasias de incestuosas que se pode encontrar as
"penetrar no corpo da mãe e investigar origens do sujeito, ao remeter estas
seu conteúdo, com as passagens para mesmas a momentos tão remotos da
entrar e sair dele e os processos de vida humana, Melanie torna ternário o
fecundação e nascimento". complexo que origina o ser humano. O
Mas é numa nota de pé de página sujeito origina-se não só na mãe, mas
de seu Análise Infantil, texto de 1923, numa complexa função que articula o
que introduz esta bela expressão justa- corpo materno e sua interdição. É neste
mente numa interessante discussão com último termo, no sofisticado mecanismo
seu analista Karl Abraham, sobre isto que barra a reabsorsào pelo corpo da
nos diz Melanie: "Abraham assinalou mãe, que Melanie supõe encontrar esta
que o interesse em relação a corpo da função terceira que chamaríamos de
mãe é precedido, num estágio muito pai. "Pai" para ela, tomado ao pé da
precoce, pelo interesse em relação ao letra, é um pênis contido no interior do
corpo do próprio sujeito"(Klein, 1975, P corpo da mãe, são os bebês que o geni-
99). tor coloca no ventre desta, são "as figu-
Assim Abraham afirma a existência ras parentais combinadas" ou "imagem
de algo no sujeito anterior à existência unificada dos pais" (Petot, 1987, P. 151),
do/no Outro, algo como o primeiro espécie de monstro formado pelo coito
período narcísico suposto por Freud. dos pais que assombra as fantasias
Melanie não o contesta, mas afirma que infantis. Mas acredito que não é só isso.
se algo é passível de elaboração poste- Em nome do "Pai" ela constitui este sis-
rior, ou seja, merecedor de repressão, e tema que torna inviável a fusão com a
portanto de simbolização, só o é aquilo mãe. Trata-se de algo que embora ela
que diz respeito ao desejo incestuoso. ponha a funcionar, ela pouco nomeia.
Sabemos que é a repressão que dá Portanto, na precoce interdição do
estatuto de existência psíquica às pro- incesto, ou seja, naquilo que ameaça a
duções do sujeito, ou seja, suas fanta- integridade da criança se ela possuir e
sias. Portanto, se há algo anterior à se deixar possuir pela mãe, encon-
repressão, não seria digno de represen- tramos toda a novela edípica.
tação psíquica, sua existência, então, A questão é porque é necessário
não passa de uma suposição teórica, percorrer caminhos tão tortuosos para
visto que o sujeito dela não tem re- admitir a condição ternária do berço do
gistro. sujeito. Uma resposta talvez esteja na
A geografia do corpo materno dificuldade da própria Melanie de
provém da forma como seu filho pa- reconhecer a paternidade de seu mari-
ciente denominava de "limites" as extre- do e do próprio Freud, mas isso são
midades de seu corpo, e de "uma mon- conjecturas, outra explicação talvez
tanha que ele escalava" sua mãe assim esteja no fato de que para o sujeito
como em seu ventre podia encontrar infantil em seus primórdios o "Pai" é

D
exatamente uma modalização do dis- ximas, inclusive seus três filhos.
curso materno. É na mulher que um Seu ponto de vista, que privilegia
homem deve produzir efeitos para que a posição da criança sobre o caráter
advenha a posição paterna! Isto não traumático do vivido, evidenciando a
encontra expressão de clareza até fantasia e relativizando os fatos, elimi-
Lacan, mas de alguma forma, podemos nava a forma "direta e inconfundível"
encontrar já no discurso kleiniano o es- preconizada por Abraham. É o fim da
boço involuntário daquilo que depois simplificação do vivido eqüivalendo ao
seria teorizado como função paterna. marcado, pós Melanie a vida é algo a
No interior da obra kleiniana, a ser mastigado e digerido pela criança.
hipótese da precocidade da constituição Embora tenha tido este mérito de ter
subjetiva advém da constatação da an- revelado a presença muito precoce do
gústia em crianças muito pequenas, crivo da subjetividade infantil, a teoria
observação clínica extremamente acura- kleiniana tinha o demérito de reduzir
da, pois qualquer um que esteja fadado drasticamente a importância dos pais
ao convívio com crianças será rapida- reais e descartar completamente qual-
mente levado a constatar que suas vidi- quer intervenção junto à família. Os
nhas são extremamente complicadas. pais podiam ser, no máximo, bons ana-
Não há outras formas de explicar as listas. Ela se importava tão pouco com o
eólicas que dilaceram o bebê, a força incosciente parental, quanto pouco pô-
dos pavores noturnos, os complicados de admitir em seus filhos-pacientes as
rituais cotidianos, tão meticulosos quan- reverberações de sua própria neurose.
to absurdos, se não pensarmos em É claro que recalcar a importância
alguma sofisticação da nascente subje- da família, privilegiando o delicado
tividade. Foi dessa evidência clínica que equilíbrio do mundo interno, a deixa
adveio a hipótese da angústia a qual, com problemas para a explicação da
para Klein, de acordo com a segunda origem das particularidades do sujeito,
teoria da angústia em Freud, não se acabando por se render à hipótese
trata apenas de acúmulo de energia quantitativa que tanto incomodou seus
represada e é desde sempre, associado predecessores. Anna Freud se encren-
ao complexo de édipo cou com a complicada medida da edu-
A transferência na infância torna- cação, na busca da "X" quantidade de
se possível para Melanie porque para repressão que produziria uma "Y" quan-
ela os pais são figuras introjetadas tidade de neurose. No outro extremo,
desde sempre, não há qualquer outra para Klein faria parte da gênese do so-
relação possível com a criança que não frimento neurótico uma quantidade de
seja transferenciai, a própria relação angústia persecutória ou depressiva"
com os pais reais é transferenciai. Neste maior do que o normal. Deixando o
sentido, a análise de uma criança não sujeito livrado apenas a seus processos
difere muito de outros cenários de sua internos, termina por se buscar algum
vida. Todo seu cotidiano visará modular tipo de essência individual, ou melhor,
sua relação com as fantasias que consti- de predestinação restrita a etéreas
tuiriam sua verdadeira essência. Nada quantidades de energia, tão compreen-
surpreendente então, que ela tenha re- síveis quanto as correntes de ar e seus
comendado a análise de todas as cri- resultados metereológicos. Tudo isso de
anças como uma forma de otimizar o uma maneira caricatural, deixando-se
trabalho educativo. Bem como empre- levar pelo raciocínio da teoria, pois a
endido a análise de muitas crianças pró- analista Melanie, em seus relatos, é mais
atenta aos pais. Na repetição conceitualizada neste tex-
Mas por falar em recalque do pai, to, encontramos a insensatez dos sin-
podemos dizer que embora Melanie tomas elevada a sua máxima potência.
tenha sido contemporânea de Freud, Podemos nos atrever a afirmar que
para ela ele já estava morto. Podemos esta leitura tenha sido uma das origens
com certeza dizer que para Klein, Freud da extrema tolerância clínica de Mela-
embora vivo ainda, era já um texto. nie, que pôde, por exemplo, emprender
Podemos situar uma extrema preocu- um trabalho com crianças extrema-
pação em assegurar-se a filiação freudi- mente desestruturadas, ou não estrutu-
ana, intensamente presente, por exem- radas, melhor dizendo, sem medo do
plo, nas controvérsias com Anna Freud, circuito que as tornava tão apegadas à
em 1927, onde debatia-se qual das duas sua própria anulação subjetiva. Ao to-
era verdadeiramente merecedora do mar pequenos autistas e psicóticos aos
espólio freudiano, qual forma de con- seus cuidados e suportar suas inexistên-
ceber a psicanálise de crianças continha cias existenciais ela conheceu o ser hu-
a essência da teoria do fundador e qual mano em suas bordas e pôde elaborar
a corrompia e a abandonava. uma teoria do vir a ser psíquico que só
Melanie começa a clinicar mais de encontrou seqüência e conseqüência
10 anos antes da morte de Freud, mas a nas teorias de Lacan sobre a constitu-
história não registra nenhum encontro ição do sujeito. Diga-se de passagem,
pessoal de ambos, nenhum diálogo, que também Lacan graças à sua extensa
apenas um pálido comentário, em car- trajetória psiquiátrica que o levou para
tas de Freud, sobre o debate em que junto da psicose em suas mais dramáti-
sua filha se degladiava com Klein, pres- cas formas, também conheceu com
tando, obviamente, um reservado apoio quantos paus se faz uma canoa, de que
a sua filha. Porém esta seguidora de seu consistência depende um ser humano
escritos, analisada por dois de seus dis- para tornar-se tal.
cípulos mais diretos e diletos, Karl Para finalizar, uma última nota, das
Abraham e Sandor Ferenczi, na con- tantas que poderíamos tomar no rodapé
dição de neta do fundador, soube lidar dos textos kleinianos.
com o seu texto de forma a tomar "Para Atenção:, a teoria kleiniana deve
Além do Princípio do Prazer" como algo ser lida desde o ponto de vista do sujei-
a mais do que a simples presença do to em constituição, a ótica é a dos olhos
câncer em Freud. da criança. As fantasias, processos e
Pouco preocupada com a iminên- elaborações da sua teoria não contem-
cia da morte daquele que para ela plam o ballet, a coreografia da família, a
nunca foi um personagem encarnado, saber, a função paterna e materna, o lu-
Melanie pôde trabalhar com o sujeito gar da criança de objeto do desejo dos
nos limites da existência como até en- pais, os diferentes registros, feminino e
tão ninguém o havia feito. O texto freu- masculino dos pais, não busque esses
diano de 1919 nos confronta com a pontos de vista nos textos de Klein.
beira do precipício, ali ficamos sabendo O que se pode procurar e achar
que ser ou não ser é uma questão sem- no texto kleiniano é um trabalho de
pre recolocada pela vida, que estamos arrolamento de fantasias fundantes da
sempre remetidos a um lugar onde nos- subjetividade humana. Embora saiba-
so ser, ou aquilo que compreendemos mos o quanto estas fantasias registradas
como tal, o querido ego de Anna Freud, tenham tido sua coloração fortemente
encontra permanentemente seus limites. marcada pelas tintas do imaginário da
própria Melanie, temos que tomar seu REFERÊNCIAS
trabalho desde o ponto de vista da es- BIBLIOGRÁFICAS
trutura de sujeito dedutível desta des-
crição. Aqui vemos uma criança na ABRAHAM, Karl. (1973). Contribuiciones a la
antítese da posição passiva frente à Teoria de la libido. La Primer a Etapa Pre-
educação a que havia sido relegada genital de la Libido. Buenos Aires. Edicio-
pelas teorias de Anna Freud, para quem nes Hormé. [1916].
a contribuição da criança na etiologia FREUD, Anna. (1946). Psicoanalisis dei nino.
Buenos Aires. Ediciones Imán.
dos seus sintomas não transcende da
FREUD, S. ( 1990a.). Projeto de uma Psicologia
força de seus impulsos. Para Anna o
Científica. In: Obras psicológicas comple-
"ponto de vista" da criança, o estrita-
tas. Rio de Janeiro, Imago, v.l [19851.
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co, no sentido freudiano do termo. ria da sexualidade. In: Obras psicológicas
Acontribuição infantil seria acima de tu- completas. Rio de Janeiro, Imago, v. 7
do libidinal. Melanie Klein, por sua vez, [19051.
arrola a produção da criança, docu- FREUD, S. (1990 c). Análise de uma fobia em
menta seu processo, ressalta seu ponto um menino de cinco anos. In: Obras Com-
de vista. Outros antes haviam dado voz pletas. Rio de Janeiro, Imago, V. [19091.
à criança propriamente dita, mas foi aci- FREUD, S. (1990 d). Além do Princípio do
Prazer. In: Obras psicológicas completas.
ma de tudo Klein que acreditou nas
Rio de Janeiro, Imago, v. 18 [1920].
suas associações. •
PETOT, Jean-Michel. (1987). Melanie Klein -
Primeiras descobertas e primeiro sistema
1919-1932. São Paulo. Editora Perspec-
tiva.
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In: Obras completas. Buenos Aires, Paidos-
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[1921].
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KLEIN, M. (1975 c). Simposium sobre analisis
infantil. In: Obras Completas. Buenos Ai-
res, Paidos-Hormé, v. Contribuciones Al
Psicoanalisis. [1927].