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LÓGICA ELEMENTAR — DESIDÉRIO MURCHO

2. Lógica formal

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

1. Forma lógica

Considere-se os seguintes argumentos:

Se Deus existisse, não haveria injustiças.

Mas há injustiças.

Logo, Deus não existe.

Se Kant fosse italiano, não seria alemão.

Mas ele era alemão.

Logo, não era italiano.

O primeiro é acerca de Deus e da injustiça; o segundo, da nacionalidade de Kant. Apesar


das diferenças no que respeita ao tema, ambos têm a mesma estrutura:

Se p, então não-q.

q.

Logo, não-p.

É a esta estrutura que se chama forma lógica e o que ela tem de especial é isto: qualquer
argumento que tenha esta forma lógica é dedutivamente válido. A lógica formal estuda
estas formas argumentativas, que garantem que todos os argumentos com essas
configurações são válidos, distinguindo-as daquelas outras que não oferecem tal garantia.

2. Cinco operadores

Começaremos por estudar a lógica proposicional clássica. Nesta lógica, estudamos as


formas lógicas daqueles argumentos cuja validade depende exclusivamente de cinco
operadores proposicionais:

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Operador Exemplo Forma lógica

Negação O mal não é ilusório. Não-p ¬p

A epistemologia e a metafísica são disciplinas


Conjunção peq p∧q
filosóficas.

A arte é expressão ou clarificação de


Disjunção p ou q p∨q
emoções.

Condicional Se a morte é o fim, então a vida é absurda. Se p, então q p➝q

Os animais têm direitos se e só se sentem


Bicondicional p se e só se q p q
dor.

Aos símbolos usados para cada um dos cinco operadores chamamos constantes lógicas.
Às letras “p”, “q”, “r”, etc., chamamos variáveis proposicionais; representam qualquer
proposição que não contenha qualquer um destes operadores. Assim, “p” tanto representa
a proposição expressa pela frase “Sócrates era grego”, como a expressa pela frase “Paris
é a capital da França”. Contudo, não representa a proposição expressa pela frase “Adriano
não foi um imperador romano particularmente sábio”, que é representada por “¬p”.

Chamamos “conjunta” a cada uma das proposições de uma conjunção, e disjuntas


a cada uma das proposições de uma disjunção. Numa condicional como “p ➝ q”, “p” é a
antecedente e “q” a consequente. À bicondicional chama-se também equivalência.
A função destes operadores é transformar, ou manter inalterado, o valor de verdade
das proposições a que se aplicam. A negação, por exemplo, transforma qualquer
proposição verdadeira numa proposição falsa, e qualquer proposição falsa numa
proposição verdadeira. É isto mesmo que representamos na seguinte tabela de verdade,
usando “V” e “F” para representar os valores de verdade:

p ¬p

V F

F V

Esta tabela diz-nos o seguinte: tome-se uma proposição qualquer, não importa qual, aqui
representada por “p”. Se “p” for verdadeira, “¬p” será falsa; e se “p” for falsa, “¬p” será
verdadeira.

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Neste caso, porque a negação é unária (aplica-se a uma só proposição), temos


apenas duas circunstâncias: a proposição sem o operador é verdadeira ou falsa. No caso
dos outros quatro operadores temos quatro circunstâncias porque são binários (aplicam-se
a pares de proposições):

pq p∧q p∨q p➝q p q

VV V V V V

VF F V F F

FV F V V F

FF F F V V

Esta tabela diz-nos o seguinte:

• Uma conjunção só será verdadeira caso ambas as conjuntas sejam verdadeiras;

• Uma disjunção só será falsa caso ambas as disjuntas sejam falsas;

• Uma condicional só será falsa caso a antecedente seja verdadeira e a consequente

falsa;

• Uma bicondicional só será verdadeira caso ambas as proposições componentes

tenham o mesmo valor de verdade.

Uma proposição elementar não contém qualquer um destes cinco operadores; uma
proposição composta, todavia, contém um ou mais operadores. Quando uma proposição
composta tem mais de um operador, só um deles pode ser o principal. Por exemplo, nas
proposições da forma “p ∧ (q ∨ r)”, o operador principal é a conjunção. Em contraste, nas
proposições da forma “(p ∧ q) ∨ r”, é a disjunção o operador principal. Para indicar o
operador principal usamos parêntesis, como na aritmética: “5 + (2 – 1)” é uma soma, mas
“(5 + 2) – 1” é uma subtracção. Quando temos de usar mais de um par de parêntesis
encaixados, usamos parêntesis diferentes porque fica visualmente mais fácil ver qual é o
operador principal. Por exemplo, as proposições da forma “[(p ➝ q) ∧ p] ➝ q” são
condicionais cujas antecedentes são conjunções, que por sua vez têm uma condicional
como uma das suas conjuntas.

Quando preenchemos uma tabela de verdade, o último operador a preencher é o


principal (a cinzento indicamos o que não é principal):

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pq p ∧ (q ∨ p)

VV V V

VF V V

FV F V

FF F F

Neste caso, preenchemos primeiro os valores da disjunção, preenchendo depois os valores


da conjunção. Assim, debaixo de “q ∨ p” preenchemos os valores de verdade que resultam
das condições de verdade da disjunção: esta só é falsa caso ambas as conjuntas sejam
falsas. Resta-nos agora preencher os valores de verdade do operador principal, a
conjunção, que agora opera sobre os valores de verdade já obtidos. Assim, na primeira fila
temos “V” porque a conjunção é verdadeira quando ambas as proposições componentes
são verdadeiras, sendo na terceira fila “F” precisamente porque uma das proposições
componentes é falsa. E assim por diante. As condições de verdade das proposições da
forma “p ∧ (q ∨ p)” resultam assim das condições de verdade das proposições das formas
“p” e “q ∨ p”, juntamente com as condições de verdade da conjunção.

Não devemos confundir proposições com formas proposicionais. Uma proposição é


o que uma frase como “Sócrates e Platão eram gregos” exprime. As proposições são
verdadeiras ou falsas, por definição. Quando uma frase não é verdadeira nem falsa, não
exprime uma proposição. Uma forma proposicional, por sua vez, é algo como “p ∧ q”, que
não é literalmente verdadeira nem falsa. Uma forma proposicional é apenas a
representação da forma lógica de proposições que, essas sim, são verdadeiras ou falsas.
Precisamente porque as formas proposicionais não são verdadeiras nem falsas, é um erro
interpretar a tabela de verdade anterior como se dissesse literalmente que na circunstância
em que “p” e “q” são verdadeiras, “p ∧ (q ∨ p)” é verdadeira. O que a tabela diz é que na
circunstância em que quaisquer proposições da forma “p” e “q” são verdadeiras, qualquer
proposição da forma “p ∧ (q ∨ p)” será também verdadeira. Ou seja, a tabela diz-nos que
na circunstância em que são verdadeiras as proposições expressas pelas frases “Sócrates
era grego” e “Platão era grego”, a proposição expressa pela frase “Sócrates era grego e
Platão era grego ou Sócrates era grego” também é verdadeira — e isto acontece não
apenas com estas duas proposições, mas com quaisquer outras.

Contudo, por uma questão de simplicidade, iremos estipular que “A forma


proposicional “p” é verdadeira (ou falsa)” é uma maneira abreviada de dizer que qualquer
proposição da forma “p” é verdadeira (ou falsa). Deste modo, podemos afirmar então, com
respeito à tabela anterior, que na circunstância em que “p” e “q” são ambas falsas, “p ∧ (q

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∨ p)” também é falsa. Não devemos esquecer, contudo, que esta maneira de falar é uma
estipulação verbal; literalmente, é tão impossível que uma forma proposicional seja
verdadeira como é impossível que uma ideia seja verde.

Sempre que temos mais de um operador, temos de saber qual é o principal. Em


alguns casos, isso é óbvio: “Se existe mal no mundo, Deus não existe”, cuja forma é “p ➝
¬q”, é obviamente diferente de “Não é verdadeiro que se existe mal no mundo, Deus não
existe”, cuja forma é “¬(p ➝ q)”. Noutros, contudo, a língua portuguesa é ambígua: “A arte
não é expressão de emoções ou sentimentos” quererá dizer que não é verdadeiro que a
arte seja expressão de emoções ou expressão de sentimentos, cuja forma é “¬(p ∨ q)”, ou
quererá dizer que a arte não é expressão de emoções ou não é expressão de sentimentos,
cuja forma é “¬p ∨ ¬q”? Estas e outras ambiguidades nunca existem na lógica; neste caso,
toda a representação de formas proposicionais tem de ter no máximo um operador
proposicional principal, claramente identificado. Por exemplo, “p ➝ q ∧ r” é uma fórmula
mal formada precisamente porque não especifica, usando parêntesis, qual dos dois é o
operador principal.

Exercícios

1) Explique o que é a forma lógica, dando exemplos esclarecedores.

2) Explique qual é a diferença entre uma forma proposicional e uma proposição.

3) Quais são as condições de verdade da negação, conjunção, disjunção, condicional e


bicondicional?

4) Qual é o valor de verdade das seguintes conjunções? Justifique as suas respostas.

a) Leibniz e Descartes eram franceses.

b) Deus existe e nenhum número é divisível por dois.

c) Há trezentos anos havia menos pessoas e mais doenças mortais.

5) Qual é o valor de verdade das seguintes disjunções? Justifique a sua resposta.

a) Marx escreveu O Capital ou o Manifesto do Partido Comunista.

b) Séneca era alemão ou egípcio.

c) Os cépticos mais radicais estão enganados ou o conhecimento não é possível.

6) Imagine que é verdadeiro que Deus existe, mas falso que a vida tenha sentido. Sob essa
hipótese, qual é o valor de verdade das seguintes condicionais?

a) Se Deus não existe, a vida não tem sentido.

b) Se a vida tem sentido, Deus existe.

c) Se Deus existe, a vida tem sentido.

7) Qual é valor de verdade das seguintes condicionais? Justifique as suas respostas.

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a) Se a água é H2O, o Egipto é um país africano.

b) Se Marx não escreveu O Capital, a igualdade social é irrelevante.

c) Se Platão nunca viveu em Atenas, a água não é H2O.

8) Imagine que é verdadeiro que Deus existe, mas falso que a vida tenha sentido. Sob essa
hipótese, qual é o valor de verdade das seguintes bicondicionais?

a) Deus não existe se e só se a vida não tem sentido.

b) A vida tem sentido se e só se Deus existe.

c) Deus existe se e só se a vida não tem sentido.

9) Qual é valor de verdade das seguintes bicondicionais? Justifique as suas respostas.

a) A água é H2O se e só se o Egipto é um país africano.

b) Marx não escreveu O Capital se e só se Platão não escreveu a República.

c) Platão nunca viveu em Atenas se e só se a água não é H2O.

10) Um operador proposicional binário é comutativo quando a ordem das proposições


componentes não altera o valor de verdade da proposição composta. Recorrendo a tabelas

de verdade, determine quais dos operadores binários são comutativos e quais não o são.

Justifique a sua resposta.

11) A conjunção é associativa porque qualquer proposição da forma “(p ∧ q) ∧ r” tem o mesmo
valor de verdade de qualquer proposição da forma “p ∧ (q ∧ r)”. Recorrendo a tabelas de

verdade, determine quais são os operadores proposicionais binários associativos.

12) Indique qual é o operador principal das formas proposicionais seguintes:

a) ¬(p ∧ q)

b) ¬p ∧ q

c) ¬p ¬q

d) ¬(p ¬q)

e) p (¬q ∧ p)

f) p ∧ ¬(q ∧ p)

g) ¬[p ∧ ¬(q ∧ p)]

13) Represente a forma lógica das proposições expressas a seguir, discutindo as ambiguidades
de âmbito que encontrar:

a) Sartre não era parisiense se e só se Paris era uma cidade alemã.

b) Não é verdade que Sartre não era parisiense se e só se Paris era uma cidade alemã.

c) Não há felicidade nem justiça.

d) Não é verdade que há ou felicidade ou justiça.

e) Não há felicidade ou justiça.

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3. Tabelas de validade

Uma tabela de validade é uma sequência de tabelas de verdade que permite estabelecer a
validade das formas argumentativas. Vejamos um exemplo:

Não há qualquer livre-arbítrio — é só uma ilusão. Porquê? Porque está tudo


determinado.

Este argumento tem uma premissa oculta; por isso, acrescentamo-la ao explicitá-lo:

Se tudo estiver determinado, o livre-arbítrio é uma ilusão.

Ora, tudo está determinado.

Logo, o livre-arbítrio é uma ilusão.

Para representar a forma lógica deste argumento, começamos por estipular o que
representam as nossas variáveis proposicionais:

p: Tudo está determinado.

q: O livre-arbítrio é uma ilusão.

A esta estipulação iremos chamar interpretação. Numa interpretação, atribuímos variáveis


proposicionais a cada uma das proposições elementares que ocorrem no argumento
original. Note-se que às variáveis proposicionais temos de atribuir proposições; é um erro
atribuir-lhes partes de frases, como “se tudo estiver determinado”, ou até frases completas
que não exprimam proposições, como “Haverá divindades?”

Feita a interpretação, representamos então a forma lógica do argumento, usando o


símbolo “∴” como indicador de conclusão:

p ➝ q

∴ q

O penúltimo passo é fazer uma sequência de tabelas de verdade, uma para cada uma das
formas proposicionais das premissas e outra para a da conclusão:

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pq p➝q p q

VV V V V

VF F V F

FV V F V

FF V F F

Resta-nos examinar com atenção a tabela de validade. E o que vemos é que há uma só
circunstância logicamente possível na qual as duas premissas são verdadeiras; ora, nessa
circunstância também a conclusão é verdadeira. Recordando que um argumento é válido
quando é impossível que tenha premissas verdadeiras e conclusão falsa, o nosso exame
da tabela revela que o argumento é válido — precisamente porque não há qualquer
circunstância na qual as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa.

Repare-se que concluímos que o argumento é válido sem nos preocuparmos em


saber se as premissas são realmente verdadeiras. Limitámo-nos a considerar todas as
possibilidades lógicas, e vimos que não há maneira de as premissas serem verdadeiras e a
conclusão falsa. É claro que há maneira de a conclusão ser falsa — nomeadamente,
quando a proposição a que atribuímos a variável “p” é verdadeira, sendo “q” falsa, e
quando as proposições a que atribuímos “p” e “q” são ambas falsas. Contudo, nas duas
únicas circunstâncias logicamente possíveis em que a conclusão é falsa, as duas
premissas não são conjuntamente verdadeiras. Porque concluímos que o argumento é
válido sem ter em consideração se as suas premissas são realmente verdadeiras ou falsas,
provámos muito mais do que a validade daquele argumento: provámos que qualquer
argumento que tenha a mesma forma lógica será também válido.

Assim, as tabelas de validade permitem-nos ver se um dado argumento tem um


tipo específico de validade, a que chamaremos validade formal. Um argumento é
formalmente válido quando todos os argumentos que tiverem a sua forma lógica forem
também válidos.

Literalmente, nenhuma forma argumentativa pode ser válida; só os argumentos em


si são válidos ou não. As formas argumentativas não podem ser válidas porque se limitam
a representar a forma lógica de um número infinito de argumentos. Contudo, por uma
questão de simplicidade verbal, iremos estipular que “A forma argumentativa tal e tal é
válida” é uma maneira abreviada de dizer que há um número infinito de argumentos com
essa forma lógica que são válidos.

Como é evidente, nem todos os argumentos têm uma forma lógica válida. Vejamos
um desses casos:

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Se tudo estiver determinado, o livre-arbítrio é uma ilusão.

Ora, o livre-arbítrio é uma ilusão.

Logo, tudo está determinado.

Usando a mesma interpretação, a sua forma lógica é a seguinte:

p ➝ q

∴ p

Fazendo agora uma tabela de validade, obtemos o seguinte:

pq p➝q q p

VV V V V

VF F F V

FV V V F

FF V F F

Agora vemos que o argumento tem uma forma lógica inválida porque há circunstâncias nas
quais as premissas são ambas verdadeiras e a conclusão é falsa. É irrelevante que haja
também uma circunstância (a primeira) na qual tanto as premissas como a conclusão
sejam verdadeiras; é irrelevante porque para que uma forma argumentativa seja válida não
pode haver qualquer circunstância em que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão
falsa. É um erro dizer que esta forma argumentativa é válida na primeira circunstância e
inválida na terceira, pois a validade não ocorre circunstância a circunstância; a validade é o
que ocorre quando não há qualquer circunstância na qual as premissas sejam todas
verdadeiras e a conclusão falsa.

Em suma, para provar a validade ou a invalidade formais de um argumento fazemos


o seguinte:

1. Explicitamo-lo, acrescentando qualquer premissa que tenha ficado oculta;

2. Estipulamos uma interpretação;

3. Representamos a forma lógica do argumento;

4. Fazemos uma tabela de validade;

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5. Examinamos a tabela e vemos se há alguma circunstância na qual as premissas sejam


verdadeiras e a conclusão falsa. Se houver, o argumento é formalmente inválido; se não

houver, é válido.

Exercícios

1) Recorrendo a tabelas de validade, determine se as formas argumentativas seguintes são

válidas ou não:

a) p ∧ q, ¬p ∴ q

b) p ∨ q, ¬p ∴ q

c) p➝q∴p q

d) p q∴p➝q

e) p➝q∴q∧p

f) p ➝ q ∴ q ➝ p

g) p ➝ q, q ➝ p ∴ ¬p ∨ q

2) Recorrendo a tabelas de validade, determine se os seguintes argumentos são formalmente

válidos ou não:

a) O livre-arbítrio é possível ou a nossa vida é uma ilusão. O livre-arbítrio é impossível.

Logo, a nossa vida é uma ilusão.

b) Deus existe. Logo, a felicidade eterna é possível.

c) Se Sócrates tem razão, a vida por examinar não vale a pena ser vivida. Logo, a vida por

examinar não vale a pena ser vivida.

d) Aristóteles era grego. Aristóteles não era grego. Logo, Deus existe.

e) A justiça é possível se, e só se, Platão tiver razão. Platão não tem razão. Logo, a justiça

não é possível.

4. Tabelas com três variáveis

As tabelas de validade com três variáveis proposicionais têm oito filas em vez de quatro; e
se tiverem quatro variáveis, terão dezasseis; a cada nova variável, duplica o número de
filas. Como se vê, isto torna as tabelas de validade desajeitadas como método para avaliar
formas argumentativas com muitas variáveis. No capítulos seguintes, veremos dois
métodos que não têm esta limitação.

Quando fazemos uma tabela apenas com quatro filas, é fácil não nos enganarmos,
pois é só uma questão de colocar “VV”, “VF”, “FV” e “FF”. Porém, como garantir que não

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nos enganamos ao fazer tabelas com oito ou dezasseis filas? Eis uma maneira. Olhemos
com atenção para a combinatória que já conhecemos:

V V

V F

F V

F F

Vemos aqui um padrão simples: na primeira coluna, lendo na direcção descendente,


encontramos dois “V” e depois dois “F”, e na segunda coluna limitamo-nos a alternar o “V”
com o “F”. Para aumentar esta combinatória para o dobro, limitamo-nos a acrescentar uma
coluna à esquerda com quatro “V” seguidos de quatro “F”; na segunda coluna mantemos o
padrão de valores de verdade que alternam dois a dois, e na terceira coluna valores de
verdade que alternam um a um:

V V V

V V F

V F V

V F F

F V V

F V F

F F V

F F F

Se tivéssemos de acrescentar mais uma coluna, seria só repetir o processo: oito “V”
seguidos de oito “F”, na coluna seguinte os valores iriam alternar quatro a quatro, na outra
dois a dois, e na última um a um.

Vejamos então um exemplo de uma forma argumentativa com três variáveis


proposicionais:

p ∨ q

p ➝ r

q ➝ r

∴ r

A sua tabela de validade é a seguinte:

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p q r p∨q p➝r q➝r r

VVV V V V V

VVF V F F F

VFV V V V V

VFF V F V F

FVV V V V V

FVF V V F F

FFV F V V V

FFF F V V F

Como se vê, só há três circunstâncias nas quais as premissas são verdadeiras: a primeira,
a terceira e a quinta. Uma vez que em todas elas também a conclusão é verdadeira, esta
forma argumentativa é válida.

Por fim, note-se que as tabelas de validade tornam óbvio que a ordem das
premissas de um argumento é irrelevante no que respeita à sua validade.

Exercícios

1) Explique por que razão as tabelas de validade tornam óbvio que a ordem das premissas de
um argumento é irrelevante no que respeita à sua validade.

2) Recorrendo a tabelas de validade, determine se as formas argumentativas seguintes são


válidas ou não:

a) p ➝ q, q ➝ r ∴ p ➝ r

b) p ➝ q, ¬r ∴ r ➝ p

c) p, q r ∴ r ∨ q

d) p q, q r ∴ r ➝ p

e) p, ¬q ∴ r ➝ (p ∧ ¬q)

f) p ➝ (¬q ∨ ¬r), ¬(q ∧ r) ➝ s ∴ p ➝ s

5. Variáveis de fórmula

Considere-se o seguinte argumento:

Se o amor e a arte integram a vida boa, a frivolidade e a superficialidade são os


nossos inimigos. Se são estes os nossos inimigos, devemos resistir-lhes

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corajosamente. Uma vez que o amor e a arte realmente integram a vida boa,
conclui-se que devemos resistir corajosamente à frivolidade e à superficialidade.

Explicitando-o, o argumento é o seguinte:

Se o amor e a arte integram a vida boa, a frivolidade e a superficialidade são os


nossos inimigos.

Se a frivolidade e a superficialidade são os nossos inimigos, devemos resistir-lhes


corajosamente.

O amor e a arte integram a vida boa.

Logo, devemos resistir corajosamente à frivolidade e à superficialidade.

Especificando a interpretação, obtemos o seguinte:

p: O amor integra a vida boa.

q: A arte integra a vida boa.

r: A frivolidade é nossa inimiga.

s: A superficialidade é nossa inimiga.

t: Devemos resistir corajosamente à frivolidade.

u: Devemos resistir corajosamente à superficialidade.

A forma lógica do argumento é então a seguinte:

(p ∧ q) ➝ (r ∧ s)

(r ∧ s) ➝ (t ∧ u)

p ∧ q

∴ t ∧ u

Seria entediante usar uma tabela de validade, pois teria 64 filas. Contudo, se olharmos com
mais atenção, vemos emergir um padrão: “p ∧ q” surge repetido na antecedente da
primeira premissa e na terceira; “r ∧ s” é a consequente da primeira premissa, mas também
a antecedente da segunda; e a forma lógica da conclusão repete a consequente da
segunda premissa. Captamos este padrão usando variáveis de fórmula:

A ➝ B

B ➝ C

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∴ C

As letras “A”, “B”, “C”, etc., são variáveis de fórmula. Ao passo que as variáveis
proposicionais — “p”, “q”, etc. — representam a forma lógica de proposições que não
incluam qualquer operador proposicional, as variáveis de fórmula representam sequências
de variáveis proposicionais, e não proposições directamente. Uma variável de fórmula
representa qualquer sequência de variáveis proposicionais, contenham ou não operadores.
Neste caso, “A” representa “p ∧ q”, “B” representa “r ∧ s”, e “C” representa “t ∧ u”.
Fazendo uma tabela de validade com estas variáveis de fórmula, obtemos o seguinte:

ABC A➝B B➝C A C

VVV V V V V

VVF V F V F

VFV F V V V

VFF F V V F

FVV V V F V

FVF V F F F

FFV V V F V

FFF V V F F

Agora vemos que o argumento original era válido, pois não há qualquer circunstância na
qual as suas premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa.

Eis algumas formas argumentativas válidas bastante comuns:

Modus ponens


A ➝ B


A


∴ B

Modus tollens


A ➝ B


¬B


∴ ¬A

Dilema 


A ∨ B


A ➝ C


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B ➝ C


∴ C

Silogismo disjuntivo


A ∨ B


¬A


∴ B

Silogismo hipotético


A ➝ B


B ➝ C


∴ A ➝ C

Em contraste, as formas argumentativas seguintes não são válidas, e são particularmente


enganadoras porque parecem válidas a quem não sabe lógica:

Falácia da afirmação da consequente


p ➝ q


q


∴ p

Falácia da negação da antecedente


p ➝ q


¬p


∴ ¬q

Exercícios

1) Usando variáveis de fórmula, represente a forma lógica mais geral das seguintes formas

argumentativas:

a) p ➝ (r s), ¬(r s) ∴ ¬p

b) (p ∧ q) ➝ r, ¬r ∴ ¬(p ∧ q)

c) (p ∨ q) ➝ (r ➝ p), p ∨ q ∴ s ∨ (r ➝ p)

2) Identifique a forma lógica dos seguintes argumentos:

a) Se Sartre tiver razão, temos livre-arbítrio. Mas não temos livre-arbítrio. Logo, Sartre não

tem razão.

b) Se temos livre-arbítrio, Sartre tinha razão. Ora, Sartre tinha razão. Logo, temos livre-

arbítrio.

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c) Se os animais não-humanos sentem dor, são dignos de protecção moral. Mas os

animais não-humanos não sentem dor. Logo, não são dignos de protecção moral.

d) Se Deus existe, a vida tem sentido. Ora, Deus existe. Logo, a vida tem sentido.

e) Os cépticos têm razão ou não. Se têm razão, sabe-se algo. Se não têm razão, sabe-se

algo. Logo, em qualquer caso, sabe-se algo.

f) Se Rawls tiver razão, o igualitarismo resulta do cálculo egoísta. Se o igualitarismo

resultar do cálculo egoísta, é imoral. Logo, se Rawls tiver razão, o igualitarismo é imoral.

g) Ou Nozick tem razão, ou Rawls. Mas Nozick não tem razão. Logo, Rawls tem razão.

6. Negação e equivalência

Considere-se a proposição expressa a seguir:

Se a imitação fosse a essência da arte, a pintura abstracta seria uma aberração.

É comum pensar que a sua negação é a seguinte:

Se a imitação não fosse a essência da arte, a pintura abstracta não seria uma
aberração.

Mas isto é um erro. A negação correcta de qualquer proposição é outra proposição que
tem o valor de verdade oposto da primeira, em qualquer circunstância logicamente
possível. Ora, ao fazer duas tabelas de verdade, uma para a forma proposicional “p ➝ q” e
outra para “¬p ➝ ¬q”, vemos que isso não acontece:

pq p➝q ¬p ➝ ¬q

VV V F V F

VF F F V V

FV V V F F

FF V V V V

Se as proposições com estas duas formas fossem a negação uma da outra, teriam valores
de verdade opostos em todas as circunstâncias; mas isso não acontece: na primeira
circunstância, assim como na última, têm ambas o mesmo valor de verdade. Logo, as
proposições que tenham estas formas não são a negação uma da outra.

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O erro resulta em parte da ideia falsa de que negar uma condicional é afirmar outra
condicional; na verdade, negar uma condicional, é afirmar uma conjunção. Quando se nega
mal uma proposição confunde-se a sua negação total e com a parcial. Uma negação
parcial de uma condicional, por exemplo, limita-se a negar a antecedente (“¬A ➝ B”), a
consequente (“A ➝ ¬B”) ou ambas (“¬A ➝ ¬B”), mas sem negar a própria condicional. E o
mesmo acontece quando se nega parcialmente uma disjunção: “¬A ∨ ¬B” não é a negação
total de “A ∨ B” porque não nega a própria disjunção, limitando-se a negar cada uma das
suas disjuntas.

As negações correctas das quatro formas proposicionais da lógica clássica são as


seguintes:

¬(A ➝ B) A ∧ ¬B

¬(A ∧ B) ¬A ∨ ¬B

¬(A ∨ B) ¬A ∧ ¬B

¬(A B) (A ∧ ¬B) ∨ (¬A ∧ B)

Chama-se “leis de De Morgan” às negações da conjunção e da disjunção.

Duas ou mais proposições são equivalentes quando têm o mesmo valor de verdade
em todas as circunstâncias logicamente possíveis. Isto significa que quaisquer pares de
proposições com as formas anteriores são equivalentes, ou seja, qualquer proposição da
forma “¬(A ➝ B)”, por exemplo, é equivalente a “A ∧ ¬B”. Dada uma proposição de uma
forma qualquer, como “A ➝ B” ou “A ∨ B”, há sempre um número infinito de proposições
com outras formas que lhe são equivalentes. Algumas equivalências, contudo, são
particularmente importantes, como as seguintes:

Equivalências elementares

A ¬¬A

(A ∧ B) ¬(A ➝ ¬B)

(A ∨ B) (¬A ➝ B)

(A ➝ B) (¬A ∨ B)

(A ➝ B) (¬B ➝ ¬A)

(A B) [(A ➝ B) ∧ (B ➝ A)]

Estas equivalências mostram que sempre que afirmamos uma conjunção, disjunção,
condicional ou bicondicional, há sempre outra maneira logicamente equivalente de falar.

38
LÓGICA ELEMENTAR — DESIDÉRIO MURCHO

Por sua vez, isto significa que, dado um argumento, há sempre outro equivalente, no
sentido em que podemos transformar o primeiro no segundo usando premissas e
conclusões equivalentes. Vejamos, por exemplo, o modus ponens:

A ➝ B

∴ B

A seguinte forma argumentativa difere apenas na primeira premissa:

¬A ∨ B

∴ B

Porém, uma vez que a primeira premissa desta forma argumentativa é equivalente à
primeira premissa do modus ponens, as duas formas argumentativas são equivalentes.

Fazendo sequências de tabelas de verdade, é fácil ver quando duas ou mais


proposições são equivalentes, ou se negam entre si.

Revisão

1) Recorrendo a tabelas de verdade, determine quais dos seguintes pares de proposições se


negam entre si e quais são equivalentes:

a) A ∨ ¬A, ¬(A ∧ ¬A)

b) A ➝ A, A ∨ ¬A

c) A B, [(A ∧ B) ∨ (¬A ∧ ¬B)]

2) Negue correctamente as proposições expressas a seguir:

a) Paris e Madrid são cidades chinesas.

b) Nem Kant nem Orwell acreditavam nas divindades gregas.

c) Um argumento é válido se e só se for formalmente válido.

d) Se Boécio defendia os universais, não há razão para ser nominalista.

e) Foi Ursula LeGuin ou Gabriel García Márquez quem escreveu O Elogio da Loucura.

7. Contradição e inconsistência

A negação e a equivalência são relações lógicas entre proposições. Um par de proposições


nega-se mutuamente, como vimos, quando têm valores de verdade opostos em todas as

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LÓGICA ELEMENTAR — DESIDÉRIO MURCHO

circunstâncias logicamente possíveis; neste caso, diz-se que essas proposições são
contraditórias. Por sua vez, duas proposições são equivalentes quando têm os mesmos
valores de verdade em todas as circunstâncias logicamente possíveis. Quando duas
proposições têm os mesmos valores de verdade em todas as circunstâncias logicamente
possíveis, dizemos que têm as mesmas condições de verdade.

Uma relação mais fraca do que a contradição é a inconsistência. Quando duas


proposições são inconsistentes, não há qualquer circunstância na qual sejam ambas
verdadeiras; mas poderá haver, ou não, circunstâncias nas quais sejam ambas falsas.
Daqui conclui-se validamente que se duas proposições são contraditórias, são também
inconsistentes; mas há proposições inconsistentes que não são contraditórias. Por
exemplo, quaisquer pares de proposições que tenham as formas “p ∧ q” e “¬p ∧ ¬q” são
inconsistentes, mas não são contraditórias, como podemos ver nas seguintes tabelas de
verdade:

pq p∧q ¬p ∧ ¬q

VV V F F F

VF F F F V

FV F V F F

FF F V V V

Quando duas proposições são consistentes, isso significa apenas que não são
inconsistentes; ou seja, há pelo menos uma circunstância logicamente possível na qual são
ambas verdadeiras. Essa circunstância na qual são ambas verdadeiras nem sempre é a
circunstância em que nos encontramos, e é por isso que não basta que um conjunto de
ideias seja consistente para que sejam verdadeiras. Por exemplo, é consistente defender
que Deus existe, que os cépticos só têm parcialmente razão e que a liberdade é um valor
fundamental — mas isto significa apenas que estas proposições podem ser todas
verdadeiras simultaneamente, e não que todas o são efectivamente. Chama-se por vezes
coerência à consistência.

Exercícios

1) Explique por que razão todas as proposições contraditórias são inconsistentes.

2) Explique por que razão nem todas as proposições inconsistentes são contraditórias.

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LÓGICA ELEMENTAR — DESIDÉRIO MURCHO

8. Implicação e verdade lógica

O conceito de implicação já foi usado, sem o explicitarmos, quando apresentámos o


conceito de validade dedutiva: a relação existente entre a premissa ou premissas de um
argumento dedutivamente válido e a sua conclusão é a implicação. Assim, uma proposição
implica outra quando não há qualquer circunstância na qual a primeira seja verdadeira e a
segunda falsa. Por exemplo, qualquer proposição da forma “p” implica qualquer
proposição da forma “p ∨ q” porque não há qualquer circunstância na qual a primeira seja
verdadeira e a segunda falsa, como podemos ver nas seguintes tabelas de verdade:

pq p p∨q

VV V V

VF V V

FV F V

FF F F

Quando “A” implica “B” isso significa que “A ➝ B” é verdadeira em todas as circunstâncias
logicamente possíveis. É o que ocorre com as proposições da forma “p ➝ (p ∨ q)”, como
se vê:

pq p ➝ (p ∨ q)

VV V V

VF V V

FV V V

FF V F

Eis algumas implicações óbvias:

Implicações elementares

A ➝ (A ∨ B)

A ➝ (B ∨ A)

A ➝ (B ➝ A)

A ➝ (A ∧ A)

(A ∧ B) ➝ A

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LÓGICA ELEMENTAR — DESIDÉRIO MURCHO

(A ∧ B) ➝ B

(A ∧ B) ➝ (A ∨ B)

(A ∧ B) ➝ (B ∨ A)

(A ∧ B) ➝ (B ∧ A)

(A B) ➝ (A ➝ B)

(A B) ➝ (B ➝ A)

Uma verdade lógica é uma proposição verdadeira em todas as circunstâncias logicamente


possíveis, como as proposições das formas anteriores. Também as equivalências da
secção 6 são verdades lógicas. A negação de uma verdade lógica é, evidentemente, uma
falsidade lógica: uma proposição falsa em todas as circunstâncias logicamente possíveis.
Uma proposição é uma contingência lógica quando é verdadeira em algumas
circunstâncias e falsa noutras, ou seja, quando não é uma verdade lógica nem uma
falsidade lógica. Vejamos os seguintes três exemplos:

p p ∨ ¬p p ∧ ¬p p

V V F V

F V F F

Como se vê, qualquer proposição da primeira forma é uma verdade lógica porque é
verdadeira em todas as circunstâncias logicamente possíveis (só há duas, neste caso,
porque só há uma variável de fórmula); é o caso da proposição expressa pela frase
“Espinosa era francês ou não”. Já a proposição expressa pela frase “A neve é e não é feita
de plástico” é uma falsidade lógica porque é falsa em todas as circunstâncias logicamente
possíveis, assim como qualquer outra proposição da mesma forma. Finalmente, algumas
proposições da terceira forma2 são verdadeiras em algumas circunstâncias e falsas
noutras, pelo que são contingências lógicas; é o caso da proposição expressa por “Tolstoi
é o autor de Guerra e Paz”.

Literalmente, “p ∨ ¬p” não é uma verdade lógica; apenas representa a forma lógica
de um número infinito de proposições que são verdades lógicas. Contudo, por uma
questão de simplicidade verbal, iremos estipular que “A forma proposicional “p ∨ ¬p” é
uma verdade lógica” é uma maneira abreviada de dizer que qualquer proposição da forma

2 Mas não todas: “Os homens são homens” e “2 + 2 = 4” têm a forma “p” mas são
verdadeiras em todas as circunstâncias logicamente possíveis.

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LÓGICA ELEMENTAR — DESIDÉRIO MURCHO

“p ∨ ¬p” é uma verdade lógica. Não devemos esquecer, contudo, que esta maneira de falar
é uma estipulação verbal; literalmente, é tão impossível que uma forma proposicional seja
uma verdade lógica como é impossível que um triângulo jogue futebol, para usar a imagem
memorável de Russell. E o mesmo acontece com respeito às falsidades lógicas: a forma
proposicional “p ∧ ¬p” não é literalmente uma falsidade lógica; apenas representa a forma
lógica de um número infinito de proposições que são falsidades lógicas. No que respeita às
formas proposicionais que são contingências lógicas, como “p ➝ q”, o que se quer
literalmente dizer é que algumas proposições com essa forma lógica são verdadeiras em
algumas circunstâncias logicamente possíveis e falsas noutras.

Quando uma forma argumentativa é válida, a sua expressão proposicional é uma


verdade lógica. A expressão proposicional de uma forma argumentativa resulta de se
construir uma condicional cuja antecedente é a conjunção de todas as premissas, sendo a
consequente a conclusão da forma argumentativa original. Assim, a expressão
proposicional do modus ponens, por exemplo, é a forma proposicional “[(A ➝ B) ∧ A] ➝ B”,
que é uma verdade lógica.

Apesar de toda a forma argumentativa válida ter uma expressão proposicional, é um


erro confundir formas argumentativas com formas proposicionais. As formas
argumentativas representam argumentos, que são válidos ou inválidos, mas não são
verdadeiros nem falsos; as formas proposicionais representam proposições, que são
verdadeiras ou falsas, mas não são válidas nem inválidas.3 Assim, confundir formas
argumentativas com formas proposicionais, ou argumentos com proposições, é confundir
validade com verdade.

Qualquer argumento cuja conclusão seja uma verdade lógica é válido; e qualquer
argumento cujas premissas sejam inconsistentes é também válido. A estas validades
chamamos vácuas. O mesmo acontece com as suas expressões proposicionais: qualquer
condicional cuja consequente seja uma verdade lógica é também uma verdade lógica; e
qualquer condicional cuja antecedente seja inconsistente é uma verdade lógica. É fácil
provar a existência de validades vácuas, e de verdades lógicas vácuas, usando tabelas de
verdade; mas basta alguma reflexão para o ver. Por exemplo, se um argumento for inválido,
há pelo menos uma circunstância na qual as premissas são todas verdadeiras e a
conclusão falsa; ora, se a conclusão for uma verdade lógica, não há qualquer circunstância
dessas, pelo que tal argumento não é inválido; e o mesmo acontece caso as suas
premissas sejam inconsistentes.

3 Devido a uma infelicidade terminológica, é comum chamar válidas às verdades lógicas, o


que contribui para uma confusão conceptual indesejável.

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LÓGICA ELEMENTAR — DESIDÉRIO MURCHO

Exercícios

1) Explique por que razão qualquer argumento que tenha premissas inconsistentes é

dedutivamente válido.

2) Recorrendo a tabelas de verdade, determine se as formas proposicionais seguintes são

verdades lógicas, falsidades lógicas ou contingências lógicas:

a) (p q) ➝ p

b) (p ➝ q) ➝ q

c) (p ∧ ¬p) ➝ q

d) p ➝ (q ∨ ¬q)

e) (p ∧ q) ➝ (q ∨ r)

f) (p ∨ r) ➝ p

3) Prove que o número de formas argumentativas válidas captáveis na lógica proposicional

clássica é infinito.

4) Basta que uma proposição da forma “p ➝ q” seja verdadeira para que o argumento da

forma “p ∴ q” seja válido? Porquê?

8. Lógica e filosofia

Considere-se o seguinte texto de Kant:

“Temos o dever de tentar promover o bem supremo (que tem portanto de ser
possível). Assim, a existência de uma causa de toda a natureza, distinta da natureza,
que contenha o fundamento desta conexão, a saber, a correspondência exacta da
felicidade com a moralidade, é também postulada. Contudo, esta causa suprema
há-de conter o fundamento da correspondência da natureza não apenas com uma
lei da vontade de seres racionais, mas também com a representação desta lei, na
medida em que fizerem dela o fundamento supremo e determinante da vontade, e
consequentemente não apenas com a forma da sua moral mas também com a sua
moralidade enquanto seu fundamento determinante, isto é, com a sua disposição
moral. Logo, o bem supremo do mundo só é possível na medida em que se
pressuponha uma causa suprema da natureza que tenha uma causalidade em
harmonia com a disposição moral. Ora, um ser capaz de acções de acordo com a
representação de leis é uma inteligência (um ser racional), e a causalidade de tal ser
de acordo com esta representação de leis é a sua vontade. Logo, a causa suprema
da natureza, na medida em que tem de ser pressuposta para o bem supremo, é um
ser que é a causa da natureza pelo entendimento e vontade (logo, o seu autor), isto

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LÓGICA ELEMENTAR — DESIDÉRIO MURCHO

é, Deus. Consequentemente, o postulado da possibilidade do bem supremo


derivado (o melhor mundo) é igualmente o postulado da realidade de um bem
supremo original, nomeadamente da existência de Deus. Ora, era para nós um
dever promover o bem supremo; logo, há em nós não apenas a justificação mas
também a necessidade, como uma carência conectada ao dever, de pressupor a
possibilidade deste bem supremo que, dado que só é possível sob a condição de
existir Deus, conecta o pressuposto da existência de Deus inseparavelmente com o
dever; isto é, é moralmente necessário pressupor a existência de Deus”. (Kant,
Crítica da Razão Prática, 5:125-126)

Não é fácil extrair deste texto um argumento de contornos suficientemente definidos para
que possamos discuti-lo adequadamente. Contudo, se nem sequer o tentarmos, nada
teremos de relevante para discutir. Assim, a primeira atitude a ter perante um texto destes é
tentar encontrar nele um argumento suficientemente definido para permitir a sua discussão
rigorosa. Eis uma interpretação:

Temos o dever de promover o bem supremo.

Se o bem supremo não fosse possível, não teríamos o dever de o promover.

Se Deus não existisse, o bem supremo não seria possível.

Logo, Deus existe.

Talvez este argumento não corresponda exactamente ao que Kant tinha em mente; mas é
filosoficamente interessante e por isso merece discussão. Ora, ao discutir um argumento
temos sempre dois aspectos principais: a validade do argumento e a verdade das
premissas. Contudo, se o argumento não for válido, é irrelevante discutir a verdade das
premissas (que é muitas vezes bastante mais difícil do que a discussão da validade); isto
porque se o argumento não for válido, a negação da conclusão é compatível com a
aceitação das premissas. Assim, a primeira preocupação da discussão filosófica é a
validade do argumento; sem esta, a discussão da verdade ou plausibilidade das premissas
é disparatada. Acontece que o papel principal da lógica é precisamente esse: dar-nos
instrumentos de rigor que permitam determinar a validade ou invalidade dos argumentos.

Comecemos então por estipular a nossa interpretação:

p: Temos o dever de promover o bem supremo.

q: O bem supremo é possível.

r: Deus existe.

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LÓGICA ELEMENTAR — DESIDÉRIO MURCHO

Dada esta interpretação, a explicitação da sua forma lógica é a seguinte:

¬q ➝ ¬p

¬r ➝ ¬q

∴ r

A seguinte tabela de validade mostra que estamos perante uma forma argumentativa
válida:

p q r p ¬q ➝ ¬p ¬r ➝ ¬q r

VVV V V V V

VVF V V F F

VFV V F V V

VFF V F V F

FVV F V V V

FVF F V F F

FFV F V V V

FFF F V V F

Quem tem uma formação adequada em lógica nem precisa fazer a tabela de validade para
ver que o argumento é válido: a validade é óbvia. Contudo, considere-se o seguinte
argumento:

Temos o dever de promover o bem supremo.

Se não tivéssemos o dever de promovê-lo, o bem supremo não existiria.

Se este não existisse, Deus também não existiria.

Logo, Deus existe.

Quem não sabe lógica talvez não veja grande diferença entre este argumento e o anterior;
contudo, a diferença é abissal: este último tem uma forma lógica inválida, o que significa
que é irrelevante discutir as premissas, pois a verdade destas é compatível com a falsidade
da conclusão. A forma lógica do argumento é a seguinte:

¬p ➝ ¬q

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LÓGICA ELEMENTAR — DESIDÉRIO MURCHO

¬q ➝ ¬r

∴ r

Eis a tabela que mostra a sua invalidade:

p q r p ¬p ➝ ¬q ¬q ➝ ¬r r

VVV V V V V

VVF V V V F

VFV V V F V

VFF V V V F

FVV F F V V

FVF F F V F

FFV F V F V

FFF F V V F

Como se vê, apesar da semelhança superficial com o primeiro argumento, o segundo é


muitíssimo diferente pois não tem uma forma lógica válida, ao contrário do primeiro.

Explicitar a forma lógica de proposições e argumentos é muito mais do que um


mero exercício de lógica: é uma condição fundamental para saber se a tese filosófica é
plausível ou se o argumento é cogente. A aplicação da lógica à linguagem comum é a parte
mais importante da lógica, sendo um instrumento capital para melhorar a cogência dos
nossos argumentos e para avaliar mais rigorosamente os argumentos dos filósofos.
Todavia, essa aplicação não é em si uma actividade susceptível de ser sistematizada pela
própria lógica; tudo o que podemos fazer é usar o nosso conhecimento da lógica, o nosso
conhecimento da linguagem comum e o contexto filosófico das proposições e argumentos,
para tomar decisões judiciosas quanto à forma lógica. Uma vez explicitada a forma lógica
de um argumento ou de uma proposição, temos instrumentos lógicos de completo rigor
para nos dizer se o argumento tem uma forma válida ou não, se a proposição é uma
verdade lógica ou se é consistente com outra proposição; a explicitação da forma lógica
em si, contudo, está em muitos casos aberta a dúvidas, sobretudo em textos mais
confusos, sendo difícil ver qual será realmente a proposição ou o argumento que torna o
pensamento do autor mais interessante filosoficamente.

Apesar de a explicitação da forma lógica não ser uma tarefa mecânica, ao contrário
da construção de uma tabela de verdade, há três princípios orientadores que nos ajudam a
fazer um trabalho melhor.

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LÓGICA ELEMENTAR — DESIDÉRIO MURCHO

Primeiro, a lógica proposicional clássica só devolve resultados relevantes quando


as proposições e argumentos a examinar não dependem de outros elementos lógicos além
dos cinco operadores apresentados. Quando a validade ou invalidade de um argumento
depende da quantificação, da predicação, do uso de nomes próprios, dos advérbios
“necessariamente” ou “possivelmente”, ou de outros factores, não é adequadamente
captada na lógica proposicional clássica. Para captar esses aspectos, precisamos da
lógica quantificada (capítulo 4), assim como da lógica modal (capítulo 6).

Segundo, a lógica clássica, seja apenas a proposicional ou não, não tem recursos
para lidar com a indexicalidade. Esta é uma das razões pelas quais é importante distinguir
as frases das proposições. Considere-se a frase proferida por Epicteto em 134 a.C.:
“Apetece-me agora uma salada de tomate”. Esta mesma frase, proferida por David Hume
em 1775, exprime uma proposição muitíssimo diferente. A primeira exprime a proposição
de que apetece a Epicteto uma salada de tomate no ano 134 d.C., a segunda de que
apetece a David Hume uma salada de tomate em 1775. Assim, ao formalizar argumentos e
proposições, temos de eliminar adequadamente os indexicais (termos como “eu”, “ontem”,
etc.), incluindo a indexicalidade oculta, e referências temporais para nós óbvias.

Terceiro, a língua portuguesa inclui várias maneiras diferentes de exprimir os


mesmos operadores. Vejamos apenas o caso da conjunção e da disjunção.

A conjunção exprime-se não apenas com a palavra “e”, mas também com “mas”,
“tanto… como” e “quer… quer”, entre outras. Como é evidente, estes termos não têm
todos exactamente o mesmo significado, apesar de todos serem usados para exprimir a
conjunção. O significado de “mas”, por exemplo, não é exactamente o mesmo do que o
significado de “e”; por exemplo, “Eça era português, mas diligente” sugere que os
portugueses em geral não primam pela diligência. Além disso, em alguns contextos, a
palavra “e” está associada a um aspecto temporal: “Berkeley deu uma palestra e morreu” é
razoável, mas “Berkeley morreu e deu uma palestra” sugere que ele deu a palestra morto
— o que parece ocorrer com alguns palestrantes, mas não literalmente. Na lógica clássica,
contudo, não damos atenção a todos os aspectos do significado da conjunção; só
atendemos ao aspecto da conjunção responsável por mudar ou manter o valor de verdade
de “p ∧ q” com base nos valores de verdade de “p” e de “q”. E o mesmo acontece com os
outros quatro operadores.

Quanto à disjunção, a palavra “ou” exprime dois operadores diferentes, em


diferentes contextos: a disjunção inclusiva, que usamos na lógica proposicional, e a
disjunção exclusiva. Por exemplo, “Leibniz era matemático ou filósofo” é uma disjunção
inclusiva, pois não queremos excluir a possibilidade de ele ser simultaneamente

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LÓGICA ELEMENTAR — DESIDÉRIO MURCHO

matemático e filósofo; mas em disjunções como “A Maria Eduarda está em Lisboa ou


Sintra” o que queremos muitas vezes fazer é exprimir a ideia de que ela não pode estar nos
dois lugares ao mesmo tempo. Este último caso é uma disjunção exclusiva. “A ou B”,
usado para exprimir uma disjunção exclusiva, é equivalente a “A ¬B”.

Em suma, sem compreender bem a lógica não podemos aplicá-la adequadamente


à língua portuguesa; mas também não saberemos aplicá-la adequadamente à língua
portuguesa se nos limitarmos a estudar os seus aspectos formais. Temos de ir fazendo as
duas coisas concomitantemente.

Revisão

1) Determine a validade formal dos seguintes argumentos, recorrendo a tabelas de validade:

a) Eu não sou o meu corpo. Se eu fosse o meu corpo, não poderia duvidar que o meu corpo

existe. Contudo, é óbvio que posso duvidar da existência do meu corpo, apesar de não

poder duvidar da minha própria existência.

b) Se uma proposição for contingente, é verdadeira em alguns casos e falsa noutros. Se não
existissem verdades, não haveria proposições verdadeiras em alguns casos e falsas

noutros. Logo, sem verdade não há contingência.

c) É incoerente defender que não temos justificação para nenhuma das nossas crenças porque

se não a tivéssemos, não teríamos também justificação para a crença de que não temos

justificação para nenhuma das nossas crenças.

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