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Arqueologia da Violência – Pierre Clastres

 A palavra etnocídio foi criada para satisfazer uma necessidade de precisão


terminológica, acabou saindo do campo da etnologia para cair no domínio
público. Surgiu para se distinguir de genocídio.
 O termo genocídio foi criado no Tribunal de Nuremberg, uma criminalização
legal para o extermínio sistemático dos judeus europeus pelos nazistas alemães
(1ª definição). Dessa forma, o genocídio tem sua raiz no racismo e embora tenha
sido esse o primeiro momento a ser conceituado em forma de lei já existia a
muito tempo (ex: expansão colonial)
 Se genocídio remete a raça e a vontade do extermínio de uma minoria racial, o
termo etnocídio não apontaria para uma destruição física dos homens, como se
enquadra a questão genocida, mas sim para a destruição de sua cultura. Sendo
assim, o etnocídio é a destruição sistemática de modos de vida e pensamento
de povos diferentes daqueles que executam essa destruição.
 Genocídio = assassinato dos povos em seu corpo; Etnocídio = assassinato dos
povos em seu espírito
 Esses dois termos tratam o outro como a diferença, só que uma má diferença.
Enquanto o genocida pura e simplesmente nega essa diferença, extermina o
outro pois são absolutamente maus, o etnocida admite a relatividade do mau
no “outro diferente”, pois acreditam que podem melhorá-los, obrigando a se
transformarem no que impuserem. Quando o etnocida nega o outro, nega sua
diferença e particularidades ele o conduz a uma identificação a si.
 Na América do Sul e em outras regiões os primeiros etnocidas são os
missionários, propagando a fé cristã, se esforçam para substituir as crenças dos
“bárbaros pagãos” pela religião do Ocidente. Duas certezas: 1- a diferença, no
caso o paganismo, é inaceitável e deve ser recusada; 2- o mal dessa “má
diferença” pode ser abolido ou atenuado. Por isso a atitude etnocida é vista em
comparação com a genocida como otimista, no outro são reconhecidas as
possibilidades de alcançar a perfeição do cristianismo.
“Eliminar a força da fé pagã é destruir própria substância da sociedade”, era
exatamente essa a intenção, levar da selvageria à civilização, nessa visão, para
o bem do selvagem (ex: políticas indigenistas, salvar da miséria, infelicidade e
da vida nas florestas). A espiritualidade do etnocídio é a ética do humanismo.
 A prática do etnocídio se configura em duas verdade:
1- Hierarquia das culturas, inferiores e superiores;
2- Superioridade absoluta da cultura ocidental (só mantendo uma relação de
negação quanto as outras).
 Negação positiva definida como aquilo que quer suprimir o inferior, mas a
nível de torna-lo superior. Estaria fora de cogitação não fazer isso já o que o
“humanismo” inserido na cultura ocidental exige. (ex: suprimir a indianidade
do índio para fazer dele um cidadão brasileiro)
 Dessa forma, o etnocentrismo seria essa tendência de avaliar as diferenças
pelo padrão da própria cultura.
 O texto também faz uma análise de como essas “sociedades primitivas” se
veem e veem o outro. Todas nomeiam a si mesmas, em cada dialeto sempre
com o mesmo significado “homens”, “pessoas”, “gente” e tem a tendência de
colocar o outro num sentido pejorativo. Toda cultura então colocaria ela
mesma como excelência do humano e os outros em um grau menor? As
sociedades primitivas também podem ter um discurso etnocêntrico, afirmando
sua superioridade e recusando reconhecer os outros como iguais.
 Então, o etnocentrismo seria um ponto comum em toda formação cultural,
como imanente à própria cultura. Pertence à essência da cultura ser
etnocêntrica, na medida exata em que se considera cultura por excelência. A
alteridade cultural nunca é aprendida como diferença positiva mas sim como
inferioridade, segundo um eixo hierárquico.
 Mas nos cabe pensar que se toda cultura é etnocêntrica somente a ocidental
é etnocida. Percebemos assim, que a prática etnocida está desvinculada da
convicção etnocêntrica, caso contrário todas seriam etnocidas.
 No caso do mundo ocidental, o que se percebe é uma abstração em relação ao
fenômeno recorrente do etnocídio, como se fosse essência vaga que sempre
envolveu essa prática. Porém, isso tem a ver com história e fatos. Tornou-se
como uma vocação etnocida do mundo ocidental, como poderia legitimar essa
concepção fatalista se nossa sociedade se considera com Estado ao contrário
das “primitivas”? Já que está tão enraizado esse conceito “natural” do
Ocidente, assim não caberia ao menos o direito de denúncia e proteção das
vítimas.
 Seria essa uma explicação para as sociedade primitivas que são etnocêntricas
mas não etnocidas já que são sociedades sem Estado?
 O etnocídio resulta na dissolução do múltiplo no Um, é a supressão de
diferenças consideradas más e inferiores por um princípio de identificação, de
um projeto de redução do outro ao mesmo. O Estado nesse caso é força
centrípeta que tende quando necessário a esmagar as forças centrípetas
inversas, ele é o centro da sociedade, todo o corpo social e mestre dos
diversos órgãos. Sendo assim, está no núcleo desse Estado, na força atuante
do Um, a recusa do múltiplo, o temor e o horror a diferença, ou seja, a prática
etnocida e máquina estatal estão ligadas e funcionam da mesma maneira.
Tanto o etnocídio sobre o Outro quanto o Estado no Ocidente sempre aplicam
a redução da vontade, da diferença e da alteridade.
 Ainda explorando o Estado como supressor dos próprios indivíduos que
compõe a sociedade, percebemos que o processo de integração de um Estado,
o momento em que a nação é constituída requer a supressão das diferenças.
Um simples exemplo é que o Estado só pode se proclamar detentor exclusivo
do poder se as pessoas as quais exerce essa autoridade falarem a mesma
língua que ele. Além disso a escola leiga, gratuita e obrigatória assim como o
serviço militar obrigatório e divisão em províncias também são exemplos, cada
vez mais a penetração do poder estatal fica mais fácil. Isso ficou muito claro na
Revolução de 1789, todo esse processo é chamado de francinização por Pierre
Clastres, um etnocídio consumado: línguas tradicionais enxotadas como
dialetos de indivíduos atrasados, a vida aldeã foi conduzida a espetáculo
folclórico destinado ao consumo de turistas.
 Enfim, o etnocídio está intimamente ligado ao funcionamento da máquina
estatal, que age de acordo com a uniformização dos indivíduos: o Estado
conhece apenas cidadãos iguais perante a lei. Portanto, afirmar que o
etnocídio pertence a essência unificadora do Estado é dizer que toda formação
estatal é etnocida, é o modo normal de existência do Estado seja nas
sociedade “bárbaras” ou “civilizadas” do Ocidente.
 Essa universalidade do etnocídio caracteriza as sociedades com Estado. Mas
Pierre Clastres nos leva a pensar que não podemos nos deter aí e cair
novamente numa abstração e esquecer uma história completa do mundo
cultural. O chamados Estados “Bárbaros” e os Estados “Civilizados” teriam uma
das diferenças no nível de capacidade etnocida pelo seu aparelho estatal, os
Incas por exemplo toleravam certa autonomia de outros povos se eles
reconhecessem a autoridade política e religiosa, nos Estados ocidentais a
capacidade etnocida é desenfreada, sem limites, por isso ela pode conduzir
facilmente ao genocídio.
 A explicação para a sociedade ocidental ser absolutamente etnocida estaria no
seu regime de produção econômica. É o capitalismo como sistema de
produção para o qual nada é impossível, exceto não ser para si mesmo seu
próprio fim (...) A sociedade industrial, a mais formidável máquina de
produzir, é por isso mesmo a mais terrível máquina de destruir Raças,
sociedades, indivíduos, espaço, natureza (...) tudo é útil, tudo deve ser
utilizado, tudo deve ser produtivo; de uma produtividade levada ao seu
regime máximo de intensidade.
 Por fim, entendemos por que é tão intolerável aos olhos do ocidente aquelas
sociedades com sua improdutividade originária, o desperdício pela não
exploração econômica de imensos recursos. Havia uma escolha: ou ceder a
produção ou desaparecer, ou etnocídio ou genocídio.