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O elemento islâmico na história e cultura afro-brasileira: referências para a promoção da


lei nº 10.639/03
Vilma Aparecida de Pinho*
Léia Gonçalves de Freitas**
Maurício Neubson Medeiros Gonçalves***
Valter Luciano Gonçalves Villar****

Resumo
Esta pesquisa teve como objetivo desenvolver um guia de referência sobre o elemento islâmico na cultura africano-
brasileira como ferramenta de ensino no estudo da História e Cultura Afro-Brasileira na aplicação didática da Lei
nº 10.639/03.Esta é uma pesquisa teórica de abordagem qualitativa e de natureza bibliográfica, que disponibiliza
dados e fontes que servem como suporte pedagógico para a análise da influência e contribuição de muçulmanos
negros na história e na cultura africano-brasileira.
Palavras-Chave: Negros muçulmanos; Lei nº 10.639/03; Interculturalismo.

Islamic Element in the afro-brazilian history and culture: references for the promotion of the law
nº.10.639/ 03

Abstract
This research aimed to develop a reference guide on the islamic element in the african-brazilian culture as a
teaching tool in the study of History and Afro-Brazilian Culture on the didactic application of the Law 10.639 /
03. This is a theoretical research of qualitative approach and bibliographic nature, which provide data and sources
that serve as pedagogical support for the analysis of the influence and contribution of black Muslims in the history
and african-brazilian culture.
Keywords: Black Muslims; Law 10.639/03; Interculturalism.

Problematização da questão com o professor-pesquisador, em especial no tocante


à seleção de referenciais sobre a religiosidade
Esta pesquisa busca conhecer um pouco mais muçulmana que atendam à Lei nº 10.639/03 além de
sobre os estudos da História e Cultura Afro- outros conteúdos programáticos que abordem valores
Brasileira e Africana, especificamente as matrizes civilizatórios islâmicos. Ao se tornar obrigatório pela
africanas islamizadas, além de procurar entender as Lei Federal nº 10.639, de 2003, o Ensino da História
referências históricas do islã no Brasil, intimamente e Cultura Afro-Brasileira e Africana representa um
relacionadas à História Negra e Africana e sua marco legal no combate ao racismo e à intolerância
diáspora, que se quer são citadas nos currículos no universo escolar brasileiro. Consequentemente,
escolares. abrem-se caminhos para as discussões da
Esta relação entre a religiosidade negra e a religiosidade e dos valores civilizatórios, presentes
cultura islâmica necessita ser mais explorada pelos nessas comunidades.
educadores que pretendem promover a
interculturalidade no currículo escolar e combater o A África islâmica: breve introdução
racismo e a intolerância em sala de aula. A Lei
Federal nº 10.639/2003 exige que o professor opere O Alcorão, livro que compila as revelações
ativamente contra os males causados pelo racismo, do profeta em seus 23 anos de ministério, é o
etnocentrismo e intolerância religiosa. Contudo, propulsor do processo de islamização dos povos
sabe-se que uma formação continuada sobre o tema árabes, tratando assuntos da vida pública e privada,
é praticamente inexistente e encontrar fontes e profecias e leis civis. Em língua portuguesa,
recursos disponíveis, acessíveis, não é tarefa fácil dispomos de algumas traduções do Alcorão, sendo as
para os educadores, principalmente diante da mais populares: O Alcorão – O Livro Sagrado do Islã
miscelânea de textos, sem esmero, sobre o assunto. de Mansour Chalita; a Tradução do significado do
Este trabalho, portanto, objetiva contribuir Alcorão Sagrado para a Língua Portuguesa de
*
Endereço eletrônico: vilmaaparecidadepinho@gmail.com
**
Endereço eletrônico: leiafreitas@ufpa.br
***
Endereço eletrônico: mauricio.goncalves@ifpa.edu.br
****
Endereço eletrônico: valtervillar@gmail.com
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Maurício Neubson Medeiros Gonçalves, Valter Luciano Gonçalves Villar
Samir El Hayek e a Tradução para a Língua Bornu (1387-1893), Império dos Almorávidas
Portuguesa do Sentido do Nobre Alcorão de Helmi (1040-1146), Império Wolof (1360-1890); Reino de
Nars. Gabu (1537-1867), Reino de Daomé (1625-1900),
Nos primórdios da história islâmica, têm-se Reino de Oyo (1400-1905); Povos Iorubás, Povos
registrado relações étnico-raciais mais fraternas entre Suaílis, Povo Haussá, Povo Etíope, Povo Núbio,
os primeiros muçulmanos. Dentre os primeiros Povo Afares, Povo Balantas; e, por fim, os Berberes
seguidores do Profeta Muhammad, encontrava-se um e as cidades de “Sofala, Moçambique, Zanzibar, além
escravo etíope (da Abissínia), chamado Bilal, que ao de outras cidades-estados que estavam na fronteira
demonstrar simpatia pela mensagem libertária e do mundo islâmico. Eram cidades integradas às rotas
igualitária do Islã 1, foi detido, torturado e quase comerciais do oceano índico, controladas pelos
morto pelo seu dono, até que foi comprado pelo muçulmanos”. (ALBUQUERQUE, 2006 p. 33).
companheiro de Muhammad, o Abu Bakr,
alforriando-o logo em seguida. Bilal posteriormente O Interculturalismo e a legislação brasileira
foi nomeado como o primeiro Muezim
(Almuadem)2. A tese do Interculturalismo deste trabalho
Com o advento do Alcorão e da Lei Islâmica, baseia-se nas concepções teóricas da educadora Vera
algumas práticas da escravidão vigente da época pré- Maria Candau, pois parte do entendimento de que as
islâmica foram abolidas e outras restringidas, relações e o diálogo intercultural entre nossa
concedendo-se novos direitos aos servos e impondo sociedade e valores afro-islâmicos, ajudam na
condições e limites, acarretando a mudança da ordem resolução da problemática da visão pejorativa sobre
social no tratamento aos cativos escravizados. Com o o “ser muçulmano”, contido no imaginário social
passar do tempo na sociedade muçulmana, a brasileiro e na escola. Os muçulmanos são
jurisprudência islâmica se encarregou de geralmente indivíduos associados ao tom de ameaça
implementar e reinterpretar diversas posições em e perigo, estereótipos negativos e imagens
relação ao escravismo não explícitas no livro depreciativas, que reiteram, quase sempre, os
sagrado, retomando práticas que já tinham sido epítetos de “bárbaro” e “terrorista”. Esse discurso,
reformadas por Muhammad. forjado e modelado, como afirma Eduard Said 3
(VILLAR, 2012), pelos meios de comunicação euro-
Não prejudiquem uns aos outros para que americanos, tem como finalidade criar uma escala de
ninguém os prejudique. (...) Não devem terror, onde as políticas beligerantes encontram
infligir nem sofrer qualquer injustiça. (...) aceitação, tanto pelo público doméstico, quanto por
Toda a humanidade descende de Adão e outras comunidades ocidentais, no caso o Brasil.
Eva. Um árabe não é superior a um não- Para superarmos essa visão homogênea,
árabe, nem um não-árabe tem qualquer imprópria e excludente, é preciso entender o alcance
superioridade sobre um árabe; o branco não dessas marcas e seus múltiplos efeitos no nosso
tem superioridade sobre o negro, nem o sistema educacional, seus componentes
negro é superior ao branco; ninguém é interacionistas, a fim de encontrarmos os melhores
superior, exceto pela piedade e boas planos e métodos que possam superar essa visão
ações. Aprendam que todo muçulmano é redutora, conforme se vê na afirmação abaixo:
irmão de todo muçulmano e que os
muçulmanos constituem uma irmandade Um enfoque que afeta a educação em todas
(MUHAMMAD, apud CAMPANI, 2015, p. as suas dimensões, favorecendo uma
36). dinâmica de crítica, e autocrítica,
valorizando a interação e comunicação
Os povos africanos, ao fazerem contato e recíprocas, entre os diferentes sujeitos,
intercâmbio com a civilização islâmica, foram grupos culturais. A Interculturalidade
assimilando a língua árabe e seus produtos culturais. orienta processos que têm por base o
Dentre os Impérios e Reinos já existentes no reconhecimento do direito à diferença e a
continente africano, este processo intercultural luta contra todas as formas de discriminação
esteve presente no Império Gana (750-1240), e desigualdade social. Tenta promover
Império de Mali (1230-1546), Songai (1375-1591), relações dialógicas e igualitárias entre
Império de Benin (1440-1897), Império Ashanti pessoas e grupos que pertencem a universos
(1670-1902), Impérios Kanem (700-1376) e Kanem- diferentes, trabalhando conflitos inerentes a

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esta realidade. Não ignora as relações de diferentes grupos, cuja identidade cultural e dos
poder presentes nas relações sociais e indivíduos que os constituem são abertas e estão em
interpessoais. Reconhece e assume os permanente movimento de construção, decorrentes
conflitos procurando as estratégias mais dos intensos processos de hibridização cultural”
adequadas para enfrenta-los. (CANDAU, (CANDAU; KOFF, 2006, p. 102).
2003. p. 19). As mais recentes alterações da Lei de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN –
Esta proposta intercultural de orientação Lei nº 9393 de 1996), no seu artigo 26, parágrafo 4º,
curricular da prática pedagógica corrobora com a dispõem que: “O ensino da História do Brasil levará
pretensão do Parecer N.º 003/2004- CNE/CP que em conta as contribuições das diferentes culturas e
institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a etnias para a formação do povo brasileiro,
Educação das Relações Étnico-Raciais e para o especialmente das matrizes indígena, africana e
Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e europeia” (BRASIL, 1996), e no artigo 26A,
Africana. Um dos objetivos deste parecer prescreve parágrafos 1º e 2º, recentemente alterados pela Lei nº
ao educador, abordar “a história da ancestralidade e 11.645/ 2008, estabelece que:
religiosidade africana” (p. 12), que por meio do Plano
Nacional de Implementação destas diretrizes, de § 1º - “Nos estabelecimentos de ensino
2010, incentiva a produzir materiais didáticos que fundamental e de ensino médio, públicos e
“atendam e valorizem as especificidades (artísticas, privados, torna-se obrigatório o estudo da
culturais e religiosas) locais/regionais da população história e cultura afro-brasileira e indígena.
e do ambiente, visando ao ensino e à aprendizagem O conteúdo programático a que se refere
das Relações Étnico-raciais” (p. 32, 34). este artigo incluirá diversos aspectos da
história e da cultura que caracterizam a
Abordar o tema dos valores civilizatórios, formação da população brasileira, a partir
seja na sociedade brasileira ou em qualquer desses dois grupos étnicos, tais como o
outra sociedade com características estudo da história da África e dos africanos,
pluriculturais semelhantes, não é tarefa de a luta dos negros e dos povos indígenas no
pouca dificuldade, sobretudo quando nos Brasil, a cultura negra e indígena brasileira
ocupamos em identificar seus conteúdos e e o negro e o índio na formação da sociedade
significados amplos a partir de um nacional, resgatando as suas contribuições
referencial circunscrito a um universo nas áreas social, econômica e política,
cultural, por definição de pouca precisão, no pertinentes à história do Brasil” (BRASIL,
caso que nos interessa, o universo cultural 2008, p. 1).
afro-brasileiro. Sendo assim, antes mesmo
de propormos formas de introduzir os A problemática fundamental é que as
valores civilizatórios afro-brasileiros na abordagens publicadas sobre a cultura e religiosidade
elaboração dos currículos escolares, negra, antes da Lei nº 10.639/03, classificam e
convém especificarmos, ainda que retratam os negros africanos simplesmente como
brevemente, qual a nossa compreensão do Bantos e Sudaneses, que deram origem a religiões
tema e, sobretudo, deixar clara a posição como o Candomblé, Quimbanda e Umbanda, etc.
teórica que referencia essa nossa (OLIVA, 2003). Esta categorização é empobrecida e
compreensão (MATTOS, apud RAMOS. inadequada, pois se remete apenas aos grupos étnicos
2003, p. 29). subsaarianos escravizados, como os Bantus e os
Iorubás. Esta abordagem implica num currículo
Estas relações interculturais, decorrentes da discriminatório, pois sucumbe toda a diversidade,
confluência de povos africanos islamizados com tanto étnico-racial, quanto religiosa, dos grupos de
outras etnias no Brasil, proporcionaram relações toda a África, como salienta Gomes:
étnico-raciais positivas e, neste contexto, abordar a
religiosidade islâmica no Ensino de História Cultura Práticas pedagógicas que se pretendem
e Afro-Brasileira já é um grande passo para iguais para todos acabam sendo as mais
desmitificar os conflitos etnocêntricos e de discriminatórias. Essa afirmação pode
intolerância religiosa em pauta na atualidade, pois parecer paradoxal, mas dependendo do
“implica (...) em promover o diálogo e a troca entre discurso e da prática desenvolvida, pode-se

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incorrer no erro da homogeneização em exploratório, pois consiste em “levantar informações
detrimento do reconhecimento das sobre um determinado objeto, delimitando assim um
diferenças (GOMES, 2000 apud campo de trabalho, mapeando as condições de
CAVALLEIRO, 2010, p. 14). manifestação deste objeto” (SEVERINO, 2007, p.
123). Esta exploração limita-se ao recorte temporal
Fontes: caminhos abertos pela lei 10.639/03 da presença de elementos islâmicos no Brasil via
África, pois este processo de interculturalismo
Os professores praticamente não dispõem de histórico de etnias africanas de religião muçulmana,
materiais didáticos a respeito dos negros amparado pela Lei nº 10.639/03, é passível de análise
muçulmanos, tampouco se capacitaram sobre as pedagógica.
fontes que irão lhes fornecer sólidas bases teóricas A especificidade do elemento islâmico na
para abordar o tema em sala de aula. As pesquisas história do Negro no Brasil precisa ser considerada,
sobre este tema são bem recentes, contudo há explorada e discutida, haja vista que tiveram uma
inúmeras publicações periódicas, acessíveis na trajetória singular e constituíram uma categoria
Internet, que podem ser encontrados nas bibliotecas distintiva de grupos e etnias africanas. No livro Uma
virtuais do Centro de Estudos Afro-Orientais História do Negro no Brasil, os educadores podem
(CEAO), em Salvador; do Centro de Estudos Afro- encontrar muitas referências sobre grupos
Asiáticos (CEAA), no Rio de Janeiro; na revista Afro- islamizados que vieram para o Brasil como escravos
Ásia, da Universidade Federal da Bahia (UFBA); na (diáspora afro-muçulmana), entre eles, os Fula,
revista Estudos Afro-Asiáticos, da Universidade Mandinga, Haussás (Nagôs) e Tapas (Nupes),
Candido Mendes. Bornos (ALBUQUERQUE, 2006), que foram
Os pesquisadores ainda dispõem da representantes negros da tradição escrita dos
biblioteca virtual do Instituto de pesquisa Casa das escravos arabizados (DOBRONRAVIN, 2004). Os
Áfricas de São Paulo e dos textos publicados no muçulmanos foram alvo de atenção dos primeiros
portal Scielo e no Portal de Periódicos da Capes. Na estudos sobre os africanos, conforme se vê em Nina
perspectiva didático-pedagógica em termos de Rodrigues:
religiosidade e africanidade, o Ministério da
Educação lançou as Contribuições para a Através desse estudo [Os Africanos no
Implementação da Lei 10.639/2003; Orientações e Brasil], o autor queria fundamentar sua
Ações para a Educação das Relações Étnico-Raciais crença na diferença entre negros sudaneses
e Educação Anti-Racista: Caminhos Abertos pela Lei e bantos, conferindo por exemplo, um
Federal 10.639/03, além do Plano Nacional de capítulo aos haussás (negros islamizados),
Implementação das Diretrizes Curriculares que pertenciam ao tronco dos sudaneses,
Nacionais para Educação das Relações Etnicorraciais que, segundo o autor, seriam mais evoluídos
e para o Ensino de História e Cultura Afro-brasileira que os outros africanos. Sobre as diferenças
e Africana. entre os negros, Rodrigues cita: “Aqui
A Organização das Nações Unidas para introduziu o tráfico poucos negros dos mais
Educação, Cultura e Ciência (UNESCO) também adiantados e mais do que isso mestiços
publica materiais, onde há referências aos negros camitas4 convertidos ao islamismo e
africanos islamizados como o livro História e provenientes de Estados africanos bárbaros,
Cultura Afro-Brasileira de Regina Augusto Mattos. sim, porém mais adiantados. (RODRIGUES
O terceiro volume da coleção composta por oito apud SOUZA, 1984, p. 4).
livros, da História Geral da África (HGA) é quase
todo dedicado ao processo de islamização da África, Atualmente, em toda África, os muçulmanos
ocorrido a partir do século VII. Este material resultou compõem 45% da população e estão concentrados
na elaboração de um guia pedagógico dedicado aos em países como Egito, Nigéria, Etiópia, Marrocos,
professores da educação infantil, intitulado História Argélia e Sudão. No Brasil, apesar do censo do IBGE
e cultura africana e afro-brasileira na educação de 2010 demonstrar que cerca 35.167 pessoas foram
infantil. declaradas muçulmanas, entidades islâmicas
O processo da educação básica dispõe, especulam uma comunidade de cerca de um milhão
portanto, de fontes confiáveis que possibilitem um e meio de pessoas, decorrentes, principalmente, de
mapeamento da historicidade da presença islâmica imigrantes de países islâmicos6.
na África e no Brasil e, neste contexto, este ensaio é É fundamental que os educadores

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compreendam, portanto, que os africanos para cá Quando os Mouros7 Dominavam a Europa8, A


trazidos não tinham apenas como religiosidade o Ciência e o Islã9, a série do History Channel
culto iorubano aos Orixás. Devem conscientizar-se “Humanidade: a História de Todos Nós”10 Episódio
ainda que os negros islamizados também mantiveram 4 – Guerreiros. Jonathan Lyons, autor do livro “A
suas práticas e tradições, muitas delas em segredo, Casa de Sabedoria”, relata como os árabes-
apesar dos numerosos adeptos: muçulmanos salvaram a civilização ocidental e
influenciaram a chamada “Era da Razão” dos
Para o Brasil vieram também africanos Iluministas. A História Islâmica tem registrado
iniciados em religiões que surgiram na volumosas e suntuosas bibliotecas. Foi lá também
África depois da chegada de povos árabes e que se fundou, no norte da África, por uma mulher,
europeus. Uma delas é o islamismo, muçulmana, de nome Fátima al-Fihri, a primeira
introduzido por populações do norte do Universidade moderna do mundo.
continente africano ao longo do A presença islâmica do Brasil inicia-se,
multissecular comércio com os árabes. Os primeiramente, pelos mouros que por aqui passaram
muçulmanos constituíram uma proporção como viajantes marítimos, exploradores,
pequena da população do Rio de Janeiro, comerciários ou fugitivos de perseguição religiosa da
mas eram numerosos na cidade de Salvador Inquisição; e depois pela vinda de negros africanos,
e na região açucareira do Recôncavo escravizados, da qual se encontram mais registros,
Baiano (ALBUQUERQUE, 2006, p. 105). conforme se nota a seguir:

A Interculturalidade em religiosidades de O marco desta diáspora muçulmana em


matriz africana tem proporcionado um sincretismo Portugal é, sem dúvida, a tomada de Ceuta,
de múltiplos elementos, tanto na África, como no em 1415, seguida da expedição a Tânger, em
Brasil. O documentário Atlântico Negro - A Rota dos 1437, e sobretudo dos feitos de D. Afonso V,
Orixás7 de 1998 e o livro Um rio chamado Atlântico: o Africano, com a tomada de Alcácer
A África no Brasil e o Brasil na África de 2011 do Ceguer, em 1458, Arzila e Tânger, em 1471,
autor Alberto da Costa e Silva marcam bem estes ano da fundação do Reino do Algarve de
diálogos interculturais. Além-Mar, marco institucional da presença
portuguesa em África. Mais tarde, após a
Assim também toda sociedade é, em alguma circunavegação da África, já no reinado de
medida, intercultural, ou seja, essas culturas D. Manuel, Portugal chegaria à Índia,
se misturam, intercambiam, sincretizam, e alargando para o oriente seu vasto império
não apenas superpõe-se, formando uma ultramarino. Da África, especialmente do
nova cultura. A diferença é de grau, nas Marrocos, vinham mercadorias diversas,
sociedades multiculturais as culturas em negociadas nos portos de Safim e Azamor
contato tendem mais a superporem-se onde os portugueses estabeleceriam praças
enquanto que nas sociedades interculturais militares, como também o fariam em
as culturas tendem a imbricarem-se. Mazagão. Da Índia, viriam as cobiçadas
(FONSECA, 2012, p. 97). especiarias, no comércio garantido pela
rede militar de Goa ou Diu. Mas tanto do
Os povos Iorubanos, tanto no Brasil como na Norte da África como do Oriente, viriam
África, foram influenciados por elementos islâmicos também escravos, em sua maioria
em muitos ritos aos Orixás, pois segundo muçulmanos, principal fonte dos mouriscos
Albuquerque (2006, p. 105), “entre os iorubás havia do reino, com destaque para os magrebinos
um grande número de muçulmanos, embora a grande (RIBAS, 2006, p. 02).
maioria fosse devota de orixás”. Talvez o elemento
mais notável deste sincretismo e interculturalismo A diáspora islâmica para a América é
seja o uso ritual da indumentária do Abadá branco, intensificada pelas Bulas Papais Dum Diversas
presente no nosso Candomblé, influência da (1452) e Romanus Pontifices (1454) (Pires, 1988),
simbologia de pureza islâmica. que admitiam a captura e escravidão dos sarracenos,
Há documentários, acessíveis a qualquer isto é, dos muçulmanos:
cidadão, que exploram o renascimento oriental,
época denominada “Império da Razão”, entre eles, [...] outorgamos por estes documentos

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60 Vilma Aparecida de Pinho, Léia Gonçalves de Freitas,
Maurício Neubson Medeiros Gonçalves, Valter Luciano Gonçalves Villar
presentes, com a nossa Autoridade adotou o nome português Inocêncio de
Apostólica, permissão plena e livre para Toledo. Após constatar a situação dos
invadir, buscar, capturar e subjugar africanos escravizados e a existência dos
sarracenos e pagãos e outros infiéis e “fujões”, foi levado pelo amigo judeu a
inimigos de Cristo onde quer que se Palmares. O que viu o envolveu no
encontrem, assim como os seus reinos, movimento palmarino e a ajuda de Saifudin
ducados, condados, principados, e outros na fortificação do quilombo seria conhecida
bens [...] e para reduzir as suas pessoas à pelo governador de Pernambuco, Caetano
escravidão perpétua (PIRES, 1988, p. 277). de Melo e Castro, que depois o referiria ao
rei de Portugal (BOURDOUKAN, 2001, p.
Por certo que também havia comércio e 29).
tráfico negreiro no mundo árabe-islâmico11, mas as
razões e circunstâncias da escravidão na América Nina Rodrigues, Etiènne Brasil, Arthur
Portuguesa e na Europa não foram equivalentes. Ramos, Gilberto Freyre, João do Rio, Abelardo
Ademais, cabe pressupor que desde o início da Duarte e Waldemar Valente (RIBEIRO, 2009, p.
escravidão no Ocidente houve uma intenção de 288) foram alguns dos estudiosos que citaram a
sanear e dirimir a influência e o domínio econômico presença de negros muçulmanos no Brasil. Gilberto
e cultural dos muçulmanos na Europa e na África, Freyre e Darcy Ribeiro, por sua vez, escreveram
marcando-os até hoje com os estigmas dos sobre a influência moura na construção da
muçulmanos como piratas, bárbaros, hereges, pagãos singularidade brasileira, herdada e transmitida pelos
e infiéis (VILLAR, 2012, p. 37). portugueses mestiços. Já Conde de Gobineau (1816-
Alguns acadêmicos (ARAÚJO, 2005; 1882) e Nina Rodrigues (1862-1906), trataram sobre
CASTRO, 2007; JERRAHI, 2003; SOUZA, L., a islamização de povos africanos como fator de
2004) têm reforçado o indício que Pedro Alvares adiantamento civilizatório. Após uma de suas
Cabral teria recebido orientação de dois navegantes estadias no Brasil, numa correspondência datada de
muçulmanos, por nomes de Chuhabidin Bin Májid e 1889, Gobineau assim descreve o Rio de Janeiro:
o Mussa Bin Sáte, ao desviar sua rota e “descobrir” o
Brasil. De qualquer forma o processo de Simbá, o marujo, conseguindo chegar à
interculturalidade da religiosidade muçulmana foi margem do rio, avistou montanhas cobertas
mais significativo quando os negros africanos de bosques compactos e, no meio de um vale,
escravizados adentraram o país. uma bela e grande cidade cujos monumentos
Destas relações interculturais, há o caso de lhe parecem numerosos e imponentes. Ele se
um capitão mouro que teve passagem pelo Brasil no dirige até a cidade, e qual não é sua surpresa
auge da escravidão do século XVII. No intuito de quando percebe que a multidão de gente, que
narrar sua saga, Georges Bourdoukan, autor do livro de longe parecia povoar as ruas, era na
A Incrível e Fascinante História do Capitão Mouro, verdade, uma multidão de macacos! Havia
refaz sua história de forma épica, destacando suas grandes e pequenos, novos e velhos; mas
relações com o Quilombo dos Palmares e Zumbi. O todos eram macacos extremamente feios,
escritor conta que o muçulmano negro, ao sair para fazendo caretas atrozes e circulando de um
uma peregrinação para Meca, por via marítima, sofre lado para o outro, uns apressados, outros,
um naufrágio, é aprisionado por piratas e depois de não: tão lúgubres. Depois de muito andar a
resgatado, fora levado para o Brasil, onde buscou esmo de um lado para o outro. Simbá, enfim,
encontrar um de seus irmãos, refugiado da ao alto de um bairro, onde avistou um
Inquisição. grande palácio que julgou ser o rei deste
povo: e, entretanto nos pátios onde os
Enquanto isso, no Magreb, ocidente do macacos que passavam nada fizeram para
mundo islâmico, havia um capitão mouro, prendê-lo, penetrou nos apartamentos, e
Karim Ibn Ali Saifudin, que partiu do Saara depois de atravessar várias galerias teve
marroquino em peregrinação a Meca. Tendo uma agradável surpresa, ao ouvir o som de
naufragado na costa africana, foi salvo por uma voz humana: e de fato, dirigindo-se
um judeu, Bem Suleiman, que iniciava uma para o lado de onde vinha a voz, entrou
viagem ao Brasil. Fizeram juntos a travessia numa sala e viu, finalmente, um homem! E
do Atlântico e, uma vez em Pernambuco, este homem lia o Alcorão. De modo que não

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apenas encontrara um ser de sua espécie, A Revolta dos Malês, ocorrida em 1835, na
mas um ser com que podia se entender. cidade de Salvador, talvez seja o mais conhecido
Suponho, madrinha, que com a aguda caso de resistência islâmica no Brasil, embora
inteligência que a distingue... você Haussás e Nagôs tenham se rebelado em mais de 30
adivinhou que Simbá estava no Brasil, que tentativas de emancipação desde 1807 (REIS, 2014).
os macacos eram os brasileiros e que o rei Pierre Verger e Roger Bastide são alguns dos autores
era o Imperador (GOBINEAU apud que comentaram sobre o papel da religião islâmica
READERS, 1988, p. 77-78). na organização da resistência contra a escravidão.
Destaca-se ainda o extenso trabalho de João José
O zoólogo Louis Agassiz (1807-1873), um Reis registrada no livro Rebelião Escrava no Brasil
dos notórios teóricos racialistas do século XIX, – A História do Levante dos Malês de 1835 e o livro
também faz um relato sobre o grupo muçulmano no de Nei Lopes Bantos, Malês e Identidade Negra.
Rio de Janeiro, durante sua expedição, na qual relata
a filiação religiosa dos negros Minas: “Os homens Os malês foram os grandes promotores das
desta raça são maometanos e conservam, segundo se revoltas e movimentos de libertação.
diz, sua crença no profeta, no meio das práticas da Instruídos, com capacidade de organização,
Igreja Católica. Não me parecem tão afáveis e e motivados pelos ideais islâmicos de
comunicativos como os negros congos: são, pelo liberdade e resistência à tirania,
contrário, bastante altivos” (AGASSIZ, 2000, p. mobilizaram seus pares em diversas
102). revoltas. O início do século XIX foi marcado
No Brasil, os negros islamizados se diferiam por uma sequência de revoltas denunciando
dos negros de outras religiosidades principalmente o clima de tensão crescente e o
pelos seus caracteres culturais. O antropólogo e inconformismo com a situação de
etnologista Arthur Ramos distinguia os muçulmanos escravidão. As principais ocorreram nos
em sua obra pelos seus traços culturais: "Eram altos, seguintes meses e anos: maio de 1807; 4 de
robustos, fortes e trabalhadores. Usavam como os janeiro de 1809; fevereiro de 1810; fevereiro
outros negros muçulmanos, um pequeno de 1814; janeiro e fevereiro de 1816, junho
cavanhaque, de vida regular e austera, não se e julho de 1822; agosto e dezembro de 1826,
misturavam com os outros escravos." (JERRAHI, abril de 1827; março de 1828; abril de 1830.
2003, p.2) [...] Em 25 de janeiro de 1835 ... Os
A intensificação do tráfico de negros revoltosos percorreram as ruas da capital
islamizados ocorreu nos séculos XVIII e XIX, com o da Bahia, atacaram o palácio do Presidente
início do ciclo do ouro mineiro no Brasil no século da província, invadiram quartéis,
XVIII e com a rota de tráfico Costa de Mina e da Baía enfrentaram tropas e fragatas de guerra
de Benin. Os negros islamizados foram espalhados ancoradas no porto. Foram totalmente
por todo o território brasileiro, mas houve subjugados pelas forças do governo. (AL-
concentração maior na região do Recôncavo baiano, JERRAHI, 2003, p. 3).
devido ao porto de Salvador ter sido um desembarque
bem mais próximo das rotas escravocratas. Os Malês, como eram chamados os muslins
Cabe ressaltar que como a religião oficial do (muçulmanos) na Bahia, eram organizados e
Brasil colonial e imperial era o catolicismo, não se comprovariam, na prática, o quão temido eram pelos
admitia o ensino islâmico, ocorrendo que as práticas traficantes e donos de escravos. Segundo Reis
religiosas dos negros muçulmanos eram discretas e (2003), cerca de 600 escravos e libertos participaram
escondidas, nas quais utilizavam a privacidade de do motim e quase todos morreram. Os poucos que
suas próprias casas como congregações e casas de escaparam, foram presos ou deportados para a
adoração. O Islã da população negra no Brasil África. Os flagrantes revoltosos foram apreendidos
resistiu a todas as formas de sincretismo, inovação com amuletos contento trechos do Alcorão escritos
(modernização ocidental) e folclorização, o que em árabe. Negros muçulmanos, a partir de então, que
favoreceu seu processo de desaparecimento, fossem flagrados com símbolos sagrados islâmicos
principalmente com o sufocamento das insurreições ou escritos árabes, passariam a ser castigados, o que
religiosas dos muçulmanos na Bahia. na prática resultou na proibição do islamismo.
Há um caso curioso registrado nos arquivos
Revolta dos Malês judiciais de Salvador, no qual um escravo nagô de

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62 Vilma Aparecida de Pinho, Léia Gonçalves de Freitas,
Maurício Neubson Medeiros Gonçalves, Valter Luciano Gonçalves Villar
nome R. Torquato, ao ser abordado com cópias Brasil por três anos, por volta de 1866. Por aqui,
manuscritas em árabe, foi acusado de participação na visitou Salvador, Recife e Rio de Janeiro, ensinando
revolta e subversão, processado conforme a sentença: o Islã a pedido de escravos africanos. Ele próprio
registrou esta passagem e a situação dos escravos no
Conformando-me com a decisão dos Jurados Brasil, num livro chamado Deleite do Estrangeiro
condemno o R. Torquato, escravo de Jé em Tudo o que é Espantoso e Maravilhoso
Pinto Novais na pena de 250 açoites; o (PINHEIRO, 2010).
Escrevão o que o recommende na prizão, e Outro destaque é um fascinante relato
pague o Reo as custas, em q também o autobiográfico de um negro muçulmano de Benin,
condemno, ou seu Senhor por elle. 13.ª 9 Dzº chamado Mahommah Gardo Baquaqua, que foi
1835. Caetano Vicente d’Almdª Jr. vendido como escravo em 1845 e viveu três anos no
(REICHERT, 2006, p. 21). Brasil, até conseguir fugir para o EUA em 1847, onde
se tornou missionário batista e escreveu sua biografia
Em meio à revolta, destaca-se o papel de uma em 1854 (LARA, 2009; LOVEJOY, 2002).
mulher negra chamada Luiza Mahin, da tribo Mahi A História do Brasil tem registrado muitas
do povo Nagô, na qual sendo alforriada e fabricante referências sobre líderes religiosos islâmicos entre os
de doces, enviava mensagens em árabe e as escondia negros, conhecidos sob os títulos de Alufá
dentro dos doces, para comunicação e organização (sacerdote), Sheik (líder), Imam (chefe, teólogo),
dos articuladores das revoltas dos Malês. Luíza é a Malam (erudito). Dentre os mais conhecidos estão o
mãe do abolicionista Luís Gama, considerado um dos Alufá Rufino (de Recife), o Alufá Assumano Mina
pioneiros do movimento do século XIX pela (do Rio de Janeiro), Alufá Julio Ganan (do Rio de
abolição, fato que lhe rendeu os epítetos de “maior Janeiro), Alufá Mama (Dassalu), Sheik Buremo
abolicionista do Brasil” e “apóstolo negro da (Gustard), Sheik Sule (Nikobé), Alufá Manoel
abolição”. Calafate, Imam Nagô Belchior, Alufá Bilal Licutan
Muitos dos muçulmanos negros no Brasil (Pacífico), Alufá Dandará, Alufá Sanin, Alufá
por saberem ler e escrever em árabe, mantiveram Mama, Alufá Sule (RIBEIRO, 2009). Muitos deles
contato com outros grupos fora do país, no intuito de utilizaram suas casas como os primeiros centros de
manterem preservada sua religião. Já no Rio de oração congregacional e culto islâmico no Brasil.
Janeiro, na mesma época, Alberto Costa e Silva A fase do Islã clandestino entre os negros no
(2004) tem destacado que no século XIX, havia Brasil decai com o avanço do proselitismo
grande demanda por alcorões: protestante, porém é recuperado com a chegada de
imigrantes muçulmanos e árabes, principalmente
No Dia 22 de setembro de 1869, o conde de sírios e libaneses, no século XX, nas quais
Gobineau, na época ministro da França no culminaram no estabelecimento da primeira e mais
Brasil, escreveu num relatório político para antiga mesquita do Brasil em funcionamento,
o Quai d'Orsay que os livreiros franceses construída em 1929, na cidade de São Paulo.
Fauchon e Dupont costumavam vender todos Atualmente existem mais de 100 mesquitas e centros
os anos, em sua loja no Rio de Janeiro, quase islâmicos em todo território nacional, segundo a
cem exemplares do Alcorão. Embora muito União de Entidades Islâmicas do Brasil. Na cidade
caro (entre 36 e 50 francos franceses), o de Belém, capital do Estado do Pará, em 2013, foi
livro era comprado quase que fundada a mesquita Ar-Rahmas, do ramo sunita,
exclusivamente por escravos e ex-escravos, onde também funciona o Centro Islâmico Cultural do
que tinham de fazer grandes sacrifícios para Pará. Ainda no Pará, a UFPA, por intermédio da
adquiri-lo. Alguns deles compravam o livro PROINTER, oferece o curso de Língua Árabe,
a prestação, e levavam um ano para pagá-lo condição essencial para se ler o Alcorão. No estágio
(SILVA, 2004, p.1). atual, o Islã tem adentrado cada vez mais nos centros
periféricos das grandes cidades12.
A tradição escrita dos negros muçulmanos Ao correlacionar com a Lei nº 10.639/03, o
sobressai entre os demais negros africanos, uma vez professor pode obter múltiplos contributos árabe-
que relatos do olhar negro sobre a escravidão no islâmicos de negros africanos e imigrantes do oriente
Brasil veem de muçulmanos. Destaca-se o relato do médio, para o trabalho pedagógico em sala de aula.
líder religioso muçulmano, oriundo do Império Na arquitetura e urbanismo: a tradição do azulejo. Na
Otomano, Abdel Rahman al Baghdadi, que morou no música brasileira: a adoção da guitarra, violão e

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O elemento islâmico na história e cultura afro-brasileira: referências para a promoção da lei nº 10.639/03 63

violino, rabeca, originados do alaúde e rebab, adoção brasileira sempre estiveram interligados, isto é, o
do pandeiro (riq), do adufe, da flauta (nay), da racismo e o preconceito religioso, no Brasil,
zambumba de duas faces, dos címbalos, do atabaque. caminharam juntos.
Na literatura, histórias e contos orientais como Os professores, ao lidarem com a história
Aladin, (adaptado pela Disney), Alí Babá e os 40 negra no Brasil, devem encontrar nestes referenciais
ladrões, Simbá, o Marujo, contido nos contos de As uma melhor compreensão da importância da Lei nº
Mil e Uma Noites, além de obras traduzidas de 10.639/2003, para abordagens da religiosidade de
grandes poetas muçulmanos, entre eles, Rumi, Attar, matriz africana. Embora o número de alunos negros
Omar. muçulmanos matriculados no Brasil seja ínfimo e
Atualmente, o Canal Futura tem transmitido desconhecido, esta aquisição de conhecimento não
o desenho Saladino, que dramatiza as aventuras da diz respeito apenas ao tratamento do aluno
juventude do libertador de Jerusalém dos Cruzados. muçulmano, mas sim serve de entendimento acerca
Esta animação é uma boa fonte de aprendizado do conflituoso complexo de valores civilizatórios
infantil sobre a cultura árabe-islâmica. O uso do entre essas comunidades.
abadá branco usado em Rodas de Capoeira é uma boa Atualmente, a mídia brasileira tem destacado
forma de se introduzir a religiosidade afro-islâmica
atitudes perversas e corruptas de fanáticos,
aos alunos, uma vez que a indumentária além de fazer
extremistas, radicais, colocando-os, erroneamente,
parte da indumentária tradicional de rodas de
como representantes da religião islâmica, reforçando
Capoeira, é uma vestimenta ritual islâmica da Hajj
a ideia de que todo muçulmano é terrorista (o que
(peregrinação), traje este também presente em ritos
do Candomblé e no ofício das baianas do acarajé. teoricamente seria 20% da Humanidade), discurso
Enfim, o trabalho pedagógico do educador na este reproduzido na escola e que vai ao encontro do
abordagem da religiosidade islâmica do negro que propõem a Lei nº 10.639/03, que é a investigação
africano é delicado, mas exige um esforço de dos fatos e da realidade de forma imparcial. Os
pesquisa do professor, uma vez que a herança professores neste sentido têm de ser capazes de
muçulmana tem sido “esquecida” intencionalmente distinguir com nitidez o islamismo exógeno da
na História Ocidental. As fontes de referências mídia, como da novela o Clone e das manchetes dos
potenciais tenderão a ser maiores, conforme vão se Jornais, do islamismo promotor da paz, da justiça, da
ampliando os estudos sobre os elementos islâmicos harmonia racial, da tolerância, da civilidade e da
na sociedade brasileira. espiritualidade como o do atleta negro Jadel
Gregório, convertido por livre investigação, por
Considerações Finais exemplo.
Este movimento de conscientização, que já
O professor da educação básica dispõe de vem sendo conquistado aos poucos por outras
uma breve e concisa indicação de referenciais para a religiões de procedência africana, como o
abordagem da religiosidade islâmica dos negros aqui Candomblé, também repercute na Fé Islâmica, tem
escravizados. Esta pesquisa neste sentido é inacabada crescido nas periferias, principalmente entre
e incompleta, mas fica a cargo dos educadores o mulheres e homens negros, pobres e integrantes do
aprofundamento deste tema trabalhado. O simples movimento Hip Hop, como mostra o documentário
ato de se aludir ou provocar a discussão sobre a Os manos de Alá13.
cultura islâmica entre os negros africanos no Brasil Por fim, assim como determina a LDB, o
já é um grande passo para se desconstruir séculos de estudo da história e cultura afro-brasileira e africana,
preconceitos em relação à diversidade étnico-racial e principalmente nos campos da História, Literatura e
cultural afro-brasileira. Arte tem um forte potencial para o trabalho
Conscientizemo-nos que, no Brasil, os pedagógico, através da investigação do elemento e a
negros muçulmanos foram repreendidos não somente influência islâmica em nossa diversidade étnico-
pelo fato de serem negros, mas também pelo fato de racial. Os referenciais aqui apresentados podem ser
praticarem sua religião, numa época onde a trabalhados pelos professores na produção de
intolerância e falta de liberdade religiosa era mais material didático-pedagógico que atendam aos
praticada. O que queremos demonstrar é que da valores da unidade da diversidade, que é o melhor
mesma forma que houve e há um racismo caminho para uma educação mais intercultural.
institucional, também houve a intolerância religiosa
institucional e os dois males na história afro- Notas

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64 Vilma Aparecida de Pinho, Léia Gonçalves de Freitas,
Maurício Neubson Medeiros Gonçalves, Valter Luciano Gonçalves Villar
1 A mensagem de Muhammad ensinava que diante Referências
de Allah não havia senhores nem escravos, mas que
todos eram igualmente submissos e servos a Allah.
2 Muezim ou Almuadem é a pessoa que têm a função AGASSIZ, J. L. R. Viagem ao Brasil 1865-1866.
de anunciar o chamado para cada uma das cinco Tradução e notas de Edgar Süssekind de Mendonça.
orações rituais diárias (salat) em voz alta em cima – Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2000.
dos minaretes das mesquitas.
3 Eduard Said foi um escritor palestino e um dos ALBUQUERQUE, W. R. de. Uma história do negro
mais notórios críticos dos conceitos ocidentais no Brasil. Salvador: Centro de Estudos Afro-
sobre o Oriente bárbaro. Sua obra prima é Orientais. Fundação Cultural Palmares. Brasília,
Orientalismo: O Oriente como Invenção do 2006.
Ocidente.
4 Pressupõe-se que o termo “camita” empregado por AL-JEHHARI, Muhammad Ragip. História da
Nina Rodrigues seja uma referência do imaginário Presença Islâmica no Brasil. Palestra para o
cristão medieval que associava os negros africanos Congresso "El Islam em las dos Orillas" – Sevilha,
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<http://www.masnavi.org/jerrahi/Artigos___Palestr
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5 Dados da Federação Islâmica do Brasil segunda a
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<http://galileu.globo.com/edic/124/rep_dossie1.ht
m>. Acesso em: 13 de outubro de 2014. ARAÚJO, E. J. S. Presença Islâmica no Nordeste
6 Atlântico Negro - Na Rota dos Orixás. Disponível Brasileiro. Monografia para a PUC-PE, Recife,
em: <https://www.youtube.com/watch?v=VyAebz 2005.
RS3h8>. Acesso em: 22 de outubro de 2014.
7 Mouro é o termo utilizado na Europa cristã para BOURDOUKAN, G. A Incrível e Fascinante
designar os muçulmanos, geralmente de pele História do Capitão Mouro. 5. Ed. Casa Amarela,
morena. 2001.
8 Quando os Mouros Dominavam a Europa.
Disponível em: BRASIL. Lei nª 11.645 de 10 de março 2008.
<https://www.youtube.com/watch?v=Av0MCGVc Disponível em
BeM>. Acesso em: 23 de setembro de 2014. <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-20
9 A Ciência e o Islam. Disponível em: 10/2008/lei/l11645.htm>. Acesso em 10 de outubro
<https://www.youtube.com/watch?v=ocsveagHeV de 2014.
0>. Acesso em: 04 de setembro de 2014.
10 Humanidade: A História de Todos Nós - Episódio BRASIL. LEI Nº 10.639, DE 9 DE JANEIRO DE
4 – Guerreiros. History Channel. Disponível em: 2003. Brasília, 2003. Disponível em: <<
<https://www.youtube.com/watch?v=5tunfl7b7Z http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.
w>. Acesso em: 07 de setembro de 2014. 639.htm>. Acesso em: 07 de setembro de 2014.
11 A escravidão árabe-islâmica não teve as
conotações raciais equivalentes as ocidentais, haja BRASIL. LEI Nº 9.394, DE 20 DE DEZEMBRO DE
vista que negros muçulmanos também tinham 1996. Disponível em: <
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm
escravos brancos e pertencentes a diversos povos e
>. Brasília, 1996. Acesso em: 07 de setembro de
grupos étnicos e religiosos. 2014.
12 Islã cresce na periferia das cidades do Brasil.
Disponível em: BRASIL. MEC/CNE. RESOLUÇÃO Nº 1, de 17 de
<http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,E junho 2004. CNE – MEC. Brasília, 2004.
RT25342-15228-25342-3934,00.html>. Acesso
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13 Os Manos de Alá. Disponível em: Relações Étnico-Raciais.Brasília: SECAD, 2010.
<http://www.youtube.com/watch?v=LIcKfRhP4c
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O Filho de Luíza. Disponível em: <http://www.afroasia.ufba.br/>. Acesso em: 06 de
<http://ofilhodeluisa.blogspot.com.br/> Acesso em: outubro de 2014.
15 de outubro de 2014.
Revista de Estudo Afro-Asiáticos da Universidade
O Néctar Selado. Disponível em: << Candido Mendes. Disponível em:
http://www.islambr.com.br/index.php?option=com_ <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_serial&
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ws_on_slavery>. Acesso em: 22 de outubro de 2014.
Os Documentos Árabes do Arquivo do Estado da

Sobre os autores

Vilma Aparecida de Pinho: Fez mestrado em Educação na UFMT (2004), e doutorado em Educação no Programa
de Pós-Graduação da Universidade Federal Fluminense – UFF (2010) e Pós-Doutorado em Educação Física no
PPGEF- (2015). É coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Afro-brasileiros e Física no PPGEF- (2015). É
coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Afro-brasileiros e Indígenas/GEABI/UFPA e pesquisa sobre
Relações étnico-raciais e Educação; Infância, Diversidade e Direitos Humanos; Corpo e Cultura.

Léia Gonçalves de Freitas: Mestra em Educação, Linguagens e Tecnologias pela Universidade Estadual de Goiás
(UEG, 2014). Doutoranda em Educação no Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Pará.
Pesquisa sobre Infância e diversidade.

Maurício Neubson Medeiros Gonçalves: Possui graduação em Pedagogia e Especialização em Educação,


Diversidade e Sociedade pela Universidade Federal do Pará. É pesquisador associado no GEABI –Grupo de
Estudos e Pesquisas Afro-brasileiros e Indígenas onde pesquisa Capoeira e Pedagogia; Relações étnico-raciais e
Educação, Ciências da religião com ênfase nos em estudos Islâmicos.

Valter Luciano Gonçalves Villar: Mestre e Doutor em Literatura e Cultura pela UFPA Universidade Federal da
Paraíba. Possui experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura, atuando principalmente no seguinte tema:
literatura, história e memória cultural.

Horizontes, v. 34, n. 1, p. 55-68, jan./jul. 2016


68 Vilma Aparecida de Pinho, Léia Gonçalves de Freitas,
Maurício Neubson Medeiros Gonçalves, Valter Luciano Gonçalves Villar

Recebido em julho de 2015.


Aprovado em abril de 2016.

Horizontes, v. 34, n. 1, p. 55-68, jan./jul. 2016