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Uma visão arquetípica do curador ferido na psicologia

Este artigo tem por objetivo, relacionar o exercício da profissão de psicólogo clínico com a atuação do arquétipo do curador ferido no
próprio sujeito. Possui caráter exploratório relacionando através de pesquisa bibliográfica os dados coletados de questionários
respondidos por psicólogos clínicos com mais de três anos de atuação na área. As respostas dos questionários são categorizadas e
as categorias são relacionadas às características do arquétipo do curador ferido. Pressupõe-se que estas auxiliam os psicólogos em
determinados momentos de seu trabalho na psicologia clínica, pois acredita-se que o psicólogo ,enquanto curador ferido, por já ter
experiênciado a dor, empatisaria com maior facilidade a dor do seu paciente. Considera-se que o trabalho do psicólogo sobre suas
próprias feridas, faria com que essa sintonia pudesse acionar no paciente o seu próprio lado curativo, desta forma o desenvolvimento
pessoal do psicólogo torna-se um fator decisivo nesse processo, assim caberia ao psicólogo experienciar o poder curativo do próprio
Self, pois, como curador ferido, tornar-se-ia primordial que o psicólogo tenha sido iniciado antes de se tornar uma espécie de guia e
companheiro para seus pacientes, no processo de encontrar um significado para a ferida, tentando expor que os ferimentos não são,
via de regra, algo à serem superados, deixados para traz ou escondidos, mas seriam sim parte integrante de cada individuo. Este para
obter a verdadeira “cura”, deve primeiramente aceitar seus próprios padecimentos, conscientizando-se de que algumas feridas podem
ser curadas e outras não.

1. Introdução

Em geral procedimentos psicoterápicos, têm como objetivo a cura ou então a amenização de algum sofrimento. Por mais que os
processos médicos e psicoterápicos tenham evoluído muito nos últimos anos, devemos buscar novamente as origens do processo de
cura para os psicoterapeutas, para que assim componham um quadro mais nítido do seu próprio trabalho.

Tal estudo faz-se necessário para uma maior reflexão sobre o que vem a ser a cura e a dor. Durante estes cinco anos de estudo da
psicologia, por uma abordagem junguiana, creio que a cura está no encontro de um significado para a doença, para tanto é necessário
ativar a imagem do curador ferido.

Pode-se perceber que quando compreendemos plenamente a experiência do sofrimento, adquirimos um maior grau de conhecimento
e sensibilidade, o que acaba por nos tornar capazes de entender melhor nossos pacientes e ajuda-los a superar suas próprias feridas.
Pressupondo, assim, que as características arquetípicas do curador ferido, poderiam auxiliar os psicólogos clínicos no seu trabalho
diário, pois aceitando e entendendo as próprias feridas eles ficariam em maior sintonia com as feridas do paciente, potencializando
assim a cura.

Pode-se dizer que o processo de cura psíquica é ainda um processo misterioso, porém, uma revisão criteriosa daquilo que
transparece no processo, poderia nos ajudar, enquanto psicoterapeutas, a nos tornarmos cada vez mais competentes em nossa
assistência e participação nesse “ritual” de cura ou amenização do sofrimento psíquico do outro.

2. Objetivos

2.1. Objetivo Geral

Relacionar a atuação do arquétipo do curador ferido proposto por C. G. Jung, no próprio psicoterapeuta no seu exercício da profissão
de psicólogo clinico.

2.2. Objetivos Específicos

Compreender como o processo de análise do psicoterapeuta influencia na sua prática clinica e no seu modo de ser psicoterapeuta.

Identificar a importância dada pelos psicoterapeutas do seu processo de análise pessoal na sua pratica da psicologia clínica.

Levantar como seu trabalho na psicologia clínica influenciaria em modificações no psicoterapeuta.

Refletir sobre os motivos que nos levam a escolher a profissão de psicoterapeuta.


3. Marco Teórico

3.1. Narração do Mito do Centauro Quíron

Segundo Brandão (2000 vol. II:p.90) Quíron, do grego Kheíron, nome que é, possivelmente uma abreviatura de Kheirurgós, “aquele
que trabalha ou age com as mãos”, cirurgião, pois que esse centauro foi um grande médico, que sabia muito bem compreender seus
pacientes, por ser ele um médico ferido. A palavra “Quíron” é raiz etimológica de cirurgia e significa “com a mão” (do grego chirurgia
“trabalho com as mãos”) (MEIER, 1967:p. 40) O mito de Quíron ocorre nas planícies da Tessália, região norte da Grécia, com o
encontro entre Cronos (Saturno o Deus do tempo) e a ninfa Filira. Atraído pela sua beleza, Cronos passou a perseguí-la e Filira, para
escapar do seu assedio, transformou-se em uma égua. Por ser filho de Cronos, Quíron pertencia à geração divina dos Olímpicos. Pelo
fato de Cronos ter-se unido a Filira sobre a forma de um cavalo, o centauro possuía dupla natureza: eqüina e humana.

Horrorizada ao ver o monstro que gerara, Filira suplicou aos deuses que a transformassem em uma árvore, desejo que foi
prontamente atendido. Rejeitado pela mãe e sem ter conhecido o pai, Quíron foi adotado por Apolo, o deus da música, da poesia, da
medicina e das profecias, que lhe transmitiu muitos e ricos ensinamentos.

O Centauro Quíron, vivia numa gruta, no monte Pélion e era um gênio benfazejo, amigo dos homens. Sábio, ensinava música, arte da
guerra e da caça, a moral, mas sobretudo a medicina. Foi o grande educador de heróis, entre outros, Jasão, Peleu, Aquiles e
Esculápio (GRIMAL 2001:p. 402).

Quando do massacre dos centauros por Hércules, Quíron, que estava ao lado do herói e era seu amigo, foi acidentalmente atingido
por uma flecha envenenada dele. O Centauro aplicou ungüentos sobre o ferimento, mas este era incurável.
Recolhido à sua gruta, Quíron desejou morrer, mas nem isso conseguiu, pois era imortal. Finalmente, após muitos anos, Quíron
conseguiu livrar-se de sua agonia, graças a uma troca de destino com Prometeu. Esse Titã fora acorrentado a um rochedo por Zeus,
como castigo por ter roubado o fogo dos deuses para dá-lo aos homens.

Como Quíron, também Prometeu, estava condenado a uma tortura eterna, pois todos os dias uma águia lhe bicava o fígado, que se
recompunha durante a noite. De acordo com as ordens de Zeus, Prometeu só poderia ser libertado se um imortal se dispusesse a ir
para o Tártaro ( um dos infernos) e lá permanecesse renunciando à sua imortalidade.

Convencido por Hercules, que intercedeu a favor do seu antigo mestre, Zeus concordou com a troca. Assim, Quíron tomou o lugar de
Prometeu que cedeu-lhe o direito a morte. E foi assim que Quíron pode encontrar repouso (GRIMAL, 2001:p. 402)

Conta-se que Quíron subiu ao céu sob a forma da constelação do sagitário, uma vez que a flecha em latim sagitta, a que se assimila o
sagitário, estabelece a síntese dinâmica do homem, voando através do conhecimento para sua transformação, de ser animal para ser
espiritual (Brandão 2000 vol. II:p. 90)

3.2. A Cura e O SIMBOLISMO DO Arquétipo do Curador Ferido

“Tudo em Quíron, o médico divino e ferido... o faz parecer a mais contraditória figura de toda a mitologia grega. Apesar de ser um
deus grego, sofre de uma ferida incurável. Além disso, a sua figura combina o aspecto animal com o apolíneo, pois apesar do seu
corpo de cavalo – configuração pela qual são conhecidos os centauros, criaturas da natureza, fecundos e destrutivos – é ele quem
instrui os heróis nas artes da medicina e da música (KERÉNYI, 1959)”.

Segundo Brandão (2001 vol. III:p. 26) pelo fato de Quíron ser um médico ferido, um xamã, e residir numa gruta evocam, de pronto,
sua função mais nobre e indispensável aos jovens “históricos”, mas sobretudo aos heróis míticos, a saber, a ação de fazê-los passar
por ritos iniciatórios, que outorgavam aos primeiros o direito à participação na vida política, social e religiosa da polis e aos segundos a
imprescindível indumentária espiritual, para que pudessem enfrentar a todos e quaisquer monstros...

De acordo com a mitologia grega, Quíron, metade homem, metade cavalo, passou por intensos sofrimentos e, embora tenha se
tornado um mestre nas artes curativas, jamais conseguiu tratar sua própria ferida, razão pela qual foi chamado de “O Curador Ferido”,
assim o relacionamos, com o tema da dor e da cura (DOWNIG, 1991: p.233).

O arquétipo do Curador Ferido, representa nossas feridas psicológicas mais profundas, ou seja, feridas que acabam por nos auxiliar
em determinados momentos da profissão de psicoterapeuta, pois certamente por já ter experiênciado a dor, empatisamos mais
facilmente à dor alheia . Por isso a idéias de ter sido ferido, ter sofrido ou adoecido, são pré requisitos para os que vão exercer do
papel de “curador”, pois “só o curador ferido cura” (DOWNIG, 1991: p.233).

A cura só pode ser encontrada quando aceita-se a dor e se dá a ela um significado. Olhando por esse prisma vemos que muitas
vezes o terapeuta precise por a nu uma dor oculta, pois se não experimentássemos a dor, talvez não tivéssemos a capacidade para a
bondade. A cura como integração psíquica, poderia, quem sabe, ter lugar e “bloqueios do desenvolvimento” que seriam removidos ao
se reviver, possíveis experiências traumáticas, em pequenas doses de emocionalidade. Em revisão à abordagem junguiana em
relação ao processo de cura, vemos que a cura procede do “encontro de um significado para a doença” ou quando “os sintomas se
integram em uma totalidade significativa” (MEIER, 1967: 128). O verdadeiro mestre está sempre aberto as dores do mundo, porque
ele também sofre. A figura de um curador ferido vem nos contar sobre o valor das inúmeras limitações, das feridas dentro de nós, que
embora nos causem sofrimento na vida cotidiana, de alguma forma, nos levam a questionar e a abrir caminho para um entendimento
maior a respeito das leis da vida. O paradoxo, vem na forma do próprio centauro, pois sendo metade deus, metade cavalo ele tem a
capacidade de compartilhar tanto o instinto como o espírito, contendo a dualidade própria da condição humana. Nunca seremos
totalmente animais e tampouco conseguiremos ser totalmente divinos, mas sempre uma mistura dos dois, pois aqui estamos para
aprender e conviver com ambas as partes. Dessa mistura vem a sabedoria do centauro, que compartilha do conhecimento de Deus,
bem como do conhecimento das leis naturais.

No mito Quíron recebe dos deuses, como recompensa pela sua atuação como curador o dom da imortalidade. Mas preferiu a morte,
aceitando-a de maneira nobre e tranqüila, uma vez que em vida não conseguiria curar-se de sua própria ferida. Vem daí outra
característica do Curador Ferido: a necessidade que nós temos de aceitar a mortalidade como parte da vida. Aponta também
situações nas quais lutamos incessantemente por algo – um ideal, um relacionamento, uma carreira, por exemplo – sem
conseguirmos nenhum resultado positivo, o que muitas vezes, nos leva a acreditar que a vida é uma sucessão de esforços inúteis,
que só trazem sofrimento (YOSHIKAWA, 1997).

Geralmente por traz dessas batalhas aparentemente sem sentido está a mensagem de que precisamos enfrentar o fim das coisas. O
conhecimento e a compreensão dos desígnios de nosso eu mais profundo. Assim como na mitologia, o grande centauro foi mestre de
muitos heróis, na vida ele representa o nosso guia interno, que nos revela o caminho e nossa jornada ao longo da vida.

Quando pensamos em um curador ferido, não podemos nos deixar atrair, pela figura de um curador curado. É o que Quíron
representa: o curador ainda ferido. Um paradoxo onde aquele que está sempre curando permanece eternamente ferido, parecendo,
assim, estar no centro do mistério da cura. O princípio desse mistério é “simplesmente o conhecimento de uma ferida também
experiênciada e de modo permanente, por aquele que cura” (KERÉNYI 1959:p.99). O que sugere que nossos ferimentos, não são
algo para superarmos, deixá-los para traz ou escondê-los. Nossos ferimentos são sim parte integrante de nós, ou seja, a aceitação de
nossos padecimentos faz parte da verdadeira saúde, assim como, a aceitação de que algumas feridas saram, e outras não.

3.4. A Postura do Psicoterapeuta e o Arquétipo do Curador Ferido

O psicoterapeuta “toma para si” as feridas do seu paciente, começando, assim a experimentar de maneira mais plena, o lado ferido da
imagem arquetípica. Isto faz ativar suas próprias feridas a sua vulnerabilidade à doença a nível pessoal ativa a sua conexão com a
imagem arquetípica do curador ferido (MEIER, 1959:p. 29).
No atendimento na clinica psicológica inclui-se que dentro do meu sistema psicológico, vou dedicar minha atenção, minha energia,
minha alma, para que esta pessoa alivie seu sofrimento, porque consideramos que este atinge pessoalmente. Quando um paciente
solicita nossos serviços a sua urgência maior é obter ajuda para a cura daquilo que o faz sofrer.

“Só quando o curador tiver sido tocado profundamente pela doença, infectado por ela, mobilizado, amedrontado, comovido; só quando
ela tiver se transferido para ele, continuando nele e obtido em referencial em sua própria consciência – só então e só nessa medida
poderá lidar com ela eficazmente” (JASPERS, 1964)

Porém, não é tarefa fácil determinar até que ponto, os psicoterapeutas, devem se envolver ao assumir a doença do paciente. Ele deve
estar o suficiente próximo para poder envolver-se, mobilizar-se e ficar atento às suas próprias feridas a fim de catalizar este processo,
sem perder de vista os perigos da inflação, de suas próprias limitações e até mesmo da possibilidade da sua morte.

O que temos então, é o analista de um lado fazendo papel de curador e o paciente fazendo papel daquele que é ferido. No
inconsciente, o trabalho do analista sobre suas próprias feridas fará com que esta sintonia possa, no paciente, acionar o seu lado
curador. O lado curador do paciente não é para curar o analista mas para curar a si próprio.

O paciente se apossa das forças curadoras do terapeuta, começando assim a vivenciar de forma mais clara o aspecto curador da
imagem arquetípica, o que ativa a própria potencia curativa do paciente que começa a tomar parte ativamente no processo
terapêutico. Distancia-se, cria novas perspectivas, começando, assim a participar também ativamente da cura. Fica carregado de
conteúdos do aspecto ferido do arquétipo do “médico interior”, assim a experiência de totalidade se constela.

“É um típico risco de insalubridade profissional para o terapeuta ser infectado fisicamente e envenenado pelas projeções às qual se
expõe. O terapeuta tem de ficar continuamente em guarda contra a inflação. Mas o veneno não o afeta apenas psicologicamente;
pode mesmo atacar o sistema simpático. Observei um bom numero dos mais extraordinários casos de doenças físicas entre
psicoterapeutas, doenças que não correspondiam aos sintomas médicos conhecidos e que eu atribuí ao efeito de um continuo ataque
de projeções, em relação as quais o analista não consegue discriminar sua própria psicologia. A condição emocional peculiar do
paciente tem um efeito contagioso. Quase que se poderia dizer que desperta vibrações idênticas no sistema nervoso do analista e,
por isso, da mesma forma que os psiquiatras, os psicoterapeutas tendem a tornar-se um pouco esquisitos. É um problema para se ter
sempre em mente. Está relacionado de maneira definida ao problema da transferência” (JUNG, 1968: p.172-173).

Guggenbühl-Craig sugere um arquétipo “médico/paciente”, que se faz presente toda vez que uma pessoa adoece. O enfermo procura
um doutor externo ou médico, mas o fator curador ,“intrapsiquico”, ou ainda “médico interior” são mobilizados da mesma forma. Até
mesmo se o “médico externo” for muito competente as feridas não serão curadas, enquanto não houver a ação do “médico interior”
(GUGGENBÜHL-CRAIG, 1971:p. 89-91).

Com freqüência ouvem-se explicações do tipo “sua resistência interna cedeu” ou “ele não estava querendo melhorar”. De um ponto
arquetípico de vista, é o médico interior que não está funcionando. Guggenbühl coloca essa questão nos seguintes termos: “Isto
significa psicologicamente que não somente o paciente tem um médico dentro de si mesmo, mas também que existe um paciente no
interior do médico” (1971.,p. 91)

“Ninguém leva o outro além de onde ele mesmo for” (JUNG, 1946: p.308). O desenvolvimento pessoal do terapeuta é então fator
decisivo no processo psicoterapeutico, ele próprio deve ter experiênciado o poder curativo do Self; como um curador ferido,
simbolicamente podemos colocar que deve ser iniciado antes de se tornar guia para os outros, isto é perceber seu lado de curador
ferido.

4. Metodologia

Este artigo, é de caráter exploratório, onde relaciona-se, através de uma pesquisa bibliográfica os dados que foram coletados, através
de questionários, que foram aplicados a psicólogos clínicos que tenham mais de 3 anos de atuação na área clínica. Os questionários
são constituídos de perguntas abertas e foram deixados em clinicas particulares e em CAPS à disposição dos psicólogos que se
interessassem em responde-los. Estas respostas coletadas através dos questionários, foram categorizadas e suas categorias foram
relacionadas com as características do arquétipo do curador ferido.

Os questionários foram respondidos no período de setembro e outubro de 2002. Ao todo foram distribuídos 75 questionários à
psicólogos de diversas linhas, porém só retornaram 15 questionários, portanto, trabalharemos com essa amostragem.

A idade dos psicólogos que responderam os questionários, varia entre 28 e 60 anos, temos uma média de idade de 39.93 anos
,destes, 60% são mulheres 40% são homens. O tempo de atuação na área clinica variou de 3 à 29 anos de prática, tendo uma média
de 13.73 anos de atuação.

5. Resultados

Quanto às linhas, 40% (N = 6) dos psicólogos que responderam os questionários, são psicanalistas, 26.6% (N = 4) são
psicodramatistas, 13,3% (N = 2) trabalham com a linha sistêmica, 6,6% (N = 1) psicodinâmica, 6,6% (N = 1) psicologia relacional e por
fim 6,6% (N = 1) seguem a psicologia analítica.

1- Como a terapia influenciou na sua prática clinica? No seu modo de ser terapeuta?

Categoria
Descrição

1.1

Modelo terapêutico, escolha da linha

20%

1.2

Com a aproximação pessoal do que faz sofrer o terapeuta, aprende-se a reconhecer o sofrimento no outro.

40%

1.3

Enquadram-se nas categorias 1.1 e 1.2

40%

Vemos, que não só os pacientes, mas também os psicólogos, vêem seus psicoterapeutas como “mestres”, pois seus psicoterapeutas
em 60% dos casos, os influenciaram na escolha da linha e no modelo terapêutico. Como vimos anteriormente, o verdadeiro mestre,
está sempre aberto às dores do mundo, porque ele também sofre.

A grande maioria dos psicólogos dessa amostragem, acreditam que o desenvolvimento pessoal do terapeuta é fator decisivo no
processo terapêutico, na interpretação junguiana segundo o arquétipo do curador ferido, ele próprio deve ter experiênciado o poder
curativo do Self; dentro da psicologia é fundamental que o terapeuta tenha sido iniciado no processo terapêutico, antes de se tornar
terapeuta (mestre) para os outros.

2- Para você qual a importância da terapia na prática clinica?

Categoria

Descrição

2.1

Procedimento ético, condição fundamental para o exercício da profissão e formação

40%

2.2

Perceber o que do paciente se identifica com o terapeuta aumenta a eficiência por estar menos comprometido.

26.6%

2.3

Fundamental para separar as questões pessoais com as do paciente para não atrapalhar o processo

13.3%
2.4

Enquadram-se nas categorias 2.1 e 2.2

6.6%

2.5

Enquadram-se nas categorias 2.2 e 2.3

13.3%

Pode-se observar o grande grau de importância dada pelos psicólogos à terapia na prática clinica, terapia esta, que é vista como
fundamental ou essencial para o exercício da profissão e da constante formação do psicólogo. Como um curador ferido é essencial
que o psicoterapeuta esteja consciente de suas feridas, aceitando-as, facilitando assim, a relação psicoterapeuta – paciente, onde o
psicólogo não se impõe como um ser onipotente, mas sim admite ser uma pessoa que sofre como seus pacientes.

Também pode-se observar a preocupação dos psicoterapeutas no que diz respeito, à separação de questões pessoais com as do
paciente para não atrapalhar o processo terapêutico e para haver certa proximidade com o outro sem confundir-se com ele a terapia
na prática clínica torna-se fundamental.

3- O trabalho na clinica chegou a muda-lo (a) pessoalmente? Como?

Categoria

Descrição

3.1

Aprendem com seus pacientes, casos instigam questões pessoais e pode-se assim, trabalhar algo que estava adormecido.

86.6%

3.2

Poucas mudanças e algumas frustrações.

13.4%

Nota-se que a grande maioria dos psicólogos da amostragem em questão, (86,6%) admitem aprender, ou até mesmo evoluir com o
paciente. Isto relaciona-se com a atuação do arquétipo do curador ferido, identificando-se muitas vezes com as feridas psíquicas
trazidas pelos pacientes. Estas permitem ao terapeuta a empatisar com maior facilidade com as questões de seus pacientes. Tem-se
ainda uma pequena amostragem que afirma que o trabalho na clínica, chegou a trazer algumas frustrações. Acredita-se que tais
frustrações se dêem pela falta de um significado para o sintoma do próprio terapeuta.

4- O que o motivou a ser terapeuta?

Categoria

Descrição

4.1

Amor a profissão e ao ser humano. Responsabilidade social

20%
4.2

Desejo inconsciente de curar a si próprio. As próprias neuroses

53.4%

4.3

Não era um projeto especifico, foi se revelando com o exercício da profissão de psicoterapeuta

6.6%

4.4

Uma espécie de instinto ou dom

6.6%

4.5

Enquadram-se nas categorias 4.1 e 4.2

13.4%

A grande maioria dos psicoterapeutas entrevistados, admitem ter escolhido a profissão por desejos conscientes ou inconscientes de
curar a si próprios - isto conforme a teoria junguiana, possibilitou o contato com seu próprio sofrimento e o entendimento do sofrimento
alheio. Entretanto se sua própria ferida não é reconhecida pode-se projetar ou buscar a cura no paciente, ele se torna um objeto na
mão do psicoterapeuta - e também aos outros.

Como no arquétipo do curador ferido, nota-se nos psicoterapeutas um amor à profissão e ao ser humano, um desejo inconsciente de
ajudar e estar disponível, são aspectos decisivos para a escolha da profissão. Porém e como um curador ferido, acreditam reconhecer
o sofrimento no outro por já terem saberem ou terem experiênciado também o sofrimento. Tem-se ainda os psicoterapeutas que
acreditam ter chegado a escolha da profissão, como se esta fosse um instinto, ou um dom, algo que já estava internalizado, como um
arquétipo.

Conclusão

Constata-se que o arquétipo do curador ferido, encontra-se mesmo presente, no dia-a-dia da psicologia clínica. Pois o psicoterapeuta
também é um ser humano com os mesmos sentimentos do paciente e que também sofre. Por isso o psicoterapeuta terapeutizado,
consegue um maior vínculo com seu paciente, pois quando se vê na posição de paciente, consegue reconhecer a dimensão ferida
que existe em todo psicoterapeuta.

O psicoterapeuta enfrenta sempre o desconhecido e o imponderável, transmitindo alento, oferecendo cura ou alívio, a partir do que
aprendeu na sofrida lida com fracassos e erros que é capaz de guardar só para si. Tal com em outras disciplinas ou profissões, na
psicoterapia o conhecimento se constrói em muito pela tentativa e erro, de tal forma que na história da psicologia, como na de cada
psicólogo individual, na luta com a vida, há um convívio com o sofrimento que para cada um é único e o mais importante no momento.

REMER - Terapia & Psicologia

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Rafael Leitoles Remer, Psicólogo CRP:08/09332

Auriculoterapeuta

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twitter: @rafaelleitoles

MSN: rafaelleitoles@hotmail.com

"O que você leva dessa vida,


é a vida que você leva..."
Referencias Bibliográficas

GUGGENBÜHL-CRAIG, A. (1971). “Power in the helping profession”. New York, Spring Publications

MEIER, C. A. (1959). “Projeção, transferência e a relação sujeito – objeto em psicologia”, em J. analyt. Psychol., 4, I.

KERÉNYI, K. (1959). “Asklepios archetypal image of the physician’s existence”. Bollingen series LXV-3, New York, Pantheon Books.

DOWNING, C. (org) “Espelhos do self: imagens arquetipicas que moldam a vida”. São Paulo: Cultrix, 1999.

JUNG, C. G. (1946) “A psicologia da transferência” em C. W. 16.

JUNG, C. G. (1968) “ Analytical Psychology, ets theory and practice”. New York, Ventage, Londres, Routledge.

BRANDÃO, J.S. (2000) “Mitologia Grega Volume II”. Petrópolis, Ed Vozes, 11º edição.

BRANDÃO, J.S. (2001) “Mitologia Grega Volume III”. Petrópolis, Ed Vozes, 11º edição.

GRIMAL, PIERRE (1912) “Dicionário de mitologia grega e romana”. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2000.

Este artigo tem por objetivo, relacionar o exercício da profissão de psicólogo clínico com a atuação do arquétipo do curador ferido no
próprio sujeito. Possui caráter exploratório relacionando através de pesquisa bibliográfica os dados coletados de questionários
respondidos por psicólogos clínicos com mais de três anos de atuação na área. As respostas dos questionários são categorizadas e
as categorias são relacionadas às características do arquétipo do curador ferido. Pressupõe-se que estas auxiliam os psicólogos em
determinados momentos de seu trabalho na psicologia clínica, pois acredita-se que o psicólogo ,enquanto curador ferido, por já ter
experiênciado a dor, empatisaria com maior facilidade a dor do seu paciente. Considera-se que o trabalho do psicólogo sobre suas
próprias feridas, faria com que essa sintonia pudesse acionar no paciente o seu próprio lado curativo, desta forma o desenvolvimento
pessoal do psicólogo torna-se um fator decisivo nesse processo, assim caberia ao psicólogo experienciar o poder curativo do próprio
Self, pois, como curador ferido, tornar-se-ia primordial que o psicólogo tenha sido iniciado antes de se tornar uma espécie de guia e
companheiro para seus pacientes, no processo de encontrar um significado para a ferida, tentando expor que os ferimentos não são,
via de regra, algo à serem superados, deixados para traz ou escondidos, mas seriam sim parte integrante de cada individuo. Este para
obter a verdadeira “cura”, deve primeiramente aceitar seus próprios padecimentos, conscientizando-se de que algumas feridas podem
ser curadas e outras não.

Palavras chave: Psicologia Analítica, Arquétipo, Curador Ferido, Terapeuta

1. Introdução

Em geral procedimentos psicoterápicos, têm como objetivo a cura ou então a amenização de algum sofrimento. Por mais que os
processos médicos e psicoterápicos tenham evoluído muito nos últimos anos, devemos buscar novamente as origens do processo de
cura para os psicoterapeutas, para que assim componham um quadro mais nítido do seu próprio trabalho.

Tal estudo faz-se necessário para uma maior reflexão sobre o que vem a ser a cura e a dor. Durante estes cinco anos de estudo da
psicologia, por uma abordagem junguiana, creio que a cura está no encontro de um significado para a doença, para tanto é necessário
ativar a imagem do curador ferido.

Pode-se perceber que quando compreendemos plenamente a experiência do sofrimento, adquirimos um maior grau de conhecimento
e sensibilidade, o que acaba por nos tornar capazes de entender melhor nossos pacientes e ajuda-los a superar suas próprias feridas.
Pressupondo, assim, que as características arquetípicas do curador ferido, poderiam auxiliar os psicólogos clínicos no seu trabalho
diário, pois aceitando e entendendo as próprias feridas eles ficariam em maior sintonia com as feridas do paciente, potencializando
assim a cura.

Pode-se dizer que o processo de cura psíquica é ainda um processo misterioso, porém, uma revisão criteriosa daquilo que
transparece no processo, poderia nos ajudar, enquanto psicoterapeutas, a nos tornarmos cada vez mais competentes em nossa
assistência e participação nesse “ritual” de cura ou amenização do sofrimento psíquico do outro.

2. Objetivos

2.1. Objetivo Geral

Relacionar a atuação do arquétipo do curador ferido proposto por C. G. Jung, no próprio psicoterapeuta no seu exercício da profissão
de psicólogo clinico.

2.2. Objetivos Específicos

Compreender como o processo de análise do psicoterapeuta influencia na sua prática clinica e no seu modo de ser psicoterapeuta.

Identificar a importância dada pelos psicoterapeutas do seu processo de análise pessoal na sua pratica da psicologia clínica.

Levantar como seu trabalho na psicologia clínica influenciaria em modificações no psicoterapeuta.

Refletir sobre os motivos que nos levam a escolher a profissão de psicoterapeuta.


3. Marco Teórico
3.1. Narração do Mito do Centauro Quíron

Segundo Brandão (2000 vol. II:p.90) Quíron, do grego Kheíron, nome que é, possivelmente uma abreviatura de Kheirurgós, “aquele
que trabalha ou age com as mãos”, cirurgião, pois que esse centauro foi um grande médico, que sabia muito bem compreender seus
pacientes, por ser ele um médico ferido. A palavra “Quíron” é raiz etimológica de cirurgia e significa “com a mão” (do grego chirurgia
“trabalho com as mãos”) (MEIER, 1967:p. 40) O mito de Quíron ocorre nas planícies da Tessália, região norte da Grécia, com o
encontro entre Cronos (Saturno o Deus do tempo) e a ninfa Filira. Atraído pela sua beleza, Cronos passou a perseguí-la e Filira, para
escapar do seu assedio, transformou-se em uma égua. Por ser filho de Cronos, Quíron pertencia à geração divina dos Olímpicos. Pelo
fato de Cronos ter-se unido a Filira sobre a forma de um cavalo, o centauro possuía dupla natureza: eqüina e humana.

Horrorizada ao ver o monstro que gerara, Filira suplicou aos deuses que a transformassem em uma árvore, desejo que foi
prontamente atendido. Rejeitado pela mãe e sem ter conhecido o pai, Quíron foi adotado por Apolo, o deus da música, da poesia, da
medicina e das profecias, que lhe transmitiu muitos e ricos ensinamentos.

O Centauro Quíron, vivia numa gruta, no monte Pélion e era um gênio benfazejo, amigo dos homens. Sábio, ensinava música, arte da
guerra e da caça, a moral, mas sobretudo a medicina. Foi o grande educador de heróis, entre outros, Jasão, Peleu, Aquiles e
Esculápio (GRIMAL 2001:p. 402).

Quando do massacre dos centauros por Hércules, Quíron, que estava ao lado do herói e era seu amigo, foi acidentalmente atingido
por uma flecha envenenada dele. O Centauro aplicou ungüentos sobre o ferimento, mas este era incurável.

Recolhido à sua gruta, Quíron desejou morrer, mas nem isso conseguiu, pois era imortal. Finalmente, após muitos anos, Quíron
conseguiu livrar-se de sua agonia, graças a uma troca de destino com Prometeu. Esse Titã fora acorrentado a um rochedo por Zeus,
como castigo por ter roubado o fogo dos deuses para dá-lo aos homens.

Como Quíron, também Prometeu, estava condenado a uma tortura eterna, pois todos os dias uma águia lhe bicava o fígado, que se
recompunha durante a noite. De acordo com as ordens de Zeus, Prometeu só poderia ser libertado se um imortal se dispusesse a ir
para o Tártaro ( um dos infernos) e lá permanecesse renunciando à sua imortalidade.

Convencido por Hercules, que intercedeu a favor do seu antigo mestre, Zeus concordou com a troca. Assim, Quíron tomou o lugar de
Prometeu que cedeu-lhe o direito a morte. E foi assim que Quíron pode encontrar repouso (GRIMAL, 2001:p. 402)

Conta-se que Quíron subiu ao céu sob a forma da constelação do sagitário, uma vez que a flecha em latim sagitta, a que se assimila o
sagitário, estabelece a síntese dinâmica do homem, voando através do conhecimento para sua transformação, de ser animal para ser
espiritual (Brandão 2000 vol. II:p. 90)

3.2. A Cura e O SIMBOLISMO DO Arquétipo do Curador Ferido

“Tudo em Quíron, o médico divino e ferido... o faz parecer a mais contraditória figura de toda a mitologia grega. Apesar de ser um
deus grego, sofre de uma ferida incurável. Além disso, a sua figura combina o aspecto animal com o apolíneo, pois apesar do seu
corpo de cavalo – configuração pela qual são conhecidos os centauros, criaturas da natureza, fecundos e destrutivos – é ele quem
instrui os heróis nas artes da medicina e da música (KERÉNYI, 1959)”.

Segundo Brandão (2001 vol. III:p. 26) pelo fato de Quíron ser um médico ferido, um xamã, e residir numa gruta evocam, de pronto,
sua função mais nobre e indispensável aos jovens “históricos”, mas sobretudo aos heróis míticos, a saber, a ação de fazê-los passar
por ritos iniciatórios, que outorgavam aos primeiros o direito à participação na vida política, social e religiosa da polis e aos segundos a
imprescindível indumentária espiritual, para que pudessem enfrentar a todos e quaisquer monstros...

De acordo com a mitologia grega, Quíron, metade homem, metade cavalo, passou por intensos sofrimentos e, embora tenha se
tornado um mestre nas artes curativas, jamais conseguiu tratar sua própria ferida, razão pela qual foi chamado de “O Curador Ferido”,
assim o relacionamos, com o tema da dor e da cura (DOWNIG, 1991: p.233).

O arquétipo do Curador Ferido, representa nossas feridas psicológicas mais profundas, ou seja, feridas que acabam por nos auxiliar
em determinados momentos da profissão de psicoterapeuta, pois certamente por já ter experiênciado a dor, empatisamos mais
facilmente à dor alheia . Por isso a idéias de ter sido ferido, ter sofrido ou adoecido, são pré requisitos para os que vão exercer do
papel de “curador”, pois “só o curador ferido cura” (DOWNIG, 1991: p.233).

A cura só pode ser encontrada quando aceita-se a dor e se dá a ela um significado. Olhando por esse prisma vemos que muitas
vezes o terapeuta precise por a nu uma dor oculta, pois se não experimentássemos a dor, talvez não tivéssemos a capacidade para a
bondade. A cura como integração psíquica, poderia, quem sabe, ter lugar e “bloqueios do desenvolvimento” que seriam removidos ao
se reviver, possíveis experiências traumáticas, em pequenas doses de emocionalidade. Em revisão à abordagem junguiana em
relação ao processo de cura, vemos que a cura procede do “encontro de um significado para a doença” ou quando “os sintomas se
integram em uma totalidade significativa” (MEIER, 1967: 128). O verdadeiro mestre está sempre aberto as dores do mundo, porque
ele também sofre. A figura de um curador ferido vem nos contar sobre o valor das inúmeras limitações, das feridas dentro de nós, que
embora nos causem sofrimento na vida cotidiana, de alguma forma, nos levam a questionar e a abrir caminho para um entendimento
maior a respeito das leis da vida. O paradoxo, vem na forma do próprio centauro, pois sendo metade deus, metade cavalo ele tem a
capacidade de compartilhar tanto o instinto como o espírito, contendo a dualidade própria da condição humana. Nunca seremos
totalmente animais e tampouco conseguiremos ser totalmente divinos, mas sempre uma mistura dos dois, pois aqui estamos para
aprender e conviver com ambas as partes. Dessa mistura vem a sabedoria do centauro, que compartilha do conhecimento de Deus,
bem como do conhecimento das leis naturais.

No mito Quíron recebe dos deuses, como recompensa pela sua atuação como curador o dom da imortalidade. Mas preferiu a morte,
aceitando-a de maneira nobre e tranqüila, uma vez que em vida não conseguiria curar-se de sua própria ferida. Vem daí outra
característica do Curador Ferido: a necessidade que nós temos de aceitar a mortalidade como parte da vida. Aponta também
situações nas quais lutamos incessantemente por algo – um ideal, um relacionamento, uma carreira, por exemplo – sem
conseguirmos nenhum resultado positivo, o que muitas vezes, nos leva a acreditar que a vida é uma sucessão de esforços inúteis,
que só trazem sofrimento (YOSHIKAWA, 1997).

Geralmente por traz dessas batalhas aparentemente sem sentido está a mensagem de que precisamos enfrentar o fim das coisas. O
conhecimento e a compreensão dos desígnios de nosso eu mais profundo. Assim como na mitologia, o grande centauro foi mestre de
muitos heróis, na vida ele representa o nosso guia interno, que nos revela o caminho e nossa jornada ao longo da vida.

Quando pensamos em um curador ferido, não podemos nos deixar atrair, pela figura de um curador curado. É o que Quíron
representa: o curador ainda ferido. Um paradoxo onde aquele que está sempre curando permanece eternamente ferido, parecendo,
assim, estar no centro do mistério da cura. O princípio desse mistério é “simplesmente o conhecimento de uma ferida também
experiênciada e de modo permanente, por aquele que cura” (KERÉNYI 1959:p.99). O que sugere que nossos ferimentos, não são
algo para superarmos, deixá-los para traz ou escondê-los. Nossos ferimentos são sim parte integrante de nós, ou seja, a aceitação de
nossos padecimentos faz parte da verdadeira saúde, assim como, a aceitação de que algumas feridas saram, e outras não.

3.4. A Postura do Psicoterapeuta e o Arquétipo do Curador Ferido

O psicoterapeuta “toma para si” as feridas do seu paciente, começando, assim a experimentar de maneira mais plena, o lado ferido da
imagem arquetípica. Isto faz ativar suas próprias feridas a sua vulnerabilidade à doença a nível pessoal ativa a sua conexão com a
imagem arquetípica do curador ferido (MEIER, 1959:p. 29).

No atendimento na clinica psicológica inclui-se que dentro do meu sistema psicológico, vou dedicar minha atenção, minha energia,
minha alma, para que esta pessoa alivie seu sofrimento, porque consideramos que este atinge pessoalmente. Quando um paciente
solicita nossos serviços a sua urgência maior é obter ajuda para a cura daquilo que o faz sofrer.

“Só quando o curador tiver sido tocado profundamente pela doença, infectado por ela, mobilizado, amedrontado, comovido; só quando
ela tiver se transferido para ele, continuando nele e obtido em referencial em sua própria consciência – só então e só nessa medida
poderá lidar com ela eficazmente” (JASPERS, 1964)

Porém, não é tarefa fácil determinar até que ponto, os psicoterapeutas, devem se envolver ao assumir a doença do paciente. Ele deve
estar o suficiente próximo para poder envolver-se, mobilizar-se e ficar atento às suas próprias feridas a fim de catalizar este processo,
sem perder de vista os perigos da inflação, de suas próprias limitações e até mesmo da possibilidade da sua morte.

O que temos então, é o analista de um lado fazendo papel de curador e o paciente fazendo papel daquele que é ferido. No
inconsciente, o trabalho do analista sobre suas próprias feridas fará com que esta sintonia possa, no paciente, acionar o seu lado
curador. O lado curador do paciente não é para curar o analista mas para curar a si próprio.

O paciente se apossa das forças curadoras do terapeuta, começando assim a vivenciar de forma mais clara o aspecto curador da
imagem arquetípica, o que ativa a própria potencia curativa do paciente que começa a tomar parte ativamente no processo
terapêutico. Distancia-se, cria novas perspectivas, começando, assim a participar também ativamente da cura. Fica carregado de
conteúdos do aspecto ferido do arquétipo do “médico interior”, assim a experiência de totalidade se constela.

“É um típico risco de insalubridade profissional para o terapeuta ser infectado fisicamente e envenenado pelas projeções às qual se
expõe. O terapeuta tem de ficar continuamente em guarda contra a inflação. Mas o veneno não o afeta apenas psicologicamente;
pode mesmo atacar o sistema simpático. Observei um bom numero dos mais extraordinários casos de doenças físicas entre
psicoterapeutas, doenças que não correspondiam aos sintomas médicos conhecidos e que eu atribuí ao efeito de um continuo ataque
de projeções, em relação as quais o analista não consegue discriminar sua própria psicologia. A condição emocional peculiar do
paciente tem um efeito contagioso. Quase que se poderia dizer que desperta vibrações idênticas no sistema nervoso do analista e,
por isso, da mesma forma que os psiquiatras, os psicoterapeutas tendem a tornar-se um pouco esquisitos. É um problema para se ter
sempre em mente. Está relacionado de maneira definida ao problema da transferência” (JUNG, 1968: p.172-173).

Guggenbühl-Craig sugere um arquétipo “médico/paciente”, que se faz presente toda vez que uma pessoa adoece. O enfermo procura
um doutor externo ou médico, mas o fator curador ,“intrapsiquico”, ou ainda “médico interior” são mobilizados da mesma forma. Até
mesmo se o “médico externo” for muito competente as feridas não serão curadas, enquanto não houver a ação do “médico interior”
(GUGGENBÜHL-CRAIG, 1971:p. 89-91).

Com freqüência ouvem-se explicações do tipo “sua resistência interna cedeu” ou “ele não estava querendo melhorar”. De um ponto
arquetípico de vista, é o médico interior que não está funcionando. Guggenbühl coloca essa questão nos seguintes termos: “Isto
significa psicologicamente que não somente o paciente tem um médico dentro de si mesmo, mas também que existe um paciente no
interior do médico” (1971.,p. 91)

“Ninguém leva o outro além de onde ele mesmo for” (JUNG, 1946: p.308). O desenvolvimento pessoal do terapeuta é então fator
decisivo no processo psicoterapeutico, ele próprio deve ter experiênciado o poder curativo do Self; como um curador ferido,
simbolicamente podemos colocar que deve ser iniciado antes de se tornar guia para os outros, isto é perceber seu lado de curador
ferido.

4. Metodologia

Este artigo, é de caráter exploratório, onde relaciona-se, através de uma pesquisa bibliográfica os dados que foram coletados, através
de questionários, que foram aplicados a psicólogos clínicos que tenham mais de 3 anos de atuação na área clínica. Os questionários
são constituídos de perguntas abertas e foram deixados em clinicas particulares e em CAPS à disposição dos psicólogos que se
interessassem em responde-los. Estas respostas coletadas através dos questionários, foram categorizadas e suas categorias foram
relacionadas com as características do arquétipo do curador ferido.
Os questionários foram respondidos no período de setembro e outubro de 2002. Ao todo foram distribuídos 75 questionários à
psicólogos de diversas linhas, porém só retornaram 15 questionários, portanto, trabalharemos com essa amostragem.

A idade dos psicólogos que responderam os questionários, varia entre 28 e 60 anos, temos uma média de idade de 39.93 anos
,destes, 60% são mulheres 40% são homens. O tempo de atuação na área clinica variou de 3 à 29 anos de prática, tendo uma média
de 13.73 anos de atuação.

5. Resultados

Quanto às linhas, 40% (N = 6) dos psicólogos que responderam os questionários, são psicanalistas, 26.6% (N = 4) são
psicodramatistas, 13,3% (N = 2) trabalham com a linha sistêmica, 6,6% (N = 1) psicodinâmica, 6,6% (N = 1) psicologia relacional e por
fim 6,6% (N = 1) seguem a psicologia analítica.

1- Como a terapia influenciou na sua prática clinica? No seu modo de ser terapeuta?

Categoria

Descrição

1.1

Modelo terapêutico, escolha da linha

20%

1.2

Com a aproximação pessoal do que faz sofrer o terapeuta, aprende-se a reconhecer o sofrimento no outro.

40%

1.3

Enquadram-se nas categorias 1.1 e 1.2

40%

Vemos, que não só os pacientes, mas também os psicólogos, vêem seus psicoterapeutas como “mestres”, pois seus psicoterapeutas
em 60% dos casos, os influenciaram na escolha da linha e no modelo terapêutico. Como vimos anteriormente, o verdadeiro mestre,
está sempre aberto às dores do mundo, porque ele também sofre.

A grande maioria dos psicólogos dessa amostragem, acreditam que o desenvolvimento pessoal do terapeuta é fator decisivo no
processo terapêutico, na interpretação junguiana segundo o arquétipo do curador ferido, ele próprio deve ter experiênciado o poder
curativo do Self; dentro da psicologia é fundamental que o terapeuta tenha sido iniciado no processo terapêutico, antes de se tornar
terapeuta (mestre) para os outros.

2- Para você qual a importância da terapia na prática clinica?

Categoria

Descrição

2.1

Procedimento ético, condição fundamental para o exercício da profissão e formação


40%

2.2

Perceber o que do paciente se identifica com o terapeuta aumenta a eficiência por estar menos comprometido.

26.6%

2.3

Fundamental para separar as questões pessoais com as do paciente para não atrapalhar o processo

13.3%

2.4

Enquadram-se nas categorias 2.1 e 2.2

6.6%

2.5

Enquadram-se nas categorias 2.2 e 2.3

13.3%

Pode-se observar o grande grau de importância dada pelos psicólogos à terapia na prática clinica, terapia esta, que é vista como
fundamental ou essencial para o exercício da profissão e da constante formação do psicólogo. Como um curador ferido é essencial
que o psicoterapeuta esteja consciente de suas feridas, aceitando-as, facilitando assim, a relação psicoterapeuta – paciente, onde o
psicólogo não se impõe como um ser onipotente, mas sim admite ser uma pessoa que sofre como seus pacientes.

Também pode-se observar a preocupação dos psicoterapeutas no que diz respeito, à separação de questões pessoais com as do
paciente para não atrapalhar o processo terapêutico e para haver certa proximidade com o outro sem confundir-se com ele a terapia
na prática clínica torna-se fundamental.

3- O trabalho na clinica chegou a muda-lo (a) pessoalmente? Como?

Categoria

Descrição

3.1

Aprendem com seus pacientes, casos instigam questões pessoais e pode-se assim, trabalhar algo que estava adormecido.

86.6%

3.2

Poucas mudanças e algumas frustrações.

13.4%

Nota-se que a grande maioria dos psicólogos da amostragem em questão, (86,6%) admitem aprender, ou até mesmo evoluir com o
paciente. Isto relaciona-se com a atuação do arquétipo do curador ferido, identificando-se muitas vezes com as feridas psíquicas
trazidas pelos pacientes. Estas permitem ao terapeuta a empatisar com maior facilidade com as questões de seus pacientes. Tem-se
ainda uma pequena amostragem que afirma que o trabalho na clínica, chegou a trazer algumas frustrações. Acredita-se que tais
frustrações se dêem pela falta de um significado para o sintoma do próprio terapeuta.

4- O que o motivou a ser terapeuta?

Categoria

Descrição

4.1

Amor a profissão e ao ser humano. Responsabilidade social

20%

4.2

Desejo inconsciente de curar a si próprio. As próprias neuroses

53.4%

4.3

Não era um projeto especifico, foi se revelando com o exercício da profissão de psicoterapeuta

6.6%

4.4

Uma espécie de instinto ou dom

6.6%

4.5

Enquadram-se nas categorias 4.1 e 4.2

13.4%

A grande maioria dos psicoterapeutas entrevistados, admitem ter escolhido a profissão por desejos conscientes ou inconscientes de
curar a si próprios - isto conforme a teoria junguiana, possibilitou o contato com seu próprio sofrimento e o entendimento do sofrimento
alheio. Entretanto se sua própria ferida não é reconhecida pode-se projetar ou buscar a cura no paciente, ele se torna um objeto na
mão do psicoterapeuta - e também aos outros.

Como no arquétipo do curador ferido, nota-se nos psicoterapeutas um amor à profissão e ao ser humano, um desejo inconsciente de
ajudar e estar disponível, são aspectos decisivos para a escolha da profissão. Porém e como um curador ferido, acreditam reconhecer
o sofrimento no outro por já terem saberem ou terem experiênciado também o sofrimento. Tem-se ainda os psicoterapeutas que
acreditam ter chegado a escolha da profissão, como se esta fosse um instinto, ou um dom, algo que já estava internalizado, como um
arquétipo.

Conclusão

Constata-se que o arquétipo do curador ferido, encontra-se mesmo presente, no dia-a-dia da psicologia clínica. Pois o psicoterapeuta
também é um ser humano com os mesmos sentimentos do paciente e que também sofre. Por isso o psicoterapeuta terapeutizado,
consegue um maior vínculo com seu paciente, pois quando se vê na posição de paciente, consegue reconhecer a dimensão ferida
que existe em todo psicoterapeuta.

O psicoterapeuta enfrenta sempre o desconhecido e o imponderável, transmitindo alento, oferecendo cura ou alívio, a partir do que
aprendeu na sofrida lida com fracassos e erros que é capaz de guardar só para si. Tal com em outras disciplinas ou profissões, na
psicoterapia o conhecimento se constrói em muito pela tentativa e erro, de tal forma que na história da psicologia, como na de cada
psicólogo individual, na luta com a vida, há um convívio com o sofrimento que para cada um é único e o mais importante no momento.
REMER - Terapia & Psicologia

www.remerterapias.com.br

Rafael Leitoles Remer, Psicólogo CRP:08/09332

Auriculoterapeuta

(41) 8419-1966

(41) 3082-8778
www.rafaelpsicologia.blogspot.com

twitter: @rafaelleitoles

MSN: rafaelleitoles@hotmail.com

"O que você leva dessa vida,


é a vida que você leva..."

Referencias Bibliográficas

GUGGENBÜHL-CRAIG, A. (1971). “Power in the helping profession”. New York, Spring Publications

MEIER, C. A. (1959). “Projeção, transferência e a relação sujeito – objeto em psicologia”, em J. analyt. Psychol., 4, I.

KERÉNYI, K. (1959). “Asklepios archetypal image of the physician’s existence”. Bollingen series LXV-3, New York, Pantheon Books.

DOWNING, C. (org) “Espelhos do self: imagens arquetipicas que moldam a vida”. São Paulo: Cultrix, 1999.

JUNG, C. G. (1946) “A psicologia da transferência” em C. W. 16.

JUNG, C. G. (1968) “ Analytical Psychology, ets theory and practice”. New York, Ventage, Londres, Routledge.

BRANDÃO, J.S. (2000) “Mitologia Grega Volume II”. Petrópolis, Ed Vozes, 11º edição.

BRANDÃO, J.S. (2001) “Mitologia Grega Volume III”. Petrópolis, Ed Vozes, 11º edição.

GRIMAL, PIERRE (1912) “Dicionário de mitologia grega e romana”. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2000.