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BREVES REFLEXÕES SOBRE A REVOLTA DOS MALÊS – 1835

Salvador, a histórica capital da colônia lusitana em terras americanas, transformou-se,


desde a sua fundação, em 1549, numa cidade-entreposto, numa cidade-fortaleza,
atendendo aos reais objetivos de exploração e de povoamento estipulados pela Coroa
Portuguesa, no bojo de suas frequentes disputas sob o sistema mercantil-capitalista.

Após a inicial exploração do trabalho indígena e até com este, durante algum tempo,
convivendo, dar-se-ia, em maior e mais cruel escala, a exploração do trabalho negro,
fundamentado no modo de produção escravista, quando levas e levas de africanos aqui
aportaram e que, além de significarem valiosa mercadoria para os seus ambiciosos
senhores, se constituiriam na principal força de trabalho que então permitiu a Portugal
extrair, sem regras, todas as possíveis riquezas da sua imensa colônia, o Brasil. E a
implantação das lavouras de cana, objetivando-se a obtenção do açúcar – produto,
naqueles tempos, bastante cobiçado no chamado mundo europeu – foi a bola da vez!

No trânsito desses longos anos de exploração escravista, quando exaustivos eram os


trabalhos, frequentes os castigos, sejam preventivos ou punitivos, desumanas as
despersonalizações infringidas aos negros cativos, quase sempre mal alimentados e
vítimas dos mais cruéis constrangimentos, também eles responderam de várias formas a
tal sistema injusto e insano. Alguns buscaram as possíveis negociações com seus feitores
ou senhores, na esperança de conquistarem melhor tratamento, mas outros optaram pelo
enfrentamento, lutando de diversas maneiras em prol de suas ansiadas liberdades.

Dentre as várias formas de resistência à escravidão, a rebelião coletiva foi, em diversas


cidades, vilas e fazendas do Brasil escravista, a que mais estragos materiais e pânico
causaram aos senhores e aos brancos livres em geral, apesar de a maioria delas ter
custado as vidas de muitos dos rebelados.

Salvador, assim como as principais vilas do chamado Recôncavo Baiano, a exemplo de


Nazaré, Cachoeira e Santo Amaro – que concentravam imensa escravaria, pois que nelas
se encontravam os maiores e mais produtivos engenhos açucareiros! - foram palco
constante de algumas dessas incômodas e violentas rebeliões, quando escravos de
diferentes etnias ensejaram, desesperadamente, as suas lutas pela liberdade ou, às vezes
até, apenas por melhores e mais humanas condições de trabalho e de vida. Ao mesmo
tempo, a primeira metade do século XIX, especialmente na Bahia, foi marcada por vários
conflitos envolvendo significativos contingentes da população livre e pobre, os quais
reivindicavam, cotidianamente, a baixa dos preços dos produtos básicos da alimentação,
reclamavam dos parcos salários e, sobretudo, do desemprego. Assim, além dos escravos
padecerem os mais duros sofrimentos e não possuírem direitos, portanto razões
suficientes para se rebelarem, eles também perceberam que os brancos livres, pobres e
ricos, estavam divididos, vivenciando os seus constantes conflitos, momento, sem dúvida,
propício para tirarem proveito de tal quadro de desagregação social e,
conseqüentemente, exibirem, com coragem e determinação, as suas caras nas ruas.

A Rebelião dos Malês, transcorrida em 1835, foi aquela que mais surpresa, indignação,
medo e mesmo terror causou à sociedade baiana naquela conturbada primeira metade
do século XIX. Alguns fatos contribuíram decisivamente para tal estado de pânico ter se
instalado em Salvador, relativos, portanto, a esta rebelião. Eis alguns: a descoberta de
uma verdadeira rede conspiratória, pois que, na véspera da data agendada para a eclosão
do movimento rebelde – no amanhecer do dia 25 de janeiro - negros fugidos de alguns
engenhos do Recôncavo já se encontravam, inteligentemente escondidos, em veleiros e
pequenos barcos ancorados no cais do Porto, prontos para guerrearem quando do
alvorecer, momento em que muitos escravos da cidade saíam das casas de seus senhores
para pegar água nas fontes públicas e, aí, seriam convocados para a revolta. Isto sem
dúvida revelou às autoridades que uma preparação havia se dado, ou seja, que os líderes
da revolta a ser desencadeada mantiveram previamente contatos com seus parceiros
cativos nas fazendas do Recôncavo e os convocaram para a luta! Outro elemento
importante no processo foi a união de algumas etnias que então se dispuseram para o
combate, o que não era muito freqüente. Isso, é claro, trouxe muita preocupação e
desespero aos senhores escravistas e aos brancos em geral. Também o fato da liderança
rebelde está nas mãos dos chamados malês – negros islamizados – contribuiu para aquele
medo, uma vez que se sabia serem tais negros, em sua grande maioria, letrados e
competentes para traçarem planos perigosos contra a dita ordem escravista vigente.
Some-se a tais fatores a ousadia de se planejar e executar uma rebelião no coração da
capital, portanto no centro principal do poder escravista e sede do governo, naturalmente
a mais policiada e populosa cidade da Província Baiana!

Infelizmente, para os negros rebeldes, a rebelião foi, também na véspera da data


combinada, delatada por negros libertos, os chamados forros. Em razão disso, a repressão
foi, em tempo hábil, ativada e, com inegável capacidade, massacrou, nas ruas e praças de
Salvador, aos negros que, ainda que previamente delatados e tendo frustrado o seu plano
de luta, enfrentaram as tropas militares e aos muitos brancos voluntários. A repressão foi
letal! Os combates se deram por quase toda a cidade, numa luta desigual de “balas contra
lâminas”. Poucos rebeldes, já exaustos e cientes de sua derrota ante as forças repressoras,
conseguiram fugir, embrenhando-se nas matas e desaparecendo da cidade. Houve
notícias de negros, famintos e estropiados, terem alcançado as terras da Província de
Sergipe. Aqueles que sobreviveram no campo da luta, muitos inclusive gravemente
feridos, padeceram castigos e torturas nas prisões, não raro supliciados nas praças
públicas para servirem de exemplo, sendo desumanamente açoitados. Outros, em razão
do agravamento de seus ferimentos e/ou dos maus tratos recebidos, morreram nas
próprias cadeias. Alguns, depois de castigados, foram degredados. Na verdade, após a
eclosão e o massacre da Revolta dos Malês, um clima de ódio se estabeleceu na Bahia,
especialmente contra os escravos africanos e mais ainda, dentre estes, é lógico,
direcionado aos adeptos do Islã. Evidentemente que tal acontecimento também muito
contribuiu para o aumento do preconceito direcionado ao elemento negro, sentimento
que até os dias de hoje ainda paira no seio da nossa sociedade.

R. Dantas
Historiador/Documentarista
UNEB / 2018

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