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Aprendendo e ensinando uma nova lição

Roteiro na reflexão sobre Educação Popular e Metodologia Popular EDUCAÇÃO (Adapt. de C. Brandão)
A educação é uma das maneiras que as pessoas criam
A PARTEIRA para tornar comum, como saber, idéia, crença sobre o que é
Imagina-te como uma parteira. Acompanhas o comunitário enquanto bem, trabalho ou vida. Pode existir
nascimento de alguém, sem exibição ou espalhafato. imposta por um sistema centralizado de poder que usa o saber
Tua tarefa é facilitar o que está acontecendo. Se deves e o controle sobre o saber como armas que reforçam a
assumir o comando, faze-o de tal modo que auxilies a desigualdade entre os homens, na divisão dos bens, do
mãe e deixes que ela continue livre e responsável.
trabalho, dos direitos e dos símbolos.
Quando nascer a criança, a mãe dirá com razão: nós
duas realizamos esse trabalho. A educação é uma fração do modo de vida dos
Lao Tse, século V a. C. grupos sociais que criam e recriam uma cultura. Produzem e
praticam formas de educação para que elas reproduzam, entre
ABERTURA todos os que ensinam e aprendem o saber das palavras,
A finalidade deste roteiro é recordar (= passar, de novo, códigos sociais, regras de trabalho, segredos da arte, religião e
pelo coração), de forma compartilhada, um conjunto de da tecnologia que qualquer povo precisa para reinventar a vida
convicções, posturas, caminhos e sonhos, acalentados e do grupo e dos sujeitos, sempre. Através de trocas sem fim a
saboreados (de sapere = saber, degustar), na rica trajetória da educação ajuda a explicar, às vezes a ocultar, e inculcar a
Educação comprometida com a causa popular e a necessidade da existência de uma ordem.
Solidariedade.
Tocando em frente - A. Sater e R.Teixeira
Aula de vôo - (Mauro Iasi) Ando devagar porque já tive pressa
O conhecimento caminha lento feito lagarta. E levo este sorriso porque já chorei demais
Primeiro não sabe que sabe Hoje, me sinto mais forte, mais feliz quem sabe
e, voraz, contenta-se com cotidiano orvalho Só levo a certeza de que muito pouco eu sei e nada sei
deixado nas folhas vividas das manhãs Conhecer as manhas e as manhãs
Depois pensa que sabe e, se fecha em si mesmo: O sabor das massas e das maçãs
faz muralhas, cava trincheiras, ergue barricadas. É preciso amor prá poder pulsar
Defendendo o que pensa saber, É preciso paz prá poder sorri
levanta a certeza na forma de muro, É preciso chuva para florir.
orgulhando-se do seu casulo. Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Até que maduro explode em vôos Conhecer as marchas e ir tocando em frente
rindo do tempo em que imaginava saber, Como um velho boiadeiro levando a boiada
ou guardava preso o que sabia. Eu vou tocando os dias
Voa alto sua ousadia, Pela longa estrada eu sou, estrada eu vou.
reconhecendo o suor dos séculos, no orvalho de cada dia. Todo mundo ama um dia, todo mundo chora.
Mesmo o vôo mais belo descobre um dia não ser eterno. Um dia a gente chega, o outro vai embora.
É tempo de acasalar, voltar à terra com seus ovos, Cada um de nós constrói a sua história.
à espera de novos e prosaicos lagartos E cada ser em si carrega o dom de ser capaz e ser feliz
O conhecimento é assim, ri de si mesmo e de suas certezas. Ando devagar porque já tive pressa
É meta da forma, metamorfose, movimento, fluir do tempo, E levo este sorriso porque já chorei demais
que tanto cria como arrasa, Cada um de nós compõe a sua história
e nos mostra que para o vôo, E cada ser em si carrega o dom de ser capaz e ser feliz.
é preciso tanto o casulo como a asa.
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EDUCAÇÃO POPULAR Por isso, precisa refletir sobre o que sabe (não sabe que
1. Educação Popular difere radicalmente de treinamento ou da sabe) e incorporar o acúmulo científico e teórico da
simples transmissão de informações. Significa a criação de prática social.
um senso crítico que leve as pessoas a entender,  Educação Popular é um instrumento que
comprometer-se, elaborar propostas, cobrar e desperta, qualifica e reforça o potencial popular em sua
transformar(se). luta para romper a lógica do capital e construir uma
2. Não é um discurso acadêmico sobre um método, nem um alternativa solidária.
produto acabado ou uma receita simples e mágica.  O amor pelo povo é uma pré-condição para
3. Não se confunde com dinâmicas de grupo usadas como entrar neste processo de formação, pois, é entrega
instrumento tático para atrair pessoas. Elas são recursos gratuita e solidária distinta de qualquer forma de piedade
necessários para estimular a participação e a cooperação. ou martírio. É um jeito de fazer política onde as
4. Não é um método fácil que populariza a complexidade, pessoas colocam sua alma. Mesmo sabendo que o povo
embora faça o esforço criativo de traduzir conceitos carrega muitas contradições, a educação popular tem
abstratos em linguagem cotidiana, metáforas e símbolos. que ser uma paixão carregada de indignação contra a
injustiça e cheia de ternura pelo povo e por tod@s se
 Educação Popular é um processo coletivo de dispõem à construir um mundo sem a marca da
produção e socialização do conhecimento que dominação. Uma vez apaixonad@, @ amante descobre
capacita, educadores e educandos a ler criticamente a um jeito de agradar a pessoa amada, contribuindo para
realidade sócio-econômica-política-cultural com a que as pessoas se desenvolvam plenamente como
finalidade de transformá-la. gente e como povo e cujo maior sinal é a militância e o
 Como apropriação crítica dos fenômenos e companheirismo.
suas raízes permite o entendimento dos momentos e do
processo da luta de classes presente na sociedade. CONCEPÇÃO METODOLÓGICA da Ed. Pop.
Essa consciência crítica contribui para quebrar todas A metodologia pode ser indutiva quando olha as partes
as formas de alienação, possibilitando a descoberta do e, por um processo de síntese (clarificar, sistematizar, perceber
real e sua superação, a criação de uma estratégia, do a lógica), supera a alienação e apreende o todo. Ou pode ser
novo, do futuro, da vida, sempre. dedutiva, quando parte do geral e chega a entender as
 Educação fala de um caminho político- particularidades influenciadas pelo global. Nos dois casos, é
pedagógico que exige o envolvimento co- indispensável que o caminho seja participativo. Para superar
responsável de todas as pessoas participantes, na qualquer forma de endoutrinamento (dogmatismo) é
construção, apropriação e multiplicação do indispensável que haja a interação de quatro balizas básicas:
conhecimento. Essa experiência de aprender e ensinar ⇒ O querer dos educadores com sua mundivisão e opção de
só poderia interessar ao oprimido já que no capitalismo vida, limites, acúmulo de conhecimento da prática social que
não há lugar para ele e que só ele pode libertar-se e ao carregam (teoria). Entender os conceitos do depósito
libertar-se, liberta também seu opressor. histórico é uma exigência para poder desmontá-los e recriá-
 Popular fala da opção pelo pólo oprimido na los. O educador é um pólo do diálogo que, em geral, toma
luta de classes. Seu ponto de partida é a convicção de a iniciativa do processo. Nem é o guia genial que faz a
que o povo tem um saber, ainda que parcial e cabeça, presente no discurso autoritário e vanguardista,
fragmentado, mas carrega em si o dom de ser capaz.
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nem o acessório. Sua tarefa é educar - ex-ducere=extrair, interesse em superar a atrofia física, mental e cultural a que
assessorar, facilitar o acesso à, ajudar a sistematizar. foram submetidas e que a emancipação começa por quem
⇒ A necessidade dos educandos que se manifesta nas se dispõe a um processo de transformação individual e
experiências particulares construídas e demandas social.
apresentadas como anseio e reivindicação. O educando é ⇒ Um caminho que tem como ponto de chegada a
parte distinta e integral com necessidades, anseios, autoestima das pessoas, a compreensão da necessidade de
fantasias, limites, saberes, valores, ritmos, sexo, idade, unir esforços, a organização e a luta para a conquista de
raça... Nunca depósito, cliente, objeto de manipulação; direitos e para assumir como sujeitos o seu destino coletivo.
nem o “sabe-tudo” do discurso basista. ⇒ Na prática, caminho, convicção e objetivo, mesmo sendo
⇒ O contexto onde se dá o processo - o processo educativo diferentes, cada um é começo, meio e fim, pois carecem do
acontece com pessoas situadas, mergulhadas numa teia de outro, numa relação de interdependência.
relações econômicas, históricas, culturais, religiosas, PROCESSO POLÍTICO PEDAGÓGICO
interpessoais, políticas e sociais. O diálogo se realiza num A Educação Popular se realiza através das atividades
contexto estrutural e conjuntural conflitivo que facilita ou formativas que partem das necessidades sentidas, das ações
coloca obstáculos. É aí que o educador popular propõe a praticadas e sempre em sintonia com as diversas dimensões
ousadia contra o possibilismo e sem cair no das pessoas envolvidas. Sua tarefa é relacionar o saber
voluntarismo. popular (empírico) com a reflexão teórica (saber científico),
⇒ O contrato entre as partes uma combinação entre as integrando a dimensão micro (imediata) com a dimensão
partes para a construção de uma proposta e a definição de macro (estratégica).
responsabilidades. Isto contribui para evitar o utilitarismo de Como processo permanente busca concretizar
uma parte ou de outra. O contrato se inspira na convicção convicções, princípios e valores das pessoas para que
que produz a postura e a prática do intercâmbio, onde as respondam adequadamente, em cada conjuntura histórica.
partes, numa relação dialética, se envolvem como Porém, esperar resposta espontânea do povo pode significar
protagonistas da causa popular, mesmo exercendo papéis uma postura tão autoritária quanto a imposição, pois, revela
específicos de parturiente, de filh@ ou de parteira. uma visão mecanicista ou basista. Por isso, o papel da
METODOLOGIA educação popular é:
Muitas vezes, as pessoas falam em metodologia 1) Ajudar, despertar e estimular o educando para fazer a
pensando nas dicas de como fazer as coisas, nos pergunta certa e buscar respostas, sabendo que fazer a
procedimentos e dinâmicas de grupo ou ainda ou na seqüência pergunta certa pressupõe o conhecimento de uma teoria.
de como deve seguir uma atividade. Acentua-se assim o 2) Criar as condições para fazer a pergunta que significa
caminho enquanto uso de técnicas participativas. Mas, a desenvolver um pensamento crítico e dialético para
Metodologia Popular que serve à causa popular tem a ver avaliar a coerência da prática social concreta com a
com: teoria.
⇒ Um caminho onde educadores tomam uma postura 3) Incentivar a prática tendo claro que tomar consciência
respeitosa e sugerem formas de participação e de não significa tomar posição na luta social. Será
colaboração. necessário aplicar o conhecimento científico a processos
⇒ Um caminho que tem como ponto de partida a convicção concretos da luta social, aliado à capacidade de fazer
que toda pessoa é capaz, que as pessoas desenvolvem propostas justas (adequadas a cada momento).
diferentes capacidades, que as pessoas oprimidas têm
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cidadania ativa, ampliação dos direitos...que aprofundam
“Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não processos de controle social e democratização do
existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e Estado.
fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente
de fogo sereno, que nem percebe o vento e gente de fogo louco
• Garantia de processo permanente e multiplicador de
que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não formação para e com todos os educadores e o
alumiam nem queimam: mas outros incendeiam a vida com voluntariado.
tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem • Articulação com iniciativas de agitação cultural que
pestanejar e quem chegar perto pega fogo”. Ed. Galeano, “O livro ajudem a resgatar e respeitar os diferentes hábitos e
dos Abraços”.1989.
culturas alimentares, as múltiplas tradições da cultura
EFICIÊNCIA EFICÁCIA popular (em suas expressões de resistência e
1. O processo educativo anima e apaixona porque resgata o inventividade) assim como trabalhos ambientais e de
elemento da identidade e da dignidade (autoestima). medicina popular.
2. Mobiliza porque rompe com a situação de dormência e a Orientações pedagógicas (Adapt. de doc. Talher)
sensação de impotência gerada pela dominação A partir da intencionalidade contida no Programa e da
(individualismo, consumismo e fatalismo). Mobilização Social necessária para sua implementação, dos
3. Capacita e qualifica, política e tecnicamente a militância referenciais metodológicos e da perspectiva de ação
para atuar na realidade social, com experimentação, transformadora da realidade social, deve-se observar os
apropriação do conteúdo e do método. seguintes procedimentos metodológicos:
4. Provoca a multiplicação criativa e ousada a partir de uma - Aproximação e conhecimento da realidade social onde se
parte (militantes, direções, educadores) que têm como meta vai desenvolver o trabalho, na perspectiva da educação
a massividade, para atingir a realidade mais geral. popular e afinado com a metodologia da observação
 Incentiva e contribui na canalização de processos legítimos participante, cultivando uma atitude de abertura, de escuta
de luta pela emancipação e pela vida. para a construção de diagnósticos das realidades locais,
 Facilita a articulação de práticas populares no rumo de um fomentando a solidariedade e o espírito de militância dos
Projeto Alternativo e popular. grupos com quem se entra em contato;
Referências metodológicas (Adapt. de doc. Talher). - Mobilização social que faça convergir os esforços de
• Envolvimento das pessoas numa dimensão de articulação e formação (encontros, seminários, oficinas,
integralidade da vida, com vistas à sua libertação, reuniões formativas, grupos de estudos, círculos sociais
emancipação e afirmação como sujeitos sociais. interativos, intercâmbios de experiências, mutirões e
• Produção de fermentação social e mobilização política caravanas de formação popular e mobilização social),
no âmbito da sociedade para fortalecer ações coletivas movidas pelo programa concreto, ligado à defesa da vida;
no enfrentamento de seus problemas e na construção de - Desenvolvimento de processos educativos que articulem a
soluções que expressem o poder da população. teoria com as práticas sociais, as entidades e agentes
• Estímulo e reforço da mobilização social como processo envolvidos com diferentes modalidades formativas,
de prática da liberdade e transformações de cunho instrumentos didático-pedagógicos e comunicação de
estrutural. massa, cultura popular de resistência e reinvenção das
relações econômicas, sociais e culturais, ambientais...
• Apoio às iniciativas de construção de espaços de
participação popular, gestão democrática, afirmação da
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- Construção coletiva do conhecimento fundamentada no
processo dialético prática-teoria-prática, associando a
dimensão do conhecimento da realidade com
sistematização permanente das experiências e
conhecimentos adquiridos nos processos de articulação,
formação e mobilização, concretizando o “aprender com a
prática”.
- Articulação das forças sociais visando a estruturação de
redes de educadores populares, entidades e movimentos
sensíveis à necessidade de mobilização social para um
amplo mutirão nacional em defesa da vida;
- Planejamento das diferentes ações e atividades que
potencializem a dimensão educativa da ação, fazendo da
articulação e da formação um fator efetivo da mobilização
social e monitorando o plano com avaliações regulares.
Ranulfo Peloso, Cepis, SP.
Maio de 2003.