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CRÍTICA DA VIOLÊNCIA –

RELAÇÕES COM A MORAL, O DIREITO E O PODER

(projeto e subprojetos)

SUMÁRIO

Crítica da violência: relações com a moral, o direito e o poder 2


Resumo 2
Objetivo Geral 3
Objetivos Específicos 3
Resultados Esperados 3
Justificativa 3
Metodologia 6
Infraestrutura disponível 8
Revisão de Literatura 8
Referências Bibliográficas 16
Gênero e violência ética em Judith Bubler 19
Resumo 19
Objetivo geral 19
Objetivos específicos 19
Revisão de Literatura 20
Metodologia 21
Referências 22
Linguagem e violência a partir de Nietzsche 23
Resumo 23
Objetivo Geral 23
Objetivos específicos 23
Revisão de Literatura 23
Metodologia 25
Referências Bibliográficas: 26
Precarização da vida e sexualidade em Butler 28
Resumo 28
Objetivo Geral 28
Objetivos específicos 28
Revisão de Literatura 29
Metodologia 30
Referências Bibliográficas 31
- Resultados Esperados [exemplo] 31
- Cronograma de Atividades para o Candidato [exemplo] 32

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Crítica da violência: relações com a moral, o direito e o poder

Prof. Dr. Alan Sampaio

Projeto de pesquisa
2019/2023

Resumo

O vasto campo da moral abrange, em ato e representação, nossa vida, nosso eu e tu, nós
e eles, o valor dos atos, das coisas, do mundo, o modo mesmo do reconhecimento. As
expressões estão carregadas de moralidade, os atos impregnados de juízos, as coisas, de
estimas. Apesar de valores e sentimentos concernirem claramente ao campo moral, é-
nos impossível traçar seus limites de modo claro e distinto. Do mesmo modo, conceitos
a ela relativos, como os de bem e mal, ou de violência e justiça. Em especial, em relação
à violência, a opacidade das coisas morais se mostra ainda mais densa e obscura, de
difícil discernimento. O papel de uma crítica da violência, em todo caso, é encontrar
formas de inteligibilidade do fenômeno, que permitam antes de tudo reconhecê-la
enquanto tal, a fim elencar suas condições de possibilidade e os enquadramentos da vida
que a precarizam como passível de violência. Do mesmo modo, quais mudanças se
deram no enquadramento da vida que tornam possíveis a preocupante escalada da
violência. Não existe, pois, como se sabe, a coisa violência ou a coisa justiça. A palavra
“violência” não designa algo, senão uma qualidade. Tanto Benjamin quanto Arendt
reconhecem que “A própria substância da ação violenta é regida pela categoria meio-
fim” (ARENDT, 2009, p. 18); “a violência pertence à esfera dos meios, não dos fins”
(BENJAMIN, 2013, p. 122). Violência é o modo do ato, o caráter da força, um meio
para um fim. A violência é expressão de poder (ou de sua perda). Ainda que violência
não coincida com poder, a ele está associado e é uma expressão sua, como, de outro
modo, do direito, que reclama a exclusividade da violência para si, e pertence à esfera
da moral, associada diretamente ao conceito de justiça, como contrário seu. Por outro
lado, ela afeta diretamente a saúde, com números alarmantes – mesmo assim, as
relações entre violência e saúde não são tematizadas agora no começo da pesquisa. A
crítica da violência que propomos aqui busca formas de inteligibilidade do fenômeno;
questiona sobre o conceito de violência, sua abrangência e tipos, sobre suas relações
com a moral, o direito e o poder; examina seus argumentos e legitimações sociais; além
de promover a fabricação de cartilha de divulgação de dados e resultados ou paradigmas
por nós estudados, fazendo uso de quadrinho e ilustrações, através do projeto de
extensão Marte-SSA: Quadros de Violência, associado a esse projeto de pesquisa.
Partimos aqui do debate sobre a violência entre os filósofos e teóricos desde Nietzsche:
Walter Benjamin, Adorno, Hannah Arendt, Emmanuel Lévinas, Frantz Fanon, Jean-
Paul Sartre, Michel Foucault, Giorgio Agamben, Judith Butler, Slavoj Žižek, Angela

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Davis, Heleieth Saffioti, dentre outros. Neles encontramos princípios, conceitos,
argumentos próprios a esclarecer o fenômeno e, espera-se combatê-lo. Paralelo ao
estudo bibliográfico, o grupo de pesquisa – formado por bolsistas de IC, orientandos de
TCC, monitor de extensão e orientador – deve problematizar a violência noticiada pela
grande mídia e os dados sobre os números das diversas formas de violência. Cremos
que o debate teórico ganha densidade quando pode ser visto refletido na ordem do dia, e
esta é mais bem compreendida pelos conceitos e paradigmas da teoria.

Objetivo Geral

Realizar uma crítica da violência a partir de suas relações com a moral, o direito e o
poder.

A crítica da violência aqui busca formas de inteligibilidade do fenômeno; questiona


sobre o conceito de violência, sua abrangência e tipos; sobre suas relações com a moral,
o direito e o poder; examina seus argumentos e legitimações sociais. Realiza isso
através do estudo das considerações sobre a violência de filósofos e teóricos como
Nietzsche, Walter Benjamin, Hannah Arendt, Emmanuel Lévinas, Frantz Fanon, Michel
Foucault, Giorgio Agamben, Judith Butler, Slavoj Žižek, Angela Davis, dentre outros.

Objetivos Específicos

1) Descrever as formas gerais dos enquadramentos de violência;


2) Apontar para os enquadramentos que tornam possíveis as formas assimétricas de
reconhecimento;
3) Refletir criticamente sobre os atos de violência enquadrados pela grande mídia.
4) Refletir criticamente sobre o apelo da não violência;

Resultados Esperados

1) Orientações de IC;
2) Orientações de TCC;
3) Orientações de PIBID;
4) Palestras, comunicações e minicursos;
5) Cartilhas informativas em PDF, difundidas por meios virtuais (quiçá impressos),
sobre dados da pesquisa ou paradigmas de violência;
6) Artigos publicados em uma revista acadêmica.

Justificativa

Suicídio; Homicídio; Feminicídio; Linchamento; Estupro; Agressões de todos os tipos,


incluindo a da justiça no encarceramento e, antes, a das forças policiais – todas as
formas de violências cresceram segundo o Atlas da violência 2018 (Ipea e Fórum

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Brasileiro de Segurança Pública) e o Mapa da violência (de Julio Jacobo Waiselfisz).
Não há, portanto, exagero em afirmar que nos tornamos mais violentos, apesar de toda a
ode à paz entoada na grande mídia. A questão que colocamos enquanto filósofos é quais
enquadramentos das pessoas ou populações as tornam passíveis de sofrer agressões.
Começamos por buscar um conceito de violência que permitisse compreendê-la nesse
alcance que nos toca, e no instiga à ética.

Os conceitos de violência de Heleieth Saffioti (Gênero patriarcado violência) e de


Johan Galtung (Violência estrutural) têm algo semelhante entre si e com o de Judith
Butler. Apesar de declarar como inusual em sua pesquisa, Saffioti (2015, p. 79) toma “o
conceito de violência como ruptura de diferentes tipos de integridade: física, sexual,
emocional, moral.” Segundo Galtung (1975, p. 9, apud HAN, 2018, p. 160), “Acontece
violência sempre que as pessoas são influenciadas de tal modo, que sua realização
somática e espiritual são menores do que sua realização potencial”. Byung-Chul Han
(Topologia da violência) se opõe ao conceito de Galtung por sua amplitude, como, de
outro modo, Saffioti (2015, p. 80) renega seu conceito por considerar que “a ruptura das
integridades como critério de avaliação de um ato violento situa-se no terreno da
individualidade”; “cada mulher o interpretará singularmente”, e usa o conceito de
violação dos direitos humanos, decerto mais restrito e comensurável.

Perde-se, porém, algo com a reserva operatória. Por exemplo, não há, obviamente,
violação dos direitos humanos na diferenciação de brinquedos e jogos por gênero, mas
não aí há nenhuma violência?! A partir do exemplo, entendemos como semelhantes os
conceitos de ruptura da integridade e de depauperamento da potência, e, do mesmo
modo, a precarização da vida. Além de degradar as potencialidades, precarizar
habilidades, que deixam de se desenvolver graças à diferenciação, o exclusivismo das
brincadeiras gera problemas de gênero, que podem desencadear até agressões físicas no
ambiente familiar e público; em outras palavras, pessoas são feridas em sua integridade
física e moral, e emocional, esta que acompanha sempre qualquer forma de violência.
De outro modo, pode-se dizer que na fabricação de brinquedos há racismo estrutural, o
qual denuncia, por exemplo, Larissa Luz (Bonecas pretas), quando canta:
Um caso contestável/ Direito questionável/ Necessidade de ocupar/ Invadir as
vitrines, lojas principais/ Referências acessíveis é poder pra imaginar/ Mídias
virtuais/ Anúncios constantes/ Revistas, jornais/ Trocam estética opressora//
Por identificação transformadora// Procuram-se bonecas pretas/ Procura-se
representação!

Os “monstruosismos” – machismo, racismo, lgbttfobia, xenofobia – são formas de


reconhecimento assimétricas, colocam as pessoas implicadas em níveis essencialmente
distintos. O reconhecimento assimétrico é a norma das distinções, tidas como
essenciais. A sociedade moderna nos ensina a desprezar os monstruosismos – ao tempo
em que, paradoxalmente, ou em paralaxe, ela mesma é a lógica das incubadoras. Como
diz Safiotti (2015, p. 79), “É óbvio que a sociedade considera normal e natural que
homens maltratem suas mulheres, assim como que pais e mães maltratem seus filhos,
ratificando, deste modo, a pedagogia da violência”. Atos de fala e punho é expressão do
reconhecimento vertical – é o próprio reconhecimento assimétrico. O segundo lance
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oscila entre a negação, dissimulação ou minimização de seus atos, e a justificação,
legitimição do ato, via de regra, na responsabilização do violentado, através do
argumento ontológico: – A norma, a natureza, a essência das coisas assim o exigem! –
Lévinas insistia, lembra Žižek (2014, p. 60), “no caráter fundamentalmente assimétrico
da intersubjetividade: nunca há uma reciprocidade equilibrada em meu encontro com
outro sujeito”.

Tomar consciência de que os monstruosismos não estão distantes de nós, como quando
dizemos “a violência cresce no Brasil”, “o Brasil torna-se cada vez mais violento”; ao
contrário, preferimos aqui começar afirmando: “Nós nos tornamos mais violentos”, pois
nos implica, e solicita de nós um caminho para a ética. Este que perseguimos pelo
estudo de obras de contemporâneos concomitante ao debate sobre a violência noticiada
nas mídias. A partir disso, com o projeto de extensão Marte-SSA: Quadros de
Violência, produzimos material de cunho didático ou artístico, em que se divulgam
percepções da realidade e dados e teses sobre a violência, além de obras que promovam
um reconhecimento positivo de si e do outro. Para uma pesquisa filosófica que
problematiza o próprio social, pensamos ser essencial a constituição de um grupo de
estudos com encontros regulares, pois fundamental a discussão, que é o contrário do
pensar solitário.

A importância da Universidade não está apenas no frio da ciência, senão também no


calor das lutas diversas. Muitos discentes (docentes e técnicos, também) travam consigo
combates para se tornarem o que são. Jovens, principalmente, acabam, pois, por
descobrir em si caracteres de classe, de raça, de gênero, sexuais; aprendem argumentos
de defesa da integridade da pessoa e a crítica às formas assimétricas de reconhecimento.
A pesquisa sobre a violência, esta entendida como precarização da vida, busca
contribuir com este belo papel que a UNEB desempenha. Ela é uma instituição que
torna possível alguma experiência de cidadania cotidiana, por mais precária que seja.
Aliás, para as criações de cartilhas e histórias em quadrinhos, que fomentamos no curso
de Design, designamos a realidade da UNEB, a de Salvador e da Bahia, com humor,
como um todo como “multi-pluri-precária”. Tal condição, porém, permite-nos pensar de
modo mais sensível a própria violência e debater o reconhecimento de si e do outro.
Sem dizer que ela mesma fabrica suas próprias formas de criatividade, exigindo-a
sempre.

O projeto prevê, no âmbito da graduação, orientações de iniciação científica (IC) e de


trabalho de conclusão de curso (TCC). Nas orientações, tenho oportunidade de
transmitir as técnicas de leitura, interpretação de textos filosóficos e a produção de texto
acadêmico no âmbito da história da filosofia. Na iniciação científica, em especial, uma
vez que seleciona discentes dedicadas(os) do curso de Filosofia com tempo disponível
para desenvolver pesquisa acadêmica, espero contribuir para uma sólida formação
acadêmica, com egressos capazes de desenvolver pesquisas em pós-graduações.

Menciono aqui algumas informações sobre dois ex-bolsistas IC, que foram orientados
por mim por dois anos consecutivos, pois creio demonstrar com isso a seriedade com a

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orientação de IC, e do nosso compromisso (meu e dos orientados) com a pesquisa e sua
comunicação e com o fomento da pesquisa em Filosofia. Gláucia Silva do Nascimento
(2016-2017 e 2017-2018), da primeira turma do curso, formada em 2018.1, foi
aprovada em primeiro lugar para o Mestrado em Filosofia do Programa de Pós-
Graduação da UFSCar, e já cursa desde início de 2019. Emerson Costa Farias (bolsista
voluntário IC em 2016-2017 e bolsista IC 2017-2018) pega disciplina como aluno
especial na Pós-Graduação de Filosofia. Ele foi classificado e habilitado em segundo
lugar no concurso para professor de Filosofia do Estado da Bahia, edital 2017, NTE 26 -
Salvador e região metropolitana. E porque, entre o fim de 2018 e o início de 2019, ele
estava ocupado com tudo que envolvia se efetivar como professor, acabou não podendo
realizar a seleção para o Mestrado, que ocorreu no mesmo período. Elenco a seguir os
produtos dos discentes-bolsistas em relação aos dois anos sobre minha orientação:
Gláucia Silva do Nascimento apresentou cinco comunicações, uma exposição em
formato de banner, três publicações em Cadernos de Resumos, um artigo em revista
científica, e um TCC com nota 10 (dez). Emerson Costa Farias, por sua vez, apresentou
seis comunicações, uma exposição em formato de banner, duas publicações em
Cadernos de Resumos.

Além de suas respectivas formações, os bolsistas de IC contribuem com a realização de


atividades de extensão, muitas vezes relacionadas à pesquisa, além de desempenharam o
papel de monitores em diversos eventos, e motivam os demais discentes a participarem
de eventos acadêmicos e se interessarem pela pesquisa em Filosofia. – Com tal
descrição, não só se mostra a dedicação à pesquisa e sua divulgação, como também seu
engajamento com a criação, manutenção e excelência do curso de Filosofia da UNEB,
quer dizer, não só a preparação dos bolsistas para uma pós-graduação lato sensu, quanto
a importância da existência de tais bolsistas para o Colegiado de Filosofia, tendo sua
primeira, e até agora única turma se formando no primeiro semestre de 2018.

Do ponto de vista do ensino, a pesquisa possibilita que, enquanto docente, aprofunde


questões de ética, qualificando-me mais para os componentes curriculares desta área
que assumo regularmente há anos para os cursos de Filosofia (Ética), Psicologia (Ética
para Psicologia) e Pedagogia (Seminário Temático de Educação II: Ética). Do mesmo
modo, pretendo qualificar-me para assumir História da Filosofia Contemporânea II.
Além disso, é possível desenvolver atividades nos Laboratórios do Ensino de Filosofia
(I-III), como fiz em relação aos antigos no Laboratório do Ensino de Filosofia I, em
2018.2, quando os discentes buscaram em diferentes tragédias gregas e adaptações
fílmicas delas as formas de violência, dentre outros trabalhos.

Metodologia

As pesquisas que pretendemos realizar se inserem naquilo que se pode chamar de


“genealogia da moral”, no sentido em que se caracterizam as pesquisas de Nietzsche e
Foucault, de Benjamin e Butler, isto é, pesquisas que descrevem e problematizam as
formas mais gerais de enquadramentos de violência, em suas relações com a justiça, o

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direito e o poder. Ela se concentra inicialmente no debate sobre a violência entre os
filósofos contemporâneos. Trata-se, de todo modo, de uma leitura comparativa, que
compreende os filósofos em sua própria época (sobre o impacto de guerras, massacres,
revoluções) e nas ressonâncias de sua recepção. Com a orientação de iniciação científica
se alcança maior abrangência temática e se aprofunda o estudo. Assim, as diferentes
pesquisas dos subprojetos aqui apresentados contribuem com o estudo das formas de
reconhecimento assimétrico, a saber, como se encontra no caráter moral da linguagem;
como se dá no relato de si em relação ao gênero; e como o poder estatal ferem a
integridade de pessoas por sua sexualidade.

Por outro lado, a iniciação científica é antes e principalmente um modo de formar bons
leitores de filosofia. A orientação de IC faz este professor-pesquisador avançar mais na
pesquisa, dado o volume de leitura necessário, porque dispõe de fichamentos, mas
principalmente pelo ritmo que imprime um grupo de estudos, além daquilo que é mais
bem compreendido no diálogo; ao mesmo tempo, cumprindo seu papel principal de
formar jovens pesquisadores na área de filosofia.

A participação em (e realização de) seminários locais e nacionais, com apresentação de


comunicação, está pressuposta, bem como a publicação de artigos acadêmicos, que são
as formas de travarmos diálogos públicos, de partilharmos informações e pontos de
vistas, de recebermos críticas ao nosso trabalho.

Outro ganho para a pesquisa está em seu desdobramento no projeto de extensão Marte-
SSA: quadros de violência, que visa a produção artística e didática de reflexões sobre a
precariedade de nossa realidade, não exclusivamente de modo negativo. Também em
relação ao ensino (por ex., no caso do PIBID, do qual sou coordenador voluntário):
fomentar a produção de material midiático diverso que reflita criticamente a violência,
incluindo seu modo de aparição e reprodução midiático, e divulgá-los mediante
publicações impressas, sites e redes sociais.

Voltando ao plano teórico: O quadro do encontro que se trava, as condições genéricas


de reconhecimento dos sujeitos e de avaliação das cenas determinam a realização e a
qualidade do ato, por exemplo, se violento ou respeitoso, se nojento ou deleitável. Os
esquemas – as regras, as personagens, os protocolos – determinam efetivamente além do
valor de sujeitos, a realização dos atos – incluindo falas –, a cerimônia e seus porquês.
Por outro lado, o quadro é midiático. Os atos, por definição, singularidades, reproduzem
e replicam o enquadramento do jogo teatral (ou como diz Butler, a norma). Entre os
acontecimentos e seus enquadramentos há quase uma relação como aquela entre um
usuário e o programa, pode-se criar tudo que se quiser, desde que se queira o que o
aplicativo permite realizar.

O quadro transcendental está situado na sociedade, é o arranjo de suas formas de


comunicação – de compreensão e atuação. A crítica da violência, de caráter filosófico,
se pergunta sobre s formas de louvor e desprezo – as categorias gerais, por assim dizer,
do reconhecimento, e partem das críticas desde Nietzsche, Walter Benjamin, Hannah
Arendt, Emmanuel Lévinas, Frantz Fanon, Michel Foucault, Giorgio Agamben, Judith
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Butler, Slavoj Žižek, Angela Davis. – O corpus principal da pesquisa se constitui das
obras trabalhadas nas Referências Teóricas e constam nas Referências Bibliográficas do
projeto. Neles encontramos instrumentos para fazer uma ontologia da violência em
termos sociais, que aponte seus esquemas gerais: as formas de representação,
reconhecimento, legitimação, reprodução e execução do desprezo ou do louvor, e de
sujeitos e atos desprezíveis e louváveis.

Infraestrutura disponível

O DEDC I dispõe de dois Laboratórios de Informática e um Laboratório de


Coordenação Interdisciplinar de Estágio e Trabalho de Conclusão de Curso. A
Biblioteca Central possui mais de 20 mil livros e periódicos, com número significativo
de livros na área de Filosofia, com aquisição continuada de novas obras desde a criação
do curso de Filosofia em 2014.

Revisão de Literatura

ANOTAÇÕES PARA CRÍTICA DA VIOLÊNCIA

Parto da definição inusual de violência de um dos mais relevantes pensadores do século


XX no campo da ética, para apresentar através dela as três facetas da crítica da violência
a qual me proponho realizar ao longo dos próximos cinco anos, a saber: primeiro, a
abrangência do conceito e seus tipos; em seguida, suas relações com a moral, o direito e
o poder; e, por fim, questiono a possibilidade de que alguma forma de violência possa
ser justa. A crítica aqui esboçada parte do debate entre filósofos contemporâneos sobre
o tema, de onde retira formas de inteligibilidade do fenômeno.

[CONCEITO, ABRANGÊNCIA E TIPOS]

Nas palavras de Judith Butler (2017, p. 243), Emmanuel Lévinas define a violência de
modo assustador: ela é “uma ‘tentação’ que um sujeito pode experimentar quando se
depara com a vida precária do outro que é comunicada através do rosto”. Forte,
desagradável, sua definição implica-nos; é assustadora; faz-nos reconhecer em nós o
desejo de uma violência abjeta que de algum modo aparece – como uma “tentação”: “o
rosto do outro, em sua precariedade e vulnerabilidade, é para mim – diz Lévinas – a
tentação de matar e o apelo à paz, o ‘Não matarás’” (1999, p. 141, tradução nossa).

Na violência desejada de que fala Lévinas, notamos o alcance da violência sistêmica,


análoga, segundo Slavoj Žižek (Violência), à “matéria escura” da física. Nós a
encontramos expressa no poema “Sobre a violência” de Bertolt Brecht (1986): “Do rio
que tudo arrasta se diz que é violento./ Mas ninguém diz violentas/ as margens que o
comprimem”. Para Žižek (2014), há três tipos de violência: a subjetiva, “a parte mais
visível” do triunvirato, e duas objetivas, a sistêmica e a simbólica, invisíveis. Assim o
lemos na imagem de Brecht: a violência do rio, explícita, com agente claramente

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identificável (o rio), é uma violência subjetiva, “experimentada enquanto tal contra o
pano de fundo de um grau zero de não violência”, “percebida como uma perturbação do
estado de coisas ‘normal’ e pacífico”, enquanto as margens que comprimem o rio
exercem uma violência sistêmica, a violência propriamente objetiva, opaca, porque
inerente ao estado “normal” de coisas, porque “sustenta a normalidade do grau zero
contra a qual percebemos como subjetivamente violento” (p. 17-18). Do rio quando
dizemos que é violento, a ele atribuímos um valor, que o converte em símbolo de
temível. Não se trata aqui de um uso excessivo, ao contrário, faz parte da linguagem
enquanto violência simbólica: “é a linguagem, e não o interesse egoísta primitivo, o
primeiro e maior fator de divisão entre nós, é devido à linguagem que nós e os nossos
próximos podemos viver “em mundos diferentes” mesmo quando moramos na mesma
rua” (p. 63); “A ‘barreira da linguagem que me separa para sempre do abismo de outro
sujeito é simultaneamente aquilo que abre e que mantém esse abismo – o próprio
obstáculo que me separa do Além é aquilo que cria a sua imagem” (p. 67).

[MORALIDADE DA MORAL]

Devemos também considerar o prazer associado à violência, que faz dela algo desejável.
Na violência desejada por Lévinas, percebemos a alegria em tiranizar como uma espécie
de “lei geral na história do espírito”, de que fala Nietzsche (HH, 50)1 quando cita a
sentença de Prosper Mérimée – “não há nada mais comum do que fazer o mal pelo
prazer de fazê-lo”. Na verdade, “A crueldade pertence à mais antiga alegria festiva da
humanidade”, no tempo em que se ofereciam aos deuses espetáculos de crueldade, e é
daí que vem a ideia de que o sofrimento voluntário, o martírio deliberado, tem um bom
sentido e valor.

O conceito mais importante de Nietzsche para entendermos a abrangência e legitimação


da violência e sua opacidade é o de “moralidade do costume”, com o qual começa
Aurora. Na época que precede à “história universal”, designada por Nietzsche como o
tempo da “eticidade dos costumes” ou “moralidade da moral” (“Sittlichkeit der Sitte”),
valia o princípio: “qualquer costume é melhor do que nenhum costume”; “Moralidade”
ou, como dizemos, a sociedade, o povo em mim, “é o instinto de rebanho no indivíduo”.
Ela é “o sentimento para todo o complexo de costumes em que se vive e se foi criado –
e criado não como indivíduo, senão como membro de um todo, como cifra de uma
maioria”. Através deste sentimento, a “normalidade” do costume se torna indiscutível, e
se opõe a novas experiências e ao surgimento de novos e melhores costumes: ela, afinal,
embrutece! (A, 18; A, 16; GC, 116; OS, 89; A, 19).

1
Todas as citações de Nietzsche foram traduzidas aqui a partir da eKGWB (2009) – Digitale Kritische
Gesamtausgabe Werke und Briefe, organizada por Paolo D'Iorio, edição revisada do trabalho de Giorgio
Colli e Mazzino Montinari –, disponível no site Nietzsche Source. Aqui indicamos sempre as iniciais
dos títulos traduzidos para o português, seguidas do número do parágrafo, como fazem seus
comentadores: A – Aurora; CP – Cinco prefácios para livros não escritos; GC – Gaia ciência; HH –
Humano, demasiado humano; OS – Opiniões e sentenças diversas. Nas referências, indicamos boas
traduções das obras citadas.

9
O homem moderno é tão pouco ético, no sentido de obediência cega a uma tradição, se
comparado com os milênios que lhe antecederam. – Se por um lado, no nosso tempo a
moralidade está enfraquecida, se comparada àquele grande período dos começos da
civilização, ou mesmo se compara ao século XIX, por outro lado, não ignoramos a
incomensurabilidade de sua força coercitiva, como norma ou paradigma, e ainda com
penosas prescrições que, no fundo, são supérfluas (pensamos, por exemplo, no caso do
trado de pais para com os “erros” dos filhos, com seus “não faça isso!”, “não faça
aquilo!”, “que feio!”, “você é mau!”; e logo os filhos aprendem que o “erro” deve ser
“corrigido”, com admoestações e sanções).

Aprendemos quando crianças que devemos revidar o mal com o mal, e que o bem e o
bom são também isso: vingar-se de uma violência sofrida; assim, quando caímos e
choramos, nossos pais nos ensinam a bater em coisas que nos “machucaram”, e
aprendemos a ter satisfação com isso, mesmo quando a dor causada por nossa vingança
no objeto rígido é maior do que a primeira “ofensa” do objeto. Apesar de talvez não
notarmos com quais procedimentos simbólicos, por sua opacidade, aprendemos a
desprezar a vida precária. Moralidade, sentimento, instinto de rebanho, prazer em seguir
o rebanho, em ser rebanho, tal como o rebanho trata a vida precária. Um adágio popular
perdido diz: “Quando uma galinha está amarrada, as outras vão lá bicar”. Pois bem, a
ordem social das bicadas é a violência objetiva sistêmica, objetiva, opaca – e habita
mesmo um homem cuja vida foi dedicada à Ética. O desejo confessado por Lévinas,
aquele que em Butler se torna mesmo o conceito de violência, é paradigma da violência,
não latente nem invisível, senão opaca, quer dizer, densa e difícil discernibilidade.

[DIREITO E ESTADO]

Assim como depois Benjamin, como veremos a seguir, Nietzsche fala da violência na
origem do direito e do Estado: “‘O vencido pertence ao vencedor, com mulher e filho,
com bens e sangue. É a violência que dá o primeiro direito, e não há nenhum direito que
não seja em seu fundamento arrogância, usurpação e ato de violência’” (CP, III, 7),
ainda que a historia de modo geral pouco elucide sobre isso. Precedida pelo “violento,
poderoso, o fundador original do Estado, aquele que avassala os mais fracos”, a
moralidade mesma conserva o caráter de coerção por muito tempo ainda, e faz do
indivíduo sua vítima. “Depois se torna costume, depois ainda obediência livre,
finalmente quase instinto”, e então, “chama-se virtude.” (HH, 99).

Há ainda tal elemento a se considerar naquilo que disse Lévinas sobre a tentação da
violência, quiça o mais importante, isto é, o de sua relação com a justiça, não só na
forma de interdição, no combate à violência pela lei, mas também a exclusividade da
violência reclamada pelo o Estado – aquela que o direito reclama para si. Eis o cerne da
crítica para Benjamin. Na “Crítica da violência”, esta é definida por suas relações com o
direito e a justiça, pois a violência atinge as relações éticas, estas definidas precisamente
pelos conceitos de direito e justiça. O título original do ensaio, Zur Kritik der Gewalt,
merece um comentário: desde Kant, “Kritik” tem na filosofia principalmente o sentido
de investigação dos limites de algo e suas implicações; e “Gewalt”, além de “violência”,

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significa “poder”, “força”, como no caso de “Naturgewalt”; daí, há uma antiga tradução
do título em português como “Crítica da violência – crítica do poder” (BENJAMIN,
1986).

Agamben (2004, p. 84) define claramente o objetivo de Benjamin no ensaio, quer dizer,
“garantir a possibilidade de uma violência [ou poder] [...] absolutamente ‘fora’
(ausserhalb) e ‘além’ (jenseits) do direito e que, como tal, poderia quebrar a dialética
entre violência que funda o direito e violência que conserva”. Rech e Lucas (2018, p.
103) observam o tipo de inversão que opera Benjamin: enquanto “na tradição moderna,
toda a política encontra seu limite na violência, e tem como ponto de partida o direito”,
no ensaio, a violência aparece “como fonte, e o direito como o término do político”. Ela
cumpre duas funções, a de instaurar e a de manter o direito.

Devemos, porém, ter cuidado, porque Benjamin não faz coincidir violência com poder.
A crítica de Hannah Arendt (2009, p. 71), opõe precisamente a violência ao poder,
fazendo deles termos opostos: a afirmação absoluta de um significa a ausência do outro.
A violência aniquila o poder, não o cria: “O domínio pela pura violência advém onde o
poder está sendo perdido”. Sua crítica parece-nos demasiado idealista, mesmo assim,
porém, importante, porque delimita uma distância entre poder e violência, além de ser
certeira quanto à relação entre decréscimo de poder e aumento da violência. Em seus
estudos sobre a violência fruto do machismo, Saffioti e Almeida (1995) levantam a
hipótese de que é no momento da impotência que os homens praticam atos de violência.

[ABOLICIONISMO PENAL]

As concepções de causalidade e de responsabilização do sujeito estão associada à


linguagem. A consciência (Bewusstsein), o “gênio da espécie”, fruto da capacidade de
comunicação, é filha da linguagem. Sua procedência está na comunidade e, por isso,
trata-se de um mundo superficial – mundo de sinais, comunicável, comum. (GC, 354)
Linguagem é sistema de generalidades e generalizações. Nietzsche acusa os teóricos do
conhecimento de “se enforcam no nó da gramática, na metafísica do povo”, com a sua
oposição entre sujeito e objeto (GC, 354). A metafísica da gramática pressupõe sempre
um sujeito e um predicado, um agente e uma ação. Assim, se diz “eu penso”, “o sol
brilha”, como se fosse possível separar o brilho do sol (GM, II, 13; BM, 54; BM, 16-
17). Segundo Foucault, “Nietzsche [...] descobre que toda metafísica do Ocidente está
ligada não somente à sua gramática [...], mas àqueles que, sustentando o discurso, detêm
o direito à fala.”.

Também aí vemos, com Nietzsche, o papel das obrigações legais na emergência dos
conceitos morais de “culpa”, “consciência moral”, “dever”, “sacralidade do dever” , e o
da crueldade – “o seu começo foi, como o começo de tudo o que é grande na terra,
banhado profunda e longamente com sangue”, de tal modo que mesmo o imperativo
categórico de Kant cheira a crueldade (GM, II, 6). A tese é a violência implicada na
construção do “eu” implica no processo de internalização da violência, como diz Han

11
(2018, p. 22-23), na revisão de como a crueldade se volta contra si: “A agressão contra
os outros transformou-se em autoagressão.”

Quando Nietzsche, no prólogo de Aurora, associa Kant a Robespierre através de


Rousseau, como discípulos seu, ele aponta para o quanto há de crueldade introjetada no
imperativo categórico. Conforme recorda Carlos A. R. de Moura (2005, p. 63), o
imperativo categórico kantiano “resolve” o problema que se colocara Rousseau (1973,
p. 31) no Contrato social: o de encontrar “uma forma de associação que defenda e
proteja contra toda força comum, a pessoa e os bens de cada associado e pela qual cada
um, unindo-se a todos, apenas obedeça a si próprio, e se conserve tão livre quanto
antes”. Afinal, há de se observar, que o imperativo categórico não impede que seu
idealizador reconheça o direito do soberano e assinta com a pena de morte em sua
Metafísica dos costumes: “Tantos quantos sejam, pois, os assassinos que cometeram,
ordenaram ou ajudaram a praticar um assassinato, tantos são os que têm de sofrer a
morte: assim o quer a justiça, enquanto ideia do poder judiciário segundo leis universais
fundadas a priori” – deste mandamento, inspirado na lei do talião, Kant (2013, p. 120)
vê como uma exceção o crime do infanticídio materno – se crime propriamente é (este e
o assassinato de um companheiro de armas num duelo “não deveriam [...] sequer ser
chamados de assassinato”, p. 122), devido à vergonha de nascimento bastardo, vergonha
que a legislação não pode remover:
A criança vinda ao mundo fora do casamento nasceu fora da lei (isto é, do
casamento), portanto fora também da proteção da mesma. Ela foi introduzida
na comunidade política como que furtivamente (como mercadoria proibida),
de tal forma que esta pode ignorar sua existência (pois que legalmente ela
não deveria existir desse modo), consequentemente também sua eliminação,
e nenhum decreto pode eliminar a vergonha da mãe quando seu parto fora do
casamento se torna conhecido. (Ibid. p. 122).
Lemos essas linhas com o nojo da consciência de justiça de nossos tempos, ao
percebermos que a violência sistêmica envolve o dar de ombros às atrocidades que
ocorrem com a vida precarizada pelo direito, e como a sociedade (e seus filósofos)
justifica as mais diversas formas de violência, sancionadas pelo direito ou pela tradição.
Mas não é exatamente dar de ombros ou lavas suas mãos o que faz Kant. Suas
considerações servem para precarizar ainda mais a vida daquelas (e daqueles) que se
encontram fora da lei.

Jean-Marie Guyau (2007, p. 57) já denuncia, em 188..... a lei do “olho por olho, dente
por dente”: “Para defender-se, aniquila-se o agressor”. Segundo Guyau, “Quanto mais
sagrada é uma lei, mais ela deve estar desarmada, de tal modo que, no absoluto e fora
das conveniências sociais, a verdadeira sanção parece dever ser a completa impunidade
da realizada. [...] toda justiça propriamente penal é injusta” (p. 27). No mesmo sentido,
a filosofia de Nietzsche tem por um objetivo central seu retirar do mundo os conceitos
de pecado e de punição. Desafio heroico na medida em que parece que a educação do
gênero humano foi conduzida pelas fantasias de carcereiros e carrascos, que o conceito
de punição infestou completamente o mundo, segundo a absurda lógica que toma causa
e efeito como culpa e punição (A, 13 e 11): Nosso crime contra os criminosos consiste
nisso, que o tratemos como vilões (HH, 66); Que coisa estranha, nossa punição! Não

12
purifica o criminoso, não é nenhuma expiação: ao contrário, mancha mais do que o
próprio crime (A, 239);
Como ocorre de que toda execução nos insulte mais do que um assassinato?
É a frieza do juiz, a penosa preparação do suplício, a percepção de que um
homem é aí usado como um meio para assustar outros. Pois a culpa não é
punida, mesmo se uma houvesse: esta se acha em educadores, pais, nos
arredores, em nós, não no assassino, – penso nas circunstâncias
determinantes. (HH, 70).

Nietzsche mostra como opera, entre os utilitaristas ingleses (todos baseados em


Bentham), a velha lógica de comerciante, segundo a qual, o castigo deve ser
proporcional à infração, que em sua forma moderna cria para si uma instituição própria,
a prisão. Na Genealogia da moral, é bastante recorrente o desprezo pela lógica do
cálculo penal, da ideia moderna de responsabilidade, que não leva até as últimas
consequências os seus pressupostos, portanto, sua arbitrariedade, a do direito e da boa
consciência. Nietzsche refuta, sua falsa causalidade: o “eu”, o “sujeito” como causa da
ação, o criminoso como culpado de seu crime. Trata-se então de mostrar que a
responsabilização do criminoso, quer dizer, que ele (o sujeito do crime) agiu
conscientemente, é uma ideia muito recente, não um, por assim dizer, a priori. Além
disso, seria importante notar que “O salteador e o poderoso que promete à comunidade
defendê-la do salteador” são provavelmente muito semelhantes. O comerciante e o
pirata são por muito tempo a mesma pessoa. Por seu parentesco, “a moral do
comerciante não é mais do que um refinamento da moral pirata” (AS, 22).

[HÁ UMA VIOLÊNCIA JUSTA?]

Uma crítica da violência aponta, decerto, para além da abrangência, tipos e opacidade,
para o caráter abjeto, e refuta inclusive os argumentos que a legitimam. – Mas dito
assim, parece que tomamos toda violência como injusta; não há, porém, nenhuma
violência legítima que mereça se não uma apologia, uma defesa? Há sim, ou pelo menos
assim consideram uma série de filósofos; ao tempo em que denunciam a violência legal,
do Estado, reconhecem como legítima uma forma de violência que aniquila a ordem do
direito e da violência por ele perpetrada.

Walter Benjamin (2011) vê na greve geral dos trabalhadores uma “violência pura”,
capaz de romper com a ignóbil violência do continuum da história, um Jano de duas
faces, a da guerra e a do direito, que tem sua personificação precisamente na polícia: “O
infame de uma tal instituição [...] reside no fato de que nela está suspensa a separação
entre a violência que instaura o direito e a violência que o mantêm” (p. 135).
Encontramos aí o mesmo messianismo revolucionário de Marx e Engels (2007, p. 42),
quando sustentam a necessidade da revolução, não só porque a classe dominante não
pode ser deposta por outros meios, “mas também porque somente com uma revolução a
classe que derruba detém o poder de desembaraçar-se de toda a antiga imundície e de se
tornar capaz de uma nova fundação da sociedade”. De outro modo, Frantz Fanon (2015,
p. 78-79) vê na Revolução Argelina um meio de deter o processo violento que os
europeus lhe imprimem: “o colonialismo não é uma máquina de pensar, não é um corpo

13
dotado de razão. Ele é a violência em estado natural, e só pode se inclinar diante de uma
violência maior”. Para eles, vale o adágio de Sartre (2005, p. 38), segundo o qual
“nenhuma suavidade apagará as marcas da violência: só a violência é que pode destruí-
las”.

Diferente de Marx, Benjamin e Fanon, porém, encontramos em Sartre (2015), por sua
procedência, a má consciência frente ao colonialismo: “as vozes amarelas e negras
ainda falavam do nosso humanismo, mas era para acusar a nossa inumanidade” (p. 23)
“É necessário que nós, europeus, nos descolonizemos, isto é, extirpemos, por meio de
uma operação sangrenta, o colono que há em cada um de nós” (p. 42). Depois, ele ainda
cita a confissão espantosa de um europeu: “Há alguns anos, um comentarista burguês –
e colonialista – só achou isto para defender o Ocidente: ‘Nós não somos anjos, mas pelo
menos temos remorsos’” (p. 44). Diante dos massacres, da desumanização do colono,
Sartre diz a famosa frase, que ainda hoje é citada com espanto: “no primeiro tempo da
revolta, é preciso matar. Abater um europeu é matar dois coelhos de uma só cajadada, é
suprimir ao mesmo tempo um opressor e um oprimido: restam um homem morto e um
homem livre” (p. 39)

Diante da comoção exigida pela grande mídia frente às grandes atrocidades, aos crimes
contra a humanidade, Žižek (2014, p. 18) aconselha a frieza do estudo, a ponto de se
sentir tentado a repetir as palavras de Robespierre – “Deixai de agitar à minha frente o
manto sangrento do tirano ou crerei que quereis acorrentar-me a Roma” – aos que
deploravam as vítimas inocentes do terror revolucionário, quando “a mídia norte-
americana acusou as populações de países estrangeiros de não demonstrarem suficiente
simpatia perante as vítimas dos ataques do 11 de Setembro”. Por outro lado, ele escreve
um livro para refletir sobre o acontecimento (Bem-vindo ao deserto do Real!) e é o
filósofo que se manifestou favorável à Occupy Wall Street 2011 (ver Primeiro como
tragédia, depois como farsa). – O que nos assusta e comove são os números. Os
números, seu caráter objetivo. Estes que apontam para uma elevação significativa da
violência, especialmente no Brasil, em que os números já alarmantes superam cada vez
mais as baixas de qualquer guerra no planeta. De outro modo, também as imagens de
jornalismo em geral, mas não pela via do agenciamento por ele visado, senão
precisamente dos efeitos por ele visados.

A mídia em geral nos solicita uma forte dose de paixão frente às tragédias sociais, o que
as exime de buscar as condições de possibilidade do acontecimento, limitando-se a
parear o povo na compaixão que nele desperta, e nomear com dedo em riste os
“culpados”: vândalos, psicopatas, marginais. Não é nenhuma análise dos
acontecimentos aquela que termina com um ponto de exclamação, isto é, do impacto
inicial do terror, espera-se a frieza do estudo, e não a conclusão de que o fenômeno
pertence ao campo do inefável. O que dissemos em A cidade e seu duplo sobre a
tragédia de Realengo vale de modo ainda evidente para a recente tragédia de Suzano, na
qual é explicita a relação de imitação com o massacre de Columbine:
O jovem carioca, tão vítima quanto as outras, visou este caráter das imagens
reprodutíveis que definem nossa sociedade. Ele quis provocar um sofrimento

14
na sociedade equivalente àquele que sentia em si mesmo, como vítima desta.
Tem seu ato por heroico, enquanto a mídia o expõe às avessas, pois o toma
como anomalia, enquanto no seu próprio julgamento é a sociedade que é
monstruosa, a qual seu ato bárbaro denuncia. [...]
É preciso lembrar que massacres com números de vítimas equivalentes são
comuns tanto em Salvador quanto na Faixa de Gaza (dentre as várias cidades
que não só autorizam, mas também promovem, corriqueiramente,
massacres)? (DRUMMOND, SAMPAIO, 2013, p. 68-69).
Não nos parece nada de inexplicável que jovens escolham como local de descarga da
violência a escola. Há um relato de Erasmo de Rotterdam (2008, p. 88), o qual ilustra
como a violência encontrava-se presente na escola, e que apesar do tempo que nos
separa, pode nos dar uma ideia de nossa própria violência escolar, herdada da milenar
pedagogia da violência: um educador, o teólogo, sem nenhum motivo real, inclusive
consciente disto, submete um menino de aparentes dez anos, recém-ingresso na
comunidade escolar, a uma humilhação gratuita por meio de um castigo violento, que
foi executado, então, pelo “prefeito do colégio”, mais conhecido por “cão de guarda”,
que:
lançou o menino ao chão e vergastou-o qual réu de sacrilégio. Aliás, o
teólogo chegou a bradar mais de uma vez: “Basta! Basta!”. O algoz,
ensurdecido pelo furor, persistia na macabra tarefa, não o tendo levado à
síncope por pouco. Voltou-se, então, o teólogo para nós e disse: “Nada disso
o menino merecia, mas era necessário humilhá-lo”.

Judith Butler (2017), na sua crítica da reivindicação da não violência, começa por
contestar a possibilidade de ela agir como princípio, como regra consistente de juízo
aplicável a qualquer situação. Devemos, afinal, sempre perguntar “contra quem?”,
“contra o que?” se dirige a reinvidicação da não violência (p. 233-235). Butler a toma,
pois, como um discurso ou, antes, um apelo, aquele que ela aceita em seu espaço de
conflito constitutivo: “a não violência não é um estado pacífico, mas uma luta social e
política para tornar a raiva articulada e efetiva” (p. 256).

Tal enquadramento da reinvindicação tem o cuidado de pensar sempre no uso dos


discursos. Assim, a própria Butler (2017) combate o uso da concepção de modernidade
nas políticas de países europeus contra a imigração, afinal a modernidade, em relação
aos gêneros, privilegia a liberdade e o radicalismo sexual, e deve ser protegida das
supostas ortodoxias mulçumanas. Também Angela Davis (2016, p. 177) denuncia o
“mito do estuprador negro”: “Na história do Estados Unidos, a acusação fraudulenta de
estupro se destaca como um dos artifícios mais impiedosos criados pelo racismo”. Do
mesmo modo, a forma como enquadramos a favela como lugar do inimigo e da difusão
da violência justifica a violência policial dirigida contra as comunidades periféricas:
“Imputar aos pobres – diz Saffioti (2015, p. 87) – uma cultura violenta significa um pré-
conceito e não um conceito” e desconsidera toda a situação estresse em que vivem
aqueles atingidos pelas políticas públicas de precarização da vida. Quando as mulheres
rompem o silêncio e falam das violências sofridas, elas são acusadas de agressivas, com
aponta Djamila Ribeiro (2017, p. 87): “O grupo que sempre teve o poder, numa
inversão lógica e falsa simétrica causada pelo medo de não ser único, incomoda-se com

15
os levantes de vozes”. E não devemos nos esquecer de que há algum tempo não se
declara mais guerra por ganância, senão pelos direitos humanos.

Antes de tudo, a luta pela não violência, de que fala Butler, se efetiva no sujeito, na
medida em que recusa a norma através de sua iterabilidade (a possibilidade mesma de
alteração na repetição). Desse modo, uma crítica da violência descreve seu alcance no
sujeito enquanto performático, que repetindo a norma, luta contra ela em seus aspectos
violentos; a crítica reconhece como legítima pelo menos esta forma de violência, a que
se volta contra si como forma de combate dos preconceitos em si introjetados. A
confissão de Lévinas é uma norma de violência autoimposta, de uma luta que se trava
em si mesmo, sem a qual não se pode pensar na Ética.

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18
Gênero e violência ética em Judith Bubler

Joana de Santana Soares Ribeiro

Subprojeto 01

Palavras-chave: Foucault; Butler; violência; feminismo.


Subárea do conhecimento: Ética

Resumo

O subprojeto “Gênero e violência ética em Judith Bubler” investiga de modo crítico


como a reflexão no campo da ética evidencia formas de violência. A configuração
violenta se dá a partir das valorações do sujeito, nos modos de viver, ser e agir de
acordo com o gênero feminino e masculino, que, a partir da classificação do sexo, pré-
determina uma consciência do si mesmo. A nossa crítica parte da ontologia de gênero
de Judith Butler e de sua revisão das genealogias de Foucault, de suas considerações
sobre o alcance prático dos discursos relativos à sexualidade, e de Nietzsche, de sua
análise do surgimento e desenvolvimento da má-consciência. Em todo relato de si há
uma violência ética, a qual examina Butler (2017) e que nos interessa especialmente,
afinal “O sujeito sempre faz um relato de si mesmo para o outro, seja inventado, seja
existente, e o outro estabelece a cena de interpelação mais primária do que o esforço
reflexivo que o sujeito faz para relatar a si mesmo” (p. 33). O desafio de nos fazer
inteligíveis para nós mesmos e para os outros exige que usemos de termos que têm, por
essência, um caráter social, e que generalizam nossas histórias singulares. A pesquisa é
fundamentalmente bibliográfica, no área da ética.

Objetivo geral

Pesquisar, na obra de Judith Butler, a concepção de violência ética no relatar a si mesmo


do sujeito generificado.

Objetivos específicos

1. Descrever, a partir das obras de Butler e Foucault, a relação entre a teoria do sujeito
e a constituição de sua subjetividade;
2. Rever, na Genealogia da moral de Nietzsche, a emergência e desenvolvimento da
consciência moral como má-consciência;
3. Esclarecer como o relato de si, qual seja, implica em uma violência ética;
4. Elencar as formas de violência ética na constituição do gênero.

19
Revisão de Literatura

A concepção de violência ética em Butler (2013, 2016, 2017, 2018) nos aponta a
necessidade de repensar as categorias sujeito, sexo e gênero. Ainda que Foucault (1988,
2017) não problematize a categoria gênero, sua crítica “indica os erros sustentados por
teorias que consideram ininteligíveis as formas marginais da sexualidade” (BUTLER,
2016, p. 25). Butler, nas obras em que analisa o sujeito que pertence aos gêneros
masculino e feminino e são representados por teorias feministas, desenvolve uma crítica
do campo da ética apontando o sujeito a partir da leitura de Foucault. Nesse contexto,
podemos perceber que tanto o sujeito quanto o gênero são produzidos como efeitos de
classificações consideradas naturais e são disseminados através da violência dos
discursos produzidos e consolidados através das instituições (família, grupos sociais,
escolas, etc.). Tanto Nietzsche quanto Foucault tematiza o sujeito como constituído a
partir do exterior, sem uma natureza predeterminada desde sempre. Na emergência
mesma do sujeito ético, eles encontram um processo longo:
Todos os instintos que não se descarregam para fora voltam-se para dentro –
isto é o que chamo de interiorização do homem: é assim que no homem
cresce o que depois se denomina sua "alma". Todo o mundo interior,
originalmente delgado, como que entre duas membranas, foi se expandindo e
se estendendo, adquirindo profundidade, largura e altura, na medida em que o
homem foi inibido em sua descarga para fora. (NIETZSCHE, 1998, p.16)

A partir da compreensão nietzschiana de que o homem interioriza valores morais como


seus modos de valorar se tornassem instintos e, logo após, estes são sublimados, Butler
aborda o tema sexo e gênero sob a crítica de como são impregnadas no sujeito
identidades fixas e naturalizadas de acordo com modelos de gênero (BUTLER, 2016, p.
41). A linguagem presente nesse ato violento também pode ser atrelada como violência
simbólica (BUTLER, 2018).

A má-consciência é um meio de apontar como o sujeito generificado interioriza o


comum e o igual legitimado pela sociedade através do poder hegemônico. Nietzsche
afirmará que a má-consciência é o ato do sujeito moral, coibido nas condutas e
sublimado na vontade. Nesse contexto, abordamos o quanto de violência na sexualidade
há a partir de uma sublimação, pois a força para que a violência se efetive sobre a
materialidade dos corpos generificados estão presentes “na própria ambiguidade interna
de discursos [sobre sexo] produzidos e difundidos (Butler, 2015, p.150). Entende-se por
“generificada” a identidade construída no esquema heterossexual, a partir da qual onde
afirmamos comportamentos de acordo com o sexo biológico macho e fêmea.

Segundo Butler, “O sujeito é um efeito, e não uma causa dos discursos que o
constituem” (SALIH, 2012, p.91). Ainda que possua capacidade de ação e autonomia na
execução do ato de relatar a si mesmo, sofre as consequências de um relato que o obriga
a se enquadrar na busca da ética, como Butler salienta:

Não existe [...] conduta moral que não implique a constituição de si mesmo
como sujeito moral; nem tampouco constituição do sujeito moral sem
“modos de subjetivação”, sem uma “ascética” ou sem “práticas de si” que as

20
apoiem. A ação moral é indissociável dessas formas de atividades sobre si.
(FOUCAULT, 1988 apud BUTLER, 2017, p. 30)

Assim, podemos compreender que, tanto para Butler quanto para Foucault, o modo pelo
qual o sujeito se constrói a partir de uma teoria (no caso dessa pesquisa, da categoria
gênero), não o isenta das práticas que serão apoiadas nas valorações já presentes de
modo deliberado no meio social em que o sujeito vive.

A proposta de Butler será desenvolver medidas estratégicas que divulguem o jogo de


forças das instituições predominantes, possibilitando-nos, enquanto sujeito, subverter
regras, e através da iterabilidade, da possibilidade mesma de alteração na repetição da
norma, quem sabe, ser capaz de inventar (estilos, costumes, formas de comunicação) e
deslocar as identidades, re-significando-as.

Metodologia

A pesquisa é essencialmente bibliográfica, pertence à área da ética, e pretende revisar


algumas categorias fundacionais que são utilizadas comumente nas teorias feministas,
como sexo, gênero, poder, violência e sujeito, especialmente na obra de Judith Butler.
As principais técnicas são leitura, fichamento e discussão de textos de relevância
filosófica. Estão previstas reuniões semanais com o grupo de pesquisa (orientador,
orientandos de IC e de TCC), com apresentações da literatura fundamental, seguidas de
discussão. As reuniões fazem parte do projeto de extensão Marte-SSA, na qual
discutimos os textos lidos previamente, em seguida sobre a ordem do dia, isto é, o
levantamento feito pelo grupo das violências mais gritantes da semana vinculados na
grande mídia e em jornais locais. As reuniões individuais de orientação visam a
elaboração de um artigo. Desse modo, os resultados serão escritos em forma de texto
acadêmico e discutidos com o orientador. Também deve contribuir a participação em
eventos acadêmicos pertinentes, a exemplo da Jornada de Iniciação Científica e
Tecnológica da UNEB.

A pesquisa constitui-se a partir do primeiro capítulo do livro: Relatar a si mesmo crítica


da violência ética, e de outras obras da filósofa e feminista contemporânea Judith Butler
como Fundamentos contingentes – artigo no qual Butler desenvolve a ideia de sujeito
político elaborada por Foucault; variações sobre sexo, gênero e desejo, texto atual de
Butler em defesa da performatividade de gênero já discutida na sua obra basilar,
Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade, além de demais obras de
comentadoras que tecem uma análise e apontam a dimensão das questões relacionadas a
gênero e linguagem na contemporaneidade.

O trabalho se caracteriza pela leitura atenta e análise de texto filosófico, sem querer
encontrar nada de oculto, sem buscar o que no fundo ele quis dizer ou o não-dito, e sim
com atenção: ao dito (o que se afirma, o que se nega), ao modo como é dito (as
expressões usadas, sua graça, estilo, forma de pensar, de argumentar e refutar, se
paródico ou não, se irônico ou assertivo), ao silenciado (muitas vezes uma reserva), a

21
quando é dito (na iminência de que guerra, sob o impacto de qual política) e a quem é
dito (afinal, a “humanidade” sempre tem um rosto). Assim, cabe destacar as passagens
em que Butler e outros filósofos refletem sobre a violência no relato de si, em relação ao
gênero.

Referências

BUTLER, Judith. Debates feministas: um intercâmbio filosófico. Trad. Fernanda


Verissimo. São Paulo: UNESP, 2018.
________. Fundamentos contingentes: o feminismo e a questão do “pós-
modernismo”. Cadernos Pagu, Campinas, n. 11, p. 11-42, jan. 2013. Disponível em:
<https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/article/view/8634457>.
Acesso em: 22 mar. 2019.
________. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de
Renato Aguiar. 11. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016. (Sujeito e História).
________. Relatar a si mesmo: crítica da violência ética. Trad. Rogério Bettoni. Rio de
Janeiro: Autêntica, 2015.
FOUCAULT, Michel. Ética, sexualidade, política. 3. ed. Rio de Janeiro: Florence
Universitária, 2017.
__________. História da sexualidade I: A vontade de saber. Tradução de Maria
Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. 13. ed. Rio de Janeiro:
Edições Graal, 1988.
__________. What is critique? . In: LOTRINGER, Syvère; HOCHTOTH, Lisa (eds.).
The political of trues, New Iorque: Semiotext(e), 1997.
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. Tradução, notas e
posfácio de Paulo César Lima de Souza. 10. ed. São Paulo: Companhia das letras, 1998.
RODRIGUES, Carla. Performance, gênero, linguagem e alteridade: J. Butler leitora de
J. Derrida. Sex., Salud Soc. (Rio J.), Rio de Janeiro , n. 10, p. 140-164, abr. 2012 .
Disponível em <http://dx.doi.org/10.1590/S1984-64872012000400007>. Acesso em
22/02/2019.

22
Linguagem e violência a partir de Nietzsche

Rayanderson Castro

Subprojeto 02

Palavras-Chave: Nietzsche; linguagem; moral; violência.


Subárea do conhecimento: Ética

Resumo

O subprojeto “Linguagem e violência a partir de Nietzsche” investiga o caráter


metafórico e violento da linguagem. Ele reconhece Nietzsche como ponto de partida,
pois foi ele quem fez a primeira crítica contundente, de um ponto de vista de suas
relações com a moral, à generalização da função representativa da linguagem (e à
perspectiva correspondentista da verdade) realizada pelos filósofos. A virada linguística
na filosofia encontrará décadas depois outra via para a crítica, uma em que não
interessam o poder e a moral, senão restritamente a lógica e o conhecimento, enquanto
Nietzsche encontrava aí também a moral e a guerra. Trata-se de uma pesquisa
bibliográfica, no âmbito da história da filosofia contemporânea, mais especificamente
da ética, que parte das considerações nietzschianas sobre a linguagem, e encontra em
obras de Roland Barthes, Michel Foucault, Judith Butler e Slavoj Žižek repercussões
nietzschianas e considerações relevantes sobre o tema da linguagem, atravessado pelo
poder e pela violência.

Objetivo Geral

Estudar a violência inerente à linguagem segundo Nietzsche e leitores seus.

Objetivos específicos

1. Descrever em que aspectos se encontra violência na linguagem;


2. Relacionar as concepções de Nietzsche, Butler e Žižek;
3. Destacar as principais teses de Nietzsche em relação à linguagem;
4. Relacionar o anti-representacionismo de Nietzsche com o do segundo Wittgenstein.

Revisão de Literatura

Quando lemos toda a revisão de História da Filosofia sobre o tema da linguagem em


Ernst Cassirer (1994, 2001, 2000) ou em Étienne Gilson (1974), não encontramos

23
nenhum traço de violência na constituição da linguagem e, por outro lado, a crítica à
concepção representacionista da linguagem é demasiado insuficiente. Em parte, se pode
dizer que isto se deve porque Cassirer escreve antes propriamente da virada linguística,
e Gilson, ainda sob o impacto que o tsunami que a filosofia do segundo Wittgenstein
representa para toda a reflexão filosófica sobre a linguagem que o antecede. Todavia,
não é a partir de Wittgenstein ou mesmo dos pragmatistas que o tema da linguagem está
associado ao da violência, senão a partir de Nietzsche, cujo impacto se deu inclusive
sobre o próprio Wittgenstein (1991), quando este remete, em suas Aulas e Conversas
sobre estética, psicologia e fé religiosa, à famosa passagem sobre os sentidos do castigo
da Genealogia da moral (II, § 13). No caso, porém, apenas no aspecto anti-
representacionista, deixando de lado, precisamente o campo moral, caro a Nietzsche.

Nietzsche é o primeiro filósofo suficientemente anti-representacionista, sobretudo por


situar a linguagem em relação à moral. A linguagem concerne à retórica, à política, à
ética. Ela não espelha o mundo, nem mesmo tem como fim principal representar estados
de coisas. “A linguagem”, diz Nietzsche (1999, p. 44-45) no Curso de Retórica, “ela
mesma é o resultado de artes puramente retóricas”.

Platão (2001) já defende, no Crátilo, que as coisas chamam-se conforme a lei e o


costume, a convenção e o acordo. Porém, o signo só parcialmente é visto como
arbitrário, apenas em relação àquilo que ele significa; a arbitrariedade estava só do lado
do som, não da ideia. Uma tal concepção permite, por exemplo, Santo Agostinho (1980)
apresentar, no De Magistro, a linguagem como constituída por nomes que representam
entes ou atos. A função espectral da linguagem, assim generalizada, a coloca do lado da
verdade, e a destitui de qualquer traço de retórica, esta associada à mentira.

Nietzsche (1974), ao contrário, situa a linguagem, os signos, no plano da mentira, da


metáfora, do artifício, isto é, como retórica, em outras palavras, fruto de esforços
estético, políticos, e de relações de poder. No inconcluso ensaio de juventude, Sobre
verdade e mentira no sentido extramoral: a linguagem engana, as palavras mentem, as
verdades são moedas gastas – equívocos até então irrefutados –; o conhecimento está
repleto de inverosimilhanças em relação à realidade, dirige-se ao uso e não à verdade.
Os nomes são metáforas dos sentidos, e estes são metáforas das coisas, imagens
antropomórficas, culturais, datadas. Mentiras que se prestam a ludibriar, enganar,
mascarar.

O que causa espanto não é o fato de que os outros não falem a nossa língua, e sim a
incontestável diferença de que não encontramos as mesmas coisas em outras culturas ou
quando revemos nossa própria história. Nietzsche trata os signos como históricos e não
só como arbitrários. Isto significa, nos termos de Saussure (2006), que o significante,
mas também o significado são convenções. O significante é arbitrário, tanto quanto o
significado é expressão da grei. Nesse sentido, Nietzsche concebe a relação entre
linguagem de forma muito mais próxima de Wittgenstein do que de Platão ou
Agostinho, de modo que se o reconhece como precursor da virada linguística da
filosofia no século XX do lado da filosofia continental, ao qual pertencem Foucault

24
(1975), Butler (1997) e Žižek (2014), enquanto Wittgenstein consta entre os filósofos
analíticos, precedido por Frege, ao lado de Bertrand Russell, e seguido por Quine.

Encontramos violência em suas arbitrárias e reducionistas generalizações, na coerção da


gramática sobre o pensamento, ou como lembra Žižek (2014, p. 59-60), quando coloca a
instigante questão “e se os humanos superassem os animais em sua capacidade de
violência precisamente porque falam?”, como Hegel reconhecia, “há algo de violento no
próprio ato de simbolização de uma coisa, equivalendo à sua mortificação”. Ao tempo
em que “A linguagem simplifica a coisa designada, reduzindo-a a um simples traço”,
ela “Insere a coisa num campo de significação que lhe é, em última instância, exterior”.
Uma violência de múltiplos modos. De modo semelhante, Butler (1997, p.9) afirma que
“A violência da linguagem consiste em seu empenho para capturar o inexprimível e,
consequentemente, destruí-lo, a fim de apossar-se daquilo que deve seguir indescritível
para que a linguagem continue a operar como uma coisa viva”. Tanto Žižek quanto
Butler incorporam a concepção heideggeriana da linguagem, segundo a qual ela é “a
casa do ser”. Na Introdução à metafísica, Heidegger (1966, p.52) diz que “é na
linguagem que as coisas chegam a ser e são”. Como Butler (1997, p.1-2), lembra e
provoca, somos linguistic beings: “Poderia a linguagem nos injuriar se não fossemos,
de algum modo, seres linguísticos, seres que requerem a linguagem como condição para
ser?”.

Mas então, é Nietzsche quem reconhece a função segregadora da linguagem na relação


senhor-escravo. A fonte geradora da oposição entre “bom” e “mau”, em outras palavras,
o pathos da distância, o direito que uma estirpe elevada, senhorial, se outorgou de criar
valores, de criar nomes para os valores, e com isso marcar as coisas, os acontecimentos,
como se então se apropriando deles – como então não reconhecer sua violência? “O
direito senhorial de dar nomes”, diz Nietzsche (1998, p. 19), “vai tão longe, que nos
permitiríamos conceber a própria origem da linguagem como expressão de poder dos
senhores”.

Como dirá Barthes (2004, p. 15): “o signo é seguidor, gregário; em cada signo dorme
este monstro: um estereótipo: nunca posso falar senão recolhendo aquilo que se arrasta
na língua” (grifo do autor). Ou, de modo ainda mais forte, “a língua, como desempenho
de toda linguagem, não é nem reacionária, nem progressista; ela é simplesmente:
fascista; pois o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer” (p. 14). Ora, se a
linguagem é gregária, então podemos situá-la legitimamente no campo das relações de
poder, a partir de Nietzsche, e divisar seus caracteres violentos.

Metodologia

A pesquisa, entre o campo da ética e da filosofia da linguagem, se situa na história da


filosofia contemporânea. Investiga o caráter violento da linguagem a partir das
considerações de Nietzsche. Ela é essencialmente bibliográfica, ainda que se possam
incluir ideias expressas em vídeos com (ou de) Butler ou Žižek. As principais técnicas
são leitura, fichamento e discussão de textos de relevância filosófica. Estão previstas
25
reuniões semanais com o grupo de pesquisa (orientador, orientandos de IC e de TCC),
com apresentações da literatura fundamental, seguidas de discussão. As reuniões fazem
parte do projeto de extensão Marte-SSA, na qual discutimos os textos lidos previamente,
em seguida sobre a ordem do dia, isto é, o levantamento feito pelo grupo das violências
mais gritantes da semana vinculados na grande mídia e em jornais locais. As reuniões
individuais de orientação visam a elaboração de um artigo. Desse modo, os resultados
serão escritos em forma de texto acadêmico e discutidos com o orientador. Também
deve contribuir a participação em eventos acadêmicos pertinentes, a exemplo da Jornada
de Iniciação Científica e Tecnológica da UNEB.

O corpus da pesquisa se constitui de parágrafos selecionados da obra madura de


Nietzsche, especialmente da Genealogia da moral, além do Curso de Retórica e do
ensaio “Sobre verdade e mentira no sentido extramoral”, texto considerado por todos,
leitores, comentadores e “atualizadores”, como norteador para pensar as relações entre
linguagem, conhecimento e moral. Do mesmo modo, Aulas e Conversas sobre estética,
psicologia e fé religiosa de Wittgenstein, Introdução à metafísica de Heidegger, Aula
de Barthes, Nietzsche, Freud e Marx de Foucault, Excitable speech de Butler e
passagens da Violência de Žižek. O corpus secundário é composto de outros textos
clássicos, como o Crátilo de Platão e De Magistro de Agostinho; textos relevantes dos
contemporâneos, e de comentários sobre Nietzsche, a exemplo das pesquisas de José
Thomaz Brum (1986) e de Roberto Machado (1999).

O trabalho se caracteriza pela leitura atenta e análise de texto filosófico, sem querer
encontrar nada de oculto, sem buscar o que no fundo ele quis dizer ou o não-dito, e sim
com atenção: ao dito (o que se afirma, o que se nega), ao modo como é dito (as
expressões usadas, sua graça, estilo, forma de pensar, de argumentar e refutar, se
paródico ou não, se irônico ou assertivo), ao silenciado (muitas vezes uma reserva), a
quando é dito (na iminência de que guerra, sob o impacto de qual política) e a quem é
dito (afinal, a “humanidade” sempre tem um rosto). Assim, cabe destacar as passagens
em que Nietzsche e filósofos contemporâneos refletem sobre o caráter violento da
linguagem e compará-las entre si.

Referências Bibliográficas:

AGOSTINHO. De Magistro. Tradução de Ângelo Ricci. São Paulo: Abril Cultural,


1980. (Os Pensadores).
ARTAUD, Antonin. O teatro e seu duplo. Tradução Teixeira Coelho. 2. ed. São Paulo:
Martins Fontes, 1999. 173p. (Tópicos).
BUTLER, Judith. Excitable Speech: A Politics of the Performative. New York:
Routledge, 1997.
HEIDEGGER, Martin. Introdução à metafísica. Trad. e apresentação Emmanuel
Carneiro Leão. 9. ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1966. (Coleção Tempo
Universitário).

26
BARTHES, Roland. Aula: aula inaugural da cadeira de Semiologia Literária do Colégio
de França, pronunciada dia 7 de janeiro de 1977. Tradução e posfácio de Leyla Perrone-
Moisés. 12. ed. São Paulo: Cultrix, 2004.
BRUM, José Thomaz. Nietzsche: as artes do intelecto. São Paulo: L&PM, 1986. 80p.
(Universidade livre).
CASSIRER, Ernst. A filosofia das formas simbólicas: I- a linguagem. Tradução
Marion Fleischer. São Paulo: Martins Fontes, 2001. (Tópicos).
CASSIRER, Ernst. Ensaio sobre o homem: introdução a uma filosofia da cultura
humana. Tradução Tomás Rosa Bueno. São Paulo: Martins Fontes, 1994. 391p.
(Tópicos).
CASSIRER, Ernst. Linguagem e mito. Trad. J. Guinsburg, Miriam Schnaidermann. 4.
ed. São Paulo: Perspectiva, 2000. (Debates. Filosofia, 50).
FOUCAULT, Michel. Nietzsche, Freud e Marx; Teatrum Philosoficum. Tradução:
Jorge Lima Barreto. Porto: Rés, 1975. (Cadernos de teoria e conhecimento, 1).
GILSON, Étienne. Lingüística e filosofía: ensayo sobre las constantes filosóficas del
linguagem. Version española de Francisco Béjar Hurtado. Madrid: Editorial Gredos,
1974. (Biblioteca hispánica de filosofia, 83).
MACHADO, Roberto. Nietzsche e a verdade. São Paulo: Paz e terra, 1999, 110p.
(Biblioteca de filosofia e história das ciências, 22).
NIETZSCHE, Friedrich. Curso de Retórica. Tradução e apresentação de Thelma Lessa
da Fonseca. Cadernos de tradução, São Paulo: Departamento de Filosofia da USP, n. 4,
p. 21-68, 1999.
_________. Genealogia da moral: uma polêmica. Tradução, notas e posfácio Paulo
César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. (Obras de Nietzsche).
__________. Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral. In: __________. Obras
incompletas. Seleção de textos de Gerard Lebrun. Tradução e notas de Rubens
Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Abril Cultural, 1974, p. 115-140.
PLATÃO. Crátilo. Trad. de Carlos Alberto Nunes. Belém: Editora Universitária UFPA,
2001. 226 p.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de lingüística geral. Tradução de Antônio Chelini,
José Paulo Paes, Izidoro Blikstein. 27. ed. São Paulo: Cultrix, 2006.
WITTGENSTEIN, L. Aulas e conversas sobre estética, psicologia e fé religiosa.
Trad. Miguel Tamen. Lisboa: Cotovia, 1991.

ŽIŽEK, Slavoj. Violência: seis reflexões laterais. Trad. Miguel Serras Pereira. São
Paulo: Boitempo, 2014.

27
Precarização da vida e sexualidade em Butler

Pedro Edington

Subprojeto 03

Palavras-Chave: Butler; Foucault; Precariedade; Sexualidade


Subárea do conhecimento: Ética

Resumo

O subprojeto “Precarização da vida e sexualidade em Butler” estuda a problematização


feitas por Judith Butler, em seu diálogo com Foucault, sobre a normatização do poder
estatal que precarizam a vida e suas formas de violência contra a sexualidade não
normativada. A pesquisa estuda, assim, o conceito de vida precária na obra homónima
e em Quadros de guerra, ambas de Butler, dialogando com conceitos da História da
sexualidade de Foucault. Ela traz um recorte da violência de gênero promovida por
mecanismos de poderes que impõem ao sujeito diversos conhecimentos e regras de
como exercer sua sexualidade e como seu gênero age. O dispositivo da sexualidade,
prescreve como se comportar e pune aqueles que possuem comportamentos que
transgridam as regras. Trata-se de uma pesquisa fundamentalmente bibliográfica, no
âmbito da ética, em que analisamos os mecanismos de poderes que desvalorizam um
sujeito a partir da norma e formam um sistema de criação contínua de vidas precárias.

Objetivo Geral

Analisar os enquadramentos de políticas e instituições públicas, associados à


normatização de gênero e sexualidade, que precarizam a vida, segundo Judith Butler.

Objetivos específicos

1. Descrever, a partir das obras de Butler e Foucault, a violência estatal incidida sobre
os corpos de sexualidades não binária;
2. Refletir sobre a relação entre a teoria do sujeito, os mecanismo de normatização e a
constituição de sua subjetividade;
3. Elencar as formas de violência na constituição do sujeito e de sua sexualidade.

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Revisão de Literatura

A precariedade é a consequência física e visível de um sistema que não assegura a vida


da população, Judith Butler faz uma crítica a esse sistema que garante condições de vida
de pequena parte da população e marginaliza outra parte, retirando inclusive direitos
básicos. Em um sociedade como a nossa existe uma escala de valor da vida, desde seres
muito privilegiados até vidas destituídas de qualquer importância. A marginalização
acontece por fatores determinantes como: raça, gênero, sexualidade e nacionalidade. E
devemos ainda responsabilizar a mídia por manipular informações para que, por
exemplo, em um exemplo de guerra, ou das centenas de guerrilhas que pululam no
Brasil, se humanize um lado e desumanize o outro. Também imputamos à mídia as
formas de representação de gênero e sexualidade que tornam uma vida menos valorosa
do que a outra. “A precariedade”, segundo Butler (2017, p. 30-31), “traduz uma
condição politicamente construída através da qual determinadas populações são
assimetricamente expostas a contextos de violência, perigo, enfermidade, migração
forçada, pobreza ou morte”. Por isso, “A precariedade deve ser entendida, não segundo
uma ontologia individual, mas segundo uma ontologia social que possa revelar a
importância da interdependência e da intersubjetividade na produção da vida precária”.

Para Butler o corpo é criado em esfera pública, na interação social, o corpo se torna um
discurso e uma performance: “O corpo está exposto a forças articuladas social e
politicamente, bem como a exigência de sociabilidade –incluindo a linguagem, o
trabalho e o desejo -, que tornam a subsistência e a propriedade do corpo possível”
(BUTLER, 2015, p. 73). Em vida precária Butler recorre a alguns conceitos de Levinas
para demostrar como um corpo carrega um significado, um rosto, que vai ser
identificado e reconhecido, em certas circunstancia acolhido e em outras combatido. A
partir do contexto social, conforme o conceito de reconhecimento de Lévinas, eu posso
reconhecer um rosto como familiar ou também posso reconhecer como inimigo e na
incerteza do que esse rosto possa fazer comigo, posso matá-lo.

O corpo que nasce na esfera pública, partilha com outros de um caminho traçado
previamente pelos enquadramentos normativos da vida. A organização dos corpos só é
possível porque existem mecanismos de poder que fazem com que eles se organizem.
Para Foucault, esses corpos estão sob um aspecto de submissão; eles são formados a
partir de interesses políticos, disciplinando-os para melhor manipulação. A partir da
disciplina se criam normas de comportamento e de relações: “O poder disciplinar tem
por correlato uma individualidade não só analítica e ‘celular’, mas também natural e
orgânica” (FOUCAULT, 2014, p. 54), a disciplina conduz a um processo de docilizarão
do corpo: “É dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode
ser transformado e aperfeiçoado” (ibid., p. 55). A ideia de aperfeiçoamento de corpo
está ligada à utilidade. Um corpo que faça suas obrigações, que trabalhe e seja útil a um
sistema que visa um maior acúmulo de capital, é mais útil que um corpo que se
questiona sobre o sistema.

29
Os corpos são moldados em normas. As normas são consideradas como naturais, pelo
menos quando não sofrem transformação recente. A dimensão que as normas atuam
acaba ultrapassando toda esfera humana no que diz respeito ao público, ou seja, as elas
atuam sobre todo aspecto social. A norma estabelece padrões não só de comportamento,
como também de subjetividade. O indivíduo que manifesta uma subjetividade diferente
da comum, normatizada, é taxado como corpo transgressor e sente em si o preconceito
estatal, a violência de diversas formas, inclusive com a restrição de sua ocupação social.
O aparato estatal de poder e as imposições de normas de gênero restringem
violentamente o corpo a marcas biológicas restritas por categorias identitárias e
heteronormativas; condenam a pessoa a uma vida precária. Esse corpo sofre de tantas
vulnerabilidades, falta de assistência e descuido de sua vida diante de uma sociedade
que o despreza e combate.

Metodologia

A pesquisa é essencialmente bibliográfica, pertence à área da ética, e pretende


aprofunda o conceito de vida precária a partir da violência estatal sobre o corpo e sua
sexualidade. As principais técnicas são leitura, fichamento e discussão de textos de
relevância filosófica. Estão previstas reuniões semanais com o grupo de pesquisa
(orientador, orientandos de IC e de TCC), com apresentações da literatura fundamental,
seguidas de discussão. As reuniões fazem parte do projeto de extensão Marte-SSA, na
qual discutimos os textos lidos previamente, em seguida sobre a ordem do dia, isto é, o
levantamento feito pelo grupo das violências mais gritantes da semana vinculados na
grande mídia e em jornais locais. As reuniões individuais de orientação visam a
elaboração de um artigo. Desse modo, os resultados serão escritos em forma de texto
acadêmico e discutidos com o orientador. Também deve contribuir a participação em
eventos acadêmicos pertinentes, a exemplo da Jornada de Iniciação Científica e
Tecnológica da UNEB.

Além do conceito de “vida precária” de Butler, enquanto leitora de Lévinas, são


fundamentais também os conceitos de “sexualidade” e “dispositivo da sexualidade”,
com o qual dialoga com Foucault, e os de “gênero”, “performatividade”, “norma” e
“iterabilidade”. As principais obras a serem estudadas são Vidas precárias e Quadros de
guerra de Butler e História da sexualidade I de Foucault.

O trabalho se caracteriza pela leitura atenta e análise de texto filosófico, sem querer
encontrar nada de oculto, sem buscar o que no fundo ele quis dizer ou o não-dito, e sim
com atenção: ao dito (o que se afirma, o que se nega), ao modo como é dito (as
expressões usadas, sua graça, estilo, forma de pensar, de argumentar e refutar, se
paródico ou não, se irônico ou assertivo), ao silenciado (muitas vezes uma reserva), a
quando é dito (na iminência de que guerra, sob o impacto de qual política) e a quem é
dito (afinal, a “humanidade” sempre tem um rosto). Assim, cabe destacar as passagens
em que Butler e Foucault refletem sobre a violência estatal em relação à sexualidade e
ao gênero.

30
Referências Bibliográficas

BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: Notas sobre uma teoria
performativa de assembleia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 2018.
________. O parentesco é sempre tido como heterossexual?. Cad. Pagu [online]. n. 21,
p. 219-260, 2003. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-
83332003000200010&lng=pt> Acesso em: 01/04/2019.
________. Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto?. Trad. Sérgio Tadeu
de Niemeyer Lamarão; Arnaldo Marques da Cunha. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2017
________. Relatar a si mesmo: crítica da violência ética. Trad. Rogério Bettoni. Rio de
Janeiro: Autêntica, 2015.
________. Vida precária. Contemporânea – Revista de Sociologia da UFSCar. São
Carlos, Departamento e Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFSCar, 2011,
n.1, p. 13-33.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade 1: a vontade de saber. Trad. Maria
Thereza da Costa Albuquerque, J. A. Guilhon Albuquerque. 12. ed. Rio de Janeiro:
Edições Graal, 1988. (Biblioteca de filosofia e história das ciências).
__________. Microfísica do poder. Organização e tradução: Roberto Machado. Rio de
Janeiro: Graal, 1999. p. 15-37. (Biblioteca e filosofia das ciências, 7).
__________. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Trad. Lígia M. Pondé Vassalo.
Petrópolis: Vozes, 1977.
TEIXEIRA, Jaqueline Moraes. Mídia e performances de gênero na Igreja Universal: O
desafio Godllywood. Revista Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 34(2): 232-256,
2014. Disponível em <http://www.scielo.br/pdf/rs/v34n2/0100-8587-rs-34-02-
0232.pdf>. Acesso em 01/04/2019.

- Resultados Esperados [exemplo]

1) Participar das reuniões semanais de orientação com o professor orientador e colegas


envolvidos no mesmo projeto;
2) Acompanhar reuniões e eventos promovidos pelo projeto de extensão “Marte-SSA:
Quadros de Violência”;
3) Participar ativa e positivamente da prática de pesquisa de modo a aprender as regras
de escrita de texto acadêmico e as técnicas de pesquisa em filosofia, além de
desenvolver habilidades em confrontar questões e temas de caráter filosófico;
4) Apresentar no sexto mês da bolsa o Relatório Parcial, e, ao término da vigência da
bolsa, o Relatório Técnico Final da Pesquisa;
5) Apresentar um resumo da pesquisa para publicação nos anais da Jornada de
Iniciação Científica;

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6) Participar da Jornada de Iniciação Científica e Tecnológica da UNEB com
apresentação dos resultados do projeto;
7) Apresentar comunicações em eventos acadêmicos
8) Escrever um artigo científico em parceria com o orientador sobre os resultados da
pesquisa.

- Cronograma de Atividades para o Candidato


[exemplo]

Meta/ Atividade
Levantamento bibliográfico
Leitura exploratória de artigos e livros
Definição da bibliografia secundária
Leitura e fichamento da Bibliografia básica
Leitura de obras de
Reunião com o Grupo de pesquisa
Análise do material fichado
Análise da leitura de
Leitura de material complementar
Escrita dos resultados da pesquisa
Produção de Relatório
Produção de artigo com o orientador
Apresentação pública dos resultados da pesquisa
Participação na Jornada de Iniciação Científica e Tecnológica da UNEB com
apresentação dos resultados do projeto.

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