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Para nosso amigo: S.S.

AGENCIAMENTOS
Félix Guattari e o Animismo Maquínico

Um projeto de pesquisa visual por


Angela Metitopoulos e Maurizio Lazzarato

Legendas: Entre Olhos


Especial MKO

Revisão: Suicidados das Sociedades

Hoje parece interessante para mim


voltar para aquilo que eu chamaria

de uma concepção animista da subjetividade,


que perpasasse fenômenos neuróticos,

rituais religiosos ou fenômenos estéticos.

Como a subjetividade se insere ao


lado do sujeito e ao lado do objeto?

Como ela pode simultaneamente


singularizar um indivíduo,

um grupo de indivíduos, e ainda assim


está agenciada ao espaço, à arquitetura

e a todos os agenciamentos cósmicos?

Félix Guattari

I. ANIMISMO E PSICOSE

O mínimo gesto (1971) um filme de Jean-Pierre Daniel,


Ferdinand Deligny e Josee Manenti

Um corpo, não importa qual, pode...

defender seus limites.

Pode recusar uma partícula


de fora, qualquer que seja ela.

Entre pessoas psicóticas, e entre


muitos esquizofrênicos,

isto começa na prática cotidiana


com partículas do self

ou talvez entre os corpos não-vivos,


ou nos corpos fora do self

isto não demonstra nenhum problema.

É como um exercício natural.


Se você não o entende,

um esquizofrênico pode olhar


pra você como um idiota.

"Sério, você não entendeu?"

Isto foi o que você provou


em seu trabalho na clínica?

Sim, claro.

Existe uma certa sensibilidade


particular que alguns chamam delírio.

É claro que é um delírio


em nossos padrões;

é algo que manda os psicóticos


pra fora da nossa realidade social

que é completamente dominada


pela linguagem, pelas relações sociais.

Então efetivamente isso


o separam do mundo.

Mas o levam para um outro mundo,


na qual somos completamente apartados.

É por esta razão que Félix manteve


esta visão laudatória sobre o animismo.

Essa faca foi afiada


com essa pedra.

Está muito afiada!

Está muito afiada essa lâmina.

Está muito afiada!

Veja!
Eu vou arrancar meus órgãos!

...para cortar a garganta


de alguém é perfeita!

...Tenho que ajustar


a ponta e a lâmina.

Foi uma obsessão em toda


a história do pensamento

definir o que é natural


e o que não é,

até o ponto em que as pessoas pensaram


que se não existe linguagem falada
é algo necessariamente animal.

Eles proibem as crianças


que crescem sem falar

de continuar a se expressarem com


sinais, incluindo pessoas surdas.

Por cem anos o Vaticano proibiu


o uso da linguagem de sinais.

Mesmo que ela seja


a linguagem por excelência.

Não é animal.

Ela é construída e define uma forma


de cultura entre os surdos.

Em toda a história do ocidente,


a respeito da questão do que é humano,

nós sempre consideramos categorizar


movimentos gestuais como animais

mesmo que eles possam ser decodificados....

E isso é verdade para a dança


e para todas as práticas corporais.

E isso se tornou verdade


para todas as pessoas

que nós encontramos


durante a colonização.

Sequência DELIGNY,
primeira tomada!

Fale.

Ce Gamin, là (1972-1975)
um filme de Renaud Victor

Falar...

Falar como se fosse


completamente natural.

Nós falamos sobre este


garoto e outros como ele.

Mesmo que nós façamos


tudo para evitar a linguagem.

Esta famosa linguagem,


que nos faz quem somos.
E agora,
somos responsáveis por isso.

Muda, essa criança...

Então em que se apoiar?

Em que se apoiar quando


a linguagem está ausente.

Nós começamos traçando.

Incapaz de falar
essa criança traça.

Por meses e meses.

Suas mãos traçaram círculos.

Círculos e nada mais.

Ele ainda traça círculos.

Então nós começamos a traçar.

Nossas mãos seguiam o traço


do que nossos olhos viam.

Nossos olhos seguiam o que nossa


contemplação conseguia enxergar,

pra ver, pra apreender, pra nos informar.

E aqui estão os trajetos desse


garoto, um dia em setembro de 1967.

Ele está girando.

Ainda sobre si mesmo, suas mãos


nas costas, uma segurando a outra.

Ou ainda correndo.

Como se alguém o segurasse no fim


de uma coleira no meio de uma arena.

As pessoas dizem que a criança "virou mal"...

Bem, ele gira incessantemente,


sobre si mesmo.

Isso é o que a linguagem nos faz dizer:


ele está rodando em círculos sobre si mesmo.

Mas e se esse famoso self


está de fato ausente, vazio...

O traço é a única prova que temos


de que uma ação realmente aconteceu.
Então é a verdade por excelência.

Estamos além de qualquer sistema simbólico,

além de sistemas de oposições


entre significante e significado.

Nós estamos na verdade da ação.

Obviamente que existem


milhares de modos de interpretá-la.

De todo modo, efetivamente os povos


aborígines leem a terra através de traços,

e isso é o que constitui suas culturas,

eles leem esses traços como detetives,


em busca de pistas.

Então quando Deleuze


fala sobre o devir-animal,

do modo como ele desenvolveu junto com Guattari,

eles se referem a esse


aspecto do estado de alerta.

Não é somente a predação, o fato de


tentar pegar uma presa, ou estar consciente,

ou não ser pego, mas é também


sobre como saber ler traços.

Eu realmente amo quando Guatarri fala sobre um


"sujeito objetivado", algo assim...

e sobre o fato de que a subjetividade


pode ser um objeto entre objetos,

ao invés de uma posição transcendental


em relação a um mundo de objetos.

Ao contrário, o sujeito é a coisa


mais difundida no mundo.

Isso é exatamente o animismo,

a ideia de que a
base do real é alma.

Uma alma que não está em oposição


ou contradição com a matéria;

ao contrário, é a matéria ela


mesma que está inserida na alma.

Era uma vez uma época


onde haviam homens e pedras.

Eles ficavam próximo das


nascentes e não sabaim o por quê.

A água não era usada para beber.

E as pedras estavam lá também,

sentando nelas, quebrando nozes,


levantando muros, marcando estradas

mas elas não eram usadas.

Este garoto incontrolável, insuportável


incurável, ele toma uma iniciativa.

Ele joga os dados e assim vai.

Mas em um mundo onde a linguagem governa,


seria ele livre para fazer isso?

Mas permance desconhecido


se nós temos essa liberdade.

E como saber o que


ele está ouvindo.

Quais vozes sem som

e que falam sobre um tempo

quando seres humanos


não eram um ou outro

discriminados pela linguagem.

Ele está escutando. Nenhum animal


escuta como ele, sem razão.

Do som chegando
das profundezas da água

que não é objeto, já


que ele não é uma pessoa.

A possibilidade de repensar o
sujeito, sem um pensamento idealista

mas uma teoria materialista do sujeito,

o sujeito como sujeito material,

me atrai.

Eu penso que isso vai de encontro


ao modo de pensar de pessoas

que eu conheço bem,


os índios da Amazônia,

e que são animistas nesse sentido.

Eles pensam que a base comum do


humano e do não-humano é a humanidade.

Se você olhar bem o mito de índios


da Amazônia, todas eles começam

com o dizer de que no início


todos os seres eram humanos.

É a história de como certas coisas


deixaram de ser humanos.

Eles deixaram a humanidade para


se tornarem animais ou objetos...

Nos nossos mitos é


exatamente o contrário.

No início, todos nós


éramos animais ou pura matéria

e alguns de nós se humanizaram.

Foi assim como os contos heróicos


de Prometeus foram criados.

A humanidade está conquistando a


natureza e criando a alteridade da cultura,

criando cultura como a alma moderna.

Como algo que nos distingue


do resto da criação.

Onde, para os índios amazônicos,


é exatamente o contrário.

Eles entendem que é por causa da


alma que todos são partes do mundo

e que nós humanos temos


uma materialidade particular.

O que nos faz humanos são


nossos corpos, não nossas almas.

Nossa alma é a coisa


mais comum do mundo.

Tudo é animado.

Sim, isso é o animismo.

Você tem que criar um corpo.


Isso é algo de importância
no mundo dos índios da Amazônia.

Todas as técnicas usadas para fazer um corpo:


adornamentos, marcas, tatoos, incisão, pinturas;

tudo para fazer um corpo


que é diferente o suficiente

da base geral da humanidade ou alma,

através do qual nos comunicamos


com todas as entidades do mundo.

Para Félix, as noções de


natureza e cultura reunidas

crescendo juntos etc.,


deixam de fora o essencial.

E o essencial é o asignificante que apenas


pode existir nos termos maquínicos.

É aqui onde a espiritualização


é aliviada pela desterritorialização,

e a desterritorialização
é necessariamente maquínica.

Mas entrar no mundo de Félix é


aceitar tanto no início como no meio

que nós realmente não sabemos


o que animismo e maquínico significa.

Desde o fim dos anos 60 a descoberta de


Hjelmslev por Félix como um constante leitmotiv.

Não há distinção real


entre conteúdo e expressão.

Nós temos que pensar em termos


de substância e expressão.

As flutuações do signos funcionam


como flutuações da matéria.

"Eu quero pensar",


eu cito de memória...

uma molecular passagem


através de signos.

De fato, se não somos


especialistas em Hjelmslev,

e ninguém nessa mesa


é especialista em Hjelmslev,
o único jeito de pegar
essas ideias é entender

que se não há distinção real


entre expressão e conteúdo,

e que se tivermos que pensar


em termos de substância de expressão,

nós estamos literalmente


em um mundo animista.

Esta era a forma de Félix funcionar.


Eu acho e tenho certeza.

Você pode encontrar ecos explícitos


no livro "Mil Platôs"

e isso era de fato a coisa pro Felix.

A ideia de que o mais real é o lugar,

onde o mais abstrato e o


mais concreto se juntam.

Imediatamente nós estamos entendendo.

Efetivamente, se não há distinção real

entre expressão e conteúdo, nós estamos


no modo de linguagem das intensidades.

E dentro da categoria fundamental, na qual


é "a categoria" fundamental para o Félix:

que é a ideia de uma


semiótica assignificante.

Daqui em diante, você também entende

o jeito que ele ataca


frontalmente o estruturalismo,

e totalmente se separa de qualquer


forma de formalismo estruturalista,

enquanto estabelece
o conceito maquínico.

2. ALÉM DOS SUJEITOS OCIDENTAIS

E a possessão começa. Lentamente pelo


pé esquerdo, depois pelo pé direito

Ela começa pelas mãos,


braços, ombros e cabeça.

E o primeiro possuído se levanta.


Ele é Capalgardi, o guarda corporal.
Ele saúda a todos.

Então ele pede fogo pra se queimar

e mostrar que ele não é


mais humano, mas um Hauka.

Os Mestres Loucos, um filme de Jean Rouch (1955)

Após as saudações, uma nova pessoa


possuída começa a gritar. É Gerba,

um dos punidos que estava nos arbustos.


Gerba, que está possuído pelo Hauka

Sankaki, o condutor da locomotiva.

Ele irá pegar todas as armas e


levá-las ao altar sacrificial.

O guarda corporal pega


a tira vermelha de comando

e o terceiro possuído se levanta.

E o capitão Malja, o capitão dos mares


vermelhos, aquele que faz a "slow-march",

a marcha da parada do exército britânico.

O condutor da locomotiva também


pega sua tira vermelha de comando.

E a quarta pessoa é possuída,


Senhora Locotoro.

O filme Os Mestres Loucos


nos mostra como

pertencer a uma sociedade


secreta nas florestas,

viver uma outra parte do self, a psyche livre,


alguém pode dizer o inconsciente,

um inconsciente maquínico de Gilles e Felix


e através de um ação ritual,

sendo um agenciamento
coletivo de enunciação,

como um acontecimento ou o jogo


da Kadabriski, que é exposto aqui,

e que permite que outros,


falando em termos nietzschianos,

transbordar excessos e se expressarem


livremente e não serem contidos ou sedados.

Mas para exibir um outro e aí: cansado,


repousar e voltar à outra metade.

Isso significa um
exercício esquizofrênico.

Isso mostra que o mundo dos


artistas, personagens, humanos,

que arriscam a usar seus


corpos como laboratórios vivos,

Isso significa que suas ideias e crenças,


seus discursos, linguagem e atividade

não são construídas através


de uma ideologia pré-estabelecida,

mas através de uma experiência


sensorial do real.

3. O DIREITO À LOUCURA
ou A CLÍNICA DE LA BORDE

La Borde ou o direito à loucura


um filme de Igor Barrere (1977)

O toque é muito complicado.

Os mecanismos, a percepção,
o senso do toque...

isso numa estrutura que é definida


pela forma de pequenas rosas.

Eu estudei muita física, e matemática,


e psiquiatria, um pouco.

E eu trabalhei muito na bomba atômica,


na qual funcionou muito bem.

E átomos não são carbono,


oh, tudo isso...

Uns devem falar que existem um núcleo,


mas um núcleo que é finito no tempo,

que isso deveria desenvolver e construir


uma estrutura que desenvolve no tempo.

La Borde era um lugar de experimentação

e nós não deveríamos brincar com


palavras mas levá-las à sério.

Isso significava uma política de experimentação.


Significa como a experimentação
engaja a política inteiramente.

E essa política volta para lidar


com aquilo que é chamado assignificante.

Porque as pessoas que chegavam em La Borde


não se sentiam bem, talvez se sentissem muito mal,

elas não seriam curadas por significantes.


Isso é verdade.

Porque no melhor dos cenários,

nós podemos produzir uma


interpretação totalmente formalizada

de uma causalidade sintomática.

Mas eles, o que eles podem fazer com isso?


Nada!

Porque eles não são apenas neuróticos,


eles são verdadeiros psicóticos, de fato.

Isso não deve ser visto de uma


perspectiva teórica ou paradigmática,

essa abordagem experimental sobre


a loucura que nos trouxe a esse ponto.

As instituições estão em constante progressos,


mudanças, evoluiram e foram modificadas,

elas foram polêmicas em


todos os seus empreendimentos.

Porque pra nós o desafio é criar um meio


onde as coisas possam se expressar por elas,

que não sejam expressão


proporcionada em outro lugar,

porque a dinâmica da clausura de uma


pessoa doente com o seu próprio corpo,

com seus problemas, sua famíla e seu papel.

Então diante desta pessoa, você mesmo está


fechado em suas próprias funções institucionais,

em suas ideias, em seus preconceitos,

indo de um ponto de clausura a outro.

Então precisamos nos abrir?

Sim, temos que nos abrir, mas pra quê?


Primeiro nós temos que nos livrar dos muros,
como você pode ver aqui.

Mas também nós precisamos abrir nossos


comportamentos, gestos, espíritos, ideais...

- Para nos desbloquear.


- Sim, para desbloquear.

La Borde ou o direito à loucura


um filme de Igor Barrere (1977)

O que acontece aqui é que nos


usam como cobaias para as pílulas.

Era assim que eles faziam


nos campos em Dachau,

a solução final para os


problemas dos judeus.

Eles deram a pílula para


todas as mulheres...

todos os meus implantes...

eu fiz todos os meus


campos de concentração.

Foi David Be... um israelita nojento,


mas agora estamos todos fudidos.

Foi a bomba..

Três caras de uma vez.


Medite sobre isso.

Você deveria saber o que isso significa,


não é por nada que alguém é racista...

não é por nada que


alguém é anti-semita.

Eu penso que os problemas têm


cada vez mais e mais similar natureza

dos problemas relacionados


ao inconsciente.

Isso significa que não há quebra entre


as coisas que tem fazem neurótico,

numa situação de fim de tudo,


e os problemas em suas parcerias,

com suas crianças, no trabalho...

Eles estão relacionados um


a um e são do mesmo tipo!
Então eu desconfio das pessoas
que fazem essa distinção.

Você vai perceber que entre certos


insanos ou em delírios graves,

existentes temas que perpassam


problemas socio-políticos:

os chineses, os russos, foguetes,


todos os tipos de radiação...

...campos de concentração, racismo,


isso importa em um delírio.

Isso mostra que uma comunicação


entre todas essas coisas existe

que são às vezes


difundidas pela televisão,

e eles estão relacionados às coisas mais íntimas,


pessoas vivendo na solidão, delírios e becos sem saída.

Então pra mim não existe


inconsciente coletivo ou singular.

Assim como não existe especialista


da consciência individual,

ou então alguém na missão de


representar esses problemas coletivos.

- Pra mim são problemas similares.


- Tudo está ligado?

Isso é apenas uma perspectiva, porque na


prática quando você fala com alguém

esse discurso não vai te


pegar em nenhum lugar.

Félix Guattari
O Divã um vídeo de
François Pain e Danielle Sivadon (1985)

Então o que eu estava


dizendo ontem, que...

O sujeito-grupo não é algo


que se autonomiza por si

de forma a estabelecer
seus sistemas de coordenadas,

e desenvolver aquilo que pode


ser chamado uma política exterior:
significando um certo tipo
de relação com o de fora

que está recebendo consequentemente


uma visão de si mesmo de fora.

No sentido de que as posições dos indivíduos


são irredutíveis e sobre-determinadas

através desta subjetividade coletiva, deste


agenciamento subjetivo coletivo chamado grupo.

Em minha opinião temos


que olhar um pouco adiante,

Não somente existe essa possibilidade


de "zero grau de significado",

um estágio que te permite


retrabalhar a direção do significado,

até que a gênese de outras direções


de significado se tornem possíveis.

Isso é o que chamo


"heterogênese do significado".

De uma vez a heterogeneidade e o


processo generativo começam de um núcleo.

Então existe esta ideia


de uma quebra

como no palco ou numa peça de teatro


que quebra com regras ordinárias do significado

e existe esta ideia de que no palco

certos elementos podem ter


uma função de singularização

que eles não teriam tido antes.

Então em um estágio institucional


na qual um sintoma psicótico,

ou um acidente cotidiano, um comportamento...


algo que os coloca contra a função normal

na qual podem facilmente interessar aos


limpadores, a esposa do diretor e ao psicótico...

ao invés de estar fechado em uma perspectiva


circular de uma maneira mortífera,

isos vem de uma outra forma.

Isso pode criar um tipo de


desenvolvimento barroco da subjetividade.
E neste domínio a psicoterapia
institucional nos mostrou

que nós podemos ir


muito longe, muito longe.

O que nós conseguimos fazer com 150


pessoas na clínica de La Borde é ultrajante...

Muitas atividades... Como música


institucional, música subjetiva,

inimagináveis em instituições clássicas.

La Borde foi um laboratório polifônico

E isso é verdade...

Quando você está em contato com a psicose

você está completamente desteritorrializado


do sujeito, imediatamente.

Em outras palavras,
a subjetividade e as subjetivações

não têm absolutamente nada a ver com a


identidade ou o sujeito antes de nós.

É como se ela permitisse todos os tipos


de entidades de todos os lugares de proliferar.

Com a desterritorialização você pode ver


claramente sem pensar em um modo de identificação

mas um modo de
experiência palpável,

um modo pático, como dizem


os fenomenologistas,

esses são os seus devir-outro,


devir-maquínico,

devir-animal, devir-imperceptível

que não estão em fusão,


mas em um gradiente de troca,

de uma troca da subjetividade,


com outros elementos,

com outras parcelas da natureza.

Isso é o que pode ser chamado


mundo subjetivo.

Isso não significa que tudo


está globalizado e igual,

mas isso diz que você pode encontrar,


neste processo, a possibilidade

que os filósofos evocam


e eu não sou muito filósofo,

que homem e natureza


não estão colocados

como dois pólos opostos,


um contra o outro em conflito.

Talvez seja nesta veia


que Marx pensou sobre isso:

nós temos que subjugar a natureza,


para superar a natureza, e permitir o domínio...

E existe outra forma de falar sobre isso,

aparece em muitas ecologismos


de Félix, como em "Três Ecologias",

que diz não, que existem também


um punhado de trocas permanentes,

a capacidade de fazer uma


micro e macrocósmica experiência

da natureza em seus diferentes aspectos:


mineral, vegetal, animal, etc.

Então algo que tem a ver com animismo.

Então se essa troca permanente é possível,


se essa interação pode ocorrer

esse não é bem um termo que Félix usa,

mas se ela é possível,


ela é possível em muitas direções.

Isso significa que você possue em consonância com


as árvores a capacidade de fazer algo para nós,

de trabalhar em nós.

Nós temos em consonância com


os animais a capacidade de nos iludir,

de nos modificar, de nos seduzir,


de nos conquistar...

Quando esta pática,


lógica não discursiva existe,

nós estamos conectados com outra coisa.


Em minha opinião existem esses
objetos mentais sobre os quais Félix fala

e no qual ele diz,


e em parte Freud os descobriu,

mas os enclausurou imediatamente


dentro do triângulo do complexo de édipo

e os submeteu a uma estrutura lógica


e ao despotismo da significação,

tudo isso precisa ser reliberado.

E quando estiver liberado, isso proverá


uma profusão ingovernável.

Isso irá se proliferar e encher


o mundo de uma outra forma.

Eu acho que isso cria


outros mundos possíveis...

Se eu entendo Guattari bem...

A primeira coisa que a fazer é cortar


a relação entre sujeito e humano.

A subjetividade não é
sinônimo de humanidade.

O sujeito é uma coisa,


o humano é outra.

O sujeito têm uma função objetiva e pode


ser encontrado na superfície de todas as coisas.

Não é um tipo de objeto especial...

O sujeito é uma forma de descrever a ação


de uma coisa. É assim para as sociedades amazônicas.

Para eles o sujeito é uma forma de


descrever o comportamentos das coisas.

Exatamente do modo como a objetivação é para


nós uma forma de descrever coisas nesse sentido.

Nós imaginamos a ciência sendo


científica quando ela é capaz

de esvaziar o mundo de
toda a sua intencionalidade.

A descrição científica do mundo,


em termos "modernos"

é um mundo onde
tudo é descritível

em termos de interações
materiais entre duas partículas.

Para as sociedades amazônicas é exatamente o contrário.


A questão sempre é "Como?" e não "O quê?"

Porque não existem coisas que não tenham


intenções, geralmente uma má intenção.

É a teoria da grande suspeita,

maior que as de Nietzsche ou Bourdieu...

Existem mais sujeitos do que humanos.

A subjetividade é uma fusão


da multiplicidade e não de unidade.

Ela não produz uma unidade de consciência


ou uma função de integração,

mas ao contrário, ela tem


uma função de dispersão.

A subjetividade não é uma síntese


transcendental, mas uma síntese disjuntiva,

para falar com as palavras de outros...

E para mim isso é o animismo.

É um mundo que é em sua


raiz anti-monoteísta,

e tudo que pertence ao monoteísmo,

no sentido de mono-antropismo,
mono-subjetivismo e a ideia de "um"

é a forma como nós assumimos


para nos fazermos valiosos.

4. ANIMISMO E RESISTÊNCIA

A psicanálise freudiana e também


a psicanálise lacaniana

significa que o estruturalismo da


psicanálise baseia tudo na linguagem.

Eles de alguma forma levam em


consideração todos os fenômenos

que escapam da compreensão


da psicologia clássica.

Então eles descobriram o que era chamado


de novo continente da subjetividade.

Mas ao invés de explorar


esse novo continente

eles se comportaram um pouco como os


exploradores do século XVIII ou XIX

durante as grandes guerras coloniais.

Eles não estavam nada interessados no que


acontecia no continente africano e americano.

Mas eles colocaram todos os seus esforços


no entendimento de coisas suficientes

no sentido de adaptar as populações


ao estilo de vida europeu

ou ao capitalismo europeu.

Então a psicanálise fez o mesmo.


Eles estavam interessados em sonhos,

no lapsos, no deslize freudiano, na psicose,


na psicologia infantil, no mito etc.,

mas não para entender, para aprofundar


as lógicas específicas em seus domínios,

mas para adaptá-los


à compreensão dominante,

ao estilo de vida dominante, no


sentido de certos tipos de relações

entre homens e mulheres,


um certo tipo de triângulo familiar,

um certo tipo de interpretação da realidade.

Esta é minha crítica: a psicanálise


atua como um poder colonial

em relação a um inconsciente

que exatamente escapa das realidades


dominantes e as habitam diferentemente.

Se alguém pensa sobre uma subjetividade


animista, pós-colonial ou pré-colonial,

nada é mais centrado no self


e não mais podemos falar sobre sujeitos,

porque a ideia de sujeito significa um sujeito


moderno governado por princípios identitários

e é reduzido a esses potenciais.


Mas se nós ativamos outras
capacidades do corpo e da subjetividade

durante processos de subjetivação,

isso não é mais antropocêntrico ou logocêntrico


e nós não mais podemos falar sobre um sujeito e um objeto.

Em seus primeiros escritos, Freud disse que


a vida é uma espécie de "plasma germinativo".

Podemos traduzir isso de forma diferente e dizer

que o "plasma germinativo" significa que a vida é


basicamente poder de diferenciação, poder de criação.

Esta capacidade é aquela que nos permite


inventar e pensar a realidade,

para continuamente encontrar caminhos


na qual a vida pode tomar forma e se atualizar

e lutar contra as forças reativas


que impedem esse processo.

É exatamente isso que existiu em muitas culturas


que foram reprimidas pela Europa ocidental,

que incluem certamente todas as


culturas indígenas da África e América Latina.

Assim como a cultura dos judeus


hassídicos antes da inquisição,

quero dizer o fio central da filosofia


judaica na cultura judaíco hassídico.

Mesmo que existam diferentes linhas de


pensamento, nós devemos fazer como fez Spinoza

e remover a ideia de um deus


monoteísta e transcendental,

e recuperar nossa habilidade de


pensar em e através da imanência.

Todas as culturas têm essa capacidade.

Culturas africanas foram reprimidas


por três séculos de escravidão,

culturas indígenas foram


praticamente destruídas,

e judeus do mediterrâneo
foram destruídos por três séculos

de inquisição na Espanha e em Portugal,


onde o catolicismo inquisidor se instalou.

Então de um ponto de vista visível e macropolítico,

existe a repressão e a
censura destas culturas

e de um ponto de vista micropolítico há uma


inibição de potencialidades e do poder vital,

uma inibição da experiência


do mundo através dos afetos,

uma inibição do acesso de sensações


afim de colocar o pensamento

a serviço de processo de realização.

Tudo isso permanece sobre repressão.

Eu chamo esse tipo de repressão


de "repressão colonial".

Eu penso sobre esse problema


de uma perspectiva micropolítica

e eu penso que Félix nos ajudou


tremendamente a fazer essas conexões,

talvez ele seja o filósofo que


mais nos ajudou nisso.

Porque ele tanto era um filósofo


ativista como um clínico,

então o problema está em como ativar


esse poder e nos capacitar nós mesmos.

Talvez nós precisamos refletir


mais sobre a noção de corpo.

Como ele é representado nas sociedades


industrializadas e desenvolvidas

como se tivéssemos um corpo.

Mas isso não é de todo evidente.

Eu acredito que eles nos imputam um corpo,


nós temos nosso corpo produzido.

Um corpo que é capaz de se desenvolver


num espaço social e produtivo

e pelo o qual nos tornamos responsáveis.

A fase principal de iniciação ao


fluxo do capitalismo durante a infância
é tudo sobre internalização
desta noção de corpo.

Você está atribuído a um corpo


que está nu e envergonhado

você tem um corpo que deve

se submeter a uma funcionalização específica


de uma economia social ou doméstica.

Mas o corpo com sua face e comportamento,

em todos os detalhes e
movimentos com inserção social

sempre se apresenta como um modo


de inserção na subjetividade dominante.

E quando o corpo abrupta de vez,


por exemplo como uma dificuldade neurótica,

como medo, ou como dificuldade de se apaixonar,

que são muitas vezes idênticas,

aí você se encontra num tipo


de estradas das articulações possíveis

entre agenciamentos que podem


produzir possibilidades singulares

e os agenciamentos sociais,
os coletivos e formações sociais

que esperam de você uma


certa adaptação ou normalização.

Existem outros sistemas antropológicos,

onde a noção de um corpo individualizado


não funciona da mesma forma.

Mesmo a noção de corpo


como natural não existe.

O corpo "arcaico" nunca é um corpo nu.

É sempre um subconjunto de um
corpo social, impregnado e marcado

pelas marcas do socius,


por tatuagens e iniciações...

Mas esse corpo não tem


órgãos individuais.

Esse corpo está saturado por almas e espíritos


que pertencem a agenciamentos coletivos.
Animismo é um modo de apreensão do mundo,
um modo de conduzir existência e pensamento.

Esta ética do pensamento é a


tarefa fundamental do pensamento

de uma perspectiva ética,


política, clínica e estética na vida.

É isto o que o colonialismo


reprime por excelência,

deste modo a resistência ocorre


em planos micropolíticos.

Escola de capoeira do Mestre Janja, Salvador

Tradições africanas desenvolvidas no Brasil


por cinco séculos e ainda existem hoje.

Se nós pensamos no transe, nos rituais


de transe, eles dizem que no transe

você recebe as entidades,


os Orishas, as deidades.

Mas todo mundo tem diversas


deidades em uma ordem hierárquica.

A divindade principal e seis outras.

Através da iniciação nós a conhecemos


gradualmente, uma após a outra.

Os Orishas das pessoas -


o meu é chamado Oshossi -

é um pacote de poderes singulares.

Nesses modos de subjetivação,


o que eu articulo

é como dar corpo e substância aos


afetos do mundo que me atravessam,

o que eu expresso não é eu mesmo,


mas um agenciamento coletivo de enunciação,

que é sentido através do meu corpo,

que provoca fricção entre minhas


sensações e potencialidades.

Então o que eu expresso não vem


de uma enunciação individual,

ela sempre vem de um


agenciamento coletivo de enunciação.
E isso é o porquê do que eu expresso
criar este agenciamento coletivo

e como tal ele possui


um efetivo poder de contágio,

de contaminação e de convocação de todos


que compartilham do mesmo ambiente,

empoderando eles a se expressarem


a partir deste ponto de partida singular,

a partir deste agenciamento


coletivo de enunciação.

O hostil toma conta de


um grupo social global

colide com níveis de resistência


que eu chamo molecular,

e eles permeiam diferentes sociedades


e diferentes grupos sociais.

E não é somente o fato da resistência


mas simultaneamente uma nova invenção,

uma certa criação de novos


modos de subjetivações coletivas.

Mas hoje nós estamos num


nível de industrialização,

um modo global
de produção da subjetividade

através de indústrias de mídia de massa

e através das redes sociais.

Então o problema é saber se nós podemos


pensar em uma sociedade organizada,

uma sociedade que não é uma sociedade utópica,

mas que cria modos de subjetividade

em outras bases do que estas industrializadas,


globalizadas produções de subjetividade.

Para mim a antropologia é de fato,


para falar um pouco como Trotzky,

uma teoria da
permanente descolonização.

Uma teoria da descolonização


permanente do pensamento.
Pra mim isso é antropologia. Não é apenas
uma questão de descolonizar a sociedade,

mas de descolonizar o pensamento.

Como descolonizar o pensamento?


E como fazer isso permanentemente?

Porque pensar é constantemente


recolonizar e reterritorializar.

Então a antropologia é útil como uma


teoria de como descolonizar o pensamento.

Eu sempre pensei que a noção


de "sociedade contra o estado"

era uma noção importante


mas que deveria ser aprofundada.

Essa noção, escrita por Clastre,


precisa ser aprofundada o máxmo possível.

E isso segue a ideia de uma


sociedade sem interioridade.

Isso significa dizer ultimamente


que interioridade resulta em estado.

Eu gosto do jogo de palavras


"O estado é o self".

Então a sociedade sem estado


é uma sociedade sem um self

Sem interioridade nesse sentido.

Isso é o animismo, ultimamente. A ideia de que


o sujeito está fora, em todo lugar.

E que a sociedade não é um guardião,


ou que o estado não é nem guardião nem guarda,

significa dizer que sociedade


não coincide com estado.

Essa é a ideia de uma


sociedade contra o estado.

O que significa viver numa sociedade


sem estado, contra o estado?

Nós não temos ideia.

Você tem que viver lá para ver


como as coisas acontecem sem um estado.

Não numa sociedade que está faltando estado,


como Clastre pensou, mas que é contra o estado,

porque é consituída precisamente


a partir da ausência do estado.

Não em razão da ausência do estado,


mas sobre a ausência do estado.

Então o estado não


pode vir a existir.

E o animismo tem a ver com isso.

Animismo é a ontologia das


sociedades contra o estado.

Por sorte existem zonas


potenciais de resistência

contra a unidimensionalidde
da subjetividade

e eu chamo isso de possível


heterogeneidade da subjetividade.

Uma dessas zonas é a infância,


na qual alguém escapa temporariamente

e logra êxito em ter diversas


e substanciais potenciais de semiotização

com o objetivo de produzir existência.

Outra forma de resistência é o


momento de crise de uma pessoa individual,

isso pode ser negativo, uma crise psicótica,

mas pode também ser um desejo pela


criação e afirmação da existência.

Outraz zonas são comunidades de resistência


ou a recusa da categorização social.

Então eu espero em um sonho utópico,

que existam formas de


recompor a subjetividade,

vindo particularmente do sul global,

com sua considerável


expansão demográfica

e toda a pressão que o sul


irá estenser em direção ao norte

e deste ponto em diante


criar recomposições
que são mais ideológicas e militantes

por infligirem relações de poder


em um nível internacional de uma outra direção.

pro criarem outras vozes de resoluções,


não apenas em conflitos econômicos

mas também conflitos inter étnicos


e em todas essas situações

que agora estão monstruosamente


difunidas pelo mundo.