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UNIDADE 1 - FILOSOFIA GERAL • Ética: estuda os valores e a aplicação destes.

O que é
bom, o que é mal?

• Lógica: estuda o que vem a ser um bom padrão de


Seção 1.1 - Filosofia Geral
raciocínio, quais argumentos são válidos e quais
- Originalmente, no período da Grécia Antiga, onde os argumentos seriam falaciosos (falsos);
primeiros filósofos, cujas obras ainda podemos
• Epistemologia: estudo da natureza e conteúdo do
estudar, viveram, o termo filosofia era visto como
que é conhecimento;
sinônimo de “amor ao saber”, “amor ao
conhecimento”. Aparentemente essa definição de • Estética: busca responder perguntas relacionadas à
filosofia justificou-se porque Pitágoras, ao ser chamado beleza. O que é belo? O que é arte? O que é de bom
por seus companheiros da comunidade em que vivia de gosto?
sábio, recusava-se a ser assim identificado e respondia
que não era um sábio, pois não detinha conhecimento
de tudo, mas que sem dúvidas era um amante da Seção 1.2 – A Filosofia do Direito
sabedoria, um amante do saber, um filósofo, Filos
Sofia. - Subdivisão da Filosofia do Direito:

- Pitágoras, a partir de seu entender, afirmava que > Gnosiologia Jurídica: cujo objeto é a questão do
aquele que não contempla, não pode filosofar. Para conhecimento jurídico.
este pensador, quem não contempla age, e ao agir não > Ontologia Jurídica: que pergunta quais as razões de
se pode exercer o básico inicial da filosofia que é a ser do direito/para que serve.
contemplação da realidade.
> Axiologia Jurídica: estuda os valores (ética/moral) do
- O exercício de observar a realidade, tentar explicá-la direito.
e sistematizar estas explicações, inclusive a existência
humana nesta realidade, tem como primeiros registros > Lógica Jurídica: lança seu olhar sobre o raciocínio
os “cientistas pré-socráticos” ou filósofos da natureza jurídico e suas peculiaridades.
pré-socráticos. Chamamos de cientistas pré- > Semiótica Jurídica: estuda as diversas formas e
socráticos/filósofos da natureza pré-socráticos todos possibilidades da linguagem jurídica.
aqueles que tentaram explicar os fenômenos
observáveis da natureza durante a existência humana - O pensar jusfilosófico, que antecede a filosofia do
de forma não religiosa dogmática (explicar a partir de direito como disciplina com objeto autônomo, é
mitos ou crenças). nomeado de Filosofia Jurídica Implícita, enquanto o
produto do pensar filosófico, originado após a
- A filosofia, entendida como um conjunto de valores delimitação do objeto de estudo à filosofia do direito e
que orientam as ações, é reconhecível nas diversas reconhecimento desta disciplina como uma disciplina
culturas: chinesas, indus, africanas, americanas. Neste do direito autônoma, bem como autônoma da filosofia
momento entendemos e definimos filosofia como uma geral, é nomeado de Filosofia Jurídica Explicita.
“visão de mundo”, sabedoria de vida e valores de vida
de um povo. - Eduardo Bittar aponta como marco teórico da
moderna Filosofia do Direito, como a estudamos
- Até o século XVII a ciência confundia-se com a atualmente, o pensamento de Hegel, entendendo que
filosofia. É apenas com Galileu e o Círculo de Viena, a partir deste autor teria ocorrido a verdadeira
pensadores os quais passaram a definir como científico desconexão da Filosofia do Direito da Filosofia Geral, e
apenas conhecimentos que poderiam ser reproduzidos tal disciplina teria passado, então, a desenvolver suas
a partir de “experimentos”, que acontece a próprias ferramentas de análise, suas técnicas e seus
desconexão entre essas áreas do conhecimento. métodos jusfilosóficos.
- Por sua vez, a filosofia, como área do conhecimento - Perceba, também, que a ideia de pensador seminal se
independente, também possui as suas subáreas de vincula à concepção do que vem a ser o objeto da
pesquisa e estudo. São identificadas como relevantes filosofia do direito. Para os:
as seguintes:
> Jusnaturalistas: a FD é a disciplina que estuda a
• Metafísica: estuda o ser e qual a natureza da justiça.
realidade. Do que esses elementos são constituídos?
> Positivistas: a FD é a disciplina que estuda o dever- 10. Insculpir a mentalidade da justiça como
ser. fundamento e finalidade das práticas jurídicas;

> Formalistas: a FD é a disciplina que estuda e critica o 11. Estudar, discutir e avaliar criticamente a dimensão
método jurídico utilizado cientificamente pelos aplicativa dos direitos humanos;
juristas.
12. Abalar a estrutura de conceitos arcaicos, de hábitos
> Normativistas: a FD é a disciplina que estuda solidificados no passado, de práticas desenraizadas e
questões jurídicas históricas e contribui para o desconexas com a realidade sociocultural, na qual se
aperfeiçoamento do direito positivo. inserem, de normas desconexas, e que atravancam a
melhor e mais escorreita aplicação do sistema jurídico;
> Sociologistas: a FD é a disciplina que estuda os fatos
jurídicos. 13. Proceder à discussão das bases axiológicas,
econômicas e estruturais que moram atrás das práticas
- Miguel Reale, em sua obra A filosofia do direito,
jurídicas;
define que a Ontognoseologia Jurídica seria a área
responsável pela compreensão conceitual do direito. A 14. Desmascarar as ideologias que orientam a cultura
Epistemologia, responsável pela lógica e ciências da comunidade jurídica, os pré-conceitos que orientam
jurídicas. A Deontologia seria responsável por estudar as atitudes dos operadores do Direito e descortinar as
os valores éticos e morais do direito. Por fim, a críticas necessárias para a reorientação da função de
Culturologia estudaria a história e eficácia jurídica. responsabilidade ético social que repousa nas
profissões jurídicas.
- Eduardo Bittar sugere uma lista de metas/tarefas da
filosofia do direito, as quais existem, segundo o autor, - Em sua obra, Cretella Junior (1993) apresenta critérios
independentemente das definições de objeto e de definição sobre o que vem a ser a filosofia do direito.
ferramenta. A lista é a que segue: Os cinco critérios enumerados pelo autor são os
seguintes:
1. Proceder à crítica das práticas, das atitudes e
atividades dos operadores do direito; > Nominal: significado etimológico; amor ao saber o
direito.
2. Avaliar e questionar a atividade legiferante, bem
como oferecer suporte reflexivo ao legislador; > Global: Busca explicar o direito como um sistema
global, como uma estrutura.
3. Proceder à avaliação do papel desempenhado pela
ciência jurídica e o próprio comportamento do jurista > Causal: Busca as explicações mais originais/radicais
ante ela; da razão de ser do direito e seus institutos.

4. Investigar as causas da desestruturação, do > Dos Postulados: o compromisso de existência da


enfraquecimento ou da ruína de um sistema jurídico; filosofia reside na crítica dos dogmas e postulados
problematizando e questionando todos os institutos.
5. Depurar a linguagem jurídica, os conceitos filosóficos
e científicos do direito; > Axiológico: pensa a experiência humana e estabelece
uma leitura destas experiências.
6. Investigar a eficácia dos institutos jurídicos, sua
atuação social e seu compromisso com as questões
sociais, seja no que tange a indivíduos, a grupos, a
Seção 1.3 - A filosofia do direito na Idade Antiga
coletividade ou a preocupações humanas universais;
Sofistas
7. Esclarecer e definir a teleologia do direito, seu
- Deslocaram o centro de suas observações dos
aspecto valorativo e suas relações com a sociedade e
fenômenos da natureza para o homem
com os anseios culturais;
(antropocentrismo).
8. Resgatar origens e valores fundantes dos processos - Naquele momento histórico a ideia de justo ou injusto
e institutos jurídicos; não era geral, mas era concebida justiça conforme cada
caso apresentado e analisado.
9. Por meio da crítica conceitual institucional,
- Afirmavam que nem tudo poderia ser definido por
valorativa, política e procedimental, auxiliar o juiz no
regras absolutas opondo-se, assim, aos
processo decisório;
dogmas/tradições imutáveis de então. A maior crítica a
que foram submetidos fundava-se no demérito da
extrema relativização que estabeleciam em relação a entendida como leis). Aquele que é moralmente
tudo. correto nem sempre terá a garantia de sucesso no
- A grande contribuição desse grupo de pensadores foi mundo sensível, pois a natureza deste mundo é de
desconectar o direito de ideias míticas. Vincularam a limitações do conhecimento pleno.
ideia de justiça a ideia de lei, entendendo que o que é
justo muda a cada momento conforme a lei que está Aristóteles
sendo aplicada. - Se Platão buscava no mundo das ideias a verdade,
Aristóteles buscava no mundo sensível a verdade.
Sócrates - Para Aristóteles ser feliz era conseguir ter uma
- Identificado como referência seminal da filosofia conduta ética, ou seja, ter ações cotidianas virtuosas
geral, em razão das rupturas que estabeleceu com os que levariam à felicidade.
pensadores contemporâneos e anteriores a ele, - Aristóteles apontava o conhecimento do que vem a
Sócrates opunha-se tanto aos valores dogmáticos das ser uma boa conduta como o meio para garantir que as
crenças antigas bem como ao relativismo dos sofistas e pessoas se comportassem de forma coerente com o
suas posturas enquanto autointitulados sábios. que sabem que é devido com o que é bom. Mas para
- Sócrates afirmava que o conhecimento existia dentro esse jusfilósofo, apenas saber o que é justo e o que é
do indivíduo e que sua atividade era apenas a de injusto e não se comportar conforme o que se sabe no
“parteiro”, ajudando as ideias a nascerem por meio de dia a dia, era uma conduta não ética/não virtuosa.
perguntas cujas respostas, propiciadas pelo - Aristóteles também ponderou sobre a necessidade da
interlocutor, representavam o conhecimento equidade para viabilizar a justiça, pois em face da
nascendo de quem não era consciente de que o natureza genérica das leis, estas não poderiam ser
detinha. aplicadas sem observação das nuances individuais sob
- Mesmo reconhecendo as leis como resultado de risco de resultar-se em uma segunda injustiça. A
artifício dos homens, e não dos deuses, e acreditando equidade era necessária em razão da impossibilidade
que a lei justa é aquela da natureza, Sócrates defendia de uma legislação detalhada e futurista.
a obediência inquestionada às leis dos homens. Sejam - Aristóteles entendia ser responsabilidade do juiz
as leis justas ou injustas, por serem um instrumento aplicar a justiça corretiva retirando de situação de
para o bem da comunidade, não deviam ser desigualdade, injusta, as pessoas e colocando-as em pé
contornadas. de igualdade. Assim seria o juiz, a justiça animada.
- A moral, lei de âmbito interno do indivíduo, pode até Aristóteles entendia o juiz como necessariamente
discordar das leis declaradas e fundamentar a crítica a imparcial e equidistante das partes, pois, era sua
elas, mas jamais pode fundamentar ou justificar a função intermediar o justo entre as partes, sem o juiz,
desobediência destas leis da comunidade/cidade. a própria representação do justo, o justo personificado.
- A grande contribuição de Aristóteles foi organizar e
Platão sistematizar o debate sobre o que é justiça, que até
- Platão, além de acreditar que o mundo real era então era desenvolvido sem maior rigor metodológico.
apenas uma representação do mundo das ideias – Ao apresentar concepções de justiça diversas, ele
mundo ideal e perfeito, avança a explicação do método entende que a justiça pode ser uma atitude prática
socrático ao afirmar que o homem possuía dentro de si informada pela razão que elege comportamentos para
(em sua alma) todo o saber necessário, todos os alcançar a felicidade (ética).
homens, e que o nascer no mundo real o fazia esquecer
o conhecimento que detinha. É por essa razão que o Helenismo
método Socrático, dialogado, permitia ao indivíduo I. Epicuro
“recordar” das experiências que teve no mundo das - Com a invasão da Grécia por Roma, apesar da diversa
ideias – o mundo ideal. identificação, os filósofos romanos beberam nos
- Este filósofo se vale do “Mito da Caverna” como valores helênicos e nas buscas helênicas para
forma de explicar nossa limitação de perceber a continuarem seus estudos. Assim, devemos observar
verdade em razão das imperfeições do mundo Epicuro e sua primeira leitura da “regra de ouro”;
sensível/real. justiça é não fazer ao outro o que não quer que façam
- Da mesma forma que existe o mundo ideal, existe, contigo”. Esse é o parágrafo XXI do livro “Máximas
para Platão, a justiça do mundo ideal e a justiça do fundamentais” deste Filósofo.
mundo sensível, onde existimos. Ele, assim, aceita
reconhecer a falibilidade e limitação da justiça (esta
- Para Epicuro a ataraxia era a conduta que direcionava retomando princípios da filosofia grega e tentando
o homem para o prazer e, consequentemente, para a conciliar os ideais da Igreja, a razão buscando explicar
justiça e felicidade. racionalmente os valores daquele tempo.
- Se para Aristóteles, justo era mediar-se entre as - Foi com o surgimento do cristianismo e suas filosofias
partes, e para Platão, justo era um ideal, algo supremo que ocorreu uma lenta e gradual adaptação da
e do mundo das ideias, para Epicuro, as sensações, dor interpretação de mundo das pessoas aos valores desta
ou prazer, eram o norte que orientava a ética do nova filosofia.
homem. Para esse filósofo, não existia justiça, mas - O cristianismo alterou a fonte de legitimidade da lei
somente pactos (contratos) de não agressão. do bem comum da sociedade para a razão e vontade
de Deus.
II. Cícero
- Para Cícero, a busca de um grupo de pessoas pelo Paulo de Tarso (maior filósofo do cristianismo cujos
mesmo bem comum é o que os caracterizaria como ensinamentos encontram-se na Bíblia)
povo. A concepção de ética de Cícero era muito similar - Paulo de Tarso, no início de seus ensinamentos,
a de Aristóteles. Para ele controlar as paixões acreditava na existência de um Direito Natural, o que
demonstrava força de caráter tendente a respeitar os estaria “inscrito nos corações humanos”. É em sua
interesses da comunidade da "res pública". "Epístola aos Romanos" que esse jusfilósofo afirma que
- Cícero evoluiu o pensamento epicuriano para uma o poder que existe na terra reflete a vontade divina a
doutrina jusfilosófica identificada como Estoicismo qual deve ser obedecida de forma inquestionada.
(Séneca, Cícero e Zenão de Citium). - Para Paulo, a conduta justa do homem constituía-se
- Para o estoicismo, o cidadão (homem que existe de em estar sob a graça de Deus, obedecendo as leis
forma ética) é aquele que alcançou a harmonia porque divinas que estavam acima das leis e dos atos
sabe distinguir o que é bom do que é mal. O homem humanos. Este jusfilósofo trouxe para o centro do
segue os fundamentos das leis, as quais buscam debate, sobre justiça e ética, o elemento da obediência
garantir esta condição a todos os cidadãos sem e submissão às ''autoridades'' escolhidas por Deus.
nenhum interesse, seja este interesse financeiro ou
egóico. Santo Agostinho
- A compreensão de submissão ao dever, a fim de - Santo Agostinho, também conhecido como Agostinho
alcançar o que é bom, mesmo que às custas do de Hipona, nasceu no Império Romano, e converteu-se
sofrimento próprio, esse é o comportamento do ao cristianismo escrevendo suas obras em oposição às
devido cidadão. Essa razão (ética) é natural e deve concepções Aristotélicas de Justiça na obra “A cidade
existir dentro de todos indivíduos que vivem na de Deus”.
República. - Em sua obra mais relevante “A cidade de Deus – De
Civita Dei” afirma a impossibilidade de um Estado justo
Ceticismo se este não submetesse aos valores do cristianismo,
- O cético possui como característica marcante a dúvida bem como afirmava a incapacidade humana de
constantemente de tudo que lhe é apresentado. compreender a justiça divina, que por ser impenetrável
Assumindo que tal adjetivação também é um traço em sua natureza, impedia que o ser humano a
necessário da postura do filósofo, independentemente conhecesse e agisse conforme seus preceitos.
da linha ideológica que este persegue, o ceticismo - Santo Agostinho resgata o ideal platônico ao afirmar
termina por ser identificado por muitos como um que existiam a imperfeições generalizadas neste
adjetivo de conduta e personalidade não como uma mundo e a perfeição de Deus no mundo não sensível.
compreensão filosófica de observar o mundo. - Entendia que mesmo imperfeitas, as leis humanas
garantiam a ordem da sociedade, e, portanto, deviam
Seção 1.4 - A filosofia do direito na Idade Média ser observadas e elaboradas de forma a aproximarem-
se da justiça das leis divinas. Portanto, para Santo
- A Idade Média foi marcada pela influência da Agostinho, a razão de ser das leis e do Direito era a
ideologia cristã, doutrina cujas origens remontam à aproximação destes da justiça, deixando assim, de ser
Roma Antiga e muito influenciada pelos valores transitório e atribuindo a cada um o que lhe cabe,
romanos. Ela se divide em dois momentos como manifestação desta virtude (justiça) do Direito.
jusfilosóficos, o da Filosofia Patrística (I – VII), filosofia
do direito e seu papel de propagadora dos valores do
cristianismo e o da Filosofia Escolástica (IX – XV),
Isidoro de Sevilha - São Tomás de Aquino entendia que o indivíduo podia
- Influenciado pelo conteúdo a que teve acesso como alcançar a virtude por meio da fé ou por meio de
monge copista, este jusfilósofo, ao elaborar suas “indulgências”. Essa concepção abriu o caminho para
enciclopédias, a pedido dos nobres de sua época, os conflitos religiosos e insatisfações que resultaram no
alcançou sua concepção de justiça e de como deveria protestantismo.
ser a interpretação das leis e das definições do direito, - Para São Tomás de Aquino, mesmo sendo injusta, a
elementos que marcam a nossa percepção da lei refletia a vontade de Deus, pois a autoridade era
jusfilosofia medieval. concedida pela força divina e não poderia o indivíduo
- Isidoro indicou quais eram para si os elementos insurgir-se contra a autoridade, pois todas as
constituintes da lei e qual a sua razão de ser, ou seja, a autoridades eram constituídas por força da vontade de
lei era declarada para o bem comunitário, deveria ser Deus.
de fácil compreensão para todos e não deveria opor-se
aos valores culturais e costumes do tempo em que era UNIDADE 2 – Filosofia do Direito na Idade Moderna
declarada. Assim, ao apresentar o que deveria
constituir a lei, Isidoro de Sevilha antecipa elementos Seção 2.1 – Filosofia do Direito e Modernidade
do que seria compreendido como subprincípios da
teoria da proporcionalidade. - Sob sistemas filosóficos pautados na ideia de
- Além de definir o que deveria compor uma boa modernidade e racionalidade é que surgiram a filosofia
norma, Isidoro também expôs a sua definição do que política e a filosofia do direito, desdobradas da
era o direito. Sua classificação das áreas do direito filosofia. Os modernos debruçaram-se em grande parte
ainda se faz presente até os dias atuais, como Direito sobre o problema do conhecimento alinhando-se entre
Público e Direito Civil, a classificação também empiristas e racionalistas, centraram-se no sujeito para
compreendia o Direito das Gentes, o Direito Quiritário solução do “problema do conhecimento”. Enquanto
e o Direito Natural concluem a classificação desse Descartes e Kant valem-se de categorias racionais
jusfilósofo das áreas do direito. inatas e apriorísticas, Hume vale-se da experiência
- Isidoro, no contexto de queda do Império Romano e advinda para compreensão e produção do
proteção da expansão cristã, conciliou as concepções conhecimento.
bárbaras de reino e estado com os valores do - O Direito Natural (Jusnaturalismo, passa a ter 2 fases):
cristianismo. a) a primeira fase relacionada a sua origem e
pensamento jusfilosófico e jusnaturalista da Antiga
São Tomás de Aquino Grécia; b) A segunda fase desloca da natureza
- A sua única obra, A Suma Teológica, vale-se de (fundamento Grego) para a razão, o fundamento do
ferramentais da lógica e bebe da filosofia aristotélica direito e das leis legítimas.
afirmando possível alinhamento entre religião e razão,
filosofia e teologia. - O pensamento produzido nesse período, jusfilosofia
- São Tomás de Aquino acreditava que o homem, por que buscou fundamentar a legitimidade jurídica da
meio do livre arbítrio e guiado por sua consciência, submissão e cessão de poder do indivíduo ao novo ente
seria capaz de compreender as leis morais. Ele listava formado na modernidade, o Estado, foi denominada de
as leis em eterna, natural e humana. pensamento jusfilosófico contratualista. A ideia de um
- Acreditava na possibilidade do homem ser justo. A “acordo” feito entre indivíduos de forma a originar o
justiça era “vontade constante e perpetua de dar a Estado, e a ideia de um acordo entre estes indivíduos e
cada um o que é seu”, o homem é justo porque exercita o Estado, cedendo a esta parte de suas liberdades de
a sua vontade de agir com retidão. forma a ter seus direitos de propriedade, vida e
- A justiça de São Tomás de Aquino emerge do conceito existência livre de violência arbitrária de outros
de ética “ethos”, compreendida como relação de concidadãos eventualmente mais fortes, também faz
igualdade entre pessoas. E, a partir desta compreensão parte desta concepção jusfilosófica.
classificou, a exemplo das diversas concepções de
justiça de Aristóteles, três tipos de justiça: comutativa, John Locke
distributiva e legal. - John Locke em sua obra declara não acreditar na
- Assim como Aristóteles, entendia a atividade do juiz existência de leis inatas, uma vez que a forma
como a de quem encarnava a justiça. O juiz primordial de apreensão do saber é por meio da
implementa de forma concreta a igualdade. experiência. Assim, para este jusfilósofo as leis que
ignoramos não estão “impressas na alma humana”,
mas sim “presentes na natureza e visível, se deixamos e concedendo-as ao Estado que torna-se o único
de ignorá-las.” legítimo a exercer a violência.
- Locke, em sua obra O Tratado sobre o magistrado
civil declara, diferente de Hobbes, que a índole social é Seção 2.2 - Filosofia do Direito Moderno
a harmonia, e que o desequilíbrio e violência social
surgem em razão da ausência de um terceiro “tertius”, Hume
para julgar os conflitos que surgem. Assim, as lides - Hume tem suas bases metodológica calcadas na
originárias da vida social eram resolvidas com violência experiência, entendia ser este o maior e melhor
pela ausência desse terceiro. método para produção de conhecimento.
- Para esse jusfilósofo, a função precípua do Estado é a - A sua principal obra foi “ O tratado sobre a natureza
proteção da propriedade. Valor que informa sistemas humana”. Afirmava-se como cético empirista e
jurídicos até os dias atuais. Ele também entende que entendia que o raciocínio humano era suscetível ao
um juiz, ao decidir de forma contrária aos direitos engano e, portanto, somente os sentidos eram a
naturais, abre espaço para a resistência legitima do melhor forma de chegar ao conhecimento.
cidadão e oposição a submeter-se a decisão. - Opondo-se ao jusnaturalismo imperante naquela
época, Hume entendia a moral como uma forma de
Thomas Hobbes “expressão do empirismo ético”. A experiência
- O Leviatã seria a representação do Estado como uma humana, o incomodo e a insatisfação resultantes
entidade mítica. Observe a imagem e perceba que este destas experiências indicavam o que era vício ou
“monstro” é formado de diversos indivíduos e suas virtude, justo ou injusto.
“liberdades concedidas” em troca da segurança que - A justiça, para este jusfilósofo encontrava sua razão
este poderoso ser pode garantir a todos os cidadãos, de ser na sua utilidade social. Defendia como “o mais
protegendo as pessoas na guerra, de todos contra fervoroso dos sensos morais desenvolvido pelo
todos – “o homem é o lobo do homem”. homem que agia sobre o comportamento alheio”, a
razão de ser da justiça era justificada apenas pela
Rousseau e o Contrato Social necessidade de manutenção e sobrevivência da
- O contato social, resultado do exercício de vontade sociedade. Fundado em seu empirismo, Hume
deliberado de criação da sociedade e do Estado, traz argumentava que até mesmo os grupos de piratas,
em si um conceito de justiça próprio, isto é, “A Justiça bandidos, possuíam seus códigos de conduta, o que
é o pacto”. provava, pela experiência, a necessidade generalizada
- Os direitos civis sucedem os direitos naturais no de critérios de justiça para manutenção e harmonia em
tempo. Uma vez que os direitos naturais existem antes um grupo.
de qualquer tipo de convenção social. O acordo é útil, - Ao compreender a justiça como uma forma de regular
equitável e legítimo, devendo prevalecer no contrato a o que é escasso, Hume especula que em situação de
igualdade e os fins comuns. Não somente os súditos abundância a justiça seria algo desnecessário para uma
devem observar os termos do contrato, mas também o sociedade. Direcionava-se, assim, para uma
soberano. compreensão de que em uma sociedade onde
houvesse igualdade de propriedades ainda assim
Estado de guerra outros recursos, culturais, educacionais, hereditários,
- Rousseau entende que o Estado de natureza do romperiam a igualdade instituída. A lei, assim, teria por
homem é um estado de harmonia, e que a concessão função conduzir o homem a sua situação de natureza.
de poder do indivíduo ao Estado, ou seja, o - Para Hume não existia a imanência das regras de
reconhecimento de que a violência e imposição do justiça, mas sim, experiências de justiça. A paz social é
direito somente pode ser exercida pelo Estado, tem garantida pela não invasão do que pertence ao outro.
fundamento na necessidade de proteger o homem da
índole inerente de corrompimento deste que a Kant
sociedade possui (Rousseau: homem é bom/sociedade - Kant defendeu que alcançar o conhecimento somente
o corrompe). é possível a partir da interação de condições materiais,
experiências, com condições formais, razão. A
- Hobbes afirma a existência natural do estado de experiência, assim, era reconhecida como meio de
guerra de todos contra todos. O medo generalizado é acesso ao conhecimento, conforme defendeu Hume,
o que leva o indivíduo a conceber o Estado, O Leviatã, contudo, para Kant a experiência, somente, não era
como algo necessário, abrindo mão de suas liberdades suficiente para alcançar tal objetivo.
- A moralidade de acordo com este jusfilósofo A Filosofia Política Moderna
relacionava-se com a interioridade enquanto a - A filosofia moderna/política, assim, relaciona-se com
juridicidade lida com a exterioridade. A moralidade a filosofia do direito de duas grandes formas: a) A
pressupõe liberdade, autonomia, autoconvencimento; filosofia moderna, focada na razão, fará com que a
somente a ação que é conforme o dever e cumprida filosofia do direito também abandone conceitos e
porque se trata de um dever, poderia ser qualificada dogmas dos períodos romano e medieval e crie novas
como ação moral. Em contrapartida, a juridicidade fontes de conhecimento do direito; tornando
pressupõe coercitividade. Metas e necessidades individual, racional, laico e humanístico o direito
distintas, as ações se dão por temor de sanção, vontade formado na modernidade; e b) A Filosofia Política
de distanciar-se de possíveis repreensões, medo de centrada no sujeito - humanismo -, individualista e
escândalo, prevenção de um desgaste desnecessário, burguesa, permitirá o nascimento de uma filosofia do
etc. direito adjetivada como Liberal, também burguesa e
- Assim, Kant buscou entender os limites da razão e jusnatural (racional), que celebra a isonomia
desviou-se do principal foco da filosofia que é a “busca (igualdade formal) como alicerce em que se funda o
da verdade”. Esta foi a principal crítica de Hegel à direito.
produção de Kant, que focou no dever ser e ignorou o
ser, de acordo com Hegel, o elemento central. O Direito para Karl Marx
- O imperativo categórico kantiano é o mesmo que - Ele afirmava que a evolução do direito era
moralidade, e age de tal maneira que a máxima da sua condicionada pelas necessidades do capitalismo
vontade possa valer sempre, ao mesmo tempo, como (produção, circulação, exploração da mais valia, do
princípio de legislação universal. lucro) e não condicionada pela busca da melhor justiça,
- O outro imperativo kantiano, o imperativo hipotético, pela busca da evolução de consciência do jurista, ou
dado que este diz respeito a ações que são levadas a qualificação técnica da definição de conceitos.
cabo por uma força de pressão exterior, de uma pena
ou de um prazer. 2.3 Filosofia Contemporânea

HEGEL - Antes do positivismo, as principais correntes que


- De enorme importância para a Filosofia do Direito a influenciavam o direito eram o jusnaturalismo e o
obra A Fenomenologia do Espirito é sua obra realismo. O jusnaturalismo, como você deve se
jusfilosófica de destaque. Hegel é o pai da filosofia do recordar, acreditava em leis inerentes à natureza e
direito pois foi o primeiro filósofo a explicitamente superiores à vontade de indivíduos. No realismo a ideia
referir-se a esta disciplina. Em sua obra Princípios da de lei justa condicionava as normas à eficácia. Se a lei
Filosofia do Direito no primeiro parágrafo afirma que pegava, era justa, se não pegava, era inútil.
“O objeto da ciência filosófica do direito é a ideia do
direito, quer dizer, o conceito de direito e sua Positivismo
realização. Kelsen
- Ele entendia que a filosofia do Direito se destacava do - A partir de duas categorias: o “ser” e o “dever ser”,
ramo da filosofia pura, conhecido por lógica, em razão Kelsen identificava a realidade e o direito. A realidade
da “liberdade de conceitos” e “plenitude de era o “ser” e o direito o que “deve ser”. Kelsen
abstrações” da disciplina lógica necessárias para a entendia, assim, que o dever ser – as normas do direito
filosofia do direito. – não podiam estar vinculados a fatos, fossem estes
- Sua categoria de maior destaque é chamada de sociais, históricos, morais, nada poderia desvirtuar a
dialética. Hegel buscou entender como a consciência pureza da natureza do “dever ser” condicionando-a.
observa os fenômenos que ocorrem ao redor do ser - Essas leis, que são a origem e o fim do sistema,
humano. Isso levaria à dialética Hegeliana. extrairiam suas validades uma das outras. A norma
- Hegel destaca-se por definir o conceito de dialética e inferior tira a sua validade, o seu poder de se impor, da
sua aplicação antes e depois de sua obra. Antes de norma superior até que se alcance o topo desta
Hegel dialética é dialogo, após Hegel é situação de estrutura. Chegando no seu ápice encontraremos o
conflito. A dialética é um conflito que traz ao seu fim que Kelsen denominou de “norma hipotética
uma nova razão deixando de existir as razões fundamental”.
anteriores que conflitavam entre si. - A norma hipotética fundamental se parece com a
ideia jusnaturalista de leis não declaradas, mas que
devem orientar o sistema jurídico.
equidade não seria exigida no dia a dia, mas, somente,
Hannah Arendt na “posição original”. A posição inicial é o momento
- As categorias centrais de suas obras são A violência e primeiro, idealizado por Rawls, em que as pessoas
a liberdade a partir das quais Hannah Arendt pensa o pactuam seu contrato social. Neste momento primeiro,
que é reconhecido como Teoria dos Direitos Humanos. onde o indivíduo poderia fazer suas opções, Rawls
- Para entender a violência, ela partia da definição de teoriza como seria se hipoteticamente todos
poder, pois, para esta professora a violência resumia- estivessem em iguais condições de escolha e gozo.
se ao uso desvirtuado do poder. Onde existe interação - Se você não sabe qual o seu lugar na sociedade, esta
entre indivíduos existem relações de poder, e, é a posição original de John Rawls, uma situação onde
portanto, onde existe interação de indivíduos pode todos encontram-se sob o “véu da ignorância”. Você
existir a violência. provavelmente, conforme pensa John Rawls, iria
- A liberdade era também definida de uma forma concordar com aquelas políticas que propiciassem o
peculiar para Hannah Arendt. Ela entendia a liberdade bem de todos, de forma indistinta.
como capacidade de agir soberanamente.
- Para sermos livres, portanto, é necessário o exercício Seção 2.4 - A Filosofia do Direito Comparado e Brasil
da política, pois, somente a política permite a criação
de um espaço onde todos podem exercer suas - Entendido como uma análise comparativa de normas
liberdades. Por esse motivo para esta pensadora o e sistemas jurídicos, o direito comparado busca
exercício da cidadania, participação na vida política, é responder quais são as ideias fundamentais e as
tão importante. Pois é este que garante os espaços de finalidades do direito, comparando as bases
exercício da liberdade. fundamentais dos diferentes sistemas normativos dos
países no mundo.
Existencialismo - Um pouco de Miguel Reale e a teoria tridimensional
- O existencialismo tem Jean-Paul Sartre como nome do direito.
de destaque, sistematizador primeiro deste - Vanni e Del Vecchio.
pensamento, tornou-se referência de outros
jusfilósofos como Heidgger e Camus. UNIDADE 3 – Filosofia do Direito Contemporâneo
- Sartre, assim como Hannah Arendt e Marx, entendia
que o conhecimento racional sucedia o conhecimento Seção 3.1 – Direito e moral
prático. A experiência (existência) precedia a razão (a
essência). Acontece que para Sartre a - Noções básicas: semelhanças, características e
“individualidade” torna-se uma categoria marcante do diferenças.
processo de conhecimento. O coletivo não
determinaria a existência do indivíduo. Este é livre Seção 3.2 - Direito e política: a finalidade da vida
para, a partir de suas escolhas, formar a sua política, o que é uma sociedade democrática
experiência e, por consequência a sua consciência.
Sociedade Democrática em um Estado de Direito
Neocontratualismo - Os homens e as coisas que formam a sociedade civil
- O estado de natureza é substituído, por John Rawls, constituem também a sociedade política que é o
em sua obra A teoria da justiça, pela “posição original” Estado. Este último tem a ver com o exercício coercitivo
e o objetivo do contrato deixa de ser a formação de um do poder. Na sociedade civil os homens e as estruturas
Estado para ser, então, a formação de uma “sociedade interagem de modo não coativo entre os diversos
justa”. setores da sociedade. Por sua vez, na sociedade
- Então, se o contratualismo teve sua origem na política, as contradições se resolvem por meio de
tentativa de explicar a origem do Estado e vinculava a decretos ou leis de acatamento obrigatório. Na
criação deste ente à proteção dos indivíduos do sociedade civil os conflitos se resolvem por meio da
exercício arbitrário da força nas relações entre persuasão e da pressão, daí a importância dos
pessoas. O novo contratualismo justifica a existência movimentos sociais.
do Estado quase nos mesmos termos; este deve - Neste contexto, parece coerente imaginar que os
garantir uma sociedade justa, onde todos possam problemas econômicos, sociológicos, políticos,
gozar de seus direitos fundamentais mínimos. culturais, dentre outros, surgem na sociedade civil, mas
- A Justiça como equidade - valores aristotélicos. devem ser resolvidos pela sociedade política e,
- A justiça seria sinônimo de equidade, e essa consequentemente, através dos institutos jurídicos,
pois é por meio do Direito que a sociedade civil poderá proporcional. Será simples ou absoluta quando
atuar com autonomia e liberdade na busca de seus equivalente entre dois objetos. Por sua vez, será uma
interesses. igualdade proporcional ou relativa quando se fala na
distribuição de benefícios e encargos entre os
Seção 3.3 - Direito e Poder membros de uma comunidade.

- É possível apontar algumas características gerais que Espécies de Justiça e a Noção de "bem comum"
podem ser observadas na problemática do poder. - A justiça comutativa: tem origem no verbo comutare,
Primeiro vem a característica da socialidade, ou seja, o que significa troca, permuta. É aquela que envolve a
poder é um fenômeno social e não pode ser explicado relação entre particulares, tendo amplo campo de
por meros fatores individuais. Outra característica é aplicação, não se restringindo aos contratos. O devido
sua bilateralidade, indicando que o poder é sempre a nesta justiça é sempre mais rigoroso, porque se trata
correlação de duas ou mais vontades, havendo uma de assegurar à pessoa um direito que lhe é próprio. A
que predomina. O poder para existir precisa de igualdade que se busca nesta espécie de justiça é a
vontades submetidas. Outros dois aspectos devem ser simples ou absoluta, também conhecida como
levados em consideração: a relação, quando se aritmética.
procede ao isolamento artificial de um fenômeno para
efeito de análise, verificando-se qual é a posição dos - A justiça distributiva: seu significado é impreciso, mas
que nele intervêm; e o processo, quando se estuda a a ideia é de distribuição ou repartição. Por regular as
dinâmica do poder. relações entre a comunidade e seus membros, cabe à
- A despeito de a relação entre os envolvidos decorrer justiça distributiva regular a aplicação de recursos da
de um poder legal, carismático ou tradicional, é coletividade de acordo com as regiões e setores da vida
importante frisar que sempre teremos a presença de social. Aqui o devido é o bem comum distribuído. A
uma autoridade nesta relação, a qual será responsável igualdade que se busca na justiça distributiva é
por dar as ordens ou traçar a diretriz que será proporcional ou geométrica. Assim, trata-se de repartir
obedecida. Assim, é importante não confundir ou distribuir de forma proporcional os bens sociais.
autoridade com poder, pois enquanto o poder se firma Não há uniformidade ou quantidades iguais, mas uma
e impõe pela coação física ou moral, a autoridade vem igualdade proporcional.
a ser, em última análise, o respeito de que certas
pessoas, entidades ou órgãos se revestem. A - A justiça social: é conhecida como justiça geral ou
autoridade acarreta um natural acatamento por parte legal e desperta em nós o sentimento social. Consiste
da comunidade. em servir ao bem comum. Na justiça social, a alteridade
- O Direito como instrumento do poder. tem como sujeitos, de um lado, os particulares ou
- Ato Abusivo X Ato Arbitrário membros de uma sociedade, e de outro, a sociedade.
As exigências para o bem comum não podem ser
deixadas ao livre arbítrio de cada um, mas devem ser
Seção 3.4 - Direito e Justiça exigidas por lei, constituindo uma obrigação estrita e
exigível. No que tange ao critério da igualdade, a
- A alteridade está relacionada à pluralidade de obrigação de concorrer para o bem comum é de todos,
pessoas, ou pelo menos à existência de outra pessoa. mas esse dever torna-se proporcional na medida da
Ninguém pode ser justo ou injusto para consigo função e da responsabilidade de cada um na sociedade.
mesmo. Da mesma forma, não se pode falar em justiça
do homem que vive isoladamente, como também não - O bem comum consiste na vida digna da população
há que se falar em justiça na vida animal, uma vez que de uma cidade, estado e país.
a justiça é uma virtude moral. O devido é a - São Tomás de Aquino distingue três espécies de bem
obrigatoriedade ou a exigibilidade que integra a noção no conteúdo do bem comum: a primeira ele chama de
de justiça. Esse devido não é o moral, como a gratidão, essência; a segunda ele chama de instrumento e a
por exemplo, que não pode ser exigida pelo terceira ele chama de condição. A essência consiste em
interessado e nem cobrada pela lei. O que pode ser uma vida humana com dignidade, com boa qualidade
exigido é o débito legal, e não o moral. A igualdade é de vida para todos. Quanto ao instrumento, São Tomás
um elemento essencial e básico, não sendo um dado de Aquino diz que se trata do mínimo de bens materiais
subjetivo, mas uma exigência que pode ser fixada necessários para a existência dessa vida digna, como
objetivamente. A igualdade pode ser simples ou alimento, vestuário, habitação etc. A condição que ele
extrai do bem comum é a paz, pois é preciso o mínimo onde se habita ou modo de ser adquirido, caráter e
de tranquilidade e segurança para se viver. comportamento habitual.

UNIDADE 4 - A FILOSOFIA E SEUS TÓPICOS - A moral possui sua origem na palavra latina mores, de
CONCEITUAIS modos de comportamento, costumes. Ela corresponde
ao conjunto de convicções de uma pessoa, de um
Seção 4.1 – Direito e Liberdade grupo ou sociedade sobre o que seja bem e mal. Existe
um consentimento de que cumprem duas funções:
- Enquanto a liberdade de consciência está relacionada orientam o comportamento dos indivíduos na vida
com o poder e a autonomia de cada um em fazer suas cotidiana e avaliam esse mesmo comportamento.
escolhas políticas, filosóficas ou ideológicas, a
liberdade de crença envolve o direito de escolher ou - A ética marca ações intersubjetivas e intenções
até de mudar de religião. intrasubjetivas. A discussão sobre qual seria o
comportamento socialmente aceito faz marcar a
- A liberdade de culto consiste no ato de venerar ou relação entre o direito e a ética.
homenagear uma divindade seja de que religião for.
Isso inclui os rituais, as cerimônias e as manifestações - Para muitos a deontologia é a disciplina de Filosofia
diversas, compreendendo a liberdade de orar e pregar. do Direito que versa sobre deveres, direitos e
prerrogativas dos operadores técnicos do Direito, bem
- O legislador constituinte foi mais longe ao dizer que como de seus fundamentos éticos.
ninguém será privado de direitos por motivos de
crença religiosa ou convicção filosófica ou política. - O termo axiologia vem do grego axiós, que significa
Além disso, pode o cidadão invocar essa liberdade para apreciação, estimativa.
se eximir de obrigação legal a todos imposta, desde
que se preste a cumprir obrigação alternativa fixada - A incomensurabilidade impede a quantificação dos
em lei. A sanção para quem não cumprir a obrigação a valores, pois não podem ser dimensionados em
todos imposta ou a prestação alternativa é a perda dos números, ou seja, um quadro não pode ser belo duas
direitos políticos. ou três vezes; a implicação consiste no fato de que os
valores se realizam historicamente influindo outros
- Por fim, essa liberdade de consciência, de crença, de valores; a referibilidade é a seleção de valores de
culto, não se confunde com a liberdade de opinião ou acordo com um sentido ou direção, nunca por acaso; a
de pensamento, que é a liberdade de expressar juízos, preferibilidade consiste na adesão a um valor de
conceitos, convicções sobre algo. A Constituição, acordo com a sua preferência; por último, a graduação
inclusive, veda o anonimato e toda e qualquer forma hierárquica, pois existe uma ordem de preferência,
de censura de natureza política, ideológica e artística. tanto de valores jurídicos como de qualquer outro.
Assegura também o direito de resposta, proporcional
ao agravo, a quem se sentiu ofendido ou atingido pela Seção 4.3 - Direito e Lógica
opinião de outrem, além da indenização.
- Podemos afirmar ser a linguagem jurídica um
Seção 4.2 - Direito e Ética instrumento de manifestação ou de publicidade do
direito.
- O conhecimento ético tem por objeto o estudo da
moral, também conhecida como “deontologia”. É - Compreendendo a semiótica como a ciência dos
através deste conhecimento ético que se analisa o signos e o seu vocabulário, esta se compõe de regras
conjunto de preceitos relativos ao comportamento semânticas, sintáticas e pragmáticas. A semântica que
humano, seja individual ou coletivo. A ética busca dispõe sobre as relações entre o sinal e o objeto,
responder a pergunta sobre o comportamento moral revelando o significado apresenta três tipos de
devido e indevido, socialmente. significados: o fático ou empírico, o normativo e o
emotivo.
- O termo éthos vem de hábito ou comportamento
pessoal. Oriundo da natureza ou da convenção entre as - O significado empírico significa aquele que pode
pessoas. O termo éthos tem dois sentidos, morada indicar objetivamente, com um gesto de mão, aquilo
que se quer. É o modelo adotado pelos positivistas, os
quais afirmam que aquilo que não se pode mostrar procedimentos;
com o dedo não tem sentido algum, ou seja, uma visão c) função decisória do discurso decisório: corresponde
insustentável nos dias atuais. Os normativos encerram às atividades aplicativas, conclusivas e concretizadoras
permissão, proibição e obrigação e os significados dos parâmetros normativos;
emotivos ensejam alegria, dor, saudade, amor, paz, d) função cognitivo-interpretativa exercida pelo
desprezo, etc. discurso científico: correspondem às atividades de
conhecimento, distinção, classificação, orientação,
- O discurso jurídico, por mais técnico que possa ser, interpretação, sistematização e crítica dos demais
está assentado em fatores sociais do nosso cotidiano. discursos apresentados;
Com base nisso, podemos afirmar que ao mesmo e) função persuasiva ligada à práxis jurídica: exercida
tempo ele mantém sua autonomia discursiva e uma com muita presença pelo discurso parcial dos litigantes
dialética com a história cultural vivenciada em em procedimentos formais.
sociedade, a qual está em constante mutação, fazendo
com que o discurso jurídico também se transforme. - O discurso normativo tem como característica o
modal poder-fazer-dever, referente aos textos
- A língua é um grande conjunto de palavras, que normativos, leis, portarias, regulamentos e decretos; o
designam objetos, qualidades, sentimentos e ações, discurso burocrático tem como característica o modal
ordenado gramaticalmente e pela sintaxe. poder-fazer-fazer, referente às decisões de expediente
e andamento burocrático-procedimental; o discurso
- A linguagem é um modo peculiar de o espírito se decisório tem como característica o modal poder fazer-
exteriorizar mediante signos, revelador da dever, referente às decisões de oportunidade, mérito e
personalidade do falante. Varia, também, em função legalidade na esfera administrativa, e sentenças,
do objeto. acórdãos e decisões interlocutórias na esfera judiciária;
o discurso científico tem como característica o modal
- É importante esclarecer que mesmo o discurso poder-fazer-saber, referente às lições doutrinárias,
jurídico apresenta suas subdivisões. Fala-se em ensinamentos teóricos, resenhas, críticas,
discurso factual, quando se quer que os signos comentários, etc.
remetam a fatos, sendo que a veracidade pode ser
demonstrada com base na ocorrência desses fatos de - O discurso jurídico com traços elementares de sua
acordo com a sua enunciação. Ex.: Fulano foi à formação diferenciada em meio a outras práticas
faculdade para pesquisar. Fala-se também em discurso sociais de linguagem apresenta as seguintes
sensorialdescritivo, quando se quer definir coisas características:
demonstradas por experiências. Ex.: A laranja é fruta; a 1) linguagem técnica;
fruta é ácida. O discurso será deôntico diante de 2) construída com base na experiência da vida
julgamentos axiológicos “É bom que tu te cuides”; ordinária;
éticos “Esta ação não pode ser considerada correta”. O 3) ocorre intraculturalmente;
discurso será jurídico-normativo quando sua aferição 4) possui ideologia;
for impossível de ser realizada, pois tudo remete à 5) exerce poder;
legalidade ou à validade ou não da norma jurídica que 6) seu caráter é normalmente performativo e sua
lhe dá base. Ex.: É proibido gravar a conversa alheia apresentação faz-se por meio de pressupostos lógico-
sem autorização expressa. deônticos.

- Dentre as modalidades de discurso jurídico, devemos - A prática de discurso é que permite o funcionamento
considerar o normativo, o burocrático, o decisório e o do direito, e estas práticas ocorrem, também, em
científico, cada qual com suas particularidades. E para interação com outras alheias ao sistema jurídico. A
cada uma dessas modalidades, visualizam-se funções sentença (discurso decisório), que se vale da lógica
jurídico-discursivas preponderantes: para acontecer, cria textos que individualizam a lei
a) função cogente do discurso normativo: (discurso normativo), dando sentido concreto para
corresponde às tarefas de comandar condutas e eleger algo que existia somente em discurso abstrato.
valores, o interpretar e o agir dos agentes públicos;
b) função ordinária do discurso burocrático: - No processo de interpretação das leis, ou no processo
correspondem às atividades de regularização, de complemento da ausência de leis para uma situação
acompanhamento, ordenação e impulso dos concreta, ou quando duas leis aparentemente são
opostas, a semiótica, permitindo a decodificação, jurídico, pois verifica-se a presença das condições
interpretação, dos elementos culturais, ideológicos, técnico-normativas e também fática dessa norma.
psicológicos, sociais e lógicos, condicionam a sentença
proferida. - A interseccionalidade reconhece que existem
necessidades específicas, no espaço do direito, para
- Em razão desta variável condicionada a inúmeros diferentes grupos, e que um indivíduo não é formado
elementos externos é que a lógica formal não serve ao apenas por um único elemento de identidade; gênero
direito, que precisa de decisões situacionais (conforme (homem ou mulher), raça (preto, pardo, branco,
o momento e contexto - lógica do razoável; amarelo e indígena), classe, (média, alta, baixa, abaixo
razoabilidade). da linha da miséria), grau de formação educacional
(analfabeto, ensino básico, médio, superior, pós-
Seção 4.4 - Direito e Norma graduação), mas sim que todos esses elementos
constituem um indivíduo e determinam a forma como
Sistema: é uma construção científica integrada por um este irá se relacionar com outros e com o espaço do
conjunto de elementos que se relacionam dentro de Direito em um Estado de Direito Republicano e
uma estrutura, tendo cada um desses elementos uma Democrático.
função que tenta explicar essa realidade natural ou
social que está sendo investigada. - Assim, a ideia de interseccionalidade surge no espaço
do ordenamento jurídico, que se propõe ser uno, e
- Um sistema pode ser decomposto em duas implementa uma pluralidade de compreensão de
dimensões: aplicação das normas ajustando-as às realidades
I. Repertório: representa o conjunto de elementos que sociais reconhecidas.
integra o sistema.
II. Estrutura: o padrão de organização dos referidos - Assim, podemos notar que nos dias atuais, existe uma
elementos dentro do sistema. forte tendência de retorno ao reconhecimento do
pluralismo jurídico, ou seja, de aceitação da
- Kelsen intitula de “estática jurídica” o capítulo que sistemicidade do Direito, permitindo o diálogo entre
estuda a norma, e de “dinâmica jurídica”, o capítulo diferentes sistemas jurídicos e, até mesmo, a
que estuda o ordenamento jurídico. As normas multidisciplinaridade no processo de elaboração e
jurídicas não estariam ordenadas no mesmo plano, construção do direito no cotidiano.
mas escalonadas em diferentes camadas ou níveis.
Assim, como numa figura piramidal, a norma inferior
tira o seu pressuposto de validade de uma norma
superior a ela, ou seja, pela proposta kelseniana, cada
norma a entrar no ordenamento jurídico seria
considerada válida em razão de sua norma
antecessora. No topo da pirâmide figura sua norma
mais valiosa, a quem consagra o nome de “norma
fundamental.

- Com base no pensamento de Niklas Luhmann, as


normas jurídicas não devem ser analisadas de forma
individual, mas em seu conjunto, dentro do sistema do
qual fazem parte, pois ainda que haja subsistemas,
todos eles se comunicam.

- Há que se considerar ainda, a validade e a eficácia das


normas dentro do sistema. A validade diz respeito à
obediência às condições formais e materiais de sua
produção antes de fazer parte do sistema jurídico. Por
sua vez, chama de eficácia a possibilidade concreta da
norma produzir seus efeitos dentro do ordenamento