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Em retrospecto -

quarenta e seis anos *

CARL R. ROGERS **

1. Um impacto surpreendente; 2. Uma


tentativa de explicação; 3. A ambiva-
lência da psicologia; 4. Duas lutas;
5. Dois enigmas; 6. Fontes de meus
conhecimentos; 7. Conclusão; 8. O
agora e o futuro.

Desde 1927 até o presente momento, tenho sido um psicólogo atuante. Fiz
diagnósticos de crianças e tratei de seus problemas; em 1928, desenvolvi um
inventário acerca do mundo interior da infância, que - os céus me perdoem -
ainda está sendo vendido aos milhares. Tenho aconselhado pais, estudantes e
outros adultos; tenho realizado psicoterapias intensivas com indivíduos problemá-
ticos - normais, neuróticos e psicóticos; empenhei-me e estimulei pesquisas em
psicoterapia e mudanças na personalidade; formulei uma teoria completa e rigo-
rosa sobre terapia'. Tive 40 anos de "experiência de ensino" favorecendo tanto a
aprendizagem através de canais cognitivos quanto a experiencial. Tenho-me
empenhado em facilitar o desenvolvimento pessoal através da experiência de grupo
intensiva; tenho tentado tornar claros os processos da terapia individual e da.

* Este artigo foi uma comunicação para o Prêmio de Contribuições Profissionais Eminentes,
apresentado na reunião anual da American Psychological Association, Montreal, Canadá,
agosto de 1973.
** Do Centro para Estudos da Pessoa, La Jolla, California.

Arq. bras. Psic. apl., Rio de Janeiro, 28 (2): 129-142, abr./jun. 1976
experiência em grupo através de gravações, demonstrações e filmes; tenho tentado
comunicar minha experiência através de artigos e fitas cassetes que agora me
parecem ser incontáveis. Tenho desempenhado meu papel como trabalhador nas
associações profissionais de psicólogos; tenho tido uma vida profissional contínua,
variada, controversa e altamente gratificante.
Assim, ocorreu-me que poderia haver algum interesse na pergunta. O que tal
psicólogo pensa quando volta os olhos para o passado, para cerca de meio século
de estudo e trabalho? É para esta interrogação que dirigirei minhas observações.
Qual é a minha própria perspectiva corrente acerca desses anos, da minha vida
profissional e seus vários períodos de desenvolvimento e mudança?

1. Um impacto surpreendente

Acredito que o maior elemento de minhas reações, quando volto os olhos para
meu trabalho e sua repercussão, seja a surpresa. Se eu tivesse sido avisado há 35 ou
40 anos sobre o impacto que ele causaria, ficaria absolutamente incrédulo. O
trabalho que eu e meus colegas temos feito alterou e foi importante para ativi-
dades amplamente diferentes, e mencionarei várias delas.
Ele transformou completamente o campo do aconselhamento. Expôs a
psicoterapia ao exame público e à investigação das pesquisas. Tornou possível o
estudo empírico de fenômenos altamente subjetivos e ajudou a trazer alguma
mudança nos métodos de ensino em todos os níveis. Tem sido um dos fatores a
trazer mudanças para os conceitos de liderança industrial (e mesmo militar), de
prática de trabalho social, de prática de enfermagem e de trabalhos religiosos,
como também responsável por uma das maiores tendências no movimento de
grupos de encontro. Pelo menos de maneira pequena, tem afetado a filosofia da
ciência. Começa a ter alguma influência nas relações inter-raciais e interculturais, e
até mesmo influenciado estudantes de teologia e de filosofia.
Meu trabalho tfrn, pelo que sei, modificado as diretrizes e objetivos de vida
de indivíduos na França, Bélgica, Holanda, Noruega, Japão, Austrália, Nova Zelân-
dia e África do Sul; em 12 países estrangeiros, os leitores podem encontrar alguns
de meus trabalhos na sua própria língua; se alguém desejar ler uma coleção com-
pleta sobre o que escrevi, encontrá-la-á em japonês. Contemplo com total espánto
esta longa lista de afirmações.

2. Uma tentativa de explicação

Por que meu trabalho teve impacto tão penetrante? Certamente não o atribuo a
qualquer talento especial próprio, e, seguramente, nem a qualqlJer visão de longo
alcance de minha parte. Dou crédito total a meus colegas mais jovens através dos
anos pela expansão e aprofundamento do meu trabalho e pensamento, mas mesmo

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seus esforços não explicam esta influência. Em vários dentre os campos que
mencionei, nem eu nem meus colegas jamais trabalhamos, ou estivemos envolvidos
de qualquer modo, exceto através de nossos artigos.
Tal como tento compreender o fenômeno, parece que, sem o saber,
expressei uma idéia cujo momento havia chegado. É como se um lago se tivesse
tornado totalmente imóvel, e um seixo atirado produzisse nele ondulações num
raio cada vez maior, apresentando uma influência que não poderia ser compreen-
dida ao se olhar para o seixo. Ou, usando uma analogia química, como se urna
solução líquida se tivesse tornado supersaturada, e a adição de um minúsculo
cristal iniciasse a formação de cristais por toda a mistura.
O que era aquela idéia, aquele seixo, aquele cristal? Era a hipótese gradual-
mente formada, e testada de que o indivíduo tem, dentro dele mesmo, vastos
recursos para a autocompreensão, para alterar seu autoconceito, suas atitudes e
seu comportamento autodirigido - e que esses recursos podem ser extraídos
somente se um clima definido de atitudes psicológicas facilitadoras puder ser
fornecido.
Essa hipótese, tão nova e, entretanto, de uma certa maneira tão antiga, não
era uma teoria sem apoio, surgindo de várias etapas muito práticas.
Primeiramente, eu havia aprendido através de experiências árduas e frus-
trantes que ouvir um cliente de modo compreensivo e tentar transformar aquela
compreensão eram forças poderosas para mudança terapêutica do indivíduo.
Em segundo lugar, eu e meus colegas percebemos que ouvir empaticamente
fornecia uma das aberturas menos nebulosas no funcionamento da psiquê humana, _
em todo o seu complexo mistério.
Em terceiro lugar, a partir das nossas observações, fizemos somente inferên-
cias num baixo nível e formulamos hipóteses testáveis. Poderíamos tirar infe-
rências de alto nível e ter desenvolvido urna teoria abstrata, também de alto nível,
e que não poderia ser testada, mas penso que meus próprios antecedentes agrícolas
dissuadiram-me de fazê-los. (Os pensadores freudianos escolheram este segundo
caminho, e isto marca, na minha opinião, uma das diferenças mais fundamentais
entre a sua abordagem e a abordagem centrada no cliente.)
Em quarto lugar, ao testar nossas hipóteses, rt:velamos descobertas· com
relação às pessoas e às relações entre as pessoas. Essas descobertas e a teoria que as
abrangia estavam mudando continuamente à medida que novas descobertas
surgiam, e este processo continua até hoje.
Em quinto lugar, porque nossas descobertas relacionam-se com os aspectos
básicos do modo pelo qual as próprias capacidades de uma pessoa para a mudança
podem ser liberadas, e com o modo pelo qual as relações podem favorecer ou
derrotar tal mudança autodirigida, descobriu-se que elas tinham urna ampla
,aplicabilidade.
.Em sexto lugar, as situações envolvendo pessoas, mudanças comportamen-
tais e os efeitos das diferentes qualidades de relações interpessoais existem em
quase todos os empreendimentos humanos. Assim, outras pessoas começaram a

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perceber que talvez as hipóteses testáveis desta abordagem poderiam ter aplicação
quase universal, ou poderiam ser retestadas ou reformuladas para serem usadas
numa variedade quase infinita de situações humanas.
Esta é a minha tentativa para explicar uma disseminação de idéias, de outra
forma incompreensível, que começou com questão muito simples. Poderia, através
da observação e avaliação cuidadosas de minha experiência com meus clientes,
aprender a ser mais eficiente em ajudá-los a resolver seus problemas de angústia
pessoal, comportamento autodestruidor, e relações interpessoais destrutivas?
Quem poderia adivinhar que o "tatear" e as experiências se espalhariam?

3. Ambivalência da psicologia

Pode-se observar uma omissão na listagem das áreas de impacto do meu trabalho.
Eu não disse que eu e meus colegas afetamos a psicologia acadêmica, ou assim
chamada "científica". Isto não seria um erro. Acredito que uma afirmação precisa
seria a de que temos tido um mínimo de influência na psicologia acadêmica, na
sala de conferências, nos compêndios ou nos laboratórios. Existe alguma menção
acerca do meu pensamento, minhas teorias ou minha abordagem à terapia, mas, de
um modo geral, penso que tenho sido um fenômeno dolorosamente embaraçante
para o psicólogo acadêmico. Eu não me adapto. Cada vez mais, tenho que concor-
dar com esta avaliação. Vou desenvolver melhor meu pensamento.
Os expoentes da ciência e da profissão da psicologia têm, acredito, senti-
mentos profundamente ambivalentes a meu respeito e sobre meu trabalho. Sou
visto - e aqui devo confiar em grande parte nos boatos - como estúpido, não-
científico, cultuado, acessível demais para os estudantes, cheio de entusiasmo
estranho e inquietante sobre coisas efêmeras como o eu, as atitudes do terapeuta e
os grupos de encontro. Difamei os mistérios mais santos dos acadêmicos - a
conferência "profissional" e todo o sistema de avaliação - desde os "abcs" dos
cursos de graduação até a beca invejada do grau de doutor. Posso ser manuseado
pela maioria dos autores em psicologia num único parágrafo, como o revelador de
uma técnica - a "técnica não-diretiva". Definitivamente, não pertenço ao grupo
dos acadêmicos de psicologia.
O outro lado da ambivalência é, entretanto, ainda mais surpreendente. A
psicologia, como um todo, a ciência e a profissão em conjunto, têm-me dado
grandes honras - muito mais, acredito, do que eu mereço. Para meu espanto, fui
agraciado com um dos primeiros três prêmios por contribuições científicas, e isto
foi em 1956, quando eu era muito mais controvertido. Eu tinha sido eleito presi-
dente da Associação Americana de Psicologia Aplicada e designado presidente de
importantes comissões e diversões, e estas honras freqüentemente me comoviam.
No entanto, nunca fora tão afetado emocionalmente como o fui pelo prêmio de
contribuição científica e a menção que o acompanhou. Quando era eleito para um
cargo, isto poderia ser em parte devido à minha ambição, pois desejaria prosperar

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na minha pro.fissão.. Mas este prêmio. era, para mim, num certo. sentido, o reconhe-
cimento. "mais puro" que jamais recebi. Por vário.s anos, eu vinha lutando. para
objetivar o co.nhecimento num campo potencial da ciência, co.m o. qual ninguém
parecia se preocupar. Não era a ambição ou a expectativa de qualquer prêmio que
me impelia. Na própria pesquisa empírica, havia mais do. que um pequeno. desejo. de
pro.var alguma coisa aos o.utros - e isto., evidentemente, não era objetivo científico.
Mas, nas fases básicas do trabalho - a observação. cuidadosa, as entrevistas gravadas,
os pressentimentos quanto às hipóteses, o. desenvolvimento. das teo.rias primitivas -
eu estava tão. perto de ser um verdadeiro cientista como jamais esperei ser. Mas era
evidente, pensava, que meus colegas e eu éramos os únicos que sabíamo.s o.U nos
impo.rtávamo.s. Assim, minha vo.z sufo.cou e as lágrimas correram quando fui
chamado., na Convenção. da APA, em 1956, a reCeber, juntamente com Wolfgang
Kõhler e Kemieth Spence, o primeiro dos prêmio.s para uma co.ntribuição. científica
na psicolo.gia. Isto. era prova viva de que os psicólo.gos estavam não só desco.ncertado.s
co.migo., mas até um certo po.nto., orgulho.so.s de mim. Isto. tinha um significado
pesso.al bem maio.r do que todas as honras que se seguiram, incluindo. o primeiro
prêmio. po.r contribuições profissionais, concedido. no. ano passado..
Apreciei, realmente, a menção do. ano passado., especialmente a ho.nestidade
da afirmação de que eu era pessoa irritante para a profissão. :- somente ago.ra
aquela afirmação. me promove ao. status de "irritante, mas respeitado.". Eu go.stei
daquela expressão. de ambivalência.

4. Duas lutas

Quando. vo.lto. o.S o.lho.s para o passado, ao longo dos ano.s, percebo. que me
empenhei em duas lutas que têm significado profissional.

4.1 A luta com a psiquiatria


A primeira luta está na determinação de muitos membros da pro.fissão psiquiátrica
de que não. se deveria permitir aos psicólo.go.s praticar a psicoterapia, nem ter
respo.nsabilidade administrativa no.s trabalho.s so.bre saúde mental, especialmente
se isto. envo.lvesse o.S psiquiatras. Enco.ntrei esta o.po.sição. primeiramente em
Ro.chester, No.va York, quando. no.sso bem sucedido. Departamento. de Estudos
so.bre Crianças (Child Study Department), uma ramificação. de um órgão. social,
estava sendo reorganizado., em 1939, num no.vo e independente centro de Orienta-
ção de Rochester. Uma campanha vigo.ro.sa, em parte leal e em parte po.r trás do.
pano., fo.i feita para interromper o.S meus serviço.s como. diretor e substituto. de um
psiquiatra. Não. parecia haver nenhuma dúvida acerca da qualidade do. meu traba-
lho. O argumento. era simplesmente baseado. na o.pinião de que um psicólogo. não.
po.deria co.mandar uma o.peração de saúde mental - isto. era simplesmente impra-
ticável. Embo.ra tivéssemo.s empregado. psiquiatras numa base de meio. expediente,

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por vários anos, isto repentinamente tornou-se algo de todo impossível. Eu não
poderia indicar nenhum precedente importante, nem poderia reclamar o apoio de
qualquer grupo profissional. Era uma batalha solitária. Sou muito grato à junta de
diretores, quase todos leigos, por decidirem eventualmente a disputa em meu
favor. Isto tinha sido uma luta de vida ou morte para mim, porque era algo que eu
estava fazendo muito bem, e um trabalho que desejava muito continuar.
Após um intervalo de calma na Universidade do Estado de Ohio (Ohio State
University), a luta foi renovada com vigor ainda maior na Universidade de Chica·
go. Ninguém, da rápida sucessão de presidentes do Departamento de Psiquiatria,
estava disposto a cooperar com o inexperiente e não-ortodoxo Centro de Aconse-
lhamento (Counseling Center). Finalmente, um destes homens exigiu da adminis-
tração da Universidade que o Centro de Aconselhamento fosse fechado, já que
seus membros estavam praticando medicina (particularmente a psicoterapia) sem
licença. Não havia ainda nenhum apoio profissional para nossas atividades por
parte da APA ou qualquer outra organização do gênero. Lancei um contra-ataque'
bastante rude, com todas as evidências que poderia reunir. Novamente sou grato,
desta vez ao reitor da universidade, por sua consideração imparcial e sua sugestão
aos psiquiatras que renunciassem à sua exigência, o que eles fizeram. Essas foram
as duas únicas vezes em que me empenhei num combate aberto com a psiquiatria.
Na maioria das vezes minha estratégia tem sido dupla. Não poderia ser desafiado,
pois tenho procurado conciliar as duas profissões na busca de um objetivo comum.
Tenho também tentado evoluir tão rapidamente e em alto grau, que o direito dos
psicólogos de praticar em um campo em que eles eram proeminentes na pesquisa, e
completamente iguais na prática e na construção de teorias não poderia ser desafiado
Mas, quando acuado num canto, como nestas duas ocasiões, posso lutar com
toda a eficiência que alguém desenvolve numa família de seis crianças. As pessoas
que conhecem somente meu lado pensante ou gentil ficam espantadas com minha
atitude e comportamento numa situação de guerra completa. Deveria, como adver·
tência, ter levantado a bandeira das antigas colônias, onde havia o brasão de uma
cobra cascavel e a legenda "não pise em mim".
Estou feliz em dizer que, na Universidade de Wisconsin, minha designação
conjunta para a psicologia e psiquiatria foi uma solução agradável nessas lutas. Na
verdade, iniciei a formação de um grupo de psicólogos e psiquiatras que gradual·
mente desfizeram a incipiente batalha legal e legislativa que dividia as duas
profissões.

4.2 A luta com a psicologia comportamentalista


A outra luta da minha vida profissional tem sido ao lado de uma abordagem
humanística no estudo dos seres humanos. O debate de Rogers-Skinner, em 1956,
é um dos documentos mais reeditados no mundo da psicologia. Seria absurdo da
minha parte tentar examinar aquela diferença contínua em profundidade. Farei
simplesmente algumas breves declarações.

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Para evitar mal-entendidos, deixe-me dizer imediatamente que aprovo a idéia
de que a teoria do condicionamento operante, seu desenvolvimento e sua imple-
mentação foi realização criativa. É um instrumento válido na promoção de certos
tipos de aprendizagem. Não posso denegrir a contribuição que ela proporcionou.
Mas isto não é a base da divergência.
Tenho grande respeito pessoal por Fred Skinner. É um homem honesto,
disposto a levar seu pensamento até as suas conclusões lógicas. Logo, podemos
divergir incisivamente, sem que seja afetado meu respeito por ele. Fui convidado
por vários periódicos a contestar o livro Além da liberdade e dignidade (Skinner,
1971) e recusei, primeiramente, porque sentia que ele tinha direito às suas opiniões.
Minha única decepção com relação a Skinner foi sua recusa em permitir que o debate
de nove horas que tivemos na Universidade de Minnesota, em Duluth, fosse publi-
cado. Ele foi todo gravado e é a exploração mais profunda que existe das discussões
entre nós. Todos os presentes na reunião supunham que já se tinha concordado
que as fitas, suas transcrições, ou ambas seriam publicadas. Após a reunião,
Skinner recusou-se a dar permissão. Sinto que a profissão foi lograda.
Percebi que a diferença básica entre abordagens comportamentalista e huma-
nística, quanto aos seres humanos, é escolha ftlosófica. Isto certamente pode ser
discutido, mas não pode, possivelmente, ser estabelecido através de evidências. Se
alguém considerar Skinner como aquele de alguns anos atrás - e acredito que esta
é a sua opinião hoje em dia - então o ambiente, que é parte de uma seqüência
causal, é o único determinante de comportamento do indivíduo que é, assim,
novamente uma cadeia, que não pode ser quebrada, de causa e efeito. Todas as
coisas que faço, ou que Skinner faz, são simplesmente inevitáveis resultados do
nosso condicionamento. Tal como ele assinalou, o homem age levado por contin-
gências, mas como se não o fosse. Levado às suas conclusões lógicas, isto significa,
como Jobo Calvin concluiu anteriormente, que o universo estava em algum ponto
posto em movimento como um grande relógio e tem trabalhado de modo inexorá-
vel desde então. Assim, o que pensamos ser nossas decisões, escolhas e valores são
ilusões. Skinner não escréveu seus livros por ter escolhido apresentar suas opiniões,
ou apontar o tipo de sociedade que valoriza, mas simplesmente porque se condi-
cionou a fazer certas observações no papel. Foi espantoso para mim ele admitir
isto numa sessão da qual ambos participamos.
Minha experiência em terapia e em grupos torna impossível negar a realidade
e o significado da escolha humana. Para mim, não é ilusão que o homem seja, em
algum grau, o seu próprio arquiteto. Tenho apresentado evidências de que o grau
de autocompreensão é talvez o fator mais importante na predição do comporta-
mento do indivíduo. Assim, para mim, a abordagem humanística é a única
possível. Cada pessoa deve, no entanto, seguir o caminho - comportamentalista
ou humanístico - que achar mais agradável.
Dizer que cabe ao indivíduo decidir não é sinônimo de dizer que isto não
tenha nenhuma importância. Escolher a ftlosofia humanística, por exemplo, signi-
fica que temas muito diferentes são escolhidos para pesquisa e diferentes métodos

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para validar as descobertas. Isso significa uma abordagem, para a mudança social,
baseada no desejo e potencialidades humanas de mudar, e não de condicionar. Isto
leva a uma fIlosofia política profundamente democrática ao invés da administra-
ção por uma elite. Assim, a escolha realmente tem conseqüências.
Para mim é inteiramente lógico que uma sociedade orientada de modo
tecnológico, com sua firme ênfase num controle maior do comportamento huma-
no, deva estar enamorada de uma abordagem comportamentalista. Da mesma
forma, a psicologia acadêmica, com sua insistência inabalável de que "o intelecto é
tudo", a tem preferido, em grante parte, à abordagem humanística. Se o psicólogo
das universid-ades aceitasse a última opinião, teria de admitir que está envolvido,
como uma pessoa subjetiva, na escolha dos tópicos de pesquisa, na sua avaliação
dos dados, no seu relacionamento com os estudantes, no seu trabalho profissional.
O manto confortável de "objetividade" seria necessariamente abandonado colo-
cando o psicólogo universitário como um ser vulnerável, imperfeito, subjetivo,
completamente engajado, intelectual e emocionalmente, objetiva e subjetiva-
mente, em todas as suas atividades. Isto é por demais ameaçador.
Deixe-me simplesmente adicionar: o que está realmente em questão é o
confronto dos dois paradoxos. Se a posição comportamentalista extrema é verda-
deira, então tudo o que um indivíduo faz é sem sentido, já que ele é só um átomo
capturado numa cadeia sem emendas de causa e efeito. Por outro lado, se a
posição humanística extrema é verdadeira, então a escolha é introduzida, e esta
escolha subjetiva individual tem alguma influência na cadeia de causa e efeito.
Então, a pesquisa científica, que foi baseada numa confiança completa nessa
cadeia inquebrável, deve ser fundamentalmente modificada. Tenho. assim como
outros, tentado esclarecer este dilema - minha própria tentativa estava num artigo
intitulado Liberdade e compromisso (Rogers, 1964) mas acredito que devemos
esperar pelo futuro para efetuar a reconciliação completa desses paradoxos.
Com todo candor, acredito que a perspectiva humanística terá, no final das
contas, preferência. Creio que, como pessoas, recusamo-nos a permitir que a
tecnologia domine as nossas vidas. Nossa cultura, baseada de modo crescente na
conquista da natureza e no controle do homem, está em declínio. Emergindo
através da ruína está a nova pessoa, altamente consciente, autodiretiva, um explo-
rador do espaço interior, talvez mais do que exterior, desdenhoso da conformi-
dade das instituições e do dogma da autoridade. Ele não acredita ter sido compor-
tamentalmente modelado, nem em modelar o comportamento dos outros. Ele é
seguramente mais humanístico do que tecnológico, no meu julgamento, tem uma
alta probabilidade de sobrevivência.
Todavia, esta minha convicção é aberta a uma exceção. Se permitirmos o
controle de um homem, ou uma tomada militar do nosso governo - e é óbvio que
estamos perigosamente perto disso - então um outro cenário teria lugar. Um
complexo governamental militar-policial-industrial estaria mais do que feliz em
usar a tecnologia científica para a conquista militar e industrial, e a tecnologia
psicológica para o controle do comportamento humano. Não estou sendo dramá-

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tico quando digo que os psicólogos humanísticos, enfatizando a liberdade e
dignidade essenciais à pessoa humana, e sua capacidade para a autodeterminação,
estariam entre os primeiros a serem encarcerados p<u tal governo.
Mas basta deste assunto. Divaguei pelo futuro. Deixe-me voltar à minha
visão retrospectiva e a algumas reflexões menos sérias.

5. Dois enigmas

Existem dois assuntos muito diferentes que me têm confundido. Um de menor


interesse, o outro de interesse mais profundo.

5.1 Com reÚlçãiJ à teoria

Por volta de 1950, eu tinha uma curiosidade crescente sobre se meu pensamento
poderia ser colocado numa forma teórica coerente. Por volta desta época,
Sigmund Koch (1959-1963) pediu-me para contribuir para sua série monumental
de volumes, Psicologia: um estudo de uma ciência. Isto era justamente o pequeno
estímulo que eu necessitava, e durante os próximos três ou quatro anos trabalhei
mais arduamente nesta formulação teórica do que em qualquer coisa que tenha
escrito antes ou a partir daí. É, na minha opinião, a teoria mais rigorosamente
formulada sobre o processo de mudança na personalidade e no comportamento
que já foi até agora produzida. Tal como um jovem psicólogo com um~ sólida
formação em matemática disse-me recentemente: "Ela é tão precisa! Eu a poderia
reformular em termos matemáticos." Devo confessar que isto está bem próximo
de minha opinião.
Fiquei muito satisfeito pelo fato de a teoria estar na série de Koch, porque
tinha certeza de que estes volumes seriam consultados por estudantes e psicólogos
nos anos vindouros. Não tenho dados exatos, mas suspeito que esses volumes são
de fato muito pouco usados. Certamente meu capítulo Uma teoria de terapia,
personalidade e relações interpessoais, tal como foi "desenvolvida na estrutura
centrada no cliente", é o mais completamente ignorado de tudo o que escrevi
(Rogers, 1959). Isto não me aflige em particular, porque acredito que as teorias,
freqüentemente, tornam-se dogmas, mas isto, ao longo dos anos, tem-me deixado
perplexo.

5.2 Com reÚlção à liderança criativa

o segundo enigma é de classe diferente. Nos meus primeiros anos, enquanto não
era um adorador de heróis, definitivamente respeitava vários homens que sentia
serem psicólogos reais, enquanto que eu existia numa extremidade pobremente
aceita. Lembro-me do furor da comunidade e dos profissionais quando Leonard
Carmichael foi trazido para a Universidade de Rochester, em 1936, como catedrá-

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tico de psicologia: um laboratório especial equipado de acordo com suas especifi-
cações, um grupo de companheiros para seus estudantes, todos os reconheci-
mentos devidos a seu brilho e liderança. Havia provavelmente alguma inveja na
minha atitude, já que trabalhava com esforço num edifício desprezado com uma
estrutura desorganizada para o Departamento de Estudos sobre Crianças, da Socie-
dade para a Prevenção da Crueldade com Crianças, mas meu sentido era mais de
admiração e expectativa. Sentia-me da mesma maneira em relação, talvez, a meia
dúzia de outros - melhor treinados em psicologia do que eu (no meu julgamento,
mais brilhantes), com livros e estudos de pesquisa já a seu crédito. Aqui estavam os
homens que apresentariam as grandes idéias em psicologia, que exerceriam o
mesmo tipo de liderança intelectual e mundial como a dos químicos, físicos e
astrônomos proeminentes. Eu não tinha nenohuma dúvida de que havia escolhido
aqueles que, uma geração mais tarde, seriam os líderes preponderantemente
criativos e produtivos da nossa ciência.
Enganei-me em todos os casos. Carmichael, já que mencionei seu nome,
tornou-se um administrador respeitado, operando nos níveis mais altos da insti-
tuição. Os outros que selecionei também tiveram carreiras respeitáveis, alguns fora
e outros dentro da psicologia. Mas a promessa deslumbrante não foi cumprida. Por
alguma razão isto me surpreendeu profundamente, porque eles têm um atributo
em comum. Eles perderam qualquer interesse criativo realmente vital na psico-
logia. Por quê? Os seus interesses tornaram-se limitados e insatisfatórios demais à
medida que envelheciam? Eles careciam de qualquer convicção ou fIlosofia básica
que poderia ter orientado o seu trabalho? Seus esforços pareceram-lhes irrele-
vantes para maior cenário social e suas contribuições insignificantes demais? Seu
trabalho inicial foi feito principalmente para impressionar seus colegas psicólogos,
um motivo que declina em importância com a idade? Eles procuraram levantar-se
e defender seu trabalho primitivo, inibindo-se assim de penetrar no desconhecido
criativo? Não sei. Isto me deixou completamente perplexo, e tornou-me real-
mente cauteloso demais ao tentar escolher prováveis líderes do pensamento
criativo.

6. Fontes de meus conhecimentos

À medida que tento rever todas as ricas correntes que alimentaram e estão alimen-
tando à minha vida profissional, posso discriminar várias entre as fontes mais
importantes.

6.1 Qientes e participantes


Em primeiro lugar, estão meus clientes de terapia e as pessoas com quem tenho
trabalhado em grupos. A mina de ouro de dados que se encontra nas entrevistas pu
sessões de grupo que me faz hesitar.

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Existe, primeiramente, a experiência ao nível de catarse, que absorve as
afrrmações, os sentidos e os gestos, fornecendo seu próprio tipo complexo de
aprendizagem, difícil de ser colocado em palavras. Depois há a fase de ouvir os
intercâmbios na fita gravada. Estão aí as seqüências ordenadas que são esquecidas
no fluxo da experiência, as nuanças de inflexão, as sentenças formadas pela
metade, as pausas, e os suspiros que foram também especialmente esquecidos.
Então, se uma transcrição é laboriosamente feita, tenho um microscópio em que
posso ver, tal como as denominei num artigo, As moléculas da mudança na perso·
nalidade. Não conheço nenhum modo de combinar assim a aprendizagem expe·
riencial mais profunda com as aprendizagens altamente abstratas cognitivas e
teóricas, como as três etapas que mencionei: viver a experiência numa base total,
executá·la novamente numa base experiencial cognitiva, e estudá·la mais uma vez
quanto a qualquer indicação inteléctual. Como disse anteriormente, esta é, talvez,
a janela mais valiosa e transparente para o estranho mundo interior das pessoas e
das relações. Sinto que se eu deduzisse do meu trabalho os conhecimentos obtidos
a partir dos profundos relacionamentos com clientes e participantes de grupos, eu
não seria nada.

6.2 Colegas mais jovens

Para mim, a segunda fonte mais importante de estimulação é o meu relaciona·


mento simbiótico com pessoas mais jovens. Não compreendo esta atração mútua,
simplesmente em alimento dela. Na minha juventude, eu aprendi muitas coisas
com os mais velhos, e, às vezes, aprendi, mesmo com colegas do meu próprio
grupo etário; mas, nos últimos 35 anos, quaisquer conhecimentos reais de fontes
profissionais vieram daqueles que eram mais jovens. Sinto uma profunda gratidão
para com todos os estudantes graduados, membros mais jovens da equipe e
espectadores jovens e curiosos que me educaram e continuam a educar. Por muitos
anos, dada a chance de associar~me com colegas profissionais da minha idade, ou
com grupo mais jovem, sou inevitavelmente impelido para o último. Eles parecem
menos obstinados, menos defensivos, mais abertos nas suas críticas, mais criativos
nas sugestões. Devo-lhes muito. Comecei a escrever exemplos, mas ao dar alguns
deles, seria injusto para com centenas de outros que contribuíram tão livremente
com suas idéias e seus sentidos num relacionamento que também acendeu
centelhas de pensamento criativo em mim. Eles me excitaram, e eu os excitei. Isto
foi uma troca justa, embora sinta freqüentemente que ganhei mais do que dei.
Sinto grande pena daquelas pessoas que envelhecem sem a estimulação constante
de mentes mais jovens e de estilos de vida diferentes.

6.3 Leituras eruditas


Muito abaixo da escala, eu colocaria o que é muitas vezes considerado como a
maior fonte de conhecimentos, os trabalhos impressos; temo que a leitura tenha

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maior significância para mim ao apoiar minhas idéias. Não sou um erudito, obten-
do minhas idéias a partir das obras de outros. Ocasionalmente, no entanto, um li-
vro só confIrma o que estou pensando como tentativa, mas me atrai consideravel-
mente adiante. Kierkegaard, Buber e Polannyi, por exemplo, estão naquela catego-
ria. Mas, devo confessar que, quando desejo ser erudito, uma "serendipilidade" de-
sempenha um papel muito importante. A "serendipilidade", caso você tenha es-
quecido, é "a faculdade de fazer descobertas afortunadas e inesperadas acidental-
mente". Sinto a sensação estranha de que possuo essa faculdade. Posso citar os úl-
timos exemplos. Ao preparar um artigo atual. A pessoa emergente: uma nova revo-
lução, inteirava-me de alguns escritores que estavam apresentando perspectivas se- .
melhantes. Então, Fred e Arme Richards (1973) mandaram-me uma cópia do seu
livro Homonovus, acabado de sair do prelo. Isto aconteceu muito oportunamente.
John D. Rockefeller III (1973) (tive dois contatos com ele) também enviou-me
uma cópia do seu livro A segunda revolução americana, que foi também altamente
pertinente. Mais tarde, estava conversando com um amigo do norte da Califórnia
sobre as minhas fantasias para o artigo da AP A, e ele disse: "Você leu o artigo de
Joyce Carol Oates, no Saturday Review?" Tive de confessar minha completa
ignorância não só do artigo, mas também do autor. A cópia xerox do ensaio não
só deu apoio às minhas opiniões, mas também abriu meus olhos para nova faceta
completa da fIcção moderna. Assim, embora aquele artigo possa dar a impressão
de que passei dias ou semanas pesquisando nas bibliotecas, pelo menos metade dele é
devida à "serendipilidade". Ela tem sido ajuda muito freqüente na minha vida.

6.4 Minha preocupação com a comunicação

Olhando ainda para trás - embora meu pescoço esteja fIcando entorpecido com
tal postura - posso ver o que seja, talvez, tema excessivo na minha vida profIssio-
nal. É a importância que dou à comunicação. Desde os primeiros anos, ela tem
sido, por alguma razão, uma das minhas preocupações mais arrebatadas. Sinto-me
aflito ao ver outros comunicando o passado entre si. Tenho desejado me comuni-
car, de modo que possa ser bem compreendido. Tenho desejado, tão profunda-
mente quanto possível, a comunicação com o outro, seja ele um cliente, amigo ou
membro de família. Tenho desejado ser compreendido. Tenho tentado facilitar; a
clareza da comunicação entre indivíduos com os mais diversos pontos de vista.
Tenho trabalhado por uma melhor comunicação entre grupos cujas percepções e
experiências pertencem a pólos opostos: estranhos membros de diferentes cultu-
ras, representantes de diferentes camadas da sociedade. Fornecer exemplos ade-
quados limitaria a extensão da minha carreira. Citarei apenas um. A experiência
filmada de um grupo envolvido em problema de drogas incluía indivíduos corre-
tos, tal como um comissário de narcóticos, e indivíduos desajustados, incluindo
um viciado em drogas. Havia pretos e brancos, jovens e pessoas de meia-idade,
habitantes dos guetos e membros da classe média. O processo de grupo, através do
qual a comunicação e aproximação tornaram-se parte viva deste grupo distinto, é

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uma experiência que jamais esquecerei. Infelizmente, o título do filme - Porque
este é o meu modo de ser - escolliido por nós, apreende muito pouco do vivo
intercâmbio que ocorreu (Station WQED, 1971).
Essa obsessão pela comunicação teve suas próprias recompensas inesperadas.
Tive uma entrevista de meia hora com uma jovem mulher chamada Glória (um
pouco disso pode ser visto no filme) e um contato muito comunicativo foi estabe-
lecido. Para minha total surpresa, ela se manteve em contato comigo durante oito
anos, principalmente em reconhecimento pela aproximação que conseguimos.
Com Randy, o viciado em drogas do filme, mantive correspondência constante por
mais de um ano. Mr. Vac, um dos meus clientes da nossa pesquisa complexa sobre
a psicoterapia com esquizofrênicos, tem seguido a minha pista há oito anos com
um "Alô, Doutor", tomando~nie sabedor de que está indo tudo bem, e que jamais
retornou ao hospital do Estado, mesmo por um dia. Penso que tais recompensas
são mais saboreadas à medida que os anos passam.

7. Conclusão

Assim eu posso resumir minha vista d'olhos informal sobre o meu passado profis-
sional dizendo:
Estou assombrado com o impacto do meu trabalho.
Tenho uma vaga compreensão de que a época estava propícia para isso.
Olho com divertimento e afeição a ambivalência que criei na psicologia.
Vejo com satisfação que a guerra com a psiquiatria está acabando.
Estou contente por ter desempenhado um papel no contínuo drama da
fIlosofia comportamentalista versus a humanística.
Estou confuso e humilhado pela falta de consideração com o que considero
como o meu rigor teórico. .
Estou perplexo com as carreiras posteriores de algumas das luzes verdadeira-
mente brilhantes que eu vi.
. Estou especialmente grato pela dádiva de conhecimentos vitais, obtidos das
pessoas cujo desenvolvimento e crescimento eu tentei facilitar.
Confio nos jovens, com quem tenho continuamente aprendido.
Consigo discernir mais precisamente o tema da minha vida como ter sido
construído em volta do desejo de esclarecimento da comunicação, com todos os
seus resultados ramificados.

8. O agora e o futuro

DeveriaJ>arar aqui, mas não posso. É sempre um esforço para mim olhar para trás.
São ainda o presente e o futuro que me preocupam mais. Não posso terminar sem
rápida observação sobre os meus interesses e atividades correntes.

Em retrospecto 141
Não estou mais empenhado na terapia individual ou na pesquisa empírica
(estou descobrindo que, depois que se passa dos 70 anos, existem limitações
físicas sobre o que se pode fazer). Continuo empenhado nos grupos de encontro
quando acredito que eles possam ter impacto social significativo. Por exemplo,
estou envolvido num programa para a humanização da educação médica. Até o
presente, mais de 200 educadores médicos de alto nível têm estado envolvidos em
experiências de grupo intensivas que parecem ter sido mais bem sucedidas, ao
facilitar as mudanças, do que ousávamos esperar. Talvez médicos mais humanos e
sensíveis sejam o resultado. Isto certamente representa nova área de possível
impacto.
Também ajudei a patrocinar e tomei parte de grupos inter-raciais e intercul-
turais, acreditando que a melhor compreensão entre grupos diversos é essencial se
o nosso planeta quiser sobreviver. O grupo mais difícil era composto de cidadãos
de Belfast, Irlanda do Norte, no qual havia católicos militantes e menos militantes,
protestantes militantes e menos militantes, e ingleses. O fIlme daquele encontro
retrata o seu progresso difícil e parcial para melhor compreensão, um primeiro
passo num longo caminho. Considero-o como pequena tentativa de tubo de ensaio
que poderia ser utilizada em maior profundidade e de modo muito mais amplo.
Continuo a escrever. Reconheço que, enquanto minha abordagem total para
com as pessoas e seu relacionamento muda lentamente (e muito pouco nos seus
aspectos fundamentais), meu interesse nas suas aplicações modificou-se de modo
marcante. Não estou mais interessado principalmente na aprendizagem terapêutica
individual, mas nas implicações sociais mais amplas. Talvez os títulos de alguns dos
meus artigos recentes (completos ou em andamento) dêem melhor idéia de onde
estou, no meu trabalho presente. Os próximos títulos serão: Minha fIlosofia dos
relacionamentos interpessoais e como ela se desenvolveu; Reunindo as experiên-
cias cognitivas e afetivas na educação; Alguns desafios novos para a psicologia;
Alguns problemas sociais que me preocupam; A pessoa emergente: uma nova revo-
lução. Quando os exponho, a pergunta surge em minha mente, como acontecia
freqüentemente no passado: "Estou me expandindo muito superficialmente? "
Somente o julgamento de outros pode responder a esta pergunta em alguma data
futura.
E então trabalho na jardinagem. Naquelas manhãs em que não encontro
tempo de examinar as minhas -flores, regar os brotos que estou disseminando,
retirar algumas ervas daninhas, pulverizar alguns insetos destrutivos e espalhar o
fertilizante apropriado em algumas plantas em botão, eu me sinto logrado. Meu
jardim enseja a mesma intrigante pergunta que tenho tentado responder em toda a
minha vida profissional: "Quais são as condições efetivas para o crescimento? "
Mas, no meu jardim, embora a frustração seja imediata, os resultados, seja o
sucesso ou o fracasso, são evidentes em curto prazo. E quando, através de um
cuidado paciente, inteligente e compreensivo, eu tiver criado as condições que resul-
tem na produção de uma flor rara ou gloriosa, sentirei o mesmo tipo de satisfação que
senti ao facilitar o crescimento de uma pessoa ou de um grupo de pessoas.

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