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O DESENVOLVIMENTO DAS FUNÇÕES PSICOLÓGICAS SUPERIORES: O PONTO DE VISTA DE

VIGOTSKY (2ª.Parte)
In: SALVADOR, César Coll (org.) Psicologia da educação. Cap 9. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995, p.
105-110
A lei da dupla formação das funções psicológicas superiores
As teses de Vigotsky referentes à origem dos processos psicológicos superiores manifestam-se no que ele denominou
lei geral do desenvolvimento cultural
- a lei da dupla formação dos processos psicológicos superiores. De acordo com essa
lei, os processos da linha social e cultural do desenvolvimento originam-se sempre entre pessoas, isto é, têm sua raiz
inicialmente no plano da relação com os outros e depois surgem no plano estritamente individual.

Com as palavras de Vigotsky:


"Qualquer função presente no desenvolvimento cultural da criança aparece duas vezes e em dois planos diferentes. Em
primeiro lugar, aparece no plano social e depois no plano psicológico. Em princípio, emerge entre as pessoas e como
uma categoria interpsicológica. Isso também é válido para a atenção voluntária, para a memória lógica, para a
formação de conceitos e para o desenvolvimento da vontade. Podemos considerar essa argumentação como uma lei no
sentido estrito do termo ( ... ) As relações sociais ou as relações entre as pessoas são geneticamente subjacentes a todas
as funções superiores."

A proposta de Vigotsky implica afirmar que processos como a atenção volun tária, a memória lógica ou o pensamento
podem realizar-se não só de maneira individual, mas também de maneira interpessoal, ou seja, mediante a relação, a
comunicação e a interação com os outros. Por exemplo, esse é o caso da criança que é capaz de manter a atenção em
uma determinada atividade, enquanto o adulto vai lembrando-lhe o objetivo da tarefa e os materiais que são úteis em
cada momento; também é o caso do bebê que é capaz de "conversar" com a sua mãe, já que ela lhe marca os turnos
para falar; esta espera que o bebê faça algum tipo de movimento ou de reação, interpretando como uma contribuição
legítima ao diálogo; é igualmente o caso da menina que pode lembrar o lugar onde deixou o seu brinquedo preferido
com as perguntas reiteradas e sistemáticas da sua mãe enquanto lhe indica diversos locais da casa onde poderia estar.
Em todos esses casos, as diferentes funções psicológicas implicadas colocam-se em funcionamento por meio da ajuda
de outras pessoas e em um nível que não seria possível de maneira individual.
Também nesses casos a regulação e o controle do uso das estratégias e dos instrumentos mediadores envolvidos (a
adoção de metas definidas simbolicamente para uma tarefa, o uso de regras pragmáticas da conversa, a utilização de
estratégias de recuperação da informação na memória) são principalmente responsabilidade dessas pessoas. Portanto, o
acesso individual às funções psicológicas superiores e ao domínio dos instrumentos que servem como mediadores é
possível porque, em um primeiro momento, outras pessoas que já contam com um certo domínio dessas funções e
desses instrumentos se encarregam de regular e de controlar a nossa utilização dessas funções, sempre oferecendo a
ajuda que for necessária e suprindo aquilo que não somos capazes de fazer sozinhos. Em outras palavras, o desenvolvi -
mento dos processos psicológicos superiores significa a passagem da regulação intermental para a regulação
intramental: o que, a princípio, somos capazes de fazer "sob a supervisão e o controle" de outras pessoas e no âmbito
de atividades conjuntas - no plano intermental - é o que depois seremos capazes de efetuar de maneira autônoma, sob o
nosso controle - em um plano intramental -, ou, dito de outra maneira, o que somos capazes de efetuar individualmente
em um determinado momento foi produzido anteriormente no plano da interação com os outros.
Atividade 13
Os exemplos de funcionamento intermental que apresentamos referem-se a processos produzidos entre um adulto e uma criança.
Não obstante,logicamente, esse tipo de funcionamento não se restringe somente a essas relações, mas também pode ser
generalizado em qualquer nível de idade e entre pessoas de idades mais ou menos semelhantes. Lembre, nesse sentido, quais são
as características que definem o funcionamento e a regulação intermental e tente dar exemplos desse tipo de funcionamento nas
atividades que você esteja desenvolvendo atualmente.
Partindo dessa lógica, surge, de maneira natural, a interrogação referente aos mecanismos que fazem parte da transição
do social ao individual na lei da dupla formação: como se produz a passagem do intermental ao intramental, da regulação
por parte dos outros à autor-regulação? É simplesmente um processo de translação mecânica daquilo que se deriva na
interação como plano individual, ou implica algum tipo de elaboração mais complexa? O intramental é uma simples cópia do
intermental, ou melhor, dispõe de uma dinâmica própria? Essa passagem se produz de uma maneira pontual ou imediata, ou
melhor, implica um processo relativamente longo e contínuo no tempo?

Conceitos de Vigotsky
Se quisermos avançar nas respostas a essas questões a partir do ponto
de vista de Vigotsky, é preciso recorrer a dois conceitos do seu marco
teórico, os quais estão relacionados estritamente com o que
examinamos até agora: a noção de internalização - interiorização - e a
noção de Zona de Desenvolvimento Proximal.
A internalização .....
...é o processo de reconstrução interna de uma atividade externa.
A internalização é o mecanismo responsável pela transição entre o funcionamento intermental e o funcionamento
intramenta1. Vigotsky a define como o processo de reconstrução interna de uma atividade externa; portanto, a internalização
não representa uma transferência a partir do plano externo até um plano interno preexistente, tampouco um processo passivo
de cópia ou imitação - ou a partir - da atuação das pessoas mais especializa das que participam na interação. Em vez disso,
devemos entendê-la como um processo mais ou menos lento, parcial, gradual e progressivo, no qual criamos e modificamos
o funcionamento intramental, graças à reconstrução que a pessoa faz das formas de mediação e dos processos utilizados na
atividade conjunta ou intermenta1.
"Mesmo que possa parecer que as crianças aprendem de maneira puramente externa, isto é, dominando as novas habilidades,
o resultado que se desprende do processo de desenvolvimento da criança é, na realidade, a aprendizagem de qualquer
operação nova. A formação de novos sistemas de aprendizagem inclui um processo análogo ao da alimentação durante o
crescimento do corpo; nesse caso, em determinados momentos, certos alimentos são digeridos e assimilados; ao contrário,
em outros, são rejeitados."
V. John-Steiner; E. Souberman (1979). Epílogo da edição de L.S. Vigotsky, EI desarrollo de Ias procesos psicológicos superiores
(p. 187). Barcelona: Crítica.
"Não surpreende que a linguagem, que intervém na qualidade de mediador das interações sociais e do funcionamento mental,
tenha um papel privilegiado no processo de internalização. A internalização, ou seja, a passagem de uma função a partir do
plano social até o plano mental, produz-se quando a criança começa a utilizar sozinha os signos que tem utilizado com
adultos para regular a sua atividade. A internalização faz referência ao domínio e ao controle que a criança tem em relação
aos signos sociais, especialmente aos signos que servem para a regularização social do comportamento. O domínio e o
controle dos signos são manifestados à medida que o adulto e a criança compartilham progressivamente os significados, mas
também, mais especificamente, no uso ativo e espontâneo que a criança faz do sistema de signos para regular a sua própria
atividade."
R.M. Díaz; CJ. Neal; M. Amaya-Williams (1990). "Social origins of self-regulation".In L. MoU (ed.), Vigotsky and education
(p.
147). Cambridge: Cambridge University Press.
Atividade 14
Um aspecto muito importante que ajuda a entender os principais postulados de Vigotsky é a compreensão do conceito de internalização.
Por causa da sua relativa dificuldade, pode ser mais conveniente que, tendo lido duas citações correspondentes a esse conceito, tente
definir com as suas palavras em que consiste o processo de internalização.
A Zona de Desenvolvimento....
...Proximal é a diferença entre o que o indivíduo sabe com ajuda de
outros e aquilo que sabe fazer sozinho.
A Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) apresenta-se como a região dinâmica em que se pode realizar a
transição desde o funcionamento intermental até o intramental, isto é, a internalização. Definimo-la como a diferença
existente entre o nível do que o indivíduo é capaz de fazer com a ajuda de outros e o nível das tarefas que pode efetuar
independentemente. Dessa definição origina-se uma distinção de dois níveis de desenvolvimento: por um lado, o que
corresponde às capacidades que o indivíduo já adquiriu e usa de uma maneira individual e que, portanto, pode controlar de
uma maneira autônoma - intramental- (aquilo que Vigotsky denominou nível de desenvolvimento real);
por outro lado, o que se
encontra delimitado pelas capacidades que o indivíduo coloca em jogo mediante a ajuda, a orientação e a colaboraçãode
outros indivíduos mais especializados e capazes que ele - intermental - (aquilo que Vigotsky denominou
nível de desenvolvim ento potencial).
O primeiro desses níveis indica o desenvolvimento que já se completou; o
segundo marca a direção do desenvolvimento, a sua possibilidade e a sua extensão potencial.
Por isso, podemos definir a ZDP - e é a definição citada mais freqüente - também como:
"a distância entre o nível real de desenvolvimento, determinada pela capacidade de resolver independentemente um
problema, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado mediante a resolução de um problema com a orientação
de um adulto ou em colaboração com um outro companheiro mais capaz."
Idéias básicas:
• Caráter social e cultural dos processos psicológicos superiores.
• Origem social dos instrumentos simbólicos mediante os quais esses processos
são possíveis.
• Caracterização do desenvolvimento cultural como de processo que avança do
intermental ao intramental.
• Noção de ZDP.
É preciso insistir que, segundo Vigotsky, o nível de desenvolvimento potencial e a ZDP possuem um caráter interativo e
social; não se trata de propriedades intrínsecas da criança ou da pessoa em desenvolvimento, nem preexistem à interação com
outras pessoas, mas também se criam e ocorrem no transcurso dessa interação. Embora definamos o nível de
desenvolvimento potencial como aquele que se encontra delimitado pelas capacidades que a pessoa pode colocar em jogo
unicamente por meio da ajuda,da orientaçãoe da colaboraçãode outras pessoas mais especializa das, logicamente parece
impossível definir o nível de desenvolvimento potencial de uma pessoa a priorisem considerar a ajuda concreta (tipo,
grau, etc.) que as pessoas mais experientes. Dito de outra maneira, uma determinada pessoa pode mostrar diferen tes
níveis de desenvolvimento potencial e entrar em diferentes ZDPs em função do indivíduo com quem interatua e de
como se manifesta essa interação. Além do mais, as pessoas não possuem um único nível geral de desenvolvimento
potencial, mas diferentes níveis - e diferentes ZDPs possíveis - em relação a diferentes âmbitos do desenvolvimento,
tarefas e conteúdos.
A partir desse ponto de vista, a/ as ZDPs seriam os espaços em que a interação com outras pessoas mais capazes pode
"prolongar" o nível de desenvolvimento efetivo, de modo que o indivíduo pode avançar até níveis superiores de
desenvolvi mento com a ajuda de mecanismos de interiorização. Esse processo deve ser valori zado, porém, dentro de
uma perspectiva dinâmica e dialética: os avanços na/nas ZDPs, graças ao funcionamento intermental que se produz,
possibilitam as mudan ças no funcionamento intramental, isto é, no desenvolvimento eficaz da pessoa. Porém, ao
mesmo tempo, essas mudanças, uma vez que se consolidam, abrem as portas às novas ZDPs que podem permitir novos
avanços do indivíduo até níveis superiores de desenvolvimento.
Atividade 15
Suponha que um aluno tenha dois professores diferentes. Seria possível que alcançasse diferentes níveis de
desenvolvimento potencial com cada um? Por quê?
O papel da educação no desenvolvimento
Se repassarmos algumas das idéias e noções básicas de enfoque teórico de Vigotsky apresentados nas páginas
anteriores (o caráter social e cultural dos processos psico lógicos superiores, a origem social dos instrumentos e dos
sistemas simbólicos mediadores que possibilitam esses processos, a caracterização do desenvolvimento cultural como
processo que avança do intermental ao intramental, a noção de ZDP), poderemos concluir e admitir facilmente o
caráter absolutamente determinante e nuclear que, do ponto de vista do investigador, interação com outras pessoas no
desenvolvimento psicológico possui.
Efetivamente, Vigotsky opina que esse desenvolvimento exige a apropriação e a internalização de instrumentos e signos em
um contexto de relação e de interação interpessoal; não se pode explicar tão somente por fatores de caráter biológico;
unicamente é possível pelo fato de que a criança vive em grupos e estruturas sociais que lhe permitem aprender dos outros e
com os outros. O desenvolvimento pessoal é possível, porque as pessoas que estão ao redor da criança não são objetos
passivos ou simples espectadores e juízes do seu desenvolvimento, mas companheiros ativos que ajudam, orientam,
planejam, regulam, assistem, etc., o comportamento da criança, já que exercem a qualidade de agentes ativos do
desenvolvimento.
Essa maneira de entender as relações entre educação e desenvolvimento tornase bem explícita, nos trabalhos de Vigotsky,
quando trata das relações entre aprendizagem e desenvolvimento no marco das noções de lei de dupla formação e de ZDP.
Certamente, Vigotsky afirma que essas noções questionam a maneira tradicional de entender a aprendizagem como um
processo subordinado ou dependente do processo de desenvolvimento. Vigotsky depende que as duas noções admitem a
possibilidade de que, mesmo que a aprendizagem e o desenvolvimento não sejam processos idênticos, a aprendizagem pode
tornar-se desenvolvimento. Mesmo assim, partindo dessa concepção, a aprendizagem - e o ensino - seria uma condição
necessária, um motor essencial ao desenvolvimento; não algo externo e posterior ao desenvolvimento -tampouco parecido -,
mas uma condição prévia ao processo de desenvolvimento.

Segundo a formulação explícita de Vigotsky, o processo de desenvolvimento não coincide com o de


aprendizagem; tal processo ocorre depois da aprendizagem e do ensino -, o que cria a ZDP.
A participação em atividades.....
....em que companheirso mais experientes e capazes culturalmente transmitem
– ou tentam transmitir – os instrumentos e os recursos que mediatizam e
amplificam as capacidades humanas (isto é, em atividades educativas) é quse
imprescindível na explicação do processo.
O traço principal.....
... da aprendizagem - e do ensino - é que produz a ZDP, isto é, que estimula e ativa
na criança um grupo de processos de desenvolvi mento dentro do âmbito das
relações com 05 outros que, de acordo com a lei da dupla formação, pode ser
transformado, ao final, no desenvolvimento efetivo ou real.
Evidentemente, isso não significa que se possa realizar qualquer aprendizagem em qualquer momento; o nível de
desenvolvimento eficaz continua sendo relevante; conseqüentemente, a aprendizagem não poderá ser verifica da até que a
criança, em função do seu nível de desenvolvimento real, possa incorporar os instrumentos, os símbolos e as pautas de
interação das outras pessoas com quem interatua. De qualquer modo, o desenvolvimento potencial é também decisivo no
processo e, como já vimos, vincula-se diretamente à interação com os outros.
Portanto, embora a aprendizagem não se identifique sensivelmente com o desenvolvimento - não é desenvolvimento em si
mesma -, pode-se dizer que é um momento intrinsecamente indispensável para serem efetuados os processos psicológicos
superiores. Assim, segundo o parecer de Vigotsky, aprendizagem e desenvolvimento mantêm uma relação complexa e
dinâmica que não se reduz a uma dependência linear entre ambos os processos. Essa relação complexa significa igualmente
que nem todas as aprendizagens incidem da mesma maneira no processo de desenvolvimento. Por isso, Vigotsky remarca a
diferença existente entre, por exemplo, aprender a escrever à máquina ou andar de bicicleta na idade adulta, e entre a
aprendizagem da língua escrita e da aritmética na idade escolar. No primeiro caso, as aprendizagens incidem pouco,
globalmente, no funcionamento psicológico. No segundo caso, ao contrário, para poder representar o acesso a instrumentos e
sistemas de mediação organizados culturalmente e muito potentes, provocam uma mudança radical nesse funcionamento.
A conseqüência global que Vigotsky obtém a partir da análise das relações entre desenvolvimento e aprendizagem ilustra
claramente sua posição referente à eficácia da relação entre educação e desenvolvimento: o desenvolvimento eficaz da
criança não pode ser interpretado como um limite insuperável, e a aprendizagem - e o ensino - não deve ser orientada aos
níveis de desenvolvimento já alcançados. Ao contrári
"Um ensino orientado a uma etapa de desenvolvimento já completada é ineficaz desde o ponto de vista do
desenvolvimento geral da criança; não é capaz de dirigir o processo de desenvolvimento, somente retroage. A
teoria da Zona de Desenvolvimento Proximal origina uma fórmula que contradiz exatamente a orientação
tradicional: '0 único ensino bom é o que se antecipa ao desenvolvimento'."

Atividade de aprofundamento
1 Quais as implicação, em seu parecer, que a afirmação anterior possui? O que você pensa que Piaget responderia a
essa afirmação?
2 Examine as respostas que elaborou na primeira atividade do Capítulo 9 deste módulo. Retifique-as ou amplie-as,
se achar conveniente.