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Você me desaponta, Garrosh.

Por mais que tentasse, as lembranças dessas palavras nunca desapareciam.


Não importava quantas vezes ouvisse os gritos orgulhosos de “Boas-vindas,
Lorde Supremo!” ao passar pelo Martelo de Agmar, ou quanto tempo ele
permanecesse diante das ruínas do Portão da Ira e olhasse para as chamas
encantadas que ainda emanavam dele. Nem mesmo os golpes de suas
lâminas contra as bestas ou os flagelados que ousavam se opor a ele eram
um alívio duradouro. Todo o sangue quente que se espalhava em seu rosto
durante as batalhas era insuficiente para lavar aquela voz. No exato momento
em que retornava à estrada, ouvia cada palavra dita em sua cabeça a cada
passo de seu grande lobo de montaria contra a neve.

Talvez fosse a presença contínua do Chefe Guerreiro atrás dele a causa das
palavras incessantes. Thrall decidiu acompanhar Garrosh de volta à Fortaleza
Brado Guerreiro. Disse que desejava ver as instalações em Nortúndria.
Garrosh sentia como se estivesse sendo cuidado por uma babá, mas sabia
que essa era um oportunidade importante. Os caminhos da Horda por
Nortúndria estavam longe de serem triviais. E Thrall certamente iria ver isso.
Ele certamente admiraria tudo o que foi feito no fronte.

Garrosh seguiu, montado em seu lobo Malak, em direção a mata. O lago


Kum’uya atrás deles ainda espelhava o sol naquela manhã cinzenta. Eles
chegariam à Fortaleza Brado Guerreiro no meio da tarde, ou ao anoitecer, se
fossem devagar. Garrosh admitia para si mesmo que estava ansioso para ver
o olhar de admiração de Thrall quando chegassem.

Infelizmente, eles não puderam admirar a fortaleza com calma na chegada.


Bastou um momento para que Garrosh deduzisse que os nerubianos haviam
invadido a Pedreira do Megalito novamente. Ele contraiu o rosto. Não
importava o quanto eles tentassem bloquear Azjol-Nerub, os insetos sempre
conseguiam abrir um novo caminho para o oeste. Os guinchos sinistros das
criaturas eram inconfundíveis e se propagavam para todas as direções na
tundra gelada.

– Em frente! Ataquem! – Garrosh deu as ordens aos cavalgantes Kor’kron


que os acompanhavam, esquecendo por um momento que, na verdade, não
era ele o comandante daquele grupo. O orc atiçou Malak e partiu a toda
velocidade antes que pudesse lembrar que, pelo decoro, deveria esperar
pelas ordens de Thrall. Bem, decoro nunca venceu batalhas. Ação sim.
Outros sons da batalha se tornaram audíveis conforme ele se aproximava.
Gritos dos guardas, o estouro seco das artilharias e o inconfundível som das
armas de metal batendo contra a armadura quitinosa nerubiana. Garrosh
preparou seus machados, com o coração acelerado pela expectativa.
Cavalgou até a pedreira sem que Malak hesitasse sequer por um instante.
Desceram barrancos, saltaram sobre as plantações e, com um grito de
guerra, Garrosh se atirou ao meio do combate.

O nerubiano à sua frente não teve tempo de vê-lo chegar. O primeiro golpe
de Garrosh cortou profundamente o tórax da criatura e o segundo arrancou
toda a parte anterior de seu corpo. O guarda que estava batalhando contra a
criatura olhou, estarrecido, com o machado preparado. Garrosh sorriu
loucamente.

– Grito Infernal! – gritou o guerreiro, saudando-o. Ele se virou na direção dos


outros e continuou. – O Lorde Supremo Grito Infernal retornou!

Garrosh levantou o machado em resposta.

– Expulsem essas criaturas daqui! – rugiu ele aos soldados. – Façam esses
vermes lembrarem o que acontece com quem desafia a Horda! Lok-tar ogar!

As palavras de Garrosh injetaram novo ânimo nos defensores e eles se


lançaram à frente, em meio a gritos de “Lok-tar ogar!”. Uma enorme criatura
com a forma de um besouro gigante dominava a pedreira. Garrosh partiu
imediatamente em seu lobo para enfrentá-la. Os lobos órquicos eram
treinados em combate tão intensamente quanto seus donos. Malak mordeu
com força uma das patas do gigante nerubiano, desequilibrando-o, enquanto
Garrosh descia da montaria. Por mais vantajoso que fosse o combate
montado, ele sempre se sentira melhor com os dois pés no chão.

O nerubiano gemeu de dor e raiva, lançando suas patas frontais na direção


do pescoço de Garrosh, que aparou o golpe com um dos machados e, num
movimento contínuo, cortou fora os membros da criatura. O inseto vacilou,
dando passos para trás, e Garrosh o seguiu, praticamente dançando com
seus machados, tal era sua perícia e graça com as armas. O sangue fluía
veloz nas veias; o fervor da batalha queimava em seu peito. Nunca lhe
ocorreu a ironia de que ele se sentia realmente vivo quando encarava a
morte.

Garrosh golpeava o tórax da criatura enquanto Malak mordia-lhe as pernas,


impedindo-a de se apoiar com firmeza. No momento em que preparava mais
um golpe, um clarão cegante, seguido por um estalido agudo e um odor de
carne de inseto queimada o desorientou por um instante, anunciando a
chegada do Chefe Guerreiro Thrall na batalha. Os nerubianos estavam
vencidos e não tinham mais para onde fugir. Garrosh sentiu uma torrente de
confiança ao levantar o machado e partir a cabeça gigante do inseto ao meio.

Foi esse o sinal de que a batalha havia sido vencida. Só restava esperar que
as forças do Brado Guerreiro despachassem o resto das forças nerubianas
espalhadas pela pedreira. Ao ver os guardas lutando, Thrall levantou o
Martelo da Perdição e murmurou algo que Garrosh não pode entender.
Seguindo o comando do Chefe Guerreiro, o próprio vento acelerou
repentinamente, criando uma tempestade furiosa, e o ar se encheu de
eletricidade, fazendo os pelos do pescoço de Garrosh se levantarem. Com
um rugido poderoso, Thrall evocou um relâmpago fulminante, que atingiu o
último grupo de resistência nerubiana no exato momento em que os soldados
da Horda saíram do caminho. A explosão fez uma chuva de pedaços de
insetóides se espalhar para todos os lados.

Garrosh chamou Malak para seu lado e passou a mão carinhosamente na


pelagem do animal enquanto examinava as tropas, contente com o sucesso.
A batalha fora breve, mas satisfatória. Foi um infortúnio a Horda ter
construído a fortaleza sobre uma parte tão movimentada do antigo reino
nerubiano, mas os ataques estavam se tornando cada vez menos frequentes
e ele estava certo de que logo iriam parar. Seus soldados estavam ficando
mais eficientes a cada defesa e as linhas defensivas já não se quebravam. E
assim elas se manteriam.

Caminhou até a rampa frontal da Fortaleza Brado Guerreiro, onde o Lorde


Supremo Razgor o esperava, com sangue de inseto ainda escorrendo da
espada.

– Já era hora de você aparecer! – comentou Razgor, limpando o suor do


rosto. Garrosh gargalhou.

– Nunca perco uma oportunidade de esmagar algumas baratas


superdesenvolvidas – respondeu o Lorde Supremo. Razgor sorriu de volta.

– O Chefe Guerreiro Thrall veio me acompanhando desde Dalaran, –


continuou Garrosh, – para inspecionar a nossa fortaleza em Nortúndria. –
Enquanto ele falava, Thrall surgiu na rampa atrás de Garrosh.
Os olhos de Razgor se arregalaram, e ele assentiu com a cabeça. Depois, se
virou para os soldados ao redor.

– Vamos dar as boas vindas ao Lorde Supremo Grito Infernal, que retornou
hoje! – anunciou ele. Os soldados gritaram e brandiram suas armas. – E
vamos dar as boas vindas, – continuou ele, num tom ainda mais alto, – ao
nosso Chefe Guerreiro! Thrall, filho de Durotan! – O grupo se virou
praticamente em um movimento simultâneo e fez reverência, todos os olhos
humildemente voltados para Thrall. Razgor deu um passo à frente e fez uma
reverência também.

– Sua presença aqui na Fortaleza Brado Guerreiro é uma honra para nós,
Chefe Guerreiro. – disse Razgor. Os olhos de Thrall inspecionaram as
grandes muralhas de pedra da fortaleza, os baluartes de ferro e a escavação
da pedreira, onde eles haviam acabado de lutar. Por fim, seus olhos pararam
em Garrosh, que o olhava de volta.

– Isso me lembra Orgrimmar, – disse Thrall. – Impressionante.

– A parte interna é ainda melhor, – respondeu Garrosh. – Você vai ver.

– Tenho certeza de que não ficarei desapontado, – respondeu Thrall. Garrosh


rangeu os dentes ao ouvir essas exatas palavras.

Orgrimmar. Da primeira vez em que a viu, ele quase perdeu o fôlego. Foi logo
depois de eles terem deixado para trás a Garganta do Vento Cortante,
emergindo de suas paredes rochosas sob o sol impiedoso de Durotar. Diante
deles, a vastidão vermelha se estendia sem fim, enquanto o calor que
emanava da terra distorcia o horizonte. Era muito diferente das colinas
verdejantes de Nagrand.

– Lá está ela! Consegue ver? – Thrall parou sua montaria e apontou para o
horizonte ao norte. Garrosh parou ao lado dele e apertou os olhos. Atrás dos
dois, seus seguidores pararam e esperaram.

Ao longe, ele conseguiu enxergar um grande portão, uma muralha de


grandes toras afiadas, torres com telhados vermelhos... Não, os olhos dele
deviam estar lhe pregando uma peça. Ele se deu conta, surpreso. Orgrimmar
não poderia ser tão grande. Olhou para Thrall, que lhe encarava de volta
intensamente, com um sorriso de orgulho no rosto. Ele claramente esperava
ansioso pela reação de Garrosh. O rosto do orc ardeu. Garadar podia não ser
uma aldeia particularmente imponente, mas ele era o chefe tribal. Ele era filho
de seu pai.

– Impressionante, – grunhiu ele. – Se for tão grande quanto parece.

Thrall gargalhou. – Espere só, – disse sorrindo.

Os portões não eram simplesmente grandes. Eles eram enormes. Os guardas


fizeram saudações elaboradas ao vê-los passarem, reconhecendo o chefe
guerreiro. Garrosh manteve seus olhos focado à frente e endireitou os
ombros. De repente, sua garganta ficou seca. A poeira, é claro.

Thrall havia enchido sua cabeça com imagens da cidade durante suas
semanas de viagem. Garrosh pensou saber mais ou menos o que esperar.
Mas estava errado. Nada, nem toda a conversa do mundo poderia tê-lo
preparado para esta visão. Construções se erguiam à sua frente, com dois e
três andares de altura, suas fachadas desaparecendo em becos e ruas
sombreadas por árvores e paredes de pedra. Se algum povoado orc deste
tamanho já existiu em Draenor, havia sido abandonado há muito tempo.
Orgrimmar, no entanto, fervilhava com vida. Na praça onde eles estavam
havia dúzias e mais dúzias de orcs. Mais orcs juntos do que ele vira em anos,
mais do que ele imaginava que ainda vivessem. Era uma visão para a qual
ele nunca poderia ter se preparado.

Quando Garrosh era apenas uma criança, os clãs se juntaram para formar a
Horda e passaram meses em fervor, se preparando para aquela que ficaria
conhecida como a Primeira Guerra. Anos depois, após a Segunda Guerra, a
Aliança decidiu invadir a terra natal dos orcs, e Garrosh implorou para se
juntar aos defensores da Horda e lutar ao lado de seu pai. Mas a chance
passou e ele ficou confinado, em quarentena em Garadar por causa da
varicela vermelha, quase incapaz de caminhar, ardendo em febre e com a
vergonha de sua fraqueza. Seu pai havia ido para Azeroth sem sequer olhar
para trás, e nunca mais voltou para Garadar e o filho. E ele, Garrosh Grito
Infernal, herdeiro do clã Brado Guerreiro, não tinha tido força suficiente para
proteger seu povo. A Horda o rejeitou. Ele até poderia ser Mag’har,
incorrupto, mas também era indesejado.

A Horda havia sido derrotada, no fim das contas. Os humanos destruíram o


Portal Negro e aprisionaram os orcs vencidos. As guerras finalmente
chegaram ao fim. Os Mag’har estavam completamente sozinhos. Alguns orcs
da Horda sobreviveram, certamente, mas sempre evitaram Garadar, com
medo e desprezo por seus habitantes doentes. A epidemia já havia
terminado, mas a superstição e a amargura demorariam a passar. Os orcs se
tornaram um povo diminuto, fragmentado e sempre lutando pela própria
sobrevivência. Por fim, ficou claro que a Horda estava mesmo acabada e
seus inimigos haviam pressionado até que as últimas esperanças de
sobrevivência se apagassem.

Mas aqui, em Orgrimmar, a Horda não apenas sobreviveu. Ela prosperou. As


praças estavam cheias de orcs. Vendedores negociavam seus produtos,
atraindo clientes em potencial com descontos. Crianças corriam por entre as
barracas, encenando batalhas contra inimigos invisíveis. Brutos patrulhavam
as ruas. Garrosh mal podia acreditar no que estava vendo.

Ao lado dele, Thrall gargalhou. Garrosh olhou para ele.

– É uma bela visão –, comentou Thrall.

Garrosh concordou com a cabeça, mas não falou nada.

– Você vai conhecer isso tudo, Garrosh, – continuou ele, com um sorriso
amplo. – Bem-vindo a Orgrimmar!

Na Fortaleza Brado Guerreiro, eles caminharam pelas muralhas, subiram nas


torres e inspecionaram forjas e courarias. Ao voltarem para o Salão Principal,
Thrall passou muito tempo examinando o grande mapa tático de Nortúndria,
aberto no chão. Cuidadosamente desenhado em várias peças de couro
costuradas, ele detalhava todas as fortalezas e frontes de batalha em
Nortúndria, tanto dos aliados quanto dos inimigos. Garrosh percebeu como
Thrall olhou fixamente para a península dos Picos Tempestuosos ao norte,
onde ficava Ulduar. A mente dele voltou rapidamente para o breve encontro
que tiveram com o Kirin Tor em Dalaran. Você me desaponta. Ele fechou as
mão com força até seus punhos arderem.

– Onde – disse Thrall subitamente – fica a frente de batalha da Coroa de


Gelo? – Ele estudou o mapa. Havia apenas uma marcação de giz.

– Na parte sudeste, – respondeu Garrosh, – que é controlada pela Cruzada


Argêntea. – Depois, ele apontou para outra posição marcada no mapa, ao
norte dos domínios da Cruzada. – O Martelo de Orgrim foi enviado para cá.
Nós vamos preparar nosso ataque às muralhas da Coroa de Gelo pelo ar. –
Ele olhou para Thrall. – Nossos batedores informaram que a Aliança pretende
fazer o mesmo.
Antes que Thrall pudesse responder, outra voz ecoou no salão.

– O ataque já começou. – Os dois se viraram para olhar o interlocutor.

O Lorde Supremo Varok Saurfang trazia um pergaminho lacrado nas mãos foi
até eles.

– Esta carta chegou hoje à tarde. – continuou – Ela traz o selo pessoal de
Krom Escaranegra.

– Throm-ka, Varok. – cumprimentou Thrall.

– Throm-ka, Chefe Guerreiro. – ele respondeu.

– Nós viemos de Dalaran passando pelo Martelo de Agmar, – contou Thrall,


parando por um momento. – Prestamos nossas homenagens no Portão da
Ira.

Varok permaneceu em silêncio

– Eu sinto muito por Dranosh. – continuou Thrall.

– Meu filho morreu com honra, defendendo seu povo. – Varok respondeu
rapidamente. – O espírito dele será vingado quando derrotarmos o Lich Rei.

Thrall assentiu.

– Aqui está a mensagem de Escaranegra. – continuou Varok, voltando a


atenção para o pergaminho. – Vamos ver quais são as notícias do fronte.

Garrosh amava Orgrimmar. Amava caminhar pelas ruas, visitar os mercados,


os estábulos, os ringues de treinamento, os ferreiros e as lojas. Acima de
tudo, ele amava as bandeiras que tremulavam ao vento, no alto dos mastros
espalhados pela cidade: os estandartes rubro-negros da Horda. Ele sabia que
o lugar dele era sob essas bandeiras. Ele servia à Horda, assim como seu pai
havia servido.

Anda assim, se sentia muito sozinho, apesar de estar cercado pelo seu povo.
Aonde quer que fosse, as pessoas olhavam diferente para ele. As notícias
correram rápido sobre o filho de Grom Grito Infernal que estava vivo e estava
em Orgrimmar. A princípio, ele pensou que esta fosse a razão. Porém, certo
dia, ouviu uma criança falando alto com sua mãe.

– Olha lá, mãe! Ele é tão esquisito!


– Shhhi! Fique quieto!

– Mas olha a pele dele! Não é verde como a nossa! Que tipo de orc não tem a
pele verde?

Garrosh virou-se para a criança que estava falando. Ele ainda o olhava, com
olhos de espanto, chupando um dos dedos. Garrosh olhou firmemente de
volta e percebeu brevemente o olhar da mãe. Ela virou para o outro lado e
pegou a mão de seu filho, indo embora rapidamente. Lentamente, Garrosh
passou os olhos pela rua, desafiando silenciosamente qualquer um que
tivesse ouvido (a rua estava lotada) a dizer mais alguma coisa. “Não, minha
pele não é verde. É marrom”, diziam os olhos dele. “Eu sou um dos Mag’har”.
Quando ficou satisfeito, depois de intimidar todos os observadores, virou-se e
seguiu seu caminho. Havia dado apenas alguns passos quando uma mão
leve em seu braço o parou.

Garrosh se virou, surpreso.

– Perdoe-me, meu jovem, mas eu posso explicar.

Quem falou foi um orc ancião, com cabelos prateados pela idade, mas
orgulhosamente presos em uma trança. As múltiplas cicatrizes em seu rosto e
em seus braços deixavam claro que ele era um guerreiro experiente. Garrosh
o encarou com raiva.

– O que você tem a dizer, ancião?

– A criança falou a verdade, mas ainda não é capaz de entender. – O velho


orc balançou a cabeça.

Garrosh soltou-se da pegada do velho. – Eu não estou interessado na sua


explicação – disse ele, virando-se mais uma vez para ir embora.

– Eu lutei ao lado de seu pai, Grito Infernal, – falou o velho guerreiro. Garrosh
parou. – Eu o segui do saque de Shattrath até as florestas do Vale Gris. Eu
bebi o sangue de Mannoroth ao lado dele e senti a maldição ser quebrada
após seu sacrifício.

– Você não imagina o que significa para nós ver você. Depois do fim da
maldição, nós ficamos livres para lembrar tudo o que tínhamos deixado para
trás e tudo que havíamos destruído. Pensamos que não houvesse mais nada
daquilo que fomos um dia. Ver você... – os olhos do velho se encheram de
lágrimas ele olhou Garrosh de cima a baixo. – Saber que nosso passado não
foi completamente destruído... e que há esperança para o futuro.

– Grom foi um grande guerreiro. Eu o segui até o fim de Draenor e além.


Hoje, eu não tenho mais forças para levantar armas. Mas se tivesse, seguiria
você igualmente.

Garrosh não poderia ter ficado mais desnorteado. Ele olhou para o velho
guerreiro, sem palavras. Sabia que Thrall havia sido um amigo próximo de
seu pai, e ele havia falado muito sobre Grom. Mas Thrall não conheceu Grom
por muito tempo e havia muito que Garrosh gostaria de saber, apesar de ser
orgulhoso demais para admitir. Ele queria conhecer as histórias... As boas
histórias. Já que conhecia todas as histórias ruins desde criança.

– Você trará muito orgulho ao seu povo, Grito Infernal. – disse o velho orc.
Por fim, ele se virou e foi embora, deixando Garrosh sozinho naquela rua,
com muitos pensamentos se desenrolando em sua mente. Ele já não
lembrava o que ele tinha ido fazer. Levantou a cabeça, escolheu uma direção
e começou a caminhar. Era melhor do que ficar parado.

Seus pés o levaram à parte leste da cidade, o Vale da Honra, a um pequeno


lago onde as águas de uma nascente se acumulavam. Sentou-se em uma
pedra à beira d’água e ficou observando a torrente. O fluxo constante da água
e a sombra do penhasco refrescavam o ar e concediam uma trégua
bem-vinda do calor do deserto. A água borrifava em sua pele, dando uma
sensação de alívio.

Sua pele. Ele olhou suas mãos e percebeu o contraste da coloração marrom
contra a pedra manchada vermelha. Fechou o rosto. Os orcs da Horda de
Thrall realmente não se lembram de onde vieram? A aparência dele
realmente significava tanto?

Um barulho próximo chamou sua atenção. Uma jovem orquisa estava


puxando uma tarrafa. Ele olhou-a trabalhar sem se dar conta. A pele dela, é
claro, era verde. Ela se virou para voltar à margem e os olhos dos dois se
encontraram. Um tapa-olho cobria seu olho direito. Para surpresa dele, ela o
olhou zangada.

– É engraçado, não é? – falou ela, cheia de desprezo. – Ficar aí sentado me


vendo lutar com os peixes? Espero que tenha se divertido.
Garrosh respondeu rudemente. – Eu não dou a mínima para o que você faz.
Pesque se quiser. Ou compre peixes no mercado, se não gosta do trabalho.

– Comprar? – Ela gargalhou alto – Você vai pagar por eles? É fácil pra você
dizer isso, Grito Infernal! Sim, eu sei quem você é.

Ele gargalhou de volta para ela. – É claro que sabe. Eu sou o único Mag’har
em Orgrimmar. Se você não soubesse, eu diria que está cega do outro olho
também.

– Arrogante como o seu pai. – Ela começou a guardar sua rede e seus
pertences numa bolsa de lona. – Você é um tolo, assim como ele.

Essas palavras fizeram o sangue dele ferver. Saltou da pedra onde estava e
caminhou até ela. – Meu pai deu a vida por você e pelo resto do povo de
Thrall. Graças a ele vocês estão livres da maldição do sangue!

– Graças a ele nós fomos amaldiçoados, em primeiro lugar! – respondeu ela.


– E eu não sou parte do povo do seu Chefe Guerreiro! Eu sou uma filha da
Horda, assim como meus pais foram, mas meu dever não vai além disso!

Garrosh ficou furioso. – Você diz que não tem dever? Diz que não faz parte
do povo do Chefe Guerreiro? Mesmo estando aqui nesta cidade? Onde você
pode viver sem ter medo de ser aniquilada? Onde tem tudo que precisa?

– Há! – ela riu. – Deixe-me lhe perguntar uma coisa, Grito Infernal. Você já
olhou bem para esta cidade? Sim, os mercados abundam. Mas já se
perguntou de onde vem isso tudo? Onde estão as fazendas de Durotar?

Garrosh espremeu os olhos. Ele sabia que havia algumas nos arredores de
Orgrimmar, mas a maioria criava porcos e certamente não plantavam nada.

– Exatamente! – continuou ela. – Não existem. Tudo o que temos é trazido de


quilômetros de distância. – olhou para a bolsa de pesca. – Ou o que
conseguimos arrancar do deserto. Quanto à segurança, – gargalhou. – A
Aliança penetra mais em nossas terras a cada dia. Se é que pode se chamar
esta pedra vermelha de “terra”! Ao norte, fica a Floresta do Vale Gris, cheia
de tudo que nós poderíamos precisar para viver, mas nós vivemos lá? Não!
Vivemos neste deserto! Então me diga, Grito Infernal, por que o nosso bom
Chefe Guerreiro, que ama tanto seu povo, nos condena a viver nesta terra
desolada enquanto rio à cima existe uma terra tão mais fértil? Ou ele é
corrupto ou é incompetente. Ou os dois! E você parece ser igual!
Esta foi a última gota.

– Traidora! – rugiu Garrosh. Deu um passo à frente ameaçadoramente.


–Você ousa insultar o Chefe Guerreiro? Cale essa sua boca, sua traidora, ou
eu mesmo a calarei!

– Vamos, vá em frente e... – Começou ela a falar, fechando os punhos e se


preparando para o golpe.

– Não! Krenna! – Uma nova voz gritou. Garrosh olhou. Uma outra orquisa
corria na direção deles.

– Krenna, controle a sua língua! – continuou ela, colocando-se entre os dois.

A que usava o tapa-olho, Krenna, olhou para a outra que falava com ela e
baixou a guarda, com raiva.

– Então eu vou embora, Gorgonna. – disse ela, colocando a sacola no ombro


e partindo, sem dizer mais nenhuma palavra. Garrosh fez menção de
segui-la, mas Gorgonna segurou o braço dele imediatamente.

– Por favor, espere – falou ela. – Sinto muito pela minha irmã. Ela não quis
dizer tudo o que disse!

– É melhor que não mesmo,– Garrosh esbravejou. Gorgonna suspirou e


largou o braço dele.

– Nós duas passamos a infância em campos de prisioneiros depois da


Segunda Guerra. Ela é grata por termos sido libertadas pelo Chefe Guerreiro,
mas... – ela hesitou e continuou quietamente. – Ela acha que ele não se
esforça o suficiente.

– E você? – perguntou Garrosh. Gorgonna olhou para o caminho pelo qual


Krenna havia ido e falou, depois de uma pausa.

– Nossos pais lutaram nas guerras – recomeçou, vagarosamente. – Eles


beberam o sangue de Mannoroth, junto com seu pai, e partilharam a
maldição. Fizeram coisas terríveis em nome da Horda. Atacaram e
assassinaram inocentes.

Garrosh se irritou. Seu pai não era um assassino. – Eles fizeram o que
achavam necessário. Você desonra o nome da sua própria família?
– Não, não me entenda mal! Eu honro a memória dos meus pais! – gritou ela.
– Mas aquilo em eles que acreditavam estava errado. No que todos os orcs
acreditavam estava errado. E nós devemos sofrer por isso. O chefe guerreiro
entende isso, assim como eu. Mas minha irmã não.

– Isso é ridículo. Vocês nem lutaram nas guerras! Eram apenas crianças nos
campos de escravos! Não é punição suficiente? Por que deveriam sofrer
mais?

– Ainda assim, eu trago a marca. – disse ela, levantando suas mãos, verdes
como as de sua irmã e de todos os orcs de Orgrimmar, exceto ele. – Eu colho
o que eles plantaram. Ainda temos que pagar.

– E quem diz o preço? – perguntou Garrosh. A atitude dela o irritava. Será


que ela não tinha orgulho? – Quem poderia ter o direito de tomar essa
decisão?

– Eu pagarei enquanto o Chefe Guerreiro mandar. – respondeu ela.

– Thrall nunca seria tão injusto. Nós não devemos nada a ninguém.

Gorgonna olhou para ele por um momento. Depois, gargalhou amargamente


como sua irmão havia feito antes. – É claro que não, – disse ela. – Você não
deve nada a ninguém, Mag’har. Mas nós não somos você.

– Isso é um ultraje! – bradou Thrall. Ele andou para cima e para baixo
inquieto. – Eu não posso acreditar que o Exterminador dos Céus tenha
concordado com uma coisa dessas.

Varok sentou-se à mesa, com as páginas da mensagem de Escaranegra


abertas à sua frente. Do outro lado da sala, Garrosh pegava algumas
estatuetas de madeira pintadas de azul representando a Aliança, algumas
pintadas de vermelho representando a Horda e algumas pintadas como
caveiras, representando o Flagelo. Colocou-as sobre o mapa da Coroa de
Gelo, ao sul de Mord’rethar, o Portão da Morte da Cidadela da Coroa de
Gelo. Com um pedaço de carvão, ele desenhou um grande X no mapa de
couro. A mensagem havia dado um nome para a região: o Fronte Partido.

A Aliança tentou conquistar Mord’rethar, mas a patrulha da Horda havia visto


o regimento e foi bem-sucedida ao impedir a ação... atacando-os por trás.
Encurraladas com o Flagelo pela frente e a Horda por trás, as forças da
Aliança pereceram, assim como as da Horda. O Flagelo perdeu parte das
forças também, mas o portão permaneceu sob controle do Lich Rei.

As forças de Escaranegra esperaram deliberadamente até que as forças da


Aliança estivessem engajadas em combate para aniquilá-las. O rosto de
Thrall se contorceu ao ler as palavras do Exterminador dos Céus: Apesar de
nos ter custado muitas vidas, a bravura de nossos soldados impediu que a
Aliança capturasse o ponto estratégico. Tal coragem é digna dos verdadeiros
soldados da Horda!

– Bravura. Coragem digna da horda. – Thrall praticamente cuspiu as palavras


com nojo. – E o Flagelo continua controlando o Portão da Morte. É isso que
ele quer? É isso que nós chamamos de glória agora?

Garrosh se manteve estranhamente quieto, olhando fixamente para as peças


de madeira no mapa. Ele podia sentir os olhos de Varok cravados em suas
costas e Thrall logo se enfureceria com ele também. Era importante que a
Aliança não controlasse Mord’rethar, tinha certeza disso. Mas ainda assim,
ele continuava a olha para os pequenos marcadores de madeira. Mais tarde,
de madrugada, quando todos já estavam dormindo, Garrosh leu a carta de
Escaranegra.

Tal coragem é digna dos verdadeiros soldados da Horda!

Ele chamou um mensageiro. – Encontre o Exterminador dos Céus Korm


Escaranegra, capitão do Martelo de Orgrim – disse ele, entregando um
pergaminho. – Ele deve retornar à Fortaleza Brado Guerreiro imediatamente.
Diga que o Lorde Supremo Grito Infernal quer vê-lo.

Garrosh pensou que tudo o que Gorgonna havia dito no lago era um absurdo.
Seu próprio pai foi o primeiro a beber o sangue de Mannoroth, ele sabia
disso, e muito bem. Ninguém jamais o deixaria esquecer. Mas Grom havia
matado Mannoroth e acabado com a maldição, dando a própria vida em
troca. Sua dívida foi paga com sangue. O que mais poderiam querer?

As palavras de Krenna é que realmente o incomodavam.

Elas o incomodavam quando os elfos noturnos emboscavam caravanas


vindas do Vale Gris.

Elas o incomodavam quando soldados da Bastilha Tiragarde saqueavam o


Monte Navalha.
Elas o incomodavam quando os anões de Bael Modan e os humanos da
Fortaleza da Guardanorte se recusavam a deixar o território da Horda que
haviam roubado.

E nenhuma dessas coisas estava acontecendo pela primeira vez.

Certamente houve retaliações e muitos dos postos avançados agiram


firmemente se defendendo. Garrosh desejava intensamente viajar e dar
suporte a eles. Lutaria de bom grado para protegê-los. Ensinaria a Aliança de
uma vez por todas a não se meter com eles, a deixá-los pegarem o que
precisavam para sobreviver. Diferente de Garadar, Orgrimmar tinha o poder e
o efetivo necessário para se defender.

Bem, ao menos teria. Se as forças órquicas não estivessem na Serraria


Tarren, ajudando os Renegados (um povo com um nome perfeito, na opinião
de Garrosh). O que Thrall via neles estava além de sua compreensão.

Ainda mais orcs haviam sido enviados para Quel’Thalas. As interações de


Garrosh com os elfos em Orgrimmar o faziam se perguntar por que a Horda
deveria se preocupar com eles, para começar. Não pareciam ter respeito
nenhum.

E haviam os trolls. Garrosh mal podia pensar no assunto. Vários recrutas fora
enviados para ajudá-los a recuperar suas terras ao sul e, por algum motivo,
todas as tentativas falharam. Aparentemente isso estava ocorrendo há anos.
Que tipo de povo não consegue matar um único mandingueiro? Seria
necessário mesmo uma invasão de larga escala (que significaria o
deslocamento de mais tropas órquicas) para retomar algumas míseras ilhas?

Quanto mais Garrosh pensava nisso tudo, mais seu ódio fervilhava. A cada
dia, as palavras de Krenna penetravam mais em sua consciência. A
impaciência de Garrosh crescia.

Foi então que os rumores começaram. Da Vila Catraca, chegaram os


rumores, através da Angra do Butim, que havia algo errado com o transporte
de grãos. As pessoas começaram a sussurrar. Os poucos Renegados que
tornaram Orgrimmar sua casa avisaram aos líderes da cidade. Estava
acontecendo novamente.

E eles não estavam errados.


Era uma época diferente de todas as que vieram antes. Aliados se tornavam
inimigos. A vida se transformava em morte, ou melhor, em não-vida. Não
poderia haver hesitação, nem piedade, nem trégua. Tratava-se da peste. Era
feitiçaria tão perversa que somente alguém como Gul’dan poderia ter
concebido. Porém, Gul’dan estava morto há muito tempo. Havia outro
orquestrando estas atrocidades, como Garrosh havia descoberto. Um
ex-príncipe da Aliança, que havia sido ingênuo demais, fraco demais e
estúpido demais para impedir que fosse manipulado pelo próprio mal. E
agora, trazia a morte para Orgrimmar.

Os machados de Garrosh golpearam inúmeras vezes, incansavelmente, em


defesa de Orgrimmar. Ele protegeria seu povo.

Então, subitamente, a ameaça cessou. A epidemia da peste terminou. Os


últimos infectados foram mortos. Mas esse não era o fim e Garrosh sabia
muito bem. Longe disso. O único recurso contra um inimigo tão atrevido era a
guerra, brutal e impiedosa. Ele ansiava por ela. Lideraria seus exércitos para
levar a justiça da Horda a seus inimigos. Só precisava esperar pelas ordens
de Thrall.

De todas as partes do mundo, chegavam notícias. A peste nos destroem e as


cidadelas voadoras profanam nossas terras com seus exércitos. Ainda assim,
você espera, Chefe Guerreiro. Você convoca reuniões guando deveria
convocar a guerra. Até mesmo esses... aliados... que você permitiu entrarem
na horda se reuniram aqui e a única ordem que tem para nós é para
esperarmos. Nós estamos esperando, Thrall. Você está hesitando.

– Mak’Gora!

O desafio foi lançado com uma mistura de frustração e ódio. Thrall não agiria.
Ele queria estudar a situação, queria fazer consultas à Aliança, com uma
mulher do próprio povo que criou o príncipe traidor. Garrosh não permitiria
que isso acontecesse.

– Você está me desafiando, garoto? – respondeu Thrall, com uma voz


mortalmente calma. – Eu não tenho tempo para isso... – Virou e o ignorou.

– Você se recusa? Por acaso o filho de Durotan é um covarde?

Isso chamou a atenção de Thrall. Ele se virou e Garrosh ficou contente ao ver
a fúria em seus olhos.
– Para dentro! – Rugiu Thrall, apontando para o Ringue dos Valorosos.
Garrosh poderia ter cantado de felicidade.

Eu o farei agir.

Ao pensar no passado, Garrosh sabia que havia tido muita sorte pelo duelo
ter sido interrompido, apesar de preferir morrer a admitir isso. Não fazia
diferença. Thrall finalmente havia recobrado o juízo e dado a ordem para que
os exércitos marchassem rumo à Nortúndria, uma ordem que Garrosh acatou
com fervor.

Agora lá estava ele, no salão da cidadela que ele mesmo havia construído, na
terra que ele havia conquistado, aguardando a chegada de Korm
Escaranegra. Thrall havia permanecido em Nortúndria. Garrosh tinha certeza
de que ele queria vê-lo lidar com o Exterminador dos Céus.

Será que você ficará desapontado outra vez, Chefe Guerreiro?

Escaranegra entrou pelo portão, surpreso por sua audiência. Apesar da


presença do Chefe Guerreiro, ele de dirigiu a Garrosh. – Você solicitou o meu
retorno à Fortaleza Brado Guerreiro, Lorde Supremo. Eu honrei o seu pedido.

Garrosh segurou o relatório sobre o Front Partido. – Nesta carta você detalha
como uma de suas patrulhas impediu que a Aliança dominasse um ponto
estratégico na luta contra o Flagelo.

Escaranegra abriu um grande sorriso. – Eles fizeram um ótimo trabalho! Não


foi glorioso?

Garrosh olhou para a carta e depois para Escaranegra. – Não.

Os olhos de Escaranegra se abriram em surpresa.

– Uma emboscada contra tropas preparadas para lutar é uma coisa. Mas
atacar pelo flanco um regimento engajado em outra batalha? Qual seria o seu
próximo passo? – perguntou Garrosh. – Entrar escondido no acampamento
deles e envenenaria a água? Escravizar um dos comandantes deles com
magia e forçá-lo a assassinar as próprias tropas enquanto dormiam? Jogaria
doença nos seus inimigos como os Renegados? Lutaria como eles lutam?

Escaranegra gaguejou, sem palavras.


– Não existe combate senão o combate honrado, Escaranegra. – Garrosh
levantou a carta em frente ao rosto dele e amassou enfurecido. – Isso? Isso é
trabalho de covarde! E eu não admito covardes em minhas tropas!

– Lorde Supremo, – gaguejou Escaranegra, – se eu trouxe vergonha para a


nossa causa, deixarei o meu posto.

– Então você admite ser um covarde? Vou falar mais uma vez, não admito
covardes entre as minhas tropas. Prove que você não é covarde,
Escaranegra. Volte para o Martelo de Orgrim e lidere seus homens de uma
maneira digna da honra da Horda. Se falhar, não vou querer a sua dispensa.
Vou querer a sua cabeça em uma estaca. Agora suma da minha frente.

Garrosh sequer esperou Escaranegra sair. Saiu do salão principal e subiu as


escadas para o topo de um dos baluartes da fortaleza. De lá, ele examinou as
defesas e reparou o que precisava ser reparado e quem era o responsável
por cada falha.

Virou-se para percorrer a muralha e continuar seu processo e encontrou


Thrall em seu caminho. – Pois não, Chefe Guerreiro?

Thrall o observou, pensativo. Garrosh não gostou da expressão no rosto dele.

– Eu acho que você lidou com Escaranegra muito bem – disse Thrall. – As
ações de seus soldados no Front Partido foram irresponsáveis, mas ele é um
comandante forte. Nossos avanços contra a Coroa de Gelo teriam sofrido
com a perda dele. Você tomou a decisão certa.

Garrosh passou por ele. – Ele só terá mais uma chance. Não aceitarei
enganadores desleais em minhas tropas, – respondeu ele.

– De fato, – Thrall falou, seguindo-o. – Eu lembro bem de alguém ter me dito


no topo da Torre Violeta, há algumas semanas, que um verdadeiro Chefe
Guerreiro nunca se associaria a covardes.

Garrosh parou subitamente e se virou. Ouvir Thrall repetindo suas próprias


palavras o deixou incomodado. – Eu não sou o Chefe Guerreiro. – respondeu
ele, após um momento de silêncio.

Thrall deu uma risada. – Eu sei. Mas ainda assim são palavras verdadeiras,
que cabem perfeitamente para um Lorde Supremo. – Thrall olhou ao redor,
observando a Fortaleza, o mar cinzento a oeste e a vasta planície de tudra ao
redor deles. – Este não é um feito qualquer, Garrosh. Nossa fortaleza está
segura e o front na Coroa de Gelo continua pressionando. Você luta ao lado
de seus soldados com coragem e eles respeitam você. Você deve ter
orgulho.

Garrosh apertou os olhos.

– Nem por um momento me arrependo da minha escolha para o comando


desta ofensiva, – disse Thrall.

Garrosh piscou surpreso, incerto do que dizer. A reação era inesperada. Ele
foi de um pé para o outro, desconfortável com os elogios de Thrall, mas não
desgostoso. – Eu sirvo à Horda. – Garrosh disse depois do silêncio. – Farei
sempre o que for melhor para ela.

– Eu não divido disso, – respondeu Thrall. – E tenho orgulho de dizer que o


faz muito bem.

Garrosh se moveu novamente e olhou para a muranha além de Thrall. O


estandarte vermelho da Horda flamulava com uma brisa leve.

– No entanto, – continuou Thrall, – Creio que a sua atitude para com a


Aliança esteja completamente errada. Nós não conseguiremos vencer esta
guerra sem eles.

Garrosh olhou de volta nos olhos de Thrall. – Meu dever é com a Horda, e só
com ela.

– Talvez seja, Garrosh, – disse Thrall, – mas o derramamento de sangue não


é o único modo de cumprir o seu dever.

– Bah!

Garrosh se virou e colocou as duas mãos no parapeito. Pôde ouvir os passos


de Thrall se afastando atrás dele, descendo as escadas. Olhou para o céu
nublado. Thrall não compreendia que a Aliança nunca os deixaria em paz.
Eles os empurrariam para os cantos, como os inimigos dos orcs em Garadar,
até que a Horda fosse destruída. A única defesa contra isso seria lutar,
expulsar os humanos primeiro. A segurança dos orcs vinha acima de tudo. E
não haveria trégua até que a Aliança entendesse isso. Garrosh não pararia. O
povo dele nunca mais correria risco de desaparecer. A Horda nunca cairia.

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