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As implicações ético-políticas que a revolução tecnocientífica- advinda da convergência

entre manotecnologia, neurobiologia, genômica e tecnologias da informação... (7)

como um esforço em “compreender o essencial ali onde ele não se deixa destilar numa
operação automática”, pois é preciso “romper com uma lógica que se limita a encobrir o
particular na teia do geral, ou que só abstrai o geral do particular”. (8)

como nos sugere o filósofo Maurice Merleau-Ponty, um método que permite “pensar ao
mesmo tempo a exterioridade, que é o princípio mesmo das ciências do homem, e a
interioridade, que é condição da filosofia, as contingências sem as quais não existe
situação e a certeza racional sem a qual não existe”. mutações: ensaios sobre as novas
configurações do mundo e A condição humana: as aventuras do homem em tempos de
mutações constituem, então, uma só obra, um incontornável desejo de recolher e
analisar as experiência de um mundo incerto e provocante. (9-10)

Essa visão é muito próxima de que conclui Heidegger sobre a relação entre ciência e
pensamento: Esta frase ‘A ciência não pensa’, que provocou tanto barulho quando a
pronunciei em uma conferência em Friburgo, significa: a ciência não se move na
dimensão da filosofia.

Não posso dizer, por exemplo, com os métodos da física o que é a física. Não posso
pensar o que é a física à maneira de uma interrogação filosófica. (10)

O rigor mecânico do tecnocientífico ganha todos os domínios da vida. Ou seja, não


refletimos ou não pensamos o que acontece.

Pensar é dizer não, ensina Alain. (11)

Em todos eles e em mim mesmo faço soar o humano, escuto o passo do homem. A
linguagem comum designa como o belo nome de humanidades esta procura do
homem...

A civilização tecnocrática vive do aqui e agora, do tempo veloz e volátil e do


esquecimento e do passado e do futuro. Sem memória, portanto, sem fazer reviver a
imortalidade dos grandes mortos, não se cria sociedade. Alain nos diz ainda: o homem
pensa a humanidade ou não pensa em nada: suponhamos que ele esqueça essas grandes
lembranças, esses poemas, e que se limite ao seu ofício, e eis que surge o animal, como
o fazem as moscas. O espírito sente-se um estrangeiro neste mundo. (12)

De novos seres criados em laboratórios, os cyborgs, os híbridos, biotrônicos, a


inteligência equipara à inteligência dos humanos, em síntese, diante dos transumanos?
Quer dizer ainda da biologia sintética, que pretende criar vida artificial, da
convergência das nanotecnologias, das técnicas da informação e das ciências
cognitivas?
“Mudar o funcionamento de órgãos, prolongar a vida por meios artificiais, confundi o
corpo humano com suas extensões mecânicas são feitos tão banais que nem mesmo
sabemos que ao usar a palavra humano ainda nos referimos a uma realidade
reconhecível por meio de nossos instrumentos conceituais.” (13)

“não a construção de conceitos através das quais tentaríamos tornar menos sensível
nossos paradoxos”. (14)

cada indivíduo na ordem natural; aplicação da ideia de que a política é uma autentica
criação humana. O humano é, enfim, esse elo entre ordem natural e a ordem política, ou
entre o “estado de natureza” e o “contra social”, como queriam os filósofos do século
XVII.

reverência religiosa à mercadoria...

Qual o lugar do homem na nova configuração do mundo, estruturada em uma


cosmologia relativista e uma microfísica quântica “que delineia uma matéria
dessubstancializada, elusiva e eivada de indeterminação, configurando-se uma realidade
não “objetiva”, fundamentalmente incerta”, como escreveu o físico-filósofo Luiz
Alberto Oliveira?

a hipercomputação, a biotecnologia e a neurociência. Percepções de espaço e tempo são


alteradas da mesma maneira que o próprio corpo. (17)

difícil quando sabemos que predomina ainda a herança positivista de uma história
linear. Wittgenstein nos alerta contra essa visão determinista da história: “Quando
sonhamos o futuro do mudo, temos sempre em mente o lugar onde ele se encontrará se
ele continuar sua trajetória como o vemos fazer agora, e não conseguimos pensar que a
trajetória não é reta, mas feita de curvas, e que sua direção muda constantemente”. Ou
seja, é preciso pensar no caso e no imprevisível.

momento que saímos de nós para entrar em nós.

‘Que vontade anima uma vida de combates e vitórias? “Para compreendê-la”, continua
Nietzsche, “devemos partir do fato de que o gênio grego valorizou este instinto outrora
tão terrivelmente presente e considerou-o legítimo. (...) O combate e a alegria de vencer
foram legitimados: nada separa o mundo grego do nosso a não ser a coloração, que
deriva desta legitimação, de certas categorias morais, como a discórdia e a inveja.” (21)

hoje um domínio sem precedentes da ciência e da técnica e, ao mesmo tempo, um


predomínio da biotecnologia. (22)

de Maurice Merleau-Ponty: “O ser é o que exige de nós criação para que dele tenhamos
experiência.” O humano e experiência andam juntos.

“viagem e aventura para fora de si, inspeção da exterioridade”


Experiência é permanentemente iniciação aos mistérios do mundo: “E a experiência que
nos dirigimos para que nos abra ao que não somos nós.”

a relação do homem com o mundo que está em questão...

a crítica da civilização dominada pela ciência e técnica...

Bouveresse interpreta o pensamento de Heidegger como uma crítica a uma aliança da


metafísica, da ciência e da técnica, que ameaça ser fatal para a humanidade, “uma vez
que a técnica, no fundo, não é outra coisa senão a metafísica realizada, acabada”.

na medida em que ele se afasta cada vez em relação à manifestação do Ser entre os
gregos- até que o Ser se torne uma simples objetividade para a ciência e hoje um
simples fundo de reserva para a dominação técnica do mundo. Em termos sartrianos,
pode ser dizer que a técnica- ou um “conjunto de receitas”- precede a própria existência.

A análise de Paul Valéry caminha em outro sentido, mas tende a chegar às mesmas
conclusões de Heidegger. No ensaio Une conquete méthodic (Uma conquista metódica)
ele adverte para dois perigos que “não cessam de ameaçar o mundo: a ordem e a
desordem”, que são, exatamente os objetos do trabalho do espírito. (28)

A técnica, cujos progressos invadem o planeta; as massas, as velocidades, as


intensidades fora de qualquer proporção humana; a extensão, a frequência e a
complicação das trocas de todo gênero, que fazem do globo um corpo sem nervura,
tremendo ao mínimo choque em uma de suas partes; distanciamento cada vez maior
entre as forças opostas a serviço do homem e as inteligências que as comandam (...)
Este mal-estar é acrescido da consideração de que uma espécie que soube modificar tão
profundamente seu meio vital foi incapaz de organizar de maneira racional as relações
entre seus membros. Enquanto a precisão científica entrou, pouco a pouco, no comércio
do homem com a natureza, ‘as relações do homem com o homem permaneceram
dominadas por um empirismo detestável.

a civilização está prestes a se destruir por seus próprios meios. A ordem absoluta que o
espírito ao mundo vota-se pois para sua perda- a volta à desordem. (29)

Esse movimento se realiza em diversos tempos; tempo entendido no sentido não


estritamente cronológico, uma vez que os movimentos do espírito não se situam em um
contínuo linear de sentido único. (30)

Essa forma do mundo dada pela ciência e pelos conhecimentos científicos desvaloriza,
de alguma maneira, toda nossa experiência vivida: a natureza das coisas e do homem
passa a ser definida e dada não pela experiência humana e pelos sentidos, mas pela
tecnociência. Ou melhor, nossos sentidos são pensados como coisas ilusórias, aparentes
e irracionais. A razão passa a ser coisa de saber metódico dos cientistas. Enfim, o
mundo verdadeiro “não são essas luzes, essas cores, esse espetáculo sensorial que meus
olhos me fornecem, o mundo são ondas e os corpúsculos dos quais a ciência me fala e
que ela encontra por trás dessas fantasias sensíveis”, conclui Merleau- Ponty.
o que ele questiona é a ideia de uma ciência como representação do mundo que se basta,
“sem que tenhamos mais nenhuma questão válida a pôr além dela.

a ideia de que a vida humana é fundada em uma mobilidade permanente...

a cada momento, uma grande imaginação, o que pede o trabalho da percepção muito
além do saber metódico da ciência.

Humano é ainda aquele que é capaz de criar linguagens e, portanto, criar o mundo. (31)

“constatar que a última pergunta é angustiante: até que ponto da inteligência é relevante
no Universo?”

ideia da morte do sujeito, na crise da subjetividade. (33)

uma história, sobre um fundo já começado, acerca de horizonte de uma história possível
ele não cessa de se interrogar, num movimento incessante de recuo e retorno dessa
origem. (290)

identidade e diferenças, na rede que interliga uns aos outros os jogos de verdade e o
efeitos de poder.

modalidades diversas da produção do “humano” pelo caminho instrumental da


objetificação e mesmo reificação de sua condição, alguém se proponha a retomar a
antiga prática ascética do cuidado de si, vendo na ética uma alternativa plausível para
nosso anseio permanente de uma “vida boa”...

produção da subjetividade por meio das ciências e das tecnologias sociopolíticas.

“o que é esclarecimento?”

“biopolítica” para designar o que faz ingressar a vida e seus mecanismos no domínio
dos cálculos explícitos e faz do poder-saber um agente de transformação da vida
humana... (292)

o que era para Aristóteles: um animal vivente e, além disso, capaz de uma existência
política; o homem moderno é um animal em cuja política está em questão sua vida de
ser vivente.

que é sempre a vida e o corpo que se colocam como a pressa do poder na sociedade
europeia desse período. (293)

O biopoder não normaliza, ele regulamenta, controla e gere a vida das populações. (294)

continuum de aparelhos(médicos, administrativos, etc.) cujas funções são sobretudo


reguladoras. Uma sociedade normalizadora é o efeito histórico de uma tecnologia do
poder centrado sobre a vida.

São formas que tornam aceitável um poder essencialmente normalizador.


Em relação a essa medida, definem-se limiares de aproximação de desvios, de
normalidade e anormalidade- normas, portanto, são critérios para se definir tipos de
subjetividade, para fixar identidades desejáveis e formações ou comportamentos
desviantes. (296)

introjeção individual da norma, da vigilância para fins de adestramento.

As disciplinas visam essencialmente a inserção de corpos úteis em sistemas eficientes


de controle.

o corpo massivo, global, da população, seus processos e ciclos vitais de conjunto...

Se o desenvolvimento dos grandes aparelhos de Estado, como instituições de poder,


assegurou a manutenção das relações de produção, os rudimentos da anátomo e da
biopolítica, inventadas no século XVIII como técnicas de poder, presentes em todos os
níveis do corpo social e utilizadas por instituições muito diversas (tanto a família como
o exército, a escola ou a política, a medicina individual ou a administração das
coletividades), agiram ao nível dos processos econômicos, de seus desdobramento, das
forças que ai estão em operação e os sustentam. (297)

O biopoder, todavia, é uma forma de “poder que tem por tarefa tomar a vida a seu
cargo, (ele) terá necessidade de mecanismos contínuos, reguladores e coletivos. Não se
trata mais de lançar a morte no campo da soberania, mas de distribuir o vivente em um
domínio de valor e de utilidade. Um tal poder tem que qualificar, medir, apreciar,
hierarquizar, antes do que se manifestar em seu brilho mortal.” (298)

Corremos na intenção de não perder nada e perdemos o essencial: o desfrute do próprio


caminho. A vida, no entanto, não é exatamente isso: Travessia? É o que dizem os versos
da bela canção de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira... (454)

Ao final, conclui que a transitoriedade não diminui o valor das coisas- ao contrário,
acrescenta-lhes valor. A delicadeza é possível justamente nas culturas em que a perda é
parte da vida. Ao contrário, os que nada admitem perder talvez desprezem tudo o que é
efêmero, frágil, transitório. (455)

somos arremessados para fora da totalidade, justamente porque nossa condição é o


desterro da totalidade, que somos impelidos a pensar, a perguntar, a buscar sempre uma
centelha de infinito no meio do finito.

Heidgger valoriza o tempo dilatado do tédio, ou do ócio, como condição do


pensamento. (456)

da criação poética, características humanas capazes de “vencer”, ou superar, a morte


corpórea. Perseu, por exemplo, usou sandálias aladas para cortar a cabeça de Medusa.
(459)

“filosofar é aprender a morrer” escreveu Montaigne. (460)


a velocidade dos primeiros bombardeiros aéreos da história, Benjamim estabelece uma
importância diferença entre experiências (Ehrfarung) e vivência (Ehrlebniz) para
explicar por que os soldados, cuja via psíquica ficaria limitada durante o período

da guerra à atividade de “aparar choques”, tinham ficado mais pobres, não mais ricos
em experiência. (462)

o que achamos propriamente de vida psíquica tem a ver com o trabalho das camadas
consideradas profundas da mente- o pré-consciente e o inconsciente. Esse é o trabalho
responsável pela memória, que confere ao eu um sentimento de permanência ao longo
do tempo, assim como de continuidade da existência.

A experiência participa dessas atividades. Ela é o que dá sentido à vida: transmite a


sabedoria de um ancião em seu leito de morte, passa de geração em geração versões
fantasiosas das peripécias vividas pelos antepassados, perpetua velhas lendas narradas
por um contador de história (o “narrador” que dá título ao texto) em volta da fogueira...

Uma geração que ainda fora à escola num bonde puxado por cavalos se encontrou ao ar
livre numa paisagem em que nada permanecera inalterado, exceto as nuvens, e abaixo
delas, num campo de forças de torrentes e explosões, o fácil e minúsculo corpo humano.
(463)

A aparente segurança fornecida pela eficácia técnica desmoraliza a experiência.

(464)