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O JORNAL COMO FONTE PRIVILEGIADA DE PESQUISA HISTÓRICA NO

CAMPO EDUCACIONAL
Maria Juraci Maia Cavalcante
Faced/UFC
À medida que o historiador do século XX se aproxima do presente, fica cada
vez mais dependente de dois tipos de fonte: a imprensa diária ou periódica e os
relatórios econômicos e outras pesquisas, compilações estatísticas e outras
publicações de governos nacionais e instituições internacionais (...)
Nenhuma história das mudanças sociais e econômicas ocorridas neste século
poderia ser escrita sem essas duas fontes (Eric Hobsbawn - 1995).

Em 1983, quando eu era aluna do Programa de Mestrado em Sociologia da


Universidade Federal do Ceará, fui iniciada na pesquisa histórica pelo historiador americano
Ralph Della Cava. Sob a orientação do famoso especialista do Milagre do Juazeiro(1976), fui
levada à Hemeroteca da Biblioteca Pública Estadual Meneses Pimentel, em Fortaleza, para
levantar dados sobre a história da Igreja Católica no Ceará, nas primeiras décadas do século
XX. Não poderia ter sido melhor a minha iniciação, o que me leva a partir dela para
sistematizar o presente artigo, com a intenção de oferecer algumas pistas metodológicas sobre
o uso de jornais como fonte de pesquisa para historiadores da educação.
Desde o início, ficou claro para mim que o jornal possibilitava uma espécie de retorno
ao passado, que poderia ser caracterizado pela nítida sensação de estar a vivê-lo. O próprio ato
de folhear um jornal de época me parecia ter o efeito de criar um vínculo testemunhal ou
vivencial com os acontecimentos ali narrados. O amarelecido das folhas e o bolor empoeirado
nelas inscritos pelo tempo como que deixava pouco a pouco de incomodar e eram substituídos
pela surpreendente impressão de ver renascer pessoas e acontecimentos, em princípio, tão
apartados de uma leitora egressa do futuro.
Figuras que seriam hoje totalmente estranhas, outras mais familiares porque viraram
nomes de rua, praça e escola, em Fortaleza, erguiam-se vigorosas a protagonizar ou ser
referidas no jogo da política e das idéias: Barão de Studart, Senador Pompeu, Idelfonso
Albano, Nogueira Acioly, Guilherme Rocha, Clóvis Bevilaqua, Justiniano de Serpa, Rodolfo
Teófilo, Filgueiras Lima, Pinto Madeira... Era infinita a galeria de nomes que eu via saltar da
condição necrológica de alvo de homenagens insípidas - porque ignoradas e distantes da
maioria da população em seu significado histórico - para a atuação viva da elite a construir a
sociabilidade política e intelectual de uma composição mosaica de tempo, que veio depois a
se constituir naquele todo compacto, que designamos "passado".

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Nunca mais iriam bastar-me os modelos de explicação sociológica, presos a estruturas
de um presente indefinido ou de um pressuposto de dinâmica social cristalizado na fórmula de
uma certa história geral da humanidade. Em especial, o jornal me era mostrado como fonte
capaz de reconstrução cotidiana do passado. Dia-a-dia, ano a ano, década a década, o século
que conheceu a expansão tecnológica da imprensa poderia ser revisto por qualquer pensador
interessado em conhecer o presente através de um evolver pleno de sinais de continuidade e
descontinuidade, que tão bem caracterizam o movimento da história, a marcar o que
permanece e o que se esvai. Nisto residiu a primeira grande lição metodológica recebida,
ponto de partida de minha inclinação sempre crescente de buscar entender o presente sob as
luzes e trevas dos acontecimentos idos, a qual fortaleci depois sob a inspiração das lições de
Braudel:

Vivemos no tempo curto, o tempo de nossa própria vida , o tempo dos jornais, do
rádio, dos acontecimentos, como na companhia dos homens importantes que
mandam no jogo, ou pensam mandar. É o tempo, no dia-a-dia, de nossa vida que se
precipita, se apressa, como que para se consumir depressa e de uma vez por todas, à
medida que envelhecemos. Na verdade, é apenas a superfície do tempo presente, as
ondas ou as tempestades do mar (Braudel,1992a, p.369).

Uma segunda lição deriva da recomendação embutida na anterior, de que o


acompanhamento cotidiano do passado pelos jornais de uma cidade se faz, inicialmente, em
obediência à linearidade cronológica inscrita no perpassar dos dias. Isto, longe de significar
um entendimento do passado como somatório de fatos miúdos, pretende, justamente, captar a
sua duração, bem como, a relevância das ocorrências ali narradas. Afinal, trata-se de um
tempo curto, onde estarão inscritos grandes e pequenos acontecimentos.
...o tempo curto, à medida dos indivíduos, da vida cotidiana, de nossas ilusões, de
nossas rápidas tomadas de consciência - o tempo, por excelência, do cronista, do
jornalista. Ora, notemo-lo, crônica ou jornal fornecem, ao lado dos grandes
acontecimentos, ditos históricos, os medíocres acidentes da vida ordinária: um
incêndio, uma catástrofe ferroviária, o preço do trigo, um crime, uma representação
teatral, uma inundação. Assim, cada um compreenderá que haja um tempo curto de
todas as formas da vida econômica, social, literária, institucional, religiosa e mesmo
geográfica ( uma ventania, uma tempestade) assim como, política (Braudel, 1992 b,
p.45/46).

De início, o pesquisador deve ter um recorte espacial como guia de suas buscas. O
jornal condensa relatos sobre acontecimentos os mais variados que se referem, de modo
especial, a um ordenamento material e simbólico daquela cidade em que é escrito. Além
disso, ele não se limita a registrar os acontecimentos locais, pois tende a trazer para os
leitores daquela cidade notícias de outras localidades, contendo uma noção de espacialidade,
que traduzida em linguagem político-administrativa, típica de processos de edificação
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republicana como o nosso, cresce da esfera municipal à estadual, chegando a abarcar a nação
e o plano internacional, sem descuidar de unidades menores como bairros, distritos, becos e
lugares mais ermos.
Nesse sentido, o jornal é simultaneamente local e universal em suas pretensões de bem
informar. Naturalmente, dependendo de sua estrutura operacional e financeira para cumprir
aquele objetivo, poderá obter maior ou menor sucesso na empreitada de espelhar os
acontecimentos de impacto social no interior de um determinado tempo. A necessidade de
uma escolha temática por parte do pesquisador de jornais se faz desde logo primordial, devido
o caráter universal e enciclopédico do ato de noticiar. O recorte temático não significará,
contudo, que a totalidade dos conteúdos inscritos nas páginas do jornal deixe de ser
observada, considerando que é justamente o confronto entre a particularidade eleita pelo
pesquisador e o universo global de acontecimentos, que permite compreender o lugar e o
valor dos fatos específicos nele pesquisados.
De posse de um tema e de um recorte espacial dados, a consulta ao jornal deve ser
iniciada, fazendo-se o registro das notícias em folhas, cadernos ou fichas de anotação.
Dependendo da antigüidade, do estado de conservação ou do tratamento dado pela
hemeroteca em que se encontram, os jornais serão lidos diretamente e copiados à mão ou em
Notebook; se tiverem sido microfilmados, poderão ser lidos e copiados em sistema apropriado
de visualização e reprodução. A seleção de notícias tem por base a relação de pertinência com
o tema estudado, a qual dependerá do grau de conhecimento prévio que o pesquisador tenha
sobre o assunto e o período estudado, a partir da historiografia mais geral existente, bem
como, das suas pretensões e objetivos de pesquisa. Caso esse conhecimento inicial seja
mínimo ou mesmo nulo, o próprio acompanhamento cotidiano de notícias jornalísticas se
encarregará de oferecer elementos para a reconstrução histórica do tema ou período estudado
e indicar a necessidade de uma complementação de fontes de pesquisa, em documentação
oficial, memorial ou historiográfica.
Um outro aspecto a considerar sobre o procedimento da leitura de jornal, do ponto de
vista de sua estrutura gráfica, exige que o leitor reconheça o modo de classificação temática e
espacial das notícias, a qual sofre variações ao longo do tempo, em função do volume de
notícias, leitores, capacidade tecnológica e financeira do periódico ou época considerada.
De modo geral, a primeira página tem tido sempre uma importância primordial por
oferecer, de um lado, um apanhado das principais notícias, que aparecem em letras garrafais e
cheias das manchetes, segundo o critério de julgamento editorial e social em voga naquela

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data específica e, por outro, adquire um caráter cartográfico de mapeamento do conjunto de
conteúdos oferecidos pelo próprio jornal; nela, o leitor encontrará sempre as notícias de maior
efeito social, seja como reação provável ou esperada, no interior de uma cadeia de
acontecimentos em curso, seja no sentido de uma intenção deliberada do jornal em formar
opinião, em função de sua inserção no jogo político e ideológico vigente. Por essa razão, a
leitura da primeira página deve ser atenta e cuidadosa, embora, nem sempre, o pesquisador
encontre nela aquilo que está procurando; não raro, acontece de a notícia desejada estar
perdida em meio a uma constelação de informações preciosas e banais, destacadas e
desvalorizadas.
Os que duvidam do valor dos jornais de época como fonte de pesquisa historiográfica
alegam a interferência das ideologias no ato de noticiar. De fato, as ideologias perpassam
todas as páginas de qualquer jornal. Não há como ignorá-las ou fugir delas. Contudo, as
ideologias não interferem apenas na veiculação de notícias jornalísticas, já que integram todo
processo de produção e divulgação de idéias, em todos os tempos e lugares. O estranho seria,
justamente, se os jornais fossem isentos ou neutros. Além disso, tais veículos de informação
acabam por espelhar múltiplas ideologias em confronto porque estão sempre a trazer conflitos
existentes naquele meio social específico onde eles são produzidos.
Com o passar do tempo, as intenções políticas e partidárias desenhadas pelos
proprietários ou conselhos editoriais dos jornais são cada vez mais claramente reveladas pelo
movimento da história que pretendem registrar, perfilar, ocultar ou mesmo, determinar. Além
disso, não podemos esquecer que na origem social e histórica de todo e qualquer jornal
repousa implícita a existência de um conflito ou disputa política; assim, ainda quando for
único numa cidade, ele jamais deixará de espelhar as pelejas latentes ou explícitas que nela
ocorrem, o que será ainda mais notado, quando as mesmas alimentarem o surgimento de
outros periódicos. O cuidado metodológico a ser tomado pelo pesquisador é no sentido de
uma tomada de consciência acerca da presença inevitável das ideologias no interior de
qualquer jornal. Fazendo isso, ele poderá, inclusive, melhor entender certas contradições que
freqüentemente encontrará no tratamento dado pelo jornal a um mesmo acontecimento.
Um outro aspecto a ser ressaltado é o elemento teórico embutido em qualquer notícia.
O jornalista é também, em princípio, um intelectual, em especial, quando o localizamos no
passado, pois quanto mais recuamos no tempo, mais próximos estaremos de um jornalismo
feito por humanistas e literatos, diferentemente do que ocorre, hoje, com a exigência
profissional de formação técnica e especializada na área. Tradicionalmente, se esperava que

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ele fosse, senão "culto", no sentido de ser possuidor de uma faculdade interpretativa, pelo
menos, dono de uma certa "erudição", que o fizesse portador de um conjunto amplo de
informações gerais. Para Kujawski, as duas qualidades intelectuais aqui referidas devem ser
diferenciadas, pois "se tomarmos erudição e cultura como espécies do gênero Saber, teremos
a seguinte distinção: a erudição é saber memorizado, extensivo e positivo; a cultura é Saber
reflexivo, compreensivo e hermenêutico."( 1999, p.23/24)
Em todo caso, para escrever sobre os acontecimentos sociais, o jornalista precisa ter
uma visão enciclopédica ou especializada do acontecimento, um grande domínio gramatical
ou mesmo literário da língua, um posicionamento político definido, uma ética que o
compromete com o esclarecimento público, cumprindo uma função de educação política dos
leitores, aos quais, pela informação do conjunto de acontecimentos de interesse da Polis que
integram, estarão mais próximos de se fazerem ou se sentirem cidadãos.
As notícias são sempre plurais em seu arco de cobertura de acontecimentos e
interesses os mais diversos. Há leitores que se acercam de um jornal com um interesse
específico centrado numa determinada área. Temas, como política, economia, esportes,
literatura e arte em geral, crimes e tragédias, ciência e saúde, religião, fofocas da vida
mundana e horóscopo, são apenas alguns dos recortes noticiados que podem atrair o interesse
público. O ato de noticiar, por sua vez, se considerarmos que nenhuma narrativa pode ser
meramente factual, pressupõe uma explicação ou poder interpretativo do narrador em relação
aos acontecimentos, calcados, de alguma forma, nas ciências humanas e sociais. Por isso, a
notícia deve ser vista como um elemento simultaneamente prenhe de riqueza empírica e
teórica.
O pesquisador de jornais, ao concluir o processo de seleção das notícias desejadas
naquele período que definiu como chave para a sua investigação, estará diante de um outro
desafio. Deve estar claro, desde o começo da pesquisa, que o valor documental de uma notícia
é dado pela sua transcrição literal. Sem este procedimento, a notícia ou matéria de jornal
perde o seu valor documental. O texto tomado em seu conteúdo original é o elemento
empírico primordial, que legitimará o trabalho analítico ou interpretativo do pesquisador.
Quando resumida, uma notícia ou uma seqüência delas terá valor de elemento de composição
analítica, servindo para ligar acontecimentos considerados de maior relevância no interior de
uma dada pesquisa social.
Recomendo, portanto, que as notícias consideradas principais sejam copiadas
integralmente ou em seus trechos mais importantes, de modo que possam, no momento da

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realização da análise, aparecer como evidências empíricas daquilo que está sendo recuperado
da história a ser narrada. Por essa razão, o tempo gasto com o acompanhamento cotidiano da
notícia dependerá, em primeiro lugar, do período que se quer recuperar e, naturalmente, do
prazo de que dispõe o pesquisador para realizá-lo. Para alguém inexperiente, as primeiras
consultas, por um lado, parecerão férteis em descobertas estimulantes e, por outro lado, pouco
animadoras, em relação ao aspecto temporal ou de duração da pesquisa. Contudo, o manuseio
do jornal, após um certo período, proporcionará ao leitor a objetividade, a rapidez e agilidade
necessária para que conclua, ainda que provisoriamente o levantamento de informações que o
trouxe até os jornais.
Embora o levantamento de notícias relativas ao tema desejado não possa ser integral,
por razões óbvias de racionalidade da pesquisa, é recomendável que o pesquisador organize
uma cronologia de acontecimentos, que julga importantes para esclarecer o tema investigado.
Por sua vez, essa cronologia terá a função primordial de oferecer uma base factual e linear
para o mapeamento de disponibilidades no que se refere ao estabelecimento de ligações entre
os diversos acontecimentos alinhados. A história estará por ser reconstruída quando desse
mapeamento resultar a identificação de um nexo de sentido entre as várias notícias alinhadas
sob aquele tema enfocado. O ordenamento das peças de um jogo de xadrez pode funcionar
como uma excelente analogia para essa etapa do trabalho. Obviamente que o simples
alinhamento de notícias "recortadas" do jornal não terá um significado em si mesmo. É
preciso que o pesquisador, depois de tê-las ordenado, busque identificar o sentido possível em
que cada uma delas correrá, pois trata-se afinal de entender o mundo da política subjacente a
todos aqueles conteúdos.
Alguns acontecimentos e personagens terão um maior poder de decisão e serão mais
ricos em evidências do que outros, embora isso não signifique, em absoluto, que as figuras e
ocorrências mais importantes sejam necessariamente aquelas que estão a ocupar cargos e
lugares efetivos de poder e destaque na vida social real. Há que considerar a força do acaso no
cotejo dos fatos e forças em interação naquele momento investigado, pois na vida de uma
cidade, há uma pluralidade de acontecimentos, que escapam à razão e ao controle das
autoridades e das elites. Pode acontecer, de ser uma tragédia pessoal, uma tempestade ou
epidemia a personagem principal, que por ter causado uma enorme calamidade pública, por
exemplo, mobiliza toda a sociedade, inclusive os seus governantes, para discuti-la e
solucioná-la, fazendo, inclusive, com que deixem de lado, por um momento, outras ações que
vinham sendo articuladas em função de interesses políticos considerados principais.

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O que está sendo sugerido é que o pesquisador, para ir adiante em seu trabalho,
precisará ser capaz de tecer as notícias que colecionou e ordenou, a partir da descoberta de um
enredo possível que as articule de um modo significativo. Nesse sentido, o seu trabalho se
assemelha ao de um literato, com a diferença de dispor o pesquisador social de um conjunto
de elementos empíricos ao qual ele só teve acesso, porque os perseguiu de forma obstinada,
subordinando a sua busca a eles, entregando toda a sua atenção - mesmo sendo eventualmente
contrariado ou desapontado em seus achados - estando assim inteiramente dependente das
notícias incrustadas nas páginas de um jornal. Por isso, o trabalho de um historiador se
diferencia, fundamentalmente, do labor da ficção. No seu ofício, em especial, em relação à
fonte aqui tratada, a empiria da notícia é a matéria-prima de onde parte para tecer as redes
possíveis de interpretação. Em outras palavras, antes de tudo, tenderá o pesquisador a ser fiel
ao conteúdo encontrado no jornal consultado, não podendo ignorá-lo ou ocultá-lo, ainda que,
por alguma razão, seja tentado a fazê-lo.
Descoberto o enredo possível para o encadeamento das notícias colecionadas, tratará o
pesquisador de demonstrar a pertinência do mesmo, articulando-o em texto claro e
convincente, em que a interpretação ensaiada precisa ser comprovada a todo momento. É
nesse momento que as notícias registradas vão ser usadas de modo a despertar interesse e
aprovação de seu público leitor, que sendo especializado, será muito exigente em relação aos
conteúdos e afirmações apresentados pelo intérprete dos acontecimentos. Nesse sentido, por
fazer parte de uma comunidade de conhecedores especializados, o rastreador de histórias em
jornais nunca se sentirá totalmente livre para criar arbitrariamente o sentido de uma cadeia de
fatos. Ele sabe que não estará nunca sozinho, podendo ser facilmente desmentido por um
testemunho ou interlocutor qualquer, até porque, ao indicar as páginas de onde retirou as
notícias que alimentam, empiricamente, a sua análise, estará também abrindo-as para outras
pessoas e pesquisadores interessados naquele assunto ou a eles relacionados. Assim, a própria
fonte eleita como primordial terá o papel involuntário de garantir e, simultaneamente,
fiscalizar os excessos que a interpretação feita pelo pesquisador venha a cometer.
À respeito disso, em sua crítica à noção factual de história, nos lembra Le Goff,
aludindo aos preceitos de Marc Bloch, que:
(...) Não há realidade histórica acabada, que se entregaria por si própria ao
historiador. Como todo homem de ciência, este, conforme a expressão de Marc
Bloch, deve "diante da imensa e confusa realidade", fazer a "sua opção", o que,
evidentemente, não significa arbitrariedade, nem simples coleta, mas sim,
construção científica do documento cuja análise deve possibilitar a reconstituição ou
a explicação do passado (Marc Bloch, 1995, p.32).

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A interpretação ensaiada conterá maior ou menor quantidade e diversidade de
elemento teórico, em função da formação do pesquisador. Isto significa que o alcance dela
dependerá da qualidade intelectual daquela pessoa que está a investigar os acontecimentos,
segundo uma dada ótica temática. Conceitos oriundos da ciência política, da filosofia ou da
sociologia podem, por exemplo, esclarecer com muito maior densidade o sentido procurado
para o entendimento de um período previamente delimitado de coleção de notícias. Quanto
menor for a cultura do pesquisador no campo das ciências humanas, maior será o seu apego à
dimensão meramente empírica do material colhido; o inverso ocorrerá, quando se trata de
alguém que, por outras fontes e experiências de vida, estudo e pesquisa, souber lidar
sociologicamente com o tema focalizado, caso em que, não raro as notícias perdem em
importância para o poder de conceitos abstratos e distantes daquela realidade específica.
Por essa razão, não é fácil imaginar uma orientação metodológica única e suficiente
para esclarecer os inúmeros questionamentos e dúvidas que surgem no interior de uma
pesquisa com jornais. Contudo, o mais certo é supor a busca de um equilíbrio entre o suporte
teórico que orienta o olhar do pesquisador e a dimensão empírica contida na notícia do jornal.
De todo modo, a qualidade de um trabalho historiográfico estará garantida, quando um ponto
de equilíbrio entre teoria e empiria for alcançado; sem isto, não há como despertar interesse
pelo que faz o historiador no terreno da educação ou de qualquer outra área do conhecimento.
O tema de fundo da pesquisa será desdobrado em unidades menores, cujos tópicos
serão nomeados a partir das próprias notícias. Nessa classificação, ganharão destaque os
temas que adquiriram o contorno de notícias de primeira página ou de grande relevância
social e política, pela freqüência com que aparecem. As demais notícias serão, então,
subordinadas às notícias principais. Um excelente exercício preliminar consiste em discorrer
sobre os fatos narrados pelo jornal que mais chamaram a atenção do pesquisador. Alguém
pode perguntar se a subjetividade do leitor-pesquisador não irá interferir no modo de
classificar as notícias principais, levando-o a eleger como prioritários temas de seu interesse
particular, que não teriam de fato nenhuma relevância social. Eu diria que esse risco não
existe em função do fato de que os jornais tendem a classificar as notícias de maior relevância
ou impacto social, no momento de distribuí-las no tempo e no espaço em que operam.
Refiro-me ao lugar que as notícias ocupam no jornal, em relação à sua relevância e à
sua repetição ou permanência, ao longo de um dado período. Assim, um tema de destaque se
impõe, ainda que o pesquisador o queira ignorar ou subordinar a um outro de sua preferência.
Afinal, uma notícia de primeira página não pode ser negada ou escondida pelo pesquisador,

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sob pena de que ele prefira fazer um trabalho de ficção ou encomendado a certos interesses
particulares, atitude que não se encaixa no trabalho de quem deseja historiar.
Ano a ano, as notícias deverão sofrer uma classificação temática e ser articuladas no
tempo, de modo a permitir separar os fatos que permanecem daqueles que são efêmeros. No
caso do acompanhamento de políticas educacionais, é interessante entender se a ação do
Estado, da Sociedade civil e outras instâncias mais híbridas de ordenamento e movimentação
política da sociedade, em torno dessa demanda social específica, é contínua ou sofre
interrupções em função de alternância de governantes e, em conseqüência disso, os planos e
projetos concebidos são abandonados ou mesmo retomados tempos depois, quando já
pareciam esquecidos ou incabíveis, para uma nova época ou gestão governamental.
A medida da década para o acompanhamento de políticas sociais pode ser uma escolha
justificável do ponto de vista operacional, mas jamais o será no sentido propriamente histórico
da pesquisa. Pesquisar um ano ou uma década em jornais, não significa que esse período
venha a ser inteiramente explorado ou respeitado em sua cronologia linear, considerando que
o período em que a pesquisa é iniciada poderá ser modificado, caso os acontecimentos
remetam o pesquisador para a frente ou para trás, em função do modo como o curso daqueles
se apresentou no tempo e no horizonte social enfocado.
O trabalho com jornais é demorado. O ideal é que seja desenvolvido por um grupo e
integre um programa ou um núcleo de pesquisa. Com jornais, o pesquisador individual estará
em oceano aberto, movimentando-se com muita lentidão em meio a um tempo social em que
as necessidades de conhecimento são urgentes e os recursos financeiros para pesquisa
escasseiam tanto mais, quanto se abandone o terreno urgente dos desafios do presente e se
achegue ao campo das necessidades de recuperação da possibilidade de lembrar configurações
de um tempo já ido. Para que se tenha uma idéia, apesar de que o ritmo de um pesquisador
individual seja variável, mesmo assim, com muita dedicação e concentração de algo em torno
de 12 horas semanais de leitura, um pesquisador conseguirá ler, no período de três meses, no
máximo, um ano de um jornal.
Por isso, é recomendável a formação de grupos que imprimam, pela cooperação e
somatório de esforços, uma maior velocidade no trabalho de seleção, registro e análise de
notícias. Um grupo de 30 pesquisadores poderá cobrir trinta anos de notícias em período
variável que pode ir de seis a nove meses. Ao invés de desenvolver um trabalho solitário e
lento, cada um dos pesquisadores se sentirá integrado numa equipe, que desenvolverá, passo a
passo, tarefas diversas que vão da escolha do jornal ao mapeamento, da análise das notícias ao

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confronto com outras fontes de pesquisa de natureza documental, memorial, iconográfica ou
bibliográfica. Em pouco tempo, ao final de dois a três anos de trabalho, os resultados serão
suficientes para que o grupo devolva à Universidade, Sociedade e ao Estado, como instâncias
de intervenção, mudança e planejamento social, um trabalho de pesquisa de relevância e
interesse social facilmente previsíveis.
Em sua dimensão pedagógica, a experiência com jornais pode estimular ou devolver
aos iniciados no campo das ciências sociais e da educação, a curiosidade de pesquisa, sem o
peso da hierarquia de conhecimento presente na comunidade científica e acadêmica que
integra - herança, quem sabe, da tradição enciclopédica ou cumulativa do pensamento
humanista ocidental, que a instituição escolar sempre repassa para seus alunos - dispensando-
o de um ritual obrigatório de investigação no interior do qual foi estabelecido que o acesso ao
universo empírico só pode ser feito após o levantamento de autores e teorias que possam
servir como "lanternas" capazes de iluminar a busca pelo real. Isto significa que a busca por
fontes secundárias e especializadas, ao invés de preceder necessariamente a lida com o
elemento empírico, poderá ser uma decorrência de necessidades de esclarecimento ou
aprofundamento ali sentidas.
Assim, a relação com a tradição teórica tenderá a ser baseada, muito mais, numa
dinâmica interativa e dialógica do que em procedimentos viciados de armazenamento e
memorização de saberes cristalizados e reificados que, longe de favorecerem a expansão da
criatividade e da descoberta, fazem proliferar mentes engessadas e inseguras, sempre à espera
de grandes teóricos, professores, orientadores e resultados de pesquisas alheias, que encerram,
muitas vezes, autores desconhecidos e realidades distantes de nosso tempo e meio social.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRAUDEL, Fernand. Reflexões sobre a História. São Paulo: Martins Fontes, 1992a .
_________. Escritos sobre a história. São Paulo: Editora Perspectiva, 1992b.
DELLA CAVA, Ralph. Milagre do Juazeiro. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
HOBSBAWN, Eric. A Era dos Extremos: o breve século XX (1914-1991). São Paulo:
Companhia das Letras, 1995.
KUJAWSKI, Gilberto de Mello. O Sabor da Vida. Brasília: Letraviva, 1999.
LE GOFF, Jacques. A História nova. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

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