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DEMOCRACIA E CIDADANIA NA EDUCAÇÃO ESCOLAR

DEMOCRACIA E CIDADANIA NA EDUCAÇÃO


ESCOLAR
Democracy and Citizenship In School Education

ORTH, M. R. B.
MEDEIROS, M.
PEREIRA, G.

Recebimento: 25/08/2011 – Aceite: 08/11/2011

RESUMO: O estudo sobre “ democracia e cidadania na educação escolar”


origina-se do projeto de pesquisa “educação política: educação para a cidadania
em escolas de ensino fundamental” e do projeto de Extensão “educação para
a cidadania”, desenvolvido através do programa PIBIC e PEAP da Universi-
dade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI), Campus de
Erechim(RS). Objetiva, neste momento, expor nossas inquietações e estudo
reflexivo de maneira sistemática, visando contribuir para a ampliação do pro-
cesso de construção da cidadania em todos os níveis e modalidades da educação
brasileira. Especificamente, pretendemos refletir sobre alguns pressupostos
teóricos em que acreditamos e que consideramos necessários aos trabalhos
que envolvem democracia e cidadania. Além disso, buscamos contextualizar
esses pressupostos com as realidades apresentadas, a fim de propor algumas
práticas pedagógicas possíveis ao exercício da democracia e da cidadania.
Para tanto, organizamos nosso estudo e reflexões em três eixos: no primeiro
eixo, procuramos destacar os pressupostos teóricos de uma educação voltada
à democracia e à cidadania na perspectiva crítica. Já no segundo eixo, tenta-
remos realizar nossa leitura e interpretação de algumas realidades, tendo em
vista o estudo que vimos realizando. Finalmente, apresentamos propostas de
algumas práticas teóricas possíveis e realizadas no período de agosto de 2008
até o presente momento.
Palavras-chave: Educação. Democracia. Cidadania.

ABSTRAT: The study on “democracy and citizenship in school education,


comes from the research project” political education: education for citizen-

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ship in primary/elementary schools “, and the extension project” education


for citizenship”, developed through the program PIBIC and PEAP from the
Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões- Campus in
Erechim.(URI). This project aims at bringing up our concerns and a reflexive
study in a systematic way, to contribute to the growth of citizenship building
process at all levels and types of Brazilian Education. Specifically, we intend
to think about some theoretical assumptions that we believe and consider
necessary for everything that involves democracy and citizenship. In addition,
we try to contextualize these assumptions with the presented information in
order to propose some possible pedagogical practices to the development of
democracy and citizenship. To this end, we have organized our study and re-
flections into three different categories. The first area highlights the theoretical
assumptions of an education system focused on democracy and citizenship
in a critical perspective. On the second one, we will try to do our reading and
interpretation of certain facts based on the study we have been developing.
Finally, we propose some possible theoretical practices developed from August
2008 to the present date.
Keywords: Education. Democracy. Citizenship.

Ciências Humanas(Curso de Pedagogia),


Grupo de Pesquisa Ética e Educação, tendo
Democracia e Cidadania na como linha de pesquisa “políticas públicas,
Educação Escolar currículo e educação”. Justifica-se pelo que
segue:
A continuidade da História para mim é a) A educação, tanto no sentido amplo
uma das explicações fundamentais para como restrito, exerce uma função social.
comprender/explicar o agir Humano. Isso significa que tanto educação sistemáti-
Essa continuidade é um termo de respon- ca quanto assistemática exercem influência
sabilidade dos Humanos para consigo decisiva na formação humana, o que leva
mesmos. Através da continuidade , que ao entendimento de que as práticas sociais
é a mera repetição, o Homem explica a dominantes de individualismo e competição
si mesmo como Ser Histórico, Ser que
estão, de maneira prevalente no espaço social,
caminha historicizando-se (SAVIANI,
2010, p.2, op.cit. PAULO FREIRE)
representadas pela busca do ter e do poder,
principalmente na sociedade de consumo.
A temática “democracia e cidadania na São, dessa forma, estimuladas no seio das
educação escolar” surge em virtude das ati- práticas sociais e educativas. A sociedade,
vidades de ensino1, pesquisa2 e extensão3, no seu conjunto, vem privilegiando ações
por meio do Programa Institucional de Bolsa individuais em detrimento das ações co-
de Iniciação Científica (PIBIC), do Programa letivas do grupo e da comunidade. Assim,
Bolsa de Extensão, instituído como Progra- ao centralizar o indivíduo, mediante suas
ma de Assessoria Pedagógica e Psicológica ações e suas conquistas, exclui os contextos
(PEAP) da Universidade Regional Integra- grupais, coletivos, comunitários, históricos e
da do Alto Uruguai e das Missões (URI), temporais. Com isso, elimina todas as possi-
Campus de Erechim, do Departamento de bilidades de construção para a humanização

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social. Isso porque o mecanismo social flui a de todos. As providências e os estímulos para
partir de estímulos visuais e sensitivos, que que o indivíduo busque e realize sua emanci-
são enfatizados pela sociedade dominante e pação social, são evidentes na sociedade. Po-
pelas suas organizações institucionais. Assim rém, a observação que se tem encontra-se no
sendo, geram-se, no imaginário individual, fato de que o humano se educa na construção
necessidades materiais inclusas nos desejos, de sua relação com o mundo e com os outros.
sonhos e anseios a serem conquistados indi- (FREIRE, 2002). Por isso, é impossível falar
vidualmente. Nesse jogo de centralismo das em conquista humana sem situá-la no espaço
práticas individuais, elevam-se o “eu” em e no tempo, uma vez que é preciso refletir
detrimento do “tu” e do “nós”. Exibir e pro- sobre o que, como, quando e onde ocorrem
clamar as conquistas individuais passa a ser as conquistas dos indivíduos. Na reflexão
parte de crescimento, progresso individual e sobre essas interrogativas, apreende-se que as
de competência social. Isso conduz à cons- ações dos indivíduos originam-se das oportu-
trução de um humano desumano, egocêntrico nidades e condições proporcionadas em sua
e com patologia. Nesse sentido, existe a historicidade. Fato que encaminha a escuta
necessidade de repensar-se a sociedade, a e a visão de que poucos são os indivíduos
educação e o humano. que estão envolvidos nessa situação, embora
b) A existência de uma sociedade huma- estejam situados como parte desse todo de-
na requer ações planejadas e intencionais. nominado sociedade. Enaltecer práticas indi-
Devido ao quadro exarcebado de estímulo viduais em detrimento do grupo, do coletivo
e divulgação de ações individuais, em de- e/ou de uma comunidade, é excluir o todo e
trimento das ações coletivas, a sociedade as partes que o compõem. Nesse sentido, a
encontra-se em situação de risco e de crise. busca de uma emancipação social encontra-se
Risco nas relações e na convivência humana, condicionada à emancipação de todos. Quan-
dado que as existenciais estão sendo vivencia- to mais houver eclosão individual, isolada
das por múltiplas violências. Crise de valores, e solitária, maiores serão o afastamento e o
de ética e de moral, tendo como responsável distanciamento da emersão social de todos.
o paradigma herdado (cartesiano). Isso signi- Nesse caso, educação escolar e educação não
fica práticas impositivas de condicionamento escolar desempenham esse papel de trabalhar
dos indivíduos a exercícios de classificação, e privilegiar ações coletivas, por meio de
divisão, seleção, manifestados na dicotomia vivências e experimentações, sem perder de
de aptos e não aptos, dos que podem e dos vista o eixo giratório da sociedade. (MORIN
que não podem, dos que sabem e dos que não e MOIGNE, 2000).
sabem, dos talentosos e dos não talentosos. d) As práticas educativo-pedagógicas
Tal situação direciona o pensar sobre o real solidárias, coletivas e reflexivas podem
e o ideal de pessoa humana e da sociedade, levar à conscientização crítica. Potenciali-
com vistas à mudança e à transformação. Para zar e creditar práticas educativo-pedagógicas
tanto, emerge também uma necessidade de solidárias e coletivas torna-se necessário
ações planejadas e intencionais, por parte da na sociedade atual. Isso quer dizer que é
escola e de seus educadores, visando à trans- indispensável reverter o quadro atual com
formação social, de forma que todos possam práticas educativo-pedagógicas nas quais os
participar efetivamente na reconstrução do indivíduos possam vivenciar comportamen-
humano que habita em cada ser. tos, hábitos e atitudes de construção coletiva,
c) As possibilidades de uma emancipa- de solidariedade, ou seja, conduzir ações de
ção social estão na emancipação humana experimentação, de apreensão das aprendiza-

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gens a serem propostas nos níveis cognitivo, sição de conhecimentos e habilidades e a


afetivo e psicomotor. Nesse processo, o formação de atitudes e valores;
diálogo e a reflexão acerca do “aprender a IV - o fortalecimento dos vínculos de
ser, o aprender a fazer, aprender a aprender” família, dos laços de solidariedade hu-
(DECLARAÇÃO MUNDIAL DA EDU- mana e de tolerância recíproca em que
CAÇÃO PARA TODOS) têm como base se assenta a vida social.
de sustentação a educação política. Nessa Ao considerarmos os pesquisadores em
linha de pensamento, observa-se que muitos Educação, que centram seus estudos nas
educadores escolares realizam práticas peda- questões de cidadania, democracia, direitos
gógicas na premissa da ação-reflexão-ação do humanos e participação, destacando proposi-
conhecimento e habilidades e competências, ções sobre essas temáticas, inserindo alguns
propostas pelo processo de ensino-aprendiza- elementos básicos para que o cidadão possa
gem, mas as mesmas apresentam lacunas na se emancipar, progredir no trabalho e em
perspectiva da conscientização e da análise estudos posteriores, bem como para contri-
das implicações e consequências das mesmas buir com o pleno desenvolvimento da pessoa
na vida social. Isso faz com que se esteja humana, indagamos sobre a realidade a fim
priorizando, no ensino-aprendizagem, apenas de conhecer o que realmente acontece e o
o objeto de estudo, descontextualizando-o que não acontece, ou como poderia ocorrer
de situações reais. Exalta-se o imaginário o exercício da democracia e da cidadania na
e exclui-se o real sob o viés da criticidade. Educação escolar.
e) O preparo para o exercício da cida- Com isso, objetivamos, neste momento,
dania é parte dos princípios e fins da atual externar nossas inquietações sistematiza-
Lei da Educação brasileira. Observa-se que das, visando a contribuir para a ampliação
o discurso sobre a formação condizente com do processo de construção da cidadania em
a Educação Básica, ao tornar indispensável todos os níveis e modalidades da Educação
o exercício da cidadania entre educandos(as) brasileira. Especificamente, pretendemos
da Educação Infantil ao Ensino Médio, vem refletir sobre alguns pressupostos teóricos
sendo constituído por clichês e muito pouco em que acreditamos e que consideramos
se sabe sobre o que, de fato, as escolas vêm necessários às atividades que envolvem
realizando. Nesse contexto, a Lei de Diretri- democracia e cidadania. Além disso, busca-
zes e Bases da Educação Nacional, Lei Nº. mos contextualizar tais pressupostos com as
9.394/96, art. 32, salienta que, para o Ensino realidades apresentadas, para propor algumas
Fundamental, a formação básica do cidadão práticas pedagógicas possíveis ao exercício
tem como objetivos: da democracia e da cidadania. Para tanto,
organizamos nosso estudo e reflexões em
I - o desenvolvimento da capacidade de
três eixos: no primeiro eixo, procuramos
aprender, tendo como meios básicos o
sublinhar a fundamentação teórica para uma
pleno domínio da leitura, da escrita e
educação voltada à democracia e à cidadania
do cálculo;
na perspectiva crítica. Já no segundo eixo,
II - a compreensão do ambiente natural tentaremos realizar nossa leitura e interpre-
e social, do sistema político, da tecno- tação de algumas realidades, com vistas ao
logia, das artes e dos valores em que se estudo que vimos efetuando. Finalmente,
fundamenta a sociedade; apresentamos propostas de algumas práticas
III - o desenvolvimento da capacidade teóricas possíveis e realizadas no período de
de aprendizagem, tendo em vista a aqui- agosto de 2008 até o momento atual.

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Entretanto, as realidades deste século nos


1 Do exercício da democracia mostram que os princípios de democracia e
e da cidadania à cidadania de cidadania na Educação escolar ainda con-
emancipatória. tinuam permeados de princípios individualis-
tas liberais ao invés de princípios sociais. Per-
A leitura e as reflexões críticas sobre “de- cebemos que no seio da prática pedagógica
mocracia e cidadania” iniciam-se com Locke dominante, encontramos, ainda, a democracia
(1999) e Rousseau (1996)4, encaminhando a e a cidadania em nível da permissão, daquilo
afirmativa de que a luta pela sua construção que é concedido, desfavorecendo o que possa
e efetivação principia nos séculos XVII e vir a ser construído. Isso porque um número
XVIII, final da Idade Moderna e início da significativo de sujeitos da Educação escolar
Idade Contemporânea, aproximadamente, apresenta, em suas maneiras de ser, através de
quando, por um lado, Rousseau (1996, p.12- suas atitudes e comportamentos, medo de se
13) afirmava que: expressar, à espera de que seja concedida au-
torização, motivação e apoio para a emersão
O mais forte nunca é bastante forte para
de opiniões e pensamentos no que se refere à
ser sempre o senhor, se não transformar
realidade cotidiana da prática escolar e social.
sua força em direito e a obediência em
dever. Coabitam, no interior das práticas pedagó-
gicas e sociais predominantes, os princípios
[...] Ceder à força é um ato de necessi- liberal-positivistas5. Em consequência disso,
dade, e não de vontade; é quando muito existe um sentimento no aluno, no professor
um ato de prudência.
e nos profissionais da Educação escolar de
[...] Ora, o que é um direito que pere- que as manifestações contrárias às expostas
ce quando cessa a força? Se é preciso e estabelecidas na Instituição e no Sistema
obedecer pela força, não há necessidade Escolar provocam conflitos e desestabilizam
de obedecer por dever, e, se já não se é o instituído, prejudicando o crescimento dos
forçado a obedecer, também não já se organismos institucionais, bem como a vida
é obrigado a fazê-lo. Vê-se, pois, que a
escolar e profissional dos envolvidos. O
palavra direito nada acrescenta à força;
silêncio e/ou omissão encontram-se como
não significa, aqui, absolutamente nada.
alternativa presente. Assim, a democracia
Por outro lado, Mello (1999, p.86, op.cit. e a cidadania são vistas como motivação e
LOCKE), ao explicar o pensamento de John entrada de problemas institucionais, e não
Locke como um dos precursores do Indivi- como uma busca pela solução de conflitos.
dualismo liberal, destaca: De acordo com isto, o problema principal
Em Locke, o contrato social é um pacto da educação é o problema da participa-
de consentimento em que os homens ção dos homens na luta pelo progresso
concordam livremente em formar uma social. O que acontece no “interior” dos
sociedade civil para preservar e consoli- homens está profundamente influenciado
dar ainda mais os direitos que possuíam pelo que sucede à sua volta e pelas coisas
originalmente no estado de natureza. No em que participa. Assim se liberta o ho-
estado civil os direitos naturais inaliená- mem das quimeras e das representações
veis do ser humano à vida, à liberdade próprias do isolamento e da sedução
e aos bens estão melhor protegidos sob da moral e liga-se à realidade. Esta
o amparo da lei, do árbitro e da força ligação supera também o oportunismo,
comum de um corpo político unitário. que as relações capitalistas existentes

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consideram algo inevitável, e adverte Muitos ainda realizam a leitura de demo-


contra uma adaptação utilitarista a estas cracia e cidadania apenas na perspectiva do
relações que destroem a moral no próprio papel político-civil – votar e ser votado. Na
sentido da palavra. Assim, a diferença Educação escolar acontece de igual maneira.
entre o que é e o que deve ser perma- Nesse sentido, eleições de gestores escolares,
nece, concretamente na luta pela nova de colegiado, consideram-se suficientes à
realidade social, na luta pela realização
contemplação dos princípios de democracia
do que deve ser(WOJNAR, 2010, op.cit.
e cidadania. Nega-se a leitura do processo
SUCHODLSKI, p. 73).
histórico-civilizatório e, por conseguinte, a
Por outro lado, há, entre os atores escola- escuta emergente dos outros na sua totali-
res e sociais, a compreensão de que democra- dade, pois a escuta de outros é, para muitos,
cia e cidadania se fazem com a participação a escuta de seu círculo de amizades mais
efetiva de todos, o que contribuiria para o próximo, negando, à grande maioria, sua
envolvimento e comprometimento. O cida- participação.
dão considera-se em exercício de cidadania
autônoma, responsável e comprometida,
quando lhe são oportunizadas condições 2 Implicações da (não)democracia
para apreender e aprender sua prática social e da (não)cidadania à Educação
e educativa com os outros. Isso porque escolar na vida social,
A individualidade do homem desenvol-
ve-se, pois, não segundo o passado ou se- O problema da formação social deve
gundo as relações existentes, mas surge ser posto no primeiro plano das nossas
do “material” criado pela tradição e pela preocupações referentes aos programas
atualidade. Não surge como algo inde- de ensino, deve ser considerado em toda
pendente de nós, produto da tradição ou a sua vastidão e ir do conhecimento dos
do ambiente, mas como consequência da grandes processos sociais do mundo
participação ativa ao lado do progresso, moderno à capacidade de compreender
pela participação na transformação das o meio concreto em que se age e se vive.
condições materiais de vida. (WOJNAR, (WOJNAR, 2010, p.134).
2010, p. 83).
O pensamento dirigido sobre “implica-
Diante disso, consideramos que existe ções da (não)democracia e da (não) cida-
a necessidade de democracia e cidadania dania da Educação escolar na vida social”
emancipatórias e não regulatórias na cons- fundamenta-se, principalmente, na dimensão
trução de uma sociedade justa e igualitária. social da escola, atribuída pela sociedade
O fato é que os discursos sobre a temática de classe dominante. Se, por um lado, a
democracia e cidadania permanecem na sociedade dominante reafirma, por meio de
esfera do senso comum, tornando-a frag- sua organização social, política, territorial,
mentária e classificatória. Desconsidera-se econômica e cultural, a divisão de classes,
a luta histórica no Brasil pela democracia determinando as condições e oportunidades
cidadã configurado, institucionalmente, no para a grande maioria, por outro lado, exige
momento da Constituinte (1988). Exclui-se dessa grande maioria o cumprimento de prin-
o pensamento de construção permanente do cípios e normas definidos e estabelecidos por
processo. Exime-se do cuidado, do zelo pela ela sem a participação e envolvimento destes.
educação, no sentido de projeto coletivo e Isso faz com que desejos e anseios de muitos
de propósitos em ampliar essa conquista. indivíduos inseridos historicamente na classe

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marginalizada, sejam pela busca constante do todo o resto do discurso público. O


de ocupar, também, os espaços da classe público é colonizado pelo privado; o
dominante, correndo o risco de passarem de interesse público é reduzido à curiosi-
oprimidos a opressores. dade a respeito das vidas privadas das
figuras públicas, limitando a arte da
Essa realidade já vem sendo apresentada
vida pública à exposição pública dos
Na medida em que o homem perde a ca- casos privados e das confissões públicas
pacidade de optar e vai sendo submetido de sentimentos privados (quanto mais
a prescrições alheias que o minimizam e íntimos melhor). As questões públicas
as suas decisões já não são suas, porque que resistem a tal redução se tornam
resultadas de comandos estranhos, já incompreensíveis(BAUMANN, 2008,
não se integra. Acomoda-se. Ajusta-se. p.68).
O homem integrado é o homem sujeito.
A adaptação é assim um conceito passi- A negação da existência de condicionan-
vo – a integração ou comunhão, ativo. tes ao processo de democratização e exercício
Este aspecto passivo se revela no fato da cidadania compreende a emergência de
de não ser o homem capaz de alterar a situações e fatos desumanos, configurados
realidade, pelo contrário, altera-se a si em fenômenos sociais, educacionais, po-
para adaptar-se. A adaptação daria mar- líticos, culturais e históricos que possuem
gem apenas a uma débil ação defensiva. representações e significações nos problemas
Para defender-se, o máximo que faz é de Educação referentes à igualdade de opor-
adaptar-se. Daí que a homens indóceis, tunidades, igualdade de acesso e permanência
com ânimo revolucionário, se chame de na escola, à universalização do Ensino, à
subversivos. De inadaptados. (FREIRE, divisão do trabalho escolar (hierarquização),
1976, p. 42).
entre outros. Esses problemas educacionais
Outras implicações compreendidas pela são reflexos dos fenômenos sociais (divisão
(não)democracia e pela (não)cidadania di- de classes e de território), dos fenômenos
zem respeito a comportamentos autoritários políticos (estrutura e organização do Estado),
e individualistas, com o desenvolvimento em que o Estado de Direito se sobrepõe ao
de práticas de intolerância social, traduzidas Estado de Bem-Estar Social, como também
em violência social e escolar, bem como dos fenômenos históricos que negam as con-
dificuldades de escuta e reconhecimento do tribuições e formação cultural do processo
outro. Isso porque as lacunas históricas de civilizatório, e, em especial, a formação do
vivências de democracia, de igualdade, de povo brasileiro.
acesso e oportunidades ao bem público, ao Além disso, é relevante perceber que há
bem comum, são levadas no âmbito de con- conflitos de ideias sobre democracia e cida-
cessão de direitos individuais em detrimento dania. Quando se apresentam, os termos são
dos coletivos. tidos como conceitos universais, esquecendo-
Se o indivíduo é hoje o pior inimigo do
se do processo histórico de construção do
cidadão, e se a individualização signifi- pensamento democrático e do pensamento
ca problema para a cidadania e para as cidadão. Diferenciam-se das tendências
políticas baseadas na cidadania, é porque pedagógicas e filosóficas. A par disso, o
são as preocupações e os interesses dos conflito se instala principalmente quando se
indivíduos que indivíduos preenchem busca teorizar tais conceitos. Utilizar-se dos
espaços públicos, pretendendo ser seus princípios de uma democracia social, sob prá-
únicos ocupantes legítimos e expulsan- ticas democráticas cidadãs liberais, significa

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desconhecimento do processo civilizatório cias, num ser que está determinado por
sobre cidadania. Os encaixes entre elas não relações de produção concretas e que
se complementam, podendo tornar-se cami- está integrado em determinadas classes
nhos paralelos. da sociedade. A educação obtém, com
isso, uma orientação objetiva e social
Por isso, há a necessidade de que as práti- que está livre de opiniões falsas sobre
cas sociais e educativas se complementem e a vida interna independente e sobre a
se articulem, a fim de ser viável dinamizar a natureza humana irracional, e que certa
dialogicidade dos processos social e escolar. terapêutica psíquica poderia melhorar os
indivíduos e as relações sociais. (Ibid,
2010, p.80).
3 Proposta de algumas práticas
Nessa dimensão, ao se considerar a “edu-
possíveis de teorias.
cação como uma orientação objetiva e social”
a serviço de uma educação democrática e
A tarefa do pedagogo consiste em ajudar cidadã, é que elegemos alguns pressupostos
os indivíduos nas condições de sua vida que consideramos necessários a ações dirigi-
real e cotidiana. Se afirmarmos que o das a uma prática pedagógica emancipatória
ser humano, nascido biologicamente, e transformadora dos sujeitos educativos.
nasce novamente como homem graças
Assim, encaminhamos algumas ponderações
à educação, o sentido moderno dessa
que podem torná-las democráticas:
definição deve implicar a problemática
da formação dos indivíduos, com vistas
à realização das suas tarefas colocadas 3.1 Por uma ética e moral
pelo desenvolvimento histórico da huma- emacipatórias
nidade (WOJNAR, 2010, p.138).
Dermerval Saviani (2010, p.98), ao ser
A sustentabilidade de práticas possíveis indagado sobre “ética e moral”, declara que:
teóricas em educação escolar, para o processo
Correntemente as palavras “ética” e
construtivo e educativo da cidadania e da “moral” são usadas, de modo geral, como
democracia, compreende ações direcionadas sinônimos, significando os princípios
à retomada do projeto de hominização que e normas da boa conduta ou a própria
envolve: princípios de ética e moral eman- conduta quando guiada por regras que
cipatórias para todos; práticas solidárias, fra- conduzem a praticar o bem e evitar o mal.
ternas e compartilhadas; práticas reflexivas Em sentido técnico, a “ética” refere-se
contínuas sobre “cuidar e educar”, em prol aos princípios e normas como tais e, mais
da cidadania e da democracia igualitárias; especificamente, à ciência ou à parte da
processo permanente e dinâmico do plane- filosofia que estuda princípios e normas
jamento e gestão educacional na perspectiva buscando distinguir entre o bem e o mal,
de direitos humanos, cidadania, participação ao passo que a “moral” corresponde à
e democracia igualitária; avaliação periódica retidão dos costumes que conduzem a
caracterizada como contínua, cumulativa e ações consideradas corretas e meritórias
no seio de uma determinada comunidade
diagnóstica do projeto educativo-pedagógico
que compartilha um mesmo sistema de
da escola, visto que
valores.
A concepção do homem toma, por isso,
um caráter social e histórico; o homem Percebe-se que a inserção da democrati-
converte-se num ser concreto que atua zação cidadã plena enfrenta barreiras, princi-
na realidade e a reflete nas suas vivên- palmente no que diz respeito às questões de

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ética e de moral. As questões ética e moral, comunidade em que a Escola se insere), a


tendo como princípio o processo histórico- partir dos problemas que a escola enfrenta em
social crítico, necessariamente, contraem termos de (não)democracia e (não) cidadania.
divisibilidade, classificação, temporalidade
e territorialidade, ou seja, nessa perspectiva
3.4 Reelaboração da matriz curricular
é inadmissível pensar ética e moralmente em
tempos e espaços diversos e diferenciados Existe possibilidade de reorganização
com comportamentos, atitudes e hábitos da matriz curricular que se configurará em
também diversos e diferenciados. Há uma plano de estudos, através de eixos temáticos
necessidade de se estabelecerem umas ações integradores das diferentes áreas de conheci-
rigorosas, reflexivas e críticas. É impossível mentos, na perspectiva de uma escola cidadã
conceber ações que se ajustem em conformi- que inclua a avaliação escolar na dimensão
dade com o momento e/ou com as situações. crítica, participativa e cooperativa.
Isso porque ética e moral emancipatórias pos-
suem em seu bojo um processo permanente e
3.5 Oficina de Cidadania
contínuo de radicalização. Não há lugar para
meio-termo. Com o propósito de se trabalhar uma
A partir daí, analisamos a necessidade de das problemáticas referidas pela ação
se construírem e ou se apresentarem modelos diagnóstica, tendo como princípio a gestão
de pessoa humana ética e moral, a fim de que democrática, é possível incluir nas oficinas
possamos restituir o que é do humano e de pedagógicas temáticas que envolvam situa-
sua natureza própria. Para tanto, acreditamos ções do cotidiano social, tais como: violência,
que é possível fazer emergir, nos alunos de corrupção, acesso aos serviços públicos,
Educação Básica, reflexões e práticas de direitos humanos, participação, democracia,
democracia, de cidadania e, por conseguinte, política e políticos, entre outras.
de direitos humanos.

3.2 Ressignificação do projeto


Considerações finais
político-pedagógico da escola
Após realizarmos o estudo sobre “demo-
Sustentado em vivência de práticas demo- cracia e cidadania na educação escolar”, em
cráticas, participativas e cidadãs, isso porque que foi possível levantar algumas questões
a construção do projeto político-pedagógico que consideramos necessárias à prática pe-
da grande maioria das escolas configura-se dagógica consciente e reflexiva, podemos
em fragmentos de democracia, de cidadania e
afirmar ainda, que as possibilidades de ações
de direitos humanos. A Escola, em seu todo,
precisam considerar os diferentes conceitos
necessita indagar-se sobre quais práticas
e posicionamentos sistematizados cientifica-
dominantes vem protagonizando.
mente pelos pesquisadores, e denunciados na
prática pedagógica.
3.3 Pedagogia de Projeto Acreditamos, inicialmente, que a questão
Interdisciplinar da cidadania crítica implica práticas demo-
Tendo como princípio a gestão democráti- cráticas solidárias, participativas e coletivas,
ca e participativa de todos os sujeitos educa- se desejarmos uma cidadania emancipatória
tivos (pais, alunos, funcionários, professores, e crítica.

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Contudo, é imprescindível a revisão de primam pela dificuldade de ação reflexiva


conceitos e estratégias políticas que en- da prática pedagógica. O imediatismo, o
volvem o exercício democrático cidadão. consumismo, a produção desenfreada, para
Observamos que há “práticas democráticas fins de resultados, bem como as posições
objetivas e subjetivas, com o propósito de sobre Escola, sobre conhecimento, sobre
controle, de poder centralizador” e há “pra- habilidades e sobre competências necessárias
ticas democráticas objetivas e subjetivas”, à formação humana para ajustes de mercado,
com o propósito de educar e cuidar, ou seja, confundem-se e desqualificam outras práticas
existem determinantes para práticas de alie- pedagógicas.
nação dos indivíduos e existem práticas que Tais fenômenos vêm emergindo cada vez
buscam a emancipação crítica. Porém, as mais. Aqueles(as) professores(as) que se
práticas dominantes sociais e educativas, com integram em uma proposta dessa natureza,
vistas à democracia, envolvendo fins objeti- exercício crítico de cidadania e democracia
vos e subjetivos desconhecidos pelo todo e em sua prática pedagógica na perspectiva de
conhecidos por alguns vêm sobressaindo-se educar e cuidar, são por sua vez, barrados
no meio social e educativo, o que dificulta e ou pelo próprio sistema, ou pelos próprios
obstaculiza as possibilidades e disponibili- alunos6.
dades de participação e comprometimento
Além disso, acrescentamos a necessi-
crítico social.
dade de indagar sobre a afirmativa de que
Parece que, no exercício democrático, as “democracia é o exercício da maioria”. De
intenções de uns sobre os outros, excluindo que maioria estamos falando? Como essa
desejos e necessidades de todos, constituem maioria se constitui? Quais as oportunidades
normalidade, em que delineiam ações sobre e condições a ela oferecidas?
os outros se esquecendo de delinear ações
De qualquer maneira, mesmo conside-
com os outros. Isso faz com que seja alimen-
rando a complexidade, envolve “democra-
tado, o pensamento dicotômico entre os que
cia e cidadania escolar para fins sociais”,
pensam e os que fazem.
permanecemos acreditando e investindo em
Por outro lado, vimos também que as sociedades justas, igualitárias, democráticas
questões existenciais, no que se refere a de- e cidadãs para todos, sem exclusão de classe,
mocracia e cidadania na Educação escolar, raça, credo e/ou ideologia política.

NOTAS
1
Exercício de Docência nas Disciplinas Política Educacional e Organização da Educação Brasileira e
Planejamento e Gestão Educacional nos cursos de Licenciatura e Pós-graduação lato-sensu.
2
No momento estamos desenvolvendo a pesquisa “Educação política: educação para a cidadania”.
3
O projeto de extensão “Educação para a cidadania” surge de outras Extensões realizadas e encontra-se
articulado com a atual pesquisa.
4
Histórias críticas contadas em aula pelo Prof. PhDr. Ricardo Rossato (RS).
5
Aqui nos referimos ao pensamento positivista de divisão de classes, classificação e seriação de indi-
víduos, entre outros.
6
Essas questões são expostas pelos alunos de Graduação e pelos professores de diferentes níveis de
Ensino no exercício da docência. Salientam eles que os familiares, gestores, em sua grande maioria,
exigem conteúdos para fins de mercado de trabalho e/ou para concurso de vestibular e/ou ENEM, e/
ou prova Brasil, etc.

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DEMOCRACIA E CIDADANIA NA EDUCAÇÃO ESCOLAR

AUTORES

Mara Rúbia Bispo Orth - Professora Coordenadora do projeto de Pesquisa “Educação po-
lítica: educação para a cidadania”. Coordenadora do projeto de Extensão “Educação para a
cidadania”. Pedagoga; Orientadora Educacional; Mestre em Educação. Exerce docência na
URI-Campus de Erechim.
Marina Medeiros - Acadêmica do Curso de Pedagogia da URI Campus de Erechim. Bolsista
de Pesquisa do projeto “Educação política: educação para a cidadania”.
Giovana Pereira - Acadêmica do Curso de Pedagogia da URI-Campus de Erechim. Bolsista
de Extensão do projeto “Educação para a cidadania”.

REFERÊNCIAS

BAUMANN, Zygmunt. A sociedade individualizada: vidas contadas e histórias vividas. Rio de Ja-
neiro: ZAHAR, 2008.
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. ed.6. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
_____Pedagogia do oprimido. 32 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.
MELLO, Leonel Itaussu Almeida. John Locke e o individualismo liberal. In: WEFFORT, Francisco
(Org.). Os clássicos da política. ed.12 São Paulo: Ática, 1999.
MORIN, Edgar e MOIGNE, Jean-Louis. A inteligência da complexidade. ed.2 São Paulo: Petrópolis,
2000.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. O contrato social. ed.3. Trad. Antonio de Pádua. São Paulo: Martins
Fontes, 1996.
SAVIANI, Dermerval. Interlocuções pedagógicas: conversa com Paulo Freire e Adriano Nogueira e
30 entrevistas sobre educação. Campinas(SP): Autores Associados, 2010.
WOJNAR, Irena; JASON Ferreira Mafra (org.). Bogdan Suchodolski. Recife: Fundação Joaquim
Nabuco, Editora Massangana, 2010. Disponível em: http://www. mec.gov.br/dominiopublico/coleção
educadores.

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