“ Conceitos de Ética ao Longo do Tempo”

Falar sobre ética remete-nos para um complexo campo de definições sociais, culturais, educacionais e epistemológicas de difícil resolução, principalmente se tivermos em atenção uma sociedade que, supostamente, parece prezar pela sua falta. A melhor maneira de tentar compreendê-la é talvez estudar alguns dos autores que, ao longo de vários séculos, sobre ela se debruçaram, sem no entanto, nos coibirmos de dar uma definição da mesma, com base na etimologia da palavra. A origem da palavra remonta ao grego "ethos", tendo o seu correlato no latim "morale", ambas carregando o mesmo significado: conjunto de condutas, aspectos relativos aos costumes. Segundo o dicionário Aurélio, a ética é encarada como ―o estudo dos juízos de apreciação que se referem à conduta

humana susceptível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada sociedade, seja de modo absoluto; moral‖ (Ferreira, 1986, p. 288).
Esta definição serve de ponto de partida para que se possa perceber minimamente o objecto de estudo da ética para melhor compreensão dos pressupostos teóricos defendidos pelos autores abaixo mencionados, a propósito da mesma. Assim:

ARISTÓTELES
A Ética, enquanto disciplina sistematizada, remonta a Aristóteles (384-322 a.c.) com a ―Ética a Nicómaco‖, em dez livros. Para Aristóteles (2006), a principal função da ética está em delimitar o bom e o mau para o homem. O objectivo da ética, para este autor, era a felicidade e esta era a ―vida boa‖ que corresponderia ―à vida digna‖. O fim supremo da actividade humana era, assim, a felicidade e porque o homem é um ser racional, só é feliz quando vive de acordo com a razão, praticando a virtude, competindo-lhe escolher os meios para atingir o referido fim supremo. O homem é livre podendo escolher entre a virtude ou o vício. Para o autor existem duas virtudes fundamentais: 1. A virtude intelectiva – exercício da razão (dianoética) e 2. A virtude moral – o domínio da razão sobre os impulsos sensíveis, determina os bons costumes (ethos) A virtude moral consiste em escolher o justo meio. Agir na justa medida é a excelência. A moderação é não praticar o excesso, nem agir por falha ou por excesso. Por sua vez, a capacidade de escolha é a potência que se aperfeiçoa com o exercício; isto é, o hábito regula a acção – somos justos se praticarmos a justiça. A ética é, pois, uma prática, refere-se á vida do humano no mundo. Os conceitos básicos da sua ética são: virtude, justo meio, discernimento, equidade e amizade. Agir bem requer esforço e discernimento (Boto, 2002).

segundo este autor. esperança. necessariamente. p. ou leis. em relação aos outros. Tomás de Aquino é a noção de Bem comum.142). tributária de Santo Agostinho. é interesse público. Na sua moral. Estes conceitos centrais da ética de Aristóteles são. vivendo racionalmente e tendo consciência disso (a virtude é acção consciente segundo a razão).Em sentido restrito. força – que controla a irascibilidade e temperança – que controla os prazeres sensuais. tanto na esfera colectiva como na acção particular. podemos dizer que a ética representava um tratado das virtudes que permitisse ao homem levar uma vida feliz no seio da sociedade. s/d). S. Aristóteles recorda no seu Tratado da política que o bem da vida pública é a justiça. Política.‖ Há aqui uma subordinação da ética à política: ―os tratados éticos e os políticos pertencem a um mesmo estudo. ― a vida feliz consiste no livre exercício da virtude e a virtude no meio-termo. s/d. 2002). Ética e política são práticas que se definem pela acção – agindo eticamente é que adquirimos a prática da virtude. transpostos para o plano político. com correcção. são: prudência. é que nos tornamos educadores (Boto. amor e caridade (Babo Lança. classificado como política‖ (Aristóteles. A ideia central a reter de S. (disposições práticas para viver rectamente e ―fugir‖ ao mal). As virtudes na relação com Deus são: fé. referindo que. O que dizemos da virtude e do vício do Estado deve dizer-se do governo que é a vida de todo o Estado. educando. A principal característica da moral aristotélica é. A lei divina: revelada pelo Antigo e Novo Testamento. S. bem comum. justiça e equidade onde ―cada um melhor encontra aquilo de que necessita para ser feliz‖ (Aristóteles. da ética cristã. compreendida como expressão dum interesse superior. Tomás de Aquino (1225-1274) A sua obra principal intitula-se Summa Theologiae (Suma Teológica). Existem diferentes direitos. que a melhor vida deve ser a vida média. o racionalismo – a razão é essência característica do homem que realiza a sua natureza. 2006). Tomás de Aquino opera a síntese do aristotelismo e da tradição cristã ocidental. encerrada nos limites dum bem-estar que toda a gente pode conseguir. A lei natural: inscrita em cada ser e que compreende a) O instinto de conservação b) O instinto de reprodução e . igualmente. donde se segue. em lugar da felicidade de Aristóteles. assim. como fim último). As virtudes. de carácter simultaneamente racional e divino (ideia de salvação. movimento da criatura racional para Deus. o homem deve encontrar uma conduta voluntária de acordo com a sua natureza. 2. justiça – cujo fim é o bem comum. e Bem comum: 1.

É o Bem comum que deve organizar a vida política – subordinação da política à ética (Rochet. cuja principal função reside em controlar os nossos instintos. Procede directamente da lei natural. isto é. roubamos. Emmanuel Kant (1724-1804) O Iluminismo tem em Kant o primeiro grande pensador da ética da Idade Moderna. de ordem. influenciado pela revolução Copernicana. mas com dois usos e à experiência possível Uso prático – ética. o que dá sentido ao corpo social e ao homem enquanto indivíduo como actor social. Estas leis variam segundo o lugar e o tempo (Babo Lança. O Bem comum. Kant (1989) refere que os seres humanos devem ser encarados como fins e não meios para o alcance de determinados interesses . Para Kant (1980) deveríamos submeternos ao dever. 3. ou conciliá-los ou abdicar do individual porque. Para conciliar a liberdade individual com as questões da comunidade é necessário: fazer prevalecer o Bem comum sobre o individual. razão limitada 1) Razão – una. mentimos. postulando um dualismo em que o homem é: Uso teórico . ambiciosos. cada sujeito também se pode realizar. daí a necessidade premente de uma ética que estabeleça um conjunto de valores que condicione os seres humanos.―por natureza somos egoístas. cruéis. acção 2) Sensibilidade – capacidade de receber representações dos objectos .c) A subordinação das paixões à razão o que se traduz na ordem política pela subordinação dos interesses particulares ao bem comum.‖. O Bem comum é. Ao contrário de S. é aquilo a que deve tender cada grupo humano em cada momento da sua história para atingir o fim racional que a sua natureza lhe atribui. que é um bem moral. 2006). Tomás de Aquino que tinha uma visão teocêntrica da ética – o homem cumpria as normas dadas por Deus. agressivos. passa para uma visão antropológica. A lei humana (necessidade de partilha. o que dá sentido à comunidade é o Bem comum. Há aqui uma ruptura com a filosofia política de Aristóteles que fazia proceder a qualidade do homem da qualidade do regime político. de finalidade da existência): direito das pessoas e direito positivo. portanto. ávidos de prazeres que nunca nos saciam e pelos quais matamos. 1998). destrutivos.conhecimento. etc. pois é através dele que cada um se pode realizar. Kant. através do comum.

como a fenomenologia e a hermenêutica. se junta à liberdade do outro e do respeito por esta (Ricoeur. a ética fica ligada à esfera do desejo (desejo de ser e esforço para existir). Como se expressa. O primado da razão prática revela que a filosofia kantiana tem uma preocupação essencialmente ético-religiosa. Este dado é importante porque permite estreitar as relações entre ética e liberdade. isto é. Entra-se verdadeiramente na ética quando a afirmação de si. A autonomia (liberdade) moral do homem torna-se o princípio da moralidade (razão prática que elabora a sua própria lei moral). 1983. Ricoeur põe em destaque a opção humana de percorrer esse trajecto de liberdade. a lei moral. do tu (o respeito pelo outro) e do ele (a lei). das normas.42): ―É preciso distinguir entre moral e ética? A dizer a verdade. então a lei moral? Através do imperativo categórico que obriga ao cumprimento da lei independentemente de qualquer condição. A intenção ética (busca de valores) precede. Só o dever acompanha o cumprimento da lei moral. A ética é definida como uma perspectiva que ―visa à verdadeira vida com e para o outro nas instituições justas‖. 1990). Ricoeur conciliou o estudo profundo de campos diversos. Pol Droit. pela qual cada um de nós se actualiza num processo aberto e sem fim da conquista da liberdade (Rocha. 2008). a lei moral baseia-se no sujeito mas este deve agir de acordo com uma lei que sirva para todos. A ética possibilita uma nova metafísica e abre o caminho para a religião. 2008). Cada um de nós posiciona-se entre um ser-dado e um poder-ser. O fundamental é que o homem saiba regular a sua acção de acordo com a lei universal que ele próprio criou (Reis. 1991.A lei moral é elaborada pela razão prática e tem. Paul Ricoeur (1913-2005) A obra de P. á iniciativa. 2008). ―Age sempre de modo a que a tua acção se possa tornar uma lei universal‖. A moral aparece num segundo momento. A ideia de liberdade liga-se ao poder ser. portanto. assim. colocando esta última no ponto de partida da ética. desde que se trate de definir uma norma ética fundamental de aplicação universal (Ferro & Tavares. nada na etimologia ou na história do uso das palavras o impõe: uma vem do . A ética pode ser trabalhada a partir do ―eu‖ (a minha liberdade). reservando à moral o espaço da lei. pelas normas e pela obrigação (Rocha. a ética é entendida como uma ―odisseia da liberdade‖. entre um facto e um fazer. p. Deste modo. O imperativo categórico impõe-se sempre. O filósofo Paul Ricoeur propõe o primado da ética face à moral. Então. origem no Homem e não em Deus. caracterizando-se pelos imperativos da lei.

A ética aponta para o universal. Pode-se facilmente reconhecer na distinção entre intenção de vida boa e obediência às normas a oposição entre duas heranças: a herança aristotélica. investiguei as condições de vida dos . obrigações. 2004). juízos morais e como devemos conduzir a nossa vida. por isso. e o termo ‗moral‘ para o lado obrigatório. para melhor compreensão do seu pensamento. A ética deve ser encarada tendo em conta estas duas dimensões. Peter Singer (1946) Este filósofo contemporâneo esteve em Lisboa em Junho de 2000. na qual a moral é definida pelo carácter de obrigação da norma. Significa isto que a ética aplicada é de algum modo uma investigação empírica? Peter Singer: A ética aplicada só pode ser estudada possuindo um conhecimento adequado dos factos relevantes. É isto a ética aplicada. interdições caracterizadas ao mesmo tempo por uma exigência de universalidade e por um efeito de constrição. sobre a natureza do mundo e como devemos agir. 1990). Apesar de parte da discussão destas matérias ser conduzida a um nível bastante abstracto. e ambas remetem à ideia dos costumes (ethos. todavia. para proferir uma conferência. para as quais não há qualquer método científico para encontrar respostas. é também possível aplicar estas teorias a questões mais práticas. fim). e uma herança kantiana. mores). com as quais nos confrontamos realmente nas nossas vidas quotidianas. A regra parece ser a mediação entre duas liberdades. outra do latim. marcado por normas. pela transcrição de um excerto da entrevista. na qual a ética é caracterizada por sua perspectiva teleológica (de télos. portanto por um ponto de vista deontológico‖ (Ricoeur. Optou-se. pode-se. a expressão "ética aplicada" parece uma contradição. tem de se apoiar na investigação empírica e por vezes os próprios especialistas em ética aplicada podem conduzir uma investigação empírica considerável (como eu fiz quando. Depreende-se que Ricoeur pretende articular desejo e norma – objectivo da vida boa versus formalismo da lei. direccionado para uma macro ética. conforme se ponha o acento sobre o que é estimado bom ou sobre o que se impõe como obrigatório. a norma para o juízo moral. A ética é o ramo da filosofia que se dedica a questões sobre valores. distinguir uma nuance. em que a globalização deve produzir o máximo de bem-estar e de desenvolvimento para todos (Singer. para o meu livro "Libertação Animal". no que diz respeito à natureza do juízo moral e no que diz respeito a teorias gerais que possam guiar a nossa conduta. É por convenção que reservarei o termo ‗ética‘ para a intenção da vida boa realizada sob o signo das acções estimadas boas.grego. em meados do ano 2000: ―Para as pessoas que encaram a filosofia como uma actividade completamente apartada da vida quotidiana. Pode dizer-nos o que é a ética aplicada e como encara a filosofia? Peter Singer: A filosofia é o estudo daquelas questões últimas. concedida a Desidério Murcho.

na sua urgência. referindo ainda: ―É doravante. Russ (1994) considera que da sociedade pós-moderna. que conta com um elevado número de livros e revistas. A disciplina é bem recebida pelos estudantes. Na segunda metade do século XX assistiu-se a um relativismo moral e ético que levaram a que alguns autores a introduzir a denominada ética procedimental que. Se déssemos aos interesses destes pobres o mesmo peso que damos aos nossos. . Hong Kong. Muito se poderia ainda pesquisar e estudar sobre Ética. Como encara o desenvolvimento da ética aplicada desde que começou a trabalhar na área? Peter Singer: Estou muito contente com o seu desenvolvimento. comungando ainda do princípio da universalidade ética referido por Russ (1994). vinculados numa responsabilidade colectiva‖.animais criados em quintas. daríamos esse dinheiro a organizações que ajudam essas pessoas a superar a sua pobreza e a tornarem-se auto-suficientes. Mas a ética aplicada não é em si uma investigação empírica. Japão. Alemanha. Singapura e outros — ensinam agora ética aplicada. quando eu era estudante. Isto significa que temos de nos colocar imaginariamente na posição deles. mais lato. Princípio D: só podem pretender à validade as normas susceptíveis de reunir o assentimento de todos os interessados enquanto participantes de uma discussão prática (Habermas. enfatiza as condições da sua elaboração – critérios éticos que devem presidir à elaboração das normas. emerge um paradoxo: de um lado a rejeição das referências tradicionais. Itália. como refeições em restaurantes caros. coisa que não existia há 30 anos. resumo. Se fizéssemos isto relativamente às pessoas mais pobres que vivem nos países menos desenvolvidos. reguladoras de uma determinada praxis) não dispensam a ética fundamental (domínio geral. por exemplo). Dinamarca. do outro uma necessidade de referências (ao nível da moral e dos valores). Pode explicar-nos o que é esse princípio e como pode ele mudar o modo como agimos e pensamos relativamente a questões como os direitos dos animais. assim como na nossa. a ajuda aos países pobres e o problema dos refugiados? Peter Singer: A universalidade é como a "Regra de Ouro". e de decidir o que fazer depois de dar tanto peso às suas preferências como o que damos às nossas. à escala planetária que se põem. O seu trabalho na ética aplicada foi crucial para estabelecer a respeitabilidade académica desta área. Suécia. como devíamos fazer. no entanto. As suas ideias éticas baseiam-se no "princípio da universalidade". a minha posição pessoal. Além disso. há uma bibliografia académica enorme na área. em lugar de avaliar a norma moral em si. que poderiam fazer uma grande diferença nas vidas dos pobres do mundo. Virtualmente todos os departamentos de filosofia do mundo de língua inglesa. ética como quadro de referência e ordem do compromisso). e mesmo de outros países — por exemplo. Quando adoptamos uma postura moral devemos considerar as questões do ponto de vista de todos os que serão afectados. ao facto de acreditar que as diferentes éticas aplicadas (específicas. 1991). veríamos que gastamos dinheiro em luxos. os problemas éticos. Israel.

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