Você está na página 1de 49

SAÚDE MENTAL DO

TRABALHADOR
PSIC. TIAGO R.R.R.
08/17302
O mundo está mudando:

“Não podemos nos banhar duas vezes no mesmo rio, porque o rio não
é mais o mesmo”.
Heráclito (500 A.C.)

“Nada do que foi será / De novo do jeito que já foi um dia / Tudo
passa, tudo sempre passará”.
Lulu Santos e Nelson Motta.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) define a
saúde como:

"um estado de completo bem-estar


físico, mental e social e não somente
ausência de afecções e enfermidades".
CRÍTICAS À DEFINIÇÃO DA OMS (Dejours, 1991):

a. Saúde é estado de completo bem-estar => inatingível


b. Normalidade é um estado em que as doenças estão estáveis,
devido à ação de estratégias defensivas
c. Saúde mental nunca é verdadeiramente atingida
d. É evidente a relação entre saúde física e saúde mental

Portanto
- Trabalho => operador de Saúde ou Doença
- Importante na construção da saúde mental => Auto-Realização
- Reconhecimento e Relações Interpessoais
TRABALHADOR

LATENTE MANIFESTO
(por fora)
(por dentro)
 Saúde Ocupacional consiste na promoção de condições
laborais que garantam o mais elevado grau de qualidade de
vida no trabalho, protegendo a saúde dos trabalhadores,
promovendo o bem-estar físico, mental e social, prevenindo e
controlando os acidentes e as doenças através da redução das
condições de risco.

 A saúde ocupacional não se limita apenas a cuidar das


condições físicas do trabalhador, já que também trata da
questão psicológica.
TRABALHO

TRIPALIUM
(latim)
SOFRIMENTO

PRAZER
NO MUNDO

 5.000 pessoas morrem diariamente durante o


trabalho (somente no mercado formal);

 Para cada registro, estima-se 3 mortes sub-


notificadas;

 Doenças do Trabalho: 160 milhões de pessoas/ano em


todo o planeta.
(OIT, 2003)
Em pesquisa sobre a procura de atendimento psicoterápico pelo profissional da saúde,
realizada com 57 funcionários de um hospital (Bonato, 1994), levantou-se que:
36,8% da população pesquisada expressou queixas relacionadas ao trabalho, dentre
elas:
Estresse - 51,7%

Desmotivação -48%

Manifestam-se na forma de:


Ansiedade na relação com as chefias,

Irritação, nervosismo, falta de ânimo para o trabalho,

Desejo de transferência,

Dificuldade na relação com os colegas.


 OS PRINCIPAIS PROBLEMAS DE SAÚDE NAS ORGANIZAÇÕES.

- alcoolismo e dependência química de drogas, medicamentos, fumo, etc.


- AIDS: é a síndrome de deficiência imunológica adquirida que ataca o sistema que
protege o organismos de doenças.
- estresse no trabalho, ansiedade, aflição e angustia.
- exposição a produtos químicos perigosos, como ácidos, asbestos, etc.
- exposição a condições ambientais frias, quentes, contaminadas, secas, úmidas,
barulhentas, pouco iluminadas, etc.
- hábitos alimentares inadequados: provocando obesidade ou perda de peso.
- vida sedentária, sem contatos sociais e sem exercícios físicos.
- automedicação e ausência de cuidados médicos adequados.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE
- População ativa -

• Transtornos Mentais Menores (TMM): 30%

• Transtornos Mentais Graves (incapacitantes): de 5 a


10%.
BRASIL
 2002: 15.029 pessoas afastadas definitivamente das
atividades laborais por doenças relacionadas ao
trabalho;

 Dados referentes somente à trabalhadores com


carteira de trabalho assinada.

(PREVIDÊNCIA SOCIAL DO BRASIL, 2002)


LISTA DE TRANSTORNOS MENTAIS E DO
COMPORTAMENTO RELACIONADOS AO TRABALHO,
DE ACORDO COM A PORTARIA/MS N.° 1.339/1999
 Demência em outras doenças específicas classificadas em outros locais
 Delirium, não-sobreposto à demência, como descrita
 Transtorno cognitivo leve
 Transtorno orgânico de personalidade
 Transtorno mental orgânico ou sintomático não especificado
 Alcoolismo crônico (relacionado ao trabalho)
 Episódios depressivos
 Estado de estresse pós-traumático
 Neurastenia (inclui síndrome de fadiga)
 Outros transtornos neuróticos especificados (inclui neurose profissional)
 Transtorno do ciclo vigília-sono devido a fatores não-orgânicos
 Sensação de estar acabado (síndrome de burn-out g, síndrome do
esgotamento profissional)
CLASSIFICAÇÃO NO CID

Não há grupo de diagnóstico de doença psíquica relacionada ao trabalho.


Associam-se em geral dois capítulos:

F => Transtornos Mentais e Comportamentais


+
Z56.5 => Problemas Relacionados com o Emprego e com o Desemprego
Y96 => Circunstância Relativa às Condições de Trabalho
BRASIL

 Gastos: R$ 7, 2 bilhões em benefícios do INSS com


trabalhadores acidentados e aposentadorias
especiais, segundo dados do Ministério do
Trabalho e Emprego;

 Perda com acidentes e doenças relacionadas ao


Trabalho equivale até 4% do Produto Interno
Bruto (PIB).
BRASIL

 De um universo de 18 milhões de pessoas com carteira


assinada, no período de 4 anos (1998-2002):

 270. 382 benefícios concedidos a pessoas com algum


tipo de Transtorno Mental.
4 GRUPOS DE DOENÇAS MENTAIS
Entre os Transtornos do Humor ou Afetivos:

 Depressão é mais prevalente 65% dos


afastamentos.

 INSS gasta R$ 495 milhões, apenas com os Transtornos


Depressivos.
 Século XXI: 2a causa para carga global (no
mundo) de doença;

 2020: principal causa de incapacitação para o


trabalho.

(WHO, 2003)
EM ORDEM DE PREVALÊNCIA:
 2o grupo:

TRANSTORNOS NEURÓTICOS RELACIONADOS


AO ESTRESSE;

 3o grupo: Esquizofrenias;

 4o grupo: Consumo de Álcool e Drogas.


AMBIENTE DE TRABALHO

 Afeta a saúde física ou mental do


trabalhador

 A vida ocupacional: impacto


continuado de rápidas e profundas
transformações, e.g.:
Para Christophe Dejours(2006) é impossível cumprir à risca todas as instruções ou tarefas
passadas aos empregados por seus superiores. Caso isto ocorresse, seria o que conhecemos
como operação padrão, o que inviabiliza a rotina produtiva empresarial.

Segundo Dejours(2006), os trabalhadores usam artimanhas “semicladestinamente” para


suprimir a defasagem entre a organização do trabalho prescrita e a organização do trabalho
real.

Agindo desta maneira, os trabalhadores entram em sofrimento, deletério à sua saúde.

Fato é que a estrutura do mercado globalizado passou a integrar a subjetividade do


empregado, afetando o meio ambiente de trabalho, consequentemente a saúde mental do
trabalhador.
Principal Fator Psicossocial de Risco no
Trabalho

ESTRESSE

SAÚDE MENTAL
Definição de Estresse Ocupacional

“O Estresse no Trabalho ocorre quando as exigências

do trabalho não se igualam às capacidades, aos

recursos ou às necessidades do trabalhador”.

(NIOSH, 1999)
FATORES DE ESTRESSE

 Sobrecarga de trabalho
 Organização do tempo no trabalho
 Nível de participação
 Possibilidade de desenvolvimento e ascensão da carreira
 Salários
 Papel exercido
 Relações interpessoais
 Cultura organizacional
 Interface trabalho/casa

(OSHA, 2004)
Estresse afeta diferentes pessoas de diferentes
maneiras e pode levar a:

Violência no trabalho

Absenteísmo

Queda de Produtividade

Comportamento aditivo (consumo de cigarros, álcool,


substâncias ilícitas, promiscuidade sexual, compulsão
a novas tecnologias, etc..)
 Problemas psicológicos: irritação, falta de
concentração, dificuldade de tomar decisões, distúrbios
do sono, entre outros;

 Estresse prolongado ou eventos traumáticos podem


dar origem aos TM ( ansiedade e depressão, etc...).
ESTRESSE AFETA A ORGANIZAÇÃO:
 Absenteísmo

 Rotatividade de pessoal

 Problemas disciplinares

 Práticas inseguras de trabalho

 Performance e produtividade diminuídas

 Tensão e conflitos entre colegas de trabalho

 Prejudica a imagem da organização e dos trabalhadores, aumentando os processos


trabalhistas e ações.
AVANÇO NO SÉCULO XX

 A compreensão da situação de trabalho não apenas


a partir das Condições de Trabalho ou das
características do trabalhador, mas também pela
análise da Organização do Trabalho.
DESAFIOS
Dadas as características dos Transtornos Mentais:

Estabelecer sua inter-relação (nexo causal) com o


Trabalho, representa um desafio necessário e
complexo para os pesquisadores e os profissionais
da área da Saúde e do Trabalho.
CAMPO DA SAÚDE MENTAL DO
TRABALHADOR

 Necessidade crescente de robustez teórica e


conceitual.

 Mais dados empíricos gerados em nosso meio


que revertam efetivamente para a prevenção e a
promoção da saúde e melhoria da Qualidade de
Vida Geral do Trabalhador.
DIAGNÓSTICO CLÍNICO

 Anamnese bem detalhada é fundamental

 Difícil estabelecer relação entre trabalho e


transtornos psíquicos.

 Evitar generalizações; estudo de caso a


caso.
Anamnese

 - perguntar sobre o trabalho


 - explorar relacionamento no trabalho e fora dele
 - considerar histórias ocupacionais e correlação com vida do
paciente
 - informações sobre as condições de vida do paciente
 - informações sobre comunicação e relacionamentos
interpessoais com colegas e superiores
 - apontar exposições de risco: calor, frio, umidade, ruído etc.
 - condições de higiene e circulação no trabalho
 - características do posto de trabalho, mobília e
instrumentos
 - horários de trabalho e turnos
 - entender exigências físicas, mentais e afetivas
 - abordar percepção do trabalhador sobre os riscos
ocupacionais
 - visão do trabalhador com relação à sua trajetória
 - considerar riscos combinados e simultâneos no
trabalhos
 - sintomas gerais : fadiga, tensão, distúrbio do sono
 - indagar sobre o consumo de drogas
POSSÍVEIS SOLUÇÕES

 Reconhecimento e aceitação da Saúde


Mental como algo pertencente à organização,
não somente ao individuo ao sistema externo
de saúde. E.g.

 Implementação efetiva de programas de


prevenção, tratamento e reabilitação em SM.
NA EMPRESA
 Incluir um sistema de detecção precoce dos possíveis agravos;

 Envolver os participantes no gerenciamento do projeto;

 Integrar a SM na filosofia de gerenciamento;

 Incluir diferentes níveis de intervenções: individual, no ambiente


social e nas condições de trabalho.
ASSÉDIO
MORAL
Destaca-se a definição de assédio moral proposta por
Hirigoyen (2005) que o considera como:

toda e qualquer conduta abusiva manifestando-se


sobretudo por comportamentos, palavras, gestos, escritos
que possam trazer dano à personalidade, à dignidade ou à
integridade física ou psíquica de uma pessoa, pôr em
perigo seu emprego ou degradar o ambiente de trabalho.
Apenas no final do século passsado se
considerou o assédio moral como “um
fenômeno destruidor do ambiente de
trabalho”, capaz de trazer impactos tais
como decréscimo da produtividade e
aumento do absenteísmo, em função
dos desgastes psicológicos que provoca.
Hirigoyen (2005) destaca que o assédio moral se caracteriza como
uma guerra psicológica no ambiente de trabalho e pode ocorrer de
duas maneiras:

 quando há abuso de poder, que é mais facilmente


desmascarado e não é necessariamente aceito pelos
empregados;

 sob uma forma mais perversa, onde ocorre uma


manipulação que pode ocasionar problemas maiores.
Nas formas ditas mais perversas, o assédio moral pode se dar sob diferentes
modos:

quando alguém ignora o outro no trabalho;


o desqualifica;
adota condutas que faz com que o outro perca a autoconfiança; submete o
outro a tarefas desqualificantes, as quais exijam competências muito aquém
do que ele seria capaz de realizar;
 induz a pessoa ao erro para submetê-la a uma situação constrangedora e
prejudicar a sua imagem.
Nem sempre são pessoas frágeis que sofrem o assédio, mas, por exemplo, uma pessoa que não
aceita o autoritarismo de um chefe pode ser visada por não se deixar subjugar.

O assédio moral também pode decorrer da dificuldade que as pessoas têm de aceitar as
diferenças. Assim, homossexuais, mulheres, pessoas de raças e religiões diferentes podem
constituir grupos que sofrem mais o assédio moral.
COMO LIDAR COM O ASSÉDIO MORAL NA
ORGANIZAÇÃO?

Trata-se de uma situação delicada que requer o suporte da organização para que
a pessoa que sofre o assédio moral possa se sentir segura para explicitar tal
situação e quem o pratica perceba que tal comportamento é inaceitável naquela
realidade.

Assim, a organização deve buscar fortalecer uma cultura que priorize valores
éticos e morais em que a qualidade da convivência humana seja privilegiada. O
local de trabalho deve ser um lugar de realização e crescimento pessoal e
profissional e não de sofrimento.
Essa cultura pode ser desenvolvida a partir da veiculação de
mensagens ou da incorporação da questão do assédio moral no
texto dos códigos de ética e nas diversas ações educacionais
desenvolvidas na organização, principalmente, aquelas voltadas para
o desenvolvimento de seu grupamento gerencial.
LEGISLAÇÃO

Lei nº 9455, de 7 de abril de 1997.


Artigo 1º - Constitui crime de tortura:
I - constranger alguém com emprego de violência ou grave ameaça, causando-lhe sofrimento
físico ou mental:
   a) com o fim de obter informação, declaração ou confissão da vítima ou de terceira pessoa;
   b) para provocar ação ou omissão de natureza criminosa;
   c) em razão de discriminação racial ou religiosa;

II - submeter alguém, sob sua guarda, poder ou autoridade, com emprego de violência ou grave
ameaça, a intenso sofrimento físico ou mental, como forma de aplicar castigo pessoal ou medida
de caráter preventivo.

Pena - reclusão, de dois a oito anos.


REFERÊNCIAS

CHIAVENATO, Idalberto. Gestão de Pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas organizações.
3ª ed. – Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.
COHEN, Allan.; FINK, Stephen.Comportamento Organizacional: conceitos e estudos de casos. Rio
de Janeiro: Campus, 2003.
DEJOURS, Christophe. A banalização da injustiça social. Tradução de Luiz Alberto Monjardim. 7ed.
Rio de Janeiro:
Editora FGV, 2006.
FIORELLI, José Osmir. Psicologia para administradores: integrando teoria e prática. 6ª ed. São
Paulo: Atlas, 2009.
LIMONGI-FRANÇA, Ana Cristina. Psicologia do Trabalho: psicossomática, valores e práticas
organizacionais. São Paulo: Saraiva, 2008.
SIQUEIRA, Mirlene Maria Matos. Medidas do Comportamento Organizacional: ferramentas de
diagnóstico e de gestão. Porto Alegre: Artmed, 2008.
SPECTOR, P. E. Psicologia nas organizações. 3ª ed. São Paulo: Saraiva, 2010.
ZANELLI, José Carlos. BORGES-ANDRADE, Jairo Eduardo. BASTOS, Antônio Virgílio Bittencourt.
Psicologia, Organizações e Trabalho no Brasil. Porto Alegre: Artmed, 2004.
ZANELLI, José Carlos. O Psicólogo nas Organizações de Trabalho. Porto Alegre: Artmed, 2002.