P. 1
Do movimento negro às organizações de mulheres negras

Do movimento negro às organizações de mulheres negras

|Views: 2.160|Likes:
Publicado pordouglasf.xavier8014

More info:

Categories:Types, Research, History
Published by: douglasf.xavier8014 on Nov 02, 2010
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

01/11/2013

pdf

text

original

Uma história de lutas: Do movimento negro às organizações de mulheres negras

Por Douglas Xavier Graduando em Jornalismo Universidade Federal da Paraíba

Resumo:
Trazemos, neste artigo, um apanhado histórico das primeiras manifestações do povo negro, datadas pelo surgimento das associações voltadas para a causa racial. Passamos pela construção do Movimento Negro Unificado, importante marco para os negros no Brasil, significando diversas conquistas. E, na seqüência, destacamos a questão atual da mulher negra no país, também descrevendo o percurso de suas primeiras organizações, segundo indícios encontrados em pesquisas. Nesse último ponto, tratamos, em especial, do Grupo de Mulheres Negras da Paraíba – Bamidelê, ONG localizada na cidade de João Pessoa, atuante desde 2001 no Estado.

Palavras-chaves:
Associações de Negros, Movimento Negro Unificado, Mulheres Negras, Bamidelê.

Introdução A trajetória do movimento negro no Brasil, ou pelo menos o que inicialmente podemos identificar como posição de protesto dos homens e mulheres de cor1, não teve, como se pensa, sua gênese na década de 1970, durante a reabertura democrática; período em que eclodiram diversas “revoluções” na sociedade brasileira. Muito antes de existir um movimento negro de base sólida, que surgiu concomitantemente à aparição dos movimentos sociais e organizações sindicais, a questão racial já na década de 20 ganhava porte de luta social das classes subalternas2. A rigor, não se tratava de um movimento, mas de incitações da parte de grupos formados por negros insatisfeitos com a “liberdade” que lhes havia sido concedida, com a exclusão social enfrentada pela população de cor, e as normas
1 2

Termo preferível a negro/negra nas primeiras décadas do século XX. Ver em Fernandes (1978). Ribeiro (2006, p. 191-193) diferencia a sociedade em quatro grupos: classes dominantes, setores intermediários, classes subalternas e classes oprimidas. Nestas últimas estariam enquadrados os negros, mendigos, moradores das favelas, analfabetos e, segundo Ribeiro, aqueles incapazes de se organizarem e reivindicarem. Logo, consideramos que a organização do povo negro partiu daqueles que se achavam nas classes subalternas, entre assalariados rurais e o operariado.

1

sociais impostas brandamente pelas classes dominantes. O fim do escravismo significou para eles, de um lado a quebra das correntes de ferro, mas de outro o impedimento de exercer sua plena liberdade. Uns, foram absorvidos pela sociedade de classes3. Porém, grande parte ficou à míngua, compondo as classes oprimidas; sem emprego, sem sustento. Os negros e negras que, de imediato à libertação ou mais tarde, conseguiram se integrar à sociedade do trabalho, novamente tiveram como função o servir. Trocaram os senhores feudais pelos senhores das cidades. Isso em conseqüência da migração acarretada após a promulgação da Lei Áurea. A mulher, na maioria das vezes, acabava trabalhando como empregada doméstica em casas de famílias abastadas, assumindo condição de submissa. Em protesto a esse tipo de situação pela qual os negros passavam, submetendo-se ao empregador de maneira a repetir a relação existente entre senhor feudal e escravo, que surgiram as primeiras aspirações de organizações no meio dessa população. A motivação residia no anseio de experimentar a verdadeira liberdade, ou seja, de poder ter, poder ser, de igual para igual. Em outras palavras, de estar integrado no quebra-cabeça da sociedade – fazer parte dela. Tal era a realidade da época, que se falava numa “segunda abolição”, a fim de eliminar a discriminação racial da sociedade, dissipando as diferenças sociais. Mas a idéia de discriminação ou segregação era ignorada pela ampla maioria das pessoas das classes privilegiadas, e até mesmo entre alguns negros. Como se o fim da escravidão fosse suficiente para se afirmar que o Brasil era um país ajustado, onde os negros gozavam de liberdade. Florestan Fernandes (1978) revela as mobilizações de grupos negros durante a primeira metade do século XX em São Paulo, organizados em prol da “tomada da consciência, de crítica e de repulsa à situação do negro”. Essas associações existiram no período compreendido entre 1927 e 1945, porém muitas tiveram curta duração; foram poucas as que deram continuidade às suas atividades.
3

Fernandes (1978)

2

Esses primeiros “movimentos” são descritos pelo sociólogo (1978, pág. 27), a partir de determinados requisitos:
requisitos psicosociais e sócio-culturais dos movimentos sociais do ‘meio negro’ em termos: 1) da ressocialização do negro e do mulato; 2) da compreensão alcançada de que o preconceito e a discriminação raciais são ‘problemas sociais’ e devem ser tratados como tal; 3) do aparecimento de formações societárias que serviriam de base à organização e à expansão dos movimentos; 4) de polarizações sócio-dinâmicas, como o chamado “preconceito do negro”; 5) da radicalização do ‘mulato’; 6) da influência construtiva dos movimentos sociais com agências de diferenciação de papéis sociais e de controle social.

Uma das entidades criadas, de acordo com o levantamento impetrado por Florestan Fernandes em seu estudo, foi o Centro Cívico Beneficente Senhoras Mães Pretas. Esse registro nos leva ao pressuposto de que havia, ante aquele contexto, a auto-percepção das mulheres negras quanto a suas especificidades na luta social. Eis um indício que nos esclarece outro ponto: as mobilizações da mulher na perspectiva étnica não é um fenômeno recente, das últimas décadas. Como no caso do movimento negro, cuja semente germinava na primeira metade do século, assim aconteceu também à causa da mulher negra. Entretanto, as associações de negros centravam suas discussões e reivindicações, não na mudança das estruturas sociais4, mas no anseio de tornar o negro paritário ao branco, ou seja, de integrá-lo às classes. Os grupos negros daquela época não lutavam contra a estrutura social, e sim com o objetivo de alcançá-la. Reside nisso, de acordo com as palavras de Fernandes, uma das razões pela qual esses “movimentos” foram enfraquecidos e não resistiram, tendo muitos deles desaparecido. Os adventos da crise de 1929 e da Revolução de 30 causaram mudanças na sociedade, provocando uma atualização de concepção do protesto negro. Os “movimentos” que até aquele momento andavam em conformidade com as estruturas sociais estabelecidas pela existência das classes dominantes, e que

Termo muito utilizado por Fernandes (1978) e Ribeiro (2006); refere-se à hierarquia das classes de uma sociedade, que Darcy Ribeiro representa como um losango.

4

3

lidavam pacificamente com as dissensões sociais, imprimiram um novo teor político às suas reivindicações. Inicialmente, os negros viam, naquele cenário de alterações políticas e econômicas do país, uma esperança. Como se o momento histórico fosse capaz de abrir portas para a subversão das diferenças sociais entre brancos e negros. Porém, logo a esperança se desfez, pois o quadro permanecia imutável. Entre as entidades reivindicativas mais expressivas desse segundo momento esteve a Frente Negra Brasileira, criada em 1931; com uma atuação mais política e engajada. Através dessa nova organização, florescia a consciência da luta política particular da negritude. A Frente propunha a união entre todas as associações e grupos de formação negra, convocando-os a intervir no cenário político nacional, como vemos em seu manifesto, citado por Florestan Fernandes (1978, p. 30):
Unamo-nos, então, Patrícios! Unamo-nos, Associações Negras, para sermos força social, força moral, força econômica. FORÇA POLÍTICA, que possa ajudar os Poderes Nacionais a serem nacionais e a resolver o nosso problema no que compete à esfera deles e para virmos a ser nós mesmos também uma parcela do Poder Público num sentido radicalmente nacionalista, defendendo todas as reivindicações que favoreçam ao Negro e ao Brasil (...)

Em outro trecho da obra de Fernandes, identificamos a voz de esperança da FNB com o momento político do país, na década de 30, em que frisa também a percepção da causa da mulher negra (p. 35):
“Uni-vos, pela elevação moral, intelectual e econômica da Raça! Pela Dignidade da Mulher Negra! Pela dignidade e progresso do trabalhador negro! Pela afirmação política da Gente Brasileira na Constituinte quando vier e depois da Constituinte que vier. Pelo Brasil de nossos avós!”

Apesar do novo caráter mais incisivo, o embate pela questão negra nunca chegou a se caracterizar em forma de onda de violência, como ocorreu nos Estados Unidos5. A diferença se deu talvez pela própria distinção entre as estruturas sociais brasileiras e as daquele país.

5

Franklin & Moss, Jr., 1989 traçam toda a história de lutas e conquistas dos negros americanos.

4

Para Florestan Fernandes as organizações de negros não configuravam uma revolução, e sim um ensaio. Ele adjetiva a manifestação das associações de negritude ora como “surda e insufocável” ora como um “movimento apático”. E por esse último termo não consideramos essa insurgência do negro como a formulação de um movimento. Seria, pois, contraditório um movimento apático, sem ação. No período do pós-guerra, as associações negras parecem não ter sido muito expressivas. Essa inferência resulta das poucas referências ou registros a respeito. Entretanto, Clóvis Moura (1992) aponta o ano de 1954 como um momento de renascimento do negro, quando surgia, em São Paulo, a Associação Cultural do Negro. De fato, ocorreram diversos eventos do segmento nos anos seguintes.

Movimento Negro Unificado (MNU) Reencontramos, no final da década de 1970, a manifestação do povo negro, com a eclosão de uma forte organização – o Movimento Negro Unificado (MNU), fundado em 1978, em meio ao contexto da Ditadura Militar que estava em declínio no país. O MNU é resultado da efusão dos ânimos diante do assassinato de Robson Silveira da Luz, trabalhador negro que foi agredido até a morte por policiais, em São Paulo. O fato gerou fortes protestos dos movimentos negros, que naquele momento iniciavam uma articulação ampla entre si. Além do crime citado, diversas manifestações de preconceito e discriminação racial, também em São Paulo, motivaram a mobilização dos negros em direção à unificação de um movimento contra o racismo que se aplacava no Brasil de maneira mais exacerbada naquele período de repressão militar. Um exemplo disso, também marco do surgimento do MNU, é o caso ocorrido no Clube de Regatas do Tietê, na capital paulistana, onde atletas negros foram impedidos de utilizar a piscina do clube. A diretoria promoveu a segregação entre brancos e negros no local.

5

Esses foram momentos críticos e bastante significativos para a luta dos negros e negras brasileiros. Foi quando existiu claramente a opressão, manifestada de forma violenta, como ocorreu nos Estados Unidos no início do século XX, em que os negros americanos sofreram intensa rejeição e segregação por parte da população branca. Naquele país, podemos dizer que a discriminação assumiu caráter oficial. Pois, vinha por parte dos próprios governos, que estabeleciam normas, como a bem conhecida – da divisão dos lugares nos transportes públicos; estopim de uma onda de violência nos Estados Unidos. No Brasil, as manifestações negras não tomaram tão grande porte. Na verdade, houve momentos violentos sim, mas por parte da repressão militar. A resposta dos movimentos negros, ante aos casos aqui citados, foi de mobilização e levantamento da voz de protesto, com a intenção de “mostrar a cara” e a força do movimento negro, doravante unificado, desde aquele instante firmando suas reivindicações. Algo que importa ressaltar é a diferença entre os dois paises – EUA e Brasil, em relação à questão racial e ao surgimento dos movimentos negros e suas respectivas formas de atuação. O primeiro país apresentava uma sociedade claramente racista e segregacionista. Os negros americanos bem sabiam da sua condição, dos limites que lhes eram impostos, da existência da discriminação racial. Já no Brasil, havia o silêncio, o preconceito velado. Assim como hoje, quando ainda vivemos o mito da democracia racial6. Talvez, estejam ai as razões que expliquem o porquê de lá ter havido manifestações de caráter – em vezes – violentas, já que os negros americanos eram verdadeiramente agredidos, e aqui termos tido um processo de protestos e reivindicações mais brandas. Porém, incitados pelos casos de racismo e pela repressão do Regime Militar, os movimentos negros brasileiros elevaram a voz de protesto e imprimiram mais força às lutas, sem, entretanto, agir de igual para igual, com violência responsiva. O assassinato do trabalhador negro tornou-se um marco da unificação
6

Schwarcz. In: Negras Imagens (1996, p.153-157)

6

desses movimentos por um “combate” massiço contra o preconceito e a discriminação racial. Schwarcz (1996) identifica no Movimento Negro Unificado a postura que não se encontrava nos grupos e associações de antes, na primeira metade do século XX, pois o MNU “via na luta de classes a questão fundamental”. A autora o descreve como aquele que
pela primeira vez, representava a existência de uma organização negra, política e reivindicatória no país. (...) O que difere é o caráter político e contestador do MNU, que surgia com propostas de ressarcimento e de congregação da população negra

Dali por diante, o Movimento Negro Unificado mostrou-se bastante presente na política no estado de São Paulo e brasileira, sendo, inclusive, uma das entidades responsáveis pela criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em 1983, que possui, hoje, uma comissão específica de Combate à Discriminação Racial. O MNU foi quem lutou incessantemente pela implantação da lei contra discriminação racial no Brasil, que veio a ser promulgada em 19897, um grande conquista para os negros e negras do/no Brasil. Essa lei passou a considerar qualquer ato de discriminação contra homens, mulheres, crianças, adolescentes ou jovens negros como um ato criminoso. O MNU impulsionou o surgimento de outras organizações pelo Brasil. Na Paraíba, já em 1979 surgia o Movimento Negro de João Pessoa (MNJP), que veio a se consolidar no final dos anos 90, daí por diante denominado Movimento Negro da Paraíba. O MNP abriu espaço para que diversos outros grupos surgissem com o propósito de valorizar e defender o povo negro, hoje congregados dentro do movimento maior.

7

Lei n.° 7.716, de 5 de Janeiro de 1989 – “Define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor”.

7

A mulher negra

Uma causa bem específica é a questão da mulher negra - causa feminista, mas não só; e a da negritude, mas não só. Numa sociedade machista e racista como a brasileira, ser mulher negra é receber dupla carga de preconceito. Mesmo que pareça reles a afirmação, a mulher negra é vitimada socialmente pelo somatório da cor e do sexo, sendo, pois, duplamente discriminadas. Se a condição do negro no Brasil é desfavorável, muito mais complicada é a situação da mulher negra. Diversas estatísticas condensadas nos últimos anos expõem o absurdo grau de exclusão das mulheres declaradas pardas e negras, que estão quase sempre atrás, nas pesquisas de emprego e renda, assistência à saúde etc., dos homens e mulheres brancos e dos homens negros, nessa ordem8. Tal fato explica o porquê da tendência da (re)segmentação ou especificação em direção aos movimentos feministas de recorte étnico-racial, ou o contrário, movimentos étnico-raciais na perspectiva feminista.
A mulher negra está exposta à miséria, à pobreza, à violência, ao analfabetismo, à precariedade de atendimento nos serviços assistenciais, educacionais e de saúde. Trata-se de uma maioria sem acesso aos bens e serviços existentes em nossa sociedade e, em muito, exposta à violência. Entre as conseqüências extremas desta situação está o seu aniquilamento físico, político e social que chegam a atingir profundamente as novas gerações. A situação de máxima exclusão pode ser percebida quando analisamos a inserção da população feminina negra em diferentes campos: 9 social, político e econômico.

Como apresentado anteriormente, já na década de 1930, surgia uma associação de mulheres negras, o Centro Cívico Beneficente Senhoras Mães Pretas, sobre cujo trabalho não encontramos maiores referências, mas que tratava provavelmente da temática da mulher negra. Em 1975, evidencia-se outra mobilização, durante um encontro promovido pela Associação Brasileira de

Ver, em anexos, tabelas e gráficos. Trecho de documento elaborado, no ano 2000, por organizações de mulheres negras em favor da III Conferência Mundial da ONU contra o Racismo, Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância. Disponível em: www.antroposmoderno.com. Consultado em 21 abr. 2008.
9

8

8

Imprensa (ABI), no qual um grupo de mulheres negras formulou um documento contestando a condição desse segmento da sociedade. Mas é, entre a década de 80 e 90, que os movimentos de mulheres negras começaram a se formar e se consolidar no Brasil. Eventos em âmbito internacional, já em 90 - Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (Cairo,1994), Conferência Mundial sobre a Mulher (Beijing, 1995) , promovidos pela ONU, possibilitaram a mobilização das mulheres negras de várias partes do mundo. Em 1992, durante o I Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e AfroCaribenhas, realizado em Santo Domingos, instituiu-se a data de 25 de julho como o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, comemorado com eventos especiais pelas organizações de mulheres negras em todo o mundo. No Brasil, um importante passo para o segmento foi a criação da Articulação de Mulheres Negras do Brasil (AMNB), no ano 2000, rede composta por ONGs de todo o país, que fortaleceu movimentos por todo o território brasileiro e influenciou novas organizações.

Grupo de Mulheres Negras da Paraíba Desde 2001, existe, em nosso estado, o Bamidelê – Grupo de Mulheres Negras da Paraíba, que desempenha importante trabalho educativo em comunidades da grande João Pessoa e outras localidades onde há concentração da população negra carente. Seus principais eixos de atuação são a saúde e a educação, principalmente no que concerne à questão da sexualidade e reprodução, orientando jovens e adolescentes negras à prevenção de doenças transmissíveis pela prática sexual (DSTs/AIDS), e disseminando diversos outros conhecimentos, os quais encontram identificação na realidade das jovens e adolescentes das referentes comunidades de atuação.

9

No site da entidade, no item quem somos, encontramos um resumo explicativo do papel da Bamidelê e dos seus objetivos, em que se define como uma ONG que
tem uma missão que se funde com o seu projeto político de contribuir para a eliminação do racismo e do sexismo, assim como promover debates e ações que fortaleçam a identidade e autoestima, sobretudo de mulheres afrodescendentes, culminando na luta pela defesa e efetiva implantação dos Direitos Humanos em nosso país.

Essa ONG voltada para a questão das mulheres negras surgiu dentro do movimento negro local, como aconteceu à maioria das organizações desse segmento. O motivo é notório: lutar por uma causa que é específica, e, portanto, não encontra(ria) espaço adequado em qualquer outra entidade ou movimento de discussões mais amplas. Uma organização feminista não compreende, em igual grau, as necessidades e lutas de uma mulher que, além de ser vitimada pelo sexismo, é também por sua cor. Assim como é também inconcebível que um movimento negro, em geral, majoritariamente formado por homens, consiga atentar, com precisão, para as questões das militantes na sua perspectiva feminista. A Bamidelê atua, então, pelos dois horizontes, pois como expõe, a sua missão é “Contribuir para a superação do racismo e do sexismo buscando a eqüidade de gênero numa perspectiva étnica”. A escolha do nome (bah/mih/deh/leh) dessa organização é coerente com o seu objetivo; bamidelê significa “esperança” num dos dialetos africanos. Esse conceito imbuído na denominação se reproduz nos projetos desenvolvidos pela entidade; de conscientização, disseminação do conhecimento e promoção de auto-estima. Segundo duas das coordenadoras executivas da ONG, Solange Rocha e Tertúlia Silva, que foram entrevistadas para efeito de estudo da ONG, a Bamidelê não tem caráter assistencialista. Não obstante a ONGs de outros segmentos que se acomodaram a esse papel, o Grupo de Mulheres Negras da Paraíba investe na capacitação da população negra feminina, mas sem ser restritiva. Nada impede que a ONG trabalhe com homens e pessoas declaradas brancas, pardas, amarelas ou qualquer cor que seja.

10

A entidade se insere nas comunidades-alvo levando a assistência que é necessária, como certa vez ofereceu, num dos eventos promovidos, sessão de testes de diabetes para a população. Porém, sua intenção é estimular a ação dentro das próprias comunidade, chamando-a à participação, à conquista da cidadania, fomentando os conhecimentos e a multiplicação dos mesmos. O destaque desse ponto é interessante, pois como afirma Cicília Peruzzo10 em seu artigo “a cidadania é sempre uma conquista do povo. A ampliação dos direitos de cidadania depende da “capacidade política” dos cidadãos, da qualidade participativa desenvolvida”. O trabalho educativo se dá, principalmente, por meio dos projetos alçados pela Bamidelê nas comunidades Marcos Moura, Cruz da Armas, Conjunto dos Motoristas – Alto do Mateus, Eucaliptos – Bancários, e Caiana dos Crioulos, comunidade quilombola da cidade de Alagoa Grande. Na perspectiva da comunicação comunitária, a ONG realiza oficinas nessas localidades, com o objetivo de formar jovens lideranças para exercerem o papel de multiplicadoras de conhecimento in locus. Dessa maneira, os projetos implementados pelo Bamidelê têm amplo alcance às populações, sobretudo negras, das comunidades-alvo. Além desse trabalho direto com as comunidades, a preocupação com a saúde se estende aos projetos de pesquisa e acompanhamento da assistência médico-hospitalar no sistema público de saúde, observando o tratamento dado às gestantes negras e à mulher negra em casos clínicos, inclusive relacionados a doenças raras ou de maior incidência em pessoas negras, tais como hipertensão arterial, diabetes melitos (mellitus), doença falciforme, glaucoma, miomas uterinos, etc. Entretanto, a linha de atuação do Grupo de Mulheres Negras da Paraíba não se restringe ao campo da saúde. A educação é outro eixo importante, em cujas discussões a Bamidelê tem se inserido, propondo cotas raciais, o ensino da história e cultura africana e afro-brasileira etc. Duas atividades anuais importantes para o Bamidelê são o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha (25 de julho) e o Dia da Consciência Negra
10

Artigo Comunicação comunitária e educação para a cidadania, 2002.

11

(20 de novembro), que reúne toda a comunidade negra para celebrar a beleza da negritude, as vitórias dos movimentos e manter acesas as reivindicações. Considerações finais A ausência da abordagem histórica dos protestos de grupos negros no início do século XX tende a nos fazer acreditar que desde a abolição da escravidão, em 1888, até o aparente nascimento do primeiro movimento negro no Brasil, no final de 70, os negros viveram em acomodação com sua condição; com a segregação racial silenciosa e camuflada, e crentes na inexistência da discriminação, idéia muito assimilada pela sociedade atual. Ao contrário, todas as organizações negras de hoje são resultantes de um longo movimento nesse sentido. Desde as primeiras mobilizações, ainda que politicamente fracas, passando pelos diversos congressos, seminários entre outros eventos importantes para a discussão da questão étnico-racial, até a formulação dos movimentos e, conseguintemente, das ONGs. Foi a articulação desses movimentos que abriram espaço para que as mulheres negras pudessem se reunir em função de seus anseios peculiares e impulsionar o surgimento das primeiras organizações feministas negras. Hoje, é uma tendência essa (re)segmentação, que favorece às lutas específicas. No entanto, é tendência também dos movimentos contemporâneos o diálogo com os movimentos maiores, assim como a articulação em organizações de âmbito municipal, estadual, regional ou nacional.

Referências bibliográficas FÉLIX, João Batista de Jesus. Pequeno histórico do movimento negro contemporâneo. In: Negras Imagens (1996, p.211-216)

12

FERNANDES, Florestan. A Integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: Ática, 1978) FERNANDES, Rubem César. Elos de uma cidadania planetária. Disponível em: www.rits.org.br. Consultado em: 21 mar 2008. ________________________. Reivindicação por reação caracteriza movimento contemporâneo. 2003. Disponível em: www.comciencia.br. Consultado em: 16 abr 2008. FRANKLIN, John Hope & MOSS, Jr., Alfred. Da escravidão à liberdade, a história do negro americano. Tradução do original: From Slavary to Freedom, a History of Negro Americans. Rio de Janeiro: Nórdica, 1989. MOURA, Clóvis. História do negro brasileiro. São Paulo: Editora Ática, 1992. PERUZZO, Cicília M. Krohling. Comunicação comunitária e educação para a cidadania. Revista PCLA. São Paulo: UNESCO/ UMESP, 2002. Disponível em: www.metodista.br/unesco. Consultado em: 22 mar 2008. PINHO, Osmundo de Araújo. O sol da liberdade: movimento negro e a crítica das representações raciais. 2003. Disponível em: http://www.comciencia.br. Consultado em: 16 abr 2008. PRAXEDES, Rosângela Rosa. Mulheres negras: reflexões sobre identidade e resistência. Revista espaço acadêmico. 2003. Disponível em: www.espacoacademico.com.br. Consultado em: 23 mar 2008. RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro, a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia da Letras, 2006.

13

SCHWARCZ, Lilia Moritz. Questão racial no Brasil. In: Negras Imagens (1996. p. 153-177). WANDERLEY, Mariangela Belfioro. Metamorfoses do desenvolvimento de comunidade. São Paulo: Cortez, 1998.

Sites consultados: Associação das Mulheres Negras Brasileira: www.amnb.org.br Blog do Movimento Negro da Paraíba: movimentonegropb.vilabol.uol.com.br Blog do Movimento Negro Unificado: mnu.blogspot.com Coletivo de Mulheres Negras: coletivodemulheresnegras.blogspot.com Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos:

www.dieese.org.br Grupo de Mulheres Negras da Paraíba – Bamidelê: www.bamidele.org.br Mulheres Negras – do Umbigo para o Mundo: www.mulheresnegras.org Organização Internacional do Trabalho – Brasil: www.oitbrasil.org.br Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento: www.pnud.org.br

14

ANEXOS

15

Taxas de desemprego total das populações negra e não-negra, segundo sexo Regiões Metropolitanas e Distrito Federal - 2001/2002
(em %) Negra Não-negra Mulheres Homens Mulheres Homens Belo Horizonte 22,2 17,9 18,6 12,9 Distrito Federal 25,6 20,1 20,4 13,7 Porto Alegre 24,5 20,5 17,1 11,8 Recife 25,7 18,8 22,1 15,4 Salvador 31,3 26,2 22,2 16 São Paulo 26,2 19,9 18,8 13,3
Fonte dos dados: DIEESE/SEAD e entidades regionais. PED - Pesquisa de Emprego e Desemprego Elaboração: DIEESE Obs.: Cor negra = pretos + pardos. Cor não negra = brancos + amarelos

35 30 25 20 15 10 5 0

Negra Mulheres Negra Homens Não-negra Mulheres Não-negra Homens

Be lo

D

or iz is on tri te to Fe Po d er al rt o Al eg re R ec if Sa e lv ad or Sã o Pa ul o

H

16

Distribuição dos ocupados no setor "Emprego doméstico", segundo cor e sexo Regiões Metropolitanas e Distrito Federal - 2001/2002
(em %) Negra Não-negra Mulheres Homens Mulheres Homens 25,7 1 13,1 25,5 1,1 13,5 0,7 33,6 13,7 0,5 23,4 1,4 12 0,8 23,5 1,4 6,7 30 0,9 13 0,6

Belo Horizonte Distrito Federal Porto Alegre Recife Salvador São Paulo

Fonte dos dados: DIEESE/SEAD e entidades regionais. PED - Pesquisa de Emprego e Desemprego Elaboração: DIEESE Obs.: Cor negra = pretos + pardos. Cor não negra = brancos + amarelos

40 35 30 25 20 15 10 5 0
or iz is on tri te to Fe Po der al rt o Al eg re R ec if Sa e lv ad or Sã o Pa ul o

Negra Mulheres Negra Homens Não-negra Mulheres Não-negra Homens

Be lo

D

H

17

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->