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O MITO DA CAVERNA de Platão

Imaginemos uma caverna separada do mundo externo por um muro alto. Entre o muro e o chão da caverna há uma
fresta por onde passa um fino feixe de luz exterior, deixando a caverna na obscuridade quase completa. Desde o
nascimento, geração após geração, seres humanos encontram-se ali, de costas para a entrada, acorrentados sem
poder mover a cabeça nem se locomover, forçados a olhar apenas a parede do fundo, vivendo sem nunca ter visto o
mundo exterior nem a luz do sol, sem jamais ter efetivamente visto uns aos outros nem a si mesmos, mas apenas as
sombras dos outros e de si mesmos por que estão no escuro e imobilizados. Abaixo do muro, do lado de dentro da
caverna, há um fogo que ilumina vagamente o interior sombrio e faz com que as coisas que se passam do lado de fora
sejam projetadas como sombras nas paredes do fundo da caverna. Do lado de fora, pessoas passam conversando e
carregando nos ombros figuras ou imagens de homens, mulheres e animais cujas sombras também são projetadas na
parede da caverna, como num teatro de fantoches. Os prisioneiros julgam que as sombras de coisas e pessoas, os
sons de suas falas e as imagens que transportam nos ombros são as próprias coisas externas, e que os artefatos
projetados são seres vivos que se movem e falam.
Um dos prisioneiros, inconformado com a condição em que se encontra, decide abandoná-la. Fabrica um instrumento
com o qual quebra os grilhões. De inicio, move a cabeça, depois o corpo todo; a seguir, avança na direção do muro e
o escala. Enfrentando os obstáculos de um caminho íngreme e difícil, sai da caverna. No primeiro instante, fica
totalmente cego pela luminosidade do sol, com a qual seus olhos não estão acostumados. Enche-se de dor por causa
dos movimentos que seu corpo realiza pela primeira vez e pelo ofuscamento de seus olhos sob a luz externa, muito
mais forte do que o fraco brilho do fogo que havia no interior da caverna. Sente-se dividido entre a incredulidade e o
deslumbramento.
Ao permanecer no exterior o prisioneiro, aos poucos se habitua a luz e começa a ver o mundo. Encanta-se, tem a
felicidade de ver as próprias coisas, descobrindo que estivera prisioneiro a vida toda e que em sua prisão vira apenas
sombras. Doravante, desejará ficar longe da caverna para sempre e lutará com todas as forças para jamais regressar
a ela. No entanto não pode deixar de lastimar a sorte dos outros prisioneiros e, por fim, toma a difícil decisão de
regressar ao subterrâneo sombrio para contar aos demais o que viu e convencê-los a se libertarem também.
Só que os demais prisioneiros zombam dele, não acreditando em suas palavras e, se não conseguem silenciá-lo com
suas caçoadas, tentam fazê-lo espancando-o. Se mesmo assim ele teima em afirmar o que viu e os convida a sair da
caverna, certamente acabam por matá-lo. Mas quem sabe alguns podem ouvi-lo e, contra a vontade dos demais,
também decidir sair da caverna rumo a realidade?
Postado por Giuliano Cézar às 17:35

57 comentários:
Giuliano Cézar disse...
O que é a caverna? O mundo de aparências em que vivemos. Que são as sombras projetadas no fundo?
As coisas que percebemos. Que são os grilhões e as correntes? Nossos preconceitos e opiniões, nossa
crença de que o que estamos percebendo é a realidade. Quem é o prisioneiro que sai da caverna? O
filosofo. O que é a luz do sol? A luz da verdade. O que é o mundo iluminado pelo sol da verdade? A
realidade. Qual o instrumento que liberta o prisioneiro rebelde e com o qual ele deseja libertar os
outros prisioneiros? A filosofia.
16/8/07 18:02

Mito da caverna
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Ilustração da Alegoria da Caverna

O mito da caverna, também chamada de Alegoria da caverna,foi escrita pelo filósofo


Platão, e encontra-se na obra intitulada A República (livro VII). Trata-se da
exemplificação de como podemos nos libertar da condição de escuridão que nos
aprisiona através da luz da verdade.

Alguns ainda chamam de Os prisioneiros da caverna ou menos comumente de A


parábola da caverna.

Índice
[esconder]

• 1 Mito da caverna
• 2 O diálogo de Sócrates e
Glauco
• 3 Interpretação da alegoria
• 4 Exemplos

• 5 Referências

[editar] Mito da caverna

Imaginemos um muro bem alto separando o mundo externo e uma caverna. Na caverna
existe uma fresta por onde passa um feixe de luz exterior. No interior da caverna
permanecem seres humanos, que nasceram e cresceram ali.

Ficam de costas para a entrada, acorrentados, sem poder locomover-se, forçados a olhar
somente a parede do fundo da caverna, onde são projetadas sombras de outros homens
que, além do muro, mantêm acesa uma fogueira. Pelas paredes da caverna também
ecoam os sons que vem de fora, de modo que os prisioneiros, associando-os, com certa
razão, às sombras, pensam ser eles as falas das mesmas. Desse modo, os prisioneiros
julgam que essas sombras sejam a realidade.

Imagine que um dos prisioneiros consiga se libertar e, aos poucos, vá se movendo e


avance na direção do muro e o escale, enfrentando com dificuldade os obstáculos que
encontre e saia da caverna, descobrindo não apenas que as sombras eram feitas por
homens como eles, e mais além todo o mundo e a natureza.

Caso ele decida voltar à caverna para revelar aos seus antigos companheiros a situação
extremamente enganosa em que se encontram, correrá, segundo Platão, sérios riscos -
desde o simples ser ignorado até, caso consigam, ser agarrado e morto por eles, que o
tomaram por louco e inventor de mentiras.

Platão não buscava as verdadeiras essências na simplesmente Phýsis, como buscavam


Demócrito e seus seguidores. Sob a influência de Sócrates, ele buscava a essência das
coisas para além do mundo sensível. E o personagem da caverna, que acaso se liberte,
como Sócrates correria o risco de ser morto por expressar seu pensamento e querer
mostrar um mundo totalmente diferente. Transpondo para a nossa realidade, é como se
você acreditasse, desde que nasceu, que o mundo é de determinado modo, e então vem
alguém e diz que quase tudo aquilo é falso, é parcial, e tenta te mostrar novos conceitos,
totalmente diferentes. Foi justamente por razões como essa que Sócrates foi morto pelos
cidadãos de Atenas, inspirando Platão à escrita da Alegoria da Caverna pela qual Platão
nos convida a imaginar que as coisas se passassem, na existência humana,
comparavelmente à situação da caverna: ilusoriamente, com os homens acorrentados a
falsas crenças, preconceitos, ideias enganosas e, por isso tudo, inertes em suas poucas
possibilidades.

[editar] O diálogo de Sócrates e Glauco

Trata-se de um diálogo metafórico onde as falas na primeira pessoa são de Sócrates, e


seus interlocutores, Glauco e Adimanto, são os irmãos mais novos de Platão. No
diálogo, é dada ênfase ao processo de conhecimento, mostrando a visão de mundo do
ignorante, que vive de senso comum, e do filósofo, na sua eterna busca da verdade.

Sócrates – Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza


relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em
forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância,
de pernas e pescoços acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o
que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes
de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os
prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está
construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres
armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.

Glauco – Estou vendo.

Sócrates – Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam
objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra,
madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam
e outros seguem em silêncio.

Glauco - Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.

Sócrates - Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles
tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus companheiros, mais do que as
sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte?

Glauco - Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida?

Sócrates - E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?

Glauco - Sem dúvida.

Sócrates - Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros, não achas que
tomariam por objetos reais as sombras que veriam?

Glauco - É bem possível.


Sócrates - E se a parede do fundo da prisão provocasse eco sempre que um dos
transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?

Glauco - Sim, por Zeus!

Sócrates - Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos
objetos fabricados?

Glauco - Assim terá de ser.

Sócrates - Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das
suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja
ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os
olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-
lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se
alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto
da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim,
mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer
o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe
parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?

Glauco - Muito mais verdadeiras.

Sócrates - E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não
desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são
realmente mais distintas do que as que se lhe mostram?

Glauco - Com toda a certeza.

Sócrates - E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude


e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá
vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá,
com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora
denominamos verdadeiras?

Glauco - Não o conseguirá, pelo menos de início.

Sócrates - Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior.
Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos
homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos.
Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais
facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o dia, o
Sol e sua luz.

Glauco - Sem dúvida.

Sócrates - Por fim, suponho eu, será o sol, e não as suas imagens refletidas nas águas
ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver
e contemplar tal qual é.
Glauco - Necessariamente.

Sócrates - Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações
e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo
o que ele via com os seus companheiros, na caverna.

Glauco - É evidente que chegará a essa conclusão.

Sócrates - Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e


daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a
mudança e lamentará os que lá ficaram?

Glauco - Sim, com certeza, Sócrates.

Sócrates - E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para


aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que
melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou
virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que
provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou
então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e
sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia?

Glauco - Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira.

Sócrates - Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo
lugar: Não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do
Sol?

Glauco - Por certo que sim.

Sócrates - E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se


libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa
e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um
tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido
lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se
alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse
fazê-lo?

Glauco - Sem nenhuma dúvida.

Sócrates - Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, ponto por ponto, esta imagem ao
que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da prisão na caverna,
e a luz do fogo que a ilumina com a força do Sol. Quanto à subida à região superior e à
contemplação dos seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma para a
mansão inteligível, não te enganarás quanto à minha idéia, visto que também tu desejas
conhecê-la. Só Deus sabe se ela é verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no
mundo inteligível, a idéia do bem é a última a ser apreendida, e com dificuldade, mas
não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo
existe em todas as coisas; no mundo visível, ela engendrou a luz; no mundo inteligível,
é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para se
comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública.

Glauco - Concordo com a tua opinião, até onde posso compreendê-la.

(Platão, A República, v. II p. 105 a 109)

[editar] Interpretação da alegoria

O mito da caverna é uma metáfora da condição humana perante o mundo, no que diz
respeito à importância do conhecimento filosófico e à educação como forma de
superação da ignorância, isto é, a passagem gradativa do senso comum enquanto visão
de mundo e explicação da realidade para o conhecimento filosófico, que é racional,
sistemático e organizado, que busca as respostas não no acaso, mas na causalidade.

Segundo a metáfora de Platão, o processo para a obtenção da consciência, isto é, do


conhecimento abrange dois domínios: o domínio das coisas sensíveis (eikasia e pístis) e
o domínio das idéias (diánoia e nóesis). Para o filósofo, a realidade está no mundo das
idéias - um mundo real e verdadeiro - e a maioria da humanidade vive na condição da
ignorância, no mundo das coisas sensíveis - este mundo -, no grau da apreensão de
imagens (eikasia), as quais são mutáveis, não são perfeitas como as coisas no mundo
das idéias e, por isso, não são objetos suficientemente bons para gera conhecimento
perfeito.

[editar] Exemplos

Este tema - realidade ou aparência - foi retomado ao longo da história da cultura


ocidental por muitos filósofos e alguns escritores, embora com perspectivas distintas.
Um deles Calderón de la Barca na obraA vida é um sonho.

Exemplos mais modernos podem ser a série Persons Unknown , o livro Admirável
Mundo Novo (Aldous Huxley, 1932), o filme Matrix (Irmãos Wachowski, 1999) e
também A Ilha de Michael Bay de 2005. Outro autor que utilizou, paródicamente, essa
parábola platônica foi o autor José Saramago, em seu livro A Caverna.

[editar] Referências

O que é Filosofia e por que vale a pena estudá-la


A. C. Ewing

SEÇÃO INTRODUTÓRIA: A ORIGEM DO TERMO FILOSOFIA

Uma definição precisa do termo "filosofia" é impraticável. Tentar formulá-la poderia,


ao menos de início, gerar equívocos. Com alguma espirituosidade, alguém poderia
defini-la como "tudo e nada, tudo ou nada...". Melhor dizendo, a filosofia difere das
ciências especiais na medida em que procura oferecer uma imagem do pensamento
humano - ou mesmo da realidade, até onde se admite que isso possa ser feito -- como
um todo. Contudo, na prática, o conteúdo de informação real que a filosofia acrescenta
às ciências especiais tende a desvanecer-se até parecer não deixar vestígios.
Acreditamos que esse desvanecimento seja enganoso. Mas devemos admitir que até
aqui a filosofia não tem conseguido realizar suas grandes pretensões. Tampouco tem
logrado êxito em produzir um corpo de conhecimentos consensual comparável ao
elaborado pelas diversas ciências. Isso se deve em parte, embora não integralmente, ao
fato de que, quando obtemos conhecimento verdadeiro a respeito de determinada
questão situamos essa questão como pertencente à ciência e não à filosofia. 0 termo
"filósofo" significava originariamente "amante da sabedoria", tendo surgido com a
famosa réplica de Pitágoras aos que o chamavam de "sábio". Insistia Pitágoras em que
sua sabedoria consistia unicamente em reconhecer sua ignorância, não devendo portanto
ser chamado de "sábio", mas apenas de "amante da sabedoria". Nessa acepção,
"sabedoria" não se restringia a qualquer dos domínios particulares do pensamento e, de
modo similar, "filosofia" era usualmente entendida como incluindo o que hoje
denominamos "ciência". Esse uso sobrevive ainda hoje em expressões como "filosofia
natural". Na medida em que uma grande produção de conhecimento especializado em
um dado campo ia sendo conquistada, o estudo desse campo se desprendia da filosofia,
passando a constituir uma disciplina independente. As últimas ciências que assim
evoluíram foram a psicologia e a sociologia. Dessa forma, poderíamos falar de uma
tendência à contração da esfera da filosofia na própria medida em que o conhecimento
se expande. Recusamo-nos a considerar filosóficas as questões cujas respostas podem
ser dadas empiricamente. Não desejamos com isso sugerir que a filosofia poderá acabar
sendo reduzida ao nada. Os conceitos fundamentais das ciências, da figuração geral da
experiência humana e da realidade (na medida em que formamos crenças justificadas a
seu respeito) permanecem no âmbito da filosofia, visto que, por sua própria natureza,
não podem ser determinados pelos métodos das ciências especiais. É sem dúvida
desencorajador que os filósofos não tenham logrado maior concordância com respeito a
esses assuntos, mas não devemos concluir que a inexistência de um resultado por todos
reconhecido signifique que esforços foram realizados em vão. Dois filósofos que
discordem entre si podem estar contribuindo com algo de inestimável valor, embora
ambos não estejam em condição de escapar totalmente ao erro: suas abordagens rivais
podem ser consideradas mutuamente complementares. O fato de filósofos distintos
necessitarem dessa mútua complementação torna evidente que o ato de filosofar não é
unicamente um processo individual, mas também um processo que possui uma
contrapartida social. Um dos casos em que a divisão do trabalho filosófico se torna
bastante proveitosa consiste na circunstância de que pessoas distintas usualmente
enfatizam aspectos diferentes de uma mesma questão. Contudo, boa parte da filosofia
volta-se mais para o modo pelo qual conhecemos as coisas do que propriamente para as
coisas que conhecemos, sendo essa uma segunda razão pela qual a filosofia parece
carecer de conteúdo. No entanto, discussões a respeito de um critério definitivo de
verdade podem determinar, na medida em que recomendam a aplicação de um dado
critério, quais as proposições que na prática deliberamos serem verdadeiras. As
discussões filosóficas da teoria do conhecimento têm exercido, ainda que de modo
indireto, importante efeito sobre as ciências.

UTILIZAÇÃO DA FILOSOFIA

Há uma questão que muita gente formula de imediato quando ouve falar de filosofia:
qual a utilidade da filosofia? Não há certamente expectativa alguma de que ela
contribua para a produção de riqueza material. Contudo, a menos que suponhamos que a
riqueza material seja a única coisa de valor, a incapacidade da filosofia de promover
esse tipo de riqueza não implica que não haja sentido prático em filosofar. Não
valorizamos a riqueza material por si própria - aquela pilha de papel que chamamos de
dinheiro não é boa por si mesma -, mas por contribuir para nossa felicidade. Não resta
dúvida de que uma das mais importantes fontes de felicidade, ao menos para os que
podem apreciá-la, consiste na busca da verdade e na contemplação da realidade; eis aí o
objetivo do filósofo. Ademais, aqueles que, em nome de um ideal, não classificaram
todos os prazeres como idênticos em seu valor, tendo chegado a experimentar o prazer
de filosofar, consideraram essa experiência como superior em qualidade a qualquer
outra. Visto que a maior parte dos bens que a indústria produz, excetuando os que
suprem nossas necessidades básicas, valem apenas como fontes de prazer, torna-se a
filosofia perfeitamente apta, no que se refere à utilidade, para competir com a maioria
dos produtos industriais, quando poucos são os que podem dedicar-se, em tempo
integral à tarefa de filosofar. Mesmo que entendêssemos a filosofia como fonte de um
inocente prazer particularmente válido por si próprio (obviamente, não apenas para os
filósofos, mas também para todos aqueles a quem eles ensinam e influenciam), não
haveria razão para invejar tão pequeno desperdício da força humana dedicada ao
filosofar.

Não esgotamos, porém, tudo o que pode ser dito em favor da filosofia. Pois, à parte
qualquer valor que lhe pertença intrinsecamente acima de seus efeitos, a filosofia tem
exercido, por mais que ignoremos isso, uma admirável influência indireta até mesmo
sobre a vida de gente que nunca ouviu falar nela. Indiretamente, tem sido destilada
através de sermões, da literatura, dos jornais e da tradição oral, afetando assim toda a
perspectiva geral do mundo. Em grande parte, foi através de sua influência que se fez da
religião cristã o que ela é hoje. Devemos originalmente a filósofos idéias que
desempenharam papel fundamental para o pensamento em geral, mesmo em seu aspecto
popular, como, por exemplo, a concepção de que nenhum homem pode ser tratado
apenas como um meio ou a de que o estabelecimento de um governo depende do
consentimento dos governados. No âmbito da política, a influência das concepções
filosóficas tem sido expressiva. Nesse sentido, a Constituição norte-americana é, em
grande parte, uma aplicação das idéias do filósofo John Locke; ela apenas substitui o
monarca hereditário por um presidente. Similarmente, admite-se que as idéias de
Rousseau tenham sido decisivas para a Revolução Francesa de 1789. É inegável que a
influência da filosofia sobre a política pode às vezes ser nefasta: os filósofos alemães do
século X1X podem ser parcialmente responsabilizados pelo desenvolvimento de um
nacionalismo exacerbado que posteriormente veio a assumir formas bastante
deturpadas. Todavia, não resta dúvida de que essa responsabilidade tem sido
freqüentemente muito exagerada, sendo difícil determiná-la exatamente, o que se deve
ao fato de aqueles filósofos terem sido obscuros. Contudo, se uma filosofia de má
qualidade pode exercer influência nefasta sobre a política, com as filosofias de boa
qualidade pode ocorrer o contrário. Não há meios de impedir tais influências sendo
portanto extremamente oportuno que dediquemos especial atenção à filosofia com o
intuito de constatar se concepções que exerceram alguma influência foram mais
positivas do que nefastas. 0 mundo teria sido poupado de muitos horrores caso os
alemães tivessem sido influenciados por uma filosofia melhor que a dos nazistas.

Torna-se, portanto, imperativo abandonar a afirmação de que a filosofia é destituída de


valor, mesmo com respeito à riqueza material. Uma boa filosofia, ao influenciar
favoravelmente a política, pode gerar uma prosperidade incapaz de ser alcançada sob a
égide de uma filosofia inferior. Outrossim, o expressivo desenvolvimento da ciência,
com seus conseqüentes benefícios de ordem prática, muito depende de seu background
filosófico. Houve mesmo quem tenha chegado a afirmar, a nosso ver exageradamente,
que o desenvolvimento da civilização como um todo seria concomitante às mudanças na
idéia de causalidade, da concepção mágica de causalidade à científica. De qualquer
modo, a idéia de causalidade faz parte do objeto da filosofia. A própria ‘perspectiva
científica’, em grande parte, foi introduzida inicialmente pelos filósofos.

Todavia, certamente não estaremos nas melhores condições para fazer um estudo
proveitoso da filosofia se a encararmos principalmente como uma via indireta de acesso
à riqueza material. A principal contribuição da filosofia consiste no intangível
background intelectual do qual muito dependem o clima espiritual e a feição geral de
uma civilização. Nesse sentido, ocasionalmente se desenvolvem ambições ainda
maiores. Whitehead, um dos mais expressivos e acatados pensadores modernos,
descreve os dons da filosofia como "a capacidade de ver e de prever, aliada a um
sentido do valor da vida, ou seja, o sentido da importância que anima todo esforço
civilizado".1 Acrescenta ainda Whitehead que, "quando uma civilização atinge seu auge
sem coordená-lo com uma filosofia de vida, difundem-se por toda a comunidade
períodos de decadência e monotonia, seguidos pela estagnação de todos os esforços".
Para ele, a filosofia consiste em "uma tentativa de esclarecer as crenças que, em última
instância, determinam nossa atenção, a qual integra a base de nosso caráter". De um
modo ou de outro, podemos ter como certo que o caráter de uma civilização é
enormemente influenciado por sua concepção geral da vida e da realidade. Até pouco
tempo, para a maioria das pessoas, essa concepção era proporcionada pelo ensino
religioso, mas as próprias concepções religiosas foram muito influenciadas pelo
pensamento filosófico. Ademais, a experiência demonstra que as concepções religiosas
podem conduzir-nos à loucura, a menos que sejam continuamente submetidas a uma
avaliação racional. Os que rejeitam qualquer concepção religiosa devem ter o maior
interesse em elaborar uma nova concepção para, se possível, substituir a crença
religiosa. E fazê-lo significa engajar-se na filosofia.

Embora não passa substituir a filosofia, a ciência suscita problemas filosóficos. Pois ela
não pode dizer-nos que lugar ocupam os fatos com que lida no esquema geral das
coisas, não conseguindo nem mesmo esclarecer suas relações com os espíritos que os
observam. Nem mesmo pode demonstrar, embora deva admitir, a existência do mundo
físico ou a legitimidade do uso dos princípios da indução para prever as prováveis
ocorrências futuras ou ultrapassar de alguma forma o que tem sido efetivamente
observada. Nenhum laboratório científico pode demonstrar em que sentido os homens
têm uma alma, se o universo tem ou não um propósito, se, e em que sentido, somos
livres, e assim por diante. Não desejamos com isso sugerir que a filosofia possa resolver
esses problemas; no entanto, se ela realmente não puder, nada mais poderá fazê-lo,
sendo certamente válido tentar descobrir ao menos se tais problemas podem ser
solucionados. Veremos, que a própria ciência pressupõe continuamente conceitos que
subsumem os domínios da filosofia E, da mesma forma que nenhuma ciência pode
florescer se não admitirmos tacitamente uma resposta para certas questões filosóficas,
não podemos fazer uso mental adequado da ciência, com o intuito de implementar nosso
desenvolvimento intelectual, sem admitirmos uma visão de mundo mais ou menos
coerente. Mesmo as melhores conquistas da ciência moderna não teriam sido alcançadas
se os cientistas não tivessem adotado determinadas suposições de grandes e originais
filósofos, nas quais basearam todo o seu proceder. A concepção "mecanicista" do
universo, que caracterizou a ciência durante os últimos três séculos, é derivada
principalmente do filosofia de Descartes. Por ter ocasionado maravilhosos resultados, o
esquema mecanicista deve ser, em parte, verdadeiro, ainda que parcialmente
inadequado, apressando-se o cientista em buscar no filósofo o necessário auxílio para
erigir novo esquema que possa substituir o antigo.

Um segundo serviço inestimável prestada pela filosofia (especialmente pela "filosofia


crítica") reside no hábito, por ela estimulado, de promover-se um julgamento imparcial
considerando-se todas as facetas de uma questão, e na idéia que ela oferece do que seja
a evidência e de que devemos buscar ou esperar de uma prova. Pode ser esse um
importante questionamento das inclinações emocionais e das conclusões precipitadas,
sendo especialmente necessário, e com freqüência negligenciado, em controvérsias
políticas. Se ambos os lados considerassem suas diferenças políticas munidos de
espírito filosófico, seria difícil admitir a eventualidade de uma guerra. O sucesso da
democracia depende muito da habilidade dos cidadãos em distinguir um bom de um
mau argumento, não se deixando enganar por confusões. A filosofia crítica estabelece
um padrão ideal para o raciocínio correto e capacita quem a estuda a remanejar
argumentos confusos. Talvez seja esse a motivação pela qual Whitehead afirma, na
passagem acima citada, que "nenhuma sociedade democrática poderá alcançar êxito sem
que a educação geral que a inspire exprima uma perspectiva filosófica".

Na medida em que admitirmos que certa cautela é desejável ao afirmarmos que os


homens não deixam de viver de acordo com uma filosofia na qual acreditam, e enquanto
atribuirmos a maior parte dos desacertos humanos exatamente à falta desse desejo de
sintonia com ideais mais nobres, não poderemos negar a extrema relevância de crenças
gerais a respeito da natureza do universo e do bem para a determinação da progresso ou
da degeneração da humanidade. Algumas partes da filosofia inegavelmente produzem
resultados práticos mais expressivos, mas não devemos por isso incorrer no erro de
supor que a aparente inexistência de um suporte de ordem prática para determinado
campo de estudo implica que a investigação desse campo seja destituída de sentido
prático. Conta-se que um cientista, que costumava jactar-se de desprezar a dimensão
prática de toda pesquisa, disse certa vez a respeito de uma: "0 melhor disso tudo é que
ela possivelmente não revelará qualquer utilidade prática para quem quer que seja."
Todavia, essa linha de pesquisa acabou levando à descoberta da eletricidade. De modo
similar, estudos filosóficos por demais acadêmicos e aparentemente destituídos de
utilidade prática terminam por exercer profunda influência sobre a visão de mundo,
chegando até mesmo a afetar, em última instância, a ética e a religião que adotamos.
Pois as diferentes partes da filosofia, os diferentes elementos que compõem nossa visão
de mundo, deveriam integrar-se. Tal é pelo menos o objetivo, nem sempre alcançável,
de uma boa filosofia. Sendo assim, conceitos à primeira vista muito distanciados de
qualquer interesse de ordem prática podem vir a afetar de modo vital outros conceitos
que envolvem mais de perto a vida diária.

Podemos compreender agora o motivo pelo qual a filosofia não precisa recear a questão
de ter ou não valor prático. Devo ao mesmo tempo dizer que não aprovo de modo algum
uma concepção puramente pragmática da filosofia. A filosofia merece ser valorizada
por si própria, e não por seus efeitos indiretos de ordem prática. E a melhor maneira de
assegurarmos esses bons efeitos práticos é nos dedicarmos à filosofia pela filosofia.
Para encontrar a verdade, precisamos buscá-la desinteressadamente. E o fato de a
encontrarmos se revelará muito útil do ponto de vista prático. Não obstante, uma
preocupação prematura com seus efeitos práticos só dificultará nossa busca do que é de
fato verdadeiro. Muito menos podemos fazer desses efeitos práticos o critério de sua
verdade. As crenças são úteis porque são verdadeiras, e não verdadeiras porque são
úteis.2

PRINCIPAIS DIVISÕES DA FILOSOFIA

A seguinte classificação é usualmente aceita como uma especificação dos diversos


assuntos que compõem a filosofia.

(1) Metafísica.3 Essa disciplina é concebida como o estudo da natureza da realidade em


seus aspectos mais gerais, na medida em que podemos fazê-lo. Ela lida com questões do
seguinte tipo: De que modo a matéria se relaciona com o espírito? Qual dos dois é
anterior? São os homens livres? 0 que chamamos de eu (self) é uma substância ou
apenas uma seqüência de experiências? É o universo infinito? Deus existe? Até que
ponto o universo é uma unidade ou uma diversidade? Até que ponto um sistema é
racional?

(2) Recentemente, a filosofia crítica tem sido freqüentemente contraposta à metafísica


(que nesse caso é às vezes denominada filosofia especulativa). A filosofia crítica
consiste na análise e na crítica dos conceitos pertencentes ao senso comum e às ciências.
As ciências pressupõem certos conceitos que não são suscetíveis de investigação por
meio de métodos científicos, de modo que passam a integrar o âmbito da filosofia.
Nesse sentido, todas as ciências, com exceção da matemática, pressupõem de alguma
forma a concepção de lei natural; cabe à filosofia, e não a qualquer das ciências
particulares, examinar tal concepção. De modo similar, pressupomos, em nossos
diálogos mais comuns e menos filosóficos, conceitos fortemente imbuídos de problemas
filosóficos, como matéria, espírito, causa, substância e número. Uma importante tarefa
da filosofia consiste exatamente em analisar conceitos desse tipo, precisar o que
significam e determinar em que medida sua aplicação ao estilo do senso comum pode
ser justificada. A parte da filosofia crítica que trata da investigação da natureza e dos
critérios de verdade, assim como da maneira pela qual obtemos conhecimento, é
chamada de epistemologia (teoria do conhecimento). Questões específicas desse campo
são, entre outras, as seguintes: Como podemos definir a verdade? Qual a distinção entre
conhecimento e crença? Podemos estar certos daquilo que sabemos'? Quais as funções
relativas do raciocínio, da intuição e da experiência sensorial?

No presente trabalho, iremos ocupar-nos desses dois ramos da filosofia , como


constituindo sua parte filosófica mais fundamental e característica. Apontaremos ainda
algumas disciplinas suplementares, que possuem certa afinidade com a filosofia na
acepção que lhe atribuímos neste livro, embora dela sejam distintas na medida em que
são dotadas de relativa autonomia. Esses são os ramos que definiremos a seguir.

FILOSOFIA E DISCIPLINAS AFINS

(1) É difícil separar a lógica da epistemologia. Mesmo assim, ela é normalmente


considerada uma disciplina autônoma. Trata-se de um estudo dos diferentes tipos de
proposições e de suas relações que justificam uma inferência. Certas partes da lógica
revelam acentuada afinidade com a matemática; outras poderiam igualmente ser
classificadas como pertencentes à epistemologia.
(2) A ética ou filosofia moral lida com os valores e a problemática do "dever". Ela
formula questões como; Qual o bem supremo? Qual a definição de bem? A retidão de
um ato depende unicamente de suas conseqüências? Nossos juízos sobre nossos
próprios deveres são subjetivos ou objetivos? Qual a função de um ato punitivo? Qual a
razão última pela qual não devemos mentir?

(3) A filosofia política consiste na aplicação da filosofia (da ética principalmente) a


questões relacionadas com os indivíduos enquanto organizados sob a égide de um
Estado. Ela investiga questões do seguinte tipo: Um indivíduo possui direitos que
contrariam os interesses do Estado? Há no Estado algo mais além dos indivíduos que o
constituem? É a democracia a melhor forma de governo?

(4) A estética consiste na aplicação da filosofia ao exame da arte e da noção de beleza.


É típico da estética formular questões do seguinte tipo: A beleza é objetiva ou
subjetiva? Qual é a função da arte? Para que aspectos de nossa natureza apelam as
diversas formas de beleza?

(5) 0 termo mais geral - teoria do valor - é às vezes utilizado de modo a abranger o
estudo dos valores considerados em si mesmos, embora esse ramo possa ser incluído na
ética ou na filosofia moral. De qualquer modo, é sempre possível entendermos a noção
de valor como uma concepção geral cujas espécies e aplicações particulares são
desenvolvidas pelas disciplinas apresentadas nos itens (2), (3) e (4).

A TENTATIVA DE EXCLUIR A METAFISICA EM FACE DA OBJEÇAO


DE QUE MESMO A FILOSOFIA CRI'TICA A PRESSUPÕE

Diversas tentativas, algumas das quais discutiremos posteriormente, foram feitas no


sentido de excluir a metafísica como injustificável e confinar a filosofia à sua versão
crítica e às cinco áreas afins que mencionamos, na medida em que podem ser
consideradas uma abordagem ou um estudo crítico dos conceitos da ciência e da vida
prática. Tal concepção foi ocasionalmente expressa pela afirmação de que a filosofia
consiste, ou deve consistir, na análise das proposições do senso comum. É óbvio que tal
afirmação, quando se pretende exclusiva, chega a ser exagerada. Pois, (1) mesmo que
uma metafísica legítima e positiva não seja possível, haverá certamente um campo de
estudos que se ocupe da refutação dos argumentos falaciosos que supostamente
conduziriam a conclusões metafísicas; e tal campo faria obviamente parte da filosofia.
(2) A menos que as proposições do senso comum sejam inteiramente falsas, sua análise
deverá fornecer-nos uma explicação geral daquela parcela da realidade à qual se referem
as proposições, ou seja, proporcionar, de algum modo, parte da explicação geral do real
que a metafísica busca oferecer. Nesse sentido, poderíamos dizer que, se existir, o
espírito - obviamente ele existe em certo sentido - podemos obter uma metafísica do
espírito a partir da análise das proposições do senso comum relativas a nós mesmos, na
medida em que tais proposições são verdadeiras - de fato, seria difícil admitir que todas
as nossas proposições do senso comum acerca dos seres humanos possam ser de todo
falsas. Talvez não seja essa uma metafísica altamente elaborada e de grande alcance,
mas de qualquer modo envolverá genuínas proposições metafísicas. Mesmo se
afirmarmos que tudo que conhecemos é apenas aparência, a aparência implica uma
realidade que aparece e um espírito para o qual ela aparece, e como estes não podem
também ser apenas aparências, estaremos ainda admitindo alguma metafísica. Até
mesmo behaviorismo é uma metafísica. Não desejamos com isso afirmar a possibilidade
atual ou mesmo futura de ,ama metafísica, no sentido de um sistema elaborado que nos
propicie grande dose de informação sobre a estrutura geral da realidade e as coisas que
mais desejamos conhecer. Isso só pode ser feito ambulando, tentando-se estabelecer e
criticar as proposições metafísicas em questão. Não obstante, por mais que sejamos
apaixonadamente metafísicos, não passaremos sem a filosofia crítica. A mera tentativa
de dispensá-la acarretará a produção de uma metafísica deplorável. Pois, mesmo na
metafísica, devemos partir dos conceitos do senso comum e das ciências, já que não
dispomos de outros. Ademais, se nossos fundamentos são seguros, devemos
cuidadosamente analisá-los e examiná-los. Dessa forma, não podemos separar
totalmente a filosofia crítica da metafísica, o que não impede um filósofo de atribuir
muito maior importância a um desses elementos.

A FILOSOFIA E AS CIÊNCIAS ESPECIAIS

A filosofia difere das ciências especiais com respeito a (1) sua maior generalidade e (2)
a seu método. Ela investiga os conceitos que são supostos simultaneamente por
inúmeras ciências diferentes, além das questões que não se situam no âmbito das
ciências. A ciência compartilha com o senso comum os conceitos que demandam essa
investigação filosófica, mas as descobertas de uma ciência particular suscitam ou
intensificam alguns problemas especiais, como, por exemplo, n da ``relatividade", que
exigem um tratamento filosófico por não poderem ser discutidos adequadamente pela
ciência em questão. Alguns pensadores, como Herbert Spencer, conceberam
essencialmente a filosofia como uma síntese dos resultados das ciências, mas hoje em
dia os filósofos, em geral, não adotam essa concepção. Sem dúvida, se podemos obter
resultados filosóficos através de processos de síntese e generalização a partir das
descobertas científicas, isso deveria ser feito. Não obstante, o único modo de sabermos
se podemos ou não fazê-lo é tentar, e nesse ponto a filosofia não tem alcançado muito
progresso nem se revelado muito proveitosa. As grandes filosofias do passado
consistiram parcialmente numa investigação dos conceitos fundamentais do
pensamento, em tentativas de estabelecer fatos alegadamente distintos daqueles com os
quais lidava a ciência mediante métodos bastante diferentes dos científicos. Elas
comumente foram influenciadas, mais do que parece, pelo estado contemporâneo da
ciência, mas, sem dúvida, seria muito enganador descrevê-las essencialmente como uma
síntese dos resultados da ciência. Mesmo filósofos antimetafísicos, como Hume,
estiveram mais voltados para os pressupostos da ciência do que para seus resultados.

Tampouco devemos admitir sem reservas, como uma verdade da filosofa, o resultado ou
suposição científica válido em sua própria esfera. Sabemos, por exemplo, que a física
contemporânea parece ter mostrado que o tempo da física é inseparável do espaço, o
que de modo algum nos autoriza a renunciar esse resultado como um princípio
filosófico pelo qual o tempo pressuporia o espaço. Pois, pode ocorrer que o resultado
em questão seja verdadeiro apenas com relação ao tempo da física, e isso apenas porque
o tempo da física é medido em termos de espaço. Por conseguinte, não precisa ser
verdadeiro com relação ao tempo da nossa experiência, do qual o tempo da física é uma
abstração ou construção. A ciência pode progredir por meio de ficções metodológicas
usando termos num sentido invulgar que a filosofia tem de corrigir. 0 termo filosofia da
ciência é usualmente aplicado ao ramo da lógica que lida de maneira especializada com
os métodos das diversas ciências.

0 MÉTODO DA FILOSOFIA COMPARADO AO MÉTODO CIENTÍFICO


Com respeito a seus métodos, a filosofia difere fundamentalmente das ciências
especiais. A não ser quando se aplica a matemática, todas as ciências utilizam processos
de generalização empírica, mas a filosofia reserva a tal método um lugar muito
modesto. Por outro lado, a tentativa de assimilar a filosofia à matemática, embora muito
freqüente, não tem sido bem-sucedida (exceto em determinados ramos da lógica que,
pela própria natureza, têm mais afinidade com a matemática do que com os demais
setores da filosofia). Particularmente, parece humanamente impossível que os filósofos
possam alcançar a certeza e a clareza que caracterizam a matemática. Essa diferença
entre os dois campos de estudo pode ser atribuída a várias causas. Em primeiro lugar,
não se tem mostrado possível determinar, em filosofia, o significado dos termos do
mesmo modo inequívoco que em matemática. Assim sendo, seu significado pode mudar
de forma quase imperceptível ao longo de uma argumentação, sendo muito difícil nos
certificarmos de que diferentes filósofos utilizam a mesma palavra com o mesmo
sentido. Em segundo lugar, somente na matemática encontramos conceitos simples
formando a base de inúmeras inferências complexas e, todavia, rigorosamente válidas.
Em terceiro lugar, a matemática pura é hipotética, ou seja, não nos pode dizer o que se
passa no mundo real, como, por exemplo, o número de coisas situadas num dado lugar,
mas apenas o que ocorrerá se isso for verdade, como, por exemplo, que encontraríamos
12 cadeiras numa sala caso lá houvesse 5 + 7 cadeiras. A filosofia, contudo, objetiva ser
categórica, isto é, dizer-nos o que de fato ocorre; conseqüentemente, em filosofia, não é
apropriado, como geralmente se faz em matemática, fazer deduções apenas a partir de
postulados ou definições.

Desse modo, é impossível encontrar uma analogia adequada entre os métodos da


filosofia e os de qualquer outra ciência. É igualmente impossível definir de modo
preciso qual é o método da filosofia, a não ser limitando de forma grotesca o seu objeto.
A filosofia não emprega um método único, mas uma variedade de métodos que diferem
de acordo com o objeto ao qual são aplicados. E a tentativa de defini-los de maneira
independente de sua aplicação carece de qualquer propósito útil. De fato, isso é muito
perigoso. Ne passado, ela freqüentemente conduziu a uma limitação equivocada do
escopo da filosofia, excluindo tudo aquilo que não se sujeitasse ao controle de
determinado método escolhido como caracteristicamente filosófico. A filosofia requer
grande variedade de métodos, pois deve abranger em sua interpretação todo tipo de
experiência humana. Não obstante, ela está longe de ser meramente empírica, pois, tanto
quanto possível, tem a tarefa de apresentar uma imagem coerente dessas experiências e
a partir delas inferir o que pode ser inferido de uma realidade distinta da experiência
humana. No que se refere à teoria do conhecimento, deve a filosofia submeter a uma
crítica construtiva todas as modalidades de pensamento; contudo, devemos reservar um
lugar nessa visão para qualquer modo de pensar que se nos apresente como
autojustificado no que há de melhor em nossas reflexões comuns, e não filosóficas, e
não rejeitá-lo por diferir dos outros. Os critérios filosóficos são, em linhas gerais, a
coerência e a abrangência; o filósofo deve visar a apresentação de uma visão coerente e
sistemática da experiência humana e do mundo, tão esclarecedora quanto o permita a
natureza dos casos investigados, mas não deve buscar coerência à custa de rejeitar
aquilo que de direito é conhecimento real ou crença justificada. Uma séria objeção a
uma filosofia consiste na acusação de que ela sustenta algo em que não podemos
acreditar na vida cotidiana. Essa objeção poderia ser feita a uma filosofia que
logicamente conduzisse, como algumas, à conclusão de que não há um mundo físico, ou
de que todas as nossas crenças, científicas ou éticas, carecem de qualquer justificação.
FILOSOFIA E PSICOLOGIA

Há uma ciência que mantém uma relação bastante peculiar com a filosofia: a psicologia.
Na prática, é muito mais provável que as teorias psicológicas particulares venham a
exercer influência sobre um argumento filosófico ou, uma teoria a respeito do bem e do
mal do que as teorias particulares de uma ciência física também válida a relação inversa:
exceto com relação às partes que se aproximam da fisiologia, a psicologia, mais do que
qualquer setor particular da física, corre o risco de sofrer as conseqüências adversas
oriundas de um equívoco de ordem filosófica. É provável que isso aconteça devido ao
fato de que apenas recentemente a psicologia emergiu como ciência especial, ao
contrário do que ocorreu com as ciências físicas, que há muito já haviam alcançado
posição estável, dispondo de bastante tempo para esclarecer seus conceitos básicos de
acordo com seus próprios objetivos. Há uma geração, a psicologia era comumente
ensinada por filósofos, sendo muito difícil considerá-la uma ciência natural. Por
conseguinte, não teve tempo para completar o processo de esclarecimento de seus
conceitos fundamentais, necessário para torná-los, se não filosoficamente
inquestionáveis, suficientemente claros e úteis para a prática da ciência em questão. 0
estado contemporâneo da física sugere-nos que, quando uma ciência atinge um estágio
mais avançado, tende a se deparar mais uma vez com problemas filosóficos.
Poderíamos então afirmar que o período no qual uma ciência é independente da filosofia
não coincide com seu florescimento ou com os estágios mais avançados de sua
trajetória, mas com a longa fase que separa esses dois extremos. Nesse sentido, a
filosofia pode contribuir de algum modo para a pendente reconstrução da física.

CETICISMO

Os filósofos têm-se preocupado muito com uma criatura bastante estranha: o cético
absoluto. Não obstante, tal pessoa não existe. Se existisse, refutá-lo seria impossível.
Similarmente, ele não nos poderia refutar ou afirmar alguma coisa, nem mesmo seu
ceticismo, sem contradizer a si mesmo, pois a afirmação de que nenhuma espécie de
conhecimento ou crença pode ser justificada é uma crença. Em contrapartida, também
não poderíamos provar que o cético está errado, na medida em que toda prova deve
admitir algo, ainda que seja alguma premissa, e também as leis da lógica. Se o princípio
da não-contradição não é verdadeiro, não podemos refutar algum mediante o argumento
de esse alguém está caindo em contradição. Um filósofo não pode, portanto, partir ex
nihilo e provar tudo: ele é forçado a fazer certas suposições. Em particular, tem de
admitir a verdade das leis fundamentais da lógica, pois de outro modo não seria possível
utilizar argumentos de qualquer espécie ou mesmo formular quaisquer enunciados
significativos. Entre essas leis da lógica, assinalamos duas que são muito importantes:
trata-se dos princípios da não-contradição e do terceiro excluído. Quando aplicados a
proposições, o primeiro afirma que uma proposição não pode ser ao mesmo tempo
verdadeira e falsa, enquanto o segundo afirma que toda proposição deve ser verdadeira
ou falsa. Quando os aplicamos a coisas, o primeiro afirma que uma coisa não pode ser e
não ser ao mesmo tempo ou ter e não ter uma qualidade ao mesmo tempo, e o segundo,
que uma coisa é ou não é e possui ou não uma qualidade. Concordamos em que esses
princípios não soam de modo a entusiasmar ninguém, mas o fato é que todo nosso
conhecimento e todo nosso pensamento dependem deles. Se a afirmação de algo não
excluísse sua própria contradição, nenhum significado poderia ser atribuído a qualquer
asserção e ninguém poderia jamais ser contestado, na medida em que tanto a asserção
quanto a refutação poderiam ser corretas. Não podemos negar que, em certos casos,
pode ser equivocado atribuir ou não a algo uma qualidade. Seria incorreto dizer que
certas pessoas são ou não calvas, não só devido à ausência de uma definição precisa do
que seja "calvo" mas também porque, na prática, "calvo" e "não-calvo" significam
extremos entre os quais reside uma classe intermediária de casos em que não
deveríamos aplicar um desses termos, e sim "parcialmente calvo" ou "mais ou menos
calvo".

Não se trata, portanto, de uma pessoa possuir ou não uma qualidade definida. Todas as
pessoas são dotadas de um grau particular de calvície, embora o uso dos termos "calvo"
e "não-calvo" não deixe claro a que graus de calvície desejamos referir-nos. Tenho a
impressão de que as objeções ocasionalmente feitas ao princípio do terceiro excluído se
escoimam em desentendimentos desse tipo. De modo similar, o princípio da não-
contradição é perfeitamente compatível com o fato de um homem ser bom com relação
a certo aspecto e mau com relação a outro, ou mesmo com relação ao mesmo aspecto,
ser bom num momento e mau em outro.

A filosofia deve também aceitar a evidência da experiência imediata , embora essa


atitude não nos leve tão longe quanto poderíamos esperar. Não dispomos normalmente
de experiência imediata sobre outros espíritos, a não ser o nosso, sendo provável que a
evidência da experiência imediata não possa dizer-nos que os objetos físicos que
parecemos experienciar existem independentemente de nós mesmos. Tornaremos
oportunamente a abordar essa questão. Logo constatamos que, não obstante, deveremos
fazer novas suposições, se quisermos admitir que conhecemos certas coisas a respeito
das quais a vida cotidiana não oferece qualquer suporte para que possamos achar que as
conhecemos realmente. Todavia, não devemos concluir que a impossibilidade de se
justificar uma crença do senso comum mediante um argumento implica necessariamente
sua falsidade. Pode ser que, no nível do senso comum, possuamos um conhecimento
genuíno ou uma crença justificada que seja por si próprio estabelecido e que dispense
uma justificação filosófica. Não cabe ao filósofo, nesse caso, provar a verdade da
crença, pois isso pode ser impossível, mas dar-lhe a melhor explicação possível,
examinando acuradamente aquilo que ela envolve, Se usarmos a expressão "crença
instintiva" para denominar aquele tipo de crença que tomamos como evidentemente
verdadeira antes de qualquer crítica filosófica, e que continua a parecer evidentemente
verdadeira em nossa vida cotidiana após a crítica filosófica e a despeito dela, podemos
afirmar com Bertrand Russell - que não pode certamente ser acusado de credulidade
demasiada - que a única razão para rejeitar uma crença instintiva é o fato de ela colidir
com outras crenças instintivas, sendo um dos principais objetivos da filosofia produzir
um sistema coerente baseado em nossas crenças instintivas, corrigindo-as o menos
possível e só para preservar sua coerência. Nesse sentido, já que a teoria do
conhecimento só pode basear-se num estudo das coisas reais que conhecemos e da
maneira pela qual as conhecemos, podemos afirmar que o fato de uma teoria filosófica
em particular levar à conclusão de que não podemos conhecer certas coisas que
evidentemente conhecemos, ou que não podemos justificar certas crenças que
obviamente são justificadas, é mais uma objeção à teoria filosófica em questão que ao
conhecimento ou às crenças que ela questiona. Por outro lado, seria tolice supor que
todas as crenças do senso comum devem ser verdadeiras da maneira como se nos
apresentam. Talvez seja função da filosofia aperfeiçoá-las, mas não descartá-las, ou
alterá-las de modo a torná-las irreconhecíveis.

FILOSOFIA E SABEDORIA PRÁTICA


A filosofia está associada tanto ao saber teórico quanto à sabedoria prática, à qual
aludimos através de expressões do tipo "considerar filosoficamente as coisas". De fato,
o sucesso da filosofia teórica não nos oferece qualquer garantia de que seremos
filósofos no sentido prático ou de que agiremos e sentiremos de modo correto sempre
que nos envolvermos em determinadas situações práticas. Uma das doutrinas favoritas
de Sócrates é a de que sempre podemos fazer o bem desde que saibamos o que é o bem;
não obstante, isso só é verdade se acrescentamos ao significado do termo "saber" uma
adequada nitidez emocional daquilo que sabemos do ponto de vista teórico. 0 fato de
sabermos (ou acreditarmos) que fazer algo que desejamos iria acarretar muito mais
sofrimento a uma outra pessoa - o Sr. A - do que prazer para nós mesmos, sendo, em
conseqüência, não-recomendável, não nos impede, todavia, de praticar tal ação, pois a
idéia de causar sofrimento ao Sr. A poderia parecer-nos menos repugnante que a de
perdermos aquilo que cobiçamos. Na medida em que é inteiramente impossível a
qualquer ser humano sentir o sofrimento alheio com a mesma intensidade que os seus,
ocorre sempre a possibilidade de sermos tentados a abandonar nossos deveres, fazendo-
se necessário não apenas o conhecimento, mas também o exercício da vontade. Nem
somos constituídos de modo a ser sempre fácil, quando somos abandonados à nossa
própria moral, nos opormos a um forte desejo, ainda que disso dependa nossa própria
felicidade. A filosofia não é garantia de nossa conduta correta ou do perfeito
ajustamento de nossas emoções às nossas crenças filosóficas. Nem mesmo do ponto de
vista cognitivo é ela capaz de nos dizer o que devemos fazer. Para isso, precisamos,
além de princípios filosóficos, não só do conhecimento empírico dos fatos relevantes e
da capacidade de prever as prováveis conseqüências, mas também de um insight da
situação particular, de maneira a podermos aplicar adequadamente nossos princípios.

Obviamente, não é minha intenção afirmar que a filosofia não contribui para vivermos
uma vida exemplar, mas apenas que não pode por si só levar-nos a viver de modo
exemplar nem decidir o que seja esse tipo de vida. Insisto, entretanto, em que ela pode,
a esse respeito, pelo menos proporcionar valiosas sugestões. E teria muito mais a dizer
sobre a conexão entre filosofia e vida exemplar, se incluísse neste livro uma discussão
especial da ética, disciplina filosófica que trata do bem e da ação correta. Não obstante,
devemos fazer uma distinção entre filosofia teórica, enquanto explicação do que é, e
ética filosófica, enquanto explicação do bem e da ação correta.

Não pretendo, ao recorrer a essa ilustração, dar a impressão de ser um hedonista, ou


uma pessoa convencida de que o prazer e a dor sejam os únicos fatores relevantes para
que se possa julgar uma ação boa ou má. Não sou assim.

A metafísica ou a filosofia crítica nos é de pouca valia para decidirmos o que devemos
fazer. Pode levar-nos a conclusões que facilitem encararmos as adversidades de maneira
mais serena, mas isso depende da filosofa, não havendo infelizmente acordo universal
entre os filósofos quanto à possibilidade de uma concepção otimista do mundo ser
justificada filosoficamente. No entanto, devemos seguir a verdade aonde quer que ela
nos leve, já que nosso espírito, uma vez desperto, não pode apoiar-se no que carece de
justificativa, pois o pensamento não pode ser uma falsidade. Ao mesmo tempo,
devemos estudar atentamente e não recusar-nos a ouvir as alegações dos que pensam ter
alcançado, mediante recursos que não podem ser incluídos nas categorias usuais do
senso comum, verdades inspiradoras e reconfortantes a respeito da realidade. Não
devemos tomar como certo que as pretensões de uma cognição genuína em matéria de
experiência místico-religiosa, com relação a um diferente aspecto da realidade, devam
ser necessariamente descartadas coma carentes de justificativa apenas por não se
ajustarem a um materialismo sugerido, mas de modo algum provado e, agora, nem
mesmo sustentado pela ciência moderna.

A importância de ensinar filosofia no ensino médio


Filosofia: a reflexão que contraria o pensamento cotidiano.
Considerada indispensável ao currículo do Ensino Médio, a Filosofia e a Sociologia foram aprovadas, em julho de 2006, pela
Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE), como disciplinas obrigatórias no currículo do Ensino Médio.

Tal exigência se deu devido à percepção que educadores tiveram ao constatar os benefícios que a disciplina oferece aos alunos que
trabalham com ela.
A Filosofia em especial, leva o aluno à oportunidade de desenvolver um pensamento independente e crítico, ou seja, permite a ele
experimentar um pensar individual. Sabe-se que cada disciplina apresenta suas próprias características, bem como auxilia a
desenvolver habilidades específicas do pensamento que é abordado.

No caso da Filosofia, essa permite e dá oportunidade de realizar o pensamento de maneira bastante pessoal.
O Ensino Médio é geralmente considerado pelos educadores como uma fase de consolidação do aluno jovem, de sua personalidade e
seus desejos, a Filosofia apresenta um papel importante e fundamental no sentido de colaboração.

A Filosofia é bastante questionada enquanto disciplina, é necessário que os educadores se conscientizem de que o ensino não deve ser
considerado como uma disciplina a mais a ser ensinada. O ideal é que o professor que tem a responsabilidade de aplicar tal disciplina
tenha em mente o quanto é necessário fazer com que seus alunos não fiquem dependentes de livros didáticos, não desmerecendo, mas
no sentido de não tender para os tão famosos “decorebas” de idéias e autores.

Aos educadores que se preocupam com a melhor forma de aplicar a Filosofia, não existe receita pronta. Recomenda-se a priorização de
práticas que favoreça a formação de jovens capazes de desenvolver seu próprio pensamento e crítica, formando cidadãos capacitados
para enfrentar as diversas situações que poderão surgir em suas vidas.

A Filosofia é fundamental na vida de todo ser humano, visto que proporciona a prática de análise, reflexão e crítica em benefício do
encontro do conhecimento do mundo e do homem.