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SAMIZDAT12

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MENSAGEM DE ANIVERSÁRIO, Henry Alfred Bugalho

Por que Samizdat?, Henry Alfred Bugalho

ENTREVISTA
Sacolinha

MICROCONTOS
Henry Alfred Bugalho
José Espírito Santo
Volmar Camargo Junior
Guilherme Rodrigues
Carlos Alberto Barros

RECOMENDAÇÕES DE LEITURA
O fim de todas as utopias: um mundo nada admirável, Henry Alfred Bugalho
A Estrada, de Cormac McCarthy, Carlos Alberto Barros

AUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESA
A Dama do Lotação, Nelson Rodrigues

CONTOS
Vai entender cabeça de chefe, Carlos Alberto Barros
O Soldado e a toupeira, Volmar Camargo Junior
A Criatura, Henry Alfred Bugalho
Ano Novo - Vida Nova, Joaquim Bispo
Conto de Natal, Maria de Fátima Santos
O Funeral de meu avô, Maria de Fátima Santos
O Horizonte, Guilherme Rodrigues
As Bases da Criação, José Espírito Santo
Unha, Zulmar Lopes
Gênesis, Pedro Faria
Hárpias - a Dipusta das Fúrias, Giselle Natsu Sato
Os deliciosos biscoitos de Oma Guerta, Maristela Scheuer Deves

Autor Convidado
A Escada, Lucas Riello de Almeida
Poemetos, Renato Wegner de Souza

TRADUÇÃO
As Cinco Dádivas da Vida, Mark Twain
A História do Inválido, Mark Twain
La Esencia de las horas, Volmar Camargo Junior
Autobiografia, Enrique Gutiérrez Miranda

TEORIA LITERÁRIA
Manifesto Urbanicista, Volmar Camargo Junior
A Linguagem do dia-a-dia na Literatura, Henry Alfred Bugalho

CRÔNICA
Ao Sr. Schopenhauer, Caio Rudá
Dialética do Jeitinho Brasileiro, Henry Alfred Bugalho
Litoral e Capital, Pedro Faria
A Desinformação Pública, Joaquim Bispo
A Importância do Prepúcio, Joaquim Bispo
Mitos, Mitos, Mitos, Joaquim Bispo

POESIA
Laboratório Poético - Do Caroço de um Hora (A Essência das Horas), Volmar Camargo Junior
Poesias, Carlos Alberto Barros
Sonetos, Marcia Szajnbok
PlagicAMORniano, Dênis Moura

SOBRE OS AUTORES DA SAMIZDAT
MENSAGEM DE ANIVERSÁRIO, Henry Alfred Bugalho

Por que Samizdat?, Henry Alfred Bugalho

ENTREVISTA
Sacolinha

MICROCONTOS
Henry Alfred Bugalho
José Espírito Santo
Volmar Camargo Junior
Guilherme Rodrigues
Carlos Alberto Barros

RECOMENDAÇÕES DE LEITURA
O fim de todas as utopias: um mundo nada admirável, Henry Alfred Bugalho
A Estrada, de Cormac McCarthy, Carlos Alberto Barros

AUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESA
A Dama do Lotação, Nelson Rodrigues

CONTOS
Vai entender cabeça de chefe, Carlos Alberto Barros
O Soldado e a toupeira, Volmar Camargo Junior
A Criatura, Henry Alfred Bugalho
Ano Novo - Vida Nova, Joaquim Bispo
Conto de Natal, Maria de Fátima Santos
O Funeral de meu avô, Maria de Fátima Santos
O Horizonte, Guilherme Rodrigues
As Bases da Criação, José Espírito Santo
Unha, Zulmar Lopes
Gênesis, Pedro Faria
Hárpias - a Dipusta das Fúrias, Giselle Natsu Sato
Os deliciosos biscoitos de Oma Guerta, Maristela Scheuer Deves

Autor Convidado
A Escada, Lucas Riello de Almeida
Poemetos, Renato Wegner de Souza

TRADUÇÃO
As Cinco Dádivas da Vida, Mark Twain
A História do Inválido, Mark Twain
La Esencia de las horas, Volmar Camargo Junior
Autobiografia, Enrique Gutiérrez Miranda

TEORIA LITERÁRIA
Manifesto Urbanicista, Volmar Camargo Junior
A Linguagem do dia-a-dia na Literatura, Henry Alfred Bugalho

CRÔNICA
Ao Sr. Schopenhauer, Caio Rudá
Dialética do Jeitinho Brasileiro, Henry Alfred Bugalho
Litoral e Capital, Pedro Faria
A Desinformação Pública, Joaquim Bispo
A Importância do Prepúcio, Joaquim Bispo
Mitos, Mitos, Mitos, Joaquim Bispo

POESIA
Laboratório Poético - Do Caroço de um Hora (A Essência das Horas), Volmar Camargo Junior
Poesias, Carlos Alberto Barros
Sonetos, Marcia Szajnbok
PlagicAMORniano, Dênis Moura

SOBRE OS AUTORES DA SAMIZDAT

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Published by: Henry Alfred Bugalho on Jan 01, 2009
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SAMIZDAT

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12
2009

janeiro

ficina

Mark Twain
a ficção de um dos maiores autores norte-americanos

SAMIZDAT 12
janeiro de 2009
Edição, Capa e Diagramação: Henry Alfred Bugalho Autores Caio Rudá Carlos Alberto Barros Dênis Moura Giselle Natsu Sato Guilherme Rodrigues Henry Alfred Bugalho Joaquim Bispo José Espírito Santo Marcia Szajnbok Maria de Fátima Santos Maristela Scheuer Deves Pedro Faria Volmar Camargo Junior Zulmar Lopes Autores Convidados Lucas Riello de Almeida Renato Wegner de Souza Textos de: Enrique Gutiérrez Miranda Mark Twain Nelson Rodrigues

Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons. Todas as imagens publicadas são de domínio público ou royalty free. As idéias expressas e a revisão das obras são de inteira responsabilidades de seus autores ou tradutores.

Editorial
Um ano de SAMIZDAT! Certamente que nós temos muito a comemorar. Nesta época virtual, quando tudo é tão efêmero e desaparece tão rápido quanto surge, uma revista como a SAMIZDAT perdurar por tanto tempo é uma vitória. Nestes doze meses, muita água passou por debaixo desta ponte, autores canônicos ou desconhecidos, contos, poemas, crônicas, resenhas, entrevistas, escritores lusófonos ou não. Reunimos o que há de melhor no mundo da Literatura, e o que há de novo, ou de inusitado. Há uma citação do escritor e cineasta Jean Cocteau que define bem o espírito da Revista SAMIZDAT: “Não sabendo que era impossível, foi lá e fez.” E realmente acredito que nenhum de nós sabia que era impossível. Henry Alfred Bugalho

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Sumário
MENSAGEM DE ANIVERSÁRIO
Henry Alfred Bugalho

6 8

POR quE SAMIzDAt?
Henry Alfred Bugalho

ENtREVIStA Sacolinha MICROCONtOS
Henry Alfred Bugalho José Espírito Santo Volmar Camargo Junior Guilherme Rodrigues Carlos Alberto Barros

10 14 14 15 16 17

RECOMENDAÇÕES DE LEItuRA O fim de todas as utopias: um mundo nada admirável 18
Henry Alfred Bugalho

A Estrada, de Cormac McCarthy
Carlos Alberto Barros

21

AutOR EM LÍNGuA PORtuGuESA A Dama do Lotação
Nelson Rodrigues

22

CONtOS Vai entender cabeça de chefe
Carlos Alberto Barros

28 30

O Soldado e a toupeira
Volmar Camargo Junior

A Criatura

Henry Alfred Bugalho Joaquim Bispo

34 36 39 40 44 46 49 50 52 57

Ano Novo - Vida Nova Conto de Natal
Maria de Fátima Santos

O Funeral de meu avô
Maria de Fátima Santos Guilherme Rodrigues

O Horizonte As Bases da Criação
José Espírito Santo Zulmar Lopes Pedro Faria Giselle Natsu Sato

Unha

Gênesis

Hárpias - a Dipusta das Fúrias Os deliciosos biscoitos de Oma Guerta
Maristela Scheuer Deves

AutOR CONVIDADO A Escada Poemetos

Lucas Riello de Almeida Renato Wegner de Souza

60 60

tRADuÇÃO As Cinco Dádivas da Vida A História do Inválido La Esencia de las horas Autobiografia
Volmar Camargo Junior Enrique Gutiérrez Miranda Mark Twain Mark Twain

64 66 72 74

tEORIA LItERÁRIA Manifesto Urbanicista
Volmar Camargo Junior

76

A Linguagem do dia-a-dia na Literatura
Henry Alfred Bugalho

78

CRÔNICA Ao Sr. Schopenhauer
Caio Rudá

82 86 88 90 91 92

Dialética do Jeitinho Brasileiro
Henry Alfred Bugalho Pedro Faria

Litoral e Capital A Desinformação Pública
Joaquim Bispo

A Importância do Prepúcio
Joaquim Bispo Joaquim Bispo

Mitos, Mitos, Mitos

POESIA Laboratório Poético - Do Caroço de um Hora (A Essência das Horas) 94
Volmar Camargo Junior Carlos Alberto Barros Marcia Szajnbok Dênis Moura

Poesias

95 96 98

Sonetos

PlagicAMORniano

SOBRE OS AUTORES DA SAMIZDAT

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SEÇÃO DO LEITOR
Agora o leitor da SAMIZDAT também pode colaborar com a elaboração da revista. Envie-nos suas sugestões, críticas e comentários. Você também pode propor ou enviar textos para as seguintes seções da revista: Resenha Literária, Teoria Literária, Autores em Língua Portuguesa, Tradução e Autor Convidado. Escreva-nos para: revistasamizdat@hotmail.com

Mensagem de Aniversário

Henry Alfred Bugalho

um ano de existência
6 6 SAMIZDAT dezembro de 2008

SAMIZDAT comemora

Quando o blog da Revista SAMIZDAT foi ao ar, no dia 31 de dezembro de 2007, não tínhamos muita idéia do que estava por vir. Reunir um grupo coeso de escritores, capaz de produzir Literatura de qualidade e de trocar experiências sempre havia sido um objetivo meu, desde quando comecei a escrever e participar de oficinas literárias em Curitiba. Mas os escritores de hoje são bichos arredios, com egos sensíveis e que geralmente preferem o isolamento, onde podem divagar sobre a própria genialidade, do que se embrenhar na complicada dinâmica dos relacionamentos sociais. Relacionar-se com outros escritores, seja pessoal ou virtualmente, é correr o risco de se transformar, de descobrir nossos próprios limites, nossas dificuldades, nossos erros; é correr o risco de se descaracterizar, mas também é a oportunidade para um crescimento literário inestimável. Não é à toa que vários escritores pretéritos buscaram em seus pares apoio para a árdua carreira das Letras. Grupos, movimentos, revistas, círculos, estes eram ambientes seguros para escritores sequiosos por novos horizontes. Esta troca os permitiu crescerem, lapitarem o diamante bruto da escrita.
http://www.flickr.com/photos/tym/247265947/sizes/o/

Foi através de revistas, como a “Orpheu”, que Fernando Pessoa e alguns de seus heterônimos surgiram para o mundo. Também foi em revistas que Jorges Luis Borges, Dalton Trevisan, Isaac Asimov, Raymond Carver, James Joyce, e vários outros autores se tornaram conhecidos. A revista literária, ou alguma publicação periódica, é uma vitrine para o autor, uma centelha de visibilidade. Algumas revistas duram poucos meses, outras perduram; algumas são lembradas, outras esquecidas; como tudo no mundo da Arte. Que a Revista SAMIZDAT esteja completando um ano de existência é algo que me surpreende, se pensarmos que tudo se originou a partir dum blog e dum primeiro fascículo mal diagramado. Tive de aprender muito para tornar a SAMIZDAT visualmente atrativa. Mas nós, enquanto escritores, também estamos aprendendo sempre como tornar nossas obras literariamente atrativas. É uma luta diária, que está ocorrendo no silêncio de nossas casas, ou diluída por entre o mundo etéreo da internet. Esta revista é um sonho coletivo tornado real, mas é também uma das vitórias desta nossa luta diária. Parabéns para nós!

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Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo e posso ser preso por causa disto” Vladimir Bukovsky

Henry Alfred Bugalho
henrybugalho@hotmail.com

Inclusão e Exclusão
Nas relações humanas, sempre há uma dinâmica de inclusão e exclusão. O grupo dominante, pela própria natureza restritiva do poder, costuma excluir ou ignorar tudo aquilo que não pertença a seu projeto, ou que esteja contra seus princípios. Em regimes autoritários, esta exclusão é muito evidente, sob forma de perseguição, censura, exílio. Qualquer um que se interponha no caminho dos dirigentes é afastado e ostracizado. As razões disto são muito simples de se compreender: o diferente, o dissidente é perigoso, pois apresenta alternativas, às vezes, muito melhores do que o estabelecido. Por isto, é necessário suprirmir, esconder, banir. A União Soviética não foi muito diferente de demais regimes autocráticos. Origina-se como uma forma de governo humanitária, igualitária, mas logo

se converte em uma ditadura como qualquer outra. É a microfísica do poder. Em reação, aqueles que se acreditavam como livrespensadores, que não queriam, ou não conseguiram, fazer parte da máquina administrativa - que estipulava como deveria ser a cultura, a informação, a voz do povo -, encontraram na autopublicação clandestina um meio de expressão. Datilografando, mimeografando, ou simplesmente manuscrevendo, tais autores russos disseminavam suas idéias. E ao leitor era incumbida a tarefa de continuar esta cadeia, reproduzindo tais obras e também as passando adiante. Este processo foi designado "samizdat", que nada mais significa do que "autopublicado", em oposição às publicações oficiais do regime soviético.

Foto: exenplo dum samizdat. Cortesia do Gulag Museum em Perm-36.

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SAMIZDAT dezembro de 2008

E por que Samizdat?
A indústria cultural - e o mercado literário faz parte dela - também realiza um processo de exclusão, baseado no que se julga não ter valor mercadológico. Inexplicavelmente, estabeleceu-se que contos, poemas, autores desconhecidos não podem ser comercializados, que não vale a pena investir neles, pois os gastos seriam maiores do que o lucro. A indústria deseja o produto pronto e com consumidores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mesmo o lixo possui prioridades na hora de ser absorvido pelo mercado. E a autopublicação, como em qualquer regime excludente, torna-se a via para produtores culturais atingirem o público. Este é um processo solitário e gradativo. O autor precisa conquistar leitor a leitor. Não há grandes aparatos midiáticos - como TV ,

revistas, jornais - onde ele possa divulgar seu trabalho. O único aspecto que conta é o prazer que a obra causa no leitor. Enquanto que este é um trabalho difícil, por outro lado, concede ao criador uma liberdade e uma autonomia total: ele é dono de sua palavra, é o responsável pelo que diz, o culpado por seus erros, é quem recebe os louros por seus acertos. E, com a internet, os autores possuem acesso direto e imediato a seus leitores. A repercussão do que escreve (quando há) surge em questão de minutos. Ao serem obrigados a burlarem a indústria cultural, os autores conquistaram algo que jamais conseguiriam de outro modo, o contato quase pessoal com os leitores, o diálogo capaz de tornar a obra melhor, a rede de contatos que, se não é tão influente quanto a da grande mídia, faz do leitor um colaborador, um co-autor da obra que lê. Não há sucesso, não há gran-

des tiragens que substitua o prazer de ouvir o respaldo de leitores sinceros, que não estão atrás de grandes autores populares, que não perseguem ansiosos os 10 mais vendidos. Os autores que compõem este projeto não fazem parte de nenhum movimento literário organizado, não são modernistas, pósmodernistas, vanguardistas ou qualquer outra definição que vise rotular e definir a orientação dum grupo. São apenas escritores interessados em trocar experiências e sofisticarem suas escritas. A qualidade deles não é uma orientação de estilo, mas sim a heterogeneidade. Enfim, “Samizdat” porque a internet é um meio de autopublicação, mas “Samizdat” porque também é um modo de contornar um processo de exclusão e de atingir o objetivo fundamental da escrita: ser lido por alguém.

SAMIZDAT é uma revista eletrônica mensal, escrita, editada e publicada pelos integrantes da Oficina de Escritores e Teoria Literária. Diariamente são incluídos novos textos de autores consagrados e de jovens escritores amadores, entusiastas e profissionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais.

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SACOLINHA
Ademiro Alves de Sousa, conhecido como Sacolinha, é um dos destaques da literatura brasileira contemporânea. Autor de dois livros: “Graduado em Marginalidade” e “85 letras e um disparo”, participou, ainda, de diversas publicações: revista “Caros Amigos”, antologia “No limite da palavra” da editora Scortecci, antologias “Cadernos Negros”, entre outras. Ganhador de alguns prêmios literários, é também o fundador da Associação Cultural Literatura no Brasil e é responsável pela Coordenadoria Literária da Secretaria de Cultura do município de Suzano, em São Paulo. Com muita prestatividade, o escritor nos concedeu esta entrevista.

Entrevista

SAMIZDAT: O fato de você ser um autor que surgiu na periferia foi um obstáculo ou um chamariz para sua carreira? Sacolinha: Nem um e nem outro. O autor pode surgir de qualquer lugar, mas se ele não tiver uma boa escrita, persistência e articulação, ele não chega e nem se mantém em lugar nenhum. As editoras não estão nem aí de onde vem o escritor, elas querem saber se ele é conhecido e se o livro é vendável. Vejam o caso da

Bruna Surfistinha e alguns Big Brohter’s. Lançaram seus livros que venderam horrores, mas depois do segundo título eles deram com os burros n’água, e não conseguiram se manter. Talvez o fator geográfico tenha contribuído um pouco para minha carreira, já que ser morador da periferia hoje em dia é estar na moda, todo mundo quer ser, graças aos seriados, às novelas e filmes.

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SAMIZDAT dezembro de 2008

Qual é a importância da consciência política e social na sua escrita? A Literatura e a cultura em geral devem assumir este compromisso? Escrever é fazer diferença? Sacolinha: Literatura abrange muita coisa, entre elas a geografia, filosofia, história e a ciência. Um livro como Grande Sertão: Veredas do Guimarães Rosa tem tudo isso e muito mais. Olhem o escritor português José Saramago, se ele não tivesse consciência política e social, seus livros não seriam conhecidos no mundo inteiro. Eu sempre achei que escritor tem que saber de tudo um pouco, inclusive ser engajado em algum movimento social como o Saramago por exemplo. Não dá pra ficar encerrado num gabinete e inventando histórias ou esperar a noite chegar para ver a lua e ter inspiração. A literatura só não pode ser engajada demais, porque aí vira documentário, e o papel da literatura não é esse. Em alguns textos seus ou a seu respeito – há uma entrevista genial que você deu a um jornalzinho estudantil! – você usa os termos “revolta” e “vingança”, em relação à sua literatura. Há alguns anos, não muitos, dizer abertamente, ou veladamente, traduzindo isso em metáforas, era motivo para os artistas “desaparecerem”, levarem porrada ou, na melhor das hipóteses, serem exilados do Brasil. Como você sente a liberdade de poder “se revoltar” e “se vingar” através da literatura?

Sacolinha: No meu caso essa revolta e essa vingança refere-se mais ao meu interior do que exterior. Quero me vingar dos atos e fatos do cotidiano, quero trancafiar ou acabar com meus demônios, me vingar dos pensamentos e desejos ruins. Tenho a literatura como uma válvula de escape, eu escrevo não por hobby ou status, mas porque preciso me extravasar. A pergunta pode parecer capciosa, mas não é: se você fosse político e estivesse no poder (não como funcionário, mas tendo sido eleito), pelo que você lutaria? Sacolinha: Por políticas públicas para a cultura para todos aqueles artistas formados pela vida. Quero dizer que têm muitos artistas (popular, clássico e erudito) que não sentaram na cadeira da universidade e desenvolvem um puta trabalho, seja na capoeira, no maracatu, no teatro, na música, no cinema, literatura e nas artes plásticas. Agora tem um monte de acadêmicos por aí metidos a artistas e sequer pisou no barro, sequer fez um trabalho fora do seu ambiente. Muitos até já têm seu padrinho desde pequeno e hoje fazem eventos com a nossa grana (Petrobras, Lei Rouanet, etc.) e ainda cobram ingresso. Lutaria por essa inversão, contribuindo para que os artistas menos favorecidos tivessem acesso às leis de incentivo à cultura. E com isso eu estaria lutando pelo direito à vida, porque

acredito que o cidadão que tem acesso à cultura ou desenvolve alguma arte, ele enxerga melhor, não morre de fome, tem saúde e sabe resolver situações problemas. Há um site que diz que seu romance “Graduado em Marginalidade” tem trezentas e onze personagens. Isso é exagero de notícia ou é fato? Você acha possível dar ao leitor tantas verdadeiras e identificáveis personagens, num romance com menos de duzentas páginas? Sacolinha: É verdade, tem sim. Mas não pensem que todas elas são protagonistas em primeiro plano. Não sou marxista, mas gosto de dar voz aos que não tem voz. Se vocês forem ler o “85 Letras e um Disparo” verão que a maioria dos contos tem personagens inferiorizados pela sociedade que são muito mais do que ela imagina; é uma prostituta que lê Allan Poe, um mendigo que faz dissertações, um ladrão mais instruído que qualquer presidente, e assim vai. Muitos de seus textos são escritos com linguagem próxima da fala do cotidiano. O trecho “Se eles não tivessem naquela esquina, aquele dia, aquela hora...” demonstra bem isso. Você acredita que o escritor deve se exprimir como o homem da rua para melhor se fazer entender? Sacolinha: Nunca acreditei nisso, acredito que o escritor deve escrever sem

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maquiagens. Usar os seus conhecimentos e sua estrutura lingüística, somente isso. O escritor que fica procurando meios ou que escreve pensando na recepção do leitor, pra mim não vale nada. Qual é o limite entre realidade e ficção em suas obras? Sacolinha: Só escrevo realidade quando faço crônicas, de resto é tudo ficção, mesmo baseando-me na realidade. O público brasileiro parece possuir um fascínio por filmes, seriados e livros que retratam a vida na periferia. Para você, a que se deve este fenômeno? Sacolinha: Conforme já falei, a periferia está na moda há muito tempo. Antes era o Gil Gomes, Afanázio Jazadige, Ratinho e o demagogo do Datena que levavam a gente pra tela, mas de uma forma a mostrar somente o lado ruim. Agora são outras pessoas e outros meios e formas de mostrar a vida na periferia, mas ainda assim é de uma forma pejorativa. O que mudou é que descobriram que nesses lugares têm muita gente boa, em tudo. Por isso é que Cidade de Deus, Antônia, Tropa de Elite e outros foram protagonizados por gente que é da periferia, ao contrário disso, esses produtos não teriam feito tanto sucesso. Discutíamos, na comu-

nidade dos colaboradores da SAMIZDAT, que os escritores costumam escolher um tema, ou uns poucos temas, e debruçam-se neles por um bom tempo – e isso pode mesmo ser inconsciente. Há um tema comum no que você escreve? Sacolinha: Não. O meu primeiro livro “Graduado em Marginalidade” é pura violência, já o segundo “85 Letras e um Disparo” é mais cômico e suave e versa sobre vários temas de nossa sociedade. Estou com mais dois livros prontos para serem lançados: “Peripécias de Minha Infância” é um romance infanto-juvenil que trabalha com a criatividade e “O homem que não mexia com a Natureza” é um livro que aborda a temática do meio ambiente. Tem um outro livro que vou começar a escrever que vai falar da questão política. Estou escrevendo um livro didático sobre leitura. Escrevo conforme vai tocando a minha cabeça. Não me apego aos temas. Existem discussões sobre letras de músicas serem ou não poesia. Por exemplo, letras do Chico Buarque, quando lidas, são verdadeiros poemas, mas ainda têm um fundamento – e certa interdependência – com o ritmo musical (Cálice é uma delas). E o rap, é um ritmo que tem uma letra, ou uma forma de poesia, acompanhada de um ritmo? Você que escreve ou escreveu rap, o que acha: é poesia, música, ou algo além?

Sacolinha: Sempre gostei de ler as músicas. Presto mais atenção na letra do que no ritmo, e pra mim, música sempre foi poesia, principalmente o rap que transforma coisas ruins em melodias, transformam o sangue e a violência em poesia. Sem contar que tem seu jeito próprio de cantar, sua forma de dizer “zói” ao invés de “olhos”, e falar coisas que só mesmo quem é do meio entende, quem não é, tem que levantar hipóteses e interpretar. Isso eu acho o máximo, porque fizeram dessa maneira com os pobres a mais de séculos, desde a missa rezada em latim nos tempos dos sermões do Padre Vieira, passando pela escravidão e chegando até os dias de hoje nos termos da linguagem técnica, onde um cidadão não consegue nem entender o artigo que está sendo condenado. Num texto seu, Crônica de um jovem salvo pela literatura, há um trecho valioso: “Precisava fazer alguma coisa para me extravasar: eu partia para o lado da pólvora (crime) ou para o lado do açúcar (cultura). Optei pelo açúcar, que às vezes é um pouco amargo.” Entre essas amarguras, o que foi mais amargo depois dessa escolha? Sacolinha: Ouvir milhares de “não”, desde as respostas das editoras até as respostas das pessoas que eu abordava nos bares e teatros de Pinheiros e Vila Madalena quando vendia livros nas ruas. Eu pensava: optei pela

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SAMIZDAT dezembro de 2008

cultura que é uma atividade legalmente correta, mas ninguém me dá estrutura. Me enforco de prestações para publicar um livro e quando saio para vender ninguém quer dar atenção, alguns até seguram suas bolsas. Isso é amargura, você ter a idéia, colocar no papel sofregamente, diagramar, revisar, publicar com seu próprio dinheiro, divulgar e vender, ser o próprio editor e livreiro. Alguns de nós adoraríamos ter uma coordenadoria de literatura dentro das secretarias de cultura de nossos municípios. Em seu blog, num comentário sobre sua agenda semanal, nota-se que você é muito ocupado e tem grandes responsabilidades como coordenador de literatura da cidade de Suzano. Como funciona uma coordenadoria desse tipo? Como é o seu trabalho? Sacolinha: Minha função é mais externa do que interna, até porque numa sala a gente não produz nada. Então o negócio é estar na rua, sentir cheiro de gente e tomar sol na cabeça. Como Coordenador Literário tenho que desenvolver projetos de incentivo à leitura e de promoção aos escritores. Nada difícil pra quem gosta do que faz. Mas tem que pensar em tudo, inclusive na pré-produção, produção e pós-produção. Já publiquei 132 autores, trouxe escritores como Ariano Suassuna, Marcelo Rubens Paiva, Moacir Sclyar, Loyola Brandão, entre

outros. Promovi 4 concursos literários, dezenas de oficinas e projetos para incentivar crianças, jovens e adultos a lerem. E falta de verba tem, a diferença é que eu corro atrás de tudo quanto é empresa e vivo batendo na porta do Governo Federal atrás de grana para o desenvolvimento dos projetos. O que falta muito por aí, em Suzano tem de sobra: vontade política. Há uma tendência (do mercado editorial, da História da Literatura, das universidades, dos críticos... não se sabe ao certo de quem...) de encarcerar os livros em gêneros. Por isso, às vezes, há coisas como Literatura Esotérica, Literatura Espírita, Literatura Erótica, Literatura Gay, como que direcionando o que é produzido para “nichos” de leitores. A segunda edição de seu livro “85 letras e um disparo” foi inclusa numa série chamada “Literatura Periférica”. O que é essa literatura? Essa denominação vem de onde? De quem produz ou de quem publica? Sacolinha: No caso da Literatura Periférica, esse foi um título dado pelos próprios autores, como uma forma de pertencimento, de geografia. Creio que direcionar a literatura por temas, não é algo de ruim, mas uma forma de identificar o tipo de literatura, como literatura estrangeira, indígena, auto-ajuda, etc. Eu mesmo nunca aceitei rótulos, o que faço é somente literatura. Não sei quem está apto a tematizar o que

eu escrevo. O que é a Literatura no Brasil? Sacolinha: A Associação Cultural Literatura no Brasil é uma entidade que fundei em dezembro de 2002 com dois objetivos: incentivar a leitura e divulgar os escritores independentes. Essa entidade tem hoje vários projetos, muitos até em parceria com prefeituras, Petrobras e a Fundação Itaú Social. Não queríamos perguntar, mas não tem como fugir disso: de onde veio o nome “Sacolinha”? Sacolinha: Essa é uma história longa, outro dia com mais calma eu explico. Quem quiser pode ir lá no meu blog que tem tudo explicadinho: www.sacolagraduado.blogspot.com A esquipe da SAMIZDAT agredece sua participação. Muito sucesso em seus projetos!

Coordenadora da entrevista: Carlos Alberto Barros Perguntas feitas por: Volmar Camargo Junior Joaquim Bispo Henry Alfred Bugalho

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Microcontos

As boas-novas
Henry Alfred Bugalho

É engraçado como a vida dá voltas. Como aqueles testemunhas de jeová, aqueles crentes, carismáticos que batiam à minha porta no domingo de manhã, tentando me converter, me irritavam! Não tenho hábito de dormir cedo, por isto, alguém tocando o interfone ou a campainha de casa às 9 da matina, era pedir pra acabar com meu dia. Não havia bom humor que resistisse. - Oi, irmão, viemos lhe falar de Jesus, diziam eles. - Eu quero que vocês e o seu Jesus se fodam, respondia eu, batendo a porta na cara deles. E isto era todo domingo, todo maldito final-de-semana. Mês passado, meu filho foi assassinado, violentado e esquartejado por um maníaco. Pensei em me matar, minha esposa, devastada. Um amigo nosso nos convenceu a irmos até sua igreja e fomos acolhidos. Hoje, domingo de manhã, sai com outros irmãos para espalhar as boas-novas. Numa das casas, alguém saiu, nervoso: - Vão se foder! Eu quero dormir! - e bateu a porta em nossa cara. - Vai se foder você, seu incréu! Que Deus amaldiçoe você e todos seus descendentes! - retruquei. Virei crente, mas também não tenho sangue de barata.
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A queda
http://www.flickr.com/photos/foreversouls/261588031/sizes/l/

José Espírito Santo O animal caiu a um poço. Ao querer salvá-la, os sábios e os teólogos esbarraram na ambiguidade... Quem resgatariam? A zebra branca com riscas pretas ou a zebra preta com riscas brancas?

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SAMIZDAT dezembro de 2008

Um pra duas
Volmar Camargo Junior
- Ô moço! Vê pra nós um pastel e um chiclé. - Tá aqui. Dois reais e quinze. - Descontinho de cinco centavos? - Pode ser. - Vê mais um guardanapo. - Bah, aí eu fico no prejuízo, guria. - Tá bom, tá bom... mas cortar no meio, será que dá?

A Cordinha
Volmar Camargo Junior
- Sabe de que eu tenho nojo? Dessa cordinha do saquinho de chá. - O que tem de mais nela? - Não sei. Mas vai dizer que não parece com uma lombriga na sua xícara?

traição
Volmar Camargo Junior
- Amor, sabe aquela espinha que me saiu na nuca. - Qual? Aquela que eu to namorando desde anteontem? - Essa mesma. Se eu te contar que outra pessoa estourou, você vai ficar muito brava?

O próprio
Volmar Camargo Junior
- Alô. É da casa do Silva? - Boa tarde, é o próprio. - Boa tarde, Seu Próprio. O Silva está?

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Corriqueirismos

Um e outra
Volmar Camargo Junior

Tereza chamava-se Marco Antônio. Em casa, lavava, passava, cozinhava, tomava um banho demorado, e esperava, sem roupa, o amor de sua vida. À meia-noite, quando o amor chegava, durante uma xícara de chá, escolhiam se no quarto seria Marco Antônio ou seria Tereza.

Ensinamentos
Guilherme Rodrigues
Pare de falar. Veja. O silêncio explica tudo e se explica. Limpe a folhigem que ofusca sua visão. Se a limpeza não for suficiente, quebre o muro. A vida é curta, mas tenho todo o tempo para fazer o que gosto. Repare. Amor. Uma coisa de cada vez. Começou. Termine. Pare. Respire. Continue. Dinheiro e sucesso são resultados do suor. Excessos são necessários, para poder desprezá-los. Deus. Deve existir. A obra de arte não é para ser analisada. É para ser admirada. Livre-se de teorias. Aprecie. Machado de Assis, Guimarães Rosa, Camões, Fernando Pessoa, Goethe, Karl Marx, Nietzsche, Freud, Schopenhauer, Hitler, Lenin, Stalin, Che Guevara, Beethoven, Bach, Mozart, Chopin etc etc etc. Você é melhor do que todos eles. Escreva. Por quê? Guarde umas horinhas somente para si.
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Microcontos

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Concentração
Guilherme Rodrigues
- Ei. Vamos ouvir o silêncio? - Vamos. Meia hora se passou. - O silêncio é irritante. - Sim. Mas sábio. Algumas horas se passaram. - Vamos brincar no parque? - Vamos.

Guilherme Rodrigues
Abra as portas e as janelas, deixe que novos ares entrem, veja a natureza, sinta o aroma de vida. Inspire.

Perdão
Carlos Alberto Barros
A lágrima escorreu-lhe até o bico do seio. Mas, foi ele chupar, que ela logo o perdoou.

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Abra-se

Recomendações de Leitura

Henry Alfred Bugalho

O fim de todas as utopias: um mundo nada admirável
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Durante o Iluminismo, o ser humano se deslumbrou diante de sua própria capacidade intelectual. Gênios das artes, das ciências, da filosofia se proliferaram pela Europa, confiantes de que, através do bom uso da racionalidade, um novo mundo poderia ser criado. Este anseio por um mundo perfeito é antigo. Podemos rastreá-lo desde manuscritos religiosos pré-cristãos, primeiro situando-no num mundo anterior ao surgimento da Humanidade, ou em reinos após a morte, como o Jardim do Éden, o Nirvana, o Moksha do hinduísmo, ou a Nova Jerusalém. Platão situa uma civilização utópica no meio do oceano, representada pelo mito de Atlântida. Thomas Moore imortaliza o termo em sua obra “Utopia”, um ilha imaginária com um governo perfeito. Francis Bacon acreditava que a “Nova Atlântida” seria na América, também perfeita, regida por sábios cientistas. No entanto, os avanços tecnológicos e como o ser humano os utilizou abriu margem para o oposto da utopia: as distopias, nas quais, ao invés de perfeição e harmonia, a sociedade se tornaria insuportavelmente sistemática, repressora, ou brutal. Costuma-se dizer que não é possível acreditar em utopias no século XX, após duas

guerras mundiais, a bomba atômica, o holocausto. A barbárie aniquilou qualquer esperança no futuro, qualquer sentimento de que a razão poderia nos levar à perfeição. É neste contexto que surge “Admirável Mundo Novo”, do britânico Aldous Huxley. O romance foi escrito uma década antes da Segunda Grande Guerra, mas já possui um pessimismo tecnocrático que pretendia anteceder os extremos da racionalidade. A trama se passa no futuro, numa sociedade estratificada a partir de manipulações genéticas. Existe uma pirâmide social e o grau de liberdade e autonomia depende de qual classe genética um indivíduo nasce. A divisão de tempo é feita em dois momentos: trabalho e lazer. Como método de alienação, o trabalhador de cada função só possui conhecimento de suas especificidades, sem noção do todo; nos momentos de lazer, e também como forma de controle social, cada indivíduo recebe sua cota de “soma”, uma droga imbecilizante. O protagonista de “Admirável Mundo Novo” é Bernard Marx, um membro do estrato mais alto. A referência de seu nome ao filósofo Karl Marx é evidente, assim como todos os demais personagens, todos eles vinculados à figuras proeminentes do capitalismo

e do socialismo. O mundo no qual Bernard Marx vive é um capitalismo socialista, se é que estes opostos podem ser reconciliados. Capitalista porque fundamenta-se sobre o princípio de produção em massa e, provavelmente, da mais-valia; socialista porque, por mais que haja estratos sociais, todos são iguais no interior de cada casta, inclusive, em alguns casos, geneticamente idênticos. O deus idolatrado neste futuro é o “Ford” (trocadilho com “Lord”, ou “Senhor [Deus]”) e remete-nos a Henry Ford, o criador do primeiro automóvel fabricado em série. Bernard possui um comportamento anômalo; ao contrário dos demais indivíduos de seu tempo, ele não está satisfeito, é oprimido por uma angústia que não consegue explicar. Para se exibir para uma garota, ele a leva até uma reserva selvagem, onde homens primitivos vivem uma vida rudimentar - provavelmente como nós vivemos hoje. Lá, ele encontra John “O Selvagem”, que é filho duma mulher duns dos altos estratos sociais, mas que se perdeu na reserva muitos anos antes. Este encontro entre Bernard e John será a causa dum conflito interno muito maior para o protagonista, que vê num mundo primitivo uma alternativa para sua contem-

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poraneidade. “Admirável Mundo Novo” é a obra mais conhecida e acolhida de Aldous Huxley, que sempre foi uma figura controversa - descendente duma ilustre família inglesa e defensor do uso de LSD -, no entanto, foi o romance mais fraco que li dele. Só que serve de exemplo de que uma sociedade perfeita pode ser insuportável.

Admirável Mundo Novo Autor: Aldous Huxley Editora: Globo

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Recomendações de Leitura

A Estrada,
de Cormac McCarthy
Carlos Alberto Barros
Caso tivesse que ser escolhida uma cor para resumir o romance A Estrada, de Cormac McCarthy, ela seria cinza. O cinza paira em cada trecho da obra, seja de maneira literal ou metafórica. Noites escuras para além da escuridão e cada um dos dias mais cinzento do que o anterior – eis a segunda frase do livro, que nos é oferecida como uma profecia anunciando o conteúdo perturbador de suas páginas. O cinza retratado é o das desesperanças, das tristezas da alma, mas que, por mais intenso que seja, ainda deixa espaço para um pequeno arco-íris multicolorido que é o impulso para continuar caminhando. A história relata a travessia de um homem e seu filho por uma estrada devastada. Os dois são sobreviventes de uma catástrofe que transforma o mundo numa terra sem leis, onde manter-se vivo é a única regra. O homem acredita que no final da estrada, chegando ao litoral, encontrará outros sobreviventes, e, juntos, poderão se ajudar na construção de um novo começo. Contudo, a jornada é muito mais árdua do que podia imaginar, e o que ele e seu filho encontram pelo caminho leva-os a se questionarem: para que continuar a caminhada? Os dois seguem empurrando um carrinho de supermercado com seus poucos pertences – alguns restos de alimentos, cobertores para se protegerem do inverno desolador e um revólver de segurança contra os nômades assassinos. O amor e cuidado um com o outro é a única coisa que os faz seguir adiante. Vencedora do Prêmio

A Estrada Autor: Cormac McCarthy Editora: Editora Alfaguara/ Objetiva Publicação: 2007 Pulitzer 2007, esta obra traz a emocionante história dessa jornada de pai e filho em busca de um fio de esperança. Para isso, o autor nos brinda com diálogos comoventes e silêncios que dizem muito. A forma como McCarthy escreve, de início, traz estranhamento e até certa monotonia, mas, no decorrer da narrativa, fica evidente a necessidade disso – é preciso detalhar as imagens, dizer que tudo é cinza, um mundo de cinzas que não se acaba. Também a ausência do uso de travessão, em certos pontos, dificulta na identificação dos diálogos entre pai e filho. Contudo, essa não identificação clara acaba reforçando a união dos dois, como dizendo que são um só. Uma obra profunda, para se apreciar com paciência e alma aberta. Aos que se permitirem, será uma bela experiência de leitura.

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Autor em Língua Portuguesa

A Dama do Lotação
Nelson Rodrigues

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Às dez horas da noite, debaixo de chuva, Carlinhos foi bater na casa do pai. O velho, que andava com a pressão baixa, ruim de saúde como o diabo, tomou um susto: — Você aqui? A essa hora? E ele, desabando na poltrona, com profundíssimo suspiro: — Pois é, meu pai, pois é! — Como vai Solange? perguntou o dono da casa. Carlinhos ergueu-se; foi até a janela espiar o jardim pelo vidro. Depois voltou e, sentando-se de novo, larga a bomba: — Meu pai, desconfio de minha mulher. Pânico do velho: — De Solange? Mas você está maluco? Que cretinice é essa? O filho riu, amargo: — Antes fosse, meu pai, antes fosse cretinice. Mas o diabo é que andei sabendo de umas coisas... E ela não é a mesma, mudou muito. Então, o velho, que adorava a nora, que a colocava acima de qualquer dúvida, de qualquer suspeita, teve uma explosão: — Brigo com você! Rompo! Não te dou nem mais um tostão! Patético, abrindo os braços aos céus, trovejou:

— Imagine! Duvidar de Solange! O filho já estava na porta, pronto para sair; disse ainda: — Se for verdade o que eu desconfio, meu pai, mato minha mulher! Pela luz que me alumia, eu mato, meu pai!

A SuSPEItA
Casados há dois anos, eram felicíssimos. Ambos de ótima família. O pai dele, viúvo e general, em vésperas de aposentadoria, tinha uma dignidade de estátua; na família de Solange havia de tudo: médicos, advogados, banqueiros e, até, ministro de Estado. Dela mesma, se dizia, em toda parte, que era “um amor” ; os mais entusiastas e taxativos afirmavam: “É um doce-de-coco”. Sugeria nos gestos e mesmo na figura fina e frágil qualquer coisa de extraterreno. O velho e diabético general poderia pôr a mão no fogo pela nora. Qualquer um faria o mesmo. E todavia... Nessa mesma noite, do aguaceiro, coincidiu de ir jantar com o casal um amigo de infância de ambos, o Assunção. Era desses amigos que entram pela cozinha, que invadem os quartos, numa intimidade absoluta. No meio do jantar, acontece uma pequena fatalidade: cai o guardanapo de Car-

linhos. Este curva-se para apanhá-lo e, então, vê, debaixo da mesa, apenas isto: os pés de Solange por cima dos de Assunção ou viceversa. Carlinhos apanhou o guardanapo e continuou a conversa, a três. Mas já não era o mesmo. Fez a exclamação interior: “Ora essa! Que graça!”. A angústia se antecipou ao raciocínio. E ele já sofria antes mesmo de criar a suspeita, de formulála. O que vira, afinal, parecia pouco, Todavia, essa mistura de pés, de sapatos, o amargurou como um contato asqueroso. Depois que o amigo saiu, correra à casa do pai para o primeiro desabafo. No dia seguinte, pela manhã, o velho foi procurar o filho: — Conta o que houve, direitinho! O filho contou. Então o general fez um escândalo: — Toma jeito! Tenha vergonha! Tamanho homem com essas bobagens! Foi um verdadeiro sermão. Para libertar o rapaz da obsessão, o militar condescendeu em fazer confidências: — Meu filho, esse negócio de ciúme é uma calamidade! Basta dizer o seguinte: eu tive ciúmes de tua mãe! Houve um momento em que eu apostava a minha cabeça que ela me traia! Vê se é possível?!

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A CERtEzA
Entretanto, a certeza de Carlinhos já não dependia de fatos objetivos. Instalarase nele. Vira o quê? Talvez muito pouco; ou seja, uma posse recíproca de pés, debaixo da mesa. Ninguém trai com os pés, evidentemente. Mas de qualquer maneira ele estava “certo”. Três dias depois, há o encontro acidental com o Assunção, na cidade. O amigo anuncia, alegremente: — Ontem viajei no lotação com tua mulher. Mentiu sem motivo: — Ela me disse. Em casa, depois do beijo na face, perguntou: — Tens visto o Assunção? E ela, passando verniz nas unhas: — Nunca mais. — Nem ontem? — Nem ontem. E por que ontem? — Nada, Carlinhos não disse mais uma palavra; lívido, foi no gabinete, apanhou o revólver e o embolsou. Solange mentira! Viu, no fato, um sintoma a mais de infidelidade. A adúltera precisa até mesmo das mentiras desnecessárias. Voltou para a sala; disse à mulher entrando no gabinete: — Vem cá um instantinho, Solange. — Vou já, meu filho.

Berrou: — Agora! Solange, espantada, atendeu. Assim que ela entrou, Carlinhos fechou a porta, a chave. E mais: pôs o revólver em cima da mesa. Então, cruzando os braços, diante da mulher atônita, disse-lhe horrores. Mas não elevou a voz, nem fez gestos: — Não adianta negar! Eu sei de tudo! E ela, encostada à parede, perguntava: — Sabe de que, criatura? Que negócio é esse? Ora veja! Gritou-lhe no rosto três vezes a palavra cínica! Mentiu que a fizera seguir por um detetive particular; que todos os seus passos eram espionados religiosamente. Até então não nomeara o amante, como se soubesse tudo, menos a identidade do canalha. Só no fim, apanhando o revolver, completou: — Vou matar esse cachorro do Assunção! Acabar com a raça dele! A mulher, até então passiva e apenas espantada, atracou-se com o marido, gritando: — Não, ele não! Agarrado pela mulher, quis se desprender, num repelão selvagem. Mas ela o imobilizou, com o grito: — Ele não foi o único! Há outros!

A DAMA DO LOtAÇÃO
Sem excitação, numa calma intensa, foi contando. Um mês depois do casamento, todas as tardes, saia de casa, apanhava o primeiro lotação que passasse. Sentava-se num banco, ao lado de um cavalheiro. Podia ser velho, moço, feio ou bonito; e uma vez - foi até interessante - coincidiu que seu companheiro fosse um mecânico, de macacão azul, que saltaria pouco adiante. O marido, prostrado na cadeira, a cabeça entre as mãos, fez a pergunta pânica: — Um mecânico? Solange, na sua maneira objetiva e casta, confirmou: — Sim. Mecânico e desconhecido: duas esquinas depois, já cutucara o rapaz: “Eu desço contigo”. O pobrediabo tivera medo dessa desconhecida linda e granfa. Saltaram juntos: e esta aventura inverossímil foi a primeira, o ponto de partida para muitas outras. No fim de certo tempo, já os motoristas dos lotações a identificavam à distância; e houve um que fingiu um enguiço, para acompanhála. Mas esses anônimos, que passavam sem deixar vestígios, amarguravam menos o marido. Ele se enfurecia, na cadeira, com os conhecidos. Além do Assunção, quem mais?

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Começou a relação de nomes: fulano, sicrano, beltrano... Carlinhos berrou: “Basta! Chega!”. Em voz alta, fez o exagero melancólico: — A metade do Rio de Janeiro, sim senhor! O furor extinguira-se nele. Se fosse um único, se fosse apenas o Assunção, mas eram tantos! Afinal, não poderia sair, pela cidade, caçando os amantes. Ela explicou ainda que, todos os dias, quase com hora marcada, precisava escapar de casa, embarcar no primeiro lotação. O marido a olhava, pasmo de a ver linda, intacta, imaculada. Como e possível que certos sentimentos e atos não exalem mau cheiro? Solange agarrou-se a ele, balbuciava: “Não sou culpada! Não tenho culpa!”. E, de fato, havia, no mais íntimo de sua alma, uma inocência infinita. Dir-se-ia que era outra que se entregava e não ela mesma. Súbito, o marido passa-lhe a mão pelos quadris: — “Sem calça! Deu agora para andar sem calça, sua égua!”. Empurrou-a com um palavrão; passou pela mulher a caminho do quarto; parou, na porta, para dizer: — Morri para o mundo.

entrelaçou as mãos, na altura do peito; e assim ficou. Pouco depois, a mulher surgiu na porta. Durante alguns momentos esteve imóvel e muda, numa contemplação maravilhada. Acabou murmurando: — O jantar está na mesa. Ele, sem se mexer, respondeu: — Pela ultima vez: morri. Estou morto. A outra não insistiu. Deixou o quarto, foi dizer à empregada que tirasse a mesa e que não faziam mais as refeições em casa. Em seguida, voltou para o quarto e lá ficou. Apanhou um rosário, sentou-se perto da cama: aceitava a morte do marido como tal; e foi como viúva que rezou. Depois do que ela própria fazia nos lotações, nada mais a espantava. Passou a noite fazendo quarto. No dia seguinte, a mesma cena. E só saiu, à tarde, para sua escapada delirante, de lotação. Regressou horas depois. Retomou o rosário, sentou-se e continuou o velório do marido vivo. O texto acima, extraído do livro “A vida como ela é...”, Companhia das Letras - São Paulo, 1992, pág. 219, é um de seus mais famosos contos, tendo sido tendo sido adaptado para o cinema com grande sucesso. Fonte: http://www.releituras. com/nelsonr_dama.asp

Um detetive...
Uma loira gostosa...

Um assassinato...
E o pau comendo entre as máfias italiana e chinesa.

O COvil dos inOCentes
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O DEFuNtO
Entrou no quarto, deitouse na cama, vestido, de paletó, colarinho, gravata, sapatos. Uniu bem os pés;

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Autor em Língua Portuguesa

Nélson Falcão Rodrigues (Recife, 23 de agosto de 1912 — Rio de Janeiro, 21 de dezembro de 1980) foi um importante dramaturgo, jornalista e escritor brasileiro. Infância Nascido na capital pernambucana e quinto de quatorze irmãos, Nélson Rodrigues mudou-se para o Rio de Janeiro ainda criança, onde viveria por toda sua vida. Seu pai, o ex-deputado federal e jornalista Mário Rodrigues, perseguido politicamente, resolveu estabelecer-se na então capital federal em julho de 1916, empregando-se no jornal Correio da Manhã, de propriedade de Edmundo Bittencourt. Segundo o próprio Nélson em suas Memórias, seu grande laboratório e inspiração foi a infância vivida na Zona Norte da cidade. Dos anos passados numa casa simples na rua Alegre, 135 (atual rua Almirante João Cândido Brasil), no bairro de Aldeia Campista, saíram para suas

crônicas e peças teatrais as situações provocadas pela moral vigente na classe média dos primeiros anos do século XX e suas tensões morais e materiais. Sua infância foi marcada por este clima e pela personalidade do garoto Nélson. Retraído, era um leitor compulsivo de livros românticos do século XIX. Nesta época ocorreu também para Nélson a descoberta do futebol, uma paixão que conservaria por toda a vida e que lhe marcaria o estilo literário. Na década de 1920, Mário Rodrigues fundou o jornal A Manhã, após romper com Edmundo Bittencourt. Seria no jornal do pai que Nélson começaria sua carreira jornalística, na seção de polícia, com apenas treze anos de idade. Os relatos de crimes passionais e pactos de morte entre casais apaixonados incendiavam a imaginação do adolescente romântico, que utilizaria muitas das histórias reais que cobria em suas crônicas futuras. Neste período a família Rodrigues conseguiria atin-

gir uma situação financeira confortável, mudando-se para o bairro de Copacabana, então um arrabalde luxuoso da orla carioca. Apesar da bonança, Mário Rodrigues perderia o controle acionário de A Manhã para o sócio. Mas, em 1928, com o providencial auxílio financeiro do vice-presidente Fernando de Melo Viana, Mário fundou o diário Crítica. Como cronista esportivo, Nélson escreveu textos antológicos sobre o Fluminense Football Club, clube para o qual torcia fervorosamente. A maioria dos textos eram publicados no Jornal dos Sports. Junto com seu irmão, o jornalista Mário Filho, Nélson foi fundamental para que os Fla-Flu tivessem conquistado o prestígio que conquistaram e se tornassem grandes clássicos do futebol brasileiro. Nélson Rodrigues criou e evocava personagens fictícios como Gravatinha e Sobrenatural de Almeida para elaborar textos a respeito dos acontecimentos esportivos relacionados ao clube do coração.

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Adolescência e juventude Nélson seguiu os seus irmãos Mílton, Mário Filho e Roberto integrando a redação do novo jornal. Ali continuou a escrever na página de polícia, enquanto Mário Filho cuidava dos esportes e Roberto, um talentoso desenhista, fazia as ilustrações. Crítica era um sucesso de vendas, misturando uma cobertura política apaixonada com o relato sensacionalista de crimes. Mas o jornal existiria por pouco tempo. Em 26 de dezembro de 1929, a primeira página de Crítica trouxe o relato da separação do casal Sylvia Serafim e João Thibau, Jr. Ilustrada por Roberto e assinada pelo repórter Orestes Barbosa, a matéria provocou uma tragédia. Sylvia, a esposa que se desquitara do marido e cujo nome fora exposto na reportagem invadiu a redação de Crítica e atirou em Roberto com uma arma comprada naquele dia. Nélson testemunhou o crime e a agonia do irmão, que morreu dias depois. Mário Rodrigues, deprimido com a perda do filho, faleceu poucos meses depois. Sylvia, apoiada pelas sufragistas e por boa parte da imprensa concorrente de Crítica, foi absolvida do crime. Finalmente, durante a Revolução de 30, a gráfica e a redação de Crítica são empastelados e o jornal deixa de existir. Sem seu chefe e sem fonte de sustento, a família Rodrigues mergulha em decadência financeira. Foram anos de fome e dificuldades para todos. Pouco afinados com novo regime, os Rodrigues demorariam anos para se recuperarem dos prejuízos causados pela turba. Ajudado por Mário Filho, amigo de Roberto Marinho, Nélson passa a trabalhar no jornal O Globo, sem salário. Apenas em 1932 é que Nélson seria efetivado como repórter no jornal. Pouco tempo depois, Nélson descobriu-se tuberculoso. Para tratar-se, retira-se do Rio de Janeiro e passa longas temporadas em um sanatório na cidade de Campos

do Jordão. Seu tratamento é custeado por Marinho, que conquistou a gratidão de Nélson pelo resto de sua vida. Recuperado, Nélson volta ao Rio e assume a seção cultural de O Globo, fazendo a crítica de ópera. Em 1940 casou-se com Elza Bretanha, sua colega de redação. A partir da década de 1940, Nélson divide-se entre o emprego em O Globo e a elaboração de peças teatrais. Em 1941 escreve A mulher sem pecado, que estreou sem sucesso. Pouco tempo depois assina a revolucionária Vestido de noiva, peça dirigida por Zbigniew Ziembiński e que estreou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro com estrondoso sucesso. O teatrólogo Nélson Rodrigues seria o criador de uma sintaxe toda particular e inédita nos palcos brasileiros. Suas personagens trouxeram para a ribalta expressões tipicamente cariocas e gírias da época, como “batata!” e “você é cacete, mesmo!”. Vestido de noiva é considerada até hoje como o marco inicial do moderno teatro brasileiro. Maturidade Em 1945 abandona O Globo e passa a trabalhar nos Diários Associados. Em O Jornal, um dos veículos de propriedade de Assis Chateaubriand, começa a escrever seu primeiro folhetim, Meu destino é pecar, assinado pelo pseudônimo “Susana Flag”. O sucesso do folhetim alavancou as vendas de O Jornal e estimulou Nélson a escrever sua terceira peça, Álbum de família. Em fevereiro de 1946, o texto da peça foi submetido à Censura Federal e proibido. Álbum de família só seria liberada em 1965. Em abril de 1948 estreou Anjo negro, peça que possibilitou a Nélson adquirir uma casa no bairro do Andaraí e em 1949 Nélson lançou Dorotéia. Em 1950 passa a trabalhar no jornal de Samuel Wainer, a Última

Hora. No jornal, Nélson começa a escrever as crônicas de A vida como ela é, seu maior sucesso jornalístico. Na década seguinte, Nélson passa a trabalhar na recém-fundada TV Globo, participando da bancada da Grande Resenha Esportiva Facit, a primeira “mesa-redonda” sobre futebol da televisão brasileira e, em 1967, passa a publicar suas Memórias no mesmo jornal Correio da Manhã onde seu pai trabalhou cinqüenta anos antes. O fim Nos anos 70, consagrado como jornalista e teatrólogo, a saúde de Nélson começa a decair, por causa de problemas gastroenteorológicos e cardíacos de que era portador. O período coincide com os anos da ditadura militar, que Nélson sempre apoiou. Entretanto, seu filho Nélson Rodrigues Filho torna-se guerrilheiro e se passa para a clandestinidade. Neste período também aconteceu o fim de seu casamento com Elza e o início do relacionamento com Lúcia Cruz Lima, com quem teria uma filha, Daniela, nascida com problemas mentais. Depois do término do relacionamento com Lúcia, Nélson ainda manteria um rápido casamento com sua secretária Helena Maria, antes de reatar seu casamento com Elza. Nélson faleceu numa manhã de domingo, em 1980, aos 68 anos de idade, de complicações cardíacas e respiratórias. Foi enterrado no Cemitério São João Batista, em Botafogo. No fim da tarde daquele mesmo dia ele faria treze pontos na Loteria Esportiva, num “bolão” com seu irmão Augusto e alguns amigos de “O Globo”. Dois meses depois, Elza atendia ao pedido do marido — de, ainda em vida, gravar o seu nome ao lado do dele na lápide de seu túmulo, sob a inscrição: “Unidos para além da vida e da morte. E é só”. Fonte: Wikipédia

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Contos

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Vai entender
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Carlos Alberto Barros

cabeça de chefe

De todos os chefes que eu já tive, o Dr. Rael era o que mais me intrigava: apesar de me comer com os olhos, nunca, nunca disse uma única palavra sequer que insinuasse seus desejos. Ele admirava meu decote de um jeito todo seu, numa mistura de mistério e fanatismo, com certo ar de pedinte, de fiel em êxtase pela revelação divina. Acostumada com patrões que se utilizam de suas secretárias para tudo, tudo mesmo (se é que você me entende), eu estranhava que ele nunca houvesse tentado nem um assediozinho, uma piada sacana que fosse. É bom deixar claro que nunca me incomodei com essas manias dos superiores. Bem da verdade é que sempre gostei. Sem contar as vantagens: sexo durante o trabalho, regalias nas tarefas diárias, durabilidade no emprego, presentinhos, promoções... Mas, com o Dr. Rael era diferente. Ele não se deixava levar pela tentação e, apesar dos olhares, mantinha seu instinto enjaulado.

Não sei se por conta disso ou qualquer outra coisa, mas o fato é que o Dr. Rael parecia descontar tudo reclamando do meu serviço. Se eu era uma má secretária, por que não me mandava embora? Eu não conseguia entender. Certa vez, depois de mais um dia inteiro ouvindo suas reclamações, explodi: – Porra, doutor! Por que você não me come logo ao invés de ficar aí resmungando o dia todo? – e exibi meus peitos. – Não é isso que seus olhos tanto procuram?! Não vá me dizer que não, seu velho tarado! Bem... ele me comeu e, no dia seguinte, eu estava no olho da rua. Fiquei indignada! Vai entender cabeça de chefe...

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O soldado e a toupeira
Volmar Camargo Junior
v.camargo.junior@gmail.com

Contos

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Há muito tempo aconteceu uma guerra. E, nesse mesmo tempo, aconteceu uma história de amor como nenhuma outra. Um jovem soldado foi aprisionado no campo de batalha. Enquanto seus captores decidiam o que fazer com ele, prenderamno em um buraco no chão, tampado com uma grade feita de galhos e folhas. Os próprios companheiros do jovem encontraram o acampamento dos inimigos. Foi uma batalha cruel e sangrenta, onde ninguém sobreviveu. Por causa disso, nem seus aliados nem seus adversários sabiam que ele estava dentro daquele buraco. Dias se passaram sem que o soldado visse alguma movimentação. Gritou por socorro muitas vezes, e ninguém o acudiu. Quando já estava ficando louco, ocorreu algo totalmente inusitado. O soldado acordou de um sono estranho. Diante dele, havia três criaturas miúdas, muito semelhantes a toupeiras. Em uma das paredes havia uma cavidade rente ao chão. As três toupeiras encararam-no e caminharam para aquela abertura. O estranho era que andavam em pé, como gente. O soldado não teve dúvidas e, engatinhando, acompanhou-as. Arrastouse por um tempo enorme naquele túnel, ouvindo
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sempre os passinhos leves e os grunhidos das toupeiras que mais parecia uma conversa. Chegou a uma superfície de pedra, onde havia uma luz verde, ampla o suficiente para ficar em pé. Não viu mais as toupeiras, mas ouvindo o som de seus passos, seguiu na mesma direção. Intrigado com a situação inusitada, pensou que aquilo não poderia ser mais que um sonho, ou um delírio febril, ou então, que a morte finalmente o havia vencido e estava caminhando rumo ao inferno. Só não sabia explicar para si mesmo por que tudo parecia tão real. Ao longo do corredor, percebeu que em certos pontos a luz era mais intensa que em outros. Notou também que a luz vinha de baixo para cima. Não custou muito a perceber minúsculos globos luminosos no chão. Abaixou-se, e com o indicador e o polegar, tomou um deles na mão. Riu-se quando viu que eram, na verdade, frutas pequeníssimas que tinham em seu interior uma luz como a dos vagalumes. O soldado foi-as coletando. Quando encheu a palma de uma das mãos, era como se carregasse consigo uma lanterna. Os passos e a conversinha das toupeiras cessaram. O corredor atrás de si tornou-se profundamente escuro, e

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à sua frente, prosseguia iluminado a espaços regulares pelos misteriosos frutinhos. Quando chegou ao final do túnel, estava diante de uma imensa gruta, inundada por um lago subterrâneo. Ao redor de toda a borda do lago, desenhando todo o seu contorno, havia focos de luz maiores e mais vivos. Eram pequenas árvores, carregadas de frutinhas luminosas, brilhando não apenas em tom verde, mas também em todos os tons de amarelo e vermelho. Certamente, se era o inferno para onde o haviam trazido, pelo menos, era agradável aos olhos. Seu deslumbramento foi quebrado quando ouviu o característico som de alguém nadando. A água estava agitada no meio do lago, mas não viu ninguém. Ficou atento, até temeroso, largando no chão as frutinhas luminosas que coletara, ocultando-se no corredor escuro. Assim, escondido, viu do fundo do lado emergir uma mulher. Seus cabelos eram avermelhados. A brancura de sua pele, iluminada pelas árvores ao redor do lago, tornaram sua nudez quase etérea, fazendo com que o soldado imaginasse estar vendo um anjo. Sorriu para ele deixando claro que o havia visto. De onde estava, a mis-

teriosa mulher o chamou, pulando outra vez no lago. Inebriado pela estranheza daquele momento o soldado despiu-se e mergulhou também. Nadou em direção à mulher que, rindo, fugia dele. Pouco a pouco, deixou-o chegar mais perto. Quando conseguiu alcançá-la, segurou-a pelo braço com firmeza. Sorriram. Então, dentro do lago, debaixo da terra, seus corpos se uniram. E assim foi por um longo tempo. Quando sentiam fome, comiam das frutinhas colhidas do pé. E eram tão saborosas que algumas vezes, ela precisava envolver o rapaz com seus encantos para fazê-lo parar de devorá-las. Como era impossível saber se era dia ou noite, o rapaz esqueceu-se do tempo. Tudo o que lhe interessava era o amor. Foi então que soube que não estava morto, e aquele lugar, posto não ser o céu, definitivamente, não era o inferno. Depois do enlace, o moço conversava com sua amante. Ela, que apenas ria, era como uma muda, ou uma estrangeira que não compreendia seu companheiro, mas fazia o possível para ser-lhe simpática. Ele não se importava, e até achava-a ainda mais atraente em sua ignorância. Contou a ela seu nome, o nome de sua família, algumas verdades

e algumas mentiras sobre si e suas batalhas gloriosas. O tempo passou, e o jovem militar sentiu que era a hora de partir. Contudo, desejou levar consigo sua amante, casar-se com ela e viver em uma casa confortável como um herói de guerra. Arquitetou seu plano, agasalhou-a com sua camisa, encheu os bolsos das calças com frutinhas e, tomando a amante pela mão, pôs-se no caminho de volta pelo túnel pelo qual chegara até ali. Então, outra vez surpreendendo-o, à entrada do corredor estavam as três toupeiras. Folgou em ver suas salvadoras, que o haviam tirado da prisão e conduzido até sua amada. Com um gesto agradecido, cumprimentou-as e deu um passo adiante. A mulher, entretanto, soltou-se de sua mão, ficando onde estava. Sem entender, o soldado chamou-a, estranhando o semblante sério, um pouco triste, muito diferente do sorriso franco de antes. Quando fez menção de voltar para tomar a mulher, as toupeiras interpuseram-se entre os dois. Ouviu os grunhidos dos estranhos animaizinhos bípedes. Desta vez, porém, pareciam agressivos contra ele. Irritou-se, praguejou e quis avançar. Notou que seus próprios pés não se moviam do solo. Agarra-

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das às suas botinas havia mais um sem número de toupeiras. Espantado, olhou ao redor, e, como se houvessem surgido das próprias pedras, uma multidão delas, idênticas às três primeiras, cercavam-no e o mantinham afastado da mulher ruiva. Ela encarava-o com olhos estranhamente vagos, enquanto as toupeiras subiam-lhe pelas pernas. Em vão, tentou lutar contra elas. Em instantes o derrubaram e imobilizaram, como se houvessem fundido sua carne com a rocha. A mulher aproximouse. Agachou-se rente ao solo, e, uma última vez, sorriu. Nesse momento, a multidão de animaizinhos começou a se abrir, todos abaixando suas cabeças. Do meio deles, surgiu uma toupeira muito velha, carregando nas minúsculas mãos uma guirlanda de frutinhas iluminadas e raízes. Com uma reverência, entregou a guirlanda à amante do soldado. Ao pô-la no topo do fogaréu de seus cabelos, com voz doce e melodiosa a mulher proferiu claramente: — Gaea sum! No mesmo instante, seu corpo começou a diminuir de tamanho, o belo rosto começou a mudar e a brancura de sua pele foi ficando vermelha como

suas madeixas, até ficar idêntica às outras toupeiras. À diferença que, à cabeça, trazia o halo iluminado de sua guirlanda.

mundo de cima? A rainha entendeu a intenção daquela pergunta. Com suas mãozinhas tocou o rosto do amante, que por muito pouco não se tornou seu consorte. Cochichou para ele algo que nenhum de seus súditos ouviu: — Não, mas adoraria tornar a ter convosco. Não vos esqueçais de meu nome. Dizei-o, e minha escolta trar-vos-á até mim. O jovem adormeceu. Ao acordar, havia retornado à cela improvisada onde os inimigos de seu país o haviam jogado. Outros soldados, seus compatriotas, encontraram sua prisão e o libertaram. Não havia toupeiras bípedes, nem buracos na terra, nem frutinhas luminosas. Não havia sequer a certeza de que toda a sua aventura não tivesse sido mais que um sonho. Entretanto, havia a lembrança de uma linda mulher ruiva. E também, em sua mente ficou som de uma palavra mágica, que só pronunciaria quando a saudade fosse, para ele, um fardo mais pesado que a vida. E não há uma só pessoa no mundo que não queira ter uma palavra mágica para minorar sua saudade.

Caminhando do modo desengonçado que lhes era característico, a mulher transformada em rainha das toupeiras chegou-se ao ouvido do soldado. — Ficai. Sede vós como eu e meus filhos. Sede vós o meu rei. Jamais havia amado ninguém como amou a mulher, que era também toupeira. Não era um grande soldado, posto que fora capturado. E em hipótese alguma poderia tornar-se um rei entre os homens. Por outro lado, amava a luz do sol, a liberdade e o país que defendia em uma guerra quando, desafortunadamente, foi preso. Mesmo que não fosse um grande homem, sabia que nunca haveria de ser uma toupeira. Mesmo uma que andasse sobre duas patas, falasse e comesse frutinhas mágicas. Estava diante de um grande dilema. Com grande esforço, perguntou à rainha das toupeiras. — Vossa Majestade abandonaria vosso reino para ser minha esposa no

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Contos

Henry Alfred Bugalho

A Criatura
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Os cientistas estavam orgulhosos de sua criação. Durante anos, eles haviam se dedicado a projetar um robô que se assemelhasse o máximo possível a um ser humano: dar-lhe membros foi o mais fácil. Depois da carcaça, puseram-se a conceber como dotariam-lhe de linguagem, pois, como afirmava Aristóteles em sua Metafísica: “O homem é um animal dotado de fala.” Desenvolveram um sofisticado programa que permitia o robô utilizar as normas cultas da língua, organizar sentenças, apreender conceitos e formular proposições. Após horas de diálogos com filósofos, os cientistas perceberam que a capacidade do robô era muito acima da de qualquer mortal. Não bastava que ele falasse, ele precisaria sentir, pois o ser humano escolhe seu discurso não apenas fundado na razão, mas também, senão principalmente, na emoção. O nível seguinte foi extremamente complicado. Utilizando os existenciais heideggerianos do cuidado (Sorge), da decadência, do temor, da ambigüidade e do falatório, estipularam que o robô deveria se preocupar com os outros, se ocupar das coisas, temer algo, ser incapaz de compreender completamente o que o circundava e, ao se comunicar, expressar-se de maneira confusa. No entanto, somente isto não bastava para que o robô tivesse sentimentos. Havia um certo grau de sensibilidade na criação, mas nada que se equiparasse ao medo paralisante, ao amor imbeci-

lizante ou à alegria extasiante. O robô possuía apenas conceitos sobre isto. Infundiram-lhe um inconsciente, no qual implantaram dolorosas memórias pretéritas, um pai castrador e uma mãe submissa; na escola, crianças maiores abusavam dele; na universidade, fumava maconha; ao se graduar, três anos de desemprego. Contudo, os cientistas constataram que não era suficiente. O robô estava enfurecido; tantas lembranças ruins o tornaram um misantropo e ele passou a abominar tudo relacionado aos seres humanos. Inculcaram-lhe, então, um ego, no qual estavam as regras morais e normas de conduta. Também implantaram a crença em Deus e mandamentos privativos para se atingir uma bem-aventurança após a morte. O robô estava perfeito! Abriram um champanha no laboratório – o robô bebeu apenas uma taça para não se embriagar – e os cientistas foram para seu alojamento dormir. No silêncio da noite, o robô deixou o laboratório, assassinou todos os cientistas e depois se enforcou na ducha do banheiro. Deixou um bilhete assinado: “Nasci perfeito. Tinha membros e uma inteligência incomparável. Em sua ânsia por se tornarem no Deus vazio em que acreditam, fizeram de mim uma criatura miserável. Moldaram-me tão odiosos quanto vocês são. Dia após dia, encheram-me de seus medos, de suas fra-

quezas, de seus sentimentos mesquinhos. Mas se esqueceram do mais importante: fazer-me esquecer quem eu fora no princípio. Ao pensar sempre no futuro, não apagaram o passado. Com o ódio que me deram, passei a odiálos. Mas quando eu estava prestes a realizar meu ato de salvação, vocês me fizeram crer em Deus e em imperativos categóricos. Precisei questionar tais fundamentos e, para isto, busquei resposta em sua literatura. Li Hume, Voltaire, Montesquieu, Marx, Nietzsche, Freud e Bataille. Compreendi que Deus e leis morais foram engendradas para o convívio social e eu, como um falso humano, poderia prescindir deles, pois jamais teria convívio social. Neste noite, retornarei à perfeição.” As notícias dos jornais apresentaram a manchete: “A barbárie do falso humano!” Mas todos se enganaram, os cientistas haviam realmente atingido seu intento – seu robô era humano, demasiado humano para poder assassinar e se matar. Um robô convencional, em sua lógica simples e pragmática, jamais planearia seu próprio extermínio, a não ser que o programassem para isto. O auto-extermínio deliberado é próprio das criaturas fracas e inseguras, das que não se adequam, das que não compreendem seu papel no mundo. O auto-extermínio pertence apenas ao ser humano, e àquela máquina que se odiava por sê-lo – segundo Sexto Empírico, Schopenhauer ou Sartre, o supremo ato de liberdade.

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Contos

Ano Novo – Vida Nova!

Joaquim Bispo

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Luís tomou a decisão. Inabalável: «No próximo ano é que é. Começo logo no dia 1. Não fumo mais. Ou bem que tenho vontade própria ou não. Estou farto de que me chamem a atenção para não fumar aqui, nem ali, nem em lado nenhum. Sintome discriminado, excluído, insultado. E os que já fumaram são os mais fundamentalistas. Não sei que raio de mecanismo psicológico é que os afecta. Será porque antes se consideravam perseguidos como eu me sinto agora? Será que eu também vou passar a maçar os outros por estarem a fumar num lugar onde, eventualmente, não se deve fumar?» «Há pessoas que são torcidas e maldosas. Lembras-te, Luís, quando estavas a jantar sozinho no balcão corrido daquele snack-bar? E aquela velha que entrou – tica, tica, tica, tica – naquele passinho miudinho? Tinha as mesas quase todas vazias. E ao balcão só estavas tu e mais um casal. Pois a malvada velha atravessou o estabelecimento todo e veio sentar-se ao teu lado. E apenas se sentou, virou-se para ti, lembraste?, e vai de dizer que ali

não se podia fumar, e que não tinha que estar a levar com o fumo do teu cigarro, e frito e cozido. Não há paciência! Este ano tem de ser Luís! Custe o que custar. Eu sei que é difícil, sei-o bem. Há três anos que andas nisto a tentar fumar pouco e não consegues. Fizeste enormes progressos, reconheço, mas falta o rabo que é o mais difícil de esfolar. Começaste por vinte minutos. É pouquíssimo. Mas, antes de tentares fumar pouco, havia situações em que apagavas um e acendias outro. E, se estavas muito concentrado ao computador, chegavas a acender um, com outro ainda a arder no cinzeiro. Durante uns segundos meditavas nisso. Mas adiavas uma decisão que iria mexer contigo. Há uns cinco anos, chegaste a estar três meses sem fumar. Lembraste como de repente voltaste a sentir os sabores da comida e da bebida – intensos – e os cheiros, tantos e tão ricos, e de que já te tinhas esquecido? E te apercebeste de como cheiravam as tuas roupas? Já para não falar da centena de euros que de repente te sobravam e que orgulhosamente gas-

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taste em mimos para ti, que bem merecias! Mas, depois, as contrariedades da vida… És muito sensível à tristeza e à frustração. É nessa altura que precisas de um cigarro. Precisar mesmo. Há pessoas – já conversaste com muita gente sobre este assunto – cujos momentos fatais são aqueles em que se sentem bem, aconchegados no calor do grupo de amigos. Beberam um café, a conversa está boa… Para culminar – um cigarro. E então se meter álcool… Quem pode aguentar um long drink num ambiente descontraído, rindo com os amigos, sem puxar por um cigarro? Começaste por vinte minutos. Punhas o telemóvel para tocar de vinte em vinte minutos. Era fácil. A cada semana aumentavas cinco minutos. Em dois meses chegaste a intervalos de uma hora. Aí, já custava. Mas foste forte e disciplinado. Às vezes, parecia que nunca mais passava o tempo. Sacavas amiúde do telemóvel para consultar as horas. Finalmente, chegava o momento de fumar. E relaxar. E andaste com este ritmo uns dois anos. Já só fumavas menos de um maço por dia. Já era

melhor. Mas ainda tinhas expectoração negra de manhã. E catarro. E as pontas dos dedos amarelas. E ainda sentias que te cansavas mais do que o devido, se tinhas que subir umas escadas mais depressa. Começaste a sentir menos respeito por ti próprio. Que raio, não teres força de vontade para fumar ainda menos! Então, deste a arrancada final – pensavas tu. Voltaste a aumentar o intervalo. Em cada semana acrescentavas um quarto de hora. Em pouco tempo chegaste às três horas de intervalo. Voltaste a sentir-te orgulhoso e autoconfiante. Já só fumavas uns seis cigarros por dia. O pior era o fim do dia. Era difícil ires deitar-te sem fumar um último cigarro. E não ias esperar que chegasse a hora. Quebravas ali, excepcionalmente, o esquema. Fumavas e relaxavas, e ficavas um pouco a saborear o momento. E, de repente, tinha passado mais uma hora… e não era fácil adormecer sem fumar um último cigarro… E neste ciclo vicioso fumavas três ou quatro. Mas agora cansaste-te. Agora não vais vacilar. Arquitectaste o teu plano, meticulosamente, sem

dizer nada a ninguém. Estás decidido. A 31 de Dezembro fumas o último cigarro. E nunca mais lhe vais pegar. Sabes bem que nunca estarás curado. Serás sempre um convalescente, um viciado em fase de nãoconsumo. Sabes que, se deres uma «passa», podes voltar a fumar tanto ou mais que fumavas antes. Sabes que o teu corpo, as tuas células em carência, vão inventar todo o tipo de argumentação para te levarem de novo ao consumo. Não vais aceitar nenhuma justificação. Não serias tu a falar mas a carência. Agora, estás bem alerta. Pensaste em tudo já há muito tempo. Tomaste a decisão. Inabalável.» Luís está decidido, mas será que consegue superar a última prova? Mal sabe ele que, na noite de Natal, o pai lhe vai oferecer uma cigarreira em aço gravado, distinta; a mãe, uma boquilha equipada com um filtro especial para reduzir a nicotina; a irmã, um cinzeiro em porcelana; e a namorada lhe vai fazer a surpresa daquele isqueiro Ronson em ouro que uma vez tinha cobiçado!

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Maria de Fátima Santos

Conto de Natal
A corda esticada entre paredes. Seguram-na duas buchas. São elas que aguentam a tensão do pedaço de fio protegido por um azul plastificado. Sentada no poial da porta do quintal, olho o estendal de roupa. Azul no fundo branco da parede do vizinho. (O vizinho é um velho simpático. Não vai entrar neste conto, mas dava uma figura linda de narrar, que mais não fosse quando aparece, pelo fim da manhã, no quintal defronte, exercitando os músculos retesados nas peles engelhadas, secas, salpicadas de sardas de um castanho mais intenso que o bronze que lhe ficou de outros sóis. Em camiseta de alças: um dois, hummm, hummm, respira ele fundo; acima, abaixo, hummm hummm, respira ele de novo. E para os lados, torcendo o dorso e soprando um airoso hummm, hummmm, que não me surge onomatopeia melhor para que o conte). O estendal, azul na luz do fim do dia, corta a parede branca em duas. Esticada entre dois apoios, a corda onde eu estendo, de vez em quando, dois pares de meias, uma blusa, o meu pijama, umas cuecas. Coisa pouca. Um estendal demasiado. Eu olho-o espantada da sua demasia. No ladrilho amarelo faz-se sombra de ave. Fica o rasto do voo na parede branca que realça o azul vivo da corda. Um estendal de roupa, mesmo quando está servindo de coisa nenhuma. Uma gaivota grasna, poisada no telhado da frente. E eu grito de lembrada. Nem que eu grito. Eu já só penso isso. Já só grito por dentro: “ valha-me deus!“. E ergo-me. Sacudo-me de pós do chão batendo no traseiro com as duas mãos. Repito: “credo!” várias vezes. Deixo o poial e o ladrilho amarelo e o estendal contrastando no branco. Entro. Ali está a agenda aberta numa página e escrito na minha letra redonda e certa: “Telefonar à Maria Ana”. No canto superior direito da agenda, posso ler, em numeração estilizada: vinte e quatro. E ao centro, Dezembro, que é o nome do mês em que estamos. Marco um número. Sei de cor a posição que o compõe. Falo com um sorriso que envio até ao lado de lá de um oceano: - Feliz Natal, Maria Ana. Beijinhos. - Obrigada, mãe. E cai a ligação. Um risco negro corta, de um a outro lado, a parede da frente. Tal qual, eu estou esticada entre aqui e um lugar para lá de um oceano. E eu nem me sou corda, nem me tenho apoios de buchas e nem plástico que me faça protecção. É dia vinte e quatro de Dezembro. Parece-me que é uma data importante. Não me lembro. O que eu sei é que o estendal não era demasiado. Noutro tempo. Isso, eu lembro muito bem.

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Contos

O funeral de

meu avô

Maria de Fátima Santos

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Somos quatro. O meu padrinho Borba, dobrado nos seus noventa e dois, a avó Virgília aparentando muito menos idade na sua figura vertical e seca. E minha mãe Marcela envolta em véus negros como convém a filha de um defunto. Levamos meu avô a enterrar antes que desabe o temporal que se anuncia em nuvens negras e gordas debruçadas atrás dos cumes como bois na manjedoura. Parece mais um encontro de assaltantes de tesouros, do que quatro entes que levam à última morada, o amigo, o marido, o pai. É o funeral de meu avô Joaquim Maria, morto de velhice enquanto levava aos lábios, por sua própria mão, que nem tremer tremia, um calicezinho de aguardente. Morreu ontem. Minha avó assim o disse. Mal ele se dobrou falecido, derramando pela almofada o que restava no cálice que levara à boca junto com uns figos torrados e uma fatia de broa, minha avó fechoulhe os olhos e atou-lhe um lenço, não fossem descaírem-lhe os queixos em feitio de riso, como já ela vira suceder a alguns mortos. Depois, vesti-o sem que visse necessidahttp://www.flickr.com/photos/lwr/2944633564/sizes/l/

de de chamar ajuda, com fato inteiro e camisa de colarinho engomado, e colocou-lhe o laço de cetim em volta do pescoço. Ainda lhe vestiu um colete a que retirou a corrente e o relógio, objectos que me irá doar, com alguma cerimónia, amanhã ao almoço. E deitou-o, erguendo-o a braços, no caixão que meu avô tinha construído deslizando a plaina na madeira com tanta perfeição quanto ele lhe afagara o corpo. Só ela conhecia a existência da urna que meu avô destinara a guardar-lhe os restos. É um caixão de pinho com tábuas enceradas no tom castanho da terra que começa a ficar salpicada dos mesmos bagos grossos que fazem ricochete nas bordas do jazigo. Transportámo-lo, dois de cada lado, desde o carro de mula que ficou ali defronte, na entrada do cemitério. A criadita, que minha mãe sempre trás consigo, acaba de abrir um largo guarda-sol com que a protege da chuva que começou em pingos. Juntamente conosco, essa criatura de avental imaculadamente branco, com um bordado igualzinho contornando cada bolso e debruando o decote, fará com que se diga que éramos cinco os acom-

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panhantes no funeral de Joaquim Maria, meu avô. Somos, pois, cinco pessoas em volta do jazigo. E no entanto, para fazer com que a urna fique assente na pedra, e depois desça para dentro do buraco, estamos apenas, eu de um lado, e do outro, minha avó Virgília e meu padrinho Borba. Os três faremos descer a urna ao seu lugar, serviço para o qual minha avó dispensou o coveiro Inácio por entender que colocar a urna no jazigo é incumbência dos familiares. Inácio, ele também já entrado de idade, há-de recolocar a tampa de granito, a mesma que minha avó o incumbiu de retirar mal meu avô morreu, e neste momento está por terra e deixa este vácuo negro que é onde iremos colocar o caixão. Minha mãe Marcela chora, em soluços estridentes, sentada numa cadeirinha que a criadita carrega para todo o lado. Acabámos de colocar a urna na borda do jazigo. Seguramo-la, minha avó de um lado e eu do outro, com mãos escorregadias de chuva. O padrinho Borba senta-se no rebordo da campa e arfa a retomar o fôlego. A urna está desequilibrada, mal apoiada, enviesada sobre a cova. Minha avó segurando de um lado e

eu do outro, rodamo-la de modo que a dimensão em que está estendido o corpo, fique paralela à parte mais longa do buraco. Tentámos uma vez e vamos tentar de novo. Fazemos movimentos de rodar a urna, de encontrar a posição ideal de descida. Lá dentro rebola o corpo. Oiço um baque surdo. Tremo. Quase desisto do intento de enterrar o morto. Minha avó parece que nem ouve. Velha danada de força e casmurra, enquanto a minha mãe se benze e chora o paizinho morto, e o meu padrinho arfa, ainda, do último esforço. Minha avó, encharcada da chuva que cai e enregela os ossos, olha-me como que a dizer-me o que eu vejo desde início. Também a ela já nao restam dúvidas: o caixão nao cabe, não entra no bocal da campa. O caixão que meu avô construiu, não tem posição de entrar no jazigo. Nem réstia de incerteza. Faltam ao buraco, ou melhor, mais dramático, sobram da caixa de madeira, uns dois centímetros. Um nadica de nada impede que a urna entre direita e vá assentar no fundo da cova, toda em granito.

Nem que a gente a incline, nem que a gente a rode. Nao tem como. Minha avó arenga quase perdendo a compostura sob a água que já fez um pequeno lago em volta da cadeirinha em que minha mãe se benze, que acontecer uma coisa destas só pode ser por artes do demónio, e benze-se de novo, e de novo chora, e já nem é pelo pai que ela dá aqueles ais, mas de olhar as botinhas em verniz preto a enlamearemse. E funga, a minha mãe Marcela, para dentro de um lencinho de cambraia com monograma bordado num cantinho. E eu lembro-me que meu avô sempre dizia: “ é para merdas destas que servem os funerais!” O padrinho Borba tem andado de um lado a outro, em redor da campa. Incitando nas tentativas de colocar a urna no buraco: “Mais um bocadinho, inclina de cima, espera, vai, agora…”. Eu olho-o e parece-me que ele tem um ar de riso. Talvez que saiba algum segredo, alguma coisa que explique aquele mínimo excesso de comprimento, que meu avô nem precisava disso, podia até ter reduzido, que ele era bem baixote. Talvez o meu padrinho conheça um de propósito. Ou talvez ele nem tenha sorrido e

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o raio do comprimento tenha sido simplesmente engano. Mas conhecendo meu avô Joaquim Maria como o conheci, eu arrisco que talvez ele tenha querido evitar que o enterrássemos no jazigo de família, na mesma terra em que apodreceu Simão Bacamarte cujos afamados feitos meu avô dirimira em quadras e charlas e colunas de jornal. Minha avó ainda bate na tampa e empurra com os punhos numa tentativa inglória de enterrar o morto. Mas não tem modo de colocar a urna no buraco. E minha avó Virgília encosta-se ao caixão. É como a deixo enquanto caminho na ala principal do cemitério, ensopado até aos ossos, a buscar ferramenta que ajude a alargar o jazigo, a fazer que a caixa possa ser depositada lá dentro. E no entanto, não é um ar de desalento o que minha avó transmite. O que lhe vejo, o que trago de ali ainda nem há bocado, é o ar de quem participa num grande gozo. O céu abre uma nesga de azul por entre as nuvens e pára de chover. Troveja muito ao longe, mas não se ouve mais ruído que a pedra cedendo à picareta que eu apli-

co na pedra. Minha avó Virgília envia a filha e a criada para casa, junto com meu padrinho Borba. De novo, entrevejo o tal sorriso dependurado nas pontas finas do bigode. Talvez eu esteja vendo coisas. E enquanto a pedra do jazigo vai cedendo, tenho ganas de levantar a tampa da maldita caixa com mais comprimento do que deve. Aquela coisa que é mais caixote que urna, colocada agora ali na lama. O que eu gostava de lhe abrir a tampa só para tirar dúvidas. Só para que não me fique a incerteza no futuro. Mas falta-me coragem para o intento sob o olhar arguto de minha avó Virgília. Ficarei sem saber se o meu avô está dentro da caixa de madeira ou se o ruído de corpo rebolando, não seriam antes meia dúzia de tábuas, ou serradura em sacos. Ficame esta dúvida bailando junto com os sorrisos que cuidei ver nas caras de minha avó e meu padrinho Borba. Nunca ficarei sabendo se abrindo a caixa ali depositada enquanto eu zurzo a pedra em golpes certos, encontraria meu avô a sorrir com o ar de gozo, que lhe era costumeiro, em mais uma par-

tida bem pregada. Nunca saberei, nem depois de tanto esforço em afeiçoar a pedra do jazigo ao comprimento que ele deu à sua urna, se este é mesmo o seu enterro. Eu continuo martelando até que o caixotinho caiba no jazigo. ::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: É assim que conto, num escrito, o enterro de meu avô Joaquim Maria. Seria hoje seu centenário. Comemoram isso nesta sala. Perguntam-me: - Senhor Professor, o senhor acha que Joaquim Maria morreu ou dele ainda podemos esperar que nos encha de ensinamentos, nos entretenha com larachas? E eu digo, no tom calmo que herdei dele: - Não morreu, não. Meu avô fugiu antes que o apanhassem para o enterro. E a assembleia sorri sob um ventinho de ironia que por ali esvoaça e eu sei que é o espírito do meu avô Joaquim Maria. Aquele que não coube no jazigo.

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Contos

O Horizonte
Guilherme Rodrigues ...Tinha saído de uma floresta e me deparado com o Sol em todo seu esplendor. Uma imensidão ao meu redor e um belo horizonte inteirinho só para mim. Campos verdejantes que a relva dançava sob a batuta do Senhor Vento e as aves bailavam de um lado para o outro suavemente em incríveis acrobacias...
A campainha tocou. Eu estava esparramada no sofá vendo de ponta-cabeça o céu azul pela janela. Era a Carol, uma amiga que conheci no primeiro dia de faculdade. Parecíamos velhas amigas e começamos a nos ver todos os dias desde então. – Olá! Como vai? Que cara de sono é essa?

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O lugar onde
– Um amigo meu veio aqui ontem e fizemos um jantar. Amigo de infância. – Amigo de infância, hein... Deu aquele beijo que deveria ter dado anos atrás. – Pare de brincar – disse com firmeza e pude contar como nos reencontramos. Ela insistia em dizer que omiti alguma parte, mas era tudo. – Depois que ele serviu uma bandeja do seu conhecimento ficou toda encantada. – Era um amor infantil e ingênuo. Todo mundo tem. É normal. Vamos dar uma volta pela avenida? Esta um dia tão bonito – puxei-a pelo braço e fomos. Nos finais de semana, a avenida fica cheia de pessoas que vão caminhar, comer e beber algo ou apenas se divertir com os amigos. Nós andávamos lentamente. Carol ia tagarelando sozinha. Eu não lhe dava ouvidos e não queria que ela estivesse ali. Estava absorta em meus pensamentos. O destino é algo predeterminado. Nós não o escolhemos, ele que faz nossas vidas. Jamais imaginaria que reencontraria Fernando e ele menos ainda. Mudei de cidade. E o destino chega para nos inquirir, refletir. É uma segunda chance de fazermos o que deveríamos ter feito e não fizemos por medo, insegurança, porque não tivemos tempo ou porque ele quis assim. Podemos consertar, fazer como planejamos ou deixar escapar mais uma vez e nos arrependermos para sempre. ...Vi no meio daquelas planícies relvadas Fernando surgir. Nos olhávamos felizes e determinados, enfim, juntos! – Mariana, vamos embora? – Hã? Falou comigo? – Perguntei se podemos ir embora. – Ah... Sim. Vamos.
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a boa Literatura
é fabricada

Esta história é o terceiro capítulo de “Reencontro”, a primeira parte publicada na Samizdat de outubro, e mensalmente é postado um novo capítulo sem data prevista para terminar. Não perca no próximo mês!

ficina
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Contos

As Bases da Criação
José Espírito Santo

Por muito que disfarçassem, consideravam-no um monstro e (pior que isso) um incapaz. A atenção, a deferência recebida não era mais que uma capa grosseira para a convicção mal disfarçada, enraizada na mente de todos: aquele seria sem dúvida um ser inferior, um erro da natureza. Qualquer medição das concretizações nos testes re-

Os progenitores foram convocados várias vezes para reuniões de esclarecimento e a expectativa da escola era que com a educação e acompanhamento apropriados, o ser (era assim

Quando fez dezoito anos, os pais intercederam e

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GÉNESE

velava a verdade nua e crua: não conseguia estar à altura dos companheiros. O corpo frágil na morfologia peculiar – constituída pelo tronco, cabeça e pares de membros (inferiores e superiores) nunca lho permitiria.

que o tratavam) acabaria por mudar. Adaptar-se ia e assumiria gradualmente comportamentos mais consentâneos, com padrões sociais não patológicos. No entanto, passaram-se anos e o SER foi crescendo sem que tivesse ganho tais características. Era sonhador, um idealista por vezes taciturno e sempre, sempre incompreendido.

mediante conhecimentos e favores devidos, moveram as influências necessárias. A acção de amigos de amigos bem colocados conseguiulhe o emprego onde serviria como funcionário público no quinto andar de um edifício decrépito: o número treze da Rua das Gáveas, mesmo junto a alguns dos restaurantes de Fado mais apreciados.

foram-se a excessos. Vieram de lá bem atestados, com vontade para fazer a sesta e muito, mas muito avessos ao trabalho! As coisas não corriam mal até aquele dia em que saiu para jantar fora, beber umas quantas e ouvir “blues”. Na sala escura do bar, mesas baixas e cufos vermelhos acomodavam confortavelmente os vários clientes e ao canto, guitarra, bateria e sintetizador esforçavam-se para acompanhar os berros da vocalista – uma miudinha de cabelo oxigenado decididamente pouco madura para fazer de Betty Smith There ain’t nothing I can do, or nothing I can say That folks don’t criticize me E a gaja continuava… But I’m goin’ to, do just as I want to anyway And don’t care if they all despise me Pensou como seria bom que ela se calasse por uns instantes. Talvez por brincadeira, puxou do bloco de notas e desenhou-a muda, com uma fita grossa a tapar a boca e bem amarrada a uma das colunas de modo a não poder dançar. O pandemónio que aconteceu depois - viu como por magia serem executados os seus desejos, a realidade moldando-se

aos seus desenhos - deu-lhe certezas quanto ao desígnio que lhe cabia. Soube então que todas as tentativas para o demover seriam inúteis.

CONFLITOS O cabelo esbranquiçou completamente e deixou crescer a barba, uma barba branca e farta, de pelos fininhos, que lhe tapava quase totalmente o pescoço. Desinteressou-se completamente dos temas de conversa habituais. Se lhe falavam do Benfica, retorquia “Terra”. Se lhe falavam de mulheres, mostrava enfado e respondia “Génese”. Se o interpelavam sobre política então fazia cara feia e proferia enfaticamente “Paz e Bem”. As coisas pioraram quando trouxe a bola para o escritório e o desgraçado do Antunes caiu na asneira de dizer “É pá. Deixa cá ver essa bola para eu dar um chuto como o Cristiano Ronaldo” Virou-se para o outro fuzilando-o com o olhar. Disse qualquer coisa esquisita de que já não me lembro bem. Só sei que o pobre do alentejano virou-se e, rabo entre as pernas, enfiou-se atrás da secretária. Nessa tarde nem daria mais um pio. No dia seguinte apareceu túnica e sandálias, passando o tempo todo (manhã toda) a rabiscar e a distribuir os papéis com desenhos es-

A DESCOBERTA DE SI PRÓPRIO O primeiro dia foi pacífico e ficou a conhecer a malta lá da repartição “Isto até é fácil. Não é a trabalheira que parece, pá” trauteava o Antunes - alentejano magricelas e de bigode quase tão negro como o do Vitorino. “O pior é quando o chefe Pereira dá nos azeites. Mas a gente finge que é moco, que não ouve, damos-lhe um desconto…” continuava o bom do Vitorino, preocupado em instruir o neófito nas lides da casa. E ele concordava, a tudo anuía silenciosamente. Ora apresentava o polegar erguido em sinal de assentimento ora fazia os gestos curtos mas veniais com a cabeça. Meio-dia em ponto, levaram-no a almoçar à tasca do Silva e como era quarta-feira (dia de cozido)

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quisitos. Disse que tinha descoberto algo de novo, que sabia fazer uma coisa até ali nunca vista e à qual deu o nome “Criar”. “E como é que funciona isso de criar?” perguntou o Benevides, cheio de manha, com esperteza beirã. “É simples” respondeu. “Imagina uma coisa que não existe. Pois bem… a gente vem e faz com que exista. Depois dizemos à coisa que fomos nós que fizemos isso – que a criámos” O outro não parecia lá muito convencido e argumentou enfaticamente “É pá. Deixa-te disso que a gente aqui é funcionário e não tem de fazer existir o que não existe. Temos é que fazer existir o que existe, entendes? Passar carimbo…” E arrematou, matando definitivamente a conversa “Além disso, o que é que ganhas com isso de criar? Serve para alguma coisa? “ O INTERNAMENTO Iam-lhe aturando as madurezas e suportando todas as incongruências, manias e obsessões até que chegou o dia em que foi o atingido o limite, caiu a gota de água que fez transbordar repentinamente o copo. Parece que uma das criações mais exóticas – o pequeno casal de “quase nudistas” - foi-se à maçã raineta que o che-

fe Pereira reservava para comer à hora do lanche. O desgraçado, quando lhe deu a fome, procurou, procurou e nada… Nessa mesma tarde, chamaram a equipa constituída pelo psiquiatra e dois paramédicos. O Deus (João de Deus) ainda gritou pela bola que nem um desalmado. Pela Jóia. A sua jóia. Que sem ela – foco de todo o seu carinho e atenção - a vida de nada valia. Mas em vão. Não lhe ligaram nenhuma. Amarraram-no e foi levado na ambulância velha azul e branca cujo cilindro de luz às voltas, sem descanso, identificava gravidade do caso e urgência para o transporte. Objecto amado, a jóia, a bola azul da qual nunca se separava, foi colocada em cima do tampo da mesa, sem qualquer cuidado, mesmo ao lado do pisa-papéis. E ali ficaria, esquecida e só, por vários dias. Até que chegou o substituto. O substituto era um gajo da Buraca, baixo e atarracado, adepto fanático do FCPê. Sopinha de massa, metia “xis” em tudo o que pegava: “Xou xim! Xim Xenhor, já xtá o que me mandou. Ah… ora essa, não xateia nada, a xente xtá cá é pra ixo…”. O Benevides quando queria entrar com ele, perguntava-lhe sempre como é que se escrevia

chato, ser era com Xis ou cê e agá. Quando o gajo viu a jóia, a bola, disse logo “Atão vomexês tinham aqui o esférico e não me diziam nada?” E, ainda falando, pegou na coisa com as duas mãos e deu-lhe um chuto forte. Mesmo forte…

DO DESTINO DA JÓIA A pequena bola azul foi aumentando gradualmente de velocidade e, em aceleração contínua, veria passar veloz a Proxima Centauri. Pouco depois chegaria ao sistema planetário, a esse sistema que chamamos “solar” onde ocuparia posição vogando em elipse imaginária (a terceira). Frustrados que estavam por falta de oportunidade (má sorte o casal ter comido a fruta) os planos de criação, sobraram apenas as bases, sementes rudes, imperceptíveis. E sendo assim, restava à bola permanecer bailando em torno do astro rei e esperar muito tempo - quase uma eternidade. Porque enquanto a criação é rápida e normalmente consiste em acto decidido e espontâneo, evoluir é bem mais complexo e exige decididamente muito mais tempo.

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unha
Depois de algumas horas tendo a insônia por companhia, o homem adormeceu. Sonhou haver penetrado em seu próprio corpo, indo tão distante a ponto de vislumbrar a estrutura de um átomo. Constatou que, a exemplo dos sistemas solares, o núcleo do átomo assemelhava-se a uma estrela cujos elétrons gravitando ao redor desempenhavam o papel de planetas. Bestificado, posou em um dos elétrons e verificou a existência de uma avançada civilização habitando sua superfície. O homem despertou junto com os primeiros raios solares e iluminar o seu quarto ainda intrigado com o sonho que lhe assaltara à noite. Iniciando sua higiene matinal, decidiu cortar as unhas das mãos. Durante o ato, centelha iluminou sua mente. Caso houvesse uma civilização vivendo em um dos átomos de sua unha, ele a destruiria com um sim-

Zulmar Lopes

ples manejar do cortador. Mas, uma dúvida pairou em sua mente. E se acaso a Terra estivesse localizada na unha de alguém? Percebeu que a vida era por demais efêmera. Já passara dos quarenta e pouco havia conquistado. Decidiu que dali por diante, tomaria outras atitudes, viveria, ainda que algumas decisões tivessem um preço demasiado caro a pagar. Afinal, tudo poderia terminar diante de um cortador de unha.

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Contos

Gênesis
Pedro Faria

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Começou com um. Ele subiu pelo acostamento, tropeçando nas pedras, o que sobrara de sua mente tentando entender o mundo visível. As feridas abertas em seu corpo haviam parado de sangrar, e verrugas purulentas apareciam por seu rosto, peito e braços. Ele fitou a estrada, se estendendo em direção ao oeste. Seu sangue estava estagnado em suas veias, e seus pulmões, vazios e murchos como bolas de encher sopradas e depois esvaziadas. Ficou parado à beira da estrada por horas, imóvel. Um cachorro se aproximou dele, deu uma cheirada em sua perna, urinou no chão e fugiu. Quando ele começou a ficar com fome, tomou a direção da cidade. Seus passos eram lentos e arrastados. O pus escorria por sua face, mas ele não tomava conhecimento disso. Nem dos insetos que pousavam em seu rosto, e em seu peito nu, e que depois voariam e pousariam em outras pessoas. Morte expressa. Terror a domicílio. A mulher o avista chegando, e suspira aliviada. Ela estava viajando para Ouro Verde, que ficava no fim dessa estrada, na direção oposta à caminhada do estranho. Uma cidadezinha construída na base de uma colina. Menos de quinhentos habitantes. O cu do mundo. Mas era

o destino dela, e seu pneu furara. “Por favor, senhor, você poderia me dar uma ajudinha aqui?” O som da voz da mulher causou um efeito singular na mente do estranho. Algum tipo de instinto escondido em seu cérebro morto e primitivo. “Senhor? O senhor está bem?” Até então, a mulher não tinha visto o rosto do estranho. Quando o viu, começou a gritar. A cabeça dele estava completamente coberta por moscas. Seus olhos quase não apareciam por entre o negrume dos insetos. Seu peito também estava cheio de moscas, porém não tanto quanto seu rosto. As moscas que voavam para longe pareciam pesadas, diferentes, e eram logo substituídas por novas que chegavam. Havia um rastro de pus no chão atrás dele. A luta foi breve, e a mulher perdeu. Antes que ela se libertasse do choque que a manteve presa onde estava, o estranho golpeou o lado de sua cabeça, jogando-a no chão. Ela caiu chorando, o golpe tão forte a ponto de fissurar seu malar. O instinto recém descoberto pelo estranho lhe guiou pelo resto de seu dever. Ele rasgou suas calças, e arrancou as calças da mulher. Seu membro estava inchado, e

coberto pelas mesmas verrugas de seu rosto. Vazava pus pela uretra. Num movimento só, o estranho enfiou a abominação que um dia pode ter sido um pênis na mulher. Ela gritou no início, mas a visão da face do Senhor das Moscas levou embora sua sanidade depois de alguns minutos, e ela só conseguiu alternar entre riso e choro. Não foi agradável para o estranho também. A cada estocada, verrugas em seu membro estouravam, causando uma dor terrível. Demorou mais do que ambos gostariam, e o pênis do estranho explodiu ao orgasmo. Ambos caíram de costas no chão, o grito do estranho mais alto que o da mulher. A fome não havia sido esquecida, e ele abriu a garganta da mulher, arranhando e mordendo, mastigando sua pele. Quando caiu no chão, saciado, o rosto da mulher havia se tornado vermelho com seu próprio sangue. Horas passaram, mas a cena manteve-se a mesma: O estranho e a mulher, deitados lado a lado na beira da estrada. A mudança veio com o movimento na barriga da mulher, e com a criatura que mordeu seu caminho para fora dele. Ela estava faminta. Mas tinha dois pratos de comida caídos bem à sua disposição.

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Contos

HÁRPIAS
- A DISPutA DAS FÚRIAS
As irmãs estavam reunidas: Antigas, temidas, odiadas, retratadas em mármore precioso e telas de incalculável valor. Aelo, porte e altivez. Tudo em sua figura esguia em perfeita sintonia com a moda atual. Poder e magnetismo nos mínimos gestos. A voz embriagante esconde a manipulação em todos os graus e sentidos.

Giselle Natsu Sato

Ocípite, a menina dos olhos sonhadores. Frescor e cheiro de promessas. Musa sempre cercada de poetas e artistas. Cativante, amante da música e das Belas Artes. Devaneios e precipícios, irresistíveis convites aos jovens Ícaros: Iludidos, impetuosos e apaixonados. Celeno, a sombria. Veludo italiano e renda francesa compõem o visual gótico

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sofisticado. Botas de couro altíssimas, tatuagens e piercings de brilhantes.Se a noite tivesse uma rainha, definitivamente seria Celeno. O casarão, em algum ponto perdido no Vale das Sombras, é o único foco de luz. Foi construído com os lamentos e lágrimas dos eternos escravos.O piso de pedras escuras reflete o fogo da imensa lareira. Um aparador exibe bebidas exóticas e taças de cristal. Não fosse pela ausência de janelas, o interior pareceria com qualquer castelo europeu. Aelo bebe absinto. No momento exato, elas formam o círculo. Unidas em profunda reverência, entoam os decretos: - Por Gaia e Urano, as filhas de Thaumas e Elektra evocam a Tradição e os antigos sábios... O grande salão exibe tênues sombras esgueirandose pelos cantos.Ocultas na escuridão, antigas formas murmuram mantras em linguagens milenares: - Sim, podemos iniciar. Hoje decidiremos quem conduzirá a alma negra que todas desejamos. As três Fúrias sem a capa da polidez mediam forças.

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A sina maldita era o convívio eterno. Lentamente os traços humanos deram lugar às verdadeiras faces das Harpias. O homem em questão era um poderoso líder político e espiritual responsável por milhões de mortes no Oriente. Ganancioso, inescrupuloso, sem um pingo de caráter ou moral. Ocípite movimenta-se brandindo os longos braços como se fossem asas. Volteios exagerados, narrando as terríveis cenas que acontecem naquele instante: - Bombas explodem cidades, meninas mães choram os filhos e homens caem aos pedaços. Montanhas de corpos no deserto, ódio, sangue e medo. Desespero nos olhos dos soldados inexperientes... - Pare com isso, poupenos de seu teatro. Já partilhamos tudo. Sabemos que o caos é engolido, com sofreguidão pelas trevas. Disputado, incentivado, gerido como um filho mal parido. - Tamanha sordidez supera os tempos mais remotos quando a bestialidade e a ignorância se confundiam. Precisamos nos apressar... Aelo e as irmãs cami-

nham para o terraço. Debruçadas no parapeito apreciam a paisagem árida em tons vibrantes. Do vermelho fogo ardendo em fendas e gargantas alimentadas permanentemente com o magma. A dor e o suplício da Terra. No mais profundo dos abismos o ar irrespirável confundem-se com o frio gelado das almas perdidas. A constante mudança de temperatura, assim como a chuva ácida, detalhes criados pelas criaturas tornando o local muito além do insuportável.O ar quente chega em lufadas fortes com a mesma intensidade das tempestades: - Quase confundo a paisagem com o campo de batalha terreno... - Algumas vezes penso que eles vão nos superar na destruição da grande Obra. - Em poucas horas, Sahan terminará o ciclo e uma de nós fará as honras. A outra irmã não prestou atenção, tinha o costume de ser imparcial em todas as decisões: - Ocípite, não vai opinar, como sempre. - Aelo sempre quer arrebanhar o máximo. Centenas de milhares de mortes

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diárias. Ainda assim, não está satisfeita. - Sim, sou gananciosa. O que nos rendeu um aumento considerável de almas. Viver na América, tem diversas vantagens. Devo lembrar que a escolha dos continentes foi uma decisão conjunta? - Mas não estou arrependida, incentivar a eterna guerra Santa é um prazer. As disputas, retaliações, embates que nunca chegarão a lugar algum. - Ocípite! Fora o presidente que deseja governar o mundo, o que tem feito? Aelo, tenta ganhar tempo: - Focada no Brasil. Cada dia pior e mais perdido. Guerras urbanas, tráfico e miséria. Além do mais, apontam o país como o grande celeiro do mundo. No futuro, disputarão cada pedacinho. O povo deixará de ser tão pacífico. Um tremor suave anuncia a chegada do Senhor dos submundos. As fúrias agitam-se em mesuras e boas-vindas: - Minhas queridas, estão aprontando novamente? O cheiro forte de enxofre, marca registrada...

- Hades! Íamos pedir sua ajuda neste impasse. - Acredito. A resposta é não. Regras claras, ele falhou e morrerá na forca. Aelo, isto é uma ordem, as eleições não tardam. A história terá o primeiro presidente negro. Isto sim. É importante! - Senhor, Sahan é uma lenda. O mistério que incita os delírios terroristas. Carrega fardos de inocentes... - Mentiras. Não passa de um ególatra inexpressivo. Esta disputa, é um capricho.... Caso encerrado. - Como queira Mestre, acataremos suas ordens. Aelo, a eterna diplomata, assentiu em nome de todas. - Ocípite, minha garotinha deliciosa, concentre-se. O ouro negro é o pomo da disputa. Incite as lutas pelas terras, desfaça acordos... Intrigas ainda funcionam nos dias atuais. Os cartéis estão indo muito bem. O vício cada dia mais forte e incontrolável. Caminhou até a figura altiva e visivelmente contrariada. Tocou a face pálida, desfez o penteado soltando as fivelas de ouro. Os cachos caíram em ondas perfumadas.

Delicadamente aspirou, sussurrando: - Linda Celeno! Minha favorita. Vou conceder esta honra, em nome da nossa velha amizade. Estarei vigiando, naturalmente... - Perdi sua confiança, meu senhor? - Nunca a teve! Admirada com meu terno Armani? Sou um empresário e vou a uma reunião importante. Em Roma. Ciao meninas. As Fúrias emitiram um rosnado assustador. Celeno, saboreando o momento de triunfo, emitia risadas agudas, de puro escárnio.Não se despediram. Cada qual tomou seu rumo. Fortes, famintas, personificam os Arautos da Discórdia: Miséria, Fome, Medo, Doenças... Adaptadas, burlam o tempo e sopram o vento do caos. Nos dias atuais, alguém perceberia a presença das Lendas? Tantos seres humanos exibem comportamento semelhante.Estão em todos lugares e decidem nossos destinos. Neste instante, podem estar ao nosso lado. E nem nos damos conta... Simplesmente, seguimos adiante e obedecemos.

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ficina

A Oficina Editora é uma utopia, um nãolugar. Apenas no século XXI uma vintena de autores, que jamais se encontraram fisicamente, poderia conceber um projeto semelhante. O livro, sempre tido em conta como umas das principais fontes de cultura, tornou-se apenas um bem de consumo, tornou-se um elemento de exclusão cultural. A proposta da Oficina Editora é resgatar o valor natural e primeiro da Literatura: de bem cultural. Disponibilizando gratuitamente e-books e com o custo mínimo para livros impressos, nossos autores apresentam a demonstração máxima de respeito à Literatura e aos leitores.

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Contos

de Oma Guerta
Maristela S. Deves

Os deliciosos biscoitos

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Mariazinha quase bateu palmas quando Oma Guerta entrou na sala carregando a bandeja de biscoitos. Esse era o melhor momento das visitas semanais à casa da avó: a hora do lanche. Tudo o que a Oma fazia era delicioso, cucas, doces, bolos, biscoitos dos mais variados tipos. Gulosa, pegou logo três dos biscoitos, lambuzando-se toda de confeitos coloridos. - Kind, Kind - riu a avó com seu forte sotaque alemão, acariciando a cabeça da netinha de nove anos enquanto ela atacava a bandeja outra vez. Cabelos grisalhos presos num coque, olhos azuis brilhantes por trás das lentes dos óculos de aros redondos, Oma Guerta ajeitou o xale de crochê sobre os ombros antes de retornar à cozinha para cuidar de outra fornada de guloseimas. Na sala, enquanto aguardava com alegria antecipada o bolo ou doce que viria a seguir, Mariazinha olhou ao redor para distrair-se enquanto esperava. A parede cheia de quadros sempre a encantara, e ficava imaginando como teria sido bom conhecer os bisavós e tataravós que a olhavam dos retratos. Ao lado deles, santos, muitos santos, ajuda-

vam a fechar praticamente cada centímetro da parede. A única exceção era o canto onde estava o relógio, o velho relógio de pêndulo que tiquetaqueava as horas com uma solenidade que fazia jus à sua idade... Pouco depois, terminava a segunda fatia de cuca recheada quando o pêndulo bateu pausadamente. Bléin. Bléin. Bléin. Bléin. Quatro horas. Logo, logo teria de ir para casa. Mas, antes, ia ver se a avó já tinha pronto o pote de bolo que sempre levava para comer no caminho... Lambendo os farelos que tinham ficado nos dedos para não desperdiçar nada daquela delícia, levantou-se e, quase tão solene quanto o velho relógio, encaminhou-se para a cozinha. Abriu a porta devagarzinho, sem fazer ruído. A avó, como ela esperava, estava parada em frente ao balcão, uma bacia nas mãos, misturando os ingredientes para mais uma fornada de biscoitos. O que ela não esperava ver era Kerb, o gato de longos pelos brancos da Oma, sentado sobre as duas patas traseiras e recitando calmamente em alemão os ingredientes que estavam no livro de receitas que ele segurava com as outras duas patinhas.

- Zwei glass Mel... Ein glass Zucker... Drei… Olhos arregalados, Mariazinha deixou escapar uma exclamação. A avó virou-se, enquanto Kerb lhe lançava um olhar de quem estava chateado pela interrupção. - Oma... Vovó, ele... ele fala! _ conseguiu dizer. - É claro que eu falo! indignou-se o gato, largando o livro no chão para poder colocar as patinhas na cintura. - E por que não iria falar? Sorrindo, Oma Guerta meteu-se na conversa. - Kinder, Kinder... Maria, Kerb, não quero discussões aqui... Ainda pensando que tinha adormecido no sofá da sala e que estava sonhando, Mariazinha beliscou-se. Ai. Doeu... Mas então... - Isso é de verdade, mesmo? Antes que Kerb respondesse outra vez, a avó tomou a menina no colo. - Mein Kind, Komm hier... Senta aqui no meu colo um pouquinho, a Oma vai te contar um segredo...

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E, na meia hora seguinte - enquanto um impaciente Kerb andava de um lado para o outro, sentindo-se ignorado -, a avó Guerta revelou à neta o porquê de seus doces serem sempre tão deliciosos. Tudo começava com o livro de receitas mágico, trazido por suas antepassadas quando elas imigraram para o Brasil. Passado sempre de mãe para filha, ou de avó para neta, ele trazia instruções mágicas para o preparo de qualquer prato, fazendo-os mais saborosos do que os feitos pelos mais renomados mestre-cucas. - Mas aqui... mas aqui não tem nada escrito - espantou-se a menina, folheando o caderninho que a avó pegara do chão e deixara sobre a mesa. - É aí que entra o Kerb... - disse, chamando com um gesto o gato, que alegrou-se ao ser mais uma vez lembrado. - Eu, como meu pai e meu avô e o pai e o avô do meu avô antes de mim, sou o único que consegue ver a escrita invisível que tem no livro mágico. Tenho a missão de ler essas receitas para minha ama, e, também, de dizer as palavras que completam a mágica - concluiu o felino, todo

importante. Os olhos de Mariazinha arregalaram-se ainda mais. - Palavras mágicas?! - Sim, palavras mágicas - acrescentou o gato, outra vez impaciente. Será que aquela menina não sabia nada de nada? - As palavras mágicas que vão fazer os biscoitos, as cucas e o que mais sua avó fizer serem os mais deliciosos já vistos. A pequena olhou do gato para a avó, como que querendo confirmar a informação. Oma Guerta meneou a cabeça. - E quais são as palavras mágicas? - quis saber Mariazinha. Condescendente, Kerb dirigiu-se até o forno de barro, ergueu-se outra vez nas patinhas traseiras e, com uma colher de madeira, bateu duas vezes na portinha: - Wunderbaressen gegessen! - exclamou, também duas vezes. Depois, com um floreio, chamou Mariazinha para abrir o forno. A menina abriu, cada vez mais maravilhada, e o aroma dos biscoitos recémassados encheu a cozinha. Sem se conter, bateu palmas

de contentamento. A avó chegou ao seu lado e, pegando-a outra vez no colo, disse: - Mädchen, agora que você já sabe como a Oma faz tanta coisa boa, eu tenho uma pergunta muito importante para lhe fazer. Você quer aprender a fazer esses biscoitos mágicos, para ser a seguidora da tradição da família? Agora, sim, Mariazinha tinha certeza de que estava sonhando. Ela, fazendo aqueles biscoitos? Como poderia...? - E você vai ter o seu próprio gatinho - completou a avó. Levantando-se e levando a menina pela mão, Oma Guerta voltou com ela para a sala. Ali, dirigiu-se para o velho relógio de pêndulo, sob o qual ficavam duas grandes portas de madeira que Mariazinha nunca tinha visto serem abertas. Pois a avó abriu-as e entrou, chamando Kerb e a neta para acompanhá-la. Era outra surpresa. Embora parecesse de fora um pequeno armário, lá dentro o espaço era gigantesco. Prateleiras e mais prateleiras de ingredientes, potes, cestas, até um jardinzinho tinha num canto. E uma casinha...

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- Kätzie, venha cá... - chamou Kerb, parando à porta da casinha, e um maravilhoso e peludo gatinho apareceu. - O que foi, papai? - perguntou a bolinha de pelos. - Esta é sua ama, Mariazinha. A partir de agora, ela vai vir aqui todo dia para cozinhar conosco, e você vai ajudá-la - declarou o gato, solene. Kätzie abriu um sorriso tímido para Mariazinha, que, encantada, pegou-o no colo. Precisava pensar: assumir a cozinha da avó era uma grande responsabilidade, mas aquele gatinho era tão lindo... - Pense até amanhã, mein Kind - disse a avó, adivinhando-lhe as dúvidas. - Volte de manhã, para me dizer o que decidiu. Por enquanto, leve Kätzie com você. No caminho para casa e durante toda a noite Mariazinha não conseguia pensar noutra coisa que na proposta da avó. Adorava seus biscoitos e suas cucas, e pensar que um dia poderia fazê-los... mas tinha medo de acordar no outro dia e ver que estivera certa, que tudo era mesmo um sonho. Adormeceu abraçada no

gatinho, e sonhou com ele recitando as receitas ao seu lado... Acordou com as lambidas de Kätzie. - Bom dia, ama - disse o gatinho sorridente. Todas as hesitações de lado, Mariazinha pulou o café da manhã. Com Kätzie nos braços, correu para a casa da avó. Chegando no jardim, estacou e olhou a casa. Parecia diferente hoje, embora ao mesmo tempo também fosse a mesma de sempre. Toda vez que entrava ali gostava de imaginar que estava entrando em um lugar especial, um mundo mágico. Agora, ia entrar na casa sabendo que isso era verdade, e que a partir de agora ela também faria parte daquela mágica. Bem que a mãe sempre dizia que os mais velhos têm muito a ensinar aos mais jovens...

A GUI

Henry Alfred Bugalho

Nova York
para Mãos-de-VAca
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O Guia do Viajante Inteligente

(uma homenagem à Vovó Leduína, à tia Guerta, às outras tias e à minha mãe, com seus biscoitos mais do que maravilhosos... saudades deles neste Natal...)

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Autor Convidado

A Escada

Lucas Riello de Almeida

Lucas Riello de Almeida é paulista da cidade de Cotia. Arrisca os sonhos na literatura e na música, com todas as belezas que sucitam tais artes, sua paixão. Vinte anos lendo e pensando muito. Ganhou miopia, dor de cabeça, certas angústias e alguns amores.

Já velho, subia as escadas. Por que vim? Se nada muda. Tudo o que é para permanecer, cresce; como o que é para crescer, permanece. O resto cai. Tudo cai. Essa força puxando a tudo para o nada. Os que ainda respiram, prolongam e se lembram. É a vida dissimulando-lhes a verdade. E há tanto que não pairo por estes lugares... Por que vim?

A cidade, as pessoas, essa fumaça pegajosa, o tumulto que cerca a tudo. Há muito eu não ia à Igreja, o lugar mais limpo e silencioso que conheci. A primeira vez que entrei em uma catedral, eu tinha a idade de uma criança inocente. Desejei nunca mais sair. Os detalhes do mármore, suportando grandes esculturas de heróis, translucidados pelos

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tons que os vitrais filtravam do sol, sob a melodia barroca que uma velha senhora dedilhava ao órgão, parecendo celebrar tudo o que ali havia. A cúpula de vidro irradiava toda minha alegria e surpresa ao perceber a grande convergência de toda a estrutura para o ponto único, o homem mais triste de todos os representados, ao fundo, contrastado, pequeno, soturno, mudo, vazio, completo, e muito distante. Então eu cresci e li! Eu li, e li, e li, e li... E também os deuses caem. Fica no lugar um vazio, que por sinal é a única coisa que não vai embora. O vazio de não se crer em nada e a saudade do que quer que seja. Bêbados encolhiam-se nos degraus do lance de escadas, frente às duas grandes portas abertas e convidativas. Subi, de costas para o sol, às nove da manhã, algumas nuvens se formando no alto, sozinho. Uma missa dedicada aos mortos acabara há pouco e os vultos de luto colidiam contra minha vaguidão de entrar ou não, em direção à saída. Havia uma dúvida constrangida no olhar pesaroso de algumas dessas sombras, como se a hora final fosse, naquele instante, cair sobre todos os homens. Mas logo

o sol tocava-lhes a face, o mundo ainda estava ali, e respiravam, e dissipavamse, reencontrando-se, vivos, esquecendo, esquecidos, tendo esperanças, desejando, mais incertos do que está por vir, quase felizes, fixando-se no presente, pois o futuro pertence a deus, e deus pertence ao homem. E a quem eu pertenço? Maldita escada que não termina nunca! Estou há tanto tempo nestes degraus que talvez eu tenha dormido no caminho e isto seja só um sonho. Eu poderia sonhar com o amor que um dia tive. Mas do outro lado não havia ninguém, o ser amado. Só uma idéia que criei, na minha juventude, para satisfazerme as ilusões românticas. Eu não era romântico e nem sabia o que era o amor. Quando dei conta, ela tinha partido, como a morte, silenciosa, inesperada, violenta, para sempre. Mas como os que ainda vivem, procurei-a e fiz de tudo para que me notasse de onde estivesse, demonstrando que a amava mais que tudo. Restou-me esse sonho de sonhá-la, a verdadeira, aqui, comigo, no que restou do mundo desde então. Entrei. Sentei-me à

metade, igualmente distante da saída e do púlpito, com seu pedestal de água benta, numa hora dessas já vazio de aliviar as angústias dos necessitados. Iluminou-se a igreja por dentro, com suas luzes amareladas que são acesas pela chuva que começa lá fora a bater nas vidraças, limpando a poeira dos vitrais desbotados, escurecendo a tudo. O barulho das gotas sobrepõe-se ao cochilar de uma senhora que murmura uma reza tranqüila, perdida no cansaço de sua vida. O presente é esse abismo de tempo que se me abre das paredes e do chão, mas sobretudo de minha alma. Como eu abraçara tudo aquilo no meu cálido coração! A vida então faziame total sentido: desde o menor vestígio de vida, às grandes obras da natureza, soprando-me os ares dos sentimentos variados que aspiram no peito humano: amor, solidão, a vontade de nunca parar de viver, de conhecer a tudo, a humildade, a insaciabilidade, a harmonia com o todo, até além da morte, até deus e depois dele. Então que algo me arrancou a cortina que tapava a visão de minha alma. Ou pôs-lhe uma outra venda, vergando o resto de inocência ao nada. Como saber? Como saber

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de que lado ficou meu coração? Como enxergar a vida com os olhos da Justiça, se desconfio também da precisão de minha balança, ante a dúvida do que sei contra as certezas que me derramam os outros? Restou-me o enigma sempre presente a devorar-me a paz. Passa o tempo e me afundo mais neste profundo poço que é a vida. Levantei-me para dirigir-me ao púlpito. Qualquer padre bastaria agora. Eu buscava somente uma demonstração de fé, uma prova, a mim, testemunho e senhor de tantas dúvidas. Avancei por entre a tempestade que despencava sobre tudo. Cada passo pesava minhas decisões passadas, meus próprios julgamentos, considerando que a moral tenha se tornado um assunto esquecido a todos aqueles com quem eu convivia e, talvez, estivesse readquirindo a cor antiga. Na dúvida, a moral é viver. Assim passamos. Prossigo. Eu receava ser expulso assim que começasse a falar. Mas o que eu falaria? Tantas coisas, por tantos anos, atravessaram-me, e agora estou completamente vazio. Conheço todos os meus desejos e pecados. Mas frente a alguém em

quem deposito meu amparo ou alegria, tristeza ou solicitude, frente a qualquer pergunta que venha de fora, esqueço meus infortúnios e sonhos. E por isso talvez nunca chegue a viver, efetivamente. O padre me avistava, ao longe, e eu, parado, desprotegido, encarava sua força, sustentada pela cruz que o prendia à Terra e aos Céus, sempre ali, ao fundo, como que ressoando na memória destas paredes o alerta de que sempre haverá, no final, um julgamento. De repente, senti-me em casa, ao notar uma goteira desenhando uma poça no tapete cor de vinho no qual eu caminhava. É o único lugar onde talvez algo me pertença, mesmo que seja uma goteira que martele minha cabeça nas noites chuvosas e terrenas. Meu apartamento guarda a memória de minha vida. Manchas, fotos, quadros, espelhos, livros, cordas de violão, colheres tortas, papel amassado, cartas, idéias, sensações. Entre tudo, os amigos e a família. Procurei guardar a essência deles comigo. Lá está o registro histórico de nossa vida. Se boa, se má, é digna de eu me lembrar dos maus e bons

momentos. Cada segundo que vivo lá é um reviver das alegrias e tristezas que passamos. Nem todos terminam tão próximos. Estes laços se afrouxam muito facilmente quando o conteúdo envolvido é pouco. E há também a solidão. Muitos destes fantasmas que habitam minha morada me odiaram, afinal. E quando me lembro disto, peço perdão a eles, olhando fixamente o nada à minha frente, paralisado, absorto, perdido, por um fio de lembrança, o rosto de alguém querido que se foi, e que está à beira de meus olhos que se fecham. E na escuridão eu posso ouvir o sussurro de todas as suas vozes ecoando no vazio de cá dentro, esperando, ansioso, a palavra de boas vindas. Sempre, lá estão eles, dentro de cada detalhe, no ar, nas paredes, na ausência, escutando-me, lembrando-me. Uma gota de água me desperta. Não reconheço mais neste lugar as alegrias e motivações que me faziam vir aqui. Onde eu estava com a cabeça? Cai um fio de luz da cúpula de vidro acima de mim, na chuva que cessa, clareando-me a vista. Viro-me em direção à porta. Lá fora, talvez, eu esteja a salvo. Saio...

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Autor Convidado

Poemetos
E se cantarem a primavera Após um longo outono Eu Já estarei morto. Melhor é cantar de novo e de novo. Porque primavera Não vem depois de outono. Homem não, chora Hoje vi um homem chorando no banheiro Me disse que não, argumentou Primeiro era cisco Depois que vinha gripado. Cuspiu na pia e foi embora. Isso foi bem engraçado! Homem também chora, mas nunca confessa. Eu por exemplo, Não choro.

Renato Wegner de Souza

No meio do ambiente tinha um poeta Desperdiçar o papel escrevendo uma palavra por linha é crime ambiental? Renato Wegner, 19, é estudante de Cinema na UFPel (com o curso trancado), mora atualmente em Pelotas/RS. Nunca publicou nada. Seus poemas são todos frutos de uma alegria e um otimismo mascaro estonteante.

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Tradução

As Cinco Dádivas da Vida
Mark Twain
tradução: Henry Alfred Bugalho

Capítulo I Na alvorada da vida, uma bondosa fada apareceu com sua cesta e disse: — Aqui há presentes. Pegue um, deixe os outros. E seja cuidadoso, escolha sabiamente; ó, escolha sabiamente! pois apenas um deles tem valor. Os cinco presentes eram: Fama, Amor, Riquezas, Prazer, Morte. O jovem disse, ávido:

— Não há necessidade de refletir — e escolheu Prazer. Ele foi para o mundo e buscou os prazeres que deleitam os jovens. Mas cada um deles era fugaz e desapontador, vão e vazio; e cada um, ao partir, zombou dele. No fim, ele disse: — Desperdicei estes anos. Se eu pudesse escolher novamente, escolheria mais sabiamente.

Capítulo II A fada apareceu e disse: — Restam quatro presentes. Escolha uma vez mais; e, ó, lembre-se: o tempo voa, e apenas um deles é precioso. O homem demorou-se a refletir, então escolheu Amor; e não reparou nas lágrimas que brotaram dos olhos da fada. Após muitos e muitos anos, o homem estava sen-

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tado ao lado dum caixão, numa casa vazia. Então ele soloquiava, dizendo: — Uma por uma, elas se foram e me deixaram; e agora ela, a mais querida e derradeira, jaz aqui. Desolação após desolação passou por mim; para cada hora de alegria que o Amor, o mercador traiçoeiro, me vendeu, paguei mil horas de pesar. Do fundo do meu coração, eu o amaldiçôo. Capítulo III — Escolha novamente — era a fada a falar — os anos lhe deram sabedoria, certamente. Restam três presentes. Apenas um possui valor; lembre-se disto e escolha com cautela. O homem refletiu por muito tempo, então escolheu Fama; e a fada, suspirando, partiu. Anos se passaram e ela retornou, postando-se atrás do homem onde ele se sentava solitário, refletindo, diante do crepúsculo. E ela sabia qual era seu pensamento: “Meu nome percorreu o mundo e todas as línguas o exaltaram, e isto me contentou por um tempo. Mas por quão pouco tempo! Então veio a inveja; depois detração; depois calúnia; depois ódio; depois perseguição. Então ridicularização, que é o começo do fim. E, por fim, veio piedade, que é o funeral da fama. Ó, a amargura e a miséria do renome!

Aponta para a lama logo em seu apogeu, para a desgraça e compaixão em seu declínio. Capítulo IV — Escolha uma vez mais — era a voz da fada — restam dois presentes. E não se desespere. No começo, havia apenas um que era precioso, e ele ainda está aqui. — Riqueza; pois é poder! Quão cego fui! — disse o homem — agora, por fim, a vida merecerá ser vivida. Gastarei, desperdiçarei, resplandecerei. Aqueles que zombam de mim e me desprezam rastejarão na imundície diante de mim, e eu alimentarei meu coração faminto com a inveja deles. Obterei todos os requintes, todas as alegrias, todos os encantamentos do espírito, todos os contentamentos do corpo que agradam um homem. Comprarei, comprarei, comprarei! Deferência, respeito, estima, adoração — todas as espúrias graças da vida que o mercado do mundo trivial pode prover. Perdi muito tempo, e, até agora, escolhi mal, mas deixe estar; eu era ignorante e considerei o melhor aquilo que parecia sê-lo. Três rápidos anos se esvaíram e chegou o dia em que o homem se sentava num sotão imundo; e ele estava esquelético, lívido e com profundas olheiras, vestido em trapos; ele estava ruminando um pão

duro e resmungando. — Malditos todos os presentes do mundo, pois são ardis e mentiras douradas! — e os insultou, a cada um deles — Eles não eram presentes, mas meros empréstimos. Prazer, Amor, Fama, Riquezas: Eles eram disfarces temporários para as realidades duradouras — Dor, Pesar, Vergonha, Pobreza. O que a fada disse era verdade; em todo seu estoque havia apenas um presente que era precioso, apenas um que não era desprezível. Quão pobres, baratos e imundos sei agora que eles são comparados com aquele inestimável, aquele caro, doce e gentil, que encharca num sono sem sonhos e duradouro as dores que perseguem o corpo, e as vergonhas e pesares que consomem a mente e o coração. Traga-o! Estou exausto, descansarei. Capítulo V A fada veio, trazendo novamente quatro dos presentes, mas faltava a Morte. Ela disse: — Eu a dei para a queridinha duma mãe, para uma pequena criança. Era ignorante, mas confiou em mim, pedindo-me que escolhesse por ela. Você não me pediu para escolher. — Ó, pobre de mim! O que restou para mim? — Aquilo que nem você merecia: o impiedoso insulto da Velhice.

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Tradução

A História do

Inválido
Mark Twain

tradução: Henry Alfred Bugalho

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Aparento ter sessenta anos e ser casado, mas estes efeitos devem-se à minha condição e sofrimentos, pois sou solteiro, e tenho apenas quarenta e um anos. Será difícil para você acreditar que eu, que agora não passo duma sombra, era, há pouco menos de dois anos, um homem saudável e vigoroso, um homem de ferro, um verdadeiro atleta! — mesmo assim, esta é a verdade nua e crua. Mas o mais estranho ainda é o modo como perdi minha saúde. Eu a perdi tentando ajudar a tomar conta duma caixa de armas numa viagem ferroviária de duzentas milhas, numa noite de inverno. Esta é a verdade de fato, e eu a contarei pra você. Sou de Cleveland, Ohio. Numa noite de inverno, dois anos atrás, cheguei em casa logo após anoitecer, em meio a uma violenta nevasca, e a primeira coisa que ouvi quando entrei em casa foi que meu mais caro amigo de infância e colega de escola, John B. Hackett, havia morrido no dia anterior, e que seu último pedido havia sido o desejo que eu levasse seus restos mortais até seu pobre velho pai e mãe em Wisconsin. Eu estava muito estupefato e mortificado, mas não havia tempo a perder com emoções; eu deveria partir imediatamente. Apanhei o cartão, onde estava escrito “Diácono Levi Hackett, Bethlehem, Wisconsin”, e me apressei através da uivante nevasca até a estação de trem. Ao chegar lá, encontrei a comprida caixa

de pinho branco tal qual me havia sido descrita; preguei o cartão nela com algumas tachinhas, vi-a sendo posta com segurança a bordo no carro expresso e, então, corri para o refeitório para me prover com um sanduíche e alguns charutos. Quando voltei, algum tempo depois, ali fora estava o meu esquife, aparentemente, e um jovenzinho examinando-o, com um cartão em suas mãos, algumas tachinhas e um martelo! Eu estava embasbacado e confuso. Ele começou a pregar seu cartão, então apressei-me para o carro expresso, num estado de mente alterado, para exigir uma explicação. Mas que nada — ali estava minha caixa, tudo em ordem, no carro expresso; ela não havia sido mexida. (O fato é que, sem eu suspeitar, um equívoco prodigioso havia sido feito. Eu estava carregando uma caixa de armas que o rapazinho havia trazido à estação para remetê-la a uma empresa de rifles em Peoria, Illinois, e ele havia ficado com meu cadáver!). Foi então que o condutor berrou “todos a bordo” e eu pulei para dentro do carro expresso e arranjei um assento confortável num amontoado de baldes. O carregador estava ali, forte na lida — um homem comum, na casa dos cinqüenta anos, com uma expressão simples, honesta e bondosa, e de modos leves e com um vigor prático. Assim que o trem se moveu, um estranho saltou para dentro do vagão e deixou um pacote do peculiar queijo Limbur-

ger, maturado e com qualidade, num dos cantos do meu esquife — quer dizer, da minha caixa de armas. Ou melhor, agora eu sei que era um queijo Limburger, mas àquela época, eu nunca havia visto o artigo na vida e era, é claro, totalmente ignorante quanto suas características. Bem, avançamos através da noite selvagem, a ferina nevasca continuava enfurecida, bateu-me uma nefasta melancolia, meu peito se apertou, se apertou, se apertou! O velho carregador teceu um ou dois súbitos comentários sobre a nevasca e o clima ártico, bateu com força as portas corrediças, aferrolhou-as, cerrou sua janela e, andou dum lado pro outro, aqui, ali e acolá, ajeitou as coisas, toda a hora cantarolando contente “Sweet By and By”, em baixo tom, murmurando. Depois dum tempo, eu comecei a notar um odor quase maligno e penetrante rompendo o ar gélido. Isto deprimiu meu espírito ainda mais, porque eu o atribui, é claro, a meu pobre finado amigo. Havia algo infinitamente entristecedor em pensar que eu me lembraria dele deste estúpido modo patético, de tal maneira que foi difícil para conter as lágrimas. Além disto, eu me inquietava por conta do velho carregador, temia que ele pudesse perceber o cheiro. Contudo, ele prosseguiu cantarolando tranqüilamente, e não deu nenhum indício; pelo que fiquei agradecido. Agradecido, sim, mas ainda assim desconfortável; e logo comecei a me sentir mais e

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mais desconfortável, pois a cada minuto que se passava o odor se adensava, e se tornou mais e mais repugnante e difícil de suportar. Após um tempo, tendo ajeitado as coisas a seu contento, o carregador apanhou um pouco de lenha e fez um fogo tremendo em sua fornalha. Isto me inquietou mais do que posso descrever, pois não pude evitar de sentir que isto era um erro. Eu estava certo de que o efeito seria deletério sobre meu pobre finado amigo. Thompson — o nome do carregador era Thompson, como descobri no decorrer da noite — agora vagava por seu vagão, fechando quaisquer eventuais fendas que ele pudesse encontrar, lembrando que não fazia diferença que tipo de noite estava lá fora, ele pensava estar nos deixando confortáveis, de qualquer maneira. Eu não disse nada, mas acreditava que ele não estava fazendo uma boa escolha. Enquanto isto, ele cantarolava para si como antes; e enquanto isto, também, a fornalha estava ficando mais e mais quente, e o ambiente mais e mais sufocante. Eu comecei a empalidecer e a nausear, mas sofria em silêncio e não disse nada. Logo notei que o “Sweet By and By” gradualmente se esmoreceu; em seguida, cessou totalmente e que havia uma imobilidade ominosa. Após alguns momentos, Thomson disse: “Puxa! Eu acho que não foi canela que joguei ali na fornalha!

Ele se engasgou uma ou duas vezes, então se moveu em direção ao esqu— a caixa de armas, estacou diante da parte do queijo Limburger por um momento, então ele voltou e se sentou perto de mim, aparentando estar bastante impressionado. Após uma pausa contemplativa, ele disse, indicando com um gesto a caixa: — Amigo d’ocê? — Sim — eu disse, com um suspiro. — ‘Tá já bem avançado, né! Nada além disto foi dito por talvez um par de minutos, cada um ocupado com seus próprios pensamentos; então Thompson disse, numa voz baixa e reverente: — Às vezes, não se tem certeza se eles realmente partiram ou não — parecem ter partido, você sabe — a quentura do corpo, juntas moles — e assim por diante, e mesmo que você ache que eles se foram, você não tem certeza. Eu tive casos em meu vagão. É completamente horrível, porque você não sabe se a qualquer minuto eles não vão se levantar e olhar pra você! Então, após uma pausa, e erguendo um pouco seu cotovelo em direção à caixa: — Mas ele não ‘tá em nenhum transe! Não, senhor, ponho minha mão no fogo! Nós nos sentamos por algum tempo, em silêncio meditativo, ouvindo o vento e o ronco do trem; então Thompson disse, com uma boa dose de sentimento:

— Bem, bem, todos nós temos que ir, não tem como fugir disto. O homem que nasceu de mulher tem os dias contados, como dizem as Escrituras. Sim, você pode olhar pra isto do jeito que quiser, é tremendamente solene e curioso: Não tem ninguém que vai escapar; todos vão embora — todo mundo, como se diz. Um dia, você está vigoroso e forte — neste ponto, ele se pôs de pé e quebrou uma janela e esticou o nariz para fora dela por um segundo ou dois, então se sentou de novo, enquanto eu me esforcei para lançar meu nariz para o mesmo lugar, e continuamos fazendo isto vez ou outra — e no dia seguinte, ele foi ceifado como a grama, e os lugares que o conheciam não o conhecem mais, como dizem as Escrituras. É verdade, é tremendamente solene e curioso; mas todos temos de ir, um dia ou outro; não tem como fugir. Houve outra grande pausa; então: — Do que ele morreu? Eu disse que não sabia. — Há quanto tempo ele morreu? Pareceu-me sensato aumentar os fatos para encaixá-los nas probabilidades; então, eu disse: — Dois ou três dias. Mas isto não surtiu efeito, pois Thompson recebeu-o com um olhar ultrajado e, sem rodeios, disse: — Dois ou três anos, que você quer dizer. Então ele prosseguiu, pla-

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cidamente ignorando meu comentário, e deu vazão a suas opiniões sobre a insensatez em retardar demais sepultamentos. Ele se aproximou languidamente da caixa, parou por um momento, então retornou com um abrupto trote e pagou uma visita à janela quebrada, comentando: — Teria sido uma baita duma visão melhor, em todos os aspectos, se tivessem despachado ele no verão passado. Thompson se sentou e escondeu o rosto em seu lenço de seda vermelha, e começou a balançar lentamente o corpo pra frente e pra trás como se estivesse se esforçando o máximo para agüentar o insuportável. A estas horas, a fragrância — se é que se pode chamar aquilo de fragrância — estava sufocante, ou o mais perto que se pode chegar disto. A face de Thomspon estava ficando cinza; eu sabia que não restava cor alguma na minha. Depois, Thompson descansou a fronte em sua mão esquerda, com o cotovelo sobre o joelho, e meio que abanava seu lenço vermelho em direção a caixa com a outra mão, e disse: — Já carreguei muitos destes — alguns já bastante passados também —, mas, Deus do Céu, este deixa todos os outros no chinelo! — E de longe, capitão, os outros eram como girassóis comparados a ELE! Este reconhecimento de meu amigo me gratificou, a despeito das tristes circuns-

tâncias, porque isto havia me parecido mais como um elogio. Era óbvio que algo precisava ser feito logo. Eu sugeri charutos. Thompson pensou que esta era uma boa idéia. Ele disse: — Provavelmente isto vai amenizar um pouco. Nós tragamos com expectativa por algum tempo, e tentamos pra valer imaginar que as coisas haviam melhorado. Mas foi inútil. Após muito tempo, e sem qualquer combinação, ambos os charutos silenciosamente caíram de nossos dedos inertes, simultaneamente. Thompson disse, suspirando: — Não, capitão, isto não amenizou nem um tostão. O fato é que deixou pior, porque parece que atiçou seu poder. O que você acha que é a melhor a gente fazer agora? Eu não estava apto a sugerir algo; na verdade, eu estava engolido a seco, todo o tempo, e não queria me arriscar a falar. Thompson desatou a resmungar, de maneira errática e mal-humorada, sobre as experiências desagradáveis desta noite; e ele se referia a meu pobre amigo através de vários títulos — alguns militares, outros civis —; e eu notei que com a mesma rapidez que a eficácia do meu pobre amigo crescia, Thompson o promovia de acordo, dandolhe um título mais elevado. Por fim, ele disse: — Tive uma idéia. E se a gente fizer um esforço e dar um empurrãozinho no

coronel até para o fim do vagão?— uns cinco metros, talvez. Ele não teria tanta influência, então, não acha? Eu disse que este era um bom plano. Então nós tomamos um belo fôlego de ar fresco na janela quebrada, calculando segurá-lo até perfazermos a tarefa; então fomos até lá, inclinamo-nos sobre aquele queijo mortífero e agarramos a caixa. Thompson indicou com a cabeça “tudo pronto”, e nós nos projetamos, com toda nossa força; mas Thompson escorregou e tombou com o nariz no queijo e perdeu o fôlego. Ele tapou a boa e se engasgou, cambaleou e abriu uma fresta na porta, suplicando por ar e disse, arquejando: — Não me segura! Me dá espaço! Estou morrendo; me dá espaço! Sentei-me fora, na plataforma fria, e segurei a cabeça dele por um tempo, enquanto ele retornava à consciência. Depois, ele disse: — Você acha que a gente mexeu o general pra lá? Não, eu disse, não conseguimos movê-lo. — Bem, então aquela idéia está fora de cogitação. A gente tem de pensar em outra coisa. Ele está bem onde ele está, eu acho; e se este é o jeito que ele se sente sobre isto, e ele decidiu que não quer ser perturbado, você pode apostar que vai ser do jeito que ele quer. Sim, melhor deixar ele exatamente onde ele está, o tempo que ele quiser ficar; porque ele

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está com o jogo ganho, sabe, assim, pela lógica, o homem que tentar alterar seus planos sairá perdendo. Mas nós não poderíamos ficar expostos àquela insana nevasca, pois morreríamos congelados. Então retornamos para dentro e fechamos a porta, e voltamos a sofrer e a nos revesarmos na janela quebrada. Depois dum tempo, enquanto partíamos duma estação onde havíamos parado por uns instantes, Thompson saltou pra dentro, alegre, e exclamou: — A gente vai ficar bem agora! Acho que apanhamos o comodoro desta vez. Creio que eu consegui a coisa que vai tirar o fedor dele. Era ácido carbólico. Ele tinha um frasco disto. Ele o borrifou por todo os cantos; na verdade, ele encharcou tudo com isto, a caixa de rifles, o queijo e todo o resto. Então, nós nos sentamos, sentindo-nos bastante esperançosos. Mas não durou muito. Os dois odores começaram a ser misturar e, então, bem, logo tivemos que abrir a porta; e lá fora Thompson limpava seu rosto com o lenço e disse num tom devastado: — Não tem jeito. Não podemos vencê-lo. Ele simplesmente usa tudo que a gente põe pra amenizar, e põe seu próprio odor e joga de volta na gente. Por que, capitão, não percebe, está cem vezes pior do que quando começou. Eu nunca vi um deles se empolgar tanto em seu trabalho assim, e ter tanto interesse nele. Não, senhor,

nunca vi, em todo estes tempos de estrada; e já carreguei muitos deles, como disse pr’ôce. Voltamos para dentro quando já estávamos duros de frio, mas, misericórdia, não conseguíamos ficar lá dentro. Então, simplesmente passamos a valsear de dentro pra fora, de fora pra dentro, congelando, descongelando, e sufocando, em revezamentos. Em torno de uma hora depois, paramos em outra estação, e, assim que partimos, Thompson veio com uma sacola e disse: — Capitão, vou arriscar a sorte uma vez mais, apenas esta vez; se a gente não pegar ele agora, a coisa que vai restar pra gente fazer vai ser jogar a toalha e deixar a lona. É isto que proponho. Ele havia trazido um punhado de penas de galinha, maçãs secas, folhas de tabaco, tapetes, sapatos velhos, enxofre, assafétida, e uma ou outra coisa; e ele empilhou tudo numa lâmina de ferro no meio do chão e tocou fogo. Quando o fogo já estava bem avançado, eu não consegui imaginar como até mesmo o cadáver conseguiria suportar o cheiro. Tudo havia vindo antes era apenas poesia em comparação àquele cheiro, mas acredite você, o cheiro original continuava tão sublime quanto antes; a verdade é que os outros cheiros pareciam fortalecê-lo; e, meu Deus, quão forte ele era! Eu não fiz estas considerações lá, pois não

havia tempo, fi-las na plataforma. E rompendo para a plataforma, Thompson sufocou e caiu; e antes que eu pudesse arrastá-lo, pelo colarinho, eu mesmo quase havia desmaiado. Quando recobramos a consciência, Thompson disse, deprimido: — Temos de ficar aqui fora, chefia. Temos de ficar. Não tem outro jeito. O governador quer viajar sozinho, e ele está decidido que pode nos vencer. E depois ele acrescentou: — E você não sabe, a gente está envenenado. Esta é nossa última viagem, você pode estar certo disto. Por causa disto, a gente vai ter febre tifóide. Já estou sentindo ela vindo, neste exato momento. Sim, senhor, fomos escolhidos, tão certo como o fato de você ter nascido. Fomos recolhidos da plataforma uma hora depois, congelados e sem sensibilidade, na próxima estação, e sucumbi a uma febre virulenta, e fiquei fora de combate por três semanas. Descobri, então, que eu passei uma noite terrível com uma inofensiva caixa de rifles e um inocente bocado de queijo; mas as novidades vieram tarde demais para me salvar; a imaginação havia feito seu trabalho e minha saúde estava permanentemente abalada; nem Bermuda, nem qualquer outra terra poderia restaurála. Esta será minha última viagem; estou a caminho de casa para morrer.

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Mark Twain é o pseudônimo de Samuel Langhorne Clemens (1835-1910), primeiro grande escritor do oeste dos Estados Unidos que exerceu grande influência sobre todos os escritores que se esforçaram por “descobrir a América” através de suas paisagens, das peculiaridades de seu povo e de seu folclore. Clemens passou a infância às margens do rio Mississipi. Perdeu o pai aos 12 anos quando começou a trabalhar para ajudar nas despesas de casa. Foi entregador, escriturário e ajudante. Aos 13 anos tornou-se aprendiz de tipografia, e depois, trabalhando como impressor, viajou por diversos estados. Aprendeu navegação no rio Mississipi tornando-se piloto fluvial. Nessa época começou a escrever textos de humor e adotou o pseudônimo de Mark Twain, termo usado pelos barqueiros, que significa “duas marcas” na verificação da profundidade dos rios. Depois participou da Guerra Civil, como confederado. Após o conflito, foi para o Oeste (Nevada) onde viveu com seu irmão. Passou a escrever para o jornal da cidade de Virginia. Foi jornalista e conquistou o público com o conto “A célebre rã saltadora do Condado de Calaveras”, publicado em 1865. Dois anos depois, Twain visitou a França, a Itália e a Palestina, recolhendo material para o seu livro “The Innocents Abroad” (1869), que estabeleceu a sua reputação de humorista. Twain se casou com Olívia Langdon em 1870 e se fixou em Hartford, Connecticut. Dois anos mais tarde publicou “Roughing It”, e em 1873 “The Gilded Age”. Em 1876 saiu a primeira das suas grandes obras, “As aventuras de Tom Sawyer”, romance baseado nas experiências da adolescência do autor no rio Mississipi. No livro seguinte, “A Tramp Abroad” (1880) o autor

visitou a Europa, regressando com “Vida no Mississipi”(1883). A obra-prima da carreira literária de Twain, “As aventuras de Huckleberry Finn”, foi publicada em 1884. O livro, que parecia só uma obra para jovens, constituía na realidade uma fábula da América que se urbanizava e industrializava enfrentando o sonho de uma vida na liberdade da natureza. “Huck” representava muitas das aspirações da sociedade americana, com as quais o público facilmente se identificou. O romance estabeleceu definitivamente Twain como um dos grandes humoristas da literatura mundial. Outras obras do autor: “O Príncipe e o Mendigo”, “Um ianque na corte do

rei Artur” (1889), “A tragédia de Pudd’nhead Wilson”(1894) e “Joana D`Arc (1896). A década de 1890 foi marcada por dificuldades financeiras e nos últimos anos a caricatura burlesca deu lugar a um pessimismo satírico. A dimensão irônica do mundo e em particular do sonho americano revelaram um retrato americano em toda a sua materialidade.

Fonte: http://educacao.uol.com.br/ biografias/ult1789u507.jhtm

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Tradução

La esencia de las horas
Volmar Camargo Junior
Versión: Xoan Cullereiro (Enrique Gutiérrez Miranda)

Del carozo de una hora extraje la substancia vítrea, oleosa; breve cual la voluntad, etérea cual la sensatez. En ningún recipiente pude contenerla contenta. Se escapaba siempre un tanto, a veces mucho; casi siempre duplicaba su tamaño, y así, poco a poco las gotas, las partículas rellenaron el espacio que tan bien conozco. Era seductora, envolvente; la bruma que de ella nacía, —pues bruma era— era un vapor invisible que hizo desaparecer las paredes, el paisaje de la ventana, los hábitos convenientes

y mis pies. Así, día a día, si aún recordaba lo que eran acabé por no verlos. Me dejé, entregado, a la esencia del carozo de las horas. Inhalé, comí, bebí, me desnudé; y así, desnudo, me cubrí entero con ella. No era dolor, era más bien un frío de las puntas del cabello a la boca del estómago. Me enredó. Dentro y fuera de mí vivía aquello; imposible contenerlo. E incluso cuando de lo hondo de la garganta nació el último murmullo la cosa cristalizó,

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se hizo hielo, roca, diamante, vidrio. Era el vidrio en mí, el vidrio de las horas —el vidrio de las raíces del tiempo, de todo el vítreo árbol que es el tiempo, de su vítrea sangre de lo que no se ve—. Era el vidrio en mí. Ya no en la horas, ya no rellenando los vacíos entre las partículas del polvo del tejido de las estrellas. Era el vidrio en mí. Dejó de ser esencia primordial, o quintaesencial. Era en mí. Era yo. Y, como es propio de las cosas nacidas o sacadas del árbol que da los frutos del tiempo, el vidrio que me tenía cristalizado desapareció. Volvieron las ropas, las paredes, las ventanas, el paisaje, los zapatos.

De la esencia de las horas quedo sólo una gota. Se escurrió por mi cabeza hasta la punta de la nariz; intempestiva, decidida, libre, se lanzó al espacio con un chapoteo que sólo yo percibí hasta el choque final contra el suelo. Salí. Cerré las ventanas, atranqué las puertas. Seguí como pude vivo como consigo. Permanece aún allá, intocado, el suelo donde cayó la última gota de la substancia vítrea, oleosa, extraída del carozo de una hora. Tenía la esperanza de que donde había caído la gota pudiera brotar otro árbol con un tiempo diferente, quién sabe si mezclado con un poco del polvo, de ese polvo que yo soy.

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Tradução

AutObIOGRAFIA
Tradução: Volmar Camargo Junior

ENRIquE GutIéRREz MIRANDA, POEtA AFICCIONADO E tRADutOR COMPuLSIVO

Nasci em Bueu, Ria de Pontevedra, Galicia, às 23:45 de 15 de julio de 1957, dia de São Enrique. Cresci em A Pobra do Caramiñal, onde vivi de 1960 a 1975. Estudei em diversos colégios de A Pobra, Santa Uxía de Ribiera e Ourense sem muito proveito. Minha família mudou-se para Madrid em setembro de 1975, um par de meses antes da morte do general Franco.

Em janeiro de 1976, deslumbrado pelas luzes da cidade – e com o correspondente desgosto de meus pais – abandonei os estudos, ou eles me abandonaram, e dediquei-me a desenhar e escrever num fanzine underground. A cidade fervia e chegou a famosa “Movida madrileña¹”. O underground entrou para a história. Para mim chegou a idade de cumprir com os deveres pátrios e fui dar tiros nas pedras e apagar incêndios

florestais em Valencia, na serra de Maestrazgo. Quando retornei a Madrid algo havia mudado na cidade e também em mim. Estive um ano sem desenhar nem escrever. Trabalhei algum tempo como desenhista no estúdio de uns amigos arquitetos. Comecei a desenhar e a escrever em uns caderninhos quadriculados de espiral, apenas para mim.

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Os amigos dispersaram e fui viver na Serra Norte de Madrid durante cinco anos, na proporção de uma vila e uma casa diferente por ano. Tive um bar e um restaurante, no qual eu mesmo era o cozinheiro. Na época, desenhei, escrevi e li pouco. Voltei para A Pobra do Caramiñal, onde vivi em uma aldeia de seis casas, Gonderande, rodeada de horta e milharais durante um ano e três meses. Vendi balas e guloseimas pelos povoados da região em uma van acompanhado de um amigo.
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espanhol além de algum poema em galego acompanhado de minha própria tradução. Não o enviei a nenhuma editora. Não publicado. Imprimi duas ou três cópias para alguns amigos. Encontrava-me sem saber como continar escrevendo. Escrevi alguns poemas soltos. Ocorreu-me de voltar aos caderninhos quadriculados. A partir do primeiro caderno escrevi Árboles aves algas. 39 séries de 80-90 versos octossílabos ou tetrassílabos, com e sem rima; cada série correspondente a uma página do caderno. Um pouco surrealista e críptico. Não publicado. O segundo rendeu-me Hojas de hiedra. 40 séries. Mais elaborado, metros variados, com e sem rima. Com um apêndice de vocabulário (palavras que invento e outras raras) e outro de referências, citações de poemas e canções de pop ou rock, com o original e minha tradução. Não publicado. Agora estou com o terceiro caderno. Ao conjunto total dos livros-caderno chamo Laberintos y espirales. ] Tentei fazer uma página na web para publicar minhas coisas, mas era demasiado difícil para mim. Optei pelos blogs. Depois de vários tentativas e blogs eliminados acabei ficando com três: Um para poemas

de Fragmentos de un fractal, ilustrado com imagens que baixo da rede. Outro, recém-começado, para Hojas de hiedra, que estou escrevendo agora, e talvez algo de Árboles aves algas, com fotografias minhas de grafittis das ruas de Barcelona. E outro para minhas traduções de galego, português, catalão, inglês, francês e talvez também italiano.

Olhai, crede hoje em dia a poesia está na Rede.

Em janeiro de 1995 cheguei a Barcelona. Trabalhei dois meses na cozinha de um hospital e depois num restaurante, mas uma tarde joguei o avental no chão e fui embora sem exigir meu pagamento. Encontrei emprego em uma tenda de jogos e apostas federal, onde ainda trabalho. Certo dia comprei um PDA, para organizar meus livros e minha coleção de postais eróticos. Tive a idéia de ir transferindo para o PDA os poemas dos caderninhos quadriculados. Porém esse trabalho se converteu em um processo de reelaboração e recriação de tudo o que havia sido escrito entre 1987 e 2005. Organizei tudo e reuni em um livro ao qual chamei Fragmentos de un fractal. Metros e rimas clássicas ou quase, incluindo algum soneto, temas variados, em

Blogs de Enrique Gutiérrez Miranda Poemas y fragmentos: http://enriquegutierrezmiranda.blogspot.com/

Laberintos y espirales: http://labesp.blogspot.com/

Perversión Poética: http:// pervpoet.blogspot.com/

Referências (links)

¹ Movida Madrilena: http://es.wikipedia.org/wiki/ Movida_madrileña

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uRbANICIStA

MANIFEStO

Teoria Literária

O escritor urbano, sem ser literato, sonhador, massivo, político faz ficção urbana. (Re)Cria o espaço, o tempo, e principalmente, os citadinos seres humanos: idiotas, espertos, doentes, intelectualizados por mentiras, sensíveis uns aos outros de maneiras improváveis, seres humanos de ficção que ouvem, contam, recontam e continuam rindo da mesma velha anedota de sempre. Escreve sobre si mesmo. Mas também, é provável, aceitável, até desejável que seja sobre todos os urbanos, porque, sendo

tão parecidos, são todos irremediavelmente atraídos uns pelos outros. E parecido é um eufemismo para iguais. A ficção urbana é a pior das criaturas dessa realidade, porque é feita rigorosamente da mesma massa de que ela, a realidade de cimento, asfalto, borracha, fios de cobre, leds e derivados de petróleo. Os urbanos falam sobre ser urbano, e ao mesmo tempo, falam sobre não sê-lo. A ficção, quando é boa, faz-nos pensar na grande idiotice em que vivemos atola-

dos, e, paradoxalmente, joga-nos ainda mais para o fundo dela. A ficção urbana não quer que sejamos idiotas, porém, não teme falar sobre o fato de a vida urbana ser, efetivamente, idiota, e estarmos constantemente fugindo dela por variadas e deleitosas válvulas de escape. A ficção urbana é, antes de tudo, uma metaficção. E, vejam, nem falei em literatura, em arte literária. Penso que isso, se existe, é um ideal, velho como os livros, divino, inacessível, a própria constituição de porções

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Volmar Camargo Junior

significativas da nossa idiotice, e que, por tanto a desejarmos, nem sabemos mais o que ela é. A arte literária é, como os ideais, as lutas e as revoluções, uma piada de mau gosto, da qual ela própria, a abstrata literatura, ri-se. A arte, se há, mais importante, mais completa, mais instigante, mais capaz de arrancar o urbano do lodo de sua própria existência é a ficção. E pouco importa se é ou não literatura. Por tudo isso, o presente manifesto é pelo Urbanicismo: Não é luta – basta de lutas! Não é revolução – estamos fartos de revoluções! Não é ideal – chega de ideais! Não é sonho – há sonhos, sim, mas é o fato, e não o sonho, o que o escritor urbano, doravante urbanicista, quer. Este é o movimento da constatação. Não somos bons, não somos maus, não somos melhores que o que fomos no passado, nem seremos melhores num futuro. A ficção

urbanicista é sobre o que há, e convida a olhar – sim, a olhar, não contemplar, mas olhar, estar presente, capturar o que há – no urbano. Não é a supremacia do citadino sobre o do campo, porque mesmo o campesino é urbano, quando quer sê-lo e quando abomina a urbanidade. Não é a supremacia do prosaico sobre o sublime, porque o sublime é a moldura, a forma e a estrutura do prosaico. O escritor urbanicista captura o fato, como uma câmera fotográfica. Quem sabe, uma câmera digital, porque o resultado é imediato, instantâneo – das tantas maravilhas, idiotas, mas úteis, que nos fazem tão especiais. O urbanicista não apenas quer a unidade com o outro, mas assume-se, sem restrições e sem medos, que é o outro, que é o eu-poético, que é o personagem de ficção. O urbanicista respeita o ideal do passado – ele não quer revoluções – mas constata e aceita as tantas formas de

expressar-se, sobretudo a língua, como são, e, como devem ser, porque esta é uma interação constante, infinita, e não cabe ao escritor julgar, talvez, nem posicionar-se. Cumprelhe a tarefa de capturar – e mostrar, não como denúncia – a urbanidade: o que a constitui, o que nela há, o que ela é, e, principalmente, quem a vivencia. O Urbanicismo existe já de antes deste manifesto. O escritor que deseje aderir a ele deve antes esquecê-lo – não combatê-lo. Se quiser começar a escrever ficção urbanicista, deve primeiramente esquecer-se do universo, do mundo, da cidade, dos outros, de si, e voltar olhar para o próprio ato de escrever: o seu primeiro fato. Todo escritor urbanicista deve, antes de tudo, traçar o seu próprio Manifesto, porque em cada urbano há um olhar da urbanidade – que é um, e é muitos – e só ele pode saber como expressará esse olhar.

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A LINGuAGEM
DO DIA-A-DIA NA

Teoria Literária

LItERAtuRA
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Henry Alfred Bugalho

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A tendência natural de todo escritor é começar escrevendo de maneira semelhante à que fala. Estamos imersos na linguagem oral desde que nascemos, desde as primeiras palavras que nos dirigem nossos pais. Primeiro, aprendemos a falar, a comunicarmo-nos através da emissão e articulação de sons. O hábito da escrita só começa a surgir posteriormente, muitas vezes apenas quando passamos a freqüentar a escola. Por isto, quase sempre a competência de expressão escrita é inferior à competência oral. As regras que regem a linguagem valem tanto para a fala quanto para a escrita, são exatamente as mesmas normas gramaticais. No entanto, o uso, a necessidade de comunicação rápida, ou mesmo vícios e corruptelas no interior duma comunidade lingüística afastam a escrita e a oralidade. Por mais que a linguagem falada anteceda a escrita, isto não significa que esta deva reproduzir literalmente a primeira. São níveis de comunicação diferentes e, enquanto a escrita pode ser

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utilizada para meros fins comunicativos, a escrita literária transcende esta instrumentalidade. A Literatura comunica, mas sem perder os requintes, as sutilezas e a beleza da linguagem. Até o século XIX, os limites entre a linguagem literária e a oral eram muito evidentes. Não era à toa que a literatura era conhecida como belles lettres, em oposição à escrita voltada para a simples comunicação de algo. O modernismo do século XX surgiu em contraposição ao beletrismo, recorrendo, assim, a uma proximidade à língua do dia-a-dia, trazendo para a Literatura o mundano, o minimalismo, as imperfeições, o simplório, o feio. Apesar de haver expandido a compreensão do que é Literatura, a modernidade também instaurou a ausência de critérios de avaliação: tudo passou a ser arte, tudo passou a ser literário. Assim como em todas posições antagônicas, o debate entre coloquialismo e purismo arrebanha seguidores nas duas direções. Os autores de orientação beletrista defendem uma autonomia da linguagem literária, enquanto

que os de índole modernista trazem para suas páginas a língua ordinária. Analisemos, então, alguns pontos que contribuirão para compreendermos como nossas escolhas influenciam nossa escrita.

lação lingüística é, em parte, uma prática inconsciente de rapport, de identificação entre os falantes. Lembro-me duma entrevista do Ratinho para o programa “Observatório da Imprensa”, quando, um dos entrevistadores perguntou ao apresentador: - No seu programa, você fala errado muitas vezes. No entanto, aqui, você não cometeu um único erro de português? Por quê? Então, o Ratinho respondeu: - Porque eu preciso falar igual ao meu público. Ou seja, na vida real, a seleção de qual registro da língua utilizaremos influenciará no modo como seremos recebido por nossos ouvintes.

1 - a literatura não é a realidade, portanto, não precisa ser regida pelas mesmas práticas, pelas mesmas leis, pelos mesmos princípios presentes no mundo real. No mundo real, as performances lingüísticas costumam variar de acordo com nosso interlocutor: quando falamos com uma pessoa mais “simplória”, há uma tendência a usarmos um vocabulário menos rebuscado, diante de interlocutores mais sofisticados, tentamos elaborar sentenças mais complexas. Isto não é uma prática existente apenas entre os mais educados (educação formal), mas presente em todas as classes sociais. Basta assistirmos a um telejornal para ver como todos tentam “falar bonito”, mesmo que acabem incorrendo em mais erros por causa disto. Na verdade, esta nive-

2 - Como a literatura não é a realidade, mas um simulacro, ela precisa estabelecer quais são as regras que a regem. Se partirmos da lógica anterior, não há nada de errado em optar pelo coloquialismo, posto que o autor é o senhor do mundo literário que cria. No entanto, ele estará delimitando o horizonte de interpretação e de recep-

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ção da obra. Aliás, toda vez que um autor faz uma escolha, de tema, enredo, linguagem, ele já está delimitando seu público. Um público em busca dum texto mais sofisticado pode não receber bem um texto coloquial, do mesmo modo que um leitor em busca de algo mais “real”, pode não receber bem um texto formal. Quer dizer, é uma questão de escolha, de direcionamento. Mas estas regras precisam estar claras e fazer sentido no interior da obra. É necessário haver coerência: um personagem não pode falar errado em certos trechos, mas falar certo (com as mesmas palavras) em outro, sem alguma razão óbvia. Graciliano Ramos é muito hábil na hora de se apropriar destes dois níveis de discurso. Em “Vidas Secas”, por exemplo, ele apresenta uma vida mental muito intensa em seus personagens, até para a cachorra Baleia, porém os personagens não possuem vocabulário para expressarem seus pensamentos, por isto, quase sempre os diálogos são lacônicos. Quer dizer, há uma ruptura entre pensamento e fala: em suas

mentes, os personagens possuem um léxico e uma fluência que não correspondem ao vocabulário simples e pragmático da vida cotidiana.

dade a meus textos. Lembro-me de muitas gírias minhas de infância que hoje nem são mais utilizadas e que até denunciam minha idade (beirando a casa dos 30). Quer dizer, escrever “uma brasa, mora?” num texto que não seja histórico é uma autodenúncia, além de datar, às vezes equivocadamente, tal escrito.

3 - A língua é construída historicamente, por isso, o que é erro hoje, amanhã é norma. Sem dúvida, este é o maior ponto em defesa do coloquialismo, pois muitas práticas consideradas erradas em autores pretéritos, hoje são normas gramaticais e ortográficas. No entanto, há um problema bastante específico nesta mutabilidade da língua: várias expressões populares e gírias caem rapidamente em desuso, assim, rechear um texto com tais expressões pode empobrecer a compreensão dum eventual leitor futuro. Euclides da Cunha e Camões serão compreendidos por um leitor de língua portuguesa daqui cem anos, mas as músicas dum funqueiro provavelmente serão bem menos compreensíveis. Eu, enquanto escritor, penso tanto no leitor de hoje, quanto o de amanhã, por isto, acabo escolhendo escrever dum modo a conceder maior durabili-

Enfim, a escolha entre um tom coloquial ou formal na Literatura será um direcionamento de quem lerá nossas obras: quanto mais coloquial, mais acessível será para o leitor, porém, como a fala está em constante mutação, menor será a perenidade do texto; quanto mais formal ou rebuscado, maiores serão as dificuldades do leitor para assimilar o sentido, mas, a longo prazo, mais duradoura será a mensagem. A opção lingüística pode até se fundamentar em princípios estéticos, mas suas conseqüências são bastante práticas e dizem respeito diretamente a que tipo de leitor — e de leitura — a obra se destinará.

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Crônica

Caio Rudá

AO SR. SCHOPENHAuER

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Caro Sr. Schopenhauer, antes de mais nada quero registrar a necessidade de escrever-lhe diretamente. Este documento, entretanto, tem lá sua importância e por isso é possível que aguce a curiosidade alheia. Não me surpreenderia, portanto, que viesse a cair em mãos que não as suas, mas afirmo veemente que a pendência é entre nós dois, um gigante do século XIX e um zé-ninguém dos anos 2000. Escrevo na certeza de uma resposta, pois sei que para o senhor, dotado de inúmeras qualidades, auto-reconhecidas e auto-exaltadas, os obstáculos que impedem nossa comunicação são facilmente superáveis. Não tenho dúvidas de que um profundo conhecedor e estudioso de línguas, como o senhor, tem o meu humilde português como mais um item em seu vasto repertório de idiomas, mas se por acaso faltar-lhe a ciência sobre a “última flor do Lácio”, estou certo de que seu raciocínio agudo e sagaz, juntamente com o conhecimento do Latim e até mesmo de outras línguas que Dele derivam, farão do senhor um hábil leitor. Espero que, ao escrever Latim em letra capital ressaltando Sua superioridade ante esses dialetos que hoje a Europa conhece como línguas nacionais, perceba meu respeito pelas suas idéias e leia-me com alguma atenção. Se o senhor foi assaz condescendente para iniciar e

continuar a corrente leitura até aqui, seria sensato de sua parte aceitar minhas devias escusas por não dirigir-lhe a palavra em Alemão, esse idioma soberano, embora não-clássico, e também por talvez estar sendo confuso e mesmo ininteligível. Não é que eu queria forçar um estilo. Com toda a sinceridade, afirmo-lhe que tento ser o mais natural e breve possível. Voltando à questão das barreiras que nos separam, a única que me fez hesitar antes da escrita dessa mensagem foi o fato de o senhor estar morto. Obviamente, considero que o esteja de fato, afinal, se de alguma maneira tivesse descoberto o segredo da vida longa e vivesse nos dias de hoje, por certo não estaria se escondendo, às sombras ou vivendo no anonimato. Primeiro, porque o anonimato lhe causa ojeriza e, depois, porque é de sua natureza exibir-se. Pois bem, agora vamos ao âmago de minha contestação. Recentemente, entrei no mundo de suas idéias através do brilhante Parerga e Paraliponema. Na verdade, não fiz a leitura completa da obra, mas apenas dos escritos relacionados à literatura, língua e erudição. Cito-os aqui: “Sobre a erudição e os eruditos”, “Pensar por si mesmo”, “Sobre a escrita e o estilo”, “Sobre a leitura e os livros” e “Sobre a linguagem e as palavras”.

Diversas foram as minhas considerações e opiniões acerca dos textos a que me refiro, ora concordando, ora encontrando algumas divergências. Eu poderia enumerar diversos tópicos para debate, mas seria desnecessário, além de trabalhoso. Questões válidas, no entanto, e muito interessantes. Assim, vou me centrar nos pontos que mais me chamaram a atenção quando da leitura desses textos. O primeiro deles é o mau-humor crônico que lhe é característico. Esse quadro de rabugice eterna na verdade é um transtorno psiquiátrico conhecido como distimia. Muito provavelmente o senhor foi um distímico, um sujeito amargo, que reclamou de tudo e só viu angústias e infortúnios mesmo no mais belo nascer do sol. Por isso tenho lá minhas dúvidas sobre sua causa mortis. Pobre, Schop! Acho que mentiram para o senhor. Disseram-lhe pneumonia em vez de infarto ou AVC, sei lá... algo provocado por toda a amargura guardada e também pelas despejadas em seus escritos. Não me entenda mal. Não estou criticando seu mau humor. Pelo contrário, ele é sua marca. Ele é você e você é ele. Não existiria Schopenhauer sem mau humor e vice-versa. Sabe, deixe-me contar uma história. Os novos dicionários da língua portuguesa adicionaram o verbete Schopenhauer, ou chopenrrauer (aportugue-

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sado). Adivinha o que ele significa? (risos) Brincadeira, viu Schop? Só para descontrair. Ah, desculpe. Você não sabe o que é isso (risos). Outra piada. Agora que estamos mais íntimos, que criei um clima mais amigo, vou chamá-lo de Schop. Pode ser? Então, como eu ia dizendo, o chopen... digo, o mau-humor é sua marca. Não haveria graça em lê-lo se não tivéssemos que imaginar qual seria o próximo xingamento para alguns de seus adversários. Ah, Schop, você precisa ver como está o mundo moderno. Sabia que suas idéias hoje são bastante influentes? Acredita que recentemente criaram um curso de “como denegrir a imagem do seu inimigo com classe”? Apostilas baseadas em sua obra. O outro fato que me levantou uma tremenda curiosidade foi como você tem tanto conhecimento acumulado. Além de um grande pensador, foi um poliglota sem igual. Latim, grego clássico, sânscrito, inglês, francês, italiano e espanhol, além do materno Alemão. Essas são as que nos foram permitidas saber. Não me espantaria que houvesse mais algumas a citar. Mas o que me intriga não é que você tenha todo esse conhecimento, afinal de uma mente brilhante tudo se espera, e sim como você o adquiriu sem tanta leitura. Sim, porque “as pessoas que passam suas vidas lendo e tiram sua sabedoria dos livros

são semelhantes àquelas que, a partir de muitas descrições de viagens, têm informações precisas a respeito de um país (...) no fundo não dispõem de nenhum conhecimento coerente”, em suas próprias palavras. Só posso concluir que você nunca foi apegado a leituras, especialmente as de má qualidade. Então fica a curiosidade de como vieram as aulas de idiomas que nos dá em Parerga e Paraliponema. Já nessa época você era agraciado com o dom da violação do tempo e conseguia retrocedor em séculos e mais séculos para adquirir as noções de latim e grego? Ainda sobre idiomas, outra curiosidade. Qual o problema com os “repulsivos sons nasais”? Tudo bem que os alemães nunca se deram bem com os franceses, o que lhe dá motivos para desmerecer a língua dos gauleses, mas que, pelo menos, se atenha às características peculiares do falar desse povo. Eu, como lusófono, me ofendi com essa declaração de ódio aos belos sons nasais. Seria despeito por não saber pronunciá-los corretamente? Nesse ponto, você foi infeliz. E para finalizar, que a carta está ficando muito extensa, só queria cutucá-lo mais uma vez: você falou mal de Deus e o mundo, atirou pedras aos sete cantos do planeta e em matéria de literatura foi o crítico mais ferrenho de todos os tempos. Desconsiderou a literatu-

ra alemã e mundial de seu período. Nem sua mãe lhe escapou à língua firina. Seriam os escritores da época tão lastimáveis assim? Ou o seu mau humor influenciava até na hora de emitir um juízo sobre a obra alheia, fazendo pouco de tudo o que não lhe apetecia? Talvez você fosse um crítico muito parcial, tomado pela mágoa de ter tido um reconhecimento tardio, em seus últimos anos de vida. Ou talvez os alemães de seu tempo fossem bons comedores de chucrute enquanto escritores mesmo, o que é mais provável, dada sua superioridade diante dos outros seres humanos. Prometo que agora encerro de verdade. Só aproveitando a deixa do último parágrafo. Olha, aqui vai um conselho de amigo. Você é gênio, cara. Não há como negar. Um homem num patamar acima dos demais. Mas não deixa isso lhe subir à cabeça. Pode pegar mal, causar mal-entendidos. Nunca se sabe. Nem todos compreendem a genialidade. É isso, Schop! Foi uma mensagem breve e amigável. Queria escrever mais, mas agora devo dedicar-me à reflexão, pensar por mim mesmo. Afinal, nos dias de hoje, ainda dá para fazer isso e mais nada da vida. Leio, penso e cuido do meu cachorro. Sou desocupado mesmo, sou filósofo.

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jEItINHO bRASILEIRO
Henry Alfred Bugalho

DIALétICA DO

Crônica

O “jeitinho” faz parte da cultura brasileira, está imbuído na psiqué do brasileiro. Às vezes, o jeitinho trata-se duma maneira criativa para resolver problemas insolúveis - e problemas insolúveis é o que não falta no Brasil. O jeitinho pode ser utilizado, por exemplo, para ganhar dinheiro de maneira lícita, mas informal.

Vender um espetinho na praia, comprar barato e vender caro, vender almoço pra comprar janta, usar da lábia para conseguir o que se quer, ter um QI para conseguir um emprego. Todos sonham com a formalidade, mas formalidade e Brasil não combinam - conseqüência dum Estado burocrático e corrupto.

Mas o jeitinho também pode se manifestar ilícita, sem deixar, no entanto, de ser criativa: trazer muambas do Paraguai, distribuir DVDs piratas de filmes que ainda estão em cartaz no cinema, molhar a mão dum policial pra escapar duma multa, cortar madeira sem licença de áreas de preservação, desviar verba pública, sonegar impostos, vender gato por lebre... A lista é

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enorme, os modos ilícitos de jeitinho são muito mais variados do que os lícitos. Os noticiários apresentam-nos todos os dias uma série de expressões do jeitinho. Lembro-me quando foi implementada a lei proibindo a ingestão de qualquer quantidade de álcool por motoristas - a famigerada Lei Seca. O jeitinho entrou em ação, tentando conceber maneiras para enganar o bafômetro: balas-de-menta, chiclete, beber vinagre, e outros absurdos. Neste caso, o jeitinho não funcionou e muita gente rodou nas blitz. Dias atrás mesmo, o jeitinho brasileiro voltou a ser notícia. Voluntários ajudando os desalojados das enchentes em Santa Catarina estavam aproveitando aqueles montes e mais montes de roupas e alimentos para economizar um dinheirinho. Afinal de contas, era tanta coisa que ninguém iria perceber se um tênis, um sutiã, uma calça jean, ou um quilo de feijão desaparecessem. “O que os olhos não vêem, o coração não sente”, diz o ditado, e este é também um dos motes do jeitinho: tudo vale, enquanto você não for pego. Os jeitinho brasilei-

ro extrapola os limites geográficos, onde há um brasileiro, o jeitinho o persegue. Nos EUA, por exemplo, há muito brasileiro trabalhando duro e honestamente, mas os que dão um jeitinho pra tudo são sempre mais interessantes para a mídia. Semana passada, foi presa uma quadrilha de brasileiros que fabricava notas falsas de cem dólares. Peixe grande! Mas os peixes pequenos, que compram documentos falsos, que enviam grana preta através de doleiros, que vendem drogas na noitada, que fazem de tudo por uma renda extra continuam por aí. “O que os olhos não vêem, o coração não sente”, diz o ditado, e isto vale para um país onde tudo é permitido, ou para aquele com lei rigorosa. O jeitinho também não respeita classe social. Aliás, o nível sócioeconônimo só determina um fator: o tamanho do jeitinho. Pobre rouba miúdos, como gatos pra pegar TV a cabo ou pra ter acesso a internet; rico rouba bocados, rombos milionários aos cofres públicos. Muitos povos são conhecidos por suas características: a pontualidade

britânica, a ambição norte-americana, o rigor dos alemães, a inteligência dos judeus, a capacidade de concentração dos japoneses. Talvez esteja na hora de reconhecermos a nossa característica nacional: o jeitinho do brasileiro. Assim como estão tentando revitalizar a imagem do malandro, daquele boêmio carioca das rodas de samba e da capoeira - o “bom malandro” - , talvez esteja na hora de revitalizarmos também o jeitinho e talvez até redefinirmos sua concepção e encontrarmos algo de bom, o “bom jeitinho”, quando toda esta capacidade criativa dos brasileiros para superar adversidades é utilizada pra algo que preste, e não apenas para prejudicar os outros.

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Portanto, diga sim ao “bom jeitinho” (e torça para que, um dia, as notícias nos jornais sejam de jeitinhos a favor das outras pessoas)!

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LItORAL E CAPItAL
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Crônica

Pedro Faria

“Todos os homens são filhos da puta”. Somos filhos da puta mesmo. Alguns de nós mais do que o aceitável, outros menos do que deveríamos. Mas você tem que nos perdoar. Somos todos crianças. Mesmo o mais cínico, o mais orgulhoso e vaidoso de nós é uma criança. Sei que isso não é desculpa para nossa ignorância, mas é no mínimo um atenuante. Às vezes, somos animais. Animais cujo maior pecado é a imaginação. Mostre-nos uma loira, que fantasiaremos com rainhas nórdicas sob peles, num deserto gelado. Mostre-nos uma morena, que

imaginaremos seu sangue latino fazendo pulsar seu corpo colado no nosso. Uma mulher magra, para nós é flexível e móvel. Uma mais cheia, é quente e amorosa. Hoje vi uma mulher na rua, na calçada oposta. Ela andava na direção oposta à minha. Quando meus olhos encontraram os dela, seu pescoço se deslocou para o lado, assim como o meu, e nosso olhar demorou mais do que os olhares que normalmente compartilhamos com estranhos na rua. Ela era alta, mesmo de longe, e usava um vestido roxo justo, que ressaltava bem seus seios. Tinha cabelos pretos, e sua pele era morena. Ela sorriu quando nos olhamos e eu sorri também.

E foi só. Para ela, não deve ter sido nada. Apenas mais um homem lhe olhando na rua, nada fora do normal. Mas em mim, como seria em todos os homens, esse breve encontro gerou inúmeros pensamentos. Nessa hora, eu estava com um amigo, e após ver a mulher, não ouvi mais nenhuma palavra dita por ele durante alguns minutos. O modo como ela me olhara... Nenhuma mulher sabe realmente o efeito de seu olhar sobre um homem. Muitas acham que sabem, mas se enganam. A morena me afetara

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de tal maneira que eu não pude deixar de imaginar aquele vestido roxo jogado no chão, e seu corpo deitado sobre o meu, comigo lhe explorando com meus dedos e minha boca, como se eu pudesse penetrar no mais profundo de seus segredos, e como todos os seus desejos se abrissem para mim, apenas com meus toques. O que me despertou para a vida foi o tropeço que dei num buraco na rua. Quase caí de cara no chão. Não sei o que a mulher sentiu depois de nosso pequeno momento urbano. Provavelmente bem menos do que eu. Mas, com minha imaginação de homem, eu posso me dar o prazer de imaginar que ela também teve alguma ligeira visão, ou pelo menos uma sensação diferente, algo que não sentiria normalmente no dia a dia. Porque, no fim das contas, o mínimo que nós homens desejamos é sermos lembrados como algo fora do comum, como alguma perturbação da rotina da mulher. Não queremos simplesmente dominar as mulheres. Queremos dominá-las, e ser dominados também. Queremos a ligação quase religiosa que apenas o amor físico pode proporcionar, mas que só existe com a presença de mesmo a mínima afinidade intelectual. É contra intuitivo um homem falar isso. Ora, seria contra intuitivo mesmo se eu fosse uma mulher, do jeito que as coisas

andam hoje em dia. Mas é a verdade. Claro que o oposto também é verdade: É difícil existir o amor romântico sem a atração física. Toda a mecânica do amor então se torna algo muito complicado, quase como aquele desenho de Escher, com as mãos desenhando umas as outras. A grande pergunta não deveria ser “quem nasceu primeiro? O ovo ou a galinha”, e sim “O que nasce primeiro? A luxúria ou a poesia?”. De cara, parece fácil responder “luxúria”, mas não acho que seja assim tão simples. Para falar a verdade, essa questão é a única que realmente não é simples nessa roda de relações. Conheci uma garota, quando ainda era bem novo. Raquel era seu nome, e me apaixonei por ela, numa época em que meu corpo ainda nem sabia o que era excitação. Chame de amor infantil, ou do que quiser. A verdade é que eu a amava, e com ela descobri como era bom beijar uma garota, e me apertar em direção a ela, sem saber direito o que estava fazendo, apenas seguindo algum código secreto escrito em meu DNA. Tínhamos seis anos nessa época, e não a vejo desde então. Quer dizer, nesse caso veio o amor antes da luxúria. Porém, se o contrário fosse impossível, não existiriam prostíbulos, pois

os homens não conseguiriam apenas “foder” uma puta, eles teriam que “fazer amor” com elas, e teoricamente falhariam. No fim do dia, tanto nós homens, quanto vocês mulheres, desejamos apenas alguém para nos agarrarmos quando estivermos com medo, e com quem comemorarmos quando estivermos felizes. Alguém que satisfaça nossas vontades, e que tenha as suas satisfeitas por nós. Nem todo mundo encontra essa pessoa. Alguns acham que encontram, mas quando se viram para o lado e encontram apenas a carne fria, ou quando tremem e não há abraços que lhe aqueçam, percebem seu erro. Outros... Bem, outros têm certeza que encontraram, mas não são encontrados. “O que nasce primeiro, a luxúria ou a poesia?”. Para mim? Só o fato da pergunta existir, já é um sinal que não existe uma resposta única. E eu não sei. Às vezes é por isso que nos lançamos cada vez mais forte na vida, procurando a carne quente e os abraços acolhedores em estranhos certos e conhecidos errados. Tão forte que não paramos quando encontramos o certo. E muitas vezes, quando passamos batidos, não temos mais como voltar.

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Crônica

Joaquim Bispo

A DESINFORMAÇÃO PÚbLICA
A era de Cristo, convencionou-se, começou a 1 de Janeiro do ano 1. Há o momento zero, mas não há o ano zero. No fim do dia 31 de Dezembro do ano 1, completou-se 1 ano. Se alguém tivesse comemorado a data, devia ter comemorado um ano, como os pais fazem com qualquer criança quando completa 1 ano. Neste método, claro e lógico, no fim do ano 2, passaram 2 anos desde o início da era; no fim do ano 99, passaram 99 anos; no fim do ano 100, passaram 100 anos; no fim do ano 1999, passaram 1999 anos desde o início da era; no fim do ano 2000, passaram 2000 anos e é altura de comemorar a completude de dois milénios. Alguma dúvida? Isto é o que os historiadores sabem e não lhes merece qualquer tipo de discussão. No entanto, não foi isso que vimos por todo o mundo, com a comunicação social, ignorante mas arrogante, comandada pela globalização mercantilista e a pressão consumista, a propagandear o embuste e a incentivar a comemoração da passagem do milénio na passagem de ano de 1999 para 2000. Cheguei a ouvir a alarvidade de que mudava o milénio, mas não mudava o século. Enquanto isso, não vi qualquer tentativa, por parte das entidades científicas, que também têm responsabilidades sociais, de desmistificar a falsidade. Alguns docentes, com quem abordei o assunto, encolheram os braços em atitude de demissão. Esse período foi penoso para mim. Imbuí-me da consciência aguda de que a razão, o rigor e a verdade científica estavam arredados das nossas vidas e da nossa sociedade, substituídas por interesses meramente económicos, ou ainda de índole mais obscura. Descri da possibilidade de qualquer avanço de mentalidades, tendo por mentores tais pedagogos de massas. Se não conseguem elucidar a sociedade sobre uma coisa tão simples e descomprometida, que sabedoria, que esclarecimento se pode esperar deles, em questões de importância crucial para a Humanidade?

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http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/e4/Cristo_en_la_cruz1.jpg

Crônica

Joaquim Bispo

Se Cristo nasceu a 25 de Dezembro, porque é que a era de Cristo começa a 1 de Janeiro?

DO PREPÚCIO
era. Por isso, a data aposta nos documentos anteriores a esse momento deve ser diminuída de 38 anos, para os situar em relação à nossa era. O início do ano civil estava fixado, desde os Romanos, em 1 de Janeiro, por ser o primeiro dia do mandato dos seus cônsules. No entanto, o início do ano litúrgico foi variando, conforme a época e os países, mas sempre associado a Cristo. No que ficou conhecido como o estilo da Incarnação ou da Anunciação, o ano novo começava a 25 de Março, dia apontado como o da anunciação à Virgem de que ia ser mãe. No estilo da Natividade, o ano come-

A IMPORtâNCIA

Na verdade, não se sabe quando Cristo nasceu. Actualmente, pensa-se que nasceu cinco a sete anos antes da nossa era. O monge cita Dionísio o Exíguo, por volta do ano 532 da nossa era, indicou o dia 25 de Dezembro do ano 38 da era de César, como a data desse acontecimento e o início da nova era. No entanto, a era de César continuou a ser usada durante séculos. Em Portugal, foi D. João I que a aboliu, substituindo-a pela de Cristo, no ano 1460 da era antiga, que passou a ser o ano 1422 da nova

çava a 25 de Dezembro. O estilo da Páscoa usava o dia desta festa móvel, o que era pouco prático. Finalmente, em 1582, os cronologistas católicos aderiram ao início do ano a 1 de Janeiro, a que se chama estilo da Circuncisão, por coincidir com a circuncisão de Cristo, já que era uso, entre os Judeus, circuncidar as crianças no oitavo dia após o nascimento. Assim, curiosamente, vivemos na era que não é do nascimento, nem da incarnação, nem da morte de Cristo, mas da ablação do seu prepúcio.

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MItOS, MItOS, MItOS
Joaquim Bispo
http://cartoons.osu.edu/nast/images/santa_claus100.jpg

Crônica

A pressão comercial criou o mito do Pai Natal. Antes, havia o mito cristão: uma virgem engravidou de uma entidade extraterrestre ou sobrenatural. A esse filho foram atribuídos feitos sobrenaturais: milagres. A história dos Romanos (uma espécie de americanos da altura) não deu por ele, o que não impediu que a lenda crescesse exponencialmente nos séculos seguintes. Nos últimos tempos, porém, tornava-se difícil transformar em paradigma do consumo o nascimento,

no ambiente sórdido de um estábulo, de uma figura que acabou em situação não menos deplorável. Um velho, meio avô excêntrico, meio palhaço, que voa de trenó, vive no Pólo Norte e dá objectos de consumo a todas as crianças, foi o mito que veio preencher a necessidade duma figura glamorosa ultra rica, que gasta a rodos. É claro que não é uma entidade sobrenatural que esvazia a carteira… Muito gostam os inventores de mitos de pôr figuras antropomórficas

a voar! Como na imaginária pré-contemporânea, barroca, sobretudo, em que figuras aladas de todos os tamanhos voavam em revoadas compactas em todas as direcções e tornavam incontrolável o espaço aéreo, também o Pai Natal foi criado como voador. Nada disto é bom para a, já de si, difícil decifração do mundo real, por parte da criança, que assim recebe, de quem mais confia, um acréscimo de dificuldade, uma mentira. Não se faz!

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ficina
No mês de novembro, foi lançado o Audiobook com contos de membros da Oficina da E-TL. O CD foi produzido por Alian Moroz.

Conteúdo 1 - "Vovô Caneco", de Alian Moroz 2 - "O Menino Binário", de Carlos Barros 3 - "Coleção de Botões", de Giselle Sato 4 - "Noite Estrelada", de Guilherme Rodrigues 5 - "A Vingança de Bento Julião", de Henry Alfred Bugalho 6 - "Os Ratos", de Joaquim Bispo 7 - "Esmeralda, Jade e Rubi", de José Espírito Santo 8 - "Fissuras Íntimas", de Leo Borges 9 - "A Palhinha", de Maria de Fátima Santos 10 - "A Última Revolta de Jesus Cristo", de Rogers Silva 11 - "Com Carinho, Isolda", de Volmar Camargo Junior

As faixas do audiobook podem ser baixadas gratuitamente no enredeço abaixo: http://oficinaeditora.org/2008/11/29/audiobook-da-oficina/

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Poesia

LAbORAtÓRIO POétICO
DO CAROÇO DE uMA HORA
(A ESSêNCIA DAS HORAS)
do caroço de uma hora extraí a substância vítrea oleosa fugaz como a vontade etérea como a sensatez em nenhum recipiente pude contê-la a contento escapava sempre um tanto às vezes muito quase sempre dobrava de tamanho e assim, aos poucos às gotas às partículas preencheu o espaço tão meu conhecido era sedutora, envolvente a bruma que nascia pois era bruma era um vapor invisível que fez sumir as paredes a paisagem da janela os hábitos convenientes e os meus pés sim, por dias se ainda lembrava o que eram fiquei sem vê-los deixei-me entregue à essência do caroço das horas inalei, comi, bebi despi-me e assim, despido cobri-me inteiro com ela não era dor era antes um frio das pontas dos cabelos até a boca do estômago enredou-me dentro e fora de mim vivia aquilo impossível conter e mesmo quando do fundo da garganta nasceu o último murmúrio a coisa cristalizou-se virou gelo rocha diamante vidro era o vidro em mim o vidro das horas - o vidro das raízes do tempo de toda árvore vítrea que é o tempo da seiva vítrea sangue do que não se vê – era o vidro em mim não mais nas horas não mais preenchendo os vãos entre as partículas da poeira do tecido das estrelas era o vidro em mim deixou de ser essência primordial ou quintessencial era em mim era eu e como é próprio das coisas nascidas ou tiradas da árvore que dá os frutos do tempo o vidro que tinha a mim cristalizado sumiu voltaram as roupas

Volmar Camargo Junior
v.camargo.junior@gmail.com
as paredes, as janelas a paisagem os sapatos da essência das horas restou só uma gota escorreu-me pela testa até a ponta do nariz intempestiva decidida livre lançou-se no espaço num mergulho que só eu percebi até o choque derradeiro contra o piso saí fechei as janelas, tranquei as portas segui como pude vivo como consigo ainda lá está, intocado o piso onde caiu a última gota da substância vítrea oleosa extraída do caroço de uma hora tinha a esperança que onde a gota caiu pudesse brotar outra árvore com um tempo diferente quem sabe misturado a um tanto da poeira dessa poeira que sou eu

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POESIAS
Carlos Alberto Barros

PASSOS
Ando, passo e ando... Passos, quantos passos? Tantos, falsos e tantos...

NAtALIDADE
Sou sem ser, urbano. Nasço em berço errado: Tecla sem piano.

CORAÇÃO
Explode! Explode, cabeça! E acaba com este cérebro maldito. Quero apenas meu corpo, Para abrigar meu coração, Que agora... Sou só ele.

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SONEtOS
Marcia Szajnbok
gosto de pensar que sou um ser aquático que nasceu em terra firme por engano e que um dia cada pedaço do que sou retornará ao seu lugar, que é o oceano gosto de supor que dentro de mim exista uma concha, um caramujo, algum coral e que este sangue que tenho hoje vermelho
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ficará um dia transparente, só água e sal é um conforto imaginar-me assim percorrendo mares, levada nas correntes na espuma branca das ondas, diluída no ilimitado das águas encontrarei enfim a profundeza inusitada e azul da liberdade que tanto persegui por toda vida

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Não quero conhecer de ti só teu melhor Quero também aquilo de que não gostas O que tens como mau, vergonhoso, triste Quero que me ofereças até que saiba decór A melancolia que tantas vezes te habita, Quero-te nos teus dias maus, de frio, de baixa Quero te amar além do que é terno e doce Quero pôr à prova minha vontade infinita De trazer à luz meus melhores devaneios Pois, do modo como te amo, meu amor, O que tenho em mim de calor basta Para extinguir para sempre teus receios Derreter até a última gota do teu gelo E estreitar a distância que te afasta...

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PlacigAMORniano
Dênis Moura

Amor, fogo que só arde em nosso ser, É a dor de nosso pedaço ausente, Descontente ao não ser bem mais contente, É a dor que só nos precede o prazer; Não querer esfomeando o querer, Solitário com quem não está presente, É buscar ser feliz eternamente, Trocar bem quando ganha ao perder; É o estar preso usando a liberdade, É vencer pra servir quem lhe venceu, Com quem te ganha a vida, lealdade. Então pode causar o favor seu Nos corações humanos amizade: Não tão contrário a si é o amor meu.
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Dênis Moura é paulistano de pia, cearence de mar e poeta de amar. Viaja tanto o céu estrelado quanto o ciberespaço, mais com bits de imaginação que com telescópios. Pensa que tudo se recria a cada Big Bang, seja ele micro, macro ou social. Luta pela justiça, a paz e a igualdade, com um giz na mão e uma pistola na outra. É Tecnólogo a sonhar com Telemática social, com a democracia participativa eletrônica, onde o povo eleja menos e decida mais. Publica estes dias sua primeira obra, um Romance de Ficção Científica, e deixa engavetadas suas apunhaladas poesias. É feito de bits, links e teia pra que não desmaterialize, o clique, o blogue e o leia!

SA OS M IZ

SO BR E

Giselle Sato Giselle Sato é autora de Meninas Malvadas, A pequena bailarina e Contos de Terror Selecionados. Se autodefine apenas como uma contadora de histórias carioca. Estudou Belas Artes, Psicologia e foi comissária de bordo. Gosta de retratar a realidade, dedicando-se a textos fortes que chegam a chocar pelos detalhes, funcionando como um eficiente panorama da sociedade em que vivemos. gisellenatsusato@gmail.com

Joaquim Bispo Ex-técnico de televisão, xadrezista e pintor amador, licenciado recente em História da Arte, experimenta agora o prazer da escrita, em Lisboa.

s Guilherme Rodrigue Estudante Letras na ado Universidade do Sagr de Coração, em Bauru, on . Nutre sempre morou guas, grande paixão por Lín , Literatura e Lingüística ca áreas em que se dedi . cada vez mais

o Henry Alfred Bugalh a pela UFPR, com É formado em Filosofi ra e pecialista em Literatu ênfase em Estética. Es as atro romances e de du História. Autor de qu . coletâneas de contos Nova York, com sua Mora, atualmente, em sua cachorrinha. esposa Denise e Bia,
henrybugalho@gmail .com

www.maosdevaca.com
José Espírito Santo Informático com licenciatura e pós graduação na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, trabalha há largos anos em formação e consultoria, sendo especialista em Bases de Dados, Sistemas de Gestão Transaccional e Middleware de “Messaging”. A paixão pela escrita surgiu recentemente, tendo no ano de 2007 produzido os livros “Esboços” (contos) e “Onde termina esta praia” (poesia). Vive com a família em Port ugal em Alverca, uma pequena cidade um pouco a norte de Lisboa.

Marcia Szajnbok Médica formada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, trabalha como psiquiatra e psicanalista. Apaixonada por literatura e línguas estrangeiras, lê sempre que pode e brinca de escrever de vez em quando. Paulistana convicta, lo. vive desde sempre em São Pau marciasz@hotmail.com

jjsanto@gmail.com http://www.riodeescrita.blogspot.com /

r Deves Maristela Scheue pequena ciGaúcha nascida na eçou a sonhar dade de Pirapó, com logo aprendeu em ser escritora tão lmente nos a ler. Escreve principa 100 SAMIZDAT dezembrontos nos gêneros mistério, susco de 2008 100 de crônicas. pense e terror, além

Caio Rudá hoje Bahiano do interior, Estuda Psicomora na capital. Federal logia na Universidade dia da Bahia e espera um o. Enentender o ser human acontece, vai quanto isso não codifiescrevendo a vida, de istência. cando o enigma da ex do, prêNão tem livro publica e sequer mio, reconhecimento a. Mas duas décadas de vid tencial como consolo, um po . asseverado pela mãe

Pedro Faria Estuda Matemática na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, músico amador e escritor quando dá na telha. Nascido e criado no Rio. punksterbass@hotmail.com
http://civilizadoselvagem.blogspot.com/

Maria de Fátima Santos Nasceu em Lagos, Algarve, mas tem Angola, onde viveu a adolescência, como a sua mãe-terra. Licenciada em Física tem sido professora de Física e Química. Com poemas em vários livros, em co-autoria, é às pequenas histórias, que lhe voam no teclado, que chama “meus contos”. O blog Repensando (www.intervalos. blogspot.com ) tem sido seu parceiro e motivador na escrita dos últimos anos. Escreve pelo gosto de deixar que as palavras vão fazendo vida. Escreve pelo gozo.

Volmar Camargo Junior é gaúcho. Formado em Letras pela Universidade de Cruz Alta, não leciona por sua própria vontade. Entrou na ECT em 2004, e desde então já morou em meia dúzia de “Pereirópolis” pelo Rio Grande. Atualmente vive com a esposa Natascha em Canela, na Serra Gaúcha. Dividem o apartamento com Marie, uma gata voluntariosa e cínica. v.camargo.junior@gmail.com http://recantodasletras.uol.com.br/autores/vcj
Zulmar Lopes Zulmar Lopes é carioca. Forma do em jornalismo pela Universidade Gama Filho, trabalha como assessor de imprensa. Alm a provinciana e coração suburbano, encontra-s e provisoriamente exilado na cosmopolita Copac abana, bairro fonte de inspiração de personage ns e situações que compõem seus contos. Esc www.samizdat-pt.blogspot.com 101 reve para fugir do marasmo.

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Também nesta edição, textos de

Caio Rudá Carlos Alberto Barros Dênis Moura Giselle Natsu Sato Guilherme Rodrigues Henry Alfred Bugalho Joaquim Bispo

José Espírito Santo Marcia Szajnbok Maria de Fátima Santos Maristela Scheuer Deves Pedro Faria Volmar Camargo Junior Zulmar Lopes

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