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Margarida Azevedo 2007 1

RETROSPECTIVA
HISTÓRICA
Da segregação à inclusão
2 A criança diferente/deficiente
“… no passado, a sociedade desenvolveu quase sempre obstáculos à integração
das pessoas deficientes. Receios, medos, superstições, frustrações, exclusões,
separações, etc., preenchem lamentavelmente vários exemplos históricos que
vão desde Esparta à Idade Média (Fonseca, 1989:217 apud Oliveira, 1999).

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Atenas e Esparta
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‰ Na época clássica, as atitudes 
face às pessoas com 
deficiência iam do seu 
abandono nas florestas caso
abandono nas florestas, caso 
de Atenas, ao aniquilamento 
nos desfiladeiros, como era o 
caso de Esparta (Oliveira, 
1999). Filme 1

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Antiguidade clássica
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… "As mulheres dos nossos militares são pertença da 
comunidade, assim como os seus filhos, e nenhum pai 
conhecerá o seu filho e nenhuma criança os seus pais. 
h á filh h i i
† Funcionários preparados tomarão conta dos filhos dos bons pais, 
colocando‐os em certas enfermarias de educação, mas os filhos dos 
inferiores, ou dos melhores quando surjam deficientes ou deformados, 
serão postos fora, num lugar misterioso e desconhecido, onde deverão 
permanecer". ((Fonseca, 1989:217 apud
p , p Oliveira, 1999)
, )

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Idade Média
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“Na Idade Média, eram frequentes os apedrejamentos ou a 

morte nas fogueiras da Inquisição das pessoas com 

deficiência, que eram mesmo consideradas como possuídas 

pelo demónio ” (Oliveira, 1999)


pelo demónio. (Oliveira 1999)

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Séc XIX e princípios do séc.
Séc. séc XX
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† “Já no séc. XIX e princípios do séc. XX foi usada a esterilização como 
método para evitar a reprodução desses "seres imperfeitos" e 
aconteceu mesmo, em plena época do nazismo hitleriano, a 
aniquilação pura e simples das pessoas com deficiência que não 
correspondiam à "pureza" da raça ariana.” (idem)

† Paralelamente a estas atitudes extremas de aniquilamento apareciam, 
aqui e ali, o isolamento destas pessoas em grandes asilos (como foi o 
caso da Inglaterra) e atitudes dispersas de rejeição, vergonha e medo 
g ) p j ç , g
(Id.).

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Revolução Francesa
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† Só com os ideais da Revolução Francesa e as suas 

bandeiras de liberdade igualdade e fraternidade


bandeiras de liberdade, igualdade e fraternidade, 
estas pessoas passaram a ser objecto de assistência 
(mas ainda não de educação) e entregues aos 
cuidados de organizações caritativas e religiosas 
id d d i õ it ti li i
(Oliveira, 1999).

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2ª Guerra Mundial
2
8

† Após a 2ª Guerra Mundial, com a valorização dos direitos 
humanos, surgem os conceitos de igualdade de 
oportunidades, direito à diferença, justiça social e 
solidariedade (Id.).
solidariedade (Id.). 
† (…) passando as pessoas com deficiência a ser 
consideradas como possuidoras dos mesmos direitos e 
id d id d di it
deveres de todos os outros cidadãos. Entre esses, o direito 
à participação na vida social e à integração escolar e 
profissional (Id.). 

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… De acordo com a UNESCO (1977), a história da humanidade, 
no tocante à forma como se consideram e integram os
no tocante à forma como se consideram e integram os 
deficientes, passou por cinco estádios diferenciados:
† estádio filantrópico

† estádio da "assistência pública"

† estádio dos direitos fundamentais
ádi d di i f d i

† estádio da igualdade de oportunidades

† estádio do direito à integração


estádio do direito à integração

UNESCO (1977 apud Oliveira, 1999)

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10 Definição de conceitos
Deficiência, incapacidade, desvantagem
Normalidade/anormalidade
Necessidades Educativas Especiais (N.E.E.)

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Mas afinal, como podemos definir
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a deficiência?
d fi iê i ?
† No entanto, e como diz ainda a UNESCO, estes estádios só aparentemente se 
sucedem de forma cronológica. Na verdade, o que acontece é que estas diferentes 
atitudes e concepções face às pessoas com deficiência se sobrepõem mesmo nos
atitudes e concepções face às pessoas com deficiência se sobrepõem, mesmo nos 
nossos dias (Oliveira, 1999).

† O propalar que "somos todos diferentes" e todos "temos direito a essa diferença" 
pode de facto ser uma nova forma de não respeitar as necessidades individuais de 
todos e cada um de nós... Talvez seja esta a altura de se passar da ideia de que "todos 
devem ter as mesmas oportunidades" para a noção de que "todos deveriam ter 
oportunidades diferentes" para desenvolver as suas potencialidades e satisfazer as suas 
necessidades (Oliveira, 1999).

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Domínio da saúde
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… Deficiência, incapacidade e desvantagem (handicap)

† "No domínio da saúde, deficiência representa


qualquer
l perda
d ou anormalidade
lid d dda estrutura
t t ou
função psicológica, fisiológica ou anatómica". (OMS,
1980: 35 apud Oliveira, 1999).

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… "N domínio
"No d í i dda saúde,
úd incapacidade
i id d
† corresponde a qualquer redução ou falta (resultante de
uma deficiência) de capacidades para exercer uma
actividade de forma, ou dentro dos limites considerados
normais para o ser humano". (OMS, 1980: 36 apud
Oliveira 1999)
Oliveira,
… "No domínio da saúde, desvantagem (handicap)
† representa um impedimento sofrido por um dado indivíduo
indivíduo,
resultante de uma deficiência ou de uma incapacidade,
que lhe limita ou lhe impede o desempenho de uma
actividade considerada normal para esse indivíduo
indivíduo, tendo
em atenção a idade, o sexo e os factores sócio-culturais".
(idem: 37 apud Oliveira, 1999)

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Critério sócio
sócio-cultural
cultural
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‰ Normalidade/ anormalidade
‰ Como refere Perron ((1972: 13), alguns autores 
) g
definem a "deficiência" por oposição à "normalidade". 
Mas, interroga‐se o autor, o que é ser normal?
‰ "A fronteira entre a "normalidade" e a "anormalidade" é 

definida por critérios objectivos e absolutos ou é antes


definida por critérios objectivos e absolutos ou é antes 
ditada pelos contextos históricos, sociais e culturais?" 
(Vieira e Pereira, 1996:40 apud Oliveira 1999).

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Há várias maneiras de definir a
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"
"anormalidade
lid d “(1994; 89 e segs.)
„ "Quantas das nossas capacidades se transformariam, como 
da noite para o dia, em incapacidades se mudássemos para 
uma comunidade com padrões culturais muito diferentes
uma comunidade com padrões culturais muito diferentes 
dos nossos?" (Vieira e Pereira, 1996: 40 apud Oliveira, 1999).
„ Uma forma é defini‐la
Uma forma é defini la como um 
como um "desvio
desvio estatístico
estatístico",, isto é, o 
isto é, o
"anormal" é aquilo ou aquele que é estatisticamente raro numa 
população.
população
„ Desta forma, ter um Q.I. (Quociente de Inteligência) abaixo da 
média é tão "anormal" como ter um QI de 148, por exemplo 
(Id.)

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Contexto educativo
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… Emergência do conceito de Necessidades


Educativas Especiais
† A partir dos anos 60 e principalmente da década de
70 fruto do contributo de uma grande variedade de
70,
disciplinas e ramos da ciência, deu-se uma grande
"revolução" no conceito de "deficiência" aplicado às
crianças e jovens em idade escolar
escolar.

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Emergência do conceito de
N
Necessidades
id d EdEducativas
ti E
Especiais
i i
17

… FFoi o "Warnock
i "W k Report" (1978) que introduziu o conceito 
R " (1978) i d i i
de aluno com necessidades educativas especiais 
… “tomado, não no sentido de uma incapacidade específica que 
se pode atribuir à criança mas ligado a tudo o que lhe diz 
respeito; às suas capacidades como às suas incapacidades, a 
todos os factores que determinam a sua progressão no plano
todos os factores que determinam a sua progressão no plano 
educativo”. 

… Fonte: Warnock Report, 1978, p.37 citado por Oliveira, 1999,


p. 11.

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"Warnock
Warnock Report
Report"
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† O "Warnock Report" apresenta uma nova abordagem 
da deficiência, propõe uma modificação não só ao 
nível do sistema das classificações mas também na 
í ld i t d l ifi õ t bé
prática da "integração". 

„ Relatório britânico publicado em 1978, realizado por uma 
comissão dirigida por Mary Warnock, em 1974, encarregada de 
elaborar propostas para a melhoria da educação de jovens com 
deficiências (Oliveira, C. 1999, p. 11).

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Filosofia inclusiva
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† Um outro factor relevante para a evolução da 
generalidade dos Sistemas Educativos foi a realização 
d C f ê i d S l
da Conferência de Salamanca e a ênfase atribuída ao 
ê f t ib íd
conceito de Escola Inclusiva i.e. de uma “Escola para 
todos :
todos”:

A “Declaração de Salamanca” é uma manifestação de 
A “D l ã d S l ”é if t ã d
princípios, em prol da Educação para Todos, que resultou 
da Conferência Mundial sobre as Necessidades Educativas 
Especiais (7‐10/06 ,1994). (Azevedo, 2007)

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20 Educação para todos
™ Integração, normalização e
individualização
™ A filosofia inclusiva

Vídeo “Inclusion" makes 
everyone happy
everyone happy
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"Escola
Escola para todos"
todos
21

‰ Integração
‰ Ao longo dos últimos 25 anos tem-se
tem se assistido
assistido,
um pouco por todo o mundo, a um apaixonado
debate acerca das vantagens e desvantagens da
integração de alunos portadores de deficiências
nas salas de aula do ensino regular. (Oliveira,
1999:1).

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Normalização
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… Em Portugal, há todo um corpo de documentos


legislativos que consagram a lógica da
normalização, i.e., a ideia de que as pessoas com
deficiência devem frequentar as valências sociais
e comunitárias menos restritivas e o mais
próximas possível do normal para as pessoas da
sua idade e meio envolvente. (Azevedo, 2007)
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Individualização
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… A LBSE estabelece que, na escolaridade básica,


devem existir currículos e programas
devidamente adaptados às características de
cada tipo e grau de deficiência/Necessidade
Educativa Especial (NEE), assim como, formas
de avaliação adequadas às suas dificuldades
específicas (LBSE, Art.21, ponto 4. apud Azevedo, 2007)
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Necessidades
Educativas Especiais
NEE são as necessidades apresentadas por crianças/jovens que carecem de ajudas
pedagógicas (recursos humanos, materiais, técnicos e científicos) específicas para
atingir os fins da educação (expostos na Lei de Bases do Sistema Educativo)
Educativo).
Neste conceito integram-se as crianças/jovens que apresentam dificuldades de
aprendizagem; incapacidades, défices, lesões, desajustamentos e atraso escolar
que requeiram
q q q
qualquer
q medida educativa especial.
p ((Azevedo,, 2007))

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Como se pode definir o conceito
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de NEE?
… “Há uma necessidade educativa especial quando uma deficiência
(física, sensorial, intelectual, emocional, social ou qualquer
combinação destas) afecta a aprendizagem até ao ponto de serem
necessários alguns ou todos os acessos especiais ao currículo, ao
currículo especial ou modificado, ou a condições de aprendizagem
especialmente
p adaptadas
p para q
p que o aluno seja
j educado adequada
q
e eficazmente.” (Brennan, 1990 apud Oliveira, 1999)

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A educação de alunos com N.E.E
NEE
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Assim, para efeitos da sua educação, as crianças e jovens


com dificuldades especiais,
especiais ou com necessidades
educativas especiais (NEE), são aquelas que requerem
educação especial e serviços específicos de apoio para a
realização total do seu potencial humano (Hallahan e
Kauffman, 1994 apud Oliveira, 1999).

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Tipologia das N.E.E.
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… Segundo Correia (1997), as necessidades educativas


especiais dividem-se
dividem se em dois grandes grupos (figura 1):

o NEE temporárias;

o NEE permanentes.

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Tipologia das NEE (Correia,
28
1997))
Exigem adaptações 
generalizadas do 
currículo, adaptando‐o às 
características do aluno;

De carácter 
As adaptações mantêm‐se 
PERMANENTE
durante grande parte ou 
todo o percurso escolar
todo o percurso escolar 
do aluno.

Necessidades Educativas 
Especiais

Exigem modificação 
parcial do currículo 
escolar, adaptando‐o às 
De carácter TEMPORÁRIO características do aluno 
num determinado
num determinado 
momento do seu 
desenvolvimento.

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NEE permanentes (Correia,
29
1997))
• alunos cujas capacidades físicas foram 
alteradas (incapacitadas ou lesadas) por 
… de carácter motor problemas de origem orgânica ou ambiental. 

• alunos cujas capacidades visuais ou auditivas 
alunos cujas capacidades visuais ou auditivas
… de carácter  estão afectadas
sensorial 

• diabetes, asma, hemofilia, cancro, SIDA, 
…  outros problemas 
outros problemas epilepsia, trumatismo craniano, autismo 
de saúde entre outros

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NEE permanentes (cont.)
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• a) alunos com deficiência mental
… de carácter  • b) alunos dotados e sobredotados
intelectual: 
intelectual:

• alunos cujo potencial intelectual 
alunos cujo potencial intelectual
…  de carácter  (inteligência média ou acima da média) não 
corresponde à sua realização escolar
processológico; 

• alunos com problemas emocionais e 
… de carácter 
de carácter comportamentais que se manifestam em 
comportamentos disruptivos e 
emocional perturbadores

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NEE temporárias
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“ (…) são aquelas em que a adaptação do currículo


escolar é p
parcial e se realiza de acordo com as
características do aluno, num certo momento do seu
percurso escolar.
escolar Geralmente,
Geralmente podem manifestar
manifestar-se
se
como problemas ligeiros de leitura, escrita ou cálculo,
atrasos
t o31u
31 perturbações
t b õ menos graves ao nível
í l do
d
desenvolvimento motor, perceptivo, linguístico ou
socio-emocional.” (Correia,1997:52)

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Bibliografia
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… Oliveira, C. (1999) A Criança diferente/”Deficiente” face ao Sistema 
l ( ) df /” f ”f
Educativo. Disponível on‐line em 
http://www.terravista.pt/AguaAlto/2051/crdifer.html (último acesso em 8 
Abril, 1999 [não disponível actualmente]).

… Correia, L. (1997). Alunos com Necessidades Educativas Especiais nas 
Classes Regulares. Porto: Porto Editora.

… Azevedo, M. (2007). A Educação Especial em Portugal/2007. Biosofia, 
?,??‐??. [no prelo] 

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