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“ A MORTE: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO”

“Com a mente e o corpo sadio, mato-me antes que a impiedosa velhice, que me tira um a um os prazeres e as alegrias da vida e me despoja de minhas forças físicas e intelectuais acabe por paralisar minhas energias e quebre minha vontade fazendo de mim um peso para os outros e para mim mesmo. Há anos prometi a mim mesmo que não passaria dos setenta; marquei a época do ano para minha partida da vida e preparei o modo de execução de minha resolução: uma injeção hipodérmica de ácido cianídrico. Morro com a alegria suprema de ter a certeza de que, num futuro próximo, a causa a que me dediquei durante quarenta e cinco anos triunfará. Viva o Comunismo. Viva o Socialismo Internacional”.

Paul Lafargue 1

Paul e Laura Lafargue suicidam-se em dezembro de 1911. O pacto de uma morte

planejada, desejada e executada com maestria, nos moldes de uma das novelas românticas

do século XIX, provocou um grande mal estar na sociedade da época, em especial, entre os

intelectuais e militantes comunistas O discurso de Lenin em nome do Partido Social

Democrata Operário Russo nos funerais em 3 de dezembro expressava o sentimento de dor,

procurando exaltar a trajetória do militante comunista, sua coragem construída na

experiência da luta de classes e na revolução e na contra-revolução, porém silenciava sobre

o suicídio.

Como justificar esse duplo suicídio? Irracionalidade? Argumentação que não se

sustentaria diante de uma carta tão lúcida, de uma preparação tão cuidadosa, cumprindo

uma extensa agenda pública nos dias que antecederam o projeto maior – dar fim as suas

vidas. Loucura? Doença? Desespero? Paixão? Uma paixão, impregnada da tão combatida

1 Paul Lafargue. Direito à Preguiça. Rio de Janeiro: Kairós,1980. Cubano, nascido em 1842 de mãe francesa, estudou na França onde mais tarde aderiu à Internacional dos Trabalhadores. O manifesto foi escrito em 1883, conclamando os trabalhadores do mundo para se unirem não pelo direito ao trabalho, pois isso eles já tinham em demasia, mas pelo direito à preguiça: preguiçosos em tudo, menos no amor e no beber, menos na preguiça”. No seu casamento com Laura Marx teve como testemunha Engels. Foi um militante que muito incomodou Marx, como este declararia em carta para sua filha Laura em 1866: : “ Este maldito Lafargue me aborrece com seu proudhonianimo e ele não me deixará tranqüilo até que eu tenha quebrado sua cara de crioulo.”.

lógica burguesa. Covardia ou uma grande coragem? Coragem de homem? Covardia de

mulher?

Se a vida me pertence eu posso no momento que assim o desejar terminá-la. O

direito de morrer dignamente foi o argumento utilizado em outro tempo, em outra situação,

pelo espanhol Ramon Sampedro 2 . Na condição de tetraplégico, impossibilitado de cometer

o suicídio, lutou durante 29 anos nos tribunais pela legalidade da eutanásia, pedido que lhe

foi negado. Na carta de Sampedro destinada aos juízes, em 13 de novembro de 1996

afirmava: viver é um direito, não uma obrigação”. Ramón colocava em cheque a

regulação da vida e da morte pelo Estado e pela Igreja e acusa a hipocrisia do Estado laico

diante da moral religiosa:

Srs juizes, negar a propriedade privada de nosso próprio ser é a maior das mentiras culturais. Para uma cultura que sacraliza a propriedade privada das coisas - entre elas a terra, e a água - é uma aberração negar a propriedade mais privada de todas : nossa pátria e reino pessoal, nosso corpo, vida e consciência, nosso universo.

Os múltiplos argumentos de verdade, que condenaram o suicídio, ainda codificam

comportamentos, imprimindo um silêncio constrangedor e significante sobre o tema, fruto

da incapacidade para entender o ato de desapego que fere o considerado instinto natural de

preservação da vida. É justamente sobre esse silêncio, sua construção e, em especial, sobre

sua desconstrução a tese de Doutorado de Fabio Lopes: Suicídio & Saber Médico:

estratégias históricas de domínio, controle e intervenção no Brasil do século XIX, que

após quatro anos de sua defesa, finalmente, chega ao grande público. Texto denso que

expõe as subjetivações e naturalizações do saber/poder dos médicos no século XIX, que

apesar das novas contribuições, das quebras, dos esquecimentos e distanciamentos,

continuam a orientar as produções discursivas. Um olhar atenção que mora e demora no

tempo, que dialoga sem apriore com diferentes textos, interrogando sobre a constituição

2 Sua história foi transformada em filme: Mar Adentro. Direção de Alejandro Amenábar. Espanha,

2004. Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro”.

desse objeto de conhecimento possível, desejável e até mesmo indispensável , no dizer de

Fabio.

Foucault, o intelectual suicida, em sua destruição criadora, que se nega em cada

texto. O intelectual que revoluciona a História com seu presente intolerável, com sua crítica

subversiva a normalização, é a instigante matriz discursiva desvelada para analisar esse

incômodo objeto do desejo, reafirmação constante de um pensamento como ação:

“De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e não, de certa maneira, e tanto quanto possível o descaminho daquele que conhece? Existem momentos na vida quando a questão de saber-se se pode pensar diferentemente do que se pensa e perceber diferentemente do que se vê é indispensável para continuar a olhar a refletir” 3

Na montagem de uma arqueogenealogia, o suicídio e o sujeito que o cometeu, foram

analisados nos cinco capítulos do livro em diferentes gêneros discursivos (tipos de

enunciados que correspondem a uma mesma esfera de práticas sociais), cuidadosamente

trabalhados no seu interior, as teses médicas, os jornais, a literatura e seus personagens de

ficção publicadas ou encenadas nos teatros da cidade. Assim como os estudos de

historiadores, sociólogos, antropólogos e psicólogos.

No primeiro capítulo, O Palco e Cenário - medicina social e instituições médicas

no Brasil do século XIX, a cidade é percebida como um recorte do social - espaço fértil

para o crescimento de uma massa maligna a ser disciplinada numa ação higienizadora. Os

ares da cidade libertam, mas possibilitam a perdição das paixões. A cidade-laboratório,

instrumentaliza a aquisição e sistematização de novos saberes. Dentre eles, destaca-se o

saber médico responsável pela tematização científica do suicídio que passa de pecado à

doença.

No capítulo II - Na órbita das doenças e distúrbios mentais - o trabalho disseca as

causas e explicações patológicas que, segundo Foucault 4 , o ato de conhecimento do médico

em sua forma concreta não foi apenas o encontro do médico com o doente, nem o

confronto de um saber com a percepção. O cruzamento sistemático de uma série de

informações homogêneas, porém, estranhas umas as outras, tais como o clima, a geografia

e a história. Julgamento e saber que entre os anos setecentos e oitocentos se deslocam do

indivíduo para serem aplicados à sociedade. Um saber médico que ordena, prescreve,

3 Foucault , Michel. O uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Graal, 1984.p.13

4 Idem.O nascimento da Clínica. Rio de Janeiro: Forense Universitária,1994

certifica é solicitado nos tribunais para definir o normal e o patológico e está presente nas teses da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro entre 1830-1900 .Além da questão explícita da formação e valorização da medicina como um saber que se estrutura como responsável pela gestão da existência humana, analisa e condena o suicídio , procurando diagnosticar suas causas e tratamentos. O capítulo III, discute a relação entre as paixões e o suicídio. No imaginário romântico do século XIX, morrer de paixão, definhar lentamente por amor alimentava os devaneios de um determinado grupo social que praticava o “ ótium cum dignitatis”. Fabio nos apresenta o grande espetáculo das chamadas paixões suicidas das tabernas, das bebidas, do jogo, das mulheres fáceis”, encenadas e musicadas nas óperas, exibidas nos teatros da Europa e da capital brasileira: Bellini, Verdi, Tchaikovsky, Puccini entre outros. Os excessos, as perversões e as mortes, direcionariam o olhar dos médicos brasileiros, ancorados nas taxonomias do médico Esquirol que hierarquizavam e separavam as boas paixões, aquelas que nasciam das relações sociais, das patológicas que levariam ao suicídio:

o amor, a cólera, o terror, a vingança. O capítulo IV, As Diferenciações sexuais do suicídio, problematiza as subjetivações e estereotipações da natureza feminina : frágil, emotiva, logo, susceptível as doenças mentais , as paixões avassaladoras e, naturalmente ao suicídio. Porém, como explicar a incidência de suicídios de homens? No exame das teses médicas e sua generização do suicídio, Fabio propõe a inversão das evidências, os recortes discursivos que, no caso, constroem essa naturalização de papéis - o modo feminino e o modo masculino de suicídio. No último capítulo, Literatura um perigo a vida, o estudo passa da ficção da ciência dos médicos para a ficção de uma certa literatura considerada “verdadeiros agentes de contágio” que estimulavam as “naturezas- mórbidas” com suas narrativas do amor romântico, uma das grandes causas dos suicídios. Essa temática subversiva estava presente em escritores nacionais como Machado de Assis, Aluisio de Azevedo e, principalmente, em estrangeiros como Flaubert, em Goethe nos sofrimentos por amor do jovem Werther. Encerro essa apresentação convidando para que aceitem a provocação de Fabio Lopes que, num ato de coragem propôs a morte das banalizações, das mesmices, dos julgamentos, das normalizações. Na recusa da regra, instaura a relação consigo mesmo e com outros, constituindo-se como sujeito ético. Leiam, discutam, critiquem, reinventem o

conhecimento estimulado por esse intelectual que muito bem poderia ter sido aquele

sonhado por Foucault:

com um intelectual destruidor das evidências e das

universalidades, que localiza e indica inércias e coações do presente os pontos fracos , as brechas, as linhas de força ;que sem cessar se desloca , não sabe exatamente onde estará ou o que pensara amanhã , por estar muito atento ao presente; que contribui, no lugar em que está , de passagem, a colocar a questão da revolução, se ela vale a pena e qual ( quero dizer, qual revolução e qual pena). Que fique claro que os únicos que podem responder são os que aceitam arriscar a vida para fazê-la.”. 5

Sonho

Rio de Janeiro 10 de novembro de 2007

Marilene Rosa Nogueira da Silva Coord. do Laboratório do Estudo Sobre as Diferenças e Desigualdades Sociais.LEDDES/UERJ

5 Não ao sexo rei in Microfísica do poder.Rio de Janeiro: Graal, 1979.p. 242