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A Estrutura das Revolu¸c˜oes Cient´ıficas

Juliana Bueno-Soler

Universidade Federal do ABC - UFABC

e-mail: juliana.bueno@ufabc.edu.br

Abstract

Neste ensaio s˜ao mostradas as principais ideias de Thomas Kuhn, pre- sentes na obra “A estrutura das revolu¸c˜oes cient´ıficas”, em [?], que tentam explicar como as ciˆencias se desenvolvem usando uma an´alise hist´orica da ciˆencia uma an´alise da psicologia social dos cientistas.

1 Como as teorias cient´ıficas nascem, morrem e se sucedem segundo Thomas Kuhn

A ciˆencia frequentemente muda de ponto de vista. Muitas vezes teorias bem

estabelecidas s˜ao completamente abandonadas e outras surgem em seu lugar. O f´ısico Thomas Samuel Kuhn (1922-1996) dedicou sua obra a tentar entender esse movimento transformador da ciˆencia. Em 1962 Kuhn publicou “A Estrutura das Revolu¸c˜oes Cient´ıficas”, um trabalho que se tornou polˆemico e que ´e uma

das obras mais influentes em filosofia da ciˆencia. Kuhn partia de uma abor- dagem hist´orica para defender a tese de que a ciˆencia gera paradigmas, e que esses paradigmas s˜ao naturalmente substitu´ıdos por outros no decorrer do desen- volvimento cient´ıfico. A teoria central de Kuhn ´e que o conhecimento cient´ıfico n˜ao cresce de modo cumulativo e cont´ınuo, mas ao contr´ario, tal crescimento ´e descont´ınuo e ocorre atrav´es de saltos qualitativos. A ciˆencia, na vis˜ao de Kuhn, se inicia quando uma comunidade de pesquisa- dores, em um certo campo do conhecimento, chega a um consenso em torno de um paradigma, ou seja, de uma teoria que explique e possa prever fatos ligados

`a

pesquisa. Por exemplo, durante a Idade M´edia, a astronomia geocˆentrica

de

Ptolomeu constitu´ıa um paradigma, mas este paradigma s´o foi estabelecido

porque houve uma revolu¸c˜ao anterior. Contudo, ap´os esse paradigma estar estabelecido, a ciˆencia passa ao que Kuhn denomina “ciˆencia normal”. Novos problemas v˜ao surgindo, e os cientistas continuam com seu trabalho de pesquisa buscando a solu¸c˜ao destes problemas sempre tendo em vista aquele paradigma dominante, que ´e defendido pelos cientistas.

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Thomas Kuhn em sua obra reconhece que a escolha do termo “paradigma” poderia gerar confus˜ao com algumas interpreta¸c˜oes diferentes daquela que ele mesmo tentou colocar. Ent˜ao ele afirma no pref´acio de sua obra:

“Considero “paradigmas” as realiza¸c˜oes cient´ıficas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e solu¸c˜oes modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciˆencia.”

Para Kuhn um paradigma designa o modo como a comunidade cient´ıfica mundial olha para determinado assunto, teoria, experimento etc. Esse “modo” de se olhar para determinada teoria (ou experimento) ´e precisamente o que ele chama de paradigma. Para exemplificar usaremos um fato de mudan¸ca de paradigma que ocorreu com a teoria heliocˆentrica de Cop´ernico. Na ´epoca em que Cop´ernico desenvolveu sua teoria imperava a ideia de que a Terra estivesse no centro do universo. Cop´ernico ent˜ao, baseado em observa¸c˜oes, entendeu que a Terra n˜ao poderia estar no centro do universo, mas sim o Sol. Ap´os longo anos, com Galileu e a inven¸c˜ao do telesc´opio, sua teoria foi realmente comprovada por medi¸c˜oes, sendo comprovada por Kepler que usou c´alculos matem´aticos para tal fim. Qual foi ent˜ao a mudan¸ca de paradigma nessa teoria? Dir´ıamos que antes

a Terra estava no centro, hoje ´e ocupado pelo Sol. Entendemos por paradigma

essa mudan¸ca radical no foco te´orico, que ocorre quando uma teoria ´e refutada e substitu´ıda por outra que atende melhor `as nossas necessidades de compreender determinados assuntos. Durante a vigˆencia do novo paradigma desenvolve-se a ciˆencia normal, conceito definido por Kuhn para designar esse per´ıodo durante

o qual se desenvolve a pesquisa baseada no novo paradigma. Mas pode ocorrer que este paradigma vigente comece a encontrar anomalias ou problemas que a teoria n˜ao explica. Quando o peso dessas anomalias cresce muito, ocorre outra revolu¸c˜ao cient´ıfica, e assim sucessivamente. Segundo as ideias de Kuhn, esses paradigmas, tais como a teoria geocˆentrica de Ptolomeu que acabou substitu´ıa pela teoria heliocˆentrica de Cop´ernico, s˜ao “incomensur´aveis”, isto ´e, cada um n˜ao pode ser entendido a partir de outro. Dessa forma, a transi¸c˜ao de um paradigma para outro vai depender de fatores externos `a ciˆencia, como fatores psicol´ogicos e sociol´ogicos presentes na orga- niza¸c˜ao do trabalho cient´ıfico. Mas isso vai contra a imagem da ciˆencia como o melhor da racionalidade, como concebido a partir do s´eculo XVIII. A obra de Kuhn, ao privilegiar as- pectos hist´oricos e sociol´ogicos na an´alise da pr´atica cient´ıfica, desvalorizou os aspectos l´ogico-metodol´ogicos da vis˜ao de Popper e causou uma esp´ecie de terre- moto na filosofia da ciˆencia. De fato, Kuhn opunha-se `as ideias compartilhadas pelos fil´osofos do C´ırculo de Viena e seus sucessores, e suas posi¸c˜oes ocasionam ainda hoje intenso debate com os seguidores de Karl Popper (1902-1994) e Imre Lakatos (1922-1974).

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O livro de Kuhn come¸ca com um pref´acio e uma introdu¸c˜ao, onde ele exp˜oe

suas motiva¸c˜oes, objetivos e sua trajet´oria pessoal, mais como historiador da ciˆencia que como fil´osofo, e cita fil´osofos que o influenciaram diretamente. Na “Introdu¸c˜ao”, p´agina p. 20, Kuhn afirma:

“Se a ciˆencia ´e a reuni˜ao de fatos, teorias e m´etodos reunidos nos textos atu- ais, ent˜ao os cientistas s˜ao homens que, com ou sem sucesso, empenharam-se em contribuir com um ou outro elemento para essa constela¸c˜ao espec´ıfica. O desenvolvimento torna-se o processo gradativo atrav´es do qual esses itens foram adicionados, isoladamente ou em combina¸c˜ao, ao estoque sempre crescente que

constitui o conhecimento e a t´ecnica cient´ıficos. E a hist´oria da ciˆencia torna-se

a disciplina que registra tanto esses aumentos sucessivos como os obst´aculos que inibiram sua acumula¸c˜ao.”

E j´a anuncia, logo em seguida na p´agina 21, suas cr´ıticas ao m´etodo cient´ıfico, tradicional:

“Se essas cren¸cas obsoletas devem ser chamadas de mitos, ent˜ao os mitos podem ser produzidos pelos mesmos tipos de m´etodos e mantidos pelas mesmas raz˜oes que hoje conduzem ao conhecimento cient´ıfico.”

Um pouco mais adiante, na p´agina 27, Kuhn prepara o leitor para o tipo de argumentos que pretende lan¸car m˜ao, muito mais ligados `a sociologia e `a psicologia social dos cientistas que ao percurso l´ogico das ideias:

“Dizemos muito frequentemente que a hist´oria ´e uma disciplina puramente des-

critiva. Contudo, as teses sugeridas acima s˜ao frequentemente interpretativas e, algumas vezes, normativas. Al´em disso, muitas de minhas generaliza¸c˜oes dizem

`a sociologia ou a` psicologia social dos cientistas. Ainda assim, pelo menos algu-

mas de minhas pertencem tradicionalmente `a l´ogica ou `a epistemologia. Pode at´e mesmo parecer que, no par´agrafo anterior, eu tenha violado a muito influ- ente distin¸c˜ao contemporˆanea entre “o contexto da descoberta” e o “contexto da justifica¸c˜ao”. Pode algo mais do que profunda confus˜ao estar indicado nessa mescla de diversas ´areas e interesses? Tendo me formado intelectualmente a partir dessas e de outras distin¸c˜oes semelhantes, dificilmente poderia estar mais consciente de sua importˆancia e for¸ca. Por muitos anos tomei-as como sendo a pr´opria natureza do conhecimento. Ainda suponho que, adequadamente reelabo-

radas, tenham algo importante a nos dizer. Todavia, muitas das minhas tentati- vas de aplic´a-las, mesmo grosso modo, as` situa¸c˜oes reais na quais o conhecimento

´e obtido, aceito e assimilado, fˆe-las parecer extraordinariamente problem´aticas.”

O livro tem mais doze cap´ıtulos em que Kuhn apresenta suas ideias e sua ar-

gumenta¸c˜ao de como a ciˆencia se desenvolve. Para entender a nomenclatura us- ada no livro, ´e importante compreender os conceitos de ciˆencia normal, ciˆencia extraordin´aria, paradigma, incomensurabilidade e revolu¸c˜oes cient´ıficas.

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Como j´a comentamos, segundo Kuhn, toda ciˆencia madura atravessa dois est´agios, um aparentemente est´avel, chamado de ciˆencia normal, e um outro completamente inst´avel e imprevis´ıvel chamado revolucion´ario. Na ciˆencia nor- mal o trabalho dos cientistas resolve problemas e esclarece conceitos, mas sem sair do acabou¸co doutrin´ario vigente e seguindo regras condicionadas a fatores sociol´ogicos e culturais.

O conceito de paradigma foi alvo de muitas cr´ıticas; para Kuhn um paradigma

cient´ıfico ´e um conjunto de cren¸cas, t´ecnicas e valores compartilhados por uma certa comunidade. Este paradigma serve de modelo para a abordagem e solu¸c˜oes de problemas. O que a ciˆencia normal faz ´e explicitar e resolver quest˜oes que

surgem no interior do paradigma. No Cap´ıtulo 1, “A rota para a ciˆencia normal”, p. 38, afirma Kuhn:

“Para ser aceita como paradigma, uma teoria deve parecer melhor que suas competidoras, mas n˜ao precisa (e de fato isso nunca acontece) explicar todos os fatos com os quais pode ser confrontada.”

Para Kuhn, diferentes paradigmas apresentam diferentes quest˜oes, e ainda que levantassem as mesmas quest˜oes dariam diferentes solu¸c˜oes. N˜ao existe um

m´etodo cient´ıfico que vai reger as pr´aticas da investiga¸c˜ao cient´ıfica, mas sim um conjunto de regras relativas a diferentes paradigmas.

O per´ıodo de ciˆencia normal funciona somente enquanto as solu¸c˜oes dos pro-

blemas levantados encaixam-se no que o paradigma prevˆe. Entretanto, quando come¸cam a aparecer anomalias que divergem muito das expectativas esperadas,

o paradigma original come¸ca a ruir e um novo paradigma come¸ca a se colocar

no lugar da ciˆencia normal. Entre os dois paradigmas, o velho (que era normal) e o novo que come¸ca

a surgir, aparece num est´agio intermedi´ario que Kuhn denomina ciˆencia ex-

traordin´aria que vai introduzir um novo modelo. Kuhn defende que a mudan¸ca de paradigmas n˜ao ´e um processo racional, e n˜ao se pode avaliar e criticar paradigmas em conjunto, sob um ponto de vista comum, j´a que cada paradigma possui seu conjunto de regras que s´o tem sentido dentro de sua pr´opria teoria. Por isso, esses paradigmas ou modelos cient´ıficos s˜ao incomensur´aveis, ou seja, incompar´aveis. Na p´agina 39 aparece a opini˜ao de Kuhn sobre mudan¸ca de paradigmas:

“Quando pela primeira vez no desenvolvimento de uma ciˆencia da natureza, um indiv´ıduo ao grupo produz uma s´ıntese capaz de atrair a maioria dos praticantes de ciˆencia da gera¸c˜ao seguinte, as escolas mais antigas come¸cam a desaparecer gradualmente. Seu desaparecimento ´e em parte causado pela convers˜ao de seus adeptos ao novo paradigma. Mas sempre existem alguns que se aferram a uma ou outra das concep¸c˜oes mais antigas; s˜ao simplesmente exclu´ıdos da profiss˜ao e seus trabalhos s˜ao ignorados. O novo paradigma implica uma defini¸c˜ao nova e mais r´ıgida do campo de estudos. Aqueles que n˜ao desejam ou n˜ao s˜ao capazes de acomodar seu trabalho a ele tˆem que proceder isoladamente ou unir-se a algum outro grupo.”

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Sobre a incomensurabilidade, voltando aos exemplos das teorias geocˆentrica

e heliocˆentrica, e mesmo `as teorias das ´orbitas planet´arias de Newton e de

Ptolomeu, ´e imposs´ıvel comparar e decidir qual modelo est´a certo ou errado, ou qual ´e mais plaus´ıvel do que o outro. Por tal raz˜ao, o conceito de verdade cient´ıfica torna-se relativizado ao paradigma cient´ıfico no qual est´a preso: cada paradigma descreve sua realidade e ´e incomensur´avel com qualquer outro. Esse relativismo cient´ıfico ´e considerado perigoso por muitos cr´ıticos, porque pode dar uma falsa legitimidade a defensores de teorias pseudocient´ıficas como o des´ıgnio inteligente (“intelligent design”). A sucess˜ao entre paradigmas, segundo Kuhn, nada teria a ver com expe- rimentos, an´alises metodol´ogicas ou dedu¸c˜oes, mas sim com a habilidade de persuas˜ao ret´orica dos cientistas para estabelecˆe-lo como ciˆencia normal. Fi- nalmente, no que concerne aos avan¸cos do conhecimento cient´ıfico, as ideias de Kuhn contrariam a no¸c˜ao de que o conhecimento ´e produzido por um processo de acumula¸c˜ao de informa¸c˜oes. O que acontece s˜ao rupturas completas de um paradigma para o outro: nada do que foi pesquisado pelo paradigma anterior ser´a aproveitado no desenvolvimento futuro. Pergunta Kuhn no Cap´ıtulo 12 - “O progresso atrav´es das revolu¸c˜oes”, p´agina p. 203:

“Por que o empreendimento cient´ıfico progride regularmente utilizando meios que a arte, a teoria pol´ıtica ou filosofia n˜ao podem empregar? Por que ser´a o progresso uma prerrogativa reservada quase exclusivamente para a atividade que chamamos ciˆencia?”

E continua:

“O termo ciˆencia est´a reservado, em grande medida, para aquelas ´areas que progridem de uma maneira obvia.´ Mais do que em qualquer outro lugar, nota-se isso claramente nos debates recorrentes sobre a cientificidade de uma ou outra ciˆencia social contemporˆanea.”

E

logo adiante, p´agina 204:

“Por que minha area´ de estudos n˜ao progride do mesmo modo como a f´ısica? Que mudan¸cas de t´ecnica, m´etodo ou ideologia fariam com que progredisse? Entretanto, essas n˜ao s˜ao quest˜oes que possam ser respondidas atrav´es de um acordo sobre defini¸c˜oes.”

Como seria de se esperar, esclarecer o que ´e ciˆencia, ´e para Kuhn assim como tantos outros fil´osofos da ciˆencia, uma quest˜ao central. Ciˆencia e arte n˜ao estiveram sempre separadas - uma separa¸c˜ao categ´orica s´o foi feita nos ultimos´ s´eculos, e ainda assim o termo “arte” continuou a ser aplicado tanto `a tecnologia quanto ao artesanato, como a pintura e a escultura, e que tamb´em poderiam (assim como a ciˆencia) se aperfei¸coar. Seria o progresso uma medida de cientificidade?

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Kuhn reconhece a dificuldade dessa quest˜ao na p´agina 205, e na p´agina seguinte finaliza com uma pergunta provocante:

“Contudo, reconhecer que tendemos a considerar como cient´ıfica qualquer area´ de estudos que apresente um progresso marcante ajuda-nos apenas a esclarecer, mas n˜ao a resolver nossa dificuldade. Permanece ainda o problema de compreen- der por que o progresso ´e uma caracter´ıstica not´avel em um empreendimento conduzido com as t´ecnicas e os objetivos que descrevemos neste ensaio. [ ] Um campo de estudo progride porque ´e uma ciˆencia ou ´e uma ciˆencia porque progride?”

O livro de Kuhn talvez coloque mais quest˜oes interessantes do que respostas universalmente aceit´aveis, mas pode ser considerado uma das principais obras anti-realistas na filosofia da ciˆencia.

References

[Kuh70] T.S. Kuhn. A Estrutura das Revolu¸c˜oes Cient´ıficas. Oxford University Press, 1970. Tradu¸c˜a de Raul Filker.

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