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Viagem

Aparelhei o barco da ilusão E reforcei a fé no marinheiro. Era longe o meu sonho, e traiçoeiro O mar... ( Só nos é concedida Esta vida Que temos; E é nela que é preciso Procurar O velho paraíso Que perdemos). Prestes, larguei a vela E disse adeus ao cais, à paz tolhida. Desmedida, A revolta imensidão Transforma dia a dia a embarcação Numa errante e alada sepultura... Mas corto as ondas sem desanimar. Em qualquer aventura, O que importa é partir, não é chegar.

Miguel Torga

Este poema representa o percurso de vida do Homem. Não importa o destino, apenas importa partir, ir à aventura, ir à procura do “velho paraíso” perdido, do tempo em que era feliz. A vida do homem é feita de esperança, de ilusão e de uma procura incessante. O Homem procura incessantemente essa ilusão e tem esperança de a alcançar. A tendência para desanimar é também uma característica do Homem, quando não obtém os resultados esperados e isso é também salientado neste poema, mas o sujeito poético logo diz “ Mas corto as ondas sem desanimar”, transmitindo aqui também um sinal de esperança, porque a vida é uma aventura em que o importante “é partir, não é chegar”. A “viagem” representa metaforicamente a vida do homem que é composta por dois momentos: - os preparativos para o embarque: o sujeito poético aprontou o barco para partir “ Aparelhei o barco da ilusão”, içou apressadamente a vela “Prestes larguei a vela” e partiu rapidamente “E disse adeus ao cais” (vv. 1-2 e 12-13), ou seja o “eu” lírico tomou a decisão de enfrentar a aventura da vida; - a navegação em pleno mar: o sujeito poético enfrenta “as ondas” (vv. 14 -18), lutando com determinação pela concretização do seu percurso pessoal. Os vocábulos “marinheiro” e “barco” simbolizam o sujeito poético e metaforizam o seu pensamento sonhador (“barco da ilusão” = o barco é o “eu” aventureiro, marinheiro; a ilusão é a busca incessante da felicidade), a crença ou “fé” em si mesmo (“fé de marinheiro”) e a vontade de enfrentar a vida (vida = a “viagem”, “mar”, “aventura”), comandando o seu destino pessoal, traçando-lhe um rumo, tal como o “marinheiro” no comando do seu “barco”. Estes vocábulos simbólicos (“marinheiro” e “barco”) representam a luta incessante do homem pela conquista da felicidade, como sendo a única forma de enfrentar e ultrapassar a angústia existencial provocada pela certeza da morte (vv. 14-17).

13). não é chegar”: estes últimos versos são apresentados como uma espécie de máxima e são importantes do ponto de vista interpretativo. A vida não é muitas vezes como a sonhamos. porque ela existe. a conquista ou reconquista da felicidade do “velho paraíso”. porque rejeita completamente um modelo de vida limitado “E disse adeus ao cais. pois tinham também contra si a distância.19-20): numa aventura não há a certeza da chegada. pois neles se encontra a chave – o princípio motor de qualquer “aventura” é a própria busca. isso não o impede de procurar. Por vezes. é uma reflexão em que o sujeito poético explicita os fundamentos da sua atitude. No poema. Um paraíso em que o “eu” já viveu e foi feliz “velho” e que quer voltar a encontrar. acredita no “sonho” de uma vida marcada pela busca do “velho paraíso” perdido (vv. embora sinta que a vida o possa atraiçoar a qualquer momento e sabendo também que a única certeza é a inevitabilidade da morte. não tinham a certeza de chegar. 1-3 e 5-11). Assim se justifica que o “eu” lírico.O sujeito poético é sonhador. o éden. É insatisfeito. O adjectivo que o qualifica é traiçoeiro. atraiçoa-nos. ciladas. isolando-a e conferindo-lhe unidade e autonomia.3-4 e 15-18). Recursos expressivos . talvez longe “Era longe o meu sonho”. à luz tolhida. se não procurarmos e atingirmos a felicidade nesta vida. o “paraíso”. certo de que a morte é o destino inevitável do homem (vv. obstinado e persistente. pois insiste na perseguição do seu sonho.metáfora: Barco e marinheiro = sujeito poético Sonho = felicidade Mar = vida Velho paraíso = felicidade (a felicidade do éden) . porque está pronto a enfrentar a incerteza e o risco próprios da “aventura” (vv. os marinheiros tinham como certa a partida e a certeza de que a morte viria mais cedo ou mais tarde. apresentandoos como uma regra de vida que propõe a toda a humanidade: o homem tem um curto espaço de tempo na terra e nesse tempo limitado da sua existência terrena – a única que “nos” é “concedida” – deve ter como ideal a busca. de partir em busca do “paraíso”. pois está consciente de que nem mesmo a “ilusão” pode alterar a precariedade.” (v. deve procurar atingir a felicidade plena na única “vida” (“Esta”.14-17). “Em qualquer aventura. e não o objectivo final a alcançar – é deste modo que o sujeito poético encara a vida. Revela lucidez. mas está algures à nossa espera. as ciladas. mas é preciso não desistir e partir em busca da felicidade. assim o importante é partir (como na aventura dos descobrimentos. / O que importa é partir. jamais teremos outra possibilidade).15-17). para de novo sentir a felicidade. não abdique da sua capacidade de busca e persista na concretização do “sonho” que conferirá sentido à existência humana – o homem deve procurar ser feliz. desanimamos. o mar traiçoeiro e desconhecido). a traição e as ciladas (vv. Aventureiro. apesar das adversidades que poderá ter de enfrentar. a terrena) que lhe “é concedida”. prega-nos partidas. pois aparecem contrariedades. fragilidade e efemeridade da existência humana (vv. como a distância. “mar” é uma metáfora para a vida. Determinado. O parêntesis evidencia a importância desta tese no poema (o facto de possuirmos apenas “esta vida” e de ser nesta única vida que temos de buscar a felicidade. na concretização do seu objectivo. Apesar de ser “longe” o sonho do sujeito poético. A utilização do parêntesis introduz uma pausa discursiva que suspende o relato da “viagem”.

Larguei a vela = partida para a aventura.Dupla adjectivação anteposta “errante e alada sepultura” .Antítese “…partir… chegar” apesar da morte ser o destino inevitável do Homem.Repetição “Dia a dia” . pronto para partir em busca do seu sonho Adeus ao cais = rejeita a vida anterior . este não abdica da sua capacidade de busca e persiste na concretização do sonho (que confere sentido à existência humana – a procura da felicidade terrena – “Viagem”) .Adjectivação anteposta “Traiçoeiro o mar” .