Você está na página 1de 132

Nº 1299 . 25/1 A 31/1/2018 . CONT. E ILHAS: €3,50 .

SEMANAL
A NEWSMAGAZINE MAIS LIDA DO PAÍS WWW.VISAO.PT

JUSTIÇA CHERNOBYL
FAVORES REPORTAGEM
A MANUEL ONDE
VICENTE VIVEM OS
FANTASMAS
MÚSICA
CAPICUA SIZA VIEIRA
ENTREVISTA “TEM DE HAVER
SÉRGIO TEMPO PARA
GODINHO PENSAR”

R E P O R TA G E M E S P E C I A L

POR DENTRO DA IGREJA


QUE DESAFIA O PAPA
MISSAS EM LATIM, PADRES DE COSTAS PARA OS FIÉIS, MULHERES
Eduardo
Almeida
e Samuel
COM VÉUS E RECUSA DA COMUNHÃO AOS RECASADOS Bon, líder da
Fraternidade
À MARGEM DA HIERARQUIA, ESTÁ A CRESCER NA IGREJA São Pio X,
CATÓLICA PORTUGUESA UM MOVIMENTO ULTRACONSERVADOR em Lisboa

QUE NÃO ALINHA COM O ESTILO MODERNO DE FRANCISCO


FOTO: DIANA TINOCO
VISÃO
25 JANEIRO 2018 / Nº 1299

14 Entrevista:
Ana Alexandra Carvalheira

RADAR
18 Imagens da semana
24 Raios X
26 A semana em 7 pontos
28 Holofote: Hugo Vau
29 Almanaque
LUÍS BARRA

30 Inbox
31 Transições
32 Próximos capítulos

FOCAR
34 Em Chernobyl, há lugar para a esperança?
Reportagem VISÃO na cidade ucraniana onde decorreu o maior
72 Angola: Procurador desastre nuclear de sempre e que, agora, se depara com o crescimento
Orlando Figueira admite do turismo à volta da zona abandonada
ter protegido Manuel Vicente
76 Porque é que a Turquia
invadiu a Síria?
44 A Igreja portuguesa anti-Francisco
Gostam das missas em latim, defendem a recuperação de rituais
78 A cavaleira do século XVI anteriores ao Concílio Vaticano II e são contra algumas das ideias
que se fez passar por homem mais progressistas do atual Papa. A VISÃO no interior dos movimentos
80 Arthur Brand, o Indiana conservadores da Igreja portuguesa
Jones da arte
82 Ricardinho, o melhor
jogador de futsal 60 “Tem de haver tempo para pensar”
é português Numa conversa que decorreu no seu ateliê, no Porto, Álvaro Siza Vieira
revisita o passado – dos primeiros desenhos ao amor pela arquitetura
– e avalia o “estado da arte” da disciplina
VAGAR
86 Capicua entrevista
Sérgio Godinho 68 Jotas e jotinhas
Rui Rio é o segundo quadro oriundo da JSD a presidir ao PSD.
92 Pessoas: Clássicos em BD Mas a Juventude Popular está a ultrapassar a sua congénere “laranjinha”
96 Tendências: Ioga e acrobacia em scouting e adesões. Saiba como o CDS aposta no viveiro de quadros
e o que isso pode mudar no futuro da direita portuguesa
VISÃO SETE
98 Uma passeio
pelo bairro da Graça
Aos assinantes
OPINIÃO
6 António Lobo Antunes A partir desta semana,
8 Rui Tavares Guedes os assinantes digitais da
VISÃO passam a poder
33 Rita Rato descarregar, de forma
85 José Carlos de Vasconcelos gratuita, a edição semanal
da Exame Informática.
96 Miguel Araújo
130 Ricardo Araújo Pereira

25 JANEIRO 2018 VISÃO 3


LINHA DIRETA
Proprietária/Editora: TRUST IN NEWS, UNIPESSOAL LDA.

A igreja anti-Papa
Sede: Rua Rodrigo Reinel, 9, 1.º - Esq. 1400-319 Lisboa.
NIPC: 514674520.
Gerência da TRUST IN NEWS: Luís Delgado,
Filipe Passadouro e Cláudia Serra Campos.
Composição do Capital da Entidade Proprietária: 10.000,00 euros,
Principal acionista: Luís Delgado (100%)
Publisher: Mafalda Anjos
Missas em latim, cheias de jovens
que veem, nessa recuperação de
rituais anteriores ao Concílio

MARCOS BORGA
Vaticano II, um futuro para a Igreja.
Há já algum tempo que o assunto
é discutido entre os católicos, que
Diretora: Mafalda Anjos também estão divididos quanto à Escolha do Consumidor
Diretor-Executivo: Rui Tavares Guedes possibilidade dos recasados poderem Natalina de Almeida (Caras),
Subdiretora: Sara Belo Luís comungar. No momento em que os Mafalda Anjos (VISÃO)
Editores-Executivos: Catarina Guerreiro e Filipe Luís
Gabinete Editorial: José Carlos de Vasconcelos (Coordenador) movimentos mais conservadores e Pedro Oliveira (Exame Informática)
EXAME/Economia: Tiago Freire (diretor) da Igreja portuguesa se estão a
Editores: Alexandra Correia (Sociedade), Filipe Fialho (Mundo), João Carlos Mendes organizar, a VISÃO foi conhecer de perto essas vozes e práticas, numa
(Grafismo), Manuel Barros Moura (visao.pt) e Pedro Dias de Almeida (Cultura)
Redatores Principais e Grandes Repórteres: Cláudia Lobo, José Plácido reportagem de Catarina Guerreiro e Rui Antunes, com fotografias de Diana
Júnior, Miguel Carvalho e Rosa Ruela Tinoco e vídeo de André Moreira, que faz o tema de capa desta edição.
Redação: Carmo Lico (online), Cesaltina Pinto, Clara Cardoso, Clara Soares, Clara Entretanto, na semana passada, a VISÃO foi distinguida pelos prémios
Teixeira, Florbela Alves (Coordenadora VISÃO Sete/Porto), Inês Belo, Inês Rapazote,
Joana Loureiro, José Pedro Mozos, Luísa Oliveira, Luís Ribeiro (Coordenador Escolha do Consumidor, que vão na sexta edição e distinguem as marcas
Sociedade), Patrícia Fonseca, Paulo C. Santos, Paulo Zacarias Gomes, Rui Antunes, que gozam de maior notoriedade junto do público. A VISÃO, ficou à
Sandra Pinto, Sara Rodrigues, Sara Santos (redes), Sara Sá, Sílvia Caneco, Sílvia Souto frente da Sábado, a sua concorrente direta, nos vários atributos avaliados:
Cunha, Sónia Calheiros, Susana Lopes Faustino, Susana Silva Oliveira e Teresa Campos
(Coordenadora Radar) e Vânia Maia Credibilidade/Rigor/Seriedade, Isenção/ Imparcialidade/ Independência,
Grafismo: Paulo Reis (Editor adjunto), Teresa Sengo (Coordenadora), Atualidade de Informação, Temas abordados, Artigos/ Qualidade dos
Ana Rita Rosa e Edgar Antunes
Infografia: Álvaro Rosendo e Manuela Tomé
artigos. Do Grupo TiN, foram ainda premiadas as revistas Exame
Fotografia: Fernando Negreira (Coordenador), Diana Tinoco, Informática e Caras, nas categorias, respetivamente, de tecnologia e
José Carlos Carvalho, Lucília Monteiro, Luís Barra e Marcos Borga informação social e televisão.
Copydesk: Rui Carvalho
Secretariado: Sofia Vicente (Direção), Teresa Rodrigues (Coordenadora),
Ana Paula Figueiredo e Luís Pinto
Colunistas: Adolfo Mesquita Nunes, António Lobo Antunes, Capicua,
Germano Silva, Isabel Moreira, João Semedo, José Eduardo Martins, Paul Krugman,
Pedro Norton, Ricardo Araújo Pereira, Rita Rato e Thomas Piketty
Correio do leitor
Colaboradores Texto: Manuel Gonçalves da Silva, Manuel Halpern, Miguel Judas “POLÉMICA” DA MÚSICA
Ilustração: João Fazenda (Boca do Inferno), Susa Monteiro (António Lobo Antunes)
Centro de Documentação: Gesco
“VERSUS” RUÍDO
Redação, Administração e Serviços Comerciais: Rua Calvet de Magalhães, Basta de hipocrisia a invocar leis
nº 242, 2770-022 Paço de Arcos – Tel.: 214 698 000 Fax: 214 698 500 do “ruído”! O jovem Thiago [Thiago
Delegação Norte: Rua Conselheiro Costa Braga nº 502 – 4450-102 MATOSINHOS Tortaro, sobre o qual escrevemos na
Telefone – 220 437 001 edição 1293] vive deslocado num meio
PUBLICIDADE: Tel.: 214 69 8782 – Fax: 214 698 543 (Lisboa). Tel.: 2204375035 suburbano que nada tem de erudito...
– Fax: 228 347 558 (Porto). Maria João Costa (Diretora Coordenadora) Chamar a polícia para que o “génio”
Produção, circulação e assinaturas: Vasco Fernandez (Diretor), (com aspas de desdém) vá “martelar no
Nuno Carvalho, Nuno Gonçalves, Pedro Guilhermino e Paulo Duarte (Produtores). piano” para a garagem, demonstra bem
Helena Matoso (Coordenadora de assinaturas). a boçalidade inerente a uma “cultura”
Serviço de apoio ao assinante. Tel.: 21 469 88 01 do tipo “telenovela /futebol /Casa dos
(Dias úteis das 9h às 19h) – Fax: 214 698 501 Segredos”.
Aceda a Assineja.pt António Dias, Lisboa
Impressão: Lisgráfica – Casal de Sta. Leopoldina – 2745 Queluz de Baixo.
Distribuição: VASP MLP, Media Logistics Park, Quinta do Grajal. Venda Seca, 2739- CORREÇÃO
511 Agualva-Cacém Tel.: 214 337 000. No artigo Trabalhos Manuais para
Pontos de Venda: contactcenter@vasp.pt – Tel.: 808 206 545, Fax: 808 206 133
Tiragem média: 93 360 exemplares
A reabilitação urbana tem Gente Grande (V1298), escrevemos
Registo na ERC com o nº 112 348
Depósito Legal nº 127961/98 – ISSN nº 0872-3540
sido determinante para a que a Oficina 166 decorou um stand de
28 metros quadrados quando, na

Estatuto editorial disponível em www.visao.pt


construção civil e imobiliário realidade, eram 280. Por outro lado,
Diana Meneses Cunha desenvolveu a
porque veio dinamizar um arte do macramé com Natalie Miller e
não com Maryanne Moodie, especialista
setor que estava em crise
A Trust in News não é responsável pelo conteúdo dos anúncios
nem pela exatidão das características e propriedade dos produtos em tapeçaria. Aos leitores e à
e/ou bens anunciados. entrevistada, as nossas desculpas.
A respetiva veracidade e conformidade com a realidade, são da integral
e exclusiva responsabilidade dos anunciantes e agências ou empresas
publicitárias. Interdita a reprodução, mesmo parcial de textos,
profunda.
fotografias ou ilustrações sob qualquer meios, e para quaisquer Diamantino Reis, Portimão
fins, inclusive comerciais.

LOBO ANTUNES
As crónicas de António Lobo Antunes
são um hino à vida e um convite a
Contactos
entender a morte como caminho para CORREIO: Rua Calvet de Magalhães, 242,
a eternidade. As suas palavras são 2770-022 Paço de Arcos
gelo, fogo, terra e água abraçadas pela As cartas devem ter um máximo
ASSINATURAS música. Antes “que rezem pela minha de 60 palavras e conter nome, morada
alma pecadora”, a VISÃO podia editar
Ligue já as crónicas em livro, porque “ler faz
e telefone. A revista reserva-se
21 469 8801 bem”. o direito de selecionar os trechos
Dias úteis – 9h às 19h Ademar Costa, Póvoa de Varzim que considerar mais importantes.
vá a www.assineja.pt
4 VISÃO 25 JANEIRO 2018
CRÓNICA

Eu, pequeno
POR ANTÓNIO LOBO ANTUNES
ILUSTRAÇÃO: SUSA MONTEIRO

6 VISÃO 25 JANEIRO 2018


O
s berros dos pavões ao fim do dia na mata, ao – Tanta tralha para lavar senhores
mesmo tempo próximos e distantes, ao mes- um aspirador com vocação de sirene de ambulância,
mo tempo estranhos e humanos, a chamarem um bebé a palrar. Às vezes a minha tia cantava
25-01-18 10:36
por mim. Às vezes, já de luz apagada, escutava- Todos nós temos na vida
-os ainda conforme escutava, baixinho, a bu- uma ilusão mais querida
ganvília do quintal ao longo do muro e o ciciar uma ilusão de amor
das árvores. Meu Deus a quantidade de ruídos numa voz fininha, bonita. Pisei uma mancha de sol no
de que o silêncio é feito, uma constelação de chão, que se me pregou ao pé e caminhava comigo.
pingos de torneira, cochichos, vozes na sala, A cozinheira
longíssimo, passos em bicos de pés, de quando – Mais uma coisa para limpar não é?
em quando um riso, de quando em quando uma ameaça, que só a água da chuva dissolve quando cai lá fora en-
tudo tão alarmante, misterioso. Apetecia-me chamar quanto a nespereira, perto do muro, não cessa de tremer.
– Mãe O meu pai a colocar a gravata
e não chamava a fim de que os gatunos, escondidos – Já é tarde
nas pregas das cortinas não dessem por mim, transpor- sem se ralar com os gatunos que se calhar a cozinheira
tando-me para os poços e os compartimentos subter- varreu para debaixo do tapete ou reuniu na pá e despe-
râneos onde moram, puxando-me o jou no balde. Era uma velha para aí
braço de quarenta anos, ainda não com bi-
– Vamos levar-te conosco, rapaz, Aos domingos gode, uns pelitos só, o olho esquerdo
vamos levar-te conosco um primo gordo, um bocado desviado e a pálpebra
e eu aterrado, quieto, sem força
para chamar por socorro, à espera.
chamado Marciano, meio descida, cheia de desinteres-
se. Aos domingos um primo gordo,
Gatunos de olhos fosforescentes e vinha buscá-la à chamado Marciano, vinha buscá-la
unhas compridíssimas como a amiga
da minha irmã mais velha que traba-
tarde, cintilante à tarde, cintilante de brilhantina, e
sentavam-se num banco da praça
lhava na farmácia. Perguntava-lhes de brilhantina, e sem falarem um com o outro, lado
– Depois comem-me na cave, não sentavam-se num a lado apenas, com o primo Marcia-
comem?
e eles risos terríveis, parecidos com
banco da praça sem no a decapitar a cinza compridíssi-
ma do cigarro com a guilhotina do
lata que se esfregava em lata falarem um com o mindinho. Uma ocasião perguntei à
– Claro que sim, temos fome e pre-
cisamos de comer, aquele ali é o que
outro, lado a lado cozinheira
– Vais casar com o primo Marcia-
chupa os ossos apenas, com o primo no, La Salete?
comigo, incapaz de pedir socorro, Marciano a decapitar ela, de repente corada
a engolir lágrimas de aflição tentando
tornar-me microscópico nos lençóis, a
a cinza compridíssima – Nunca se sabe
a insistir com o fósforo no fogão,
fim de que os gatunos do cigarro com a que acabava por acender-se num es-
– Que é do catraio?
não dessem por mim e acabassem
guilhotina do mindinho trondo apocalíptico, capaz de sacudir
os quadros nos pregos. A minha avó,
por ir-se embora preocupada
– Amanhã apanhamo-lo de certeza – Qualquer dia matas-nos aqui a
com aquelas gargalhadas horríveis deles que se dis- todos, La Salete
solviam corredor fora, até sobrar apenas o pêndulo do a La Salete, que não gostava da minha avó
relógio para um lado e para o outro – No seu caso não era um grande desperdício
pum, pum e a minha avó uma semana sem lhe falar,
e nisto uma voz de pessoa crescida a abanar-me ofendidíssima.
– Acorda, garoto A minha mãe lá punha água na fervura
instalava de repente o dia na janela enquanto a figueira – Então, então
do quintal ia aumentando, aumentando, e uma voz no fim mas parecia-me mais ou menos inevitável que cedo ou
do corredor se aproximava com uma caneca de leite que tarde uma delas havia de enfiar a faca do peixe no umbigo
cheirava a paz da outra, o que não chegou a acontecer porque a minha
– Bebe isto depressa antes que ganhe nata avó faleceu de diabetes não dando chances à faca. Esteve
descendo-me a garganta. Pássaros no limoeiro, lagarti- uns dias no hospital e pronto. Então a La Salete jogou
xas no muro, paradas em atitudes de arranque, de pupilas a arma no balde e ninguém morreu lá em casa. Com o
cromadas. Como a infância é esquisita. O eco do meu pai desaparecimento da minha avó sumiram-se os gatunos
– Ainda não acordou, o preguiçoso? igualmente, que não me obrigavam a partir com eles.
num tom que, como era cedo, não tinha rugas ainda, De modo que hoje em dia sobro eu aqui e um único
à medida que a casa se ia enchendo de móveis e ruídos pavão na mata a chamar o fim do dia, tão próximo e dis-
domésticos felizmente inofensivos, loiças, vassouras, a tante, tão estranho e tão humano, de tal forma que me
voz da cozinheira sucede às vezes pensar qual de nós sou eu.

25 JANEIRO 2018 VISÃO 7


OPINIÃO
HISTÓRIAS
DA CAPA
A realidade
e os números
P O R R U I T A V A R E S G U E D E S / Diretor-executivo
1

1
Agora é oficial: 2017 foi o segundo maior tempestade de neve das últimas
ano mais quente do planeta Terra, duas décadas. Não se podia encontrar
desde que existem registos. Sabe metáfora melhor, de facto, quando a
qual foi o mais quente de todos? abertura da chamada Cimeira Econó-
O anterior, 2016, por influência do mica Mundial coincide, como habitual-
El Niño, um fenómeno climático mente, com a divulgação do relatório
cada vez mais recorrente e que anual da Oxfam, que revela como 82%
faz aumentar as temperaturas no da riqueza mundial está nas mãos do
oceano Pacífico. Ah, e o terceiro mais 1% de pessoas mais ricas do planeta –
quente foi o de 2015, dizem as medições grande parte das quais estão em Davos, Um tema como
da Organização Meteorológica Mundial. claro, no recanto frio de um mundo em este exige uma foto
de reportagem, que
Contas feitas, não restam dúvidas: os úl- sobreaquecimento. Uma certeza existe:
demonstre como se
timos três anos foram, de forma conse- serão os mais pobres as maiores vítimas
viu tudo por dentro.
cutiva, os três anos com as temperaturas do aquecimento global. E serão os mais Esta é boa, mas não
médias mais elevadas na Terra, desde ricos os principais beneficiados com transmite essa ideia
que se iniciaram estes registos, em 1880, a não adoção rápida de medidas para
confirmando um padrão contínuo de combater as emissões de gases com
aquecimento global. Se alguém ainda
está com dúvidas de que o nosso clima
efeito de estufa.
2

3
está mesmo a mudar, atente em mais O primeiro episódio de uma espécie
um dado: os cinco anos mais quentes de de reality show, que expõe crian-
sempre foram registados nos últimos ças em situações que deviam ser
oito anos. apenas do foro privado, foi visto por
Já sabíamos, desde há um ano, que os uma audiência de cerca de 1,4 milhões
cenários catastróficos que estes dados de espectadores. Após uma semana em
indiciam para o futuro – e que que se multiplicaram
já começamos a experimen- os protestos, foram
tar, no ano passado, de forma Serão os entregues mais de duas
trágica – não fazem parte das dezenas de queixas
preocupações do inquilino da mais pobres junto da Comissão Outra boa foto, que
Casa Branca. No entanto, o as maiores Nacional de Promoção revela como fomos
assistir a uma
mais preocupante é que Donald
Trump está cada vez menos
vítimas do dos Direitos e Proteção
das Crianças e Jovens,
missa “à antiga”.
sozinho na postura negacio- aquecimento e o coro de indignações
Também dava uma
boa capa!
nista das alterações climáticas. global varreu quase todas as
E até na Europa se começa a ordens profissionais
levantar o pé do acelerador dos que poderiam estar
esforços para tentar reduzir, o relacionadas com o
mais depressa possível, a emissão de ga-
ses com efeito de estufa. O último sinal
tema do programa, o segundo episódio
teve ainda mais espectadores a assistir.
3
foi dado pela Alemanha, onde o acordo Já vimos esse efeito acontecer muitas
de coligação negociado entre Ange- vezes, e é em tudo semelhante ao dos
la Merkel e Martin Schulz abandona o automobilistas que abrandam para ver
objetivo de diminuir essas emissões em o acidente do outro lado da autoestrada.
40% até ao ano 2020. O motivo: a ainda Muitas pessoas, sabemo-lo, têm uma
grande dependência das centrais a car- curiosidade mórbida pelas situações
vão, fundamentais para alimentar a forte mais trágicas, dramáticas e infelizes. Faz
indústria do país. parte da natureza humana, afiançam
alguns cientistas. Não devia, no entanto,

2
Com o mundo em aquecimento fazer parte da natureza e da prática de
acelerado, não é de estranhar que um órgão de comunicação social cujo Esta foto cumpre
os principais líderes da economia prestígio foi construído numa base de melhor os objetivos:
transporta-nos
mundial se reúnam numa mon- respeito ético pelas pessoas.
para o interior do
tanha isolada, que este ano sofre a rguedes@visao.pt
movimento e mos-
tra-nos dois dos
seus protagonistas

8 VISÃO 25 JANEIRO 2018


10 VISÃO 25 JANEIRO 2018
25 JANEIRO 2018 VISÃO 11
12 VISÃO 25 JANEIRO 2018
25 JANEIRO 2018 VISÃO 13
Ana Alexandra Carvalheira
Psicóloga e investigadora

Se a intimidade trouxer
proximidade e familiaridade
excessivas, sem espaço
para o sentido do eu, isso
pode perturbar e destruir
o erotismo, que está
ameaçado em várias frentes
CLARA SOARES DIANA TINOCO

14 VISÃO 25 JANEIRO 2018


A
As possibilidades de conhecer pessoas
são muitas mas, na vida acelerada
que temos, é pouco o espaço para
apreciar e ser apreciado. Que lugar
reservamos para o que desperta a
mente e os sentidos? A pergunta
foi feita pela então recém-formada
psicóloga, em meados dos anos
noventa. Vários estudos e trabalho
Afirma que a partilha e o
compromisso matam o erotismo.
Este está em vias de extinção?
O erotismo é como as impressões
digitais, cada um tem o seu. O que é
erótico para uns pode ser pornográfico
ou antierótico para outros. Se a
intimidade trouxer proximidade e
familiaridade excessivas, sem espaço
para o sentido do eu, isso pode
perturbar e destruir o erotismo, que
está ameaçado em várias frentes. Uma
é a banalização do sexo. Outra é a falta
de espaço e de tempo, que têm que ver
com o imediatismo em que vivemos
e a pequenez do espaço privado,
apropriado pela exposição e a esfera
públicas.
Como explica o sucesso de cenas
lésbicas em novelas de horário
nobre e fenómenos como a ficção
50 Sombras de Grey? Há pouca
literacia erótica?
A indústria dos fins de semana,
das escapadinhas e dos programas
gourmet, é suficiente?
São necessárias duas coisas: planear
o tempo e o lugar para o sexo, sem
ficar no registo do “não apetece” e,
internamente, investir na intenção.
Há quase 20 anos, o tema era
o cibersexo. Hoje abundam os
aceleradores de encontros, mas
começa a falar-se em exaustão,
desencanto e no fim do dating.
Quer comentar?
Há uma multiplicação de canais de
comunicação que começou com o
mIRC [Internet Relay Chat]. Depois
vieram as aplicações móveis. Temos
o imediatismo, o multitasking e
informação a mais, que chega, sob
a forma de imagem, texto e voz, por
várias portas de acesso. É tudo muito
cerebral, no online falta corpo e
interação física. O erotismo precisa do
clínico depois, o manifesto de Ana Não sei. O que posso dizer é que há toque, do cheiro.
Alexandra Carvalheira ganhou a pessoas com um património erótico Navegando em aplicações como o
forma de livro, prefaciado pelo seu pobre e que, sem imaginação, acabam Tinder, não faltam perfis sem texto
mentor, o médico Francisco Allen por entusiasmarem-se e satisfazerem- de apresentação, com fotos pouco
Gomes, conhecido como o pai da -se com pouco, indo ao encontro dos cuidadas. Isto reflete uma realidade
sexologia em Portugal. “Quis despir- estereótipos de género. O cliché do eroticamente pobre?
-me do papel de investigadora para homem sedutor, rico e dominador e a Sim, a sobre-exposição é tanta que,
ser a psicoterapeuta a escrever para menina inexperiente, deslumbrada e muitas vezes, nem chega a haver o
o público, sem o rigor que a ciência submissa... registo presencial, fica-se no plano
exige”, observa, enquanto bebe café Se o sexo é um barómetro superficial, no “poucochinho”. Isso
numa das salas do William James da relação, isso aplica-se a também pode resultar de uma
Center for Research, no ISPA relacionamentos casuais e a amigos insatisfação erótica com a vida sexual.
– Instituto Universitário, um pouco coloridos ou só aos relacionamentos Nunca se teve tanto e tão pouco.
antes da sessão fotográfica para esta estáveis? A pornografia mata o desejo?
entrevista, tendo a exposição de Luís Obviamente que este assunto diz Os conteúdos que oferece a qualquer
Herberto [As Máscaras de Alex] respeito às relações de compromisso, hora do dia e da noite, associados à
como cenário de fundo. Em Defesa onde há mais ameaças à mobilização masturbação, podem permitir que
do Erotismo (Saída de Emergência, da excitação sexual. Nos ritmos se constitua um padrão sexual a solo
224 págs., €15,50) a psicóloga aborda acelerados em que vivemos, uma que não exige o trabalho de estar
os temas do costume – desejo, sexo, relação de cinco anos é considerada de numa relação. Há homens jovens, em
orgasmo, amor – com descrições longa duração. relações de compromisso, que veem
de casos clínicos recentes e de A questão agora é como manter a aqui uma maneira fácil de aliviar a
voluntários, intercaladas com dados chama após cinco anos, em vez de tensão e perdem completamente o
de pesquisas e citações literárias. dez ou 20... interesse pela parceira.
Sabendo que cabe a cada um o desafio O problema é que, ao contrário do que Há um estudo seu, sobre o interesse
de encontrar o seu bem-estar erótico, sucedia há 20 ou 30 anos, queremos sexual masculino, que talvez faça
deixa esta mensagem: que não se tudo ao mesmo tempo: segurança e sentido abordar.
renuncie à atividade sexual “por aventura, conforto e risco. São coisas Foi em 2014, com uma amostra de
ignorância, falsas crenças ou medo”. contraditórias. O erotismo exige portugueses, noruegueses e croatas.
As crónicas sobre amor e sexo, no a conciliação entre compromisso, Verificou-se que aqueles situados na
site da VISÃO, refletem o que se segurança e liberdade. Ele flui no faixa etária entre 30 e 40 anos tinham
passa na sua clínica? movimento entre aproximação e o desejo sexual mais perturbado:
A sexualidade na idade sénior, afastamento, mas nunca na fusão. devido ao stresse profissional, à
o desejo masculino e o orgasmo A fase do afastamento é crítica ascensão na carreira, ao casamento,
feminino foram os temas que mais para muitos. aos filhos, aos divórcios.
leitura tiveram. Os dois últimos são Porque gera medo. É preciso alguma Voltando às aplicações de encontros,
os que mais aparecem nas consultas: segurança consigo próprio, porque ao sexting e afins: são um entrave ou
dificuldades com o desejo e a excitação isso é também atrativo para o outro. um facilitador do erotismo?
sexual, sobretudo nas mulheres, mas E depois há a novidade e o mistério, Servem para brincar, distrair, procurar
também em homens jovens. que fomentam a aproximação. parceiros casuais ou mesmo parceiros

25 JANEIRO 2018 VISÃO 15


para a vida. Massajam o ego, por vezes
são pensos rápidos para as feridas
Temos informação homens com próteses penianas.
O que encontrou?
da autoestima e da autoconfiança. a mais, que chega, Percebi que os homens mais velhos
Pode haver um sabor amargo ou não,
depende das expetativas. Pergunto a
sob a forma ainda associam muito a masculinidade
à função erétil e, por isso, ficam
amigos sobre o erotismo que pode haver de imagem, texto satisfeitos com as próteses, que lhes
nesses contextos. Os ingredientes do
erotismo estão todos lá, a transgressão,
e voz, por várias devolvem a autoconfiança.
Há muitas mulheres mais velhas
as sensações criadas, a imaginação portas de acesso. que estão sós…
– mas são superficiais. Só no face a face
ficam sujeitos ao teste, às vicissitudes do
É tudo muito E mais viúvas do que viúvos. As
mulheres têm muito mais dificuldade
erotismo ou da falta dele. cerebral, no online em encontrar um parceiro porque há
Porque é que se estuda pouco
esta área, sobre o que estimula o
falta corpo e uma assimetria demográfica, ou seja,
existem menos homens em faixas
prazer em detrimento do que não interação física. etárias avançadas.
funciona?
Ainda há uma tendência para ver a
O erotismo precisa As mulheres enfrentam ainda o
medo de serem trocadas por outras
sexualidade como uma patologia, do toque, do cheiro mais novas...
até por interesses da indústria Os homens vão ter de aprender a
farmacêutica, que é o motor da erotizar o envelhecimento físico de
investigação a nível mundial. uma mulher a partir dos 45 anos e
O erotismo é o coração da sexualidade, a comunicação social tem aí uma
mas a ciência não agarra este conceito responsabilidade enorme. Os milhões
por ser multifatorial e difícil de gastos em campanhas anti aging… não
operacionalizar. seria mais interessante usá-los para
É uma aficionada do tango. aceitar o envelhecimento? Eu, que
Como despertou para esse universo tenho agora 46 anos, estou a preparar-
e o que a cativa nele? me para viver o meu envelhecimento da
O tango é um exercício de perda de nunca chegam a homens, como na melhor forma possível.
controlo e de entrega ao outro – de expressão ‘boys will be boys’? Tem vindo a dedicar-se ao
aceitar a proposta de quem lidera, Não há erotismo num rapaz que não mindfulness, ou atenção plena,
permitindo-me ter o papel de se faz homem. Quero educar o meu área em que é certificada. Isso teve
seguidora na dança. Transporta-me filho, agora com sete anos, e ajudá-lo impacto no seu quotidiano?
para o corpo, faz-me desligar do papel a crescer, a ser um homem livre, capaz Tenho a minha prática pessoal, que
analítico e intelectual. O tango, nos de evoluir e de ser objeto de desejo iniciei há onze anos, e mantenho
dias de hoje, é um palco interessante de outras mulheres. Num contexto alguma regularidade. Os benefícios
onde mulheres que exercem um papel heterossexual, as mulheres gostam são inquestionáveis e traduzem-se na
dominante na sua vida se permitem de homens com alma feminina e um capacidade de usufruir das experiências
descansar desse papel, deixar que menino dentro, que só apareça às estando mais focado. Essa experiência
seja o outro a liderar, sem que isso se vezes. No Sul da Europa, muitos só suavizou-me, permitiu-me reduzir
confunda com submissão. largam a mãe depois dos trinta, os níveis de crítica e de dureza, estou
Dizia-se que o feminismo tinha o que dificulta as coisas. Lembro-me mais querida comigo própria [risos].
os dias contados. Os movimentos do que ouvi de Coimbra de Matos O mindfulness está a assumir uma
#Metoo e #Time'sUp, que (médico e psicanalista): os homens importância grande na minha vida e, por
surgiram na sequência da onda que ainda namoram com a mãe isso, comecei a ensiná-lo, em grupos.
de denúncias de assédio feitas por não conseguem foder com mulher O mindfulness vai consigo para a
figuras públicas, são de alguma nenhuma. É absolutamente antierótico. prática clínica?
forma o renascer do feminismo? Que desafios enfrenta quem já está Sim, uso-o com alguns clientes.
Os homens têm uma palavra a na faixa etária dos 50? Há quem os Prescrevo a mulheres que têm
dizer? considere precocemente seniores, o dificuldades de excitação e estão muito
Sim, os homens terão uma palavra a que também não abona a favor. desligadas do seu corpo. Ajuda-as a
dizer. Contudo, é complicado falar Os seniores enfrentam vários ligarem-se aos estímulos sexuais e a
sobre isso porque há muita indefinição desafios, dificílimos, sendo um terem prazer. Também uso em casos de
dos papéis de género nesta fase deles a capacidade de sobreviver ansiedade, fora do âmbito sexual.
de transição, em que os modelos aos estereótipos, como o de que a O que é, para si, o momento erótico
emergentes coexistem com outros sexualidade e o desejo acabam aos ideal?
mais antigos. Persistem fenómenos 50 ou com a menopausa. Muito Uf! [Pausa.] Ocorrem-me várias coisas:
velhos como a violência, o assédio, pelo contrário, é possível abrir-se à um momento na natureza, no bosque,
a objetificação e a desvalorização da novidade, enriquecer o património na praia ou no mar. Pode acontecer
mulher. erótico – que vai para lá do coito quando estou sozinha e o corpo está
Pergunto à terapeuta e mãe de um vaginal – e salvar o erotismo! mais desperto e recetor de sensações.
rapaz: os tempos estão difíceis Há dois anos publicou uma Agora, para ser ideal, é na presença de
para eles? Como vê os rapazes que investigação sobre a satisfação dos um outro, o parceiro.

16 VISÃO 25 JANEIRO 2018


RADAR

> Presidente Weah


Foi o único africano a ganhar
o título de melhor jogador
do mundo pela FIFA, em
1995, e agora assume outro
campeonato: liderar um país.
Perante 35 mil pessoas,
George Weah, 51 anos, tomou
posse como novo chefe
de Estado da Libéria, sua
terra-natal – e num campo de
futebol. “Passei muitos anos
dentro de estádios, mas o que
sinto hoje é incomparável”,
disse, ele que dias antes
não resistira a um pezinho
de bola no relvado, entre os
seus Weah All Stars e uma
equipa do exército. O ex-
-jogador venceu as eleições
de dezembro com 61,5%
dos votos e sucede a Ellen
Johnson – a primeira mulher
a ser eleita Presidente de
um estado africano, Nobel
da Paz em 2011 e que batido
Weah numa primeira tentativa
de chegar à presidência em
2005, finda uma guerra civil
que durava desde 1989 e
vitimou 250 mil pessoas.

Foto: Issouf Sanogo/AFP


/Getty Images

18 VISÃO 25 JANEIRO 2018


25 JANEIRO 2018 VISÃO 19
> Em protesto
É nas Honduras e não há
meio de se vislumbrar
o fim da contestação à
anunciada tomada de posse
do Presidente do país Juan
Orlando Hernandez. Para
os apoiantes da Aliança da
Oposição contra a Ditatura,
como a que vemos no centro
da imagem, a vitória é do seu
candidato, Salvador Nasralla,
tudo o resto é fraude eleitoral
e terror instalado para conter
a indignação do povo. Os
manifestantes bloquearam
ainda diversas estradas com
veículos e pneus queimados.
Atacados com bombas de gás
lacrimogéneo, responderam
atirando pedras. O protesto
ficou ainda marcado por uma
morte, Anselmo Villareal de
seu nome, no Nordeste do
país, onde a polícia disparou
sobre os manifestantes à
altura da cabeça. O idoso
atravessava a estrada quando
foi atingido.

Foto: Orlando Sierra/AFP


/Getty Images

20 VISÃO 25 JANEIRO 2018


25 JANEIRO 2018 VISÃO 21
> Fumo, lava e magma?
O seu cume com a forma de
um cone quase perfeito é
considerado ainda mais belo
do que o do Monte Fuji, no
Japão – e desde esta segunda-
-feira, 22, que a atenção das
autoridades das Filipinas
está naquele topo do vulcão
Mayon, a largar fumo e lava.
Perante a ameaça iminente
de uma erupção explosiva,
foi elevado o alerta para o
nível 4 e retiradas milhares
de pessoas de suas casas,
num raio de sete quilómetros
do local, a mais de 300
quilómetros da capital, Manila.
A sua erupção mais destrutiva
ocorreu em fevereiro de 1841,
quando a lava soterrou por
completo uma cidade e matou
mais de mil pessoas. Mais
recentemente, a sua última
investida, em 2014, já tinha
obrigado as populações em
volta a procurar abrigo. Com
23 vulcões ativos, as Filipinas
assentam numa zona de
intensidade sísmica conhecida
como o 'Anel de Fogo' do
Pacífico.

Foto: Jes Aznar/Getty Images

22 VISÃO 25 JANEIRO 2018


25 JANEIRO 2018 VISÃO 23
RAIOS X

A loja do futuro? No espaço físico da Amazon Go, que abriu esta


semana em Seattle, faça tudo você mesmo: entrar,
escolher e levar. E sem usar dinheiro vivo

C L A R A S O A R E S csoares@visao.pt

Pegar ou largar E a privacidade?

167 m 2
Sem carrinhos É uma questão
nem filas para de tempo até que
pagar. Se mudar de nada disto seja
ideias, as câmaras uma novidade. A
captam os seus lógica Big Brother
À primeira vista, movimentos e veio para ficar e há
pode parecer que anulam a compra. que lidar com ela.
está a entrar numa
estação de metro.
A diferença é
que, ao passar os
portões, encontra
os produtos da
loja virtual que
já conhece. E ao
mesmo preço. No
caminho há ainda
prateleiras com
comida e bebidas

3,5
da cadeia Whole
Foods, adquirida
pela Amazon.

Mil Milhões
Operadores de caixa nos Estados
Unidos da América, em 2016. Ainda
não se sabe que impacto terá
este modelo se for alargado
a outros setores de
retalho.

Self-service Consumir sem dar conta Carteira? Não é preciso


Desde segunda-feira, dia 22, é possível tratar Se já é difícil resistir ao impulso Basta aproximar o telemóvel do sensor
de tudo com o seu smartphone no novo da compra em espaços que e o sistema lê e identifica os produtos
espaço fisico da Amazon. Se funcionar, o novo estimulam a necessidade, como nas prateleiras. Se esconder um item, ele é
formato pode ser replicado nas 13 livrarias será sem transação física nem debitado na mesma à saída. Até sair, não tem
dos EUA onde a Amazon opera. peso na consciência ao pagar? de falar com ninguém, a menos que precise...

24 VISÃO 25 JANEIRO 2018


LIVRO
GRÁTIS
NA PRÓXIMA
SEMANA COM
A VISÃO

AS CRÓNICAS E AS ASSINATURAS
QUE RECORDAM A HISTÓRIA DA NEWSMAGAZINE
MAIS LIDA EM PORTUGAL
7
PONTOS DA SEMANA

POR
FILIPE LUIS*
TIAGO MIRANDA

A “PRIMEIRA” COISA A FAZER


Se há discursos em que se deve prestar Rio, caso o novo líder da oposição venha
mais atenção às entrelinhas do que ao a viabilizar um outro Governo minori-
conteúdo principal, o de António Costa, tário do PS: uma segunda coisa a fazer
esta segunda-feira, no jantar das jorna- seria, pressupõe-se, aceitar essa cola-
das parlamentares do PS, é um exemplo boração... Ou, melhor ainda, conquistar
perfeito: “Quando se está no bom cami- uma maioria absoluta e dispensar boas
nho, só há uma coisa a fazer que é não ou más companhias.
mudar de caminho. Quando se está bem A simples eleição de Rui Rio gerou, na
acompanhado, não se muda de compa- última semana, algum ruído entre os
nhia. E por isso a primeira coisa a fazer partidos que apoiam o Governo, perante
[sublinhado nosso] é seguir o caminho o silêncio – até ao citado jantar – dos
que iniciámos há dois anos com a com- principais responsáveis socialistas. O PCP
panhia que temos há dois anos.” Para analisou a nova situação política na re-
demonstrar que não usava a fórmula por união do seu comité central e começou,
acaso, repetiu-a logo na frase seguinte, logo a seguir, a pressionar o PS, mani-
ao falar do “primeiro objetivo” de manter festando desconfiança face aos perigos
os acordos à esquerda. Ora, quando se do diálogo à direita. Catarina Martins
diz que há um primeiro passo, ou um também deixou cair algumas declara-
plano principal, quer dizer que pode ções, mas estas pela positiva, reclaman-
haver outros passos, ou outros planos, do os sucessos da atual solução política.
no seguimento do primeiro ou em sua Na verdade, Rui Rio nunca falou de um
alternativa. A intervenção de Costa foi Bloco Central, ou de uma coligação, mas
a primeira declaração pública após a da viabilização de um Governo minori-
eleição de Rui Rio como presidente do tário do PS, permitindo aos socialistas
PSD e depois do pequeno “tumulto” le- dialogarem com todo o hemiciclo e não
vantado, à esquerda e à direita, perante a apenas com uma parte dele. E, quanto
simples hipótese de se poder constituir, muito, acordar com o PS alguns pactos
no futuro, um novo Bloco Central. de regime para grandes reformas. Mas
Sibilino quanto baste, António Costa estas intenções foram o que bastas-
quis descansar, sem descansar, os seus se para que o nervosismo se instalasse,
parceiros à esquerda. Enquanto as coisas perante algum gáudio maldisfarçado do
correrem bem, manter a companhia é a primeiro-ministro. Que, com todas as le-
primeira coisa a fazer. Mas a declaração tras, vem agora definir a manutenção da
não bate com a porta no nariz de Rui geringonça... como a sua primeira opção.
*Editor Executivo
fluis@visao.pt

26 VISÃO 25 JANEIRO 2018


58
NÚMERO FRASE

Entre ser um bom treinador e um bom homem,


prefiro ser um bom homem. Andamos a
plantar o ódio e a violência e o futebol não é
isso. O futebol (...) tem de unir as pessoas”
Abel Ferreira, treinador do Sporting de Braga

milhões
de euros
FISSURAS
É quanto a Câmara
de Lisboa terá de
desembolsar para
Estoril open
devolver a 223 Uma bancada do
mil famílias a taxa Estádio António
de proteção civil Coimbra da Mota
indevidamente apareceu com rachas,
cobrada nos últimos há duas semanas,
dois anos. Esta mas o caso continuou
semana, a CML a dar que falar, esta
anunciou o reembolso semana, perante um
para a segunda relatório do LNEC não
quinzena de fevereiro, totalmente conclusivo.
depois de, há cerca de Finalmente, soube-se
um mês, o Tribunal que os 45 minutos mais
Constitucional ter mediáticos da principal
GOLEADOR
considerado a taxa liga portuguesa – a
inconstitucional. Já começas, Mário Centeno? segunda parte do Estoril
Praia-FC do Porto – se
“Marcou um belo golo!”, eis como o comissário para a realiza a 21 de fevereiro,
Economia, o socialista francês Pierre Moscovici, sintetizou cinco semanas depois
ROLHAS
a “exibição” do “Ronaldo das Finanças” durante a sua da primeira, em que os
O sobreiral primeira reunião do Eurogrupo, enquanto presidente
daquele organismo informal. E os elogios – que foram
canarinhos venciam
por 1-0 (antes de o
de Leiria quase unânimes entre os presentes –, não se terão devido jogo ser interrompido).
Com alguns jogadores
apenas à forma eficaz como o português coordenou a
O primeiro-ministro reunião. Na verdade, Centeno protagonizou a decisão transferidos, outros
António Costa plantou do encerramento da 3ª revisão do programa grego de lesionados, será
esta semana um sobreiro ajustamento, elogiando a Grécia pelos progressos mas impossível manter a
na zona ardida do... exortando-a a acelerar as reformas, se quiser receber a ficha de jogo original,
Pinhal de Leiria. O gesto 4ª tranche da ajuda. Onde é que já ouvimos isto?... o que coloca um
simboliza uma alteração problema de verdade
de fundo no âmbito da desportiva. Será que
reforma da floresta. CIMEIRA a época 2017-2018
Afinal, o velhinho ainda ficará conhecida
Pinhal, plantado, pela
primeira vez, nos
Davos para quê? pelo “campeonato da
fissura”?...
tempos de D. Dinis,
pode ser replantado, na Convinha, já agora, que os população do planeta.
área devastada pelos líderes mundiais e presi- À atenção de António Costa
incêndios de 2017 (80%), dentes de multinacionais se (que, na terça-feira, se reuniu
com mais sobreiros do lembrassem, no intervalo com o Presidente de Angola,
que pinheiros. do suculento e algo secreto João Lourenço), mas, so-
Não deixa de ser programa de diversão à bretudo, de Merkel, Macron
esquisito, mas o bosque margem de Davos, do rela- e Theresa May, que estarão
sempre serviu de tório da OXFAM, que revelou hoje, quinta-feira, na Suíça.
tampão contra as areias um número chocante: 80% Já sobre Donald Trump, que
sopradas pela nortada. da riqueza mundial, quatro deve aparecer amanhã, nem
De rolha, no fundo. quintos, é detida por 1% da vale a pena ter esperanças.

25 JANEIRO 2018 VISÃO 27


HOLOFOTE

Hugo Vau O domador de gigantes


No topo
O SURFISTA PORTUGUÊS do mundo

CONQUISTOU UMA Este ano, ao fim


de uma década
ONDA NA NAZARÉ QUE a cavalgar o
mar da Nazaré,
PODE TER OBLITERADO aconteceu o seu
maior momento
O ANTERIOR RECORDE Quase a desistir de sempre:
no dia 17 de
Da piscina Ondas MUNDIAL – 35 METROS, Hugo tinha
decidido fazer janeiro, apanhou
ao mar
Os primeiros
de 3 metros
Em 2003, Hugo CONTA-SE. É A VITÓRIA carreira no surf
mas, como as
a chamada Big
Mamma, que
contactos a sério
de Hugo Vau com
Vau foi de férias
ao México, onde
DA PERSISTÊNCIA, coisas não lhe poderá ter atingido
os 35 metros. “Tive
a água foram a
antítese do que o
experimentou
uma modalidade
DIZ HUGO corriam bem,
esteve prestes a sorte. Quer dizer,
desistir. Até que, a sorte é quando
tornaria conhecido: desconhecida em LUÍS RIBEIRO a preparação
em 2011, recebeu
os seus mergulhos Portugal: o tow-in encontra a
uma chamada do
eram nas águas surfing, em que o ocasião, e isto foi
americano Garrett
domesticadas das surfista é levado o resultado de
McNamara, para
piscinas, não no até à onda muito trabalho: ao
fazer parte da sua
mar indomável. de mota de água. fim de dez anos
equipa de big wave
Cedo se tornou No regresso, apanho esta onda,
surfers na Nazaré.
nadador de depois de algumas uma onda de que
Três anos mais
competição, mas pesquisas na os pescadores
tarde, Hugo era
aos 18 anos decidiu internet, passou falavam, mas que
nomeado com
trocar os tanques a ir com um amigo eu só a tinha visto
uma onda com
pelas ondas da para a zona entre uma vez, com a
mais de 20
Costa da Caparica. o Farol do Bugio mesma formação
metros para
“Gostava mais da e a Costa da e naquele sítio.”
o Billabong
praia do que de Caparica, onde E agora? O que faz
XXL, que
contar azulejos”, havia ondas um homem depois
premeia as
recorda. O lisboeta, grandes – de chegar ao topo
maiores vagas
hoje com que, com os do mundo, quando
do ano.
40 anos, passou seus 3 ou já não há mais
a ser presença 4 metros, para subir? “Vou
habitual na Costa, hoje lhe à procura da Big
tentando imitar, parecem Grandmamma”,
afoito, os surfistas pequenas. brinca.
mais velhos com
quem se dava.
Daí passou para
o Baleal, onde se
encontram vagas
que já impõem
o seu respeito,
mais indicadas
para surfistas
experientes.
Mas seria fora
de Portugal que
conheceria o seu
projeto de vida.

28 VISÃO 25 JANEIRO 2018


ALMANAQUE

F I O M E N TA L

Nem tudo o que parece, é!


(e vice-versa)

MITO
O papel é mau para
o ambiente

O lado negro do glitter


Não há post no Instagram ou desfile de moda sem pozinhos de
purpurina – esquecendo o seu impacto ambiental e o facto de um dos
seus componentes ser produzido recorrendo a mão de obra infantil...
Glitter ou purpurina, variedades escoadas depois de um banho. Ao
muito pequenas de plástico e outros chegarem ao oceano tanto prejudicam REALIDADE
materiais, com cores néon e iridescentes a fotossíntese das algas como podem O papel é um dos
para refletir a luz. Tanto é usado no ser engolidas por peixes, tartarugas e poucos produtos
artesanato como em cosméticos. Nos outros animais. Outros acidentes vêm verdadeiramente
últimos anos, invadiu as redes sociais sublinhar o risco escondido nestes sustentáveis. É natural
e as passerelles. Segundo a revista materiais: uma mulher numa pequena e renovável: à medida
americana The Cut, a ideia de brilho cidade do País de Gales ia ficando cega que as árvores crescem
a mais não existe. Durante a Semana ao abrir um postal de Natal depois de vão absorvendo
de Moda da capital britânica, o estilista uns pozinhos lhe terem entrado para dióxido de carbono da
Ashish Gupta vestiu mesmo uma das o olho. Outra moda que andou por aí atmosfera. Além disso,
modelos com uma camisola a dizer: dizia respeito a brincadeiras de cama enquanto produto com
“Mais glitter, menos Twitter.” Mas, e incluía vaginas cheias de purpurina. origem na madeira,
alertam uma série de ambientalistas Os avisos dos ginecologistas não o papel continua
citados pelo The Guardian, no meio de demoraram. a armazenar carbono ao
todo este brilho tem sido esquecido o A rematar, um dos seus componentes longo da sua existência.
material de que é feito – e cujo nome é sobretudo extraído de umas minas Por outro lado, a
diz tudo: microplásticos, partículas ilegais na Índia, onde se estima indústria do papel segue
minúsculas que não podem ser que empregue 20 mil crianças. Há várias certificações
recolhidas e levam centenas de anos já algumas fábricas a optarem por florestais que garantem
que o papel consumido
para se decompor na natureza. Devido sintetizar mica, esse tal mineral, em
provém de fontes
ao seu tamanho, não são filtradas laboratório. Mas há dúvidas de que
sustentáveis – 2,1 mil
pelas estações de tratamento, quando isso resolva tudo... milhões de hectares,
ou 52% das florestas
mundiais, são geridos
desta forma. Nem

24 anos
NÚMERO
sequer no processo
de transformação há
valores indesejáveis
de poluição: os setores
do papel, da pasta e
da impressão emitem
apenas 1% dos gases
Idade em que acaba a adolescência, decretou a The Lancet
com efeito de estufa
Child & Adolescent Health, na última edição, depois de
a nível mundial.
assinalar que também passou a começar mais cedo (10
Afinal, estamos perante
anos? Socorro!). Esta fase de grandes mudanças chega
um produto mais que
agora muito antes dos 14 anos, devido à melhoria dos
virado para o futuro.
cuidados de saúde – e foi prolongada até bem depois do Fonte: iniciativa Two
momento em que se é considerado adulto, porque o corpo Sides/ uso responsável
humano continua a desenvolver-se: o cérebro chega do papel impresso
à maturidade para lá dos 20 e os dentes do siso muitas
vezes só aparecem perto dos 25.

25 JANEIRO 2018 VISÃO 29


INBOX

M O D É S T I A À PA R T E

O PS está em
boas condições
para liderar Vivi um
uma renovação
do socialismo ambiente de
democrático
JORGE SAMPAIO terrorismo
sexual com
Alto Representante da ONU
para a Aliança das Civilizações,
socialista

treze anos
NATALIE PORTMAN
Atriz americana revelou na Marcha
das Mulheres os traumas por que passou
ao saltar para o estrelato pelo seu papel
em León, o profissional, filme de 1994
dirigido por Luc Besson

Já não queria saber


da natação para nada,
já não queria estar FRASE DA SEMANA
mais vivo
MICHAEL PHELPS
Campeão olímpico de natação, Não durmo
a confessar que ponderou
suicidar-se em 2012 descansado
enquanto temos
Relações diplomáticas
entre Portugal e
700 mil utentes
Angola são excelentes C H O Q U E F R O N TA L sem resposta
AUGUSTO SANTOS SILVA
Ministro dos Negócios
estruturada
Estrangeiros FERNANDO ARAÚJO
Secretário de Estado adjunto e da Saúde,
a assumir que uma boa parcela da população
não tem médico de família
Uma sentença não
é um trabalho de autor
ANTÓNIO HENRIQUES GASPAR
Presidente do Supremo Tribunal
de Justiça

Sim, abusou Nunca abusei da


sexualmente de minha filha.
Existe a ideia de mim. O meu pai A família Farrow
que o ambiente é mente usa cinicamente
um empecilho ao DYLAN FARROW o pin Time's Up
desenvolvimento Filha biológica do
realizador e da sua
WOODY ALLEN
Realizador americano
económico antiga mulher Mia a comentar a acusação
FILIPE DUARTE SANTOS Farrow, a lembrar o que pende sobre ele
Especialista em clima, episódio que ocorreu desde 1992
presidente do Cons. do Ambiente quando tinha sete anos
e Desenvolvimento Sustentável

Fonte: CBS, Diário de Notícias, Expresso, Jornal de Negócios, Lusa, El País, TSF
30 VISÃO 25 JANEIRO 2018
TRANSIÇÕES

MORTE
Foi a mulher que inspirou
esse ícone cultural conhecido
como Rosie, a rebitadeira,
popularizada numa imagem
a garantir que “tudo era
possível”, e entretanto tor-
nada símbolo do feminismo.
Naomi Parker Fraley, que
nasceu em Tulsa, no Oklaho-
ma, a terceira de sete filhos
de um engenheiro de minas e
de uma dona de casa, foi das
primeiras mulheres a empre-
gar-se numa base naval na
Califórnia, pouco depois do
ataque japonês
a Pearl Harbor, em 1941. No
ano seguinte, posou para uma
fotografia a usar uma ban- PA U L B O C U S E 1 9 2 6 -2 0 1 8
dana vermelha às bolinhas

Com ele começou a “nouvelle cuisine”


cor de rosa, imagem que foi
publicada em diversos jornais
e revistas do mundo inteiro,
chamando assim a atenção
do artista J. Howard Miller
que a estampou num cartaz. Muitas lágrimas correram nas redes sociais depois do anúncio da sua
Durante muito tempo, acredi- morte, pelo ministro do Interior. Logo a seguir, o Presidente Macron
tou-se que a ilustração tives- descreveu-o como a “encarnação da cozinha francesa”
se sido baseada numa foto da
modelo Geraldine Doyle que, O que dizer de um homem que restaurantes que manteve abertos
durante um breve período, morreu no mesmo quarto onde pelo mundo. Nem por acaso, diz-se,
no mesmo ano de 1942,
nasceu, na pequena localidade foi fonte de inspiração para Remy,
trabalhou como operária da
francesa de Collonges-au-Mont d'Or, o rato aspirante a chefe de Ratatui,
American Broach & Machine
Co. Mas há meia dúzia de
91 anos depois? No mínimo, que é um o filme da Disney que se passava
anos foi possível confirmar conservador. Na realidade, seria um numa cozinha francesa (um dos seus
que Naomi era a verdadeira adjetivo que Paul Bocuse não gostaria negócios é o Le Mond de Rémy, que
Rosie. Trata-se do cartaz nada de ler no seu obituário e com fica na Disneyland de Paris). O mais
que representa as mulheres o qual não poderiam concordar os emblemático restaurante, L'Auberge
americanas empregadas em milhares de seguidores e fãs. du Pont de Collonges, perto de Lyon,
estaleiros e fábricas durante A razão é simples: antes de morrer, que hoje já é gerido pelo seu filho
a Segunda Guerra Mundial, neste 20 de janeiro, em consequência Jeróme, nunca perdeu as três estrelas
substituindo os homens que da doença de Parkinson, o cozinheiro Michelin, conquistadas em 1965.
haviam partido para o campo francês, que começou a trabalhar Nos anos 1990, o chefe abriu
de batalha. Depois da guerra, aos 15 anos e combateu na II Guerra o Instituto Paul Bocuse, em Ecully,
Fraley trabalhou como em- Mundial, já era considerado “o papa onde se têm formado muitos
pregada de mesa na Califór- da cozinha francesa”, “o percursor na cozinheiros de várias nacionalidades.
nia e casou-se por três vezes. nouvelle cuisine”, “o primeiro chefe- Também perpetuou o seu nome com
Dia 23, aos 96 anos. -celebridade”, “uma lenda da o prémio Bocuse d'Or, instituído
culinária” ou “um Johnny Halliday da em 1987 e considerado por muitos
comida”, só para citar alguns elogios como um campeonato mundial de
que se leram nas redes sociais nos dias gastronomia. Mas, para a posteridade,
a seguir ao seu desaparecimento. além de todos aqueles nomes que
A sua figura imponente colava bem lhe chamaram na hora da morte, há
com o temperamento exaltado de ficar o de Chef do Século, título
descrito por alguns dissidentes unânime, atribuído pelo The Culinary
das suas equipas dos mais de 20 Institute of America. Luísa Oliveira

25 JANEIRO 2018 VISÃO 31


O desafio é
cruzar o Governo,
empresas
PRÓXIMOS CAPÍTULOS
e instituições
de caridade, para
durar uma
geração

PERISCÓPIO

BARRAGEM
Valha-nos o mar!
Durante o Cascais Press Preview, um
acontecimento já clássico, organizado pela
respetiva Câmara Municipal, para dar a conhecer
o programa de eventos na vila cascalense
durante o ano, o seu autarca, Carlos Carreiras, foi
insistentemente interrogado sobre o nível do seu
apoio – ou não – ao novel presidente do PSD, Rui
Rio. Enxotando os curiosos, Carreiras vincava que
Cascais não tem rio, apenas mar.
E complementava: “Coisa que Lisboa não tem,
só tem rio.” E sobre os benefícios, para Cascais,
do crescimento do turismo na capital? Carreiras
foi perentório: “Lisboa tem muita sorte em
beneficiar da circunstância de encontrar-se na
periferia de Cascais...”

EMENTA
Conversa urbana
REINO UNIDO Os deputados já tinham abandonado o hemiciclo.

Um Ministério para a Solidão


Era sexta-feira, e o plenário tinha terminado
antes da hora de almoço. O ambiente à saída era
descontraído, e os convites entre deputados para
irem almoçar ao sítio X ou ao local Y eram fáceis
de se ouvir. Bem-dispostos – certamente com a
Segundo os britânicos não há dúvidas: trata-se chegada do fim de semana –, os parlamentares
de um problema grave que torna os doentes mais iam saindo da Assembleia da República a
conta-gotas e, em muitos casos, acompanhados.
vulneráveis a infeções virais Sérgio Sousa Pinto e Constança Urbano de Sousa
desciam juntos no mesmo elevador, enquanto
“Para demasiadas pessoas, a solidão é a triste realidade da falavam de bons restaurantes nas imediações
vida moderna”, explicou Theresa May, a primeira-ministra, para almoçarem. Depois de enumerarem alguns,
em comunicado, no dia 19, quando anunciou a mais recente o deputado socialista disse, como se de um
inovação do seu Governo: um Ministério da Solidão, que vai lamento se tratasse: “Acho que vou começar
ser dirigido por Tracey Crouch, a acumular com o cargo de a trazer marmita.” É um problema trabalhar
subsecretária de Estado para o desporto e sociedade civil que no centro de Lisboa...
já desempenhava. As funções na nova ministra vão passar por
liderar um grupo intergovernamental que terá
a responsabilidade de dirigir a ação sobre a solidão em todas
as partes do Governo – e mantê-lo na agenda. “A verdade é que
não se trata de um problema singular. Afeta pessoas de todas as
idades, com e sem deficiência, recém-mamãs, refugiados, quem
tem família chegada e quem não tem, e não tem uma solução
simples. O meu desafio é o de criar e coordenar uma estratégia
que cruze o Governo, empresas,
instituições de caridade e muitos outros
parceiros para durar uma geração”,
UM ESTUDO DA explicou Crouch, no seu perfil de
Facebook, recordando ainda o empenho
UNIVERSIDADE desenvolvido pela trabalhista Jo Cox. Cox SUSPENSE
DE CAMBRIDGE foi uma das principais impulsionadoras
dos estudos da solidão nos últimos anos
Decidimos decidir
Uma das grandes incógnitas que pairam no PSD
ACRESCENTA e criara mesmo uma comissão dedicada com a eleição de Rui Rio é a de quem irá ser
QUE AS PESSOAS ao assunto, antes de ser assassinada
em 2016. Um primeiro relatório dessa
o líder do grupo parlamentar laranja. Hugo
Soares, atual presidente da bancada, reuniu-se
SOLITÁRIAS comissão aventa que nove milhões com o futuro líder do partido na passada segunda-
SÃO 50 % MAIS de adultos estão frequentemente, ou
sempre, solitários e que 3,6 milhões de
-feira, dia 22, para abordar o assunto. A decisão
saída do encontro foi a de decidir... mais tarde,
PROPENSAS pessoas com pelo menos 65 anos vêm na depois do congresso de fevereiro. A incógnita vai
andar por aí.
A TEREM UMA televisão a principal forma de companhia.
A estratégia final vai ser publicada
MORTE PRECOCE durante este ano.
32 VISÃO 25 JANEIRO 2018
OPINIÃO

Fábrica de lingerie
e de dignidade
P O R R I T A R A T O / Deputada do PCP

F
oi um dos filmes de 2017, na Quinzena dos e estão há mais de 20 dias à porta da empresa para
Realizadores em Cannes venceu o Prémio da não permitir a saída de qualquer equipamento e
Crítica, arrebatou o Prémio CineVision em material, última garantia do pagamento dos seus
Munique e foi indicado para o Prémio Espí- direitos. Não receberam salário de dezembro nem
rito da Liberdade, em Jerusalém. A Fábrica subsídio de Natal, não vão receber salário de janeiro,
de Nada é a primeira longa-metragem de têm ainda em falta 5 dias de salário de novembro e
Pedro Pinho construída a cinco mãos com outros créditos laborais.
João Matos, Leonor Noivo, Luísa Homem A onda de solidariedade tem sido importante, mas
e Tiago Hespanha, a partir de uma ideia ini- a ausência de rendimentos gera situações sociais
cial de Jorge Silva Melo e da peça de teatro dramáticas e as dificuldades das famílias avolumam-
de Judith Herzberg. Foi rodado na cintura industrial -se a cada dia que passa. Por proposta do PCP, foi
de Lisboa, hoje mais cemitério industrial, e conta de aprovada por unanimidade, na Assembleia da Repú-
viva-voz histórias dos que resistem, dos que enfren- blica, uma resolução que insta o Governo a recorrer
tam com a coragem o encerramento e destruição de a todos os instrumentos ao seu alcance para impedir
empresas, os salários em atraso, as chantagens para o encerramento da empresa, a redução dos postos
ceder a indemnizações a preço de saldo. Enquanto de trabalho e o cumprimento dos direitos dos traba-
via o filme, lembrei-me dos que resistiram até ao lhadores. Mas até agora não se conhecem desenvol-
limite das suas forças para defen- vimentos, até o afeto de Belém
der a produção e os postos de tra- tarda a chegar. Note-se que não
balho. Lembrei-me dos trabalha-
dores da Cerâmica de Valadares,
A realidade insiste será absolutamente rigoroso
referir apenas “trabalhadoras”,
da Covina, da Sorefame, da Opel em superar a ficção, mas a esmagadora maioria dos
na Azambuja...Talvez até por ter e hoje as 463 trabalhadores é mulher.
sido a mais recente, lembrei-me
particularmente das trabalhadoras
trabalhadoras Muitas entraram ali ainda nem
vinte anos tinham, praticamente
da ex-Triumph de Sacavém. da ex-Triumph de não conheceram outro trabalho,
Lembrei-me delas e da sua luta
corajosa contra o nada, que man-
Sacavém continuam deram anos de vida e de lucros
a este gigante multinacional que
teria a produção e os postos de a construir o guião, agora as enrodilha e descarta.
trabalho por dois anos. Quando vi que é como quem A Fábrica de Nada foi mesmo
o filme em setembro, mal imagi-
nava o que lhes estava reservado.
diz, as suas vidas um dos filmes de 2017, e não
apenas pelo reconhecimento in-
Comecemos pelo início: e o País ternacional mas pela estoicidade.
a Triumph empresa subsidiária Conheço vários dos não atores
do centenário consórcio alemão que participam no filme e sei
Triumph International existe em Sacavém desde que são dos “imprescindíveis” de Brecht, que aquilo
1961 e era a última unidade de produção na Europa. que filmam foi já a sua vida. Mas a realidade insiste
Em maio de 2015, após ameaça de encerramento em superar a ficção, e hoje as trabalhadoras da
e deslocalização, foi vendida à Têxtil Gramax ex-Triumph de Sacavém continuam a construir
Internacional, visitada pelo ministro da Economia e o guião, que é como quem diz, as suas vidas e o País.
promovida como um exemplo de sucesso de investi- O cenário é o mesmo: o Tejo, a luta diária pela
mento estrangeiro. Eis que, passado um ano e meio, sobrevivência, e os limites do capitalismo a tentar
as trabalhadoras foram confrontadas: primeiro, com esmagar a dignidade. Um país sem aparelho produ-
um plano de reestruturação e, depois, já em dezem- tivo e emprego com direitos é mercado para consu-
bro e com salários em atraso, com um processo de mo imediato, jamais uma sociedade de progresso
insolvência. Após terem sido literalmente abando- e justiça social.
nadas pela empresa, no início deste mês foram sur- Um abraço solidário e muita força a todos os
preendidas pela retirada de equipamentos e outros trabalhadores da ex-Triumph de Sacavém e às suas
bens das instalações. De imediato organizaram-se famílias.

25 JANEIRO 2018 VISÃO 33


CHERNOBYL
ONDE VIVEM
OS FANTASMAS
34 VISÃO 25 JANEIRO 2018
O mais catastrófico desastre nuclear de sempre
deixou a ameaça da radioatividade a pairar
indefinidamente. Num país em guerra contra
um inimigo visível – os separatistas pró-russos
– como se combate um inimigo invisível,
que ainda tem efeitos na saúde?
O turismo em torno da zona abandonada
floresce. Haverá lugar para a esperança?
VÂ N I A M A I A LUÍS BARRA

25 JANEIRO 2018 VISÃO 35


O
Abandono O parque de
diversões da cidade de Pripyat
não chegou a ser inaugurado
devido ao acidente nuclear

Os olhos tristes de Yevhenia Benda têm exatamente a mesma


cor do lenço que lhe cobre os cabelos. Um verde água que
contrasta com o papel de parede enegrecido da casa onde
vive, em Zorin, uma aldeia perdida no meio dos bosques de
Ivankiv, a cidade habitada mais próxima da Central Nuclear
de Chernobyl. Em 1986, quando aconteceu o desastre, Yevhe-
nia já vivia a escassos 50 quilómetros do local do acidente.
Para esta babusya (avó, em ucraniano) de 77 anos, o aconte-
cimento mais relevante daquele 26 de abril era o aniversário
da neta, que completava dois anos. Juliia Shpak, hoje com
34 anos, escuta a avó com atenção e devolve-lhe um sorriso,
sabendo-se protagonista da história. “Mesmo assim fizemos
a festa, em nossa casa, naquele sábado. Afinal, era um dia
de aniversário como os outros”, remata, baixando o olhar,
envergonhada da ignorância da época. Um obscurantismo
intencionalmente alimentado pela URSS.
Só ao final do dia 28 de abril a agência de notícias soviética,
a TASS, daria conta de um acidente em Chernobyl, mas sem
revelar a real gravidade do acontecimento. Algumas aldeias
localizadas dentro do perímetro de 30 quilómetros à volta
da central – a chamada zona de exclusão, onde viviam cerca
de 115 mil pessoas – só seriam evacuadas uma semana de-
pois. Todos os animais vivos foram, então, abatidos. Vinte
dias após a tragédia, o então Presidente da URSS, Mikhail
Gorbachev, falaria finalmente ao povo. Chernobyl ficava na
História como símbolo da decadência da União Soviética,
que acabaria por implodir cinco anos depois, em 1991.
O silêncio opressivo força a viagem no tempo. A pilhagem
impiedosa das últimas décadas deixou apenas móveis revira-
dos, carrinhos de compras ferrugentos e alguns objetos que
lembram todas as histórias da História que ficam por contar.
Sapatos perdidos, um bloco de notas, uma boneca semides-
truída... As paredes dos edifícios de apartamentos, com dez
andares, confundem-se com o céu cinzento. Portas e janelas
estão camufladas pela natureza que toma o espaço abando-
nado como seu. Pripyat, outrora exemplo da modernidade
da URSS, albergava muitos dos trabalhadores qualificados
da central, e também as suas famílias, orgulhando-se de ser
uma das cidades mais jovens da Ucrânia, com uma média
de idades abaixo dos 30 anos. Agora, alberga apenas os fan-
tasmas de todas as vidas subitamente desestabilizadas pelo
acidente de Chernobyl. Uma espécie de cinecittà do horror.
Quase cinquenta mil pessoas foram evacuadas desta cidade, Chernobyl
localizada a apenas cinco quilómetros da central, 36 horas
depois do desastre. Quase cinquenta mil pessoas a quem foi
dito para levarem apenas o essencial porque regressariam a
casa dentro de dois ou três dias. Ninguém voltou.
Passavam 23 minutos da uma da manhã quando uma
série de explosões destruiu o reator nº 4 da Central Nuclear
de Chernobyl na madrugada de 26 de abril de 1986. Um tes-
te de resistência correu extraordinariamente mal. O reator

OS TURISTAS ESTÃO
esteve em chamas até 10 de maio. Durante quinze dias terão
sido libertados 50MCi (megacuries) de combustível nuclear
na atmosfera, o equivalente a várias bombas de Hiroxima e
Nagasáqui. Os três países mais afetados pela pluma radioativa PROIBIDOS DE ENTRAR
seriam a Bielorrússia, a Ucrânia e a Rússia. “Acontecimento NOS EDIFÍCIOS OU
TOCAR EM ALGUMA
monstro”, chama-lhe a Prémio Nobel da Literatura de 2015,
Svetlana Alexievich, no livro que recupera as memórias das
testemunhas do acidente, Vozes de Chernobyl (Elsinone, 2016).
COISA, MAS AS
TURISMO RADIOATIVO INDICAÇÕES NÃO SÃO
CUMPRIDAS À RISCA
A roda gigante mais triste do mundo está em Pripyat. Não
chegou a ser inaugurada devido ao acidente. O parque de

36 VISÃO 25 JANEIRO 2018

Chernobyl
Tours radioativos Há programas de visita à Zona
de Exclusão de escassas horas ou de vários dias – podem
custar entre €20 a €300 por pessoa

Cicerone Um pi-pi-pi permanente ressoa do dosímetro de


radiação que o guia Yevgen Goncharenko traz ao pescoço.
Os visitantes são obrigados a segui-lo para todo o lado

diversões – onde não faltam carrinhos de choque enferru- 1 300 monumentos do líder soviético do país. Mas também
jados – é o ex-libris das viagens turísticas, que oferecem há quem venha em busca das emoções do cenário que ins-
(ou melhor, vendem) as emoções de uma visita à Zona de pirou um dos níveis do videojogo Call of Duty.
Exclusão. Num dia frio de novembro, duas dezenas de pes- Atualmente, a central tem cerca de 1 500 funcionários.
soas deambulam pelo parque de máquina fotográfica em Algumas centenas de trabalhadores ucranianos pernoitam na
riste. Na altura do acidente, a radiação em Pripyat chegou cidade abandonada de Chernobyl – onde há 30 anos viviam
aos 500 000 microsieverts, mas atualmente ronda os 0,62 14 mil pessoas – devido à radiação, passam quinze dias se-
microsieverts por hora, o dobro da radiação habitual numa guidos na zona e outros quinze fora. À medida que a carrinha
cidade como Londres, o que a torna segura para visitas de turística se aproxima da central, uma montanha reluzente
curta duração. É isso mesmo que indicam as brochuras dis- começa a desenhar-se no horizonte. A cúpula prateada do
tribuídas à chegada ao primeiro check-point – controlado Novo Confinamento Seguro, o arco de 1,5 mil milhões de
por militares – que permite a entrada no perímetro de 30 euros que cobre o reator nº 4, reflete o tímido sol de inverno.
quilómetros à volta da central. O segundo check-point fica O Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento
a 10 quilómetros do reator. As autorizações são requisitadas (EBRD) geriu e cofinanciou o projeto com as contribuições
com semanas de antecedência e é indispensável mostrar o de 45 países. O diretor de segurança nuclear da instituição,
passaporte. Os preços dos tours variam entre os €20 e os Vince Novak, garante que “a primeira mudança depois da
€300 por pessoa. É proibido entrar nos edifícios ou tocar em instalação do novo sarcófago foi a descida da radiação no
alguma coisa, mas as indicações não são cumpridas à risca. local para metade”. A próxima tarefa é o desmantelamento
Yevgen Goncharenko, 44 anos, é guia em Chernobyl das partes mais instáveis do antigo sarcófago, mas serão
há uma dúzia de anos. Um pi-pi-pi permanente ressoa necessárias várias décadas até começar a remoção dos ma-
do dosímetro de radiação que traz ao pescoço. “Em 2016, teriais combustíveis. Questiona-se se o governo ucraniano
estiveram cá 25 mil pessoas mas, em 2017, ultrapassámos terá capacidade para liderar o processo depois de o EBRD
as 30 mil”, garante. “Antes vinham sobretudo cientistas e terminar a sua missão, ainda este ano. “Acredito que existe
jornalistas, agora, 80% são visitantes”, contabiliza, antes de capacidade de financiamento para garantir o pleno funcio-
explicar que não gosta de chamar aos seus clientes turistas, namento da estrutura, que já teve um custo de 2,5 mil mi-
antes “visitantes” curiosos pela História. “Vir à Zona de Ex- lhões de euros. O governo ucraniano está numa boa posição
clusão é como visitar um museu da União Soviética.” Aliás, para operar as instalações”, defende Vince Novak. A central
é aqui que está aquela que será “a última estátua de Lenine nuclear deixou de produzir energia em 2000, depois de in-
na Ucrânia” – nos últimos dois anos foram retirados mais de sistente pressão europeia, mas o desmantelamento dos três

25 JANEIRO 2018 VISÃO 37


E se fosse aqui ao lado?
A discussão em torno do
prolongamento da vida da central Almaraz
de Almaraz, a mais próxima de
Portugal, levanta questões quanto
à nossa segurança em caso de
acidente nuclear

Está a ser construído um considera, em resposta à


Armazém Temporário VISÃO, que esta medida
Individual (ATI) para os só é eficaz num raio de 30
resíduos radioativos da quilómetros à volta da central
Central Nuclear de Almaraz e, por esse motivo, “não há
(CNA), a mais próxima justificação para a existência
de Portugal, localizada a de uma reserva de pastilhas
100 quilómetros em linha de iodo [em Portugal], mesmo
reta da fronteira (e a 445 nas regiões fronteiras.”
quilómetros de Lisboa). O ATI A contaminação do rio Tejo é
será essencial para prolongar outro motivo de preocupação.
a vida da central espanhola Segundo o Laboratório
que, por enquanto, tem de Proteção e Segurança
autorização de operação até Radiológica (LPSR), os níveis
2020 e deixa os portugueses de trítio no rio Tejo são mais
a pensar se devem, ou não, elevados do que noutros rios
estar preocupados. “Claro que do País, devido às partículas
sim”, responde, perentório, o radioativas originárias da
físico João Seixas. “Todas as central de Almaraz. No
centrais nucleares, à medida entanto, “a concentração
que vão envelhecendo, têm de atividade na água do rio
uma probabilidade cada vez Tejo pode ser cerca de 10
maior de acidente.” À VISÃO, becquerel por litro, enquanto
a Agência Portuguesa do a lei da água para consumo
Ambiente (APA), uma das humano estabelece o nível
entidades responsáveis pela paramétrico do trítio em
monitorização constante 100 becquerel por litro,
dos níveis de radioatividade ou seja, mesmo a água do
no País, garante que “um rio Tejo apresenta valores
acidente severo na CNA é dez vezes abaixo do limite”, reatores não acidentados em 1986 só deverá estar concluído
altamente improvável”. De explica o diretor adjunto do em 2065. Quanto ao do nº 4, é impossível prever uma data.
acordo com a Direção- LPSR, João Garcia Alves. À saída da Zona de Exclusão é obrigatório passar pelo
-Geral da Saúde, num Quanto a um acidente controlo de radiação nos dois check-points existentes. Má-
cenário de acidente nuclear nuclear, o investigador Mário quinas de fabrico soviético com aspeto rudimentar, uma
em Portugal, “a principal Reis, membro do grupo espécie de cabinas telefónicas sem as paredes laterais, fazem
medida de proteção será o de trabalho que avaliou o medições depois de colocadas as mãos e os pés em senso-
abrigo”, sendo aconselhado impacto da construção do res. Se tudo correr bem, uma luz amarela ilumina a palavra
permanecer em casa ATI de Almaraz, considera
chisto (limpo). Caso não corra bem, é necessário detetar se
durante a passagem da que as barragens do Tejo
a radioatividade está na pele ou na roupa, o que pode ser
pluma radioativa, para evitar seriam eficazes a conter a
a exposição à radiação e a contaminação. Apesar de lhe
facilmente descontaminado, ou em qualquer objeto retirado
inalação de radionuclídeos. parecer “impossível” voltar ilegalmente do local. Mas, há 32 anos, as medições chegaram
Poderiam, depois, ser a acontecer uma catástrofe demasiado tarde para muitos.
tomadas medidas adicionais, como Chernobyl, Mário Reis
como o controlo dos produtos considera Fukushima “um FERIDOS DE MORTE
alimentares provenientes acidente com características Quatro dias depois das explosões, no primeiro de maio de
da área do acidente. Quanto inesperadas, que levou a 1986, foi entregue uma missão a Oleksander Martynenko.
à distribuição de pastilhas um reforço da segurança, Como era motorista de camião, tinha de transportar comida
de iodo, com o objetivo de mas mostrou que pode para os trabalhadores que permaneciam na central. “Nin-
saturar a tiroide com iodo haver situações para as guém me explicou mais nada, nem uma máscara levava, e o
estável antes da absorção quais poderemos não estar camião ia para onde fosse preciso”, recorda Sasha, como é
de iodo radioativo, a DGS preparados”. conhecido, agora com 68 anos. Além de comida, levava vo-

38 VISÃO 25 JANEIRO 2018


dka, ajudava-os a aguentar a tragédia. “Naquela altura, era Medos Os Voloshchuk (em cima) vivem inquietos
autorizado trabalhar e conduzir bêbedo na Zona de Exclusão. com a guerra. Yevhenia (em baixo, à esq.) recorda
Parece mentira, mas o governo recomendava beber vodka a catástrofe nuclear. Ao lado, Ivanna, 4 anos, sonha
para eliminar a radiação”, ridiculariza. Sasha, tal como todos com as férias em Portugal
aqueles que foram chamados a ajudar na gestão imediata dos
efeitos do desastre nuclear, foi um likvidator (liquidador).
Estima-se que 600 mil pessoas, entre bombeiros, militares, contaminadas. Números controversos, já que a organização
engenheiros, médicos ou voluntários, tenham sido mobili- Médicos Internacionais pela Prevenção da Guerra Nuclear
zadas. Foram os liquidadores que construíram à pressa o (Nobel da Paz em 1985) defende que mais de 100 mil li-
sarcófago agora coberto pelo Novo Confinamento Seguro. quidadores morreram nos 20 anos seguintes ao acidente
Heróis forçados – desconheciam as altas doses de radiação a devido à radiação. Enquanto a Greenpeace situa o poten-
que estavam sujeitos – muitos seriam, mais tarde, medalha- cial número de mortos nos 90 mil. Além dos liquidadores,
dos pelo governo. Os liquidadores estão entre as principais entre as principais vítimas estão as crianças, hoje adultos
vítimas dos efeitos da radiação. “Dos que conduziam os que procuram lidar com o trauma que lhes interrompeu a
autocarros de evacuação, apenas dois terços estão vivos. Só infância. E sobreviver-lhe.
na minha rua morreram dois”, contabiliza Sasha, residente Naquele sábado, Serhii Osypenko foi inesperadamente
em Ivankiv, cidade que nunca chegou a ser evacuada. chamado ao trabalho na central nuclear. Havia um incêndio
Cerca de trinta pessoas morreram nos três meses se- no reator nº 4, mas isso em nada o esclarecia sobre o que
guintes ao acidente, devido à exposição aguda à radiação. realmente se passava. Foi com a roupa que tinha no corpo
A Organização Mundial de Saúde (OMS), estima um total e levou o seu automóvel. “Trabalhávamos quase 24 horas
de 4 mil mortes ao longo do tempo, entre trabalhadores por dia, os helicópteros atiravam areia para cima do sítio do
de emergência, população evacuada e residentes em zonas acidente e nós alisávamos cá em baixo”, recorda, aos 56 anos.

25 JANEIRO 2018 VISÃO 39


O português destemido
Alexandre Martinez trabalha na Central Nuclear
de Chernobyl. Alguns dos seus companheiros ainda
acreditam que a vodka é eficaz contra a radiação…

Após Portugal derrotar seis anos, a 327 metros do


a França, na final do reator para evitar a sobre-
Campeonato Europeu de exposição dos trabalhadores
Futebol, em 2016, uma à radiação que persiste no
bandeira nacional esvoaçou local exato do acidente e,
clandestina, durante vários mesmo assim, foi necessário
meses, no topo do velho remover cerca de um metro
e deteriorado sarcófago de solo contaminado em
construído pelos soviéticos profundidade na área de
para conter a radiação estaleiro para reduzir a
do reator acidentado de radiação. Alexandre Martinez
Chernobyl. A façanha foi chegou à Ucrânia há dois
celebrada por menos de uma anos, já depois de o arco estar
dezena de portugueses que construído, mas assistir à sua
ali trabalhavam ao serviço instalação foi inesquecível.
de uma empresa… francesa. “Vi 36 mil toneladas a serem
A bandeira só seria retirada arrastadas à velocidade
aquando da instalação de dez metros por hora!”.
do Novo Confinamento Durante a jornada de trabalho
Seguro (NCS) – o sarcófago anda com um dosímetro
construído para reforçar ao peito, que contabiliza a
o isolamento do reator – radiação acumulada. O limite
em novembro desse ano. anual estabelecido pela
Alexandre Martinez, 41 empresa são 13 milisieverts
anos, recorda o episódio (a dose média anual recebida O automóvel que o levava de casa, em Ivankiv, para a cen-
diante de um bitoque por um cidadão comum tral, era o mesmo no qual transportava a mulher e a filha de
improvisado num restaurante são 6,2 milisieverts). “Os 9 meses. Ao fim de um mês, o veículo foi-lhe retirado devi-
de Ivankiv, a cidade onde colegas mais antigos gozam do à elevada radiação que emanava. Hoje, recorda a história
vive. Superintendente na e dizem que, na altura do com amargura à mesa da sala de jantar de sua casa, com um
área da eletricidade (recebe acidente, recebiam em dois copo de licor à frente, além de um sortido de bombons da
entre 3 a 4 mil euros dias o que nós apanhamos marca mais popular do país, a Roshen, propriedade do atual
líquidos), é indisfarçável o seu num ano”, conta. Garante presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko. Serhii acredita que
orgulho por fazer parte da que alguns dos seus o seu velho automóvel Lada ajuda a explicar o “pesadelo”
equipa que ajudou a tornar companheiros ucranianos do presente. A filha de 32 anos sofre de cancro da tiroide e
realidade o NCS, um arco ainda acreditam que fazer da mama. “Não tenho dúvidas de que a minha doença está
metálico com resistência sauna e beber vodka é eficaz relacionada com a radiação”, afirma Iryna Osypenko, mais
para durar um século. Cada contra a radiação… Um mito uma das crianças que cresceu a desenhar o reator em chamas.
metade do sarcófago foi propalado no tempo da União Uma das principais consequências do acidente foi o au-
construída, ao longo de Soviética. mento da incidência de cancro da tiroide entre a população
afetada, sobretudo no grupo daqueles que eram menores
de idade na altura da catástrofe. Há dez anos, o comité das
Nações Unidas responsável pelo estudo das consequências
da radiação, o UNSCEAR, estimava em quase 7 mil o nú-
mero de casos de cancro na tiroide entre os menores de 18
anos – com uma taxa de sobrevivência a rondar os 99% –
provocados pela elevada exposição à radiação. Uma forma
de diminuir as consequências da inalação de iodo radioativo
(que se acumula na tiroide) é a distribuição de pastilhas de
iodo saudável. Em Chernobyl, as pastilhas foram distribuídas
semanas depois do acidente. Demasiado tarde.
Eleita presidente da Câmara de Ivankiv há um ano, Tetiana
Svyrydenko, 49 anos, nunca pensou em sair da sua cidade.
“Ninguém me esperava em mais lugar nenhum.” Vivem ali 11
mil pessoas e as 25 escolas do município somam quase três

40 VISÃO 25 JANEIRO 2018


Trauma Cinquenta mil pessoas foram
evacuadas de Pripyat, hoje uma cidade
fantasma. Foi-lhes dito que regressariam
a casa em poucos dias

um organismo da OMS, explica que “se as pessoas comerem


cogumelos com baixa contaminação, de vez em quando,
provavelmente não terão problemas de saúde”, mas defende
a importância de os consumidores terem meios para medi-
rem a radiação dos alimentos, evitando a especulação. “Se as
pessoas sentirem permanentemente a ameaça da radioativi-
dade, isso prejudica a sua saúde mental”. A cientista lamenta
que as consequências psicológicas do acidente nuclear sejam
desvalorizadas: “Quando falamos de pessoas que ficaram
com stresse pós-traumático, stresse crónico ou problemas
de ansiedade e depressão, estamos a falar de verdadeiras
consequências para a saúde que acabam por ser somatiza-
das.” Entre as principais vítimas dos efeitos psicológicos do
acidente estarão as cerca de 350 mil pessoas deslocadas de
suas casas. Mas houve quem não aceitasse deixar tudo para
trás. Imediatamente a seguir ao acidente, cerca de mil re-
sidentes idosos contrariaram as autoridades e regressaram
ilegalmente ao território da Zona de Exclusão. Chamam-lhes
samosely. Atualmente, restam pouco mais de uma centena,
a maioria com mais de 80 anos.

GUERRAS SEM FIM


Os Voloshchuk vivem numa casa de piso térreo rodeada de
galinhas, duas vacas e um cavalo, numa aldeia de Ivankiv.
Também têm a sua própria horta. “Aqui é impossível so-
breviver sem cultivar alguma coisa”, garante Oleksander,
33 anos. Preocupa-o que os filhos, de 9 e 5 anos, possam
comer alguma refeição contaminada, mas a mulher, Oksana,
33 anos, confessa que não é esse o motivo da atual inquie-
tação da família. “Estamos mais preocupados com a guerra
em Lugansk”, revela. As forças do governo ucraniano com-
batem separatistas pró-russos em Donetsk e Lugansk desde
2014. O marido, vigilante de profissão, foi requisitado para
mil alunos. Não há fábricas na região. O desemprego é um o exército e só regressou da frente em 2016, mas a qualquer
problema. E a má publicidade da área dificulta o comércio momento pode voltar. O seu ar doce e afável contrasta com
de produtos agrícolas. A autarca garante que as análises ao o camuflado que traz vestido.
solo revelam que os campos de Ivankiv não estão contami- No final de 2017, o exército ucraniano e a forças rebeldes
nados, mas preocupam-na os relatos de pessoas que vão realizaram a maior troca de prisioneiros desde o início do
colher cogumelos dentro da Zona de Exclusão – um raio confronto: envolveu mais de 300 pessoas. Este é um dos
de 30 quilómetros fora da sua jurisdição. Os cogumelos poucos princípios do Acordo de Minsk – o cessar-fogo
absorvem a radiação dos solos, mas não é essa a principal assinado em 2015 – que tem vindo a ser respeitado. Apesar
preocupação da população, explica Inna Sheremet, 50 anos, da baixa intensidade do conflito desde o início do ano pas-
assistente social do Centro de Apoio Social e Psicológico sado, as tréguas são quebradas quase diariamente. A guerra
Doviria, que ajuda os residentes das zonas contaminadas: já causou mais de 10 mil mortos e desalojou milhões de
“As pessoas sabem do perigo, mas vão morrer de fome? Não. pessoas. Em dezembro, o Departamento de Estado dos EUA
Apanham os cogumelos, comem-nos e vendem-nos. E eu anunciou que o país vai vender armamento “de natureza
também os compro”. defensiva” aos ucranianos. O nacionalismo está ao rubro,
Ausrele Kesminiene, 62 anos, investigadora convidada as cores da Ucrânia veem-se por todo o lado e, nas lojas e
da Agência Internacional para a Investigação do Cancro, mercados, nunca faltam rolos de papel higiénico com a cara
do Presidente russo, Vladimir Putin. Na semana passada, o
parlamento ucraniano aprovou uma lei que classifica o con-
flito como “ocupação temporária russa”, levando o Kremlin
a acusar Kiev de se estar a preparar para “uma nova batalha”.
UMA DAS PRINCIPAIS Em Ivankiv, foram mobilizadas 340 pessoas. Vitalii
Konowenko, 39 anos, faz parte da unidade 72, também
CONSEQUÊNCIAS conhecida como unidade negra, e tem ajudado a angariar

DO ACIDENTE FOI O
voluntários. Não vê fim à vista. “Antigamente havia guerras
de cem anos e, com os russos, pode voltar a haver.” Inna
AUMENTO DO CANCRO Sheremet, a assistente social do centro social Doviria, tem
uma explicação simples: “Os russos sabem que, enquanto es-
DA TIROIDE, SOBRETUDO tivermos em guerra, não entramos na União Europeia e, por

NAS CRIANÇAS
isso, este confronto vai prolongar-se.” Tal como a luta contra
o inimigo invisível que assombra Chernobyl. vfmaia@visao.pt

25 JANEIRO 2018 VISÃO 41


UM MERGULHO
NO FUTURO
Há uma década que dezenas
de crianças ucranianas passam
as férias de verão com famílias
portuguesas. É aqui que algumas delas
veem o mar pela primeira vez

D
VÂ N I A M A I A LUÍS BARRA

epois de a noite cair, a iluminação é escassa.


No inverno escurece às quatro da tarde.
Apenas se ouvem os cães ladrar, mas não se
veem. Na aldeia de Musiiky, em Ivankiv, a
80 quilómetros de Kiev, capital da Ucrânia,
Yurii Vasianovych, 42 anos, aproveita para
fazer obras em casa. Está a substituir o papel
de parede da entrada com a ajuda da mulher,
Olena, 45 anos. Na sala de jantar, onde o calor
abafado contrasta com a meia dúzia de graus
abaixo de zero da rua, o sofá é pequeno para
acomodar os onze filhos do casal quando
estão juntos em casa. Quase todos passam parte do verão
em Espanha ou em Portugal. Roman, 12 anos, é o campeão
das idas ao nosso País: este ano vai pela quinta vez.
Em dez anos, o Verão Azul levou 80 crianças ucranianas verões que passou com a mesma família, em Oeiras. “Com
a Portugal. Em 2018, serão 36, mas todos os anos há vários este programa conquistei uma outra família de verdade.”
“repetentes”. É na região da cidade de Ivankik, a mais pró- Filha única – a mãe dedica-se ao trabalho doméstico e o
xima da central nuclear de Chernobyl, que vivem as crianças pai é motorista – ganhou dois “irmãos” mais velhos por-
selecionadas para o programa, inserido na política de res- tugueses. Atualmente vive em Kiev, onde está a completar
ponsabilidade social da Liberty Seguros. um mestrado em Direito Internacional. “Um dia posso vir a
As crianças, com idades entre os 6 e os 16 anos, passam trabalhar na Embaixada da Ucrânia em Lisboa!”.
cinco semanas em Portugal, preferencialmente junto ao mar. Também Diana Pravosud, 10 anos, sonha um dia vir a
A maior parte delas é de contextos socialmente desfavoreci- trabalhar em Portugal. Vai dizendo algumas palavras em
dos – famílias numerosas com parcos recursos. Antes de o português, mas é em ucraniano que se expressa. Este ano,
programa chegar a Portugal, em 2008, já existia na congénere será a quarta vez que passará cinco semanas no País. “Tenho
espanhola da empresa desde os anos noventa. Centenas de saudades do sol!”, exclama, no auditório da escola de Hor-
crianças passaram verões em Espanha ao longo dos anos, nostaipil, em Ivankiv. Oito estudantes da instituição vêm
o que explica a surpresa de a língua estrangeira mais falada este ano a Portugal. No primeiro verão, Diana não conteve o
em Ivankiv ser o espanhol, e não o inglês. choro, mas agora corre tudo bem. “Quando é preciso, usamos
Quando lhe falaram em passar as férias em Portugal, o 'Google Tradutor' para nos entendermos!”
Alina Nedashkivska ficou apreensiva. Tinha 11 anos, mas
os pais incentivaram-na a ir: “Era uma oportunidade para DAR SAÚDE ÀS CRIANÇAS
conhecer outra realidade e acreditavam que seria bom para Na entrada da escola há cartazes feitos pelos alunos com ima-
a minha saúde estar longe da radiação de Chernobyl”, conta. gens de soldados. Os filhos trazem fotografias dos pais que
Hoje, aos 21 anos, recorda com saudade (e é mesmo a pala- estão na guerra no Leste do país, onde as forças do governo
vra portuguesa que usa para se expressar) a meia dúzia de ucraniano combatem os separatistas da região de Donbass,

42 VISÃO 25 JANEIRO 2018


desde 2014. O pai de Diana também lá esteve um ano e, a Na escola O pai de Diana (em cima, à esq.) lutou na
qualquer momento, pode voltar a ser chamado. Marko Ko- guerra, o tema presente nos cartazes (em baixo, à dir.).
senchuk, 11 anos, interrompe a conversa e diz-se capaz de Ao lado, os oito estudantes que vêm este ano a Portugal
jurar que ouve as bombas caírem. Mesmo quando os colegas
lhe dizem que é impossível, estão a quase mil quilómetros
de distância, não desarma. Franzino e irrequieto, prepara-se A diretora da escola de Hornostaipil, Raisa Lytvyn, 47
para ir pela quinta vez a Portugal: “Quando vamos para fora anos, nota a diminuição do absentismo dos estudantes que
daqui respiramos ar puro, eliminamos a radiação e o nosso vão para fora. “Quando voltam contam o que viram, ganham
sangue melhora.” mundo, e conhecem coisas que eu nunca poderia conhecer
O pediatra Alex Rosen, 37 anos, que se tem dedicado ao com o meu salário.” Na Ucrânia, o ordenado médio mensal
estudo das consequências do acidente de Chernobyl na saú- de um professor varia entre os €120 e os €250.
de, considera que, “se as crianças estiverem constantemente Um dos principais objetivos do programa é estimular a
expostas a radiação, então pode ser útil retirá-las do seu am- ambição para além do círculo vicioso das famílias desestrutu-
biente habitual, dando-lhes tempo para se fortalecerem antes radas a que muitos pertencem. Bastantes agregados veem-se
de voltarem a receber radiação elevada”. “Mas a maior parte obrigados a canalizar os poucos recursos para os problemas de
das pessoas vive, hoje, em regiões onde a radiação não é tão saúde dos filhos, alerta a diretora: “Há vários meninos inváli-
forte como antigamente”, sublinha o também presidente da dos na escola. Têm problemas de tiroide, estômago, pâncreas…
delegação alemã da organização Médicos Internacionais pela Mas não conseguimos provar que estejam relacionados com
Prevenção da Guerra Nuclear. À VISÃO, acrescenta: “O que não a radiação.” Também um passaporte urgente (custa à volta de
pode ser subestimado é o efeito psicossocial de uma viagem €30) é uma despesa avultada para a maior parte das famílias.
assim. As crianças sentem que alguém se importa com elas, “Vale a pena”, garante Olena Vasianovych. Emociona-se. No
que alguém sabe a sua história e conhece o seu sofrimento.” sofá, os filhos fazem pantomimas. O futuro aguarda-os.

25 JANEIRO 2018 VISÃO 43


DE COSTAS
PARA O PAPA
AS MISSAS EM LATIM REGRESSARAM
E REVELAM O MOVIMENTO CONSERVADOR
QUE ESTÁ A CRESCER NO PAÍS. ATRAEM
JOVENS FIÉIS E SACERDOTES QUE
APRENDEM O RITUAL EM SEGREDO. UM
DESAFIO AO ESTILO DO PAPA FRANCISCO
C ATA R I N A G U E R R E I R O E R U I A N T U N E S DIANA TINOCO

44 VISÃO 25 JANEIRO 2018


Em latim Missa
na Fraternidade
São Pio X, em Lisboa

25 JANEIRO 2018 VISÃO 45


Q
Jovens fiéis Na paróquia
de São Nicolau há missas
em latim todos os dias,
exceto aos domingos

Quase todas jovens, na casa dos 20 anos, as


raparigas tiram da carteira um lenço branco
bordado e cobrem a cabeça. Ao final da tarde
daquela sexta-feira, 12 de janeiro, o grupo ali-
nha-se na Igreja de Nossa Sra. da Conceição
Velha, em Lisboa. Sentam-se nos bancos casta-
nhos corridos e preparam-se para assistir a uma
missa à antiga, celebrada em latim, seguindo os
rituais tradicionais e rigorosos.
No altar, de costas para os fiéis, o padre
Hugo Santos, 41 anos, comanda o rito, enquan-
to os presentes, rapazes e raparigas, rezam de
dedos entrelaçados. Predomina um silêncio
intenso, só por vezes interrompido por um
sussurrar, em latim, em resposta às orações
do sacerdote. Na mão, seguram o pequeno
livro de capa preta, um missal para os ajudar
a seguir a cerimónia. O ambiente é pesado,
solene, apesar das cores vivas que decoram
o altar e das vestes alegres do padre que usa
uma casula romana, indumentária obrigatória
para esta missa antiga. Aqui não se descuida o
tom cerimonial – em contraste com a imagem
modesta do Papa Francisco.

46 VISÃO 25 JANEIRO 2018


Ritual
da missa velha NO RITO ANTIGO IMPERA
O SILÊNCIO, AS MULHERES
COBREM A CABEÇA COM
MISSAL
A missa tridentina é
O VÉU E O PADRE ESTÁ
toda em latim. E, para
a acompanhar, os
DE COSTAS PARA OS FIÉIS.
fiéis usam um missal, HÁ PESSOAS A PEDIR ESTAS
caderno de capa pre-
to. Algumas orações
CERIMÓNIAS DE NORTE A SUL
estão traduzidas para
missa deve necessariamente opor-se também
português
às mudanças do Concílio Vaticano II, pois foi aí
que se criou a missa nova”, diz, não disfarçando
o incómodo com o estilo progressista do Papa
Francisco. “Quando se quer agradar a toda a
gente, acaba-se por não se agradar a ninguém.”
D E C O S TA S No último ano, garante, a quantidade de por-
PA R A O S F I É I S tugueses a procurar a Fraternidade aumentou
O padre está sempre de tal forma que a organização teve de come-
de frente para o altar çar a realizar três missas ao domingo, duas em
a rezar. Quando se Lisboa e uma em Fátima, além das cerimónias
vira para a plateia diárias. E prepara-se para abrir uma nova igreja,
para, por exemplo, em Marvila, com 200 lugares.
fazer a homilia, tem
de beijar o altar UM CULTO AINDA A MEDO
Pedro Froes, 21 anos, estudante da Universi-
dade Católica, costuma ir às missas nas igrejas
da diocese de Lisboa, tanto às comuns como
às tradicionais, em São Nicolau, mas por vezes
assiste também às da Fraternidade. Não aprecia
COMUNHÃO que lhe chamem conservador, prefere o termo
O sacerdote dá a
tradicionalista, e não esconde a satisfação ao
hóstia ao fiel sempre observar que “todos os dias estão a aparecer
na boca, nunca na pessoas novas na missa em latim”.
mão, como sucede Vasco Câmara, 22 anos, começou a frequen-
nas missas novas. tar esta cerimónia, em São Nicolau, há apenas
Quem comunga tem quatro meses. “Tem mais espiritualidade”, diz o
de estar de joelhos jovem, que se tornou presença assídua. “Tento
ir todos os dias”. Por isso, na segunda-feira,
Conhecida como tridentina (desde o Con- 15 de janeiro, era de novo um dos fiéis que ao
cílio de Trento, no século XVI) ou missa do final da tarde rezava em latim. Costuma estar
rito romano na sua forma extraordinária, esta rodeado de colegas da mesma idade, algumas
não é uma eucaristia comum e pacífica entre BÊNÇÃO raparigas com véus na cabeça – um acessório
os católicos. Mas, desde há cinco meses, ela O padre usa água- usado pela ala conservadora, branco para as sol-
realiza-se todos os dias, exceto ao domingo, -benta com sal para teiras, escuro para as casadas. Num dos bancos,
na paróquia de São Nicolau, em Lisboa. Foi a benzer os fiéis. Ao nessa segunda-feira, estava também Manuel,
resposta da Igreja Católica nacional à adesão, longo da cerimónia com pouco mais de 20 anos, que é acólito nas
cada vez maior, dos portugueses a esta missa são feitos mais sinais cerimónias. Quase todos têm receio de falar.
dos velhos tempos, abandonada depois do Con- de cruz do que o habi- “Não tenho medo da Igreja, porque persegui-
cílio Vaticano II (1962-1965). E esta foi também tual. As regras ditam dos já nós somos; tenho é medo da reação das
uma forma de evitar que muitos fiéis passassem que sejam feitos 33, pessoas”, justifica outro estudante.
a frequentar os oratórios da Fraternidade São o número de anos que Esta missa não é do agrado dos bispos, mas
Pio X, uma organização ultraconservadora que tinha Cristo quando está a ganhar popularidade desde que, em 2007,
tem tido alguns conflitos com o Vaticano – mas morreu o Papa Bento XVI esclareceu que nunca esteve
que, por celebrar a eucaristia desta forma, está proibida, como alguns julgavam. E agora há
a cativar muitos católicos. VÉU crentes a apresentar pedidos em várias dioceses
“A maneira de fazer missa é a parte visível da As mulheres devem – o médico de família Francisco Lopes Vilaça,
diferença doutrinal que existe”, admite o padre usar um véu na 29 anos, chegou a lançar uma petição pública a
Samuel Bon, 45 anos – que há dois anos lidera a cabeça, regra geral solicitar ao Cardeal-Patriarca que a autorizasse
Fraternidade em Portugal –, considerando que em renda. A cor do na Sé de Lisboa.
os católicos adeptos do ritual antigo defendem véu é branco para as Ao mesmo tempo, está “a crescer o número
a tradição e não gostam das mudanças que o solteiras, e preto para de sacerdotes, especialmente os mais novos, a
Vaticano está a impor. “Quem defende esta as casadas aprender o rito às escondidas e a celebrar mis-

25 JANEIRO 2018 VISÃO 47


PA PA F R A N C I S C O

A doutrina da misericórdia
Nos mais variados temas, o Papa argentino não se cansa de
abrir os braços da Igreja a pecadores arrependidos, o que
deixa os católicos mais conservadores de cabelos em pé

DIVÓRCIO
É o assunto mais fraturante do momento
na Igreja Católica. A doutrina considera o
matrimónio indissolúvel e, portanto, um
segundo casamento configura adultério,
um pecado grave. Quem vive nesta situa-
ção esteve sempre proibido de comungar,
mas o Papa Francisco decidiu delegar sas”, explica um padre que a costuma rezar.
nos bispos a responsabilidade de ava- Para muitos, o sucesso desta liturgia
liarem, caso a caso, a possibilidade é sinal do crescimento do movimento
de haver exceções. conservador. A maioria dos que a fre-
quentam e celebram são defensores da
ABORTO tradição na eucaristia e na postura
O Papa não deixa dúvidas da Igreja, confirma Paulo Mendes
quanto à imunidade do tema a Pinto, professor de Ciência das
modernizações ou reformas. Religiões (ver entrevista). Muitos
O valor da vida continua a ser sa- assumem que certas decisões do
grado. Só que “não existe pecado Papa Francisco estão a aumentar
que a misericórdia de Deus não o desconforto – como a que abre
possa alcançar e apagar quando a porta à comunhão dos recasados
encontra um coração arrependido” e que neste mês levou o arcebispo de
e, sendo assim, autorizou “todos os Braga, D. Jorge Ortiga, a publicar um do-
padres a conceder a faculdade de cumento com os requisitos para que os casais
absolver o pecado do aborto”. possam ser acolhidos na diocese.
“Se, até hoje, 265 papas disseram uma coisa
CONTRACEÇÃO e se um Papa diz outra, prefiro estar com os
“Bons católicos não precisam de 265. Há aqui uma contradição”, afirma Pedro
procriar como coelhos”. Francisco pediu Froes, ressalvando que, apesar disso, ama
desculpa pela expressão utilizada, mas e reza pelo atual sumo pontífice. Tal como
a ideia de uma “paternidade respon- Froes, os jovens que frequentam as missas em
sável” ficou bem vincada. O líder dos latim admitem que o Papa Francisco lançou
católicos não vai ao ponto de defender “confusão” e “ambiguidade” na Igreja quanto à
a contraceção, mas incentiva a um comunhão dos que são casados pela segunda
planeamento baseado no período de vez (ou mais). Mas, para eles, não há dúvidas:
fertilidade das mulheres. os recasados não podem comungar. “A maio-
ria das pessoas que participa na missa antiga
HOMOSSEXUAIS move-se em meios religiosos que olham para
Uma das respostas mais polémi- o Papa Francisco com muita desconfiança”,
cas do Papa surgiu ao ser con- adianta Mendes Pinto.
frontado com o caso de uma rela-
ção amorosa entre dois homens. MOVIMENTO EM CRESCENDO
“Quem sou eu para julgar?”, Pelo mundo, o fenómeno repete-se: no Bra-
perguntou, naquela que foi, expli- sil, este movimento começou a surgir um
cou mais tarde, uma tentativa de pouco por todo o país, notou há já três anos
fazer com que os homossexuais uma reportagem do jornal O Globo; e no
“permaneçam perto do Senhor”. Reino Unido, segundo a Sociedade pela Missa
em Latim de Inglaterra e Gales, o número de
AMBIENTE liturgias tradicionais disparou, passando de 26
Um Papa a socorrer-se de dados em 2007 para 157 em 2012. A revista The Eco-
científicos para alertar para o nomist, numa reportagem sobre o movimen-
fenómeno das alterações climáticas? to conservador, relatou como este fenómeno
É Francisco, o progressista. estava a atrair jovens tradicionalistas ativos

48 VISÃO 25 JANEIRO 2018


Vestes
tradicionais
Os padre usam
paramentos
conservadores, que
os progressistas
dispensam

Casula romana
Mais curta e
ornamentada do que
as modernas, é usada
durante a missa

Críticos do Papa Eduardo Na sacristia O padre Samuel Bon,


Almeida, 20 anos, e Ludgero 45 anos, é rigoroso nas vestes que
Bernardes, 60, são dois membros escolhe para celebrar a eucaristia.
da ultraconservadora Fraternidade Veste-se sempre com trajes antigos
São Pio X, que está a ganhar Manípulo e na cerimónia costuma ser ajudado
popularidade em Portugal Acessório que os por acólitos, muito jovens
padres da missa
antiga usam no braço
nas redes sociais e em blogues. “É impressio- esquerdo moderna do que aos católicos”, refere o jovem,
nante este movimento. Em Cracóvia [Polónia], contando que, quando estava no seminário em
fui a uma missa destas ao domingo; cheguei 2015, já ia com um colega, “às escondidas, a
15 minutos e já não tinha um lugar sentado. Em uma missa antiga”. Hoje em dia, revela, costuma
Roma, a igreja também estava cheia”, descreve participar num grupo que está secretamente a
Pedro Froes. Véu do cálice ensinar alguns seminaristas do Porto e de Bra-
Todos rejeitam ser anti-Papa Francisco, Pano para tapar o ga a celebrar missa em latim. “Nos seminários
mas vão dando sinais claros de discordância. cálice, exclusivo das não se fala desse ritual”, nota, explicando que o
Pedro Froes, por exemplo, assume que admira eucaristias em latim aprendeu quando esteve uns tempos em França
Raymond Burke, o cardeal dos EUA, conheci- e em Itália, no Instituto Cristo Rei. “Por isso,
do em todo o mundo como um dos principais fui acólito do cardeal Burke na missa em latim
opositores do atual Papa. Foi um dos quatro que ele celebrou na Igreja de Nossa Senhora da
cardeais que escreveram a dubia, uma carta em “Amicto” Ajuda, na Foz do Porto.”
que pedem ao sumo pontífice que esclareça a Pano branco que
questão da comunhão dos recasados. o sacerdote coloca SINAIS POR TODO O PAÍS
à volta do pescoço
Quando o cardeal veio a Portugal, em no- Todo este movimento, que passa pelas missas
para o purificar
vembro de 2017, foi recebido com entusiasmo em latim, críticas às posições mais modernas
pelos meios conservadores. Azeredo Lopes, 64 do Papa e apoio a religiosos como o Burke,
anos, um católico de Coimbra responsável pela não agrada à hierarquia da Igreja em Portugal,
editora Caminhos Romanos, que editou o livro que através dos bispos tem dado alguns avisos
do cardeal, foi um dos que o acompanhou de subtis a vários sacerdotes, conta um páro-
perto. Seguidor das ideias de Burke, Azeredo co conservador. Apesar disso, alguns padres
apresentou recentemente, com um conjunto diocesanos decidiram dar a cara e estiveram
de católicos da diocese de Coimbra, um pedido Pluvial ao lado de Burke, em Fátima, quando ele pas-
Fato que o sacerdote
ao bispo Virgílio Antunes, para que possam ter seou pelo Santuário com um manto vermelho
usa para benzer os
uma missa em latim. “Não é obrigatório pedir de 15 metros. Entre eles estava um sacerdo-
fiéis, nas procissões
autorização. Fizemo-lo por uma questão de e noutras cerimónias
te da diocese de Coimbra, Manuel Vaz Pato,
zelo, mas ainda estamos à espera”, conta, asse- de 29 anos, e outro de Aveiro, Hélder Ruivo,
gurando que há uma clara resistência dos bis- de 31 anos. Usavam barrete preto, acessório
pos. “É inexplicável, pois foi assim que a missa apreciado pelos mais tradicionalistas.
se celebrou ao longo de dois mil anos”, lamenta. “Sim, fui a Fátima vê-lo”, confirma Manuel
“Houve um grande mal-estar dos bispos em Vaz Pato, admitindo que gosta de usar “vestes
relação à vinda desse cardeal”, diz, por seu lado, antigas”, como fez na sua ordenação, em que foi
Eduardo Almeida, um jovem de 20 anos ultra- Alba de capa e batina. E também na primeira missa
conservador e antigo seminarista, que começou Capa branca usada que celebrou, em que chegou com um capelo
a frequentar a Fraternidade e que é um dos por baixo da casula. – um chapéu preto – e usou incenso durante
elementos mais ativos nas críticas ao Papa no A dos conservadores a cerimónia. Para ele, ao contrário de muitos
meio católico. “Quer agradar mais à sociedade tem rendas outros padres e bispos, fez todo o sentido

25 JANEIRO 2018 VISÃO 49


F R AT E R N I D A D E S A C E R D O TA L S Ã O P I O X

Nos antípodas do Papa


Defensora da missa antiga e opositora das mudanças do Concílio
do Vaticano II, a Fraternidade São Pio X está a ganhar adeptos no País.
“Caminhamos em linha reta”, diz o líder regional da organização

Fundada em 1970 pelo arcebispo fran- apego dos mais jovens à missa antiga,
cês Marcel Lefebvre, a Fraternidade uma prática com raízes no século VI e
Sacerdotal S. Pio X está presente em que os seguidores de Marcel Lefebvre
Portugal desde 1983. Tem sacerdotes nunca abandonaram. Mais do que isso,
noutros 36 países, que estendem a é a única santa missa que admitem,
sua ação religiosa a um total de 60 até porque recusam todas as reso-
Estados. Desde há dois anos, esta luções saídas do Concílio Vaticano II
sociedade de vida apostólica da Igreja (1962-65), visto como uma cedência
Católica é liderada, em Portugal, pelo ao protestantismo e resultado de
sacerdote francês Samuel Bon, que influências da maçonaria. Ao longo da
antes estava destacado na Argentina, história, a Fraternidade S. Pio X tem
país natal do Papa Francisco. Em mantido divergências com a Igreja
Buenos Aires, diz, o então cardeal oficial. A mais polémica, em 1988,
Bergoglio conheceu o trabalho social no papado de João Paulo II, resultou
da Fraternidade e, por isso, Bon na excomunhão (revogada em 2009, Burke andar a passear pelo Santuário com um
acredita que nunca os irá excomungar, por Bento XVI) de cinco bispos da manto vermelho. “É uma tradição. O Papa João
“como pedem os cardeais alemães”, organização, incluindo o seu funda- Paulo II, enquanto cardeal, também o usou”.
ainda mais liberais. Nenhum outro dor, por este ter ordenado os outros Manuel Vaz Pato não se incomoda de ser visto
Papa, porém, se posicionou tanto nos quatro sem autorização papal. “Marcel como conservador. “Eu e muitos padres da
antípodas da conceção tradicionalista Lefebvre estava a morrer, de cancro, e minha geração temos como referência papas
da Igreja Católica, levada ao extremo o Vaticano, depois de concordar com como João Paulo II e Bento XVI, que são mui-
nesta Fraternidade. Aqui, não há lugar a consagração de um bispo, andava to sólidos”, diz. E Francisco? Manuel Vaz Pato
a dúvidas ou reflexões sobre posições há meses a adiar”, justifica Samuel responde assim: “Este Papa é muito diferente.”
seculares da Igreja, como a proibição Bon, entusiasmado com o aumento de A forma de vestir é uma maneira de trans-
das pessoas que casam pela segun- fiéis que agora verifica em Portugal.
mitir essa ideia. São vários os padres que, mes-
da vez acederem ao sacramento da Assim que vender uma casa perto de
mo nas missas normais que celebram, fazem
comunhão. “Nós caminhamos em Fátima, propriedade da Fraternidade,
linha reta, os outros andam às curvas”, o sacerdote conta retomar as obras
questão de usar algo que os associe a esta forma
atira o sacerdote, para criticar “o numa igreja adaptada a partir de um mais conservadora de estar. No dia em que um
jeitinho argentino” de Francisco, um armazém, na zona oriental da capital. padre de Aveiro celebrou a sua primeira missa,
Papa “muito imprevisível” e que “não E assim dar melhores condições aos vários colegas apareceram com trajes mais tra-
se compromete”. Foi, no entanto, este crentes que hoje se aglomeram num dicionalistas. Foi o caso de João Vergamota, da
Papa jesuíta quem voltou a reconhe- pequeno oratório e se espalham pelo paróquia da Encarnação, em Mafra, que enver-
cer os sacramentos antes realizados corredor e outras salas da casa na gou uma sobrepeliz, um manto rendado, hoje
na Fraternidade, como a permissão Estrada de Chelas, em Lisboa, onde em desuso, e dos sacerdotes Diogo Correia,
de realizar casamentos. Mas também nos últimos anos se têm reunido os pároco em Peniche, e Paulo Pires, da Azambu-
foi ele a dizer que não compreende o conservadores mais radicais. ja, que se apresentaram de batina, marcando a
diferença para os colegas modernistas que se
vestem à civil e usam gravata.
Todos estão a aprender ou aprenderam a
celebrar em latim. Vaz Pato, assim como outros
sacerdotes da mesma geração, já foi dar a missa
à Igreja de São Nicolau, em Lisboa. E, há um

OS CRENTES DA FRATERNIDADE
S. PIO X ASSUMEM-SE ULTRA
CONSERVADORES E SÃO
RIGOROSOS NA DOUTRINA.
PARA ELES ESTÁ FORA
DE QUESTÃO OS RECASADOS
PODEREM COMUNGAR
50 VISÃO 25 JANEIRO 2018
ano, liderou uma cerimónia em latim na Igreja Famílias esse direito.” O mesmo pensa o padre Hélder
de São Vicente de Fora, também na capital, a Mães e filhas, Ruivo, da diocese de Aveiro. Tem 31 anos e
convite de um grupo de fiéis, monárquicos, que membros da conta que, muitas vezes, celebra missa antiga
quiseram homenagear D. Miguel nos 150 anos Fraternidade, seguem para si próprio. São dois dos padres mais con-
da sua morte. “A missa antiga remete para o a eucaristia através servadores da Igreja e integram um grupo que
sagrado e não a torna profana, ou seja, comum e do missal. Leonor se costuma reunir às segundas-feiras, dia de
vulgar”, defende, garantindo que também sente Ribeiro e Castro folga dos sacerdotes. “Partilhamos as mesmas
um crescimento dos conservadores entre os (em baixo) deixou de ir preocupações”, conta outro padre diocesano,
jovens padres. “Há, pelo menos, quatro semi- à celebração normal que pede anonimato por ter receio.
naristas portugueses – dois deles de Coimbra quando um filho lhe Quando se juntam, conversam sobre a im-
falou da missa velha.
e os outros de Lisboa – que decidiram ir para o portância desta missa em latim, das ameaças
O casal de fiéis, Diogo
estrangeiro para seminários tradicionais”, onde à doutrina e da falta de formação tradicional
e Sara (em cima
aprendem o ritual antigo. à direita) casou-se
dos seminários nacionais. Foi essa questão que
O padre admite que esta missa é a face visível em maio de 2017, levou o seminarista Lourenço Ribeiro e Castro
do crescimento dos defensores de uma igreja segundo o rito antigo a ir para Itália. “Ele identifica-se com outra
mais tradicional e deixa um recado: só razões forma de estar na Igreja”, conta a mãe. Leonor
de ordem ideológica fazem perseguir diferentes Ribeiro e Castro, 63 anos, conheceu a missa
formas de estar na Igreja, não compreendendo a tridentina no ano passado através do filho e,
falta de resposta da Igreja portuguesa. “Os fiéis desde então, aproximou-se da Fraternidade
que querem esse tipo de eucaristia deviam ter São Pio X. Em sua casa, em Fátima, tem uma
capela, onde, conta, costumam ir, em segredo,
muitos sacerdotes celebrar esta missa. “Agora
até vou mudar o altar para que o padre possa
dar a missa de costas.”

A IGREJA DIVIDIDA
Para os progressistas, celebrar a eucaristia
desta forma é “virar as costas ao mundo”. Para
os tradicionalistas, significa a “verdadeira for-
ma de tornar Jesus Cristo o protagonista da
celebração”, defende um sacerdote de Lisboa
que se revê neste movimento conservador,
mas que prefere ficar à parte por considerar
que a tensão entre os padres está a aumentar.
“O ambiente dentro da Igreja está a ficar ten-
so, resultado do extremar de posições”, diz,
notando que, alguns padres, sabendo do mal-
-estar que a visita de Burke causou aos bispos,
surgiram ao seu lado, com trajes ortodoxos, ao
mesmo tempo que os liberais não pouparam

25 JANEIRO 2018 VISÃO 51


PAU LO M E N D E S P I N TO

‘‘O que foge à norma é rejeitado’’


O professor de Ciência das Religiões explica as causas
da resistência da Igreja ao regresso da missa antiga e vê na
maioria destes crentes um sentimento de desconforto
e desconfiança em relação ao Papa Francisco
Ponto alto Quando Raymond Burke
veio a Portugal, em novembro de 2017,
deu uma missa em São Nicolau. Muitos
O que representa o regresso da Se o raciocínio bíblico de
jovens estudantes, como Pedro Froes,
missa tradicional, em latim? integrar qualquer ovelha que se
(foto em baixo, de gravata vermelha)
Criou-se o estereótipo de que é vá tresmalhando é válido para
dizem que admiram o cardeal,
um ritual muito conservador, mas homossexuais, divorciados, etc.,
considerado o opositor do Papa
representa também uma porta para tem de ser válido para integrar
uma espiritualidade mais forte. quem é diferente no sentido
Podemos participar num rito com conservador, mesmo que esteja
intensidade mística e espiritual sem contra a maioria. críticas públicas ao cardeal. Foi o que fez o Bispo
entender uma única palavra. Qual o simbolismo associado às das Forças Armadas, Manuel Linda. Num texto
Porque há tanta resistência, mulheres cobrirem a cabeça com de opinião publicado na revista da Agência Ec-
dentro da Igreja, à missa antiga? um véu? clesia, e ao falar da missa velha dada por Burke
Porque é a imagem de quem quer É uma tradição judaico-cristã, no Santuário, o bispo referiu-se a “pavões de
regressar ao período anterior ao por respeito a Deus. Traduz um cauda armada” que têm “gestos barrocos e ba-
Concílio do Vaticano II, mas esse regresso ao passado, uma vez que cocos”, que praticam “rituais mais esotéricos” e
estigma não é o mais correto. hoje o que se pede às senhoras é que usam “indumentária de circo, composta por
Em grande parte da sua história, a que se apresentem com alguns capas magnas estapafúrdias”. E ainda, referin-
Igreja Católica teve ritos bastante cuidados, por exemplo sem decote do-se aos que gostam da missa tridentina, falou
diferentes uns dos outros. ou minissaia, mas não há qualquer de “latins e latinórios, rendinhas e rendilhados,
O que causa desconforto, em necessidade de cobrirem a cabeça. vénias e salamaleques.”
Portugal, para se realizar apenas Há uma relação direta entre a “Neste momento, há uma divisão clara”,
numa diocese e nunca ao missa tradicional e as ideias acrescenta outro sacerdote, também conser-
domingo? anti-Papa Francisco? vador, de uma diocese no Centro/Sul do País.
Há três questões. Não tenho indicadores Jovem, aprendeu a missa velha no YouTube. É
A primeira diz respeito muitos claros, mas
assim que muitos se instruem. Não aceitam
à maioria dos possivelmente a
que se esteja a banalizar a religião, como dizem.
sacerdotes, que não maioria das pessoas
está tecnicamente que defende essa missa
“Não faz sentido que hoje em dia se cantem os
capacitada para fazer move-se em meios Parabéns a Você na missa, que os noivos vão
essa missa, uma vez religiosos que olham para o altar ou que os leigos façam as leituras”,
que não é ensinada nos para o Papa Francisco com considera o padre, dizendo que isso significa
seminários. Outra é que a muita desconfiança. Há uma “não cumprir as leis” da Santa Sé.
Igreja tem a necessidade de se certa coincidência entre os dois Todos os que praticam o ritual antigo consi-
apresentar brutalmente uniforme, fenómenos. Agora, não é total nem deram estar “a respeitar” a tradição e as normas,
portanto tudo o que foge à norma se explica a si mesma. mas receiam assumi-lo e, por isso, fazem-no
torna-se incómodo e é rejeitado. O Papa abriu a porta à comunhão discretamente – com exceção do padre Geral-
Por fim, o grande problema reside dos divorciados recasados? do Morujão, de 87 anos, da diocese de Viseu,
no facto de a missa antiga ser vista Este é o primeiro fator de que todas as semanas a celebra para um grupo
como destruidora da ideia, saída do desconforto. O Papa deu restrito de fiéis. “Eles pediram ao bispo, mas,
concílio, de uma maior aproximação liberdade aos bispos para criarem como não obtiveram resposta, eu acabei por
ao crente. mecanismos de integração, ajudar”, conta, explicando que, como não está
Os tradicionalistas aplicam mediante a vida das próprias colocado em nenhuma paróquia (é assistente
este argumento à missa nova comunidades, mas não definiu se regional do Corpo Nacional de Escutas), celebra
e defendem que a Igreja deve os recasados têm ou não direito a na capela, em Viseu, a que pertence o seu irmão
continuar a proibir os divorciados comungarem. José, de 79 anos. “Ele nem pode ver isso. Não
recasados de comungarem... É um caso de rutura
entende como é que se pode querer dar a missa
Com a missa nova, as igrejas com a doutrina?
passaram a estar mais cheias? Não. Ainda é cedo para dizer. Estamos
Se calhar perdeu-se essa dimensão perante projetos de intenção, não O BISPO DAS FORÇAS ARMADAS,
mística que havia no ritual Católico. sabemos se desta reflexão vai
No fundo, a tradição é aquilo que nascer sequer uma pastoral nova, MANUEL LINDA, REFERIU-SE
nós definirmos que é e serve para
ambos os lados defenderem os seus
quanto mais uma doutrina. Tem
algum potencial de mudança, isso
A “PAVÕES DE CAUDA ARMADA”
pontos de vista. tem. Mais do que definir a regra, QUE TÊM “GESTOS BARROCOS
Faz sentido criar entraves à este Papa abre a possibilidade para
celebração da missa antiga? tomadas de opção. E BACOCOS”
52 VISÃO 25 JANEIRO 2018
D.R.

D.R.

“Foi uma forma de tentar esvaziar a Frater-


nidade São Pio X que começou a ficar cada vez
mais cheia”, considera Ludgero Bernardes, 60
anos. Este escrivão do Tribunal da Relação de
Lisboa passou anos a frequentar missas mo-
dernas e chegou a ser catequista. “Mas, depois,
quando estudei teologia, descobri a verdade”,
afirma, pondo até em causa a popularidade do
Papa Francisco. “Agora na visita ao Chile viu-se
que não é assim tão amado pelo povo”, alega,
explicando que se estava “à espera de 400 mil
D.R.
D.R.

fieis e só apareceram 80 mil”.


em latim. Mas como sou o irmão mais velho, Tradicionalismo No domingo, dia 21 janeiro, Ludgero chegou,
não me diz que não”, esclarece Morujão, garan- O padre Manuel Vaz bem-arranjado e com o seu missal em latim
tindo que o ritual antigo dá um sentido “mais Pato, de Coimbra, debaixo do braço, à sede da Fraternidade São
sagrado, transcendente e divino” ao momento, e Hélder Ruivo, de Pio X em Lisboa, numa moradia na estrada de
estando a conquistar muitos sacerdotes. “Ainda Aveiro, foram, de Chelas, junto à Penha de França. Enquanto a
recentemente esteve cá um padre Fernando barrete ortodoxo, missa não começava, esteve a conversar com
António, de Lisboa que me ajudou na missa”. assistir ao desfile outros membros da organização. Conhecem-se
do cardeal Burke todos, ou quase. Na hora da missa, entram e
em Fátima, onde
ULTRACONSERVADORES os que cabem sentam-se numa das 15 filas do
ele ostentou uma
De norte a sul do País, há cerimónias destas, pequeno oratório de paredes amarelas e tetos
capa com uma
mas a maioria tem lugar em capelas privadas e cauda de 15 metros,
brancos trabalhados. Os outros ficam espa-
em locais discretos. A Igreja de São Nicolau é a chocando muitos lhados pelo corredor. Há mulheres, jovens e
única que as disponibiliza diariamente. São, em católicos. E outros crianças de lenço na cabeça. Alguns homens
regra, celebradas pelo padre Hugo Santos, que párocos já surgiram estão de fato, como Duarte Machado, 20 anos.
foi capelão da Universidade Católica, mas de em cerimónias “Vou assim para os sítios solenes”, conta.
onde saiu em junho de 2017, tendo o Cardeal- públicas com vestes A ouvir a homilia do padre Samuel, que
-Patriarca substituído-o por Miguel Vasconce- conservadoras compara os leprosos aos pecadores, está, entre
los, um padre mais progressista. Agora, Hugo e em desuso outros, um jovem casal: Diogo, 32 anos, e Sara,
dedica-se a liderar estas missas. Tudo começou 22, que espera um filho. Casaram-se em maio
depois de, em 2014, “várias dezenas de leigos de 2017, na Igreja de São Nicolau, com uma
cristãos” terem entregado uma petição para que missa antiga. “Mas o padre que ia casar-nos
“se passasse a celebrar a Missa do Rito Romano desistiu dois meses antes.” Então, eles tiveram
na Forma Extraordinária”, explica Mário Pedras, de pagar a um religioso para vir de Londres.
responsável da paróquia de São Nicolau. São conservadores. Não gostam das missas
Em 2015, depois de autorizado pelo Car- desleixadas, dizem.
deal-Patriarca, D. Manuel Clemente, o ritual foi Maria de Lurdes, uma angolana de 38 anos,
disponibilizado aos sábados. A afluência levou que está em Portugal a tirar o mestrado em
a que, pouco depois, já se celebrasse três vezes técnicas laboratoriais, explica que, quando
por semana. Agora, em setembro de 2017, pas- descobriu, pela internet, que este tipo de missa
sou a ser diária, menos ao domingo – o dia de existia, ela sentiu-se “traída pela Igreja”. Sobre
missa mais importante para os católicos. Apesar o Papa Francisco, resume o pensamento de
disso, quando a VISÃO pediu para fazer uma quase todos os que se movem neste meio ul-
reportagem, Mário Pedras respondeu: “Não traconservador: “Prefiro não dizer nada, para
tenho interesse em divulgar isso.” não pecar.” cguerreiro@visao.pt

25 JANEIRO 2018 VISÃO 53


Visionário “A nossa visão
é que os humanos possam
interagir com todos os aparelhos
usando linguagem humana”

54 VISÃO 25 JANEIRO 2018


O CÉREBRO
DE BAIDU
Robin Li está a ajudar a China
a vencer o século XXI
CHARLIE CAMPBELL/PEQUIM
GETTYIMAGES

25 JANEIRO 2018 VISÃO 55


Q
Quando Robin Li recorda uma das perguntas
que lhe fizeram há 25 anos, é inevitável que se
ria. Mesmo sabendo que as coisas eram muito
diferentes, em 1992, quando o CEO do gigante
Baidu era um tímido estudante chinês que que-
ria entrar numa pós-graduação em grafismo
para computadores nos Estados Unidos da
América. O professor que lhe fazia a entrevista
de seleção perguntou-lhe: “Têm computado-
res na China?” A pergunta deixou o estudante
assombrado. “Fiquei muito embaraçado”, diz
Li, de 49 anos, com um sorriso, à entrada do
escritório no topo do seu quartel-general em
Pequim. “Pensei: um dia hei de mostrar que a
China tem realmente uma poderosa indústria
de computadores”.
Vida de Robin
Nascido, há 49
anos, e batizado
como Li Yanhong,
adotou depois o
nome internacional
de Robin Li, com
que é conhecido.

FORTUNA
Cerca de 20 mil
milhões de euros,
Oito anos depois, Li fê-lo. Em 2000, criou o o que fazem dele
Baidu, um motor de busca que é hoje o segundo o oitavo homem
mais utilizado no mundo, depois do Google, mais rico da China
com 80% de quota de mercado na China, que (o primeiro é Jack
o torna no quarto site da internet mais popular Ma, fundador da
do planeta. A empresa, cujo nome deriva de um Alibaba)
poema chinês do século XIII, cresceu para uns
gigantescos 48 mil milhões de euros, que só EDUCAÇÃO
tem rival na China no conglomerado Tencent Filho de operários,
e no Alibaba, o império de compras online de gosta de recordar
que seguiu, desde
Jack Ma. A Baidu Maps serve todos os automo-
cedo, os conselhos
bilistas chineses e os resultados das pesquisas
da mãe para
no motor de busca Baidu iluminam todos os se aplicar nos
estudantes. Nunca mais ninguém perguntou a estudos, única
Robin Li se há computadores na China. condição para
De facto, o que foi antes um país de trabalho poder melhorar
barato tira hoje o sono a Silicon Valley. A China o nível de vida.
tem originado um terço dos 262 unicórnios Cumpriu o plano
tecnológicos mundiais, startups privadas no à risca, tanto na gastar 2,1% do seu PIB de 9 biliões de euros em
valor de 80 mil milhões de euros, de acordo China, como nos investigação e desenvolvimento. Na Cimeira
com um recente relatório da consultora global Estados Unidos, de Inteligência Artificial e Segurança Global
McKinsey. A flutuação da Alibaba na bolsa, em onde tirou um de novembro em Washington, Eric Schmidt,
2014, é a maior da história, avaliada em 20 mil mestrado. então presidente executivo da filial da Google
milhões de euros. A China é o maior mercado Alphabet, previa que as proezas da China em
de comércio eletrónico, representando quase TRABALHO IA ultrapassariam os Estados Unidos dentro
metade de todas as transações mundiais em Um dos seus de uma década. “Em 2030, vão dominar as
valor, partindo de menos de 1% há apenas uma primeiros pagos indústrias de IA,” disse. O Presidente russo,
década. As suas grandes cidades estão à beira foi nos Estados Vladimir Putin, disse recentemente que quem
de uma sociedade sem moedas, em que até Unidos, na redação dominar a Inteligência Artificial será ‘senhor do
umas tiras de entremeada fumada ou viagens do Wall Street mundo’. Ninguém na China leva este desafio
Journal, onde
de riquexó podem ser adquiridas com um mais a sério do que Robin Li.
criou o software da
flash de código QR num smartphone. É um Cerca de mil milhões das suas receitas de
edição eletrónica
longo caminho percorrido desde que o antigo do jornal.
7 mil milhões de euros nos três primeiros
vice-presidente Joe Biden dizia, em 2014, que trimestres de 2017 foram empregues em in-
o Império do Meio não inovava. FILHOS vestigação e desenvolvimento, de acordo com
Contrariando a contas publicadas – grande parte em IA. Ele
INVESTIMENTO CHINÊS política de “filho acredita que o Baidu pode dominar o mercado
A China virou agora a sua atenção para a nova único” que vigorou mundial da IA servindo-se da grande vantagem
fronteira tecnológica: a inteligência artificial durante muito da China: a escala. Num nível básico, os siste-
(IA). A 20 de Julho, o Conselho de Estado da tempo na China, mas de IA replicam a aprendizagem humana
China lançou um Plano de Desenvolvimento da Robin Li e a mulher baseada em dados empíricos: tanto padrões de
Próxima Geração de Inteligência Artificial com Melissa, tiveram condução, ou comportamento financeiro, como
o objetivo de se tornar no “primeiro centro de quatro crianças: a verdadeira intenção por trás de um comando
inovação em IA a nível mundial” no ano 2030, 3 raparigas e um de voz arruinado. Quanto mais dados tiver,
altura em que se prevê que esta indústria chi- rapaz. mais bem treinado será o algoritmo – dando a
nesa valha 120 mil milhões de euros. A China uma companhia que serve o país mais populoso
já rivaliza com as nações mais desenvolvidas ao do mundo uma vantagem óbvia. “[A China é]

56 VISÃO 25 JANEIRO 2018


GETTYIMAGES
um mercado muito grande e uniforme,” diz Li. Sem críticas ocidente no que toca a isto.” O governo central
“Toda a gente fala a mesma língua; toda a gente Apesar de ter de Pequim tem uma capacidade assustado-
obedece à mesma lei.” estudado nos Estados ra para fazer as coisas e quer apoiar as suas
Unidos e de, por prioridades políticas com muito dinheiro. Os
LIBERDADE VIGIADA vezes, reconhecer benefícios para as empresas que queiram e
Só que há uma grande contradição no cerne que desejava poder possam acompanhar estes seus desejos são
dos esforços da China para forjar o futuro: o usufruir de maior mais que claros. A questão para Baidu – e para
país tem as mais severas restrições à liberdade liberdade de Li – é quão longe se quer ir.
expressão, Robin Li
na internet, de todo o mundo, segundo a Free- Uma viagem num carro sem condutor do
tem sido um aliado
dom House. A China emprega um sofisticado Baidu ainda não é uma coisa muito confortável.
especial do Partido
aparelho de censura, conhecido como a Grande Comunista Chinês,
Quando a Time fez um “test drive” em redor
Firewall, para abafar qualquer conteúdo con- nunca recusando um do campus de Baidu, potenciais obstáculos
siderado crítico ou inapropriado. O Google, convite para participar como caixotes de lixo ou carros estacionados
o Facebook e o Twitter, bem como os sites em algumas reuniões faziam com que o veículo parasse de supetão.
noticiosos do New York Times, da Bloomberg políticas, de alto nível O carro está longe de estar pronto para ir para
e da Time, estão banidos. Operada por um a estrada: há um radar desajeitado às voltas no
exército de 2 milhões de censores online, a tejadilho de um camião cheio de fios e antenas.
Grande Firewall dá aos de fora a impressão de Ainda assim, a plataforma carro sem condutor
um silêncio de morte lá dentro. do Baidu, a Apollo, foi adotada por 130 fabri-
Mas de facto, o negócio prospera dentro cantes independentes, demonstração do que
dos limites – nos termos dos seus guardiões, a empresa conseguiu neste campo. O Baidu
claro – e as restrições não parecem sufocar o lançou software de reconhecimento de voz, o
progresso. “Acontece que não é preciso saber DuerOS, que se diz ser capaz de reconhecer
a verdade sobre o que se passou na Praça Tia- o mandarim com mais rigor do que um ser
nanmen para desenvolver uma ótima app para humano. O seu software de reconhecimento
smartphone,” diz Kaiser Kuo, antigo chefe de facial é tão avançado que está a ser utilizado
comunicações internacionais do Baidu e coan- para reunir filhos desaparecidos aos seus pais,
fitrião do Sinica, um podcast muito prestigiado envelhecendo digitalmente fotografias e com-
na China. “Há uma profunda arrogância no parando-as. No passado dia 8, o Baidu estava

25 JANEIRO 2018 VISÃO 57


O PRESIDENTE RUSSO, tinha 40% do tráfego de pesquisa chinês, com-
VLADIMIR PUTIN, parando com os 30% do seu rival. Quando a
Google saiu da China, em 2010, alegando que
DISSE RECENTEMENTE
QUE QUEM DOMINAR
Gigante o governo pirateava o Gmail, o Baidu tinha 75%
do tráfego de busca, enquanto a Google tinha
A INTELIGÊNCIA
ARTIFICIAL SERÁ
influente encolhido para menos de 20%.
Li diz que a empresa usou a ingerência
governamental como desculpa. “A Google
‘SENHOR DO MUNDO’. No início, parecia
ser apenas
saiu porque o Baidu estava a ganhar quota de
mercado”, afirma. “O mercado da China é muito
NINGUÉM NA CHINA um motor de competitivo e as coisas podem mudar muito
LEVA ESTE DESAFIO busca inspirado
no Google e
rapidamente, por isso tem de se tomar decisões
muito depressa, e o problema é que a tomada
MAIS A SÉRIO destinado a ocupar de decisões das empresas dos Estados Unidos
DO QUE ROBIN LI o seu terreno
no mercado
não é feita aqui na China”. Lee Kai-Fu, líder da
Google na China ao tempo, diz que a decisão
chinês. Mas foi
da retirada foi “difícil”. “Ter que se decidir a
crescendo para
divisão do nosso produto em dois produtos
outros serviços e
pronto para revelar no Salão de Eletrónica de alargando a sua
distintos é muito doloroso – especialmente
Consumo em Las Vegas o seu Apollo 2.0, que influência entre os para os empreendedores de Silicon Valley.”
permite a condução autónoma em estradas chineses
urbanas simples. A mensagem de Baidu para o CONTROLO OFICIAL
evento dizia tudo: A IA está a mudar o mundo Os 1,4 mil milhões de chineses são um sonho
O Baidu Brain,

GETTYIMAGES
à velocidade da China”. tantalizante para as mentes de negócios ame-
“A nossa visão é que os humanos possam especializado ricanas, mas os obstáculos são significativos.
interagir com todos os aparelhos usando lin- em Inteligência À frente de todos eles está o cumprimento das
guagem humana”, diz Li. “A diferença entre os Artificial, consegue regras locais, incluindo a censura. O Skype, por
humanos e os animais é que os humanos sabem um acerto de 97% exemplo, foi retirado das lojas de apps chinesas
no reconhecimento
usar ferramentas. Ao longo dos últimos cem em meados de novembro por não conseguir
de voz e de 99,7%
mil anos, qualquer ferramenta que inventás- cumprir a nova regulamentação. No ano pas-
no reconhecimento
semos exigia que aprendêssemos a utilizá-la. facial.
sado, a China emitiu uma nova lei de ciberse-
No futuro, não será preciso – as ferramentas gurança muito controversa que, entre muitos
aprenderão a compreender a linguagem hu- artigos, requer que as empresas estrangeiras
mana, as intenções humanas. Isso é o futuro.” Baidu Baike é que façam negócio no país armazenem local-
uma espécie mente os seus dados. Isto significa, dizem os
RIVALIDADE COM A GOOGLE de Wikipedia, críticos, que os tribunais, submetidos ao Par-
É um futuro que Li dificilmente poderia ima- mas com a tido Comunista, possam facilmente apreender
ginar, criado em Yangquan, uma cidade de diferença que só esses dados. Mesmo assim, isso não dissuadiu
cerca de um milhão de habitantes na província os utilizadores todas as empresas americanas; no passado dia
registados podem
central de Shanxi, conhecida pela agricultura 10, a Apple concordou em passar para uma
escrever nela, e de
e as minas. O liceu de Li tinha apenas cinco firma chinesa os seus serviços de iCloud em
acordo com as leis
computadores Apple II para 1800 alunos, por chinesas.
regime de outsourcing.
isso os professores davam prioridade no seu O Baidu também joga pelas regras do go-
uso aos dez estudantes que eram melhores verno, por exemplo, censurando pesquisas
a matemática. Li gostava de matemática mas Baidu Music sobre os protestos de 1989 na Praça Tianan-
“apaixonou-se imediatamente pelos compu- tem mais de men e seu esmagamento. Li é pragmático. “Se
tadores”, diz. “Achava-os mágicos”. 200 milhões de certas coisas são consideradas ilegais, então
Depois de estudar gestão informática na utilizadores ativos são ilegais e devemos bloqueá-las”, declara.
Universidade de Pequim, Li formou-se em por mês. “É a nossa forma de fazer negócio aqui”. Mas
ciência informática na Universidade estatal ultimamente até o Baidu não escapou ao con-
de Nova Iorque, em Buffalo. Começou por Baidu News Feed trolo oficial das autoridades chinesas. Em 2015,
trabalhar para o Wall Street Journal como distribui notícias, o governo sequestrou o Analytics JavaScript
engenheiro informático, antes de entrar para diariamente, do Baidu para lhe injetar códigos maliciosos
o motor pioneiro de buscas Infoseek. Depois por mais de na plataforma GitHub, segundo analistas
Li decidiu regressar à China para fundar a sua 100 milhões de independentes, desencadeando um tumulto
própria empresa, num quarto de hotel atrás do utilizadores. gigantesco de relações públicas. Em maio de
campus da Universidade de Pequim. “Contra- 2016, o regulador chinês limitou as receitas de
tei um professor e cinco estudantes prestes a Baidu Waimai é um anúncios de cuidados de saúde que o Baidu
terminarem o curso para trabalhar na primeira serviço de entrega poderia publicar, na sequência da morte de
versão do motor de busca Baidu”, conta. de comida ao um estudante, depois de se submeter a um
O Baidu ficou cada vez mais forte, imper- domicílio, com tratamento experimental contra o cancro, que
turbável mesmo face à entrada da Google no 100 utilizadores descobriu no site. O tratamento foi feito num
mercado chinês em 2005. Nessa época, o Baidu por mês. hospital estatal e muitos sentiram que o Baidu

58 VISÃO 25 JANEIRO 2018


foi o bode expiatório para o sistema de saúde Carro do futuro Pelo menos, até agora. Mas o medo da IA
chinês em declínio. Lu Qi, diretor técnico não tem só a ver com um futuro distópico.
Depois, a 11 de agosto, a administração do do Baidu, apresentou, A tecnologia está já a automatizar tarefas que
ciberespaço da China anunciou que estava a in- em julho, a plataforma davam dinheiro às pessoas. A tecnologia sem
vestigar o Baidu – bem como os outros titãs da Apollo para o condutor será rapidamente adotada para via-
tecnologia, Tencent e Sina Weibo – por alegadas desenvolvimento gens de longo curso, lançando potencialmente
violações de cibersegurança relacionadas com de automóveis sem no desemprego uns 16 milhões de camionis-
posts das redes sociais nas suas plataformas. condutor... que já tas chineses. Para Li, o problema é inevitável.
Serviços de chat, previamente abertos, como o estão a ser testados “Quando a tecnologia muda o mundo, perdem-
WhatsApp, também foram proscritos. Li está nas estradas da China -se muitos empregos”, diz, comparando a atual
preocupado que o ciberespaço chinês esteja a situação ao aparecimento da máquina a vapor.
encolher? “Como empresa da internet, quere- “Não se pode mudar isso. O que podemos fazer
mos sempre falta de regulação para podermos é continuar a inovar e a criar novos empregos
fazer as coisas livremente”, diz Li com cuidado. para as pessoas”.
“Mas também reconheço que isso não é prático Isso exigirá que o governo chinês esteja
nem sequer bom para o país”. aberto ao mundo, sugere, e não retirar-se como
É pouco provável que Li tivesse chegado os Estados Unidos parecem estar a fazer com
onde chegou se tivesse optado por enfrentar o Donald Trump. As propostas da Casa Branca
Partido Comunista. De momento pelo menos, de limitar a imigração “prejudicam o ambien-
ambos estão unidos no objetivo de pôr freio te da inovação dos Estados Unidos”, afirma
ao potencial da IA. Mas a tecnologia traz tanto Li, exortando a China a tomar uma direção
prémios como riscos fantásticos. O patrão da diferente. “Devíamos criar um ambiente mais
Tesla, Elon Musk, diz que a IA descontrolada favorável aos estrangeiros para que eles criem e
representa uma ameaça “fundamental” à huma- instalem aqui empresas, para que inovem aqui.”
nidade, enquanto que o famoso físico Stephen Mas para isso acontecer, e para Baidu dominar
Hawking teme que possa desencadear “o fim realmente a Inteligência Artificial, Li pode ter
da raça humana”. de confrontar a rigidez ideológica da própria
Li discorda, dizendo: “Os humanos terão China. Para já, no entanto, Li está concentrado
sempre a capacidade de fazer do mundo um na sua missão: “tornar o mundo complexo mais
lugar seguro. Pensemos nas armas nucleares: simples”. Ou, talvez, derrubar barreiras mais
podem matar uma data de pessoas, mataram depressa do que outros as possam erguer.
já uma data de pessoas, mas podemos de fac-
to controlar este tipo de armamento. E uma
função real das armas nucleares foi pôr fim à
© 2018, TIME Inc. Todos os direitos reservados.
Segunda Guerra Mundial. Não começaram a Traduzido da TIME Magazine
Terceira Guerra Mundial.” e publicado com autorização da TIME Inc.

25 JANEIRO 2018 VISÃO 59


TEM DE HAVER
TEMPO PARA
PENSAR
Dos primeiros desenhos ao amor pela arquitetura, uma paixão
que “cresceu com o tempo” e que nunca pensou em terminar.
Álvaro Siza Vieira, o mais premiado arquiteto contemporâneo
português, revisita o passado e olha para o “estado da Arte”
neste momento em que a burocracia e a regulamentação são
“infernais” e em que o desenho está em vias de extinção
F I L I P E S A N TA B Á R B A R A
Álvaro Siza Vieira
no seu atelier.
Desenhar
é fundamental
C
Casaco vestido, Álvaro Siza entra
numa sala do seu gabinete de ar-
quitetura, no Porto, à hora marcada.
Muito papel, esquissos de projetos
em cima da mesa e nas paredes,
maços de tabaco vazios e empilha-
dos, livros. Com um breve sorriso,
pergunta ao que vamos. “Conversar”,
respondo àquele que é considerado
um dos grandes mestres da arquite-
tura mundial. Ar sereno, sem pressas,
cigarros e isqueiro na mão, começa a
primeira vez que tive de fazer esse
desenho, foi a minha mãe, que não
desenhava de modo nenhum. Era
uma caixa assim… [desenha uma
caixa na folha]. Tinha que ver com
os primórdios do conhecimento da
perspetiva, era muito aborrecido.
Mas depois esse tio habituou-me a
desenhar e estimulava-me. Começou
por ensinar-me a desenhar um cava-
lo, coisa que ele não sabia desenhar,
não tinha a mínima habilidade. Teria,
sei lá, quatro, cinco anos. Lembro-
-me que a determinada altura, mais
tarde já, quando ao serão, na mesa da
sala de jantar, como era uso levanta-
va-se a mesa e ficava ali a ler, outro
a trabalhar, outro a fazer qualquer
coisa, ele punha-me a desenhar. Um
dia disse-me: “Tens de assinar, co-
meçar a assinar os desenhos.” Ele não
tinha realmente nem vocação nem
conhecimento para o desenho, mas
deu-lhe para ali.
Foi, nessa altura, que percebeu a
importância dos detalhes? Com
esse cavalo, por exemplo, a crina
do cavalo…
não me lembro já como funcionava…
Dava uns desenhos com uma tinta
roxa, devia passar a imagem para
aquela gelatina, a folha em cima com
um rolo e pronto… Isso durou algum
arranjar a mesa, a organizar as folhas Não, não havia crina do cavalo. O ca- tempo, pouco. Depois entrei para
com desenhos, alguns mais elabora- valo seria para aí assim [desenha na o liceu e aí havia lição de desenho,
dos do que outros. Criado o espaço, folha uma forma muito rudimentar desenho à vista. Desenhar uns potes…
coloco em cima da mesa um maço de um cavalo, como se de facto fosse Começou por querer ser escultor.
de tabaco, como havia prometido na uma criança a desenhar]. Mas com Lembra-se do momento em que
carta que escrevi – a tinta e enviada isso habituei-me a desenhar. Depois se apaixonou pela arquitetura?
num envelope com direito a selo – a houve uma fase em que, juntamente Não foi um momento, foram mo-
pedir-lhe “tempo para uma conversa com outros vizinhos, o meu irmão, mentos. Os meus pais lamentavam o
e outros tantos cigarros”. Na respos- não sei que idade teríamos… dez facto de eu querer ir para escultura,
ta, um “obrigado pela sua carta e pela anos, nove anos, começámos a fazer nessa altura a imagem que havia da
garantia de não ser antitabagista”. um jornal. Éramos quatro, cinco maior parte dos escultores é que um
Sentado, à minha frente, Álvaro Siza ou seis e vendíamos à família e aos escultor era um boémio, borguista
Viera não larga o papel, a caneta e o vizinhos. Eu fazia as histórias dos e tal. Portanto, não achavam bem eu
tabaco. Entre umas primeiras trocas quadradinhos, os desenhos das his- seguir escultura. Eu queria porque,
de palavras para quebrar o gelo, tórias dos quadradinhos. Chegámos em determinada altura, não sei quem
a pergunta básica: “Muito trabalho?”. a fazer um copiógrafo com a ideia é que me deu indicações, comprei
“Dá para entreter”, responde ao mes- de um tabuleiro com uma gelatina, barro e fazia umas figurinhas em
mo tempo que acende o primeiro barro e antes em plasticina. Eu gos-
de sete cigarros. tava daquilo e queria ir para escultu-
Quando é que começou ra. Disseram-me que não, e eu não ia
a perceber a importância dos entrar em conflito, de modo algum.
detalhes? Da casa, dos objetos, A família que era não dava para isso
das formas… TIVE UM TIO e, portanto, inscrevi-me em arqui-
Que me lembre, tinha um tio que
gostava muito da família e dos so-
QUE ME HABITUOU tetura, nas Belas-Artes, porque aí
não havia grande contestação. Enfim,
brinhos, e que me ensinou um dia, A DESENHAR ser arquiteto também não era coisa
não sei porquê, a desenhar. Lem-
bro-me de que na escola primária se
E ME ESTIMULAVA muito bem-vista nessa altura... Isto
calhou numa ocasião em que entrou
desenhava também, escola primária A FAZÊ-LO. um novo diretor – o mestre Carlos
que fiz em casa com uma professora
que era ainda familiar. Era muito
COMEÇOU POR Ramos – que não tinha sido aceite na
escola de Lisboa em concurso e que
aborrecido porque, em geral, era ENSINAR-ME depois veio para o Porto. Foi uma
uma caixa fechada e depois uma
caixa aberta. Um desenho muito
A DESENHAR coisa determinante no destino da
Escola de Belas-Artes no Porto, era
esquemático. Quem me ajudou, na UM CAVALO’’ uma pessoa inteligentíssima, muito

62 VISÃO 25 JANEIRO 2018


UM ARQUITETO
QUANDO FAZ UMA
CASA PARA UMA
FAMÍLIA TEM DE
FALAR COM O
CHEFE DE FAMÍLIA,
COM A MULHER,
COM OS VIZINHOS,
COM A SOGRA.
DIÁLOGO HÁ
SEMPRE’’
Esquissos
Se for “ao caderninho”,
o arquiteto lembra-se o curso não havia bolsas de estudo
de todas as suas obras nem programa Erasmus, nada disso.
Muito novo, fiz viagens a Espanha
com os meus pais. Não se falava em
turismo, mas encontrava-se uma
bem formada, bom arquiteto e uma professores já tinha outra abertura grande beleza. Era muito pobre a
pessoa excecional. E como a maioria e conhecimento. Havia um que, por Espanha dessa altura, mas havia uma
dos professores estava no limite da exemplo, logo no meu segundo ano beleza, não só natural mas também
idade da reforma, ele pôde escolher se tornou membro do CIAM – o com um património extraordinário.
a totalidade de um corpo docente Congresso Internacional de Arqui- A primeira vez que saí para fora da
e escolheu gente nova, e escolheu tetura Moderna. Tinha acesso direto Península Ibérica, teria uns 35 anos.
muito bem. ao que era o debate da arquitetura, Antes do 25 de Abril?
Quando conheceu essas pessoas, tão rico após a guerra, por razões Sim, em 1968. Em 1962 decorreu a
diria que foi o momento óbvias de reconstrução. Começou a primeira crise académica, contra o
marcante que o fez, de repente, haver uma abertura de informação, Regime, que aconteceu também na
querer ser arquiteto? vieram as revistas italianas e o cine- Escola de Belas-Artes. Começou a
Não… Não foi de repente, isso durou ma italiano, o neorrealismo. Houve haver um clima de que ir lá fora não
pelo menos até ao terceiro ano de uma abertura muito grande que teve é proibido, alguns de nós tínhamos
Belas-Artes. Eu não tinha infor- reflexo na escola e nos alunos. já algum trabalhinho que permitia
mação alguma e também não tinha Alguma vez pensou em terminar alguma folga… Mas depois do 25 de
grande vontade. Não estava ainda esta relação com a arquitetura? Abril é que há uma grande abertura,
entregue à arquitetura. Lembro-me Não, nunca pensei. Por muitas ra- porque a arquitetura contemporânea
da primeira correção de trabalho que zões, e uma delas é porque come- portuguesa praticamente ninguém
me fez o mestre Carlos Ramos. Ele cei a trabalhar e também tinha de conhecia. Veio muita gente da Euro-
começou a ver os meus desenhos e trabalhar para viver. Mas não foi a pa para ver a Revolução. A maioria
tal, com toda a calma. Como de cos- razão mais forte. Interessei-me pela dos arquitetos italianos e franceses
tume, ia buscar um cigarro, ou me- arquitetura, os contactos profissio- que conheci, foi cá, porque veio ver
lhor, fazer um cigarro… Olhava sem nais eram, sobretudo, com arquite- o que se passava e contactou com
dizer nada, depois cortava a ponta tos, também com engenheiros. Mas arquitetos. De maneira que aí, em re-
do cigarro de enrolar, e a crítica que o exercício da arquitetura não tinha sultado do trabalho desenvolvido em
fez não foi propriamente uma crítica. ainda a carga burocrática que tem Portugal, em particular na habitação
Ele disse-me: “Olhe, eu estou aqui a hoje, era mais livre. Um recém-for- social – o programa SAAL (Servi-
ver os seus desenhos, é muito claro mado podia arranjar um trabalho ço Ambulatório de Apoio Local) –,
que você não sabe absolutamente e fazê-lo, ir à câmara – na maioria começou a haver uns convites para
nada sobre a arquitetura, não tem a delas não havia arquitetos. Só depois ir lá fora mostrar esse trabalho. Mais
mínima informação, de maneira que do 25 de Abril é que muitas câmaras tarde ainda, convites para concursos,
dou-lhe o conselho: vá a uma livraria passaram a ter arquitetos. Portanto, para trabalho. Houve uma abertura
e compre uns livros e umas revistas arranjava-se um pequeno traba- grande e a Europa passou a saber
de arquitetura.” Assim fiz. A única re- lho, quase sempre para um tio, um que em Portugal também havia
vista que se encontrava, rapidamente conhecido da família, uma casinha, arquitetura contemporânea. Houve
mudou o panorama, era a L’archi- qualquer coisa assim. Começava a grandes arquitetos portugueses nos
tecture d’aujourd’hui. E arquiteto trabalhar-se e depois passava a haver anos 30 e 40, mas era tudo muito
como referência do que é o moderno um gosto pelo trabalho. Mais tarde, a fechado.
também só havia um, praticamente, abertura foi maior, porque passou a Lembra-se de todas as suas
o Le Corbusier. Essa nova geração de haver mais intercâmbio. Quando tirei obras?

25 JANEIRO 2018 VISÃO 63


Não me lembro. Se me perguntar autoconstrução, por exemplo no Sul
que obras fiz nos anos 50, não sei, de Itália, sobretudo na Itália mais
tenho de ir buscar o papel e ver. pobre; em França, também muito;
Lembro-me se pegar num papel na América do Sul, evidentemente,
onde tenho isso registado. Há obras muito também. Portanto, havia um
com 60 anos, 50… Mas depois, com o ambiente geral em que havia um
papel, lembro-me de tudo... apelo, muito por circunstâncias da
Muitas das obras acabam por não evolução política também, no sentido
sair do papel. Desses projetos que de um apoio, da habitação social, da
acabam por não sair do papel, habitação para o maior número, dos
houve muitas frustrações? direitos à habitação. Portugal entrou
Sim, por diferentes razões. Falta de nesse ambiente também. Realmente
financiamento, não aprovação pelas esse tipo de trabalho é que me levou
entidades consultadas, desistência a ser convidado primeiro para Ber-
do próprio dono da obra, mudanças lim, depois para a Holanda, sempre
políticas. Tudo isso… em temas de habitação social. De-
Alguma que lhe tenha ficado pois, até tive de fazer concursos para Vício
atravessada na garganta? sair dessa limitação programática. Gosta de fumar,
Ficaram todas atravessadas, mas a Essa tendência que há de classificar de desenhar e de
garganta é resistente. (Risos.) arquitetos ou outras profissões como fumar a desenhar
Falta-lhe também uma igreja em especialistas disto, especialistas da-
Roma, a do Rosário… quilo… A arquitetura tem de ser tudo
Foi outra que também foi… Mudou o menos isso, não é uma especialidade,
bispo de Roma, estava já em pro- não há um especialista, não pode cidades ficarem despidas do seu
jeto de execução com engenheiros haver se se quer qualidade. tecido…
italianos. Nesse caso, mudou o bispo Com as condições da habitação (Interrompe) Despidas e demasiado
e pronto. É uma atividade muito hoje em dia, principalmente vestidas em alguns períodos…
dependente, não é? nas grandes cidades, acharia Como assim?
O arquiteto Roberto Cremascoli possível implementar um A cidade do Porto tem atualmente
disse que o Álvaro foi dos projeto semelhante a esse que foi os mesmos habitantes que tinha nos
primeiros arquitetos em Itália a implementado logo a seguir ao 25 anos 30. Perdeu muita população,
ser tido como exemplo no que diz de Abril? porque foram facilitadas e fomen-
respeito à relação da arquitetura Depende tudo da vontade política. tadas as alternativas de periferia ao
com os sítios, com a história e o Existe talvez a crença de que a cons- longo das cidades vizinhas. Os custos
diálogo com as pessoas. Revê-se? trução é um assunto de empresas, de de mercado também têm as suas
O primeiro arquiteto (risos) terá privados, que cobre todas as ne- características especiais, num caso
exagerado. Nunca há o primeiro, cessidades, mas está à vista que não e noutro, e portanto uma parte da
nem nunca há o melhor. Isto é muito cobre. Há muita gente que não tem população saiu. Neste momento há
movediço… Há influências ou opor- acesso por falta de dinheiro ao que muito investimento europeu, não só
tunidades quase por acaso. Em Itália está no mercado ou ao que é posto europeu, estrangeiro, mas muito é
– não foi por acaso para ele – mas no mercado. Uma ação dos Estados canalizado para os pequenos hotéis
o encontro foi por acaso. Veio aí um é fundamental e, para isso, tem de porque há essa afluência turística
arquiteto italiano muito influente, na haver vontade política e meios. e um lucro rápido e imediato. Por
altura e depois, que é o Vittorio Gre- Como é que olha para o fenómeno exemplo, no Porto, estão a ser repa-
gotti. Conheceu-me, veio ter comigo de gentrificação que acontece radas muitas casas, no entanto para
e ficámos bons amigos. E a primeira nas grandes cidades? É uma das uma grande parte da população estas
revista em Itália que publica obras grandes preocupações atuais as são inacessíveis. E há alojamentos…
minhas é a revista desse arquiteto, e É um tema que está agora a ser mui-
foi um encontro que podia não ter to discutido, uma pessoa recupera
acontecido. E, como este, acontecem uma casa, substitui quem lá vivia
muitos encontros e convites – quando vivia –, outras estavam
e oportunidades. desertas, e prepara para alugar a
Mas cultiva o respeito pela
história dos sítios e das pessoas e
HABITAÇÃO turistas tirando outro rendimento
da sua propriedade. O turismo tem
o diálogo. Hoje dialoga-se pouco? PARA QUEM TEM aspetos muito positivos na economia
Há poucos programas de adaptação
social, há pouca habitação social… É
CARÊNCIAS. UMA – e teve de imediato logo na cidade
do Porto –, mas a partir de um certo
uma coisa muito abandonada, não AÇÃO DOS ESTADOS ponto já funciona ao contrário, já é
só em Portugal, pode dizer-se que
em todo o mundo. Naquela altura,
É FUNDAMENTAL E, em prejuízo da população local. De
maneira que há posições extremas,
coincidindo com a revolução portu- PARA ISSO, TEM DE antiturismo, e há posições de “o tu-
guesa, havia um ambiente na Europa
propício. Em Itália havia programas
HAVER VONTADE rismo é que tem salvado”. A verdade
está no meio, no balanço entre as
de habitação social ou de apoio à POLÍTICA E MEIOS’’ duas coisas.

64 VISÃO 25 JANEIRO 2018


O TURISMO TEM
ASPETOS POSITIVOS,
MAS A PARTIR DE
CERTO PONTO
JÁ FUNCIONA AO
CONTRÁRIO, JÁ É
EM PREJUÍZO DA
POPULAÇÃO LOCAL’’

Não, isso é tremendo. A regulamen-


tação de tudo – que é uma coisa boa
em princípio – mas que também cai
nesse fosso das especialidades, das
prioridades de acordo com, muitas
vezes, aspetos muito vagos. É in-
fernal e, às vezes, torna-se absurdo.
Com tanta informação, Tem de haver tempo para pen- Por exemplo, no tema da casa, hoje
hoje em dia vivemos a um sar. Depois uns são mais rápidos a é obrigatório… Suponho que Portu-
ritmo acelerado, só para não pensar… Pelos vistos, eu sou lento. gal ainda não chegou a esse ponto,
dizer frenético. Na sua nota Talvez admita que assim seja. E há mas em França sim. Faz um bloco
autobiográfica [Imaginar a instrumentos que ajudam ou que de apartamentos e todos os aparta-
Evidência], diz que não é mentira aceleram… Lembro-me de que há mentos têm de estar preparados para
que seja lento e pouco enérgico… muitos anos tinha de fazer uma handicapés (deficientes), o que faz
(Interrompe) Quem, eu? Alguém diz conferência sobre algum assunto que com que, de acordo com as normas,
que eu sou lento? (Risos) Lento, con- não propriamente as minhas obras. o quarto de banho às vezes – não es-
forme o ponto de vista. Não faço as Tinha de ir procurar para mostrar tou a exagerar no que digo – é maior
coisas a correr porque as coisas, para imagens que ilustrassem o que estava do que um quarto de dormir. Vi isso
serem bem-feitas, demoram algum a dizer, tinha de ir aos livros e não em França, porque ali concentra-se
tempo. Com o computador é muito encontrava o livro tal que era fun- a atenção para as aprovações, tem
rápido mas quem mete as ideias no damental para tirar uma fotografia de ser X por X e o quarto de dormir
computador não ficou mais rápido, a uma obra ou uma coisa assim. Era é um quarto. Há coisas verdadeira-
ficou mais rápido na execução, mas uma trabalheira tremenda pedir a mente absurdas. Há assim uns exa-
no pensar não me parece que tenha amigos: “Olha, tens o livro tal?” para geros nas decisões, na regulamenta-
havido uma mudança substancial depois produzir a fotografia… Hoje ção, de provavelmente não é fácil a
nessa capacidade. Dos instrumentos tenho de tratar qualquer assunto, quem legisla evitar, e eu julgo que o
sim… vou ou peço a alguém, porque eu não exercício da arquitetura é dominado
O que pergunto é como é que mexo. Não mexo por falta de jeito por regulamentos, pareceres…
vê os dias de hoje que são todos para isso, apareceu muito tarde no São portanto mais os
muito acelerados, sempre muita meu trabalho. Peço a alguém que vá constrangimentos…
coisa para fazer… O tempo parece à internet e digo: “Procura aí estas Está estipulado o tempo para um pa-
que não estica. obras assim e tal…” Imprime, tenho. recer, por exemplo, de uma câmara.
Eu tenho tempo, não poderei é já Um aluno que entra no primeiro ano Tem de dar o parecer – sim ou não –
acelerar tanto, por razões óbvias. da Faculdade de Arquitetura não foi em X tempo. Mas muitas vezes o que
Quando falava dos primeiros anos para a Faculdade de Arquitetura por é que acontece? Na véspera do limite
de escola e de quando praticamente acaso, em princípio. É porque já tem do tempo, manda-se uma carta ao
não havia informação, nesse primeiro muita informação, pode desenvolvê- projetista a pedir esclarecimentos ou
contacto crítico em que o professor -la, e tem os apoios de colegas e pro- a dizer que não está bem e pronto,
me disse “você não sabe nada disso, fessores, e desenvolve-se de forma para o tempo, já não conta. Há pro-
vá comprar umas revistas…”, hoje mais acelerada. Sem dúvida! jetos que estão na câmara durante
quem vai para o primeiro ano de um Os instrumentos de trabalho têm seis meses, um ano, dois anos. Há
curso de arquitetura, no computador uma extensão e uma dimensão muitos custos, há muitas entidades a
já viu tudo; pode ter visto às vezes completamente diferente. Agora, o dar o parecer e que demoram todas
de forma superficial, mas o primeiro pensar… O computador ainda não mais do que o normal. É uma coisa
contacto que tem já não é só o Le pensa, parece que já há aí visões num infernal. Os tempos de espera são
Corbusier. sentido diferente, mas para já não… uma coisa infernal.
Mas, nos dias que correm, acha Se há coisa que permanece lenta é Falou da questão dos arquitetos
que não há tempo para pensar? a burocracia, e isso não muda? em Portugal, hoje em dia, e da

25 JANEIRO 2018 VISÃO 65


questão dos engenheiros. Para ou foi afastado, neste caso, pela Co-
já, queria perguntar-lhe se há munidade Europeia. Há uma medida
sentimento de classe profissional que eu li, que já foi tomada ou vai
nos arquitetos em Portugal? ser tomada, e que diz o seguinte:
Sentimento em que sentido? Ne- numa equipa é obrigatório existir um
gativo ou positivo? Há nos dois coordenador, um engenheiro espe-
sentidos. A consciência de que se faz cialista em coordenação. Isto é de rir.
parte de um grupo profissional que Um especialista, por natureza, não é
tem determinada profissão, direi- bom coordenador. É um especialista.
tos, etc. E há outra coisa que é dizer: Desde sempre, que me lembre, quem
“Isto é profissão nobre e tal, tem de coordena os projetos é o arquiteto.
ser respeitada”, um sentimento de Latente está a ideia de transformar
superioridade. Quando eu falo no um arquiteto num desenhador. Pensar Admite que é
assunto dos engenheiros… As pessoas Ou seja, o arquiteto corre o um bocadinho lento,
com quem provavelmente gosto mais risco de tornar-se apenas um mas a arquitetura exige
de trabalhar são engenheiros e com desenhador de casas? reflexão
quem trabalho muito. É uma coisa Naturalmente, não acredito com
que impressiona como em Portugal a todo esse sentido porque há uma
relação entre as diferentes disciplinas força de alguma persistência em
que têm que ver com o projeto eram relação à qual estas ideias rígidas
ótimas e bem regulamentadas. Um - sobretudo quando são absurdas -
projeto tinha de ter X profissionais, acabam por não ter seguimento, não
estruturas, arquitetura… estava tudo conseguirem sobrepor-se ao resto.
regulamentado. Os honorários dos Na arquitetura em geral, como
projetistas estavam absolutamen- olha para ela? Arte? Negócio? O ensino fez parte da sua vida.
te regulamentados, engenheiro de Serviço Público? Quando chegava à primeira aula
estruturas, a percentagem era em É tudo isso. É um negócio, a arqui- o que é que dizia aos seus alunos?
relação ao seu campo de trabalho, o tetura é paga. Não é um negócio, é “Bom dia”, se era de manhã (risos).
arquiteto em relação à sua vocação um modo de vida profissional. Mas A única coisa que eu tinha a preo-
e função de coordenador de uma também tem implícito tudo o resto, cupação – porque lembro-me de
equipa grande. Atualmente é uma e se não existe o resto então não é quando fui estudante, quando co-
trapalhada. A Comunidade Europeia arquitetura. Quando existe a procura mecei os estudos –, era não destruir
decidiu que não havia tabelas de da beleza que, no fundo, é o máxi- o que as pessoas têm dentro, neste
pagamento, é o livre, o que funciona mo da funcionalidade, não é arte, é caso, candidatos a arquitetos, em
bem é o livre, e portanto deixou de construção. Mas a procura da beleza nome de que sabedoria for, destruir
haver regras e passou a haver muitas está na natureza da arquitetura, acho isso. Lembro-me muitas vezes dessa
vezes uma concorrência absoluta- eu. Um arquiteto do Renascimento, o crítica que ouvi do mestre Carlos
mente inacreditável. Não admira que Bernini dizia que a função principal Ramos perante um trabalho que
haja quem faça projetos sem qualquer do arquiteto está em tornar belo o devia ser uma desgraça completa. Ele
pagamento ou com um pagamento que não o é. Acho que ele disse isso não disse: “Desista da arquitetura”.
diferente, porque, realmente, não há referindo-se a uma das suas obras Desistir nunca é o melhor.
regras nenhumas. É possível aparecer que é uma magistral escadaria num Vai lá com o treino?
um cliente – eu continuo a trabalhar canto lateral do Vaticano e que era Com certeza que vai com o treino.
com o que era a tabela – e às vezes um buraco, e é ali que constrói a Vai com a abertura de espírito e dos
pedem-me um projeto, proposta de famosa escadaria. Se se conseguir olhos. Ver… Faz falta ver.
honorários e dizem: “Eu arranjo por transformar em belo o que não o é Se pudesse e se tivesse uma
metade.” Arranje, parabéns! ou em belo o que aparece de novo, é máquina do tempo, o que é o
Neste caso dos engenheiros, o arte com certeza. que o Siza de hoje diria ao Siza
senhor foi, de resto, uma das que começou a trabalhar com o
pessoas que encabeçou a petição arquiteto Fernando Távora?
(“A Arquitetura é feita por Se tivesse uma máquina do tempo
Arquitetos”, contra o projeto- fazia o Siza novinho. Era o que fazia…
-lei para travar que um grupo Mas se pudesse dar um conselho,
de engenheiros possa assinar OS DESENHOS DAS não dava?
projetos de arquitetura).
Enquanto coletivo profissional,
CRIANÇAS NA ESCOLA Não é de conselhos… Há uma coisa
que é a própria pessoa. Se contribuir
faltou garra para travar a PRIMÁRIA SÃO para abrir o espírito e a informação,
legislação ou os interesses
económicos falaram mais alto?
TODOS EXPRESSIVOS. sim; agora diz que preciso desenhar
muito, ver muito. Ainda hoje, na
Faltou capacidade em relação a ou- REFLETEM O INTERIOR escola, aqui é muito importante o
tras profissões, até porque aquilo que
estava organizado em Portugal, e que
DA PESSOA desenho porque o desenho contribui
para uma qualidade e profundida-
funcionava bem, foi posto em causa E SÃO BELÍSSIMOS’’ de do “ver” muito grande. Mas há

66 VISÃO 25 JANEIRO 2018


O PRAZER
DE VIAJAR….
EXTRAORDINÁRIO!
UM PRAZER
EXTRAORDINÁRIO,
A VIAGEM. É UMA
APRENDIZAGEM E
UM PRAZER!’’

que é acrescida com a idade inquie-


ta-me, inquieta-me sim. Julgo que
inquieta toda a gente.
É transversal a todas as idades…
Mas com o aumento das idades é
mais transversal… e longitudinal.
E com o aumento da idade os
pequenos prazeres tornam-se
grandes prazeres?
muitas escolas pelo mundo fora em to. É uma coisa que me impressiona Não, os prazeres são diferentes. Não
que o desenho não existe. O dese- muito ouvir de pessoas: “Eu para se metem numa balança, são outros.
nho acabou. Há muitíssimas escolas desenho não tenho jeito nenhum.” Naturalmente há uma evolução,
de arquitetura onde já não se faz Isto é curioso porque quem vê os não há a energia que havia. Sei lá, o
desenho, e é um treino fundamental desenhos das crianças na escola prazer de um corredor de velocidade,
como complemento do conheci- primária, todos eles são... expressi- que faz não sei quantos segundos
mento. Não exclui os outros, mas é vos. Refletem o interior da pessoa em 100 metros, deve ser um prazer
complementar e é insubstituível. e são belíssimos. Não me lembro enorme. Não posso ter esse prazer
No seu caso é também um de ver desenhos de criança que não (risos). Tive, embora com muitos
escape… diga: “Olha que interessante.” Depois segundos quando era novo. Corria na
Pode ser um escape no meu caso ou começam a crescer e lá lhes ensi- praia e lembro-me de que dava um
em qualquer caso. O desenho para nam que não têm jeito para desenho prazer muito grande, mas há coisas
mim também é uma libertação, uma e deixam de desenhar. Ficam com que começam a ser difíceis. O prazer
possibilidade de espontaneidade que [essa ideia de que é] um talento tão de viajar…. Extraordinário! Um pra-
nos é facultada. Também há isso, há especial que ou se nasce assim ou… zer extraordinário, a viagem. É uma
gozo no desenho, há prazer. Mas já Não é bem assim, como acontece aprendizagem e um prazer,
é mais um instrumento também de com tudo. e hoje custa-me viajar; fazer viagens
comunicação com o próprio e com No prefácio do livro Imaginar grandes é difícil, sobretudo com
os outros. a Evidência, Vittorio Gregotti o estado dos aeroportos…
Há sentimento em passar para a diz que o senhor se descreve E não pode fumar… O que lhe
folha em branco aquilo que lhe como um habitante da dá mais prazer? Fumar ou
vai dentro… solidão. Presumo que não seja desenhar? Ou fumar a desenhar?
Há uma relação direta muito grande depreciativo… Os dois! (Risos)
entre a mente e a mão que desenha. Claro que não, é um grande amigo. Quando diz que tem “um pouco
Foi o Alvar Aalto que escreveu um Tem essa interpretação, um homem secreto desejo” de abandonar a
pequeno artigo em que falava exata- da solidão. Tenho momentos em que arquitetura, é para fazer o quê?
mente disso. Agora há gente que fala estou em solidão, não são neces- Eu disse isso?
sobre isso com grande sabedoria e sariamente dramáticos, mas tenho Escreveu [na nota autobiográfica
grande profundidade. Por exemplo, momentos de convívio. Agora, não em Imaginar a Evidência]…
[há] um arquiteto finlandês [Juhani tenho uma vida social intensa e tal. Mais grave ainda. Foi um desabafo
Pallasmaa] que escreveu dois livros Isso tem que ver com o tempera- qualquer num momento qualquer.
magníficos sobre esse assunto da li- mento de cada um, agora não me Mas não… Por isso eu disse secreto,
gação entre a mão e o cérebro, como lembro de me sentir em solidão. que é para ninguém saber (risos).
é que nessa relação há uma maior Verdadeiramente sentir solidão é um Não, não tive esse… Às vezes é muito
abertura de penetrar na realidade. estado depressivo, de crise… difícil, às vezes quando se tem um
Depois também há gozo para quem O que é que o inquieta nos dias de projeto em que se trabalhou, esse de
gosta. Mas não é condição para fazer hoje? Roma por exemplo, com grande en-
boa arquitetura desenhar bem, estou O que me inquieta? (Pausa). A idade tusiasmo e apoio e depois… Foi num
a falar do desenho como instrumen- e a doença. A possibilidade de doença momento desses.

25 JANEIRO 2018 VISÃO 67


DA JOTA
PARA
O PAIS
Rui Rio é o 4º líder oriundo de uma juventude
partidária. Manuel Monteiro foi pioneiro, Passos
Coelho chegou a primeiro-ministro. As jotas
ainda formam hoje os líderes que nos governarão
no futuro? Essa parece ser a aposta do CDS
JOSÉ PEDRO MOZOS

68 VISÃO 25 JANEIRO 2018


A
A importância das juventudes partidárias pode
medir-se pela quantidade de quadros políticos
de relevo que por lá passaram. Manuel Montei-
ro foi o primeiro político português a chegar
à liderança de um partido, neste caso o CDS,
depois de ter sido presidente de uma “jota” – a
cê, de Centrista, precursora da pê, de Popular.
Pedro Passos Coelho foi o primeiro líder de
uma juventude partidária – a JSD – a chegar a
primeiro-ministro; e o caso mais recente: Rui
Rio, que foi vice-presidente da mesma “jota”,
acaba de ser eleito líder do PSD. Também no PS
há exemplos de dirigentes que o foram depois
de terem passado pela direção da JS. António
José Seguro ganhou protagonismo como líder
da Juventude Socialista na campanha para as
legislativas de 1991 e veio, precisamente 20
anos mais tarde, a assumir o cargo de secre-
tário-geral do PS. Exemplos não faltam para
ilustrar que é nas juventudes partidárias que
muitas vezes se encontram os líderes do futuro.
Mas também os há fora delas, ou porque haja
quem prefira aderir diretamente aos partidos,
ou porque os partidos mais recentes dispensam
estas organizações de modo formal – o Bloco
de Esquerda, por exemplo, não tem nenhuma
“jota” mas conta com o deputado mais jovem
do Parlamento na sua bancada (Luís Monteiro,
24 anos). Atualmente, há juventudes partidárias
que crescem em número de militantes ao passo
que outras têm vindo a perder filiados ano após
ano. Hoje, é à direita que a luta pela conquista
Manuel Monteiro, do eleitorado jovem tem sofrido mais altera-
1986 Ele é do tempo ções. A Juventude Popular está a aproximar-se a
em que ainda se passos largos do número de militantes daquela
colavam cartazes que tem sido a maior juventude partidária de
nas paredes Portugal, a JSD. Os números estão cada vez mais
próximos e, não fossem as eleições diretas no
PSD, que levaram a uma atualização das listas
devido à regularização das quotas, o cenário

25 JANEIRO 2018 VISÃO 69


podia até ser mais dramático para os jovens so-
ciais-democratas. O que está a mudar na direita?
A JP, inicialmente designada pela sigla JC
(Juventude Centrista), foi a primeira organi-
zação partidária de jovens a ver um dos seus
dirigentes a chegar à presidência de um partido
político. Manuel Monteiro tornou-se líder do
CDS dois anos após ter deixado a direção da
“jota”. Comandou os destinos dos centristas
durante seis anos (de 1992 a 1998) e foi substi-
tuído na liderança do partido por Paulo Portas,
eleito no Congresso de Braga, um dramático
conclave cujas divisões ainda hoje assombram
a memória dos centristas. O icónico líder en-
tão entronizado era o candidato apoiado pela
JC, à época presidida por Pedro Mota Soares,
que, mais tarde, viria a ser ministro, indicado
por Portas, do Governo de coligação de Passos
Coelho. Portas reconheceu este apoio desde
o primeiro momento e cedo percebeu a im-
portância de ter os jovens do partido consigo.
Não apenas para ele e para a sua chegada ao
poder mas também para a sua manutenção no
cargo. Não foram poucas as vezes que o então
recém-eleito presidente do CDS lembrou as
condições desfavoráveis em que partira para
a corrida pela presidência centrista, e fazia-o
sempre em jeito de agradecimento aos mais
jovens – “quando comecei só contava com
o apoio da JC”, referiu por mais do que uma
vez naquela altura. Um reconhecimento que o
mantinha perto da juventude partidária e que
comprometia a “jota” com a sua eleição. O apoio
dos jovens não é fundamental para se ser eleito
líder de um partido, e Portas sabia-o, mas não
desdenhava contar com este contributo.

JP CRESCE NO... ALENTEJO!


Assunção Cristas também conhece bem as
vantagens de contar com a colaboração da JP.
Foi por isso que se socorreu dos serviços da
juventude partidária nas últimas eleições autár-
quicas. Em declarações à VISÃO, o presidente
da JP, Francisco Rodrigues dos Santos, consi-
dera que a experiência acabou por beneficiar
“tanto o partido como a jota.” O CDS obteve
um resultado histórico em Lisboa, elegeu mais
Oito anos à frente da JP
uma câmara além das cinco que já governava
e aumentou as votações em autarquias onde João Almeida esteve social, sendo por vezes Coelho, ficando com a
antes não tinha uma representação digna de oito anos na presidência uma voz divergente Secretaria de Estado
da JP, entre 1999 e e desalinhada em da Administração
relevo. Por seu lado, a JP duplicou o número
2007. Foi o líder da relação à direção do Interna. Depois de o
de candidatos em comparação com as eleições partido ter passado
jota que mais tempo partido. Quando saiu
de 2013, cresceu em número de militantes ul- esteve no cargo, que da jota, Paulo Portas para a oposição, João
trapassando a barreira dos 20 mil e conseguiu acabou por lhe valer a já tinha regressado à Almeida voltou ao lugar
eleger o vereador mais novo do país em Rio entrada no Parlamento, presidência centrista de deputado, que ocupa
Maior (Miguel Filipe da Silva Santos, 21 anos). em 2002. Divergiu de e manteve o seu hoje a par do cargo de
Uma estratégia que fez aumentar o número de Ribeiro e Castro quando assento na bancada. porta-voz do partido.
militantes da JP, sobretudo no Alentejo, terra era líder do partido e Foi secretário-geral do Apesar de terem
tradicionalmente “amiga” da esquerda. conseguiu afirmar-se CDS e vice-presidente passado mais de dez
O presidente da “jota” centrista explica que como um dos rostos do Grupo Parlamentar anos desde a sua saída
quando a direção olhou para o mapa de Portu- no CDS quer dentro e em 2013 foi chamado da JP é tido como uma
gal percebeu que havia uma falta de aposta no do hemiciclo quer nos para integrar o Governo referência por muitos
Alentejo, quer a nível do partido quer a nível órgãos de comunicação de Pedro Passos jovens centristas.

70 VISÃO 25 JANEIRO 2018


Jovem Rio O recém-eleito líder do PSD chega
a presidente do partido depois de ter feito parte
da direção da JSD, nos anos 80. Em Baixo,
Pedro Passos Coelho, início dos anos 90

21.000
da juventude partidária. Por ser um território
tradicionalmente comunista, o investimento
para captar eleitores e militantes na região a
sul do Tejo tinha sido descartado. Francisco
Rodrigues dos Santos entendeu que seria in-
teressante explorá-lo, até porque havia uma
matriz naquele eleitorado que interessava tanto
a comunistas como a centristas: o conservado-
rismo. Um ingrediente que a JP acreditou que
NÚMERO seria possível capitalizar para fazer crescer o
D E M I L I TA N T E S número de militantes naquele habitat mais
D A J P. ruralizado e tradicional. Algo que, acredita o
A Juventude jovem dirigente, “só a Juventude Popular está
Popular tem vindo habilitada a fazer.” Confiante na estratégia, le-
a crescer de forma
vou-a a cabo e a direção do partido não se opôs.
exponencial. Há
Afinal de contas, militantes da JP são sempre
dois anos, tinham
pouco mais de 17 mil
potenciais votantes no CDS, principalmente se
filiados tiverem mais de 16 anos, já que poderão votar
nas próximas legislativas (2019). Assim, houve

25.340
várias candidaturas a autarquias alentejanas
que foram preparadas ou em colaboração
permanente entre a organização de juventude
e o partido ou em exclusivo pela JP.
A aposta no Alentejo foi forte e houve re-
D.R.

sultados animadores. Em Évora e em Portale-


gre tornaram-se a juventude partidária com
a maior concelhia e na corrida autárquica de
NÚMERO Montemor-o-Novo ultrapassaram o PSD,
D E M I L I TA N T E S ficando a cerca de cem votos de eleger um
DA JSD. vereador.
Em sentido inverso,
a jota laranja tem “A JSD É DE CENTRO-ESQUERDA”
vindo a perder O crescimento da jota do CDS não preocupa o
militantes. Em 2014, líder da JSD. Prestes a terminar o seu mandato,
eram cerca de 50 Cristóvão Simão Ribeiro mostra-se tranquilo,
mil. até porque, garante, não disputam o mesmo
eleitorado. “A JSD é de centro-esquerda, não é
de direita”, diz sem rodeios à VISÃO, preferindo
concentrar-se na disputa de eleitorado com
a JS. O deputado e dirigente laranja não tem
dúvidas de que essa é a matriz que sempre im-
perou na JSD e defende que “é assim que deve
continuar.” Afinal, “um ex-presidente da JSD já
DEPOIS DO SUCESSO chegou a primeiro-ministro e cerca de 30% dos
DAS AUTÁRQUICAS deputados eleitos passou pela jota.” Cristóvão
Simão Ribeiro entende que o espaço à direita
QUEREMOS CHEGAR deve ser preenchido mas não se mostra inte-
AO PARLAMENTO ressado em fazer parte da luta para o ocupar, e
até gosta de ver a jota do CDS a fazê-lo. “Antes
a JP do que algum movimento radical”, afirma.
Francisco Rodrigues
dos Santos, 29 anos,
Francisco Rodrigues dos Santos agrade-
líder da Juventude ce. “Temos um líder da JSD que diz que é de
Popular centro-esquerda? Por nós melhor, podemos
conquistar o espaço da direita, que é aquele
que nos interessa.” A estratégia do jovem diri-
gente parece estar a resultar. Os números são
positivos tanto a nível de militantes como de
autarcas eleitos. Foram precisamente estes da-
dos que chamaram a atenção da revista Forbes,
que na passada segunda-feira, 22, distinguiu o
presidente da JP como um dos 30 jovens com
menos de 30 anos mais promissores a nível
europeu, no campo da política. jpmozos@visao.pt

25 JANEIRO 2018 VISÃO 71


FOCAR

“O poder
desgasta,
mas desgasta
sobretudo quem
não o tem”
Giulio Andreotti
Político italiano
(1919-2013)

JUSTIÇA

Sim,
sr. vice-presidente
No primeiro interrogatório após ser detido,
Orlando Figueira admitiu ter protegido Manuel
Vicente, riscando o seu nome de um processo
e destruindo documentos sobre os seus
rendimentos, para que jornalistas “voyeuristas”
não “enxovalhassem” aquele que iria ser o número
dois de José Eduardo dos Santos.
Começou o julgamento que está a abalar
as relações entre Portugal e Angola
S Í LV I A CA N E C O

72 VISÃO 25 JANEIRO 2018


Arguido O procurador Orlando
Figueira é acusado de receber
760 mil euros para arquivar

E
processos contra Manuel Vicente

le ia ser o vice-presidente de
Angola, por isso teve o trata-
mento que teve.” A frase foi
dita assim, com todas as le-
tras, pelo procurador Orlando
Figueira, em pleno interroga-
tório judicial. O magistrado,
que começou esta segunda-
-feira, 22 de janeiro, a ser
julgado por suspeitas de ter
sido corrompido por Manuel
Vicente, admitiu perante uma
juíza de instrução criminal, logo após ser
detido, há quase dois anos, que protege-
ra o então presidente da Sonangol num
processo que conduziu no Departamen-
to Central de Investigação e Ação Penal
(DCIAP), porque sabia que aquele iria
ser o vice-presidente de Angola.
Orlando Figueira tinha sido detido
para interrogatório naquele 24 de feve-
reiro de 2016, quando, às 23h00, a juíza
do Tribunal de Instrução Criminal (TIC)
de Lisboa entendeu que as suas decla-
rações deveriam ser adiadas para o dia
seguinte. O interrogatório completo, a
que a VISÃO teve acesso, mostra que o
magistrado não teve pudores em contar
tudo o que fez para salvaguardar a ima-
gem do então presidente da Sonangol.
Figueira confessou ter autonomizado
um processo contra Manuel Vicente para
que a investigação fosse mais rápida (em
vez de prosseguir num inquérito com
outros suspeitos); admitiu ter riscado o
nome de Vicente desse novo processo e
declarou até ter eliminado do inquérito
as declarações de rendimentos e dados
bancários do angolano, para que os jor-
nalistas “voyeuristas” não andassem “a
enxovalhar” aquele que já era apontado à
data como o mais provável número dois
de José Eduardo dos Santos.
Quando a juíza lhe perguntou por
que razão, naquele inquérito – que
investigava a compra de apartamentos
de luxo no Estoril, por vários membros
da elite angolana –, decidiu eliminar as
referências ao nome de Manuel Vicente,
Orlando Figueira respondeu sem hesi-
tações: “Para preservar o bom nome e a
vida íntima das pessoas em causa. Para
que não andassem a enxovalhá-lo. Toda
a minha vida fiz isso. Estávamos a falar
do futuro vice-presidente de Angola.
(…) Acharia bem o nome do Dr. Manuel
Vicente andar enrolado lá?”
Inês Bonina, uma das procuradoras
responsáveis pela investigação, tinha
uma pergunta a fazer: porque não tinha
Orlando Figueira dado o mesmo tra-

25 JANEIRO 2018 VISÃO 73


JUSTIÇA

tamento ao general Kopelipa [Manuel


Vieira Dias] e ao general Dino [Leopol-
dino Fragoso do Nascimento], já que
aqueles também eram suspeitos de
branqueamento de capitais na compra
dos apartamentos do Estoril? O procu-
rador Orlando Figueira invocou desco-
nhecimento, dizendo não saber “quem
desempenhava cargos ministeriais na
altura”: “Se João Maria de Sousa [então
Procurador-geral da República de Ango- Manuel Vicente Cândida Almeida
la] mo tivesse dito teria feito exatamente Ex-vice-presidente de Angola Ex-procuradora do DCIAP
a mesma coisa.” Arguido Testemunha
É acusado de corrupção ativa na Orlando Figueira diz que todas as
Como o procurador separou os pro-
Operação Fizz mas nunca foi ouvido decisões que tomou nos processos
cessos, Manuel Vicente – que com- no processo – porque Angola não o relativos às altas individualidades
prara, por 3,8 milhões de dólares, um notificou, invocando que o ex-go- angolanas foram corroboradas por
apartamento no 9º andar do Estoril Sol vernante tem imunidade. O Estado Cândida Almeida que, à data, dirigia
Residence, através de uma conta sua no angolano e a defesa de Manuel o DCIAP. O advogado Paulo Blanco
MillenniumBCP e de outras contas em Vicente têm defendido que o agora alega que a procuradora mentiu
três offshores –, foi o primeiro a ver o deputado deve ser julgado em no inquérito e que terá chegado
processo contra si arquivado. Vicente Luanda. Para já, o juiz decidiu que ao ponto de lhe pedir cunhas para
tinha rendimentos suficientes para fa- Vicente será julgado num processo amigos seus conseguirem vistos
zer a aquisição, concluiu o procurador, à parte, em Portugal para Angola
sete dias depois de ter aberto aquele
inquérito. A então diretora do DCIAP,
Cândida Almeida, assinou por baixo. proveniência de 20 euros do que Manuel declarações falsas” sobre reuniões, sobre
O primeiro processo, que continuou a Vicente a de 20 milhões, e ainda confes- o teor de conversas e mesmo sobre Ma-
correr contra outras “pessoas politica- sou que, da mesma forma que eliminou nuel Vicente. E, na tentativa de mostrar
mente expostas” de Angola e da Rússia, documentos para que não ficassem dis- que Cândida Almeida mentiu até sobre
só seria arquivado anos mais tarde, por poníveis para consulta, também man- “o grau de confiança e intimidade” que
outro magistrado do DCIAP, já depois dou “destruir toda a documentação do mantinha consigo – tendo chegado ao
de Orlando Figueira ter saído com uma Banif”– processo que terminou com a ponto de, alegadamente, lhe pedir ajuda
licença sem vencimento para ir trabalhar desistência da queixa por parte do Esta- para a “concessão de vistos para amigos
no setor privado. Para o Ministério Pú- do angolano. Mais uma vez, para “evitar visitarem Angola” –, Paulo Blanco ain-
blico, o rápido arquivamento do proces- os voyeurismos”. da juntou ao documento uma cópia de
so contra Manuel Vicente terá sido uma Seguindo neste tom, Orlando Figueira uma fotografia ao lado da procuradora,
das contrapartidas pelas quais Orlando insistiu na necessidade de manter boas sorridente.
Figueira terá recebido 760 mil euros relações com Angola: “A proximidade Cândida Almeida não respondeu
do agora ex-vice-presidente de Angola. em 2011/2012 entre a PGR portugue- às tentativas de contacto da VISÃO.
Ao longo de várias horas de interro- sa e a angolana era uma proximidade Quando foi inquirida como testemu-
gatório, Figueira usou da ironia, dizendo íntima e, passe a imodéstia, penso que nha, admitiu ter concordado com os
que teria mais dificuldade em explicar a em muito contribuí.” E logo a seguir: arquivamentos de Orlando Figueira,
“A Dra. Cândida [Almeida], por razões mas negou ter sido informada de que o
diplomáticas, para não afastar os Esta- nome de Manuel Vicente seria eliminado
dos, manifestou concordância [com as do processo, juntamente com os docu-
decisões de Orlando Figueira].” mentos apresentados. Jamais poderia
concordar com isso, alegou, porque esse
FOTOGRAFIA COM CÂNDIDA ALMEIDA procedimento seria ilegal.
Esta não seria a última vez que o nome Ao mesmo tempo que defendia a ne-
ORLANDO FIGUEIRA de Cândida Almeida iria ser chamado ao
processo. Aliás, a procuradora é uma das
cessidade de se preservar a imagem de
Manuel Vicente, Orlando Figueira ia
CONFESSOU TER testemunhas destacadas para o julga- negando a tese de corrupção que lhe
mento. Numa exposição enviada à juíza era imputada pelo Ministério Público.
MANDADO “DESTRUIR de instrução criminal, em junho de 2017, “Sou um homem honrado, impoluto.
TODA A DOCUMENTAÇÃO Paulo Blanco – o advogado que, durante
anos, representou o Estado angolano e
Um magistrado com 25 anos de carreira,
procurador da República, classificado
DO PROCESSO BANIF” que também é arguido neste processo
– acusou Cândida Almeida de ter fal-
como muito bom, uma pessoa de refe-
rência, formador... Das duas uma: ou era
PARA “EVITAR tado à verdade quando prestou declara-
ções na Operação Fizz. O advogado diz
doido ou era maluco, ou era estúpido
ou era imbecil [sic] para me deixar cor-
VOYEURISMOS” que a procuradora “omitiu factos”, “fez romper nestes termos.” Neste primeiro

74 VISÃO 25 JANEIRO 2018


isso se concretizar, o procurador nunca
poderia mencionar o nome de Proença,
nem o de Carlos Silva nem mesmo fa-
zer qualquer referência a uma conta em
Andorra para a qual tinham sido feitos
alguns pagamentos.
“Como o arguido é um transmonta-
no, um homem de honra e de palavra,
nunca o arguido falou no seu nome nem
no nome do Dr. Carlos Silva”, invoca o
Proença de Carvalho Carlos Silva procurador nessa exposição.
Advogado Presidente do Banco Privado Orlando Figueira tem seguido agora
Testemunha Atlântico Europa
o mesmo fio condutor no julgamento
Daniel Proença de Carvalho foi a Testemunha
que decorre no Campus da Justiça, em
segunda personagem a saltar para Em dezembro, Orlando Figueira
o centro da trama, no final do ano acusou-o de ser o homem “no epi- Lisboa. O magistrado insiste que o ho-
passado. Orlando Figueira diz ter centro de tudo”: teria sido, afinal, o mem que será julgado num processo
tido várias reuniões com o advogado, banqueiro a fazer-lhe uma proposta à parte por corrupção ativa (Manuel
em que este lhe prometeu um bom de trabalho e a negociar consigo as Vicente) não é o homem certo: Carlos
emprego no futuro, se não falasse transferências de dinheiro para as Silva, defende, é quem deveria ter sido
do seu nome nem no do banqueiro suas contas. Para que Figueira não constituído arguido.
Carlos Silva durante o processo revelasse “os seus podres”, justifica Na exposição que apresentou à juíza
o procurador de instrução criminal, no verão de 2017,
Paulo Blanco juntou um email, que terá
enviado para Carlos Silva, com o esboço
de um contrato de trabalho para Orlando
interrogatório, o procurador defendeu ter mentido ao Ministério Público e à Figueira. Como o escritório do advogado
que o dinheiro que recebeu era legítimo, juíza de instrução, porque o advogado foi alvo de buscas, e muitos documentos
pois tinha sido convidado por um ho- Daniel Proença de Carvalho comprara foram ali apreendidos, este email poderá
mem, que entretanto conhecera (Paulo o seu silêncio. estar entre a prova recolhida pelo Mi-
Marques), para ir trabalhar para Ango- nistério Público. Não há, porém, registo
la, através da Primagest. Depois, como O ADVOGADO, O BANQUEIRO de que Carlos Silva tenha respondido.
os meses iam passando e ninguém o E O TRANSMONTANO O banqueiro foi ouvido no processo
chamava para ir trabalhar, teria aceita- Afinal, diz agora o procurador, quem o apenas na qualidade de testemunha e
do outro convite para ir trabalhar para convidou para ir trabalhar para a Prima- deve voltar, em breve, a ser ouvido, nessa
o MillenniumBCP e, mais tarde, para o gest não foi um desconhecido chamado condição, pelo coletivo de juízes que está
ActivoBank. Quando lhe perguntaram Paulo Marques, mas Carlos Silva, vice- a julgar o caso.
se Cândida Almeida sabia para onde iria -presidente do MillenniumBCP, presi- Se, em julgamento, surgirem novos
quando saiu do DCIAP, o procurador dente do Banco Privado Atlântico Europa indícios que apontem para uma conduta
negou: “Soube que eu queria uma licença e presidente do Banco Privado Atlântico criminosa por parte de Proença de Car-
sem vencimento para trabalhar no setor Angola. Isto depois de se terem conhe- valho e de Carlos Silva, o mais provável é
privado. Depois fomos almoçar e eu só cido em Luanda e de terem almoçado que o coletivo de juízes opte por extrair
lhe disse que estava na advocacia e no no Hotel Ritz, em Lisboa. Carlos Silva, uma certidão para o Ministério Público,
BCP porque, convenhamos, o chifrudo alega Figueira, teria um testa de ferro que terá de investigar as novas suspeitas.
era eu.” na Primagest. E terá sido o banqueiro a Depois, o rumo dessa nova investigação
Nem por uma vez Orlando Figueira propor e a negociar os cerca de 760 mil poderá condicionar o desfecho deste
tocou nos nomes do banqueiro Carlos euros que recebeu nas suas contas. julgamento.
Silva ou do advogado Proença de Carva- O procurador diz que só não contou Até se saber o que acontece nesse
lho, neste primeiro interrogatório. Nem esta versão antes, porque, depois de campo, o procurador acusado de cor-
no segundo, em março de 2017, quan- saber por um administrador do Banco rupção terá outra missão mais difícil
do praticamente suplicou à juíza que o Privado Atlântico que estava a ser in- em mão. Se muitos, nos corredores da
mandasse de volta para a cadeia, pois vestigado por suspeitas de corrupção Justiça, olham para a sua nova versão
tinha 55 anos e não poderia continuar a e de branqueamento de capitais, terá como uma habilidade concertada entre
ser sustentado pela irmã. “Este proces- tido várias reuniões com Proença de as defesas para lançar o caos e mandar
so destruiu-me completamente a vida. Carvalho, em que o advogado – além o processo abaixo, outros falam de uma
A Sra. entenda que eu sou o corrupto, o de formular uma cessação amigável do estratégia potencialmente suicidária.
branqueador de capitais.” contrato de trabalho com a Primagest e Perguntam-se como poderá agora Or-
Só recentemente, em dezembro, pra- de ultimar os pormenores sobre como lando Figueira, conhecido entre alguns
ticamente a um mês do início do julga- seriam pagos a Figueira os 210 mil euros magistrados como “O Inocente”, pare-
mento, Orlando Figueira resolveu virar prometidos – lhe terá acenado com a cê-lo aos olhos dos juízes, depois de ter
o processo do avesso, apresentando ao promessa dos pagamentos da sua defesa admitido que, pelo menos uma vez na
tribunal uma exposição em que confessa e de um bom emprego no futuro. Para vida, se deixou comprar. scaneco@visao.pt

25 JANEIRO 2018 VISÃO 75


Missão As tropas turcas
MÉDIO ORIENTE querem evitar que os curdos
controlem os 911 quilómetros
da fronteira comum com a Síria

GETTY IMAGES
Os porquês de uma invasão
Ao atacar o enclave de Afrin, a Turquia pretende dar uma lição
aos curdos da Síria, acusados de terrorismo. O conflito ameaça
complicar ainda mais a relação de Ancara com os EUA

D
FILIPE FIALHO

epois dos conflitos israelo- te da Síria, é apenas mais um exemplo. uma coisa chamada Operação Oliveira?
-árabes, da frustrada prima- Vamos por partes. Há pouco mais de A missão militar assim chamada tem
vera de 2011 e da guerra civil seis anos, na sequência das manifestações por objetivo evitar que os curdos, em ge-
síria que já fez perto de meio populares contra o Governo de Bashar ral (ver infografia), e os curdos sírios, em
milhão de mortos, há novos al-Assad, a Turquia foi dos primeiros particular, tenham quaisquer veleidades
motivos para se considerar o países a condenar a violência do regime de soberania e, a médio ou longo prazo,
Médio Oriente uma das áreas de Damasco e a exigir a demissão do Pre- formem uma pátria comum. Por outro
mais violentas e complicadas sidente sírio. Agora, segundo a imprensa lado, permite ao Presidente Recep Tayyip
do planeta. Não é por acaso turca, os dois países podem estar prestes Erdogan, já a pensar na sua reeleição em
que se recorre ao humor ne- a retomar os laços diplomáticos e a ne- 2019, prosseguir uma ambiciosa agenda
gro para afirmar que os grandes espe- gociar assuntos de interesse recíproco, de política externa que muitos definem
cialistas na região são alguém que está incluindo o traçado da fronteira comum como neo-otomana. Claro que o obje-
rigorosamente enganado em tudo, exceto ou a forma de lidar com as diferentes mi- tivo oficial do ataque a Afrin é criar uma
na localização do mar Morto. A operação lícias e forças militares estrangeiras que “zona de segurança” de 30 quilómetros,
militar desencadeada dia 20 pela Turquia, operam nos respetivos territórios. Con- a partir da fronteira turca, e neutralizar
ao bombardear e invadir com tropas e traditório? Sem dúvida. Mas nesse caso as ações dos “terroristas” curdos do
blindados o enclave de Afrin, no Noroes- por que raio decidiram os turcos lançar Partido de União Democrática (PYD) e

76 VISÃO 25 JANEIRO 2018


CURDOS, O POVO SEM PAÍS Territórios sob controlo
e de maioria curda
candeias às avessas e apoiam de forma
clara grupos rivais na guerra civil síria.
São quase 40 milhões e estão espalhados Para que não haja dúvidas: Washington
por todo o mundo, embora a maioria se Enclave invadido pela há muito que apoia as YPG e Ancara con-
concentre em quatro estados (tabela) Turquia a 20 de janeiro
verteu-as nesta semana em seu inimigo
número um; por outro lado, os militares
TURQUIA Fronteira turcos têm do seu lado perto de 25 mil
Afrin turco-síria
Rumeilan rebeldes sírios, alguns dos quais antigos
Kobane combatentes da Al Qaeda e do Daesh –
Manbij além de terem igualmente recebido o
beneplácito de Damasco e sobretudo
Aleppo Raqqa
da Rússia de Vladimir Putin, avisada
IRAQUE antecipadamente dos bombardeamen-
Euf
MEDITERRÂNEO

rat
es tos em Afrin.
Como se não bastasse, a Administra-
Deir Ez-Zor ção de Donald Trump permanece enre-
dada em contradições sobre o assunto,
SÍRIA porque manifestou a intenção de promo-
ver uma “força fronteiriça” entre a Síria e
a Turquia, constituída por 30 mil efetivos
O

(maioritariamente curdos), para vir de-


AN
LÍB

pois dizer que compreende os motivos


IRAQUE 100 km de Ancara – e que esta tem o direito do
seu lado para invocar a legítima defesa,
Damasco Turquia 18 milhões tal como prevê o Artigo 51 da Carta das
Irão 9,2 milhões Nações Unidas. Escusado será dizer que
EL

tudo isto desperta enormes dúvidas do


ISRA

Iraque 7 milhões
ponto de vista jurídico: seja a invasão
AR/VISÃO

JORDÂNIA Síria 2,8 milhões


FONTE Le Monde turca, seja até a presença de mais de dois
mil soldados dos EUA em território sírio,
instalados em bases criadas para o efeito,
o respetivo braço armado – as Unidades no Sul do país, já perto da Jordânia.
de Proteção Popular (YPG). O Executi- Como a Operação Oliveira ainda só
vo de Ancara considera que estas duas agora começou e o número de vítimas
organizações têm laços estreitos com os promete ser grande, a somar-se à ca-
curdos-turcos do Partido dos Trabalha- tástrofe humana que ocorre atualmente
dores do Curdistão, movimento separa- na província limítrofe de Idlib, a Casa
tista que está em guerra com a Turquia Branca e a comunidade internacional
desde 1984 e cujo líder, Abdullah Ocalan, estão a pedir “contenção” ao regime
cumpre pena perpétua na ilha-prisão de turco. No entanto, o Presidente Erdogan,
Imrali, no mar de Mármara, ou seja: as como de costume, não se faz rogado:
autoridades turcas pretendem evitar a “Não vai haver marcha-atrás em Afrin.
todo o custo que os curdos sírios, que (...) Não temos de pedir licença a nin-
controlam Afrin desde 2012, possam guém”, garantiu ele na segunda-feira, 22,
criar um corredor contínuo ao longo ameaçando ainda dar ordem de marcha
dos 911 quilómetros da fronteira comum às suas tropas até Manbij, cidade a leste
entre os dois países. de Afrin, já na província de Aleppo, onde

CONTRADIÇÕES À MODA DE TRUMP


O PRESIDENTE ERDOGAN há também tropas especiais norte-ame-
ricanas. No comício em que fez estas
Para complicar ainda mais estes cenários,
é preciso ter em conta que os curdos
AMEAÇA DAR ORDEM declarações, Erdogan insinuou ainda
que pode vir a repatriar os 3,5 milhões
foram decisivos para combater o Califa- DE MARCHA ÀS SUAS de sírios que se encontram na Turquia
do – instaurado em junho de 2014 pelo e ainda se deu ao luxo de perguntar aos
autoproclamado Estado Islâmico, tam- TROPAS ATÉ MANBIJ, EUA: “As vossas operações militares em
bém conhecido por Daesh – e, com esse
propósito, foram financiados e armados CIDADE ONDE ESTÃO curso no Afeganistão (...) já têm data para
terminar? Também ainda estão no Ira-
por uma coligação internacional liderada
pelos Estados Unidos da América.
FORÇAS ESPECIAIS DOS que, certo?” Polémicas à parte, a verdade
histórica parece estar do seu lado porque
Ora, por ironia do destino, a Turquia
e os EUA, os países com os dois maio-
ESTADOS UNIDOS DA Washington já se envolveu e patrocinou
duas centenas de intervenções bélicas
res exércitos da NATO, estão agora de AMÉRICA nos últimos 150 anos....

25 JANEIRO 2018 VISÃO 77


HISTÓRIA

A amazona de Aveiro
Aqui se conta a incrível vida de Antónia Rodrigues que,
no final do século XVI, se disfarçou de António, foi
grumete de caravela e bravo oficial-cavaleiro em Mazagão

N
J. PLÁCIDO JÚNIOR

o início do século XX, a Rua de mento no próximo dia 27 de janeiro, na


São Roque, no casco histórico Capitania de Aveiro. Lê-se na capa que
de Aveiro, passou a chamar- a obra é inspirada na “história verídica
-se Rua Antónia Rodrigues. de uma jovem que, disfarçada de rapaz,
Ainda lá está a placa justifica- conquistou honras e regalias no Exército
tiva da mudança toponímica: português”, ou seja, Antónia Rodrigues.
“A célebre Antónia de Aveiro
que, fugindo de casa aos 15 POBREZA E GLÓRIA
anos, foi, vestida de homem, Antónia nasceu em março de 1580 numa
combater gloriosamente os casa pobre de pescadores, fora das mu-
Mouros em Mazagão, onde obrou prodí- ralhas da vila de Aveiro. Tinham passado
gios de valor, conservando durante anos, quase dois anos sobre a trágica derrota
com a sua virtude, o segredo do seu sexo.” de Alcácer-Quibir, na qual morreu o rei
Por exemplo, apertando com um pano D. Sebastião, solteiro e virgem. Na atri-
os seios contra o peito. bulada crise sucessória que se seguiu,
Mas o ceticismo sobre a existência de tal o rei de Castela, Filipe II, seria designado
figura durou décadas. Desses desconfiados, rei de Portugal, sob o título de Filipe I.
o vereador da Cultura da Câmara de Aveiro, A menina seria, aos nove anos, entregue
Capão Filipe, habituou-se a ouvir, em tom aos cuidados da irmã mais velha, Inácia, que
sarcástico, que “cada país teve a sua Joana se casara com um carpinteiro naval e vivia
d’Arc”, como conta à VISÃO. A descrença, num cubículo em Lisboa. Em 1610, Duarte
porém, foi deixando de fazer sentido. Nunes de Leão relatava a “aspereza” e o
O primeiro a atacar os céticos foi o ar- “mau tratamento” de Inácia para com a irmã
tista plástico Marcos Muge. Em 2001, criou mais nova. Aos 15 anos, com algum dinheiro
e pintou um painel de azulejos de 4,50 por ganho em biscates, comprou roupa mascu-
2,40 metros, em homenagem a uma “mu- lina e, num casebre abandonado, vestiu-a.
lher à frente do seu tempo”. O artista estu- Depois, com uma tesoura surripiada à irmã,
dou a indumentária militar da época (fins desfez-se das tranças castanhas alouradas e
do século XVI) e, sobretudo, a Descrição ajeitou o corte de cabelo ao dos grumetes.
do Reino de Portugal, texto publicado em De seguida, conseguiu embarcar numa ca-
1610. A obra é de Duarte Nunes de Leão, ravela que transportava trigo para Mazagão,
contemporâneo de Antónia Rodrigues, dizendo chamar-se “António Rodrigues”.
e relata com riqueza de pormenores a vida Mas, quando o barco fundeou em Setúbal,
e os feitos da heroína aveirense, confirman-
do o que está resumido na placa toponímica
– hoje muito degradada.
Marcos Muge só por duas vezes teve
oportunidade de exibir o seu painel de
azulejos em Aveiro, a última das quais O REI FILIPE II ATRIBUIU-
em 2010. “Como Antónia Rodrigues veio
do povo, não é lembrada, na cidade, com -LHE UMA TENÇA
uma obra plástica digna”, critica. Pouco
depois, ouvimos uma frase idêntica: “Era (PENSÃO) VITALÍCIA
uma mulher do povo e, por isso, não faz
parte das narrações da História”, diz
DE “CINCO MIL RÉIS”
Mário Silva Carvalho, autor do romance
A Amazona Portuguesa (Saída de Emer-
POR ANO, PELOS FEITOS
gência, 256 págs., €16,60), com lança- DE COMBATENTE

78 VISÃO 25 JANEIRO 2018


o novo grumete testemunhou, à noite, que
o mestre e a tripulação desviavam parte
do cereal para botes que se encostaram
ao navio. Detetado o ilícito após a chegada
à praça-forte, o “rapaz” confirmou-o às
autoridades, sem identificar os autores. O
governador, D. Diogo Lopes de Carvalho,
entendeu que o grumete não devia voltar
à caravela. Temia que, “na primeira noite
de mar”, o mestre o destinaria a “pasto
para peixes”. Ficava melhor como praça da
guarnição de Mazagão.
O embuste Licenciado em História, Mário Silva
Carvalho mergulhou ao longo de quase

da ‘generala’ quatro anos na busca de documentos so-


bre a destemida aveirense (outro exemplo:
o livro Theatro heroino – Abcedario his-
Nos anos 90, o caso de Maria torico, e catalogo das mulheres Illustres
Teresinha, aliás “general Tito”, em Armas, Letras, Acçoens Heroicas, e
deu brado. Artes Liberaes, do Frei João de São Pedro,
Nascida no Funchal, Maria publicado em 1736). E acabou por escrever
Teresinha terá rumado a um romance em que é ténue a fronteira
Lisboa, aos 16 anos, por causa entre a ficção e o rigor histórico. Mas o
de uma desilusão amorosa.
documento crucial da obra é o Alvará de
Mas foi em 1992 que saltou
Mercê do rei Filipe II que, em dezembro
para a ribalta mediática. A PJ
descobriu que, durante quase
de 1602, concede uma tença (pensão) vita-
20 anos, Maria Teresinha fez-se lícia de “cinco mil réis” por ano “a Antónia
passar por “general Tito Rodrigues”, pelos feitos que durante cinco
Aníbal da Paixão Gomes”, anos alcançou na praça-forte de Mazagão,
nome de um seu irmão que em Marrocos, enfrentando os ataques
morrera ainda bebé. De farda diários dos mouros, como “espingardeiro
aprumada e bem-falante, pedia de cavalo e de pé, em trajos de soldado”.
dinheiro emprestado a vizinhos Naquele ano, a nossa heroína foi obri-
ingénuos, com a promessa de gada a despir a carapaça com a qual teve
juros elevados. Também foi artes de enganar, nas casernas, “homens
“advogado” e “funcionário da belicosos, beberrões, gabarolas e brigões”,
Embaixada dos EUA”. A queda como descreve Mário Silva Carvalho. Suce-
do “general Tito” começou deu que a filha de um nobre se apaixonou
quando a sua companheira perdidamente pelo cavaleiro-sargento
de anos, Joaquina Costa, o/a António Rodrigues e, na ausência de cor-
denunciou. Julgada no antigo respondência amorosa, caiu à cama doente,
Tribunal da Boa-Hora, em recusando alimentar-se. O governador da
Lisboa, a “generala”, como praça-forte, D. Diogo Lopes de Carvalho,
passou a ser chamada, foi
coagiu-o a casar-se com a jovem. E Antó-
condenada a três anos de pena
nia Rodrigues entregou-se, em confissão,
suspensa, por usurpação de
identidade e burla. Morreu em
ao padre Malafaia, que acabou por conse-
julho de 2007, aos 74 anos, guir amenizar a ira inicial das autoridades
numa aldeia de Alenquer. Só e e que a urbe (cerca de dois mil habitantes,
abandonada. 500 dos quais militares) a amnistiasse.
Ainda em Mazagão, Antónia casar-se-
-ia, em 1603, com um oficial, de quem
teve um filho. Em 1607, regressou a Lisboa
com a família. Depois, já viúva, ingressou
na corte, em Madrid, de Filipe II (III de
Espanha). Com a morte do monarca, em
Homenagem Esboço do rosto de 1621, sentiu-se marginalizada pelo sucessor
Antónia Rodrigues para um painel de e voltou a Portugal. Aqui, perde-se o seu
azulejos, da autoria de Marcos Muge. rasto. Terá morrido em 1641 ou 1642, com
Em baixo, a descrição da sua história 61 ou 62 anos. Mas, no seu romance, Mário
feita por Duarte Nunes de Leão, seu Silva Carvalho dá-lhe um final glorioso –
contemporâneo que, claro, não desvendamos. jjunior@visao.pt

25 JANEIRO 2018 VISÃO 79


NEGÓCIO

Indiana Jones da arte


Há quase duas décadas que o holandês Arthur Brand
se dedica a encontrar obras de arte roubadas. Já resgatou
objetos na selva peruana e negociou com a máfia italiana

O
ROSA RUELA

epíteto colou-se-lhe embo- em que há doses de aventura, com ob-


ra seja difícil imaginá-lo de jetos resgatados na selva e assassinatos
chapéu e chicote, a perseguir de criminosos. Felizmente, saí vivo dis-
bandidos. É demasiado alto, so, mas essas histórias são excecionais
demasiado loiro, demasiado porque, no mundo da arte, os traficantes
certinho, e anda sempre en-
fiado num blazer ou pulôver
“NÃO NEGOCEIO COM não matam”, disse Arthur Brand à revis-
ta online Gaceta Holandesa. “O meu
de caxemira azul, a condizer OS CRIMINOSOS, MAS trabalho”, explicou, “consiste em esta-
com os olhos. Será bonito o belecer amizade com pessoas para lhes
suficiente para inspirar alguém COM QUEM COMPROU sacar segredos e, a partir daí, começo a
a escrever “I love you” nas pálpebras, como
acontece a Indiana Jones em Os Saltea- AS OBRAS NO MERCADO trabalhar. Por isso, quando me compa-
ram com Indiana Jones fazem-me sentir
dores da Arca Perdida? A verdade é que
nem ele se imagina na pele do arqueólogo
NEGRO. E OFEREÇO-LHES A idiota: não tenho carta de condução nem
sei mudar uma lâmpada.”
filmado por Steven Spielberg.
“Se calhar, as pessoas referem-se a
RECOMPENSA PORQUE TÊM Mostra sentido de humor este holan-
dês de 47 anos que se diz investigador
casos como os que resolvemos no Peru, DIREITO A 10 POR CENTO” de arte e vive de encontrar obras rouba-

80 VISÃO 25 JANEIRO 2018


Coroa de glória O investigador orgulha-
-se especialmente da descoberta
de oito esculturas de Hitler que estavam
desaparecidas desde 1989

das. Essa é uma das características que


partilha com Indy, mas há mais: anda
O ASSALTO MAIS FAMOSO caixa-forte em Nova Iorque. Quando
ele e um colega souberam que o papiro
de comboio, não tem telemóvel com estava nas mãos de uma negociante de
internet ou Whatsapp, e, sobretudo, não Numa madrugada de março de arte e colecionadora suíça, enviaram
resiste a uma boa aventura. “Não estou 1990, dois ladrões fardados de fotografias para vários jornais e a mu-
nisto pelo dinheiro. Estou pela aventura” polícias, com bigodes falsos, lher acabou por negociar a sua cessão à
podia ser o tweet fixado no topo do seu tocaram à campainha do Museu National Geographic.
perfil no Twitter. Isabella Stewart Gardner, em Além das esculturas nazis que lhe
Podia, mas não é. Para destacar no Boston. Alegaram que tinham sido deram fama, Brand traz no currículo
cimo da sua página nessa rede social, reportados distúrbios e acabaram a descoberta e devolução de inúmeros
Brand escolheu a reportagem da news- por algemar sem dificuldade os quadros, e ainda de um conjunto de
dois guardas de serviço. Durante
magazine alemã Der Spiegel sobre a porcelanas que a Casa Real holandesa
quase uma hora e meia, os ladrões
descoberta dos “tesouros perdidos” de foi obrigada a restituir a uma família
escolheram treze obras de arte
Hitler que andavam desaparecidos desde avaliadas em €400 milhões.
judia. Já foram tantas as obras de arte
a reunificação da Alemanha, em 1989. Se resgatadas que o investigador ganhou a
ele não tivesse inventado a personagem confiança da Interpol e dos traficantes.
de um colecionador de arte americano O seu modus operandi é sempre o mes-
chamado Moss, dono de uma fortuna co- mo. “Não negoceio com os criminosos,
lossal, nunca a polícia alemã teria cantado mas com quem as comprou no mercado
vitória como cantou em maio de 2015. negro”, sublinha. “E tento um acordo:
A ajuda preciosa do detetive de arte ofereço-lhes a recompensa porque têm
holandês levou à busca em casas e apar- direito a 10 por cento. O meu único in-
tamentos de sete suspeitos, e ao achado teresse é que as obras voltem ao lugar
de várias obras de arte nazis. A ilustrar o de onde foram roubadas.”
artigo vemos os dois “cavalos de Hitler”, Em 2011, Brand criou, com o colega Da-
em tamanho real, que Josef Thorak vid Kleefstra, uma empresa de consultoria,
GETTYIMAGES

fundiu em 1939, para serem colocados O CONCERTO a Artiaz. Juntos aconselham colecionado-
frente à Chancelaria do Terceiro Reich, 1665 res, investidores, negociantes, leiloeiras e
em Berlim. Foram encontrados numa Jan Vermeer museus; também fazem avaliações e veri-
propriedade do empresário Rainer Wolf, ficam a autenticidade das obras. Trabalho
onde também estavam seis outras gran- não lhes falta, embora saibam que “90%
des esculturas em bronze. da arte roubada nunca aparece”.
Disfarçado de colecionador, Arthur É esse o risco que correm os treze
Brand viria a encontrar-se com o nego- quadros (ver caixa), avaliados em 400
ciante de arte Steven de Fries, de quem milhões de euros, que desapareceram
já sabia ter informações sobre o para- do Museu Isabella Stewart Gardner, em
deiro de várias obras de arte nazis. Os Boston, em março de 1990. O caso está
dois almoçariam num restaurante, em tão bicudo que a recompensa já chega
Amesterdão, e Brand gravou com uma aos oito milhões de euros. O investigador
minicâmara escondida na lapela o outro entrou na corrida, claro. “É o Santo Graal
a propor-lhe a transação por oito mi- no mundo da arte”, comparou.
lhões de euros. Os cavalos não estavam Em 2010, chegou-lhe a dica de que
na posse de Steven de Fries, mas sim CRISTO NA TEMPESTADE NO MAR DA as telas estariam nas mãos de antigos
GALILEIA
numa propriedade de uma proeminente membros do IRA. Segundo a sua fonte,
1633
família alemã, os Flick. Friedrich Flick que entretanto morreu, terão sido ini-
Rembrandt
fora condenado nos julgamentos de Nu- cialmente vendidas nos Estados Unidos
remberga, mas enriquecera novamente; da América e enviadas de barco para a
os seus descendentes queriam livrar-se Irlanda do Norte, ainda nos anos 90.
de tudo o que os lembrasse esse período. Nada de estranho: Brand já negociou com
Já um ano antes da descoberta, o a máfia italiana e com milícias ucrania-
investigador provocara um enorme es- nas; são quinze anos de uma experiência
cândalo ao revelar que Juliana, antiga que começou quando foi enganado ao
rainha da Holanda, comprara obras de comprar uma obra de arte falsa.
arte pilhadas pelos nacional-socialistas. Hoje, investiga pela glória. Caso che-
gue ao paradeiro dos quadros do Museu
O PAPIRO DE JUDAS Isabella Stewart Gardner, garante que
Arthur Brand também colaborou ativa- entregará os oito milhões a quem os tiver
mente no caso do Evangelho de Judas, em sua posse. “Se puder ser eu a levá-los
um manuscrito proibido pela Igreja, A DAMA E CAVALHEIRO DE PRETO ao museu, deem-me um bom copo de
que fora levado ilegalmente do Egito e 1633 Guinness e é recompensa suficiente.”
se encontrava há várias décadas numa Rembrandt rruela@visao.pt

25 JANEIRO 2018 VISÃO 81


DESPORTO

O “mágico” acidental
Na infância faltou-lhe, por vezes, a comida. Mas o português
Ricardinho fintou o destino e é, pela quinta vez, o melhor
jogador do mundo de futsal. Sorte ou muito trabalho?

A
SÓNIA CALHEIROS DIANA TINOCO

história de Ricardinho, 32 sionais do futebol de salão não precisam Veloso terá ido ao “Baile da Paróquia”,
anos, tinha tudo para correr de ter uma máquina bem oleada: além do Ricardinho continua a cruzar-se com
mal. Filho do meio de uma empresário, do assistente pessoal e do os vizinhos da sua infância. “A minha
família pobre de Gondomar, motorista em Madrid, o futsalista usa os terra é muito simples, é uma aldeia
teve sempre a droga o crime serviços de uma empresa de assessoria pequena, com quatro ou cinco bairros
à porta de casa. Mas a sua de imprensa e de relações públicas e de sociais, em que as portas das casas estão
paixão pelo desporto des- uma outra empresa gestora das redes abertas. Sempre que lá vou faço questão
viou-o de cair em tentação. sociais. “O futebol não é só paixão, é de manter as mesmas rotinas: passar no
E livrou-o do mal. Determi- também investimento”, resume. café onde ia com os meus pais e ver o
nado e sem qualquer tipo de campo de futebol onde tudo começou.”
heroísmo ou de autocomiseração, hoje NA SELEÇÃO COMO EM CASA Neste meio desportivo, o jogador de
fala das desilusões e dos êxitos com a Com quase dois milhões de seguidores futsal que começou no Gramidense,
naturalidade própria dos campeões. nas redes sociais, Ricardo Braga, tem-se seguiu para o Miramar, de Vila Nova de
Por duas vezes, aos 13 e aos 22 anos, dividido, esta semana, entre o Porto, Gaia, já como profissional, e a seguir foi
esteve com um pé no mundo do futebol, Lisboa e Rio Maior, onde decorre o es- contratado para o Benfica, na temporada
mas a baixa estatura (1,67m) e uma fuga tágio da Seleção Nacional, uma das par- 2003/2004, está habituado a ver muitos
para a imprensa sobre a abordagem de ticipantes do Campeonato Europeu de atletas que se esquecem das origens, mas
um dos “grandes”, estragaram-lhe o Futsal, a realizar na Eslovénia, de 30 de Ricardinho quer ser um exemplo de hu-
sonho. Não nega o quanto isso lhe cus- janeiro a 10 de fevereiro. Portugal integra mildade. À VISÃO confessa ser a mesma
tou, nem o quanto chorou. Sabe que, o Grupo C e irá defrontar a Roménia e pessoa, “simplesmente cresci e melhorei”.
eventualmente, vai viver sempre com a a Ucrânia. Ricardinho é o único inter- Sempre que fala da juventude, recorda as
dúvida: “E se tivesse ido para o futebol?”. nacional entre os 14 convocados pelo dificuldades por que passou, “sem nunca
Obstinado, não quis olhar para o fut- selecionador nacional, Jorge Braz, mas deixar de ser feliz”. “Às vezes, a minha
sal como uma modalidade menor e tor- o ala do Inter Movistar não se sente um mãe não tinha comida para me dar e
nou-se o melhor jogador do mundo, por expatriado. Aliás, deseja aos seus colegas mandava-me a casa de um vizinho com
cinco vezes, recebendo o prémio atribuído a oportunidade de virem a jogar fora de quem já tinha combinado a refeição. Não
pelo site Futsal Planet, com a chancela da Portugal, “para evoluírem em ligas mais se olhava de lado para estas situações e
FIFA, na mesma altura que as notícias competitivas”, como a espanhola. cada um ajudava da forma como podia.
anunciavam a quinta Bola de Ouro para Entre uma e outra folga, o melhor As minhas primeiras chuteiras de futsal,
Cristiano Ronaldo. “O mais importante é futsalista do mundo faz das visitas à aos 14 anos, foram dadas também por um
que ambos somos referências máximas família um ritual. No Bairro de Timor, vizinho”, lembra, com detalhe. A pobreza
para os desportistas e representamos “lá para os lados de Valbom”, onde Rui ensinou-o que “é preciso saber andar
bem Portugal”, diz Ricardinho, a quem tanto de fato como de fato de treino”.
chamam o “mágico” por causa das fintas Agora, faz questão de mostrar ao irmão
dentro e fora de campo. No entanto, no mais novo e aos dois filhos (com 10 e 5
que diz respeito à visibilidade, o R10 ainda anos) que é preciso trabalhar para con-
tem um longo caminho até alcançar o CR7. quistarem o que ambicionam. “Dou-lhes
O futebol de 11 continua a ser o “des- tudo, mas não demonstro que é fácil.”
porto-rei” e o futebol de salão é apenas
uma gota num oceano de patrocínios “A POBREZA ENSINOU- SE NÃO FOSSE A CAROLINA...
milionários e de horas de transmissão
televisiva. Ricardinho, atualmente a jogar -ME QUE É PRECISO Aos sete anos, quando a família Braga mo-
rava em Fânzeres, também no concelho
em Espanha, no Inter Movistar, não tem
ilusões sobre as diferenças entre as duas
SABER ANDAR TANTO de Gondomar, Ricardinho já jogava atrás
do avançado. Foi uma fase complicada,
modalidades e considera que “a FIFA não
soube vender bem o futsal”. Ainda assim,
DE FATO COMO DE FATO depois de terem sobrevivido a um incên-
dio que lhes destruiu a casa, deixando-os
desengane-se quem acha que os profis- DE TREINO” só com a roupa do corpo. “Foi a primeira

82 VISÃO 25 JANEIRO 2018


RICARDO FILIPE
DA SILVA BRAGA
IDADE
32 anos

NATURALIDADE
Valbom, Gondomar

CLUBES
Estrelas de
Fânzeres Futebol

Clube Cerco do
Porto Gramidense

●Miramar Benfica

●Nagoya Oceans
●CSKA Moscovo
●Inter Movistar

25 JANEIRO 2018 VISÃO 83


DESPORTO

vez que vi o que é não ter nada. Perdemos


tudo, mas ganhámos uma vida”, recorda. OS PALMARÉS
Inscreveu-se no clube de futebol Estre-
las de Fânzeres e lá jogou dois anos, até
DE UMA ESTRELA
se mudar para o Futebol Clube Cerco Ricardinho acumula os mais
do Porto, onde permaneceu outros dois. importantes prémios do
Numa das finais da época, António futsal, numa carreira iniciada
Frasco, treinador adjunto do Futebol em Portugal, com passagem
Clube do Porto viu-o e perguntou-lhe pelo Japão, Rússia
se queria fazer os testes, no ano seguin- e Espanha
te. Ricardinho imaginou-se logo a dizer
ao pai que ia jogar num clube grande. 2017
Quando lá chegou, o treinador havia
Melhor jogador
mudado e disseram-lhe que o futebol
do mundo de futsal
era para gente mais alta. Triste e desi-
ludido, ficou um ano sem pegar numa
bola, fazendo uma espécie de luto. 2016
Até que, num torneio do 25 de Abril Melhor jogador do mundo
no bairro do Valbom, as suas fintas des- de futsal e melhor
pertaram o interesse de Carolina Silva. marcador de sempre
Ricardinho não acedeu de imediato na Seleção Nacional
aos convites da treinadora, mas acabou
por ceder ao fim de alguns meses, aca- 2015
bando por ir jogar para o Gramidense . Melhor jogador
“Este ano, quando ganhei o prémio, ela do mundo de futsal perna esquerda reservou espaço para o
enviou-me uma mensagem que dizia seu ídolo, o jogador brasileiro Falcão,
apenas: ‘Vês como valeu a pena?’. A Ca- 2014 que ganhou por quatro vezes o título
rolina acreditou em mim. Sabia quando Melhor jogador do mundo de melhor jogador do mundo. Agora
eu ia para o treino sem comer ou com as de futsal e melhor jogador Ricardinho conseguiu superá-lo.
sapatilhas cheias de buracos. Por causa e melhor ala da liga
dela, sou um grande fã e defensor do espanhola no Inter Movistar MAGIA NA PONTA DOS DEDOS
futebol e do futsal feminino.” A morar em Madrid há cinco anos, e
Fernando Santos, o atual selecionador 2013 passada a dificuldade inicial em fazer
nacional de futebol, também viu em Ri- a sesta (algo que já não dispensa), Ri-
cardinho os dotes de rapidez e destreza Melhor jogador da Copa cardinho lembra a sua passagem pela
de Espanha e melhor
que o caracterizam dentro do campo. Ásia com a melhor aventura da carreira.
jogador e melhor ala da liga
Quando era treinador do Benfica convi- Quando saiu do Benfica procurava um
espanhola no Inter Movistar
dou-o para uma pré-época dos encarna- novo desafio e tinha em mente arrecadar
dos, quase à porta fechada, para testar a mais dinheiro. Aos japoneses do Nagoya
sua adaptação. Mas uma notícia vinda a
2010 Oceans pediu tudo o que lhe veio à ca-
público antes de tempo, anulou o acordo. Melhor jogador do mundo beça, desde viagens, férias de Natal, uma
Esta é uma das muitas histórias que de futsal e melhor jogador casa toda equipada e um carro. “Aprendi
marcam o percurso de Ricardinho, re- da liga japonesa no clube muito com a forma como eles respeitam
tratado em várias tatuagens, principal- Nagoya Oceans as pessoas e o desporto. O fair play
mente no braço esquerdo. Salientam-se existe mesmo. Antes do jogo, temos de
os traços de uma rosa (a única flor que 2007 cumprimentar todos os adversários e a
ofereceu à avó Rosa), as datas de nasci- Melhor jogador equipa de árbitros e, no fim, agradece-
mento dos filhos, um anjo (representan- do Campeonato Europeu mos à claque contrária. Ser deportado
do o pai, que há cinco anos perdeu uma de Futsal pode ser uma das consequências por se
perna), o símbolo do dinheiro (“porque dizer mal de um árbitro”, descreve.
é o que move toda a gente”)... e umas 2006 Dali, Ricardinho mudou-se para
mãos agarradas às grades, metáfora da Melhor jogador e melhor Moscovo, mas só aguentou seis meses na
situação do irmão mais velho, preso há marcador do Campeonato capital russa. “Quem é estrangeiro está
nove anos por furto e tráfico de droga. Nacional ao serviço à parte, os russos só falam quando lhes
O desenho de uma gueixa e de flores de do Benfica apetece, e o frio e o trânsito infernal não
cerejeira lembram a sua experiência no permitiam fazer mais do que um treino
Japão, a primeira fora de Portugal. En- 2002 diário. Até me pagaram um valor altíssi-
tre as tatuagens encontram-se ainda a mo, mas devolvi metade para conseguir
Jogador revelação
palavra “coragem”, escrita em carateres do Campeonato Nacional
ir embora”, conta. Quando volta a Mos-
japoneses, e dois pares de alianças de no Miramar covo, pela Seleção Nacional, continua a
casamento, as dele e as dos pais. Já na sentir-se desconfortável.

84 VISÃO 25 JANEIRO 2018


OPINIÃO
Professor Nas suas
academias, Ricardinho
quer ensinar às crianças os
primeiros passos do futsal

Primeiro, o quê?
P O R J O S É C A R L O S D E VA S C O N C E L O S

1
O que deve estar primeiro: a mera Raríssimas foi objeto de acusações ou in-
e cega luta partidária, o afir- sinuações absurdas, que quem tenha um
mar-se oposição, em qualquer mínimo de conhecimento(s) e experiência
circunstância e a qualquer preço, das leis, das instituições, da vida, sabe não
ou o interesse nacional? Bem sei fazerem nenhum sentido. E, não obstante,
que a pergunta pode pecar por não faltou quem a tal pretexto o quisesse
demagogia ou outros vícios em afastado do Executivo, com repórteres, e
que procuro não incorrer. Mas, outros, que precisam urgentemente de
sendo a resposta óbvia, faço-a aprender jornalismo, a perguntarem-lhe
apenas para “introduzir” a cha- repetidamente se não se ia demitir.
mada de atenção para um lamentável Este caso, aliás, em que dentro da
aspeto da vida política que só se tem mesma “lógica” condenatória de VS fi-
agravado, em particular com práticas cariam em causa também, por exemplo,
como a de oposição de Passos Coelho na Maria Cavaco Silva e Leonor Beleza,
liderança do PSD e a de certos media e/ mostrou de forma flagrante outro dos
ou dos que neles opinam. erros, ou pecados, de muitos políticos
Podia dar muitos exemplos, escolho e não poucos media: o julgamento ou
um que tem a ver com a atualidade, juízo de valor sobre ações e decisões de
Apelidado de “O Mágico”, por causa ou seja: a posse de Mário Centeno na quem quer que seja tem que ser feito
dos truques que sabe fazer com cartas presidência do Eurogrupo. Os resul- à luz do que era sabido ao tempo em
e lenços, diz-se feliz por ter consegui- tados da sua ação como ministro das que as tomaram e não tendo em conta
do passar essa magia para os pés e para Finanças estão à vista e conduziram a o que só se veio a saber posteriormente.
o futebol. Até 2020, Ricardinho tem tal escolha. Uma ação reconhecida e Tal princípio básico poderá porventura
contrato com o Inter Movistar – terá elogiada, mormente a nível interna- estar a ser esquecido, mais uma vez, no
35 anos e não sabe em que condições cional, por economistas e políticos de que começa a ser dito sobre a atuação
físicas irá estar. “Quero terminar a car- todos os setores – exceto, entre nós, da atual PGR, Joana Marques Vidal,
reira como uma referência. Não quero pelos que fazem aquele tipo de oposi- enquanto coordenadora do Tribunal de
andar a arrastar-me por diversos clubes, ção que prefiro não qualificar. Menores de Lisboa na época das “ado-
a sacar-lhes os últimos euros”, garante. E que até quiseram, alguns “exigiram”, ções” da IURD – PGR sobre cujo “não
Recentemente, teve propostas da a sua demissão aquando de um super caso”, como bem o classificou Marcelo,
Croácia e da Rússia, mas o jogador sen- empolado episódio relacionado com correram rios de tinta e de saliva...
te-se atraído pela liga do Dubai, muito a nomeação de um CEO para a CGD.

3
competitiva, e pela dos Estados Unidos Era já então evidente a qualidade do A vitória de Rui Rio nas eleições do
da América. Em março do ano passado seu trabalho, o sucesso das suas po- PSD cria a expectativa de uma me-
também houve a possibilidade de ir para líticas e o interesse nacional em que lhoria no relacionamento político
o Sporting e viu essa hipótese como um as continuasse. Mas há quem na vida entre o seu partido e o PS/Governo,
“grande reconhecimento”, mas Ricardi- pública de facto não coloque este inte- ou até de uma melhoria a nível parla-
nho confessa que só voltaria a Portugal resse em primeiro lugar. Aliás, entre os mentar, bem assim da possibilidade
para jogar no Benfica, o clube do coração. ataques feitos a Centeno, que nunca os de entendimentos impostos pelo tal
Foi a pensar no futuro, e no que poderá portugueses viram destemperado, nem interesse nacional em vários domínios
fazer quando deixar de jogar que, há uma ouviram falando alto e tem um cons- importantes. Mas é óbvio haver quem,
década, abriu a Academia de Futsal em tante estranho sorriso, até me lembro no interior do partido, a isso se opõe,
Valbom, de onde já saíram jogadores para de uma opinadora comparar uma sua como se opõe à intenção do ex-autarca
a equipa de futebol de 11 do Porto e do Bra- calma intervenção ao famoso infla- do Porto de dar mais “seriedade” à for-
ga. Com o colega de equipa Ortiz Jiménez mado discurso de Vasco Gonçalves em ma de fazer política. Esses preparam-se
(o segundo melhor futsalista do mundo Almada, a 18 de agosto de 1975! já para o baldear a pretexto de, como a
e capitão da seleção espanhola), tem um manter-se a atual situação acontecerá, o

2
projeto para ensinar aos mais jovens (dos 4 A outro nível, e com diferentes con- PSD não vencer as próximas legislativas.
aos 14 anos) os primeiros passos do futsal, tornos, algo de semelhante se passou E fazem crer que isso é o normal, me-
“para lhes tirar os vícios do futebol de 11”. mais recentemente com o ministro cânico, consequência inevitável, quase
Longe está o rapazinho que sonhava com dos Assuntos Sociais. Vieira da Silva “democrática” – o que é mentira, pois
os relvados, enquanto jogava “à bola” com (VS) é em geral considerado dos minis- tudo depende das circunstâncias. Basta
as laranjas e as maçãs que o pai, empregado tros mais influentes e competentes do recordar, no próprio PSD, que a ser as-
no Mercado Abastecedor do Porto, trazia atual Governo. A propósito do caso da sim o sempre invocado Sá Carneiro.
do trabalho. scalheiros@visao.pt

25 JANEIRO 2018 VISÃO 85


MÚSICA

VAGA R CAPICUA entrevista SÉRGIO GODINHO

“A criatividade
é como um
comboio de
mercadorias que
segue pelos seus
carris fora.
É algo que tem de
ser bem cuidado
e tratado com
respeito... E tens
de programar
o teu cérebro
para não pensar
demasiado”
Bob Dylan
Músico
(n.1941)

86 VISÃO 25 JANEIRO 2018


“Não tenho um
espírito de missão”

NASCERAM NO
PORTO COM 37 ANOS
DE DIFERENÇA.
A ADMIRAÇÃO
É MÚTUA.
CONVIDÁMOS A
“RAPPER” CAPICUA
A PERGUNTAR TUDO
O QUE QUISESSE AO
SEU ESCRITOR DE
CANÇÕES FAVORITO,
AGORA QUE SÉRGIO
GODINHO LANÇA
DISCO NOVO: “NAÇÃO
VALENTE”
DIANA TINOCO

25 JANEIRO 2018 VISÃO 87


S
MÚSICA

Se dúvidas houvesse, a letra da


canção mais popular de Capicua, a
autobiográfica Vayorken, estaria aí
para desfazê-las. “Ai de quem dissesse
mal do Sérgio Godinho”, ouve-se a
certa altura. A admiração é mútua.
Em 2014, o escritor de canções que
agora lança um novo álbum − Nação
Valente chega nesta sexta, dia 26, às
lojas − convidava-a a subir consigo
para grandes palcos. Ao fim da manhã,
na livraria-bar Menina e Moça, no
Cais do Sodré, Lisboa, a rapper do
Porto confessa que demora a acordar
e não é de muitas conversas quando
o dia começa... Tudo muda a partir da
primeira pergunta a Sérgio Godinho,
nesta entrevista descontraída, tu
cá, tu lá, a um dos seus mestres na
difícil arte da escrita de canções em
português.
Têm sido anos muito produtivos...
O Liberdade, concerto e disco,
o Juntos, com o Jorge Palma,
concerto e disco, o livro de contos
Vidadupla, um romance por exemplo para um filme. Até
[Coração mais que Perfeito],
agora um disco novo...
porque este é um trabalho muito
específico e concentrado, tem de se
BI
Ainda falta o projeto Caríssimas
Canções, que começou com umas
conjugar uma letra e uma música,
duas artes... Aí pressiono-me com o
Sérgio Godinho
crónicas sobre as canções de outros tempo, há deadlines. Num primeiro Nasceu no Porto, em agosto de
e que depois resultou num disco momento, são prazos que eu próprio 1945. Por volta dos 20 anos,
sentiu que o país era demasiado
e concertos. E houve o Mútuo me imponho. Nessa altura, procuro
pequeno para os seus anseios.
Consentimento, o último álbum de concentrar-me na minha energia
Em 1971, em Paris, colabora de
originais que vai fazer agora sete criativa – mas sem horários fixos, não perto no disco de José Mário
anos... Eu nem dou por isso, que tenha é assim tão planeado. Branco, Mudam-se os Tempos,
passado tanto tempo. Para quem não é muito Mudam-se as Vontades.
Mas têm sido anos muito intensos... disciplinado, então, estes foram O seu primeiro álbum, Os
Exatamente. Daí eu não sentir que mesmo anos muito produtivos... Sobreviventes, chegaria no
tenha havido um hiato desde o meu Sim. O que me deu uma boa disciplina mesmo ano. Até hoje, nunca
último disco. Houve isso tudo, e houve que eu não conhecia foi a experiência mais deixou o seu labor de
espetáculos de vários teores, porque, da ficção narrativa, primeiro com os escritor de canções: Nação
além daqueles com a minha banda, contos e depois com o romance. Aí, Valente é o seu 18.º disco de
comecei a fazer outros concertos, tive a sensação de continuidade e uma originais. Também se notabilizou
por exemplo só de voz e piano com o necessidade, que é também um prazer, como ator de teatro e de cinema.
Filipe Raposo... de todos os dias voltar ao mesmo Nos últimos anos, tem-se
... e eu queria perguntar-te se és assunto, avançar um bocadinho... dedicado à ficção.
muito disciplinado, como é que te O seu primeiro romance
organizas, como é a tua rotina de Coração mais que Perfeito saiu
trabalho, se fazes planos a curto, em 2017, e o segundo, já pronto,
médio e longo prazo, ou se vais sairá este ano.
assim ao sabor... “HÁ FRASES QUE PASSO
Não vou ao sabor... mas também não
posso dizer que tenha um método de PARA UM CADERNO E
trabalho. Sou muito disperso, gosto
de apontar em várias direções, mas QUE FICAM LÁ MUITO
às vezes preciso concentrar-me para
trabalhar. Fazer canções, por exemplo,
TEMPO, EM BANHO-
não é uma constante. Eu paro e,
durante muito tempo, não as faço
-MARIA. TAMBÉM
− a menos que haja uma solicitação, TRABALHAS ASSIM?”

88 VISÃO 25 JANEIRO 2018


BI dormir pouco... Às vezes não ficas
exausto?
Bem... Eu procuro não dormir pouco.
Capicua A sério, para mim dormir é mesmo
Ana Matos Fernandes nasceu uma pedra de toque, até para a voz.
no Porto, em 1982. Formada De resto, olha, também depende das
em Sociologia, acabaria por entrevistadoras... [risos]. E eu tenho
impor-se no meio do hip- um lado um bocado saltimbanco.
hop nacional − um universo És viciado nesta coisa da estrada?
tradicionalmente masculino Não, viciado não sou... mas gosto
− com rimas inspiradas e com
da estrada, de chegar a um lugar, de
o nome artístico Capicua. O
descobrir salas, reencontrar salas onde
primeiro trabalho em nome
próprio chegou com a aclamada
já estive. De repente, começar
mixtape Capicua goes Preemo, a reconhecer as coisas − os camarins, o
em 2008. Já editou os álbuns acesso ao palco... São casas efémeras, e
Capicua (2012), Sereia Louca também uma espécie de casas comuns
(2014) e Medusa (2015). De 15 que habitamos temporariamente.
em 15 dias, assina uma crónica Gosto disso. On the road...
na VISÃO. A finalidade última das canções é
chegar às pessoas.
Eu sinto um bocado o mesmo
mas, às vezes, gostava que o tempo
criativo fosse mais extenso e o da
promoção, e de toda a logística de
produção, fosse mais curto... Não há
Na escrita não conhecia esse prazer Já não consegues dissociar a música propriamente um equilíbrio.
continuado, durante tanto tempo. das palavras, é isso? Pois não... Para mim, dessas coisas, a
É um métier completamente Não é bem isso... mas a oralidade que é mais desgastante é mesmo fazer
diferente... é muito importante. No limite, um álbum. O estúdio pode ser muito
É. Muitas vezes perguntam-me qual eu estaria a repetir todas as frases desgastante, é um buraco negro que
é a diferença entre escrever canções em voz alta, a ver se soam bem. facilmente engole a nossa energia.
e ficção, e a principal é esta: as Se soarem bem... vamos em frente. Há as repetições todas, o trabalho por
canções têm códigos musicais, “Imprima-se!”, como diz o outro. camadas... Na minha vida tenho um
poéticos, de rimas, de métrica, e a Escreves, então, por temporadas, lado impaciente, mas em estúdio sou
ficção, tendo também a sua música, para cada disco. Como é que muito paciente – tem de ser.
tem outros códigos... funciona a parte criativa da No teu tipo de música talvez não seja
Como passaste os últimos construção da canção? tão laborioso.
tempos a escrever muita prosa, Geralmente começo pela música. Também é... O meu problema é
agora que voltaste às canções Essa é uma regra que raras vezes é estar sempre à procura do defeito
trouxeste truques novos? quebrada. E tenho uns papelinhos no para o corrigir. É cansativo estar a
Há infiltrações entre as duas sítio onde trabalho... Há uma frase que olhar para as nossas coisas sempre
escritas? me diz alguma coisa, nem sei porquê, com um olhar muito crítico.
As minhas canções até têm, muitas e só muito mais tarde vou lá resgatá- O pessoal que trabalha comigo, e
vezes, personagens e narrativas -la. Há frases que passo para um estou a pensar no Nuno Rafael com
parciais que não chegam a ser caderno e que ficam lá muito tempo, quem estou há muito tempo... Nós
histórias com princípio, meio em banho-maria. Também trabalhas temos um entendimento em que não
e fim. Mas elas são de um foro assim? há equívocos.
completamente diferente... Na Sim... Não sempre, mas muitas Uma das perguntas que eu tinha era
prosa, tu não estás submetido vezes acontece isso. Jogos de mesmo sobre o Nuno Rafael...
− atenção, que não me estou a palavras, uma expressão ou uma O Nuno Rafael é um líder natural.
queixar − a uma métrica cerrada frase qualquer que um dia dão É mesmo assim. No entanto, este disco
e à conjugação com uma música. origem a uma letra... foi feito sem a minha banda que tocará
E ao contrário: na tua ficção O que acontece quando se gosta de depois, nos concertos. No estúdio, foi
achas que se notam o ritmo criar é que, a dada altura, estamos feito com poucos instrumentos.
das canções e esses vícios das num momento em que tudo concorre É muito acústico, era esse o propósito.
repetições, das métricas... para isso... E o Nuno, mais uma vez, foi uma
Não. Tem é de notar-se um ritmo É. Ligamos o modo criativo... com espécie de alma mater...
em que as frases seguem de uma esses ritmos todos: gravar um disco, É um disco com muitos
maneira que as faz avançar... E eu, fazer promoção, ir para a estrada... compositores diferentes, em que
mesmo calado, em silêncio, estou Escrever um livro, promoção, se nota a necessidade de inovar,
a lê-las em voz alta, percebes? estrada... entrevistas... comer mal, de misturar contributos. Mas ao

25 JANEIRO 2018 VISÃO 89


Uma manhã em Lisboa
“Muitas vezes, na rua, dizem-me:
MÚSICA ‘Nunca deixe de escrever aquelas
canções!’, seja lá o que isso for”
conta Sérgio Godinho a Capicua

mesmo tempo é muito a tua cara, crise, a Troika... O título do disco,


ou seja: é fresco, com música de Nação Valente, que é especialmente
outros, mas também é o Sérgio forte, veio da canção mais político-
Godinho de sempre... social. Foi uma intenção, sublinhar
Sim, têm-me dito isso. Alguns esse lado?
compositores até me disseram: Acabo, muitas vezes, por estar a falar
“Olha, isto agora é uma canção do do país de uma maneira não explícita...
Sérgio Godinho!” Bom, para já, há a No caso do Nação Valente, eu quis
minha voz, não é? E há uma marca de mesmo falar deste sentimento do pós-
exigência na escrita das letras. Neste Troika que é muito contraditório, mas
meu disco novo, só há duas canções “NA MINHA VIDA TENHO o refrão é muito positivo em relação
com letra e música minhas. Em todas
as outras, pedi a compositores para UM LADO IMPACIENTE, à nossa identidade. Falo de fronteiras
antigas mas também das fronteiras
me darem músicas, e eu fiz a letra.
Ao encontrar as minhas palavras para
MAS EM ESTÚDIO SOU abertas, num sentido simbólico, de
acolher o outro... No entanto, não
aquelas músicas... torno-as minhas.
É um disco que fala muito do que
MUITO PACIENTE – TEM escrevo canções com sentido de
missão. Muitas vezes, na rua, dizem-
nos rodeia: o país, o trabalho, a DE SER” -me: “Nunca deixe de escrever aquelas

90 VISÃO 25 JANEIRO 2018


O DISCO
Baralho de Cartas que, esse sim, tem

NAÇÃO VALENTE letra e música minhas, podia ser uma


canção dos meus primeiros tempos,
de Os Sobreviventes ou do Pré-
-Histórias... Pode ser, percebo-o.
Na sua já longa carreira, não se pode Tens alguma canção favorita neste
acusar Sérgio Godinho de solipsismo. disco?
A atenção a outros músicos e criadores Geralmente não digo isso. Todas são
tem sido uma constante. Em Caríssimas queridas de várias maneiras, é aquele
Canções dedicou todo um concerto (e
cliché dos filhos...
disco) às obras de outros, de geografias
Eu, por acaso, tenho músicas
diversas; em Irmão do Meio chamou
vários músicos e cantores para as suas
minhas de que não gosto tanto
canções; e, por exemplo, no último e outras de que gosto mais...
álbum, Mútuo Consentimento (já de Está bem... Eu provavelmente também,
2011), convidava Noiserv para um arran- mas não vou dizer.
jo, aproveitava a música de Francisca Perguntando de outra maneira: em
Cortesão (Minta) para o tema que dava que é que gostavas que as pessoas
título ao disco e juntava-se ao pianista reparassem mais neste disco?
Bernardo Sassetti na canção Em Dias Em termos das letras, que reparem
Consecutivos... na exigência poética e numa
Desta vez, há mais uma variação nesse inventividade. Espero que sejam
jogo de conversas cruzadas. Sérgio tocadas pelas canções, claro. Em
Godinho pediu músicas a vários compo- universos tão diferentes, umas pessoas
sitores, comprometendo-se a dar-lhes serão mais tocadas por umas canções,
letras e, claro, a sua voz (no sentido e outras por outras...
literal e no mais amplo). Há só duas ex- Achei piada, nos coros, encontrar
ceções a essa regra, assinando música vozes que se reconhecem logo:
e letra em Baralho de Cartas e Noites de do David Fonseca, da Márcia,
Macau (que fará parte da banda sonora da Manuela Azevedo... Denunciam
do novo filme de Ivo Ferreira, Hotel a autoria das canções sem termos
Império, filmado em Macau).
de olhar para a ficha técnica.
A energia rock que é fácil de encontrar
Sim... A música da Manuela Azevedo,
na discografia de Sérgio Godinho, sobre-
tudo desde Domingo no Mundo (1997),
com arranjos do Hélder Gonçalves,
está ausente deste Nação Valente, cheio já vinha com aquelas coisinhas da
de subtilezas e de instrumentais acús- voz dela, muito curtas. A voz do
ticos, sem gorduras. Chegados à última David Fonseca é perfeitamente
das dez faixas, surpreende-nos a coe- reconhecível...
rência da sonoridade de um disco para o Como é que este disco vai ser no
qual contribuíram nomes tão diferentes, palco?
e de personalidade musical tão bem Vai ser com a minha banda. mas ainda
vincada, como David Fonseca (Grão da é uma incógnita... Começará em breve
Mesma Mó), Hélder Gonçalves (Arte- esse trabalho muito específico de
sanato e Nação Valente), o repetente não desvirtuar o som, mais simples
canções!”, seja lá o que isso for. Mas se José Mário Branco (Mariana Pais, 21 e acústico, do álbum. E eu cantarei
eu quiser, deixo mesmo de escrever! Anos), Nuno Rafael (Tipo Contrafação), outras canções... Queria renovar
Não tenho um espírito de missão. Não Márcia (letra e música em Delicado), um bocadinho o repertório, porque
fui investido por nenhum poder para Filipe Raposo (Noite e Dia) e Pedro da tenho nas prateleiras muitas canções
divulgá-lo e difundi-lo... Silva Martins (Até Já, Até Já). Mais uma que estão ali à espera... Tenho de ir lá
Receber músicas de outros vez, Nuno Rafael é, na direção musical desempoeirá-las, dar-lhes o beijo da
compositores foi um exercício e produção, um pivot central que ajuda Bela Adormecida para elas acordarem.
a dar ao disco essa tal coerência − e
de desprendimento? Foi Se tivesses de escolher uma frase,
aquele inconfundível estilo de...
entusiasmante? uma rima, um verso deste disco
Sérgio Godinho. P.D.A.
Entusiasmante foi, sim. Este exercício para imprimir numa T-shirt ou
veio de uma vontade de apropriar-me para um fã de toda a vida tatuar no
de outros universos − alguns deles já braço... qual é que escolhias?
de uma forma repetida, como é o caso, “Amor de mãe, 72”, não é? (risos).
mais antigo, do José Mário Branco. É difícil, não sei... Acho que o refrão
Para compor pode haver impasses, e do Nação Valente é forte: “Quero um
há o risco de batermos muito, sempre, país de ideias libertas / as mágoas da
nas mesmas teclas. Aqui, há outras vida / e da vida as ofertas.” Temos de
cores musicais. Já me disseram que o aproveitar esses dois lados, não é?

25 JANEIRO 2018 VISÃO 91


LIVROS

Dar a ver
Saramago aos quadradinhos, Karen Blixen ilustrada,
Hemingway reimaginado a traço de carvão? Estão todos
em álbuns de banda desenhada que adaptam clássicos

U
S Í LV I A S O U TO C U N H A

m grande trunfo da literatura pelo estagiário rebelde Monteiro Rossi.


é fazer o leitor imaginar o O álbum, cuja edição portuguesa é lan-
que lê. Característica logo çada no Festival de BD de Beja, em maio,
desmontada nas bandas de- é um retrato português em rabiscos
senhadas, que fixam paisa- ágeis. “A banda desenhada não é matéria
gens, escolhem perspetivas literária, é matéria hibrída, complexa,
e pontos de vista, revelam nem sempre de fácil acesso”, defendeu
rugas e entrelinhas. Mas esta Gomont no festival Quai des Bulles em
rigidez pode ser mera ilusão 2016. Acrescentou: “Se a BD servir de
de ótica, como demonstram trampolim para o livro, fico contente: o
estas adaptações de clássicos romance é-lhe superior.” Superlativa, é
literários para quadradinhos a opinião que Anne-Caroline Pandolfo
(ou desenhos que explodem a página ou e Terkel Risbjerg têm sobre a autora
aguarelas ou…). A matéria escrita ganha de África Minha. Depois de adaptarem
interpretações e liberdades na prancha O Astrágalo de Albertine Sarrazin, cria-
− e até materializa os autores. Nestes ram, em 2015, esta belíssima homena-
álbuns, há quem siga à risca o romance gem: A Leoa, Um Retrato Gráfico de
e há quem escolha invocar um espírito, Karen Blixen usa aguarelas, poesia, oni-
uma atmosfera, uma ilusão. rismo (abre com a bebé Blixen rodeada
O francês Thierry Murat, que assume de sete fadas, que incluem Nietzsche,
influências de Edward Hopper e Warhol, Sherazade ou um leão…). Em 2017, outras
defende que “uma obra literária não é narrativas clássicas foram evocadas em
ópio, não é feita para 'fazer esquecer a BD: a propósito do 70º aniversário da
realidade'”. Mas a sua “adaptação livre” publicação original d’O Diário (1947), Ari
do último romance em vida de Ernest Folman e David Polonski investigaram o
Hemingway, O Velho e o Mar (publicado sótão de Amesterdão onde Anne Frank
em 1952, dois anos antes do seu Nobel) esteve escondida dos nazis, e recriaram
hipnotiza. A paleta é noturna, recriando fielmente, as emoções e medos da ado-
a solidão crepuscular do personagem, a lescente judia.
história ganha lirismo − e o próprio He- O português João Amaral desenhou
mingway faz uma aparição nesta versão da com realismo uma BD baseada no ro-
saga do velho pescador cubano Santiago, mance A Viagem do Elefante − e o autor,
que empreende uma longa luta com um José Saramago, também lá aparece, co-
espadarte gigante em alto mar. “Talvez nós mentando as aventuras de Salomão. No AFIRMA PEREIRA
os dois sejamos parecidos… Mas sabes, mesmo ano de 2014 em Portugal, saiu De Antonio Tabucchi
peixe, mesmo que sejas meu irmão, és O Estrangeiro, BD ilustrada a tons de Adaptado por Pierre Henry
de tal forma extraordinário que tenho de areia por Jacques Ferrandez “segundo Gomont
te matar”, relê-se em carateres grafados a obra de Albert Camus” e centrada em 2018, GFLOY
como os das antigas máquinas de escrever. Jacques Cormery, personagem do ma-
Outro romance inspirou Pierre Henry nuscrito inacabado Le Premier Homme
Gomont, que se confessou “galvanizado” (guardado no bolso de Camus quando A LEOA – UM RETRATO
por Afirma Pereira, de Antonio Tabucchi, este morreu num acidente de carro em GRÁFICO DE KAREN BLIXEN
publicado em 1994 e onde este metafo- 1960). Uma história com “brancas” pelo Por Anne-Caroline Pandolfo
rizava a ascensão de Sílvio Berlusconi meio, defendidas pelo autor: “Não se deve (texto) e Terkel Risbjerg
em Itália através do pacato jornalista preenchê-las, esse é o espaço para o ima- (ilustração)
do vespertino Lisboa que, em 1938, é ginário do leitor. Um espaço que também 2017, GFLOY
desarrumado da mansidão obediente está presente no romance.” scunha@visao.pt

92 VISÃO 25 JANEIRO 2018


O VELHO E O MAR
De Ernest
Hemingway
Adaptado por
Thierry Murat
2018, PORTO EDITORA

O ESTRANGEIRO
O DIÁRIO DE ANNE FRANK De Albert Camus
Adaptado por Jacques
Adaptado por Ari Folman (texto) Ferrandez
e David Polonski (ilustração)
2014, ARCÁDIA
2017, PORTO EDITORA

A VIAGEM DO ELEFANTE
De José Saramago Adaptado por João Amaral
2014, PORTO EDITORA

25 JANEIRO 2018 VISÃO 93


TENDÊNCIAS

Acrobacias espirituais
O yoga vai além da meditação introspetiva e também pode ser
sinónimo de exercícios acrobáticos em ambiente descontraído.
Chamam-lhe acroyoga – a atividade certa para fazer amigos

À
VÂ N I A M A I A

primeira vista, pode parecer experimentar novas posições acrobáticas. macharya faz posições acrobáticas com
o ensaio de um grupo de Autointitulam-se acroyoguins ou, cari- uma criança apoiada nas suas pernas.
acrobatas circenses des- nhosamente, acromonkeys. A maior parte O retrato data de 1938. No entanto, a
contraídos e bem-dispos- descobriu o acroyoga através de vídeos na corrente mais popular foi fundada por
tos mas, aqui, o espetáculo internet, mas também há quem se tenha dois norte-americanos, em São Francis-
acontece dentro de cada impressionado com grupos de pratican- co, há pouco mais de uma década. Acro-
um. De repente, o espa- tes nos jardins da cidade. “As pessoas bacias, massagem tailandesa e, claro,
ço da associação cultural aproximam-se quando nos exercitamos yoga, são as palavras-chave do acroyoga.
Pessoa e Companhia, em na rua, fazem perguntas e dizem que só “Eu nunca gostei muito de yoga porque
Lisboa, torna-se exíguo vieram ver mas, depois, a vontade de ex- me parecia muito parado, mas o acroyo-
para acomodar o grupo de perimentar é irresistível”, conta Manuel ga é muito desafiante”, afirma a italiana
seis pessoas, além da pro- Mendonça, 36 anos, praticante regular de Carlota Gennari, 24 anos, estudante do
fessora, que faz exercícios de aquecimento acroyoga há quase um ano. programa de intercâmbio Erasmus, que
antes de se lançar em altos voos. Há quem situe as origens do acroyo- descobriu o grupo através das redes sociais.
Nem sempre é fácil não derrubar can- ga no início do séc. XX, devido a uma A maior parte dos elementos não se conhe-
deeiros ou livros com o entusiasmo de fotografia em que o mestre Krishna- cia antes de começar a treinar acrobacias

94 VISÃO 25 JANEIRO 2018


Pássaro Esta posição ativa
especialmente os músculos posteriores
das costas e os glúteos do “voador”.
Ajuda a melhorar a postura corporal

em conjunto. Entretanto, já nasceram


várias relações de amizade, revela outra
Altos voos acroyoga Manuel Rodrigues, 33 anos,
alerta que alguns casais podem ter di-
das atletas do grupo, Bárbara Morais, 43 O professor Rui Oliveira Costa, ficuldades em trabalhar em equipa no
anos. “O acroyoga faz-me ultrapassar os a “base”, e a aluna Isabella, início, “mas depois aprendem a comu-
meus limites e perder medos”, revela. “À a “voadora”, fazem algumas nicar muito melhor.”
medida que vamos conseguindo ir mais das figuras características do Os exercícios permitem descompri-
acroyoga
além torna-se viciante”, avisa. Os benefí- mir o corpo em suspensão, fortalecem
cios da modalidade também se manifestam ossos e músculos, aumentam a força e a
no quotidiano: “Quando aparece algum flexibilidade, e beneficiam o bem-estar e
problema, respiro fundo, e penso que se a autoestima. “Esta modalidade ensina as
consigo fazer exercícios de cabeça para pessoas a acreditarem mais em si e nos
baixo também consigo resolver a questão!”. outros porque é preciso confiar plena-
mente nos pares”, acrescenta Manuel
MEDITAR EM EQUIPA Rodrigues, que dará um workshop de
A resposta de Bárbara Morais dificilmente acroyoga a 25 de fevereiro, em Lisboa.
surpreenderia o professor de yoga e de Bruno Cruz, 35 anos, professor de
acrobacia aérea Rui Oliveira Costa, 51 yoga e praticante de acroyoga, alerta para
anos. “O acroyoga desenvolve a capacida- o facto de “tudo se complicar se as pes-
de de nos desafiarmos e põe-nos a fazer soas experimentarem a medo.” Afinal, diz,
coisas que não imaginávamos possíveis”, Trono “é preciso confiar para conseguir tirar os
diz, nas luminosas instalações do Jaya Pode não parecer, mas é uma das pés do chão.” Conheceu vários parceiros
Aerial Lab, em Lisboa, do qual é diretor. posições que exige menor esforço, e de treino através das redes sociais – há
O aquecimento do acroyoga faz-se, mui- permite evoluir para outras figuras, dois grupos especialmente ativos, o Acro
tas vezes, com exercícios de yoga, mas como a Baleia Voadora. O segredo Monkeys Lx e o Acroyoga Lisbon – e já
não é fundamental ser já um praticante. é manter as ancas e a coluna fez vários amigos entre eles. Também
Essencial é a atitude. “A interação não é vertebral estáveis Filipe Santos, 39 anos, que fez parte
voltada para o espetáculo, nem compe- da organização do primeiro festival de
CRÉDITO FOTO

titiva: é colaborativa”, distingue o espe- acroyoga de Portugal, realizado no ano


cialista em acroyoga, que prepara uma passado em Abrantes, destaca as relações
aula especial para o Dia dos Namorados. fomentadas pela modalidade, com os
Idealmente, a modalidade deve ser outros e consigo mesmo. “Há quem se
praticada em grupos de três pessoas. confronte com medos que desconhecia
O “base” fica deitado sobre um tapete e coragens que não sabe de onde vêm.”
e cabe-lhe elevar o “voador” (flyer) nas Deste confronto, nasce uma espécie
mais diversas posições que estimulam o de recreio para crescidos. Rui Oliveira
equilíbrio, a flexibilidade e a força. Há Costa explica o paralelismo: “À medida
ainda um terceiro elemento, o spotter, Baleia voadora que se perde o medo, assume-se cada
Ao segurar as pernas do “voador”
que dá segurança ao “voador” evitando vez mais o papel da criança que goza
com as mãos, suportando o tronco
quedas. Habitualmente, os praticantes inteiramente o momento.” Uma criança
com os pés, o “base” (quem fica
vão trocando de posições. É essencial por baixo) permite o alongamento
com alguma paciência, já que nem todas
experimentar com um professor ou um dos músculos do pescoço, do as figuras se fazem à primeira.
atleta experiente. No final das sequên- diafragma, dos abdominais e das A associação à infância também agrada
cias acrobáticas, o “voador” agradece ao pernas do seu par a Egle Genova, 22 anos, a jovem professora
“base” com uma massagem tailandesa italiana que guia a aula no espaço exíguo
para aliviar a tensão e alongar os mús- da associação cultural Pessoa e Com-
culos que estiveram em esforço. panhia. Está em Portugal ao abrigo do
É este trabalho de equipa que distin- programa Erasmus, a estudar medicina,
gue especialmente o acroyoga. “A prática mas pondera seguir um caminho mais
ideal do yoga é individual, enquanto no ligado às medicinas alternativas. Desco-
acroyoga existe um sentido de comu- briu o acroyoga nos jardins de Palermo há
nidade muito grande”, acrescenta Rui quatro anos. A experiência mudou a sua
Oliveira Costa. O ex-designer gráfico, visão da vida. “Fez-me perder a vergonha
que há oito anos decidiu deixar de ser de comunicar com o corpo e através do
“escravo informático”, confessa que há Folha dobrada toque.” A conversa é interrompida pelas
situações caricatas nas aulas quando se Esta posição permite ao “base” manifestações de satisfação dos alunos
experimentam figuras mais complica- massajar as costas, os ombros e o que conseguiram fazer mais uma figura
das, e isso contribui para um ambiente pescoço do “voador” que, ao mesmo que parecia impossível. Mas Egle ainda
tempo, descomprime a coluna
bem-disposto. Além disso, destaca o acrescenta: “Às vezes, descubro mais
vertebral e as articulações das
“respeito enorme” entre os praticantes sobre uma pessoa através da nossa troca
ancas
que estão em constante contacto físico. energética durante os exercícios do que
O também professor de yoga e falando com ela.” vfmaia@visao.pt

25 JANEIRO 2018 VISÃO 95


CRÓNICA

N
a semana passada estava deitado no sofá, mal
deitado, meio desapoiado, e virei-me para pôr
a chupeta à minha filha. Estiquei-me todo como
se tivesse 38 anos. Não tenho, pelo vistos tenho
39 e, à vinda, ao recolher à posição original, deu-
-me um estalo aqui na zona do lombo que fiquei
sem me conseguir mexer durante meia hora.
P O R M I G U E L A R A Ú J O / Músico Mas mesmo. Não me conseguia levantar, não me
conseguia manter na vertical, arrastei-me em ângulo reto pela casa,
como aquelas pessoas muito velhas cujas costas cedem à gravidade

Velho
da terra, quando esta lhes começa a reclamar o corpo de volta. Ando
com dores nas costas desde então. Nunca na vida tinha tido dores
nas costas. As costas, para mim, eram, até há uma semana, como o

para ser
cabelo ou as unhas, uma parte do corpo das que não doem, das que
não se sentem. Parece que estou a chegar aos 40 anos e começam
a acontecer coisas que nunca tinham acontecido antes. Dores nas

novo e
costas. Mau. O que é que se segue? Dou por mim e tenho três filhos,
quase 40 anos e agora o tempo passa de gás. O que é que me vai
acontecer a seguir? Vou começar a dizer mal os nomes das bandas?

novo para
A trocar a flexão de número dos substantivos e a dizer os Metallicas,
os Rollings Stone e os Nirvanas? A dizer Maique iéguer? A mandar
guarda-chuvas e sapatos para arranjar? A andar de guarda-chuva?

ser velho A andar de sapatos? Cada vez que apanhar um filho meu a beber
um copo de água vou dizer coisas do tipo “isso, bebe muita aguinha
que faz bem, hidrata, deve-se beber no mínimo um litro por dia”?
Cada vez que estiver num casamento e der o Sweet Child O’Mine
vou-me reunir em rebanho de roda com o pessoal da pesada, do
meu tempo, de gravata na cabeça e fazer Air Guitar com uma mão
e a equilibrar um balão de Old Parr na outra? Jesus. Os sinais são
de alarme. Já dou por mim a ir correr, preocupado com questões
como “boas palmilhas” e “calçado próprio para asfalto”. Os meus
amigos e eu ainda falamos sobre discos, mas são os que se ouvem
a estalar nas colunas vertebrais, não os que se ouvem nas colunas
da estereofonia. Olha, disse estereofonia. Por falar em aparelhagens
(será que ainda se diz aparelhagem?), já começo a não saber pôr
as coisas a funcionar, já sou um avô a tentar meter uma cassete
de vídeo. Já preciso de um sobrinho à mão. Perdi-me na curva da
tecnologia por alturas do Windows 95. Eu, logo eu, que cheguei a
programar o gravador de vídeo apontando o comando a uns códigos
de barras que vinham na tv guia, junto ao programa que se queria
gravar automaticamente. Ainda ontem era eu o sobrinho. Agora
já não sei quem são os atores. Já não sei pronunciar os nomes dos
atores. Vou começar a dizer Jéque Nicólson e Merlin Monrói?
A tomar aspirina? A dizer “vou ao Porto” de cada vez que tiver de
ir à baixa? A andar com lenços de pano? Cada vez que me aparece
um formulário online e é para meter a data de nascimento, 1978
aparece cada vez mais lá para baixo, muito lá para baixo. São
quase 40 cliques na setinha para baixo. Ainda no ano passado
era eu da nova geração da música portuguesa, jovem isto, jovem
Parece que estou aquilo, promessa de não-sei-quê. Sem dores nas costas mas já sem
a chegar aos 40 anos e saber exatamente se One Direction se diz One Deerection ou One
Dáirection. Começaram por ser os jogadores de futebol a serem da
começam a acontecer mesma idade do que eu. Onde já vão os jogadores de futebol. Só
coisas que nunca no ano passado conheci dois presidentes de Câmara mais novos do
que eu. Como é que se diz Kanye West? Não sei mas isso agora não
tinham acontecido interessa. Recuso-me. Vou à farmácia comprar algum antioxidante,
antes. Dores nas Omega 3, creme de leite de burra, o que tiver de ser. Como não
costas. Mau. está a chover aproveitava e ia a pé, que assim sempre me mexia um
bocadinho, só não sei é onde é que pus o raio do anoraque e com
O que é que se segue? o barbeiro que está ainda me dá alguma macacoa.

96 VISÃO 25 JANEIRO 2018


A GRAÇA
QUE ESTE
BAIRRO TEM
À boleia do largo recentemente
renovado, um passeio – sobe e desce
– pela colina mais alta de Lisboa
Um bairro
que é uma
graça
Seguimos num passeio a
pé pelas novidades e pelos
clássicos de sempre, à boleia
do largo recentemente
renovado
e dos 25 anos da esplanada
do miradouro. De onde?
Da Graça, pois, o bairro
encarrapitado na mais alta
colina de Lisboa
SANDRA PINTO M A R C O S B O R G A spinto@visao.pt

É
Tazza in Giro

com os pregões da florista Odete Vieira, Depois de tanto tempo sem poiso coberto, a CML cedeu-
77 anos, que chegamos, num dia de sol de -lhe, há dois anos, uma pequena casa de madeira para
inverno, ao renovado Largo da Graça. No vender as rosas e as orquídeas. Para a florista Odete, os
lugar onde antes havia carros estacionados, há bancos de jardim podem não ter grande utilidade, mas a
agora um coreto e bancos de jardim. “É bonito, verdade é que já há, por lá, muitos moradores que fazem
mas não tem grande serventia”, atira Maria deles um ponto de encontro. Ali partilham assento com
do Carmo Gonçalves, 59 anos, responsável turistas a descansar, depois da subida colina acima. Após
pelo quiosque de revistas e jornais. Antes de as obras (que se estenderam por um ano e que resultam
espreitarmos a estrutura feita em ferro e em do programa Uma Praça em Cada Bairro, promovido pela
mármore, instalada por iniciativa da Câmara CML, em colaboração com as 24 juntas de freguesia da
Municipal de Lisboa (CML), em parceria com cidade), há, porém, ainda mais diferenças que saltam à
a Junta de Freguesia de São Vicente, voltamos vista neste largo – alargaram-se os passeios, pôs-se mais
à florista de voz altiva e estatura pequena, que, além do iluminação, renovou-se o piso para os peões circularem.
mais, é boa conversadora. E, entre críticas e histórias Para os condutores, fica o aviso: a partir de fevereiro entram
de antigamente, ouvimos que leva quase cinco décadas em funcionamento os parquímetros e os parques geridos
de venda de flores pelas ruas do bairro. “Andei 23 anos pela Empresa Municipal de Mobilidade e Estacionamento
clandestina, a fugir da polícia, mas nos restantes já estava de Lisboa (EMEL), entretanto instalados em diversas ruas
legalizada”, explica. da Graça.

98 VISÃO 25 JANEIRO 2018


A passagem do célebre elétrico 28, sempre cheio de Continuando pelo largo que se estende, a um curto passeio
turistas (e de carteiristas também, acrescente-se), faz- a pé, até ao Miradouro da Graça, há mais uma morada
nos prosseguir caminho para conhecer as novidades e gastronómica a ter em conta. No piso térreo do prédio azul
(re),visitar os clássicos do bairro. Não sem antes subirmos da Vila Sousa e mesmo ao lado do lendário Botequim, fica
as escadas do coreto para ver as vistas e as fachadas o restaurante Graça 77, ali a funcionar há um ano. Antes de
revestidas a azulejo. Ali bem perto, fica o Pitéu da Graça, se espreitar a ementa, especializada em cozinha vegetariana,
que em 2015 teve direito a destaque no New York Times. é a decoração que chama à atenção. Destacam-se as
“Ainda hoje vêm cá clientes por causa dessa reportagem”, paredes em pedra, que se misturam com os tampos das
lembra Luís Vieira, um dos proprietários desse restaurante mesas reaproveitadas pelo novo inquilino. “Brinquei com o
de comida portuguesa. As pataniscas (€9,90), a feijoada à mobiliário que encontrei na altura das obras. Gosto de criar
transmontana (ao sábado, €9,90) e o cozido à portuguesa peças novas”, diz António Borges, vegetariano há mais de
(à quinta-feira, €14,50) são os pratos mais apetecidos. 30 anos, com uma veia para as artes e a alma de viajante
E também há uma grande aposta no pescado: “Vou todos que já o levou a visitar 50 países, de quatro continentes.
os dias aos mercados de Alvalade e da Ribeira escolher Sentados à mesa, experimente-se a sopa de abóbora e
os chocos, as douradas e os polvos. Gosto de ver o peixe cenoura (€2,50) e o arroz frito com vegetais e ovo (€9,50).
com os meus olhos”, diz Luís, que quer manter a qualidade Chegados ao Miradouro da Graça – e antes de nos
do negócio iniciado nos anos 40 pelos seus tios Júlia e sentarmos na esplanada agora recuada uns metros por
António. causa das obras do funicular que, no futuro, ligará a

25 JANEIRO 2018 VISÃO 99


A passagem do 28, sempre cheio de
turistas (e de carteiristas, acrescente-se),
faz-nos prosseguir caminho. Não sem
antes subirmos as escadas do coreto.
Ali bem perto, fica o Pitéu da Graça,
que em 2015 teve direito a destaque
no New York Times. “Ainda hoje vêm cá
clientes por causa dessa reportagem”,
lembra Luís Vieira, um dos proprietários
do restaurante

Mouraria a este lugar –, faça-se a fotografia da praxe


a partir desta “varanda” da cidade: o Tejo, o Castelo de
São Jorge, o casario, estão todos ali, a cada pestanejar.
“Somos dos primeiros quiosques que resistiram e com
algum êxito. Temos a vantagem de ter esta vista magnífica,
mas também devemos ter algum mérito”, afirma João
Garção, proprietário da Esplanada Igreja da Graça, que
em setembro passado celebrou 25 anos. Se nos primeiros
tempos só aparecia um turista de vez em quando – “nessa
altura poucos subiam até ao miradouro, ficavam-se pela
Sé de Lisboa”, conta João –, agora são eles que enchem a
maioria das 40 mesas disponíveis. No inverno, é mais fácil
arranjar lugar para saborear uma sanduíche de salmão (€6)
ou beber um chocolate quente (€2,60). Tudo isto embalado
pela música tocada ao vivo por artistas de rua.

DO CONVENTO REABILITADO AO JARDIM DA CERCA


Aproveite-se esta esplanada, que convida ao namoro
ou às longas conversas entre amigos, para descansar.
A dois passos, junto à igreja, fica o Convento da Graça,
aberto ao público há um ano, após profundos trabalhos
de reabilitação, resultado de um protocolo entre a
Fábrica Paroquial da Freguesia de Santo André-Graça,
Real Irmandade de Santa Cruz e Passos da Graça e a Açores na Feira
CML. Tem entrada gratuita e pode visitar-se a portaria,
o claustro e a Sala do Capítulo, onde está Corpus Christi
– A Procissão do Corpo de Deus. A exposição, composta
por mais de 1500 figuras de barro feitas pelo escultor A Janela
Vasco Pereira e pintadas por António Soares, entre 1944 e
1948, retrata como seria a procissão do Corpo de Deus no
século XVIII.
Deixemos o miradouro e desçamos pela Calçada do
Monte até à entrada do Jardim da Cerca da Graça.
Trata-se, oficialmente, do “maior espaço verde de acesso
público da zona histórica da cidade”. E, se a Graça
merecia há muito um jardim, a abertura, em junho de
2015, veio permitir também a sua ligação ao bairro da
Mouraria. Durante a semana, há paz suficiente para ler
um livro, por exemplo, na esplanada da Cozinha Popular
da Mouraria, projeto social de Adriana Freire, que serve
petiscos do mundo. A eslovena Mateja,
32 anos, prefere vir trabalhar para este jardim. Apesar
de viver bem perto, é aqui que se senta a preparar as
aulas de jazz que leciona e a estudar para o mestrado
em música. Um passeio pelo jardim, 1,7 hectares em
socalcos, leva-nos a um pomar, com muitas laranjeiras,

100 VISÃO 25 JANEIRO 2018


VER
CONVENTO DA GRAÇA

Miradouro da Graça > ter-sáb 10h-17h30, dom
10h-18h > grátis

JARDIM DA CERCA DA GRAÇA



O jardim possui três entradas: uma junto ao
Convento da Graça, outra na Calçada do Monte,
a meio da encosta, e na Mouraria, na zona das
Olarias, junto ao Centro de Inovação da Mouraria
/Quarteirão dos Lagares > grátis

PRIMEIROS SINTOMAS
Após sete anos no Espaço Ribeira, no Cais
do Sodré, a companhia de teatro Primeiros
Sintomas mudou-se para o Centro de Artes
de Lisboa, na Graça. Ali têm mais espaço
para criar espetáculos, desenvolver cursos,
oficinas de teatro e acolher peças de outras
companhias. A partir de 3 de fevereiro,
realizar-se-á a oficina Bicho do Teatro, para
crianças dos 6 aos 11 anos.


Centro de Artes de Lisboa > R. de Santa
Engrácia, 12 > T. 91 507 8572

COMER
acesso direto ao
interior. A ementa
A ÇORES inclui massada de
robalo, beringela
Esplanada Igreja da Graça NA FEI RA recheada com
migas de enchidos
 e bacalhau com
Campo de Santa ovo a baixa
Clara, 140 A-B temperatura
> T. 96 469 2688 (€6,50 a €7), entre
> seg-dom 8h30-24h
outras sugestões
que mudam
diariamente.
Há ainda dois
A JA NEL A brunches, servidos,
aos sábados e
Agora, para se domingos, entre as
almoçar 11 e as 17 horas.
n'A Janela, já não
é preciso entrar
pela associação 
e escola Voz do Voz do Operário
Operário. > R. da Voz do
A cafetaria ganhou Operário, 3
MÁRIO JOÃO

também uma nova > T. 21 886 2155 >


seg-sex 8h30-21h,
entrada lateral,
sáb-dom 10h-19h
com esplanada, e

25 JANEIRO 2018 VISÃO 101


Café Calçada

e a um parque infantil, com escorregas e baloiços.


O parque de merendas condiz com piqueniques, e, nos
três miradouros, perdemo-nos com a paisagem. Pena é
que alguns frequentadores não obedeçam às regras que
proíbem que os cães andem sem trela e que obrigam os
donos à recolha de dejetos. Fica, por isso, um aviso ao
leitor: evite sentar-se no relvado.

FOCACCIAS E FEIJOADA À TERCEIRENSE


Descendo a Rua Voz do Operário, viremos à esquerda junto
à Igreja de São Vicente de Fora, em direção ao Campo
de Santa Clara. Não tem que enganar, basta perguntar
onde se faz a afamada e concorrida Feira da Ladra.
É nesta zona que, todas as terças e sábados, se concentram
vendedores, curiosos e turistas. Mas também é aqui que,
em frente ao Mercado de Santa Clara, se encontram novos
negócios como o restaurante Açores na Feira. À porta,
quem recebe é o proprietário Bruno Silveira, 30 anos,
nascido na ilha Terceira, que, após uma passagem pela Igreja de São Vicente
televisão (participou na série Morangos com Açúcar e na

102 VISÃO 25 JANEIRO 2018


Um passeio pelo Jardim da Cerca da
Graça, 1,7 hectares em socalcos, leva-nos A L D EI A COPENHA GEN
a um laranjal e a um parque infantil, — CRESCER EM COFFEE L A B
com escorregas e baloiços. O parque de FA M Í L I A
merendas condiz com piqueniques, e, 
Campo de Santa Clara,
nos três miradouros, perdemo-nos com 
136 > seg-sex 8h-18h,
Cç. dos Barbadinhos,
a paisagem 136, Lj. E >
sáb-dom 9h30-18h
T. 93 560 4001 > seg-
sáb 9h-13h, 15h-19h
telenovela Flor do Mar), se dedica há três meses a receber
(e a entreter) quem vem deliciar-se com a gastronomia ESPLANADA
açoriana. E, só de espreitar e cheirar a travessa de feijoada IGREJA DA GRAÇA
à terceirense, feita pela mãe Noémia, fica-se com água na BOTEQUI M

boca. “É uma comida que leva muito tempo a preparar, No tempo em que
era gerido por Miradouro da Graça >
tem muitos temperos para ficar apuradinha”, explica a seg-dom 10h30-
Natália Correia,
cozinheira de sorriso fácil, aguçando-nos a curiosidade. transformou-se num
-24h (inverno), 10h-1h
Na ementa, há ainda telha de lulas (€18,50) e bife frito (verão)
lugar de tertúlias,
regional, com malagueta e alho, que acompanha com ovo e frequentado por
batata frita (€21). “Trazemos muitos produtos dos Açores, nomes ligados às
como o atum ou a carne, mas também os licores e os gins”, artes e à literatura.
revela Bruno. Atrás do balcão, GI RO – COM I DA
Ao lado, com esplanada onde apetece ficar a apanhar sol, ainda é possível
ver a fotografia da
D O M UND O
está o Copenhagen Coffee Lab. Ali, os cafés têm os nomes escritora e, nas Abriu, um dia antes
das máquinas onde são preparados: pede-se um V60, prateleiras, alguns da Consoada, como
um Aeropress ou um French Press. Esta “nova” forma de dos seus livros. Mas, “prenda antecipa-
neste café, há agora da” aos clientes
beber café foi trazida pelas irmãs dinamarquesas Susan e apreciadores de
Hellen Jacobsen, que começaram com uma carrinha de rua uma nova clientela e
uma ementa variada comida japonesa.
e encontraram, há cerca de três anos, morada fixa junto à (aconselham-se Sushi, sashimi,
Praça das Flores, no Príncipe Real. Para quem aprecia um os folhados de temakis, nigiris e
café de balão, mais texturado e encorpado, aconselham um vegetais assados salada japonesa são
e mozzarella e o alguns dos pratos
French Press (€4 ou €3, consoante o número de chávenas). servidos.
Aberto também recentemente, o restaurante Tazza in de bacalhau com
batata-doce e
Giro está decorado com peças compradas a feirantes, que espinafres). 
estão a dois passos. “Tentamos fazer comida saudável sem
Cç. do Monte, 96-100
grandes complicações”, diz o italiano Enrico Postiglioni.  > T. 21 887 3209 >
Há pratos na lista já definidos, mas a ideia é que o cliente Lg. da Graça, 79-80 seg-dom 8h30-23h
componha a sua própria refeição, fazendo três opções. > T. 21 888 8511
Primeiro, escolhe a base, que pode ser, por exemplo, > seg-dom 9h30-1h
quinoa, arroz integral e grão (€3). Depois, o recheio,
camarão com tomate (€4) ou curgete, alho, vinagre e GRA ÇA 7 7
CA SA 
Lg. da Graça, 77 >
M OCA M BO T. 21 134 8839 > ter-
-dom 10h-23h30

R. do Vale de Santo
António, 122A
> T. 91 250 9906
> ter-sex 11h-15h, M A RI A L I M Ã O
18h-24h, sáb 11h-15h,
18h-2h, dom 
18h-24h (almoço R. da Verónica, 122
com reserva) > T. 91 349 2228
> seg-dom 9h-19h

CL A RA
CL A RA PI TÉU D A GR AÇ A
 
Jardim Botto Machado Lg. da Graça, 95-96 > T.
MÁRIO JOÃO

> Campo de Santa 21 887 1067 > seg-sex


Maria Limão Clara > T. 21 885 0172 12h-15h, 19h-22h30,
> seg-dom 10h-19h sáb 12h-15h)

25 JANEIRO 2018 VISÃO 103


Graça 77

Jardim da Cerca da Graça Convento da Graça

104 VISÃO 25 JANEIRO 2018


preitar e juntar-se a
hortelã (€3). Por fim, o molho: limão, soja e verduras ou esta festa animada.
picante. “No fundo, fazemos comida que todos devíamos
comer em casa”, resume o também proprietário da TA SCA D O JA I M E 
Focaccia in Giro, duas portas ao lado. Ali não há dúvidas: Mesmo em frente ao
R. da Graça, 91
servem-se 12 variedades de focaccias caseiras. “São antigo Royal Cine, a > T. 21 888 1560
Tasca do Jaime con- > ter-dom 9h-24h
estaladiças por fora e macias por dentro, como gosto de as ta já com 28 anos de
comer”, descreve Enrico. Da mais simples, com mortadella vida. Ali, nas tardes
di Bologna (€3,50), à mais elaborada, com salmão, cebola de sábados, do-
caramelizada, curgete e laranja (€6), quem manda é o mingos e feriados,
gosto de quem ali se senta. Antes de deixar o Campo de ouve-se fado vadio TA Z Z A I N GI RO
à desgarrada, entre
Santa Clara, não esqueçamos o renovado Jardim de Botto as 16 e as 18 horas. 
Machado, o quiosque-esplanada Clara Clara e a vista São conhecidas as Campo de Santa
privilegiada sobre o Tejo. filas de moradores e Clara, 139 > T. 91 623
turistas, que vão es- 5667 > ter-sáb 9h-16h

“SOMOS TODOS MESTIÇOS”


O passeio segue para a distante Calçada dos Barbadinhos.
Não é fácil de encontrar mas, com as indicações dos
moradores, chega-se à Aldeia–Crescer em Família, um
projeto pensado para famílias. Inspirada pelo provérbio
africano que acredita que é preciso uma aldeia inteira NOITE
para educar uma criança, Sónia Aranguiz, 37 anos,
nascida no Chile, abriu este sítio há cerca de um ano.
Junta uma pequena loja onde se vendem roupas e
brinquedos, e uma cafetaria, com sugestões saudáveis, DAMAS
feitas com produtos biológicos e orgânicos. É o caso 
do pão de legumes (€1,80), do salame vegan (€1,80) e R. da Voz do Operário, 60 > T. 96 496 4416 > ter
dos biscoitos com pouco açúcar (€0,80). A ideia é que, 12h-2h, qua-qui 18h-2h, sex 18h-4h, sáb 12h-4h,
dom 17h-24h
enquanto os pais relaxam, os filhos brinquem nesta
grande sala, leiam um livro, façam desenhos. Já ao lado,
decorrem os workshops de pintura, as aulas de dança e os
concertos de música para bebés. Para os adultos, há, por
exemplo, dança do ventre e ioga.
Antes do dia terminar, e de se deixar o bairro da Graça,
guarde-se fôlego (e apetite) para jantar na Casa Mocambo.
Com alguns bancos forrados com tecidos trazidos de COMPRAR
África, as paredes estão decoradas com as pinturas de
Ana Natureza e Maio Coopé, entre outros artistas que ali
expõem (e vendem) as suas obras. “É uma casa que quer
provar que somos todos mestiços, e que pretende celebrar
FEIRA DA LADRA MERCADO DE SANTA
a lusofonia ao ligar a gastronomia com a arte”, diz Mafalda Antigo mercado CLARA
franco de Lisboa,
Nunes, 42 anos, responsável por este restaurante, galeria No lugar onde
com raízes que
de arte e sala de espetáculos. “Pego em receitas de pratos outrora se vendiam
remontam ao hortaliças, fruta
portugueses e uso produtos africanos, como a mandioca, século XIII, a Feira e peixe, há agora
os quiabos e a batata-doce”, explica. Há também moamba da Ladra é o maior exposições tempo-
(€8,50) e, até ao final deste mês de janeiro, às sextas e mercado de rua de rárias. Já à volta do
Lisboa. Ali vende-
sábados, pratos brasileiros, como o pernil assado com feijão -se um pouco
edifício do mercado,
tropeiro. Na sala da cave, preparada para receber jantares abriram, entretanto,
de tudo, com lojas de velharias,
de grupo, já aconteceram concertos, lançamentos de livro e destaque para as de roupa, uma cho-
momentos de poesia. velharias. colataria, alfarra-
E se o passeio já vai longo, este dia-roteiro não ficaria bistas, artesanato...
completo sem uma visita ao Damas, aberto desde o dia  Não têm dias nem
Campo de Santa Clara horário fixos de
25 de abril de 2015. Funciona como bar, com mesas à > ter, sáb 9h-18h
porta, onde sabe bem beber uma imperial, e onde são abertura, mas em
dias de Feira da
servidos jantares (almoços só em dia de Feira da Ladra, à Ladra, às terças e
terça e ao sábado) com sabores que viajam por Portugal, aos sábados, estão
Ásia, África e Brasil. Todas as quintas, sextas e sábados, de portas abertas.
há música ao vivo e djs para ficar a dançar até às 4 da No primeiro piso,
madrugada. Esta sexta, 26, a partir das 23 e 30, sobe ao encontra-se o res-
taurante Santa Cla-
palco o artista residente Mundo Quesadilla. A sua música ra dos Cogumelos.
é bastante eclética, do rock independente aos ritmos
pop, africanos e brasileiros. E é isto – a Graça é um 
mundo. Vamos até lá? Campo de Santa Clara

25 JANEIRO 2018 VISÃO 105


Manifesto
O QUE ANDAMOS A GOSTAR (OU NEM POR ISSO) DE DESCOBRIR POR AÍ

J O A N A L O U R E I R O jloureiro@visao.pt

> muitíssimo bom > bom


A PULSAÇÃO DAS PALAVRAS NA ROTA DAS GALERIAS
No CCB, em Lisboa, a A galeria parisiense Jeanne Bucher
Jaeger, que manteve uma forte
poeta Matilde Campilho ligação à pintora Vieira da Silva,
abriu em Lisboa, na Rua Serpa Pinto,
e o dj Stereossauro a dois passos do Museu do Chiado.
A exposição inaugural é dedicada
protagonizam este aos artistas naïf André Bauchant e
sábado, 27, às 18 horas, Louis-Auguste Déchelette

mais uma sessão do


Música para Ti, um > bonzinho
miniconcerto de 30
minutos, seguido de O REGRESSO DE CALCANHOTTO
A cantautora brasileira Adriana
conversa com o público. Calcanhotto volta à Universidade
Para todas as idades de Coimbra, de 5 março a 7 de maio,
para lecionar o curso Como escrever
canções, arte que domina com
mestria. As candidaturas decorrem
até 15 de fevereiro

> assim-assim
CUIDADORES DE ÁRVORES
O Jardim Botânico de Coimbra
prossegue até ao final deste mês
com a iniciativa UC.Plantas, dando
árvores para adoção aos alunos da
Universidade de Coimbra, que serão
posteriormente plantadas na região.
Procuram-se “pais” responsáveis

> para esquecer


CULTURA SEM ALIMENTO
No El Corte Inglés, em Lisboa, a
secção de livros e discos passou
para o sexto andar e a oferta
substancialmente reduzida, em claro
contraste com a comida gourmet
que ocupa agora um piso inteiro…

106 VISÃO 25 JANEIRO 2018


COMER E BEBER

Mistu Porto
Exótico quanto baste
O irmão mais novo do restaurante Flow distancia-se da cozinha mediterrânica e inspira-se
noutras gastronomias mais longínquas. Mas sem provocar grandes choques culturais

LUCÍLIA MONTEIRO
“Não Há um exotismo controlado no Mistu, Escolheram, mais uma vez, um edifício
queremos ter o sendo os paladares mais distintos, com com caráter, onde outrora funcionou uma
compromisso de referências à Ásia e à América do Sul, serralharia, reabilitado pelo arquiteto Nuno
tratar um prato balanceados com a utilização de Cabanelas e decorado por Paulo Freire.
exatamente produtos reconhecíveis pelo público Sofisticado e cosmopolita, com luz abundante
como no país português, como o polvo, o camarão a entrar pelas janelas em ferro forjado e
de origem, tigre, o robalo ou a picanha. “Não queremos ter o muitas plantas, quase como se fosse uma
procuramos compromisso de tratar um prato exatamente como estufa de inverno, é um lugar para observar e
sabores e no país de origem, procuramos sabores e produtos ser observado (da mezzanine, controlam-
produtos e
e transformamo-los de forma a sentirmo-nos -se os dois pisos), “mas que não se esgota na
transformamo-
mais confortáveis”, explica Rui Mingatos, chefe de moda”, acredita Ricardo Graça Moura. A carta,
-los de forma
a sentirmo-
cozinha e sócio do restaurante, inaugurado no final eclética, favorece as partilhas. Entre os pratos
-nos mais de novembro. O desafio foi-lhe lançado por frios, há ceviches (de peixe branco e de atum,
confortáveis”, Ricardo Graça Moura e Paulo Freire, proprietários gengibre e abacate, ambos por €13), tártaro de
explica Rui do Flow (onde Rui também é chefe executivo), que lombo com molho kimchi (€13) ou ganache
Mingatos, chefe se tem mantido em voga no Porto desde a de foie gras e pão de especiarias (€10). Nos
de cozinha e abertura, em dezembro de 2014. “Queríamos pratos quentes, têm-se destacado a tranche
sócio do Mistu acrescentar valor à cidade e apresentar um novo de robalo, espargos, tortelloni de cogumelos
restaurante, não necessariamente o melhor sítio e trufa (€20), o camarão tigre com risotto de
para se comer (para isso existem os Michelin), mas choco e alface do mar (€28) ou o cupim de
com uma conjugação de elementos: comida boi, cerveja preta, puré de abóbora manteiga
consistente e inovadora, conforto, decoração ímpar e cogumelos (€12). Exóticos quanto baste.
e ambiente”, acrescenta Ricardo. Joana Loureiro


R. Comércio do Porto, 161, Porto > T. 92 668 2620 > seg 20h-23h30, ter-sex 12h30-15h, 20h-23h30, sáb 13h-15h30, 20h-24h > €14
menu de almoço (apenas durante a semana)

25 JANEIRO 2018 VISÃO 107


COMER E B E B E R

POR
MANUEL
G O N ÇA LV E S
D A S I LVA

comer&beber@visao.pt

D.R.
Brac Braga
Sabores com história
Lugar privilegiado com instalações de grande beleza, ambiente cosmopolita
e comida de excelente qualidade

Numa sala Tem instalações singulares, onde a que são autêntica gulodice. Entre os pratos
de decoração leveza da zona do balcão e das mesas de peixe, destacam-se a corvina com gambas,
moderna, serve- altas, claramente destinado ao petisco, moqueca e farofa, pela combinação de texturas
-se cozinha de à bebida e à conversa, bem como da e de sabores; a açorda de gambas, igualmente
base tradicional esplanada, aberta para a rua, convive bem feita e saborosa: e o peixe do dia grelhado,
portuguesa com um certo peso histórico da sala em regra robalo, que vale pela qualidade do
com elaboração de refeições, que ostenta uma parede de pedra, a produto. Nos pratos de carne encontra-se, agora,
culinária e testemunhar o que foi a muralha fernandina do um arroz malandro com bochechas de porco
apresentação século XIV, e outra de vidro, a revelar ruínas preto – estas, em parte desfeitas e envolvidas
contemporâ-
romanas do século I. O acesso a esta área no arroz com cogumelos, as restantes estufadas,
neas,
museológica faz-se através de um passadiço. reunindo-se num prato guloso como poucos.
respeitando o
património e
Tem decoração moderna de muito bom gosto A perninha de borrego com rosmaninho,
olhando o futuro que respeita e valoriza esses vestígios do passado. bem assada, acompanha com batatas louras e
E a cozinha, de base tradicional portuguesa com espargos grelhados; e o bife do vazio, com molho
elaboração culinária e apresentação de carne e Madeira, muito suave. Ao almoço, de
contemporâneas, segue o mesmo critério, segunda a sábado, funciona o sistema de bufete
respeitando o património e olhando o futuro. com várias entradas, saladas, quiches, queijos e
A ementa é curta, mas está em renovação outros acompanhamentos, sopa caseira, prato
constante, com, pelo menos, um ou dois pratos de peixe ou prato de carne, chá ou limonada
diferentes por mês. Apresenta um couvert (€9, com sobremesa ou vinho €11, com ambos
original: cesto de pão, gressinos e paparis, €12,50). Há sempre um prato vegetariano. Na
algumas manteigas trabalhadas, um molho mesa dos petiscos, a oferta sobe a duas dezenas
quente (de gambas, de francesinha ou outro, só de iguarias, incluindo as entradas e os pratos da
para molhar o pão) e frasquinhos de compota. carta, em doses mais reduzidas.
Tem cinco entradas, três pratos de peixe, outros Boa doçaria, feita na casa, como o gelado com
tantos de carne e meia dúzia de sobremesas. Nas ovos-moles, o brownie de frutos secos com
entradas, impõem-se os croquetes de queijo gelado de frutos vermelhos e os papos de anjo
Serra e presunto, estaladiços e cheios de sabor; com calda de romã, por exemplo. Garrafeira
o carpaccio de lombo de boi, com um molho equilibrada, tanto na representatividade das
de azeite e pimenta que é tão simples como principais regiões, quanto na qualidade e nos
saboroso; e os míscaros grelhados com ovos, preços. Serviço eficiente e simpático.


Lg. do Campo das Carvalheiras, Braga > T. 253 610 225 / 92 914 5272 > seg-sáb 12h-14h30, 19h-24h, dom 12h-14h30 > €30 (preço
médio) > almoço bufete €9-€12,50

108 VISÃO 25 JANEIRO 2018


Quinta do Poço do Lobo
Solar dos Lilases Mora Bairrada Reserva 2015
Foi há dez anos que o Hotel Feito de uvas
dos Lilases abriu, numa das castas Baga,
casa senhorial muito bem Touriga Nacional
recuperada, preservando-lhe e Cabernet
a traça e devolvendo-lhe o Sauvignon. Cor
antigo charme, em Mora, rubi profunda,
vila do distrito de Évora. aroma intenso a

Caves São João Bairrada


O seu restaurante é muito frutos vermelhos,
convidativo, numa varanda com leves notas
aberta para a parte velha do vegetais e um
burgo, a ribeira e a paisagem toque da madeira
caraterística de montado.
Tem as mesas alinhadas
numa só fila, espaçosas, com
bons atoalhados e louças
Rejuvenescer aos cem anos onde estagiou.
Paladar com
frescura aliciante,
taninos gostosos
da Costa Nova. Ao ambiente Frei João, Porta dos Cavaleiros e Caves São João e boa persistência.
tranquilo e familiar, junta-se €12,50
a gastronomia genuinamente
Reserva são marcas que fazem da empresa de
alentejana, tanto nos Sangalhos um símbolo da região bairradina
produtos como no modo de os Quinta do Poço do Lobo
confecionar.
Fevereiro é o Mês das Migas, O lançamento no mercado de colheitas novas
Bruto Arinto & Chardon-
prato tradicional alentejano e de espumantes e vinhos Bairrada pelas Caves nay Espumante 2015
emblemático do concelho de São João – Quinta do Poço do Lobo Arinto & Duas castas,
Mora – aqui tiveram origem as Chardonnay Espumante Bruto 2015, Quinta do Chardonnay e
famosas migas com espargos Poço do Lobo Baga Espumante Bruto 2015 e Arinto, na origem
selvagens, dizem os seus Quinta do Poço do Lobo Reserva Tinto 2015 deste vinho de cor
habitantes, por ser terra com – faz prova de vida e dá garantias de que a mais antiga amarela-
muita água. No Hotel dos empresa em atividade no setor vitivinícola da Bairrada -citrina, aroma
Lilases fazem-se marcações promete continuar a ser um símbolo da região. Fundadas intenso floral (de
de estadia com refeição laranjeira) e frutado
em 1920 pelos irmãos José, Manuel e Albano Costa, as
incluída. Este ano, além de (ananás e pêssego).
Caves São João permanecem na posse da mesma família,
migas com bochechas de Paladar suave,
porco assadas no forno,
que vai na terceira geração, sob a liderança da jovem e
dinâmica Célia Alves. A empresa começou por seco e fino, bem
há migas de abade com balanceado com
carapaus fritos, de tomate comercializar vinhos de mesa da Bairrada, depois passou
à produção de espumantes naturais pelo método a fruta, a mostrar-
com carne do alguidar, de se com notável
coentros com bacalhau champanhês, a seguir entrou na exportação de vinhos
para os mercados do Brasil e das colónias portuguesas de frescura. Beber só
assado, de couve-flor com ou com aperitivos,
lagartos grelhados e, para África, e, nas décadas de 50 e 60, atingiu o apogeu com o
pratos leves e
sobremesa, migas doces. Na lançamento de marcas históricas: Frei João, Porta dos
sobremesas. €7,50
ementa constam ainda, para Cavaleiros, esta no Dão, e Caves São João Reserva.
entrada, bons petiscos: ovos Apesar da aquisição da Quinta do Poço do Lobo, em
com espargos, patê de javali
ou paio de porco preto. Nos
Pocariça, Cantanhede, na década de 70, que foi replantada Quinta do Poço do
e veio a produzir vinhos e espumantes Bairrada com
pratos principais, há sempre a sua marca, as Caves de São João acabaram por cair Lobo Espumante Bruto
sopa de cação, açorda de numa certa letargia. Mas estão a ressurgir. Em 2010, Baga Bairrada 2015
bacalhau com ovo escalfado ao completarem 90 anos, lançaram um programa
(na época fria), faisão de Cem por cento
comemorativo do centenário que, sob a designação Baga, tem uma
escabeche e outras peças genérica 100 Anos de História, inclui a edição anual de
de caça, no seu tempo. Boa bela cor amarela-
um vinho que tenha feito parte da história das Caves -palha, aroma
doçaria, feita na casa, como a São João, numa série limitada, numerada e pautada pela
encharcada ou o arroz-doce à intenso com notas
qualidade. de frutos frescos
moda alentejana (sem ovos).
Sabe-se, ou, pelo menos, sabem todos os enófilos, que e secos, paladar
Garrafeira com os vinhos
locais em evidência. Serviço
as Caves São João têm uma garrafeira de vinhos antigos elegante com
atento e muito simpático. única no País com as quatro marcas principais – Frei João, acidez correta. Tão
Porta dos Cavaleiros, Caves São João Reserva Particular e bom para aperitivo,
 Quinta do Poço do Lobo, das décadas de 60, 70, 80 e 90, como para a
R. de Santo António, 8, comercializadas com método e rigor. As novas produções mesa com peixes,
Mora > T. 266 403 315 / respeitam o estilo da casa, sem prejuízo do toque de carnes brancas ou
91 560 1984 > ter-sáb 12h-14h30,
19h-21h30, dom 12h-14h30 modernidade ditado pelos novos tempos e gostos. vermelhas magras.
> €18 (preço médio) €9

25 JANEIRO 2018 VISÃO 109


COMER E B E B E R

Simpli – Bakery & Coffee Roasters Lisboa


Aromas 100% arábica
O café de especialidade que aqui se bebe vem do Brasil, das Honduras ou da Nicarágua.
Uma seleção de bolos e pão, feitos na casa, fazem a combinação perfeita

LUÍS BARRA

O café chega à mesa com um pequeno altitude, acima dos 1 100 metros, e as bagas
cartão e assim ficamos a saber que é colhidas à mão, num processo minucioso que No Simpli, o
100% arábica. Nesta espécie de bilhete seleciona apenas as que estão maduras. Já a torra, café é torra-
de identidade que acompanha todos os “leve e moderada para que se sintam as notas do ao ritmo
cafés que se servem no Simpli — aromáticas de cada grão das várias origens”, dos pedidos
Bakery & Coffee Roasters, em Lisboa, é feita ali mesmo, à vista do cliente. “O nosso porque,
pode ler-se também o país e a região de origem, a café é 100% arábica, que tem metade da cafeína depois deste
altitude a que foi plantado, o nome do produtor, a do chamado café normal. Por isso, não temos processo,
variedade e o processo de tratamento a que foi descafeinado. É um café para apreciadores”, deve repou-
sar cerca de
sujeito. Mais pormenorizada é a descrição justifica Mário Cajada. De quinze em quinze dias,
sete dias e
sensorial: o Daterra Sweet Yellow vem de Minas há dois cafés em destaque.
ser consumi-
Gerais, no Brasil, e tem aroma leve e floral. Já o Quando imaginou o projeto, Mário Cajada do até quatro
sabor é suave, com final doce e lá pelo meio pensou numa coisa simples – e daí o nome semanas. Já
havemos de sentir o caramelo e o chocolate doce. (Simpli). No entanto, quis associar padaria e a máquina de
“É uma maneira de educar o paladar de quem pastelaria com fabrico próprio. “A vitrina não tirar o café
bebe o nosso café”, diz Mário Cajada, proprietário está cheia de bolos e de pão, é uma variedade é especial,
desta nova coffeeshop, a funcionar desde final de selecionada”, explica. Quem vem ao Simpli vê afinada todos
outubro passado na Rua Braamcamp. fazer croissants (açucarado, simples, integral ou os dias de
A madeira, o ferro e a palha foram os de chocolate), caracóis, arrufadas, pães de leite e manhã.
materiais utilizados na decoração do Simpli, que tarteletes, pão de Mafra, alentejano, multicereais
aposta no café de especialidade. Os grãos verdes e até uma especialidade do dia, a misturar
e sem defeitos são importados de países como a azeitona ou noz, por exemplo. Tudo pensado
Colômbia, Nicarágua, Brasil, Jamaica, Honduras para acompanhar a verdadeira especialidade,
ou Costa Rica, onde a planta é cultivada a alta o café. Susana Lopes Faustino


R. Braamcamp, 68, Lisboa > T. 21 385 0608 > seg-sáb 8h-20h

110 VISÃO 25 JANEIRO 2018


Casa Aberta Porto
A Casa Aberta foi, durante nove anos,
mais do que uma cafetaria com loja
dentro. Trouxe uma nova dinâmica às
ruas estreitas e típicas da Foz velha.
Em meados de dezembro, reabriu,
renovada, como restaurante e bar, num
desafio que juntou Diogo Baldaque
à chefe de cozinha, e sua cunhada,
Luísa Gouveia. O gestor entendeu
repensar o projeto, apostando na
restauração, “pensada quer para os
moradores do bairro, quer para quem
vive na cidade”, diz-nos Diogo. A carta
privilegia a partilha, seja ao almoço
ou ao jantar. “Não sendo uma cozinha
portuguesa, passa por ter alguns pratos
tradicionais”, revela.
A responsável pela carta e pela cozinha
é Luísa Gouveia, que passou pela
escola Le Cordon Bleu, em Paris, e que
esteve no Bull & Bear de Miguel Castro
e Silva. É das suas mãos que saem as
entradas para partilhar: os peixinhos da
horta (€4,50), o mix de cogumelos com
pancetta crocante e gema (€9), o tártaro
de lombo de vitela arouquesa (€8,50),
os ovinhos escoceses (€4,50) – ovos de
codorniz envoltos em carne, panados
e fritos. Ou as muitas opções de carne
nas brasas do forno a carvão: a presa
de bellota com batata-doce assada,
couves de bruxelas fritas e molho
chimiohuri (€17), as costelas de vitela
arouquesa com arroz queimado (15)
ou, entre outras opções, o costeletão
maturado (€52/kg). Quem prefira peixe,
encontra o lombo de bacalhau com broa
de azeitonas, batata assada e grelos
salteados. À sobremesa, o “tudo ao
frasco com ou sem wasabi” – pão de ló,
ovos moles, leite condensado e natas
(€4,50) – tem ganho adeptos.
A carta deve ser ampliada em fevereiro,
com opções para quem goste de
petiscar enquanto toma um copo ao fim
da tarde ou pela noite dentro. F.A.
LUCÍLIA MONTEIRO


R. Padre Luís Cabral, 1080, Porto > T. 91 855
7477 > ter-qui 12h30-14h30, 19h30-22h30, sex-
sáb 12h30-14h30, 19h30-23h, dom 12h30-15h
SAIR PORTO INSÓLITO
G E R M A N O S I LVA

Os
caixeiros
e o Ateneu
Na transição do século XIX
para o XX, uma das mais
típicas figuras da cidade era
a do caixeiro – empregado
comercial que atendia os
fregueses ao balcão das
lojas do Porto. Naquele
tempo, o comércio não tinha
horas, nem para a abertura
nem para o encerramento.

DIANA TINOCO
Trabalhava-se todos os dias,
de sol a sol. Os caixeiros não
tinham quaisquer direitos.
Aos domingos, o patrão

Nights Out @ JNcQUOI Lisboa


condescendia em deixá-los
ir à primeira missa do dia
e, à tarde, à recitação do
terço. Muito menos permitia

Trilogia noturna que fossem ao teatro ou


se divertissem numa das
muitas sociedades de
recreio como a Terpsícore,
Neste DeliBar, na Avenida da Liberdade, a música embala o Clube Recreativo
Portuense ou a Sociedade
a noite, entre cocktails e delicatéssen Camilo Castelo Branco.
Mas os caixeiros também

A cabina do dj não está no centro do DeliBar do


Além do JNcQUOI, o restaurante na Avenida da
DeliBar e do Liberdade, em Lisboa. Para a encontrar é preciso
restaurante passar a zona da livraria (uma montra da editora
JNcQUOI, no americana Assouline) e percorrer um corredor

LUCÍLIA MONTEIRO
edifício do ci- espelhado. Só então se entra numa espécie de
neteatro Tivo- nave espacial, com portas altas douradas a toda a volta (para
li, na Avenida
aguçar a curiosidade, não revelamos o que escondem), onde
da Liberdade,
este sábado, 27, estará Inês InLectra, que com o seu set vai
funciona ain-
da um balcão
animar um Saturday Special, com a curadoria da dj Mary B
(Mariana Barosa). Também a convidar a dançar, são as gostavam de música, poesia
da Ladurée, e teatro. Contrariando a
uma mercea- noites de quinta a sábado, entre as dez da noite e as duas da
vontade férrea dos patrões
ria gourmet madrugada, sempre com música escolhida por um dj,
e correndo o risco de
e a loja de selecionado pela I4DJ, que também compila as playlists que despedimentos, um grupo
roupa Fashion passam nos restantes dias. tomou a iniciativa de fundar,
Clinic Man. O que está disponível todas as noites no DeliBar são as em 29 de agosto de 1869,
bebidas, como os cocktails especiais da autoria do barman uma sociedade de instrução
espanhol Sérgio Padilla. Os mais pedidos são o JNcQUOI e recreio a que deram o
Martini, com vodka Ketel One picante, maracujá, xarope nome da musa que preside
de baunilha e lima (€12) e o Lisboa, a misturar rum Zacapa à música: Sociedade Nova
23, ginja, lima e orchata (€15). A lista é bastante extensa e, a Euterpe. A primeira sede
pedido, é possível trocar a bebida base (rum, vodka, whisky, foi na Rua do Corpo da
gin, agave e conhaque). Para acompanhar, consulte-se a Guarda e, a segunda, na
carta de comida que inclui, entre outras iguarias, caviar Porta do Sol. Foi esta Nova
Beluga, salmão Balik, terrina de foie gras de pato e ostras Euterpe que deu origem
do Algarve. A escolha só vai depender do gosto e da carteira. ao atual Ateneu Comercial
S.L.F. do Porto, adotando o nome
em homenagem aos jovens
empregados do comércio de
 outros tempos.
DeliBar > Av. da Liberdade, 182-184, Lisboa > T. 21 936 9900 > qui-sáb
22h-2h

112 VISÃO 25 JANEIRO 2018


CASAS ONDE
VAI QUERER MORAR

Descubra as vantagens de ser assinante


Ligue 21 469 88 01 (dias úteis - 9h às 19h)
COMPRA R A MI N HA HIS T ÓRIA

Couto
Na boca de toda a gente?
A empresa portuguesa conhecida pela sua célebre “pasta medicinal” comemora 100 anos
no próximo mês de junho. Com algumas novidades e muitas histórias para contar

Não há dia que Alberto Dionísio Couto, a empresa nasceu em 1918 como
Gomes da Silva, 80 anos, não passe Farmácia Flôres e Couto, no Largo de
pelas instalações da Couto S.A., em S. Domingos, no Porto. E chegará ao centenário,
Vila Nova de Gaia. O atual sócio no final de junho, acreditam os responsáveis,
maioritário e sobrinho do com os olhos postos no futuro. E com muitas
fundador, Alberto Ferreira do novidades. Oitenta e cinco anos depois da
Couto, trabalha na empresa desde os 17 anos. invenção da pasta que prometia “dentes fortes,
Ou até antes, conforme conta, quando o tio o gengivas sãs, boca saudável” e que, nos anúncios
“mandava ir para lá passar uns dias, durante de televisão, nos mostrava um malabarista a
as férias grandes”. segurar uma cadeira com a boca. Nos últimos
Conhecida, sobretudo, pela pasta medicinal dois anos, a Couto lançou quatro produtos
(o creme desodorizante, o creme de mãos, o
sabonete e o creme hidratante) e, no último
Ainda este Natal, ainda uma vela aromática e uma lata
ano, a empresa vintage. Em março, sai também para o mercado
centenária
uma linha de homem (creme de barbear, after
pretende abrir
shave, óleo e champô para a barba) e, em junho,
uma loja da
Couto, no Porto.
será lançado um conjunto de embalagens retro,
E tem também a pensado a partir da caixa de cor de laranja e
intenção de levar do losango da pasta de dentes (colónia e gel de
os seus produtos banho).
com imagem A empresa centenária parece, pois, estar a
vintage até à ganhar uma nova dinâmica, o que, em parte,
hotelaria. se deverá a Alexandra Matos Gomes da Silva,
47 anos, mulher de Alberto e atual diretora

114 VISÃO 25 JANEIRO 2018


LUCÍLIA MONTEIRO
comercial, que quer reposicionar a marca num da faturação global (900 mil euros, no ano Alberto Gomes
segmento vintage. Ideias não lhe faltam. “Temos passado). A vida do empresário confunde-se, por da Silva,
de evoluir. Os tempos são outros”, conclui assim dizer, com a da pasta dentífrica: chegou sobrinho e
Alberto Gomes da Silva, sem esquecer os anos a ser feita por pouco mais de 30 trabalhadores herdeiro do
em que a produção de pasta medicinal começou (hoje são nove) e, ainda agora, segue a mesma fundador,
na farmácia, no rés do chão de um prédio de receita dada, nos anos 30, ao tio de Alberto por recorda os
cinco andares no número 106 do Largo de um dentista, que lhe terá sugerido introduzir anos em que
S. Domingos. “Na altura, era nas farmácias que clorato de potássio na composição (que a empresa
se faziam os medicamentos, as injeções, os combatia os problemas nas gengivas provocados funcionava no
número 106 do
preparados… A porta ficava junto à estrada, tinha pela sífilis).
Largo de
uma parte de armazém que fornecia outras Terá sido essa fórmula que a pôs “na
S. Domingos:
farmácias. No terceiro andar fazia-se a pasta, no boca de todos os portugueses”, como dizia a “Na altura, era
quarto e quinto o enchimento e embalamento. publicidade da altura. Um dos anúncios de nas farmácias
Era uma fábrica na vertical”, lembra. Quis o televisão era o tal do malabarista a segurar uma que se faziam os
destino que Alberto tivesse nascido a dois cadeira com a boca. A ideia nasceu do próprio medicamentos,
passos dali, na Rua Sousa Viterbo, cinco anos Alberto, durante uma viagem que fez com o as injeções, os
depois de o seu tio ter inventado a célebre pasta tio a Lourenço Marques. “Vi um malabarista, preparados…”
de dentes. Após ter começado a trabalhar no achei-o excecional e convenci o meu tio a
escritório “a classificar faturas e a escrever à levá-lo a atuar em Lisboa, no Maxime, de que
máquina”, herdou a empresa após a morte do era sócio”, recorda. Assim nasceu o anúncio,
tio, em 1974, acumulando o cargo com o de tal como os restantes cartazes publicitários
gestor da Drogaria Castilho, situada junto ao da década de 60, cujas imagens retro serão
café A Brasileira. “Tenho alguma saudade dessa vendidas a acompanhar as caixas de lata
altura. O Porto do meu tempo era com carros de vintage, de edição limitada, que a Couto está
bois e cavalos.” neste momento a lançar. A gestão de décadas
da empresa e, mais tarde, também da Fundação
CLORATO DE POTÁSSIO Couto – o infantário e creche que acolhe mais
A vida de Alberto Gomes da Silva esteve sempre de 400 crianças em Vila Nova de Gaia – pouco
ligada à pasta medicinal. Entretanto, teve de tempo livre deixaram a Alberto Gomes da
alterar a designação para pasta dentífrica, mas Silva, que teve no hipismo e nos automóveis as
foi o produto âncora da empresa (só em 2017 suas grandes paixões – as férias de verão eram
venderam-se 700 mil unidades de 60 gramas, passadas a viajar pela Europa (chegou a ir de
a maioria para o mercado nacional). Nos anos Nápoles a Estocolmo e à Turquia). Hoje, se for
50, juntaram-se à empresa dois outros produtos preciso, ainda conduz a empilhadora de paletes.
míticos: o Restaurador Olex e o Petróleo Olex, E é vê-lo de sorriso nos lábios e... dentes
que representam, respetivamente, 7% e 5% brancos. Florbela Alves

25 JANEIRO 2018 VISÃO 115


VE R

SUSSIE AHLBURG
Festival dos Quartetos de Cordas Lisboa
Os novos clássicos
A Fundação Calouste Gulbenkian apresenta ao público português seis dos mais jovens
e inventivos quartetos de cordas da atualidade

Chiaroscuro São vários os séculos de música para Cordas nº 9, de Georg Friedrich Haas,
Quartet é erudita que irão ser percorridos neste especialmente concebida para ser interpretada
um dos seis festival, organizado em parceria pela nesse ambiente. O primeiro dia de festival fica
quartetos Fundação Calouste Gulbenkian e a concluído com a presença do Artemis Quartett,
presentes no Biennale de Quatuors à Cordes de la um grupo alemão já conhecido do público da
festival. Philharmonie de Paris. O ponto de Gulbenkian, onde atuou há dois anos, que agora
Os restantes são partida é o formato tradicional dos quartetos de vem apresentar um programa composto por
o David Oistrakh cordas – com dois violinos, uma viola e um obras de Mozart e Bartók. O segundo dia de
String Quartet, violoncelo –, que vão não só dar a conhecer seis festival, domingo, 28, começa novamente às
o Jack Quartet,
dos mais jovens e inventivos quartetos de cordas 15 horas, ao som do Quatuor Arod, um jovem e
o Artemis
da atualidade, mas também apreciar uma grande multipremiado quarteto belga, que, entre outras
Quartett,
o Quator Arod
diversidade de propostas musicais. A música obras, vem interpretar o Quarteto para Cordas
e o Elias String começa a ouvir-se logo ao início da tarde de nº 1, composto no ano passado por um dos mais
Quartet sábado, 27, com um recital, às 15 horas, a cargo novos e reconhecidos compositores franceses
do David Oistrakh String Quartet, que traz até contemporâneos, Benjamin Attahir. Segue-se,
Lisboa quatro dos mais reconhecidos músicos pelas 18 horas, o Elias String Quartet, um
russos da atualidade, que vão apresentar um coletivo sediado em Londres que se tornou
programa composto por obras de Rachmaninov, internacionalmente conhecido pelas enérgicas
Chostakovitch, Tchaikovsky e Paganini. Para este atuações no projeto Beethoven, um conjunto de
mesmo dia, mas às 18 horas, está também concertos gravados ao vivo da obra integral de
agendado aquele que será um dos momentos quartetos de cordas de Beethoven, concluído em
altos do festival, com a atuação do coletivo 2015. Para o último dia, segunda, 29, ficou
americano Jack Quartet, na qual será reservada outra formação repetente nos palcos
interpretada, em estreia absoluta, a peça da Gulbenkian: o Chiaroscuro Quartet,
Quarteto para Cordas nº 1, encomendada pela conhecido pelo modo como recria o ambiente
Gulbenkian à compositora Andreia Pinto Correia. em que as peças foram originalmente ouvidas.
A esta peça segue-se a interpretação de Tetras, Tal como irá acontecer no concerto de
de Iannis Xenakis, outra encomenda da encerramento deste festival, marcado para as
Gulbenkian. Depois, o concerto termina em 21 horas, onde serão interpretadas obras de Bach,
plena escuridão, para se ouvir a peça Quarteto Mendelssohn e Beethoven. Miguel Judas


Fundação Calouste Gulbenkian > Av. de Berna, 45 A, Lisboa > T. 21 782 3000 > 27-28 jan, sáb-dom, 15h, 18h e 21h > €12 a €40 (passe)

116 VISÃO 25 JANEIRO 2018


Myles Sanko Lisboa, Águeda e Braga Márcia
e Tiago Bettencourt
Igual a si próprio Lisboa
Os dois músicos e cantores
O novo herói da soul britânica está de regresso a Portugal para uma minidigressão apresentam-se num
concerto intimista, em
formato acústico, onde
irão partilhar o palco
Soul, jazz ou hip-hop? Nem nenhuma estratégia de distribuição ou
apenas acompanhados das
uma coisa nem outra. Ou de marketing, mas que mesmo assim respetivas guitarras. Além
melhor, isto tudo se mistura acabaria por vender bastante bem. da possibilidade de assistir
na música de Myles Sanko, o Embalado pelo relativo êxito, a um inédito espetáculo
novo menino bonito da soul contratou uma banda e começou a ser conjunto de dois dos mais
britânica, que já deu ao presença assídua no circuito de clubes aclamados artistas da sua
mundo estrelas como Dusty de jazz do Reino Unido, onde geração, a ocasião tem
Springfield, Tom Jones, Adele ou Amy arregimentou uma fiel legião de fãs, como objetivo principal um
Winehouse, de quem o cantor de que haveria de lhe financiar o segundo propósito solidário, uma vez
origem ganesa parece estar decidido a disco, Forever Dreaming, através de que a receita da bilheteira
seguir os passos. Basta, aliás, assistir a um sistema de crowdfunding. De reverte a favor das vítimas
uma das suas potentes atuações ao vivo repente os palcos tornavam-se cada dos incêndios das aldeias
para perceber que o facto de não se vez maiores e até Gregory Porter, o de Treixedo e Nagosela, em
conseguir encaixar num só género aclamado cantor americano de jazz, o Santa Comba Dão.
musical é mesmo o maior trunfo de convidou para se juntar à sua digressão
Myles, cuja carreira começou como mundial. Cantor, compositor, produtor 
rapper, a acompanhar djs em e músico, Myles revelou-se um artista Teatro da Trindade > R. Nova da
Trindade, 9, Lisboa > T. 21 342 3200
discotecas. Criado na pacata ruralidade completo, como mais uma vez provou > 30 e 31 jan, ter e qua 21h30 > €15
do interior de Inglaterra, cresceu a no último registo de originais, Just
ouvir os clássicos da soul americana, Being Me, lançado há dois anos e
mas foi o hip-hop que inicialmente o
atraiu para a música. Aos poucos,
considerado pelo próprio como “um
regresso às origens”, no qual uma Ricardo Toscano
porém, foi regressando às origens, em
bandas de funk como os Bijoumiyo e
produção clássica de jazz convive com
a força da soul e o groove do hip-hop, Lisboa
os Speedometer, nas quais ganhou calo quase como se fosse um retrato da sua
no palco e na estrada, antes de se própria carreira até agora. É este disco É uma história recorrente na
aventurar em nome próprio, em 2013, que agora apresenta em Portugal, onde história da música e do jazz
com Born In Black & White, um álbum regressa, agora em nome próprio, para em particular, o surgimento
editado a expensas próprias, sem uma minidigressão. M.J. de jovens prodígios que
parecem maiores do que a
vida por eles vivida, como é o
caso do saxofonista Ricardo
Toscano. Com apenas
24 anos, o músico – que
começou a tocar clarinete
numa banda filarmónica e
que, aos 17, foi admitido na
Escola Superior de Música
de Lisboa, em “regime
especial de sobredotado”
– não é mais uma surpresa
ou uma promessa, mas antes
uma das maiores certezas
do jazz europeu.
O público lisboeta vai poder
testemunhá-lo, na mesma
sala onde, há três anos,
atuou e esgotou duas noites
D.R.

seguidas.

Musicbox > R. Nova do Carvalho, 34, Lisboa > T. 21 347 3188 > 25 jan, qui 22h30 > €15 > Centro das 
Artes > R. Joaquim Valente de Almeida, 30, Águeda > T. 234 180 151 > 26 jan, sex 21h30 > €10 > Culturgest > R. Arco do Cego, 50,
Theatro Circo > Av. da Liberdade, 697, Braga > T. 253 203 800 > 27 jan, sáb 21h30 > €15 Lisboa > T. 21 790 5155 > 27 jan,
sáb 21h30 > €14

25 JANEIRO 2018 VISÃO 117


VER

Poetry as Art as Poetry Lisboa


Tragicomédia luso-grega Carla Bruni
Pedro Proença regressa com novas paródias filosóficas e manifestos
artísticos. Desta vez, saem de uma obra-livro para ocupar paredes inteiras Lisboa e Porto
A cantora e compositora
Num tempo em que tanto se fala de fake news, há quem se ocupe mais francesa apresenta-se ao
das “Fake Quotes” − expressão que é uma das obras murais que partem vivo em Portugal, onde vem
do livro digital Poetry as Art as Poetry onde foram compiladas falsas mostrar o último trabalho de
instalações concebidas pelo artista plástico sob o pseudónimo (ou alter originais, French Touch, um
ego) de John Rindpest. Isto é, João Peste Bovina, inusitada alusão à fatal álbum composto por versões
de clássicos do pop-rock, como
doença do gado já mencionada num papiro com três mil anos (reza a
Enjoy the Silence (Depeche
Wikipedia...). Uma peça mais a acrescentar ao elaborado jogo de referências,
Mode), Miss You (Rolling Stones),
subtextos e anedotas filosóficas que Pedro Proença baralha como ninguém, e que Crazy (Patsy Cline), Highway to
sublinha as reflexões pictóricas e historicistas que ocupam a sua prática habitual, a Hell (AC/DC) ou Perfect Day (Lou
que sempre dá uma camada extra de irreverência. Nesta exposição, produzida fora Reed). Carla Bruni estreou-se
de portas pela Galeria Bessa Pereira, o artista adapta esse livro, expandindo-o para como cantora em 2002, depois
o espaço real da galeria, ocupando e transfigurando as paredes numa arena de ter abandonado a carreira de
tipográfica − ou numa gigantesca enciclopédia, que nos faz contemplar entradas de modelo, com o álbum Quelqu’un
dicionários gregos, frontispícios ampliados, poemas dispersos, desenhos m’a Dit, que na altura vendeu
ornamentados, frases (silogismos, aforismos, fake quotes...) que rompem ou mais de dois milhões de cópias,
atravessam as molduras que as tentam conter − uma contaminação espacial já tendo já editado, desde então,
testada pelos desenhos barrocos, a preto e branco, com que Pedro Proença se mais quatro discos em nome
impôs nos anos 1980 e 1990. A matriz da Grécia não poderia ser uma ambição próprio.
mais nobre, e a ars poetica ganha, aqui, um grande gesto... Toda esta
“promiscuidade” entre arte e texto é uma prática com epígonos experimentalistas e 
intenções revolucionárias. Aliás, a velha interrogação sobre o que é ser artista − um Coliseu dos Recreios > R. Portas de
Santo Antão, 96, Lisboa > T. 21 324
anticânone que ecoa o apontamento sobre Dionísio, deus da Antiguidade, protetor 0580 > 25 jan, qui 21h30 > €30 a €70 >
dos que estão além das convenções − é um tema fértil que o artista gosta de Coliseu do Porto > R. Passos Manuel,
explorar. Aqui, fá-lo também através de um livro de mandamentos impresso numa 137, Porto > T. 22 339 4940 > 27 jan, sáb
21h30 > €40 a €50
parede de canto, em que se lê, por exemplo, que “o artista torna-se mais artista por
ter desistido de ser artista (é um Bartleby)”. S.S.C.

Steven Wilson
Lisboa
Considerado o maior mago do
rock progressivo da atualidade,
o antigo líder e fundador dos
seminais Porcupine Tree está
de volta à Sala Tejo da Altice
Arena, onde há três anos deu um
memorável concerto para a fiel
legião de fãs nacionais. Desta
vez, o músico inglês, que muitos
consideram já “um equivalente
moderno” de grupos históricos
como os Pink Floyd ou os
Genesis, vem apresentar o novo
disco To The Bone, o quinto em
nome próprio, editado no verão
do ano passado.
D.R.

 
Fundação Portuguesa das Comunicações > R. do Instituto Industrial, 16, Lisboa > T. 21 393 5177 > Altice Arena > Rossio dos Olivais,
31 jan-23 fev, seg-sex 10h-18h, sáb 14h-18h Lisboa > T. 21 891 8409 > 31 jan, qua
21h > €25

118 VISÃO 25 JANEIRO 2018


Planta Espelho Lisboa Endless Guimarães
Revisitação e homenagem,

Problemas transfronteiriços
eis os eixos desta
exposição de Pedro
Cabral Santo, artista
desalinhado cuja obra
José Pedro Cortes volta à sua observação do mundo, sejam as geografias “vagueia silenciosamente
nos interstícios do
familiares ou os lugares distantes, nesta série de fotografias recentes sistema, acompanhada
pelo imaginário pessoal
do artista”, nas palavras
do curador Ivo Martins.
Reconhecemos o uso de
materiais quotidianos, os
comentários à sociedade
de consumo, as peças
escultóricas − algumas
reencontradas nestes
trabalhos que ambicionam
refletir sobre “a finalidade
da obra e do papel do artista
perante o público recetor”.
No piso inferior, alinham-se
13 obras produzidas entre
1990 e 2017, incluindo as
suas “homenagens”, como
a instalação escultórica
Pulizia (omaggio a Piero
Manzoni) (2002), a silhueta
D.R.

minimal de O Murro
Nas entrevistas, o fotógrafo O espetro geográfico que, na de Courbet (2005) ou a
fita métrica, onde está
costuma enfatizar a produção deste artista visual, nunca é
dependurado um corpo
importância que dá ao gesto apenas um cenário, antes um território
humano em gesso, em
de compreender o mundo, com matérias e carga simbólica 250cm d'Amour a Constanti
ao não alheamento numa associadas, irradia em modo bússola (2008), peça dedicada a
prática fotográfica enlouquecida nesta série de 25 Brancusi. Também lá está
conceptual demasiado afastada da fotografias tiradas em anos recentes: o boneco Pokémon no topo
realidade. Palavras dele à Arte Capital, Dubai, Tóquio, Algarve ou o seu próprio da coluna de Icaro II (Up,
em 2014: “A minha história está estúdio em Lisboa, servem-lhe como Up in the sky) de 2014 e um
sempre em contacto com o que vejo, matéria-prima para “um ensaio sobre Pinocchio è Malato (2017).
leio ou sinto... Com os acasos e com o um mundo instável e belo em constante Há ainda uma instalação
nosso tempo. É isso que procuro, que mutação, enunciando que nunca se site specific para ver em
o meu trabalho seja baseado no tempo deve deixar de aprender a olhar de novo Guimarães: Comunidade
em que vivo.” O tempo de José Pedro para o conhecido”. Nesta obra, pairamos (2017) tributo a 37
Cortes, nascido em 1976, finalista do entre imagens capturadas em viagem artistas portugueses seus
prémio BES Photo 2014, liga-se e obras produzidas em estúdio, entre contemporâneos. Um álbum
sempre a espaços diversos: o artista acasos e construções, entre natureza geracional. S.S.C.
visual já nos fez contemplar uma e arquitetura, real versus ficção,
Telavive polarizadora, nos retratos das imobilidade face a movimento, emoção
mulheres judias nascidas nos EUA que a desafiar a razão. A silhueta-
decidiram fazer o serviço militar em -sombra chinesa à janela pode dialogar
Israel na série Things Here and Things com a mancha enigmática que altera o
Still to Come (2011); filtrou uma Costa reflexo de um espelho, que, por sua vez,
da Caparica alienígena no livro- se poderia desdobrar nos reflexos de
-projeto Costa (2013); ofereceu um uma tarde de verão. José Pedro Cortes
Japão íntimo através dos retratos testa as correspondências, os limites,
criados em Toyama e agrupados em as fronteiras do mundo − um foco de
One's Own Arena (2015). possibilidades. Sílvia Souto Cunha 
Centro Cultural Vila Flor
 > Av. Dom Afonso Henriques,
Galeria Francisco Fino > R. Capitão Leitão, 76, Lisboa > T. 21 584 2211> 27 jan-1 mar, ter-sex 12h-19h, 701, Guimarães > T. 253 424 700
sáb 15h-20h > 27 jan-21 abr,
ter-sáb 10h-13h/14h-19h

25 JANEIRO 2018 VISÃO 119


VER

Olá, Eu Sou o Pai Natal Lisboa


Há um Pai Natal que, na
verdade, é um palhaço
com vestes de Pai Natal.
Na segunda encenação
de Tiago Barbosa, Olá,
Eu Sou o Pai Natal (uma
produção da Galeria
Zé dos Bois) está toda
a tragicomédia que se
espera de um palhaço
pobre: a empatia que a
figura suscita (este Pai
Natal está sempre a
oferecer-se ao público na
qualidade de excelente
presente); os adereços
lúdicos a roçar o mágico
(muitas bolas de enfeitar
árvores de Natal de

D.R.
vários tamanhos e cores
vão rolando no palco);

Canas 44 e Margem Lisboa


as questões sociais e
existenciais que o seu
monólogo suscita – “esta
é a minha história de amor

Sobrevivências com as pessoas que nunca


vejo”; “até o presente
se escangalhar e o meu
fantasma morrer”. Há
Há dois novos espetáculos de Victor Hugo Pontes para ver esta semana inclusive apontamentos
de performance musical.
em Lisboa. Um deles, partiu do livro de Jorge Amado Capitães da Areia Como diz o próprio
encenador e intérprete à
VISÃO, “é a ideia de dádiva
Não deixa de ser curiosa a presença em palco de uma tábua de madeira de que fala o Derrida.
com mais de dois metros de comprimento. Em certo momento as duas A dádiva acontece apenas
intérpretes agarram-se a ela de diversas maneiras, como se fosse uma quando nem quem a dá
tábua de salvação. Uma personagem está de partida e a outra de nem quem a recebe a
chegada, relativamente ao que têm em comum: um lugar, Canas de reconhece como tal. O Pai
Senhorim, Viseu. A peça Canas 44 está integrada no ciclo Portugal em Natal simula a dádiva no
Vias de Extinção. “Os lugares são as pessoas. As pessoas desaparecem, os lugares sentido absoluto.” C.M.S.
deixam de existir”, diz Victor Hugo Pontes à VISÃO Se7e. “É como em À Espera de
Godot. As pessoas estão ali, a olhar para um ponto de fuga – ficam, vão –, a tentar 
perceber como se podem ajudar umas às outras.” Em palco, há um círculo enorme Negócio > Rua do Século, 9, porta
feito de pedaços de carvão, alusivo às minas de urânio da Urgeiriça. “És pó e ao pó 5, Lisboa > T. 21 343 0205 > até 28
jan. 21h30 > €7,5
hás de voltar”, diz o dramaturgo e coreógrafo, que recorda como uma semana após
a estreia da peça em Canas de Senhorim (a 5 de outubro), chovia cinza
constantemente, devido aos incêndios recentes, e as pessoas andavam de máscara
na rua tal como tinham usado durante a peça.
Margem, a partir do livro de Jorge Amado Capitães da Areia, assenta também
numa tábua de salvação: a família. Pontes trabalhou a partir de testemunhos que
recolheu de crianças da Casa Pia (Lisboa) e d'O Terço (Porto). “Tentei construir o
espetáculo em três camadas: o livro, as histórias das crianças institucionalizadas
e o cruzamento com as histórias dos intérpretes”, diz-nos. “Interessava-me
saber quem seriam os 'capitães da areia' de hoje.” É, assumidamente, um trabalho
muito político. A certa altura, diz um dos intérpretes: no Brasil não chamam
Descobrimentos aos Descobrimentos, chamam Genocídio. Cláudia Marques Santos


Canas 44 > Teatro Nacional D. Maria II > Pç. D. Pedro IV, Lisboa > T. 21 325 0800 > 25-28 jan, qui-sáb
21h30, dom 16h30 > €12 > Margem > Centro Cultural de Belém > Pç. do Império, Lisboa > T. 21 361
2400 > 27 jan, 21h, 28 jan 16h, 30 jan-1 fev, 11h > €6

120 VISÃO 25 JANEIRO 2018


Indie Júnior Porto
Sem princesas nem heróis A minha mãe
O festival de cinema infanto-juvenil regressa, sem ideias preconcebidas,
com mais uma maratona de filmes de todo o mundo
peluda a uivar flashes
Porto
Entre a vida num campo de mais jovens. Criado de raiz para o Um poema escrito para
refugiados na ilha grega de Porto, este festival é, para Nuno Sena, dança, nascido “da prisão
Lesbos (Realidade Oculta), um dos diretores, feito de encontros, do corpo e da alma colada à
carne”. As paredes da sala
o nascer num corpo errado um território privilegiado de
de espetáculos deverão ser
(A Sra. McCutcheon), a descobertas. Entre curtas e longas-
vistas como o interior da
relação única entre avós e -metragens, de ficção, documentário e cabeça do artista, como se
netos (Pegadas do Passado), o animação, há mais de 50 filmes, quase o público ali estivesse preso
fenómeno do buraco negro (Não todos em estreia nacional. “É a melhor juntamente com ele, com
Percas Nada) ou a reflexão musical montra do cinema mundial realizado quatro projetores a simular as
(O Impacto da Música na Juventude). no último ano e meio”, realça Nuno imagens mentais incessantes
Há um mundo de filmes onde cabem Sena. Pela primeira vez, a comunidade (uma combinação de fotografia
todas as ideias e sonhos, para ver em escolar, envolvendo três grupos de e vídeo), que se atropelam
família no IndieJúnior, a decorrer a alunos de diferentes ciclos, assume a umas às outras, dando forma
partir da próxima terça, 30. À segunda organização da iniciativa Eu Programo ao “incansável de estar vivo”.
edição, o festival de cinema infanto- um Festival de Cinema!. Por fim, na A estreia de José Diogo
-juvenil mantém a matriz de sessão O Meu Primeiro Filme, Ana Nogueira (autor do livro de
independência, apresentando-se como Deus, Carlos Tê e Rui Reininho poemas O Gato Epiléptico,
alternativa ao circuito habitual. Nas partilham com o público o filme que publicado em 2017 pela
histórias que levam os miúdos, pais e marcou a sua infância (respetivamente, editora Língua Morta) no
avós a sentarem-se no Teatro Rivoli, Alice no País das Maravilhas, Os campo performativo, está
no Cinema Trindade e na Biblioteca Gloriosos Malucos das Máquinas vedada a menores de 18 anos
Almeida Garrett, não há princesas Voadoras e Viagem ao Centro da e é uma coprodução com a
nem super-heróis. “O Indie é espaço Terra). Em paralelo, acontecem Companhia Instável. Conta
com interpretação do próprio
de pensamento e de reflexão sobre o oficinas práticas, conversas, uma
jovem artista, natural do
cinema e o mundo”, que fomenta a exposição e até uma matiné dançante
Porto, e de Aurora Pinho, além
curiosidade “artística e cultural” dos para fazer o gosto ao pé. S.S.O de música original ao vivo de
Vasco Oliveira e fotografias de
Margarida Andresen.


Teatro Municipal Campo
Alegre > R. das Estrelas,
Porto > T. 22 606 3000
> 27 jan, sáb 21h30 > €5
D.R.


Teatro Rivoli > Pç. D. João I, Porto > T. 22 339 2201 > 30 jan-5 fev, ter-dom> €3,50 a €4 > Biblioteca
Municipal Almeida Garrett > R. D. Manuel II, Jardins do Palácio de Cristal, Porto > T. 22 339 2201 >
Cinema Trindade > R. do Almada, 412, Porto > T. 22 316 2425

25 JANEIRO 2018 VISÃO 121


VER

The Post
Os jornais são o rascunho da História
Numa altura em que a imprensa está debaixo de fogo, com os ataques de Donald Trump,
Spielberg recupera o caso dos Papéis do Pentágono. E faz política com factos históricos

Cinema de urgência à escala de derrubar um Presidente que odiava a imprensa −


Hollywood. Perante a proliferação de tal como Donald Trump odeia. O povo ficou do
fake news e o inenarrável ataque aos lado da verdade. E os jornais, gloriosamente, como
media de Donald Trump, Steven se diz no filme, foram o primeiro rascunho da
Spielberg sentiu a necessidade de História.
reafirmar a importância da liberdade de Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
imprensa como garante da democracia e o papel mas a História dá-nos sempre lições. E é óbvio que
dos meios de comunicação no escrutínio e este é um filme político, de intervenção, que se serve
vigilância das ações do Estado. Para isso serviu-se do passado para nos alertar sobre o presente. Esse é
da História, recordando um dos mais gloriosos o principal e verdadeiro mérito de The Post, mais do
episódios da imprensa mundial: a crise dos papéis que dar um contributo decisivo para a História da
do Pentágono que precipitou o final da guerra do Sétima Arte. Contudo, nem por isso é um filme de
Vietname e precedeu o caso Watergate. Na altura, o produção descuidada. É feito um minucioso retrato
Washington Post e o New York Times tiveram de época, que nos leva a redações de outrora, com
acesso a documentos confidenciais do Estados uma dose de fumo e adrenalina que entretanto se
Americano que revelavam que sucessivos diluiu. Está cheio de traços de Spielberg, incluindo
presidentes sabiam que a guerra estava perdida e uma certa tendência explicativa e de cinema
que, mesmo assim, insistiram no envio de espetáculo. Cinematograficamente não entra nas
soldados para a frente de combate. Esta denúncia obras maiores do realizador mas não deixa de ter
acabou por ser legitimada legalmente pelo Tribunal elementos importantes. A começar por uma dupla
Supremo que permitiu que o Post continuasse a de atores magnífica: um Tom Hanks difícil de
publicar esses documentos. Foi o princípio da reconhecer nas primeiras cenas (que trabalhou as
queda de Richard Nixon, o único Presidente expressões e a voz de forma surpreendente) e Meryl
americano a renunciar ao cargo (fê-lo em 1974 Streep, constantemente a reinventar-se, com uma
após o caso Watergate, para evitar a destituição, atuação cheia de brilhantes subtilezas.
que seria mais humilhante). A imprensa fez Manuel Halpern

The Post
faz justiça
histórica ao
recuperar a
personagem
de Kathari-
ne Graham
(Meryl
Streep), a
corajosa
proprietária
do Washing-
ton Post que
tinha ficado
esquecida no
clássico Os
Homens do
Presidente
(1976), tam-
bém centrado
numa investi-
D.R.

gação do seu
 jornal (o caso
De Steven Spielberg, com Meryl Steep, Tom Hanks, Bob Odenkirk, Carrie Coon > 116 minutos Watergate).

122 VISÃO 25 JANEIRO 2018


LIVROS E DISCOS

Goethe, O Eterno Amador João Barrento


Glória, alegria e nuvens
Biografia literária, panorâmica sobre vida, obra e máximas
do grande autor alemão. Uma monografia para ter à cabeceira

O Caso de Nero Wolfe


Robert Goldsborough
É uma missão
espinhosa para um
autor, ressuscitar
personagens icónicos
de um consagrado
desaparecido. Até
morrer em 1975,
Rex Stout escreveu
mais de 70 aventuras
sobre Nero Wolfe,
o sagaz detetive
obeso (e criador de
D.R.

orquídeas) que deixa


o trabalho de rua
O alemão Johann Wolfgang Goethe (1749-1832) é um dos ao desembaraçado
autores-farol da civilização europeia. Se a enunciação, a Archie Goodwin.
propósito do autor, de clássicos como Os Sofrimentos do Quando a mãe de
Jovem Werther (1774) ou As Afinidades Eletivas (1809) − que Robert Goldsborough
deixou marca no romantismo europeu com obra feita em se lamentou de que
romances, peças de teatro, reflexões sobre literatura e ciência, não iria ler mais
escritos autobiográficos e diários (leia-se Viagem a Itália, resultante das estas histórias, o
suas andanças italianas pelo país dos “limoeiros em flor”, entre 1786 e filho escreveu-lhe um
1788, que marcariam uma rutura de pensamento) − parece universal e mistério inspirado
incontestável, também é certo, diz-nos João Barrento, que “qualquer no trabalho de Sout
Goethe - O aproximação a Goethe tem de ser criticamente cautelosa e relativista”. E intitulado Murder in
Eterno Amador aqui o autor, tradutor, crítico literário e ensaísta (Grande Prémio de E minor – seria o
(Bertrand, Ensaio Eduardo Prado Coelho 2012), socorre-se de uma citação de Erich início de sete livros
320 págs., Heller, que, num ensaio de 1952, argumenta que é “porque o homem é à la Stout escritos
€17,70) inclui uma figura gigantesca... mas também porque muita coisa na eterna entre 1986 e 1994.
também uma discussão em torno de Goethe, tão erradamente orientada e tão Após dez anos
detalhada ficha apaixonada, saturou de tal modo a atmosfera à sua volta de cargas dedicados aos seus
sobre Goethe elétricas que é fácil produzirem-se curto-circuitos”. João Barrento próprios enredos
em Portugal, policiais, este autor
biografa o grande Goethe, refletindo sobre a preocupação deste com a
traduções regressou aos Bucha
posteridade e a sua propensão para uma “camaleónica pluralidade”, e
e presença e Estica do policial:
desirmanando-o da aura teutónica: “Poderia facilmente mostrar-se imaginou o primeiro
na literatura
portuguesa,
como ele é mais europeu e cosmopolita do que alemão, mais pagão e encontro (difícil,
compreendidas criptocatólico do que protestante, mais aristocrata ou anarquista do que avise-se) entre Nero,
entre 1799 e burguês, mais titânico e prometaico do que equilibrado. Na espantosa já um excêntrico, e
2017 diversidade de uma Obra como esta, não é difícil, aliás, provar uma coisa Archie, rapaz ingénuo
e o seu contrário, revelar uma face e o seu reverso.” É esta “granítica do Ohio a chegar em
imponência” que aprecia, recorda e contextualiza com estilete fino, plena Depressão a
providenciando ainda uma extensa cronologia de vida e obra, e não Nova Iorque, em
esquecendo facetas menores como as máximas ou o seu estudo das O Caso de Nero Wolfe
nuvens e meteorologia. Sílvia Souto Cunha (Asa, 272 págs.,
€13,50). S.S.C.

25 JANEIRO 2018 VISÃO 123


L IVROS E DI S C OS

Penderecki Dvořák
Sinfonia Varsovia
Durante décadas, Krzysztof
Penderecki foi um dos

© DARIO ACOSTA/DG
nomes de referência
na música erudita de
vanguarda; autor, entre
outras obras, de uma Paixão
Segundo Lucas que aliava
profunda religiosidade a

Chopin Evocations Daniil Trifonov uma linguagem musical


avançada. Nos anos 70,
começou a mudar de

Mais de perto
caminho. Mais tarde, sugeriu
que o trabalho que dava
escrever daquela maneira já
não era compensado pelos
resultados. Gradualmente,
Elogiado pela “qualidade extática” e “imaginação regressou a uma linguagem
poderosa” das suas interpretações (Martha Argerich pós-romântica, associada a
compositores como Mahler e
‘‘dixit’’), o pianista russo esteve há dias em Lisboa Strauss. A sinfonia Véspera
de Natal, aqui interpretada
sob a direção do próprio
Daniil Trifonov veio à Gulbenkian tocar o compositor, foi o passo que
Concerto para Piano de Schumann, uma obra marcou definitivamente
extremamente popular onde não será fácil ter essa nova direção. Apesar
coisas novas a acrescentar. O estilo dele do seu título (e do facto de
impressiona, desde logo, por razões físicas. ter sido mesmo concebida,
Trifonov mexe intensamente não só as mãos como aparentemente, numa
o resto do corpo: salta no banco, agita a cabeça, curva-se véspera de natal), é uma
muito sobre o teclado. O que sai de lá, evidentemente, é o obra sombria e dramática,
que interessa, e fica a ideia de estarmos perante um pianista Entre 2010 e talvez refletindo a fase em
russo digno de se juntar aos melhores. Técnica fenomenal, 2011, Daniil que a Polónia se encontrava
musicalidade e riqueza de som alimentam um estilo Trifonov (n.1991) no princípio dos anos 80.
altamente individual, com opções que escapam ao óbvio sem venceu três O CD inclui ainda a sinfonia
serem excêntricas. Por exemplo, quando Trifonov modera competições nº 7 de Dvořák, considerada
algo inesperadamente os tempos no meio de um andamento, de piano por muitos como a sua
acelerando apenas na parte final. Se quiséssemos resumir o internacionais melhor. L.M.F.
efeito geral que ele nos causa, diríamos que é a sensação de de topo. O seu
vermos as peças mais de perto. mais recente
disco é Chopin
Recentemente voltaram a ser distribuidos, no pack Trifonov
Evocations,
Live, dois CD gravados ao vivo em 2010 e 2013. Um deles é
com a marca
o recital no Carnegie Hall, onde Trifonov toca os Prelúdios da Deutsche
de Chopin e a Sonata em Si de Liszt, duas obras que exigem, Grammophon
além da técnica, um grande sentido poético. Em setembro
passado chegou Chopin Evocations, álbum duplo dedicado
ao compositor polaco, onde uma extraordinária versão das
variações sobre Là Ci Darem la Mano é acompanhada pelos
dois concertos para piano (em orquestrações discutíveis de
Mikhail Pletnev), por outras peças de Chopin e por peças
de outros compositores em torno dele. Destaque para as
raramente ouvidas Variações sobre um Tema de Chopin, do
catalão Frederic Mompou. Luís M. Faria

124 VISÃO 25 JANEIRO 2018


TV

O Assassinato de Gianni Versace: American Crime Story Fox Life


Holofotes até na hora da morte
Depois do caso O.J. Simpson, Ryan Murphy explora a vida e a morte do designer italiano.
Penélope Cruz veste a pele de Donatella Versace, numa ficção com muita realidade

D.R.
“Donatella Ter o apelido Versace no título pode Barcelona, de Woody Allen), a madrilena será a
ficou feliz que ser meio caminho andado para o êxito, musa e a mente por detrás de alguns desfiles e
fosse eu [a mas também para a polémica. campanhas da marca. Será com o papel de uma
interpretar o A família do criador de moda Gianni mulher poderosa, que teve de assumir o cargo
papel da própria Versace já fez questão de vir a público de diretora criativa da Versace, que Penélope
Donatella], dizer que “não autorizou, nem teve Cruz faz a sua estreia numa série televisiva.
porque acho que qualquer envolvimento na série”, assim como já Houve dúvidas sobre as parecenças físicas, mas
sabe o que sinto não tinha autorizado o livro que serve de base a nada que a maquilhagem e o guarda-roupa não
por ela e por esta ficção, Vulgar Favors: Andrew Cunanan, resolvam. “Donatella ficou feliz que fosse eu,
Gianni”, afirma a
Gianni Versace, and the Largest Failed Manhunt porque acho que sabe o que sinto por ela e por
atriz espanhola
in U.S. History, de Maureen Orth, publicado há Gianni. Para mim, é importante que, quando
Penélope Cruz
18 anos. Já o companheiro de Versace, Antonio Donatella vir a série, sinta o amor e o respeito
D’Amico (estiveram juntos durante 15 anos), não que pus no meu trabalho e o que sinto por ela”,
gostou da forma como o cantor Ricky Martin revelou a atriz no programa de Ellen DeGeneres.
interpretou a sua personagem. “A imagem dele a Seguramente, a terceira temporada de
segurar o corpo nos braços é ridícula”, considera American Crime Story terá sotaque italiano.
D’Amico, que diz não ter sido consultado pela Nunca foram descobertas as motivações de
equipa criativa. Andrew Cunanan, na altura com 27 anos, para ter
Quem recebeu elogios da irmã do célebre assassinado o Versace à porta da sua mansão em
designer de moda, Donatella Versace, foi a South Beach, em Miami, a 15 de julho de 1997.
protagonista, a atriz espanhola Penélope Cruz. E, com o suicídio de Cunanan, oito dias após o
Aos 43 anos, e já com um Oscar de Melhor Atriz crime, muitas perguntas ficaram por responder.
Secundária no curriculum (em Vicky Cristina Sónia Calheiros


Estreia 25 jan, qui 23h10

25 JANEIRO 2018 VISÃO 125


E SCA PA R

D.R.
White Lisboa
Quase no céu
A luz da cidade serve de guia neste hotel na zona do Saldanha. No inverno, são os quartos
a conquistar os hóspedes; no verão, é a piscina que, no último andar, refresca os dias

Os 45 quartos Bastam 13 passos para percorrermos a O mesmo se passa nas quatro suítes, localizadas
do White estreita fachada do White, junto ao no nono andar: duas Sky e duas High, todas
ganham mais Saldanha. E só isso já é motivo de duplex e, no caso das Sky, equipadas com
profundidade curiosidade – ou não estivéssemos nós kitchenette. Entre as quatro, há duas viradas
com o mobiliário numa zona da cidade com prédios de para a Avenida da República, com varandas para
branco e fachadas largas e alguns edifícios observar o vai e vem da cidade. Mais acima no
os jogos de modernos. O hotel faz jus ao nome: a cor branca último andar, a vista é ainda mais abrangente.
espelhos das está sempre presente, quer nas zonas comuns No terraço Sky White, existe uma piscina com 13
paredes quer nos quartos, e a tão afamada luz de Lisboa metros de comprimento (os mesmos da fachada)
entra pelas janelas deste hotel de três estrelas. e, daqui, os olhos alcançam Monsanto e o rio
A decoração, da responsabilidade de Rui Tejo, numa visão de quase 360 graus. “Somos um
Cristóvão, tem várias referências ao mar, em hotel três estrelas a competir com os de quatro
pequenos objetos, nas imagens de algumas aqui da zona”, diz Alexandra Monteiro, assistente
cabeceiras das camas ou na água que se vê e ouve da direção.
correr no teto e numa das paredes da receção. A tecnologia não foi esquecida e, por isso,
Pequenos apontamentos de cor, quadros e outras no White, já não se põem papéis na porta a pedir
peças como búzios ou conchas contrastam na para não incomodar/limpar o quarto. Tudo isso
brancura das paredes e mobiliário. Ao todo, são é feito através de um equipamento dentro do
41 quartos, nenhum é interior e quase todos têm quarto e ativado por toque. Do lado de fora,
configurações diferentes. Sempre presentes, as no mesmo aparelho onde se passa a chave, fica
janelas deixam entrar a luz e ver as vistas, por visível o pedido. Outra coisa que, no White,
exemplo, para a Avenida da República e Saldanha. também já não se faz é bater à porta dos quartos
Também existem muitos espelhos sendo que e, como tal, existe uma campainha para anunciar
alguns escondem o sistema de smart tv. as visitas. Dlim-dlão. Susana Lopes Faustino


Av. da República, 9, Lisboa > T. 21 006 0700 > a partir de €90

126 VISÃO 25 JANEIRO 2018


JO GO S

Palavras cruzadas O S T E R M O S - C H AV E D A AT U A L I D A D E

>> HORIZONTAIS >> 1. O que esperar de pensões, abonos e subsídios em


2018 – várias (…) sociais aumentam no próximo ano, entre as quais as pensões, o
subsídio de desemprego e o abono, mas a idade da reforma volta a subir e o fator de
sustentabilidade mantém-se para a maioria das pensões antecipadas. // 2. Lantânio
(s.q.). Grande porção. Latitude (abrev.). // 3. A si mesmo. Ave noturna do Amazonas.
// 4. Saco de viagem. Muito gordo. // 5. Recinto circular onde se correm touros.
Centímetro (abrev.). // 6. A história por detrás da “melhor” fotografia dos novos
“quatro fabulosos” britânicos – aquela que parece ser unanimemente considerada na
Internet como a “melhoe fotografia” dos príncipes Harry e William com as respetivas
companheiras tem dado muito que falar, sobretudo porque não é obra de nenhum
(…) profissional. // 7. Alguma. A minha pessoa. Antes de Cristo (abrev.). // 8. Espaço
de dois diâmetros entre colunas. Forma apocopada de muito. // 9. Haver de distância,
de diferença. Sétima letra do alfabeto grego correspondente ao e longo dos latinos.
Salta. // 10. Javanês. Nome dos sais ânfidos ou sais derivados dos ácidos oxácidos.
// 11. Nascimento. Detestar. >> VERTICAIS >> 1. Plural (abrev.). “É ridícula esta
coisa geral tão portuguesa de as pessoas se descolarem do que consideram ser a
ralé, e porem-se num pedestal” – quem o diz é João (…), um cientista de 50 anos que
trabalha no Imperial College em Londres. // 2. Nivelar. Guarnecer de muros. // 3. Nome
científico do elefante. Antigo nome da nota musical dó. // 4. Senhor (abrev.). Espaço de
12 meses. A ti. // 5. Corda de reboque. Fricção entre dois corpos duros e ásperos. // 6.
Lama. Bambo. // 7. Designa intensidade, separação, oposição (pref.). Exprime a ideia de
terra (pref.). Nome com que se designa o aspeto inconsciente da personalidade. // 8.
Muito cru. Letra grega correspondente ao nosso grupo ps. // 9. Cada uma das placas
córneas que servem de dentes às baleias. Divindade que se supunha ser inspiradora
da poesia. // 10. Batráquio anuro semelhante à rã. Faiscar. // 11. Basta. Alterações
à Lei Laboral: o que vai estar em discussão em 2018 – pôr fim à caducidade da
contratação coletiva, limitar a rotatividade dos contratos a termo, acabar com falsos
recibos verdes, repor a lei dos despedimentos e o valor das indemnizações serão
temas lançados para a mesa da concertação (…) logo a 9 de janeiro.

>> Q U I Z >> 1. C. // 2. B // 3. C // 4. C // 5. B // 6. A // 7. A // 8. B // 9. C // 10. A


SOLUÇÕES

Ut. // 4. Sr, Ano, Te. // 5. Toa, Atrito. // 6. Arro, Laxo. // 7. Ab, Geo, Id. // 8. Recru, Psi. // 9. Elasma, Musa. // 10. Sapo, Faular. // 11. Tá, Social.
// 8. Eustilo, Mui. // 9. Ir, Eta, Pula. // 10. Jau, Oxissal. // 11. Orto, Odiar. >> VERTICAIS >> 1. Pl, Magueijo. // 2. Rasar, Murar. // 3. Elefas,
>> HORIZONTAIS >> 1. Prestações. // 2. La, Ror, Lat. // 3. Se, Ararapá. // 4. Mala, Obeso. // 5. Arena, Cm. // 6. Fotógrafo. // 7. Uma, Eu, AC.

Sudoku MÉDIO Quiz


POR PEDRO DIAS DE ALMEIDA

1. Em que ano saiu o primeiro disco 6. Quem é o autor de História de uma


(o single Come On) dos Rolling Gaivota e do Gato que a Ensinou a
Stones? Voar?
A. 1959 A. Luís Sepúlveda
B. 1961 B. Jorge Amado
C. 1963 C. Mario Benedetti
2. Onde fica o Museu do Amanhã? 7. Onde fica o célebre Café Florian,
A. Brasília inaugurado em 1720?
B. Rio de Janeiro A. Veneza
C. São Paulo B. Paris
C. Viena
3. Considerado por muitos o melhor
xadrezista de sempre, qual era a 8. “Butelo com casulas” é uma
nacionalidade de Capablanca? iguaria típica de que região?
A. Argentino A. Minho
B. Uruguaio B. Trás-os-Montes
C. Cubano C. Alentejo
4. Onde vão tocar os U2 no dia 16 de 9. O filme Três Cartazes à Beira da
setembro? Estrada passa-se em que estado dos
A. Estádio do Dragão EUA?
B. Estádio Cidade de Coimbra A. Utah
C. Altice Arena B. Iowa
C. Missouri
5. Que poeta escreveu: “Se eu
quisesse enlouquecia. Sei uma 10. Brian Warner é mais conhecido
quantidade de histórias terríveis”? pelo nome artístico...
A. Mário Cesariny A. Marilyn Manson
DÊ-NOS NOTÍCIAS > T.21 469 8101 > T. 22 043 7025 B. Herberto Helder B. Alice Cooper
> VISAOSE7E@VISAO.PT C. António Franco Alexandre C. 50 Cent

25 JANEIRO 2018 VISÃO 127


O gosto dos outros

Rui
Massena Estúdio de Música
Rui Massena Porto
Passeio marítimo O compositor, maestro “Criei a escola para partilhar as

Vila Nova de Gaia e intérprete partilha


aqui os seus lugares
minhas experiências”, conta o
compositor que, embora não dê aulas,
colabora nas atividades do Estúdio
Vai muito ao Parque da Cidade do
Porto, mas é no passeio marítimo de de eleição. Esta sexta, de Música que fundou. “É preciso ter
mundo, subir ao palco, aprender e
Vila Nova de Gaia que diz viajar “em 26, estreia, no Theatro depois a passar aos outros.”
cima da areia com o mar agressivo e
a brisa fresca e um pouco agreste”.
Circo, em Braga, um
“Não é pela praia, até porque gosto novo projeto
da marginal sobretudo fora do
verão”. S U S A N A S I LVA O L I V E I R A
scoliveira@visao.pt

A ilha da Madeira,onde
esteve 12 anos como maestro
titular e diretor artístico da
Orquestra Clássica, marca o início
da sua carreira. “É um Portugal
Praça de Santiago Guimarães muito diferente, generoso”

“A cidade de Guimarães são as


pessoas, o povo tem memória e
continua a construir memória”, diz. Na
Praça de Santiago, Rui Massena tocou
ao vivo Bolero, de Ravel, com a extinta
Fundação Orquestra Estúdio.

No Estádio
do Dragão, Berliner Philharmoniker Berlim
no Porto, “É a sala que trouxe uma mudança
partilha com os simbólica à orquestra, que passou a
dois filhos as tocar no centro. E é também aquela
memórias de ir à onde fui mais vezes ouvir ensaios
bola com o pai. “Sou sócio desde de grandes nomes.” Entre eles, os
que nasci, tal como os meus maestros Karajan e Claudio Abbado.
filhos. É uma ligação afetiva que Todos os anos, Rui Massena regressa
vai muito além do futebol” a Berlim.

128 VISÃO 25 JANEIRO 2018


PERCEBER O MUNDO
PELO OLHAR DOS OUTROS

Descubra as vantagens de ser assinante


Ligue 21 469 88 01 (dias úteis - 9h às 19h)
BOCA DO INFERNO

Nem 30 nem 300


POR RICARDO ARAÚJO PEREIRA

A
ssim que o Governo anunciou a intenção fícios. A esta velocidade é perfeitamente possível ir
de reduzir para 30 quilómetros por hora adiantando o jantar, no caminho para casa. Ou ler
o limite de velocidade nas localidades, um livro. Obtém-se uma nova tranquilidade, muito
várias pessoas reclamaram: “Só?! É mui- rara na vida urbana. Uma vez experimentei meter a
to pouco!” E vários habitantes de Lisboa terceira mas o carro não aguentou. Faz-se o cami-
e Porto disseram: “Tanto?! Quem me nho todo em segunda e não é preciso estar a mexer
dera. Quando circulo em hora de ponta na caixa de velocidades. Dois funcionários da EMEL
raramente passo dos cinco à hora.” Pare- tentaram multar-me porque não perceberam se eu
ce ser uma daquelas ideias que indis- estava estacionado ou a andar. Fui ultrapassado por
põe toda a gente. Os automobilistas das praticantes de running (que é, aliás, o antigo jogging.
grandes cidades já estavam condenados a engonhar Trata-se de correr, na verdade, mas em estrangeiro).
por causa dos engarrafamentos, e agora passam a ter Depois de uma luta renhida, ultrapassei um senhor
de engonhar também por causa da lei. Pessoas que que ia de burro. Pessoas que iam a pé no passeio
moram em Benfica e trabalham no Parque das Na- pensaram que eu estava a segui-las sinistramente e
ções melhoram a sua qualidade de vida se se muda- atiraram-me frutas ao pára-brisas. Foi uma expe-
rem para a Nazaré. É mais rápido vir da Nazaré para riência repleta de novas sensações.
Lisboa, a 120 km/h, do que atravessar a cidade, a 30. A medida parece integrar-se num pacote abran-
Como sempre faço antes de me pronunciar sobre gente que pretende criar um novo tipo de português
qualquer tema, levei a cabo um profundo estudo que não fuma (porque já quase não existem espaços
sobre esta medida e, durante a semana, experimentei em que o possa fazer), não bebe refrigerantes (uma
andar por Lisboa a 30 km/h. O balanço foi extre- vez que os impostos sobre as bebidas açucaradas
mamente positivo para a minha segurança e a de dispararam), não come rissóis nem sandes de pre-
todas as pessoas com as quais me cruzei, e extre- sunto nas cantinas hospitalares (após a proibição da
mamente negativo para a reputação da minha mãe, secretaria de Estado da Saúde) e conduz a 30 à hora
sobre cuja suposta actividade profissional isenta de (na sequência desta ideia do ministro da Administra-
impostos ouvi muitos comentários. Tirando ter de ção Interna). Em princípio, nunca mais um português
suportar a azeda animosidade dos seus concidadãos, morrerá. A não ser de tédio. Mas, ao que tudo indica,
o automobilista que circula a 30 só recolhe bene- o tédio também será proibido muito em breve.

Assim que o Governo


anunciou a intenção
de reduzir para
30 quilómetros por hora
o limite de velocidade
nas localidades, várias
pessoas reclamaram: “Só?!
É muito pouco!” E vários
habitantes de Lisboa e
Porto disseram: “Tanto?!
ILUSTRAÇÃO: JOÃO FAZENDA

Quem me dera. Quando


circulo em hora de ponta
raramente passo dos cinco
à hora”

130 VISÃO 25 JANEIRO 2018


BEM-VINDO AO FUTURO

Descubra as vantagens de ser assinante


Ligue 21 469 88 01 (dias úteis - 9h às 19h)