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Produção do conteúdo: 1º sem./2012
Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

Sumário da Disciplina

Apresentação 135
O Professor 137
Introdução 139

1 Unidade I
As Origens do Pensamento Sociológico 141
Ʌ26XUJLPHQWRGD6RFLRORJLD 142
Ʌ6RFLRORJLDHD5HYROX©¥RΖQGXVWULDO 144
Ʌ$XWRUHV&O£VVLFRVGD6RFLRORJLD 145
Ʌ2)DWR6RFLDO 147
Ʌ2TXH«)DWR6RFLDO 148
Ʌ&DUDFWHU¯VWLFDVGR)DWR6RFLDO 148
Ʌ2V)DWRV6RFLDLVHPRXWUDV£UHDVGDV&L¬QFLDV6RFLDLV 149
Ʌ&RQVLGHUD©·HVGD8QLGDGHΖ 151

2 Unidade II
Grupos e Relações Sociais 153
Ʌ$JUXSDPHQWRH5HOD©·HV6RFLDLV 154
Ʌ&RQWDWRV6RFLDLV 155
Ʌ5HOD©¥RHΖQWHUD©¥R6RFLDO 156
Ʌ$JUHJDGRVH*UXSRV6RFLDLV 158
Ʌ$JUHJDGRV6RFLDLV 158
Ʌ*UXSRV6RFLDLV 159
Ʌ5HȵH[¥RVREUHRV&RQWDWRVH5HOD©·HV6RFLDLV$WXDLV 162
Ʌ&RQVLGHUD©·HVGD8QLGDGHΖΖ 163

3 Unidade III
Cultura e Sociologia 165
Ʌ&XOWXUDH6RFLHGDGH 166
Ʌ3DWULP¶QLR&XOWXUDO 167
Ʌ(OHPHQWRVGD&XOWXUD 168
Ʌ7HPSRH&XOWXUD 169
Ʌ6RFLHGDGHHVXDVΖQVWLWXL©·HV 171
Ʌ&RQFHLWR 171
Ʌ3ULQFLSDLVΖQVWLWXL©·HV6RFLDLV 171
Ʌ6WDWXV6RFLDOH(VWUDWLȴFD©¥R6RFLDO 173
Ʌ6WDWXVH3DS«LV6RFLDLV 176
Ʌ&RQVLGHUD©·HVGD8QLGDGHΖΖΖ 178

4 Unidade IV
$6RFLRORJLDQR%UDVLO3ULQFLSDLV7HµULFRVHPRGHORV([SOLFDWLYRV 179
Ʌ)RUPD©¥R+LVWµULFDGR%UDVLO 180
Ʌ(VWUXWXUD6RFLDOGR%UDVLO 181
Ʌ'R%UDVLO$JU£ULRDR%UDVLO8UEDQRΖQGXVWULDO 183
Ʌ2%UDVLOGRV$QRV 185

133
Sumário

Ʌ&RQVWLWXLQWHGHHR%UDVLO5HFHQWH 186
Ʌ6RFLRORJLDQR%UDVLO 187
Ʌ$OJXQV6RFLµORJRV%UDVLOHLURV 188
Ʌ&RQVLGHUD©·HVGD8QLGDGHΖ9 188
Referências 191
Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

Apresentação

Este livro didático divide-se em quatro unidades a saber:

8QLGDGHΖȂ$VRULJHQVGRSHQVDPHQWRVRFLROµJLFR

8QLGDGHΖΖȂ*UXSRVVRFLDLVHLQWHUD©¥RVRFLDO

8QLGDGHΖΖΖȂ&XOWXUDHVRFLRORJLD

8QLGDGHΖ9Ȃ$VRFLRORJLDQR%UDVLOSULQFLSDLVWHµULFRVHPRGHORVH[SOLFDWLYRV

As unidades são interligadas e complementares. Você perceberá que, ao longo


das unidades II, III e IV, citaremos autores cujas ideias estarão expostas na Unidade
I. Portanto, recomenda-se que se leia o livro pela ordem em que os temas foram
apresentados.

Os conceitos serão apresentados desde as suas origens, possibilitando, depois,


a aplicação destes, o que constitui um dos principais objetivos desta disciplina.

Na plataforma, para complementação da aprendizagem, há outros materiais


e as atividades que deverão ser realizadas. Algumas questões abordadas, tanto no
livro didático, quanto nas aulas apresentadas, serão complementadas por links que
poderão ajudar a compreender melhor os temas propostos.

As videoaulas que você terá acesso pela plataforma mostrarão, de forma sucin-
ta, as teorias e os autores apresentados neste livro didático de SOCIOLOGIA.

Esperamos que este material, assim como todos os outros recursos, contribua
para o seu aprendizado dos principais conceitos e teorias da SOCIOLOGIA e que esta
enriqueça seus conhecimentos em geral.

Lembre-se de anotar suas dúvidas pertinentes às unidades e as envie para


nós. Lembre-se também de acessar a plataforma de estudos e realizar as atividades
propostas dentro do prazo.

Abraços,

Prof. Armando de M. S. Constante

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Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

O Professor

Prof. Armando de Melo Servo Constante

Possui mestrado em História Social pela Pontifícia


Universidade Católica de São Paulo (2006). Atualmen-
te é professor da Universidade Braz Cubas em cursos
presenciais e a Distância em tempo integral, atuando
também como pesquisador e tendo atuado na pro-
dução de material didático para a instituição. Tem ex-
periência em pesquisa em História social, com ênfase
nos temas: Mogi das Cruzes, século XIX, escravidão.
Atualmente se dedica à pesquisa em Patrimônio e
Educação Patrimonial e Arquivística.

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Braz Cubas3

Introdução

A Sociologia pode ser entendida como a ciência da sociedade. E, de fato, a


sociologia se preocupa em estudar as diferentes sociedades existentes. No entanto,
como você vai poder notar, isso pode ser muito complexo, pois as sociedades se
constituem de formas bastante distintas e, em teoria, a sociologia deve dar conta de
sistematizar e explicar os sistemas políticos, os grupos sociais, as festas, religiões,
VLVWHPDVOHJDLVHQȴPWRGRRFRPSOH[RTXHFRQVWLWXLXPDVRFLHGDGH

Por isso, é preciso compreender como nasceu e quais foram as primeiras ques-
W·HVTXHPRWLYDUDPRVSULPHLURVVRFLµORJRVDUHȵHWLUGHPDQHLUDPDLVVLVWHP£WLFD
sobre a sociedade. Compreender como a sociologia surgiu permitirá entender o que
pretendiam os primeiros sociólogos e a sociologia enquanto disciplina preocupada
em compreender e explicar os fenômenos sociais.

Se pensarmos na sociedade brasileira, por exemplo, quais conceitos empre-


garíamos para explicá-la? Falar da sociedade seria apenas falar das divisões entre
RV JUXSRV VRFLDLV FRPR DV FODVVHV SRU H[HPSOR" 6H UHȵHWLUPRV XP SRXFR VREUH
HVVDV TXHVW·HV SHUFHEHUHPRV TXH R FRQFHLWR GH FODVVH Q¥R VHULD VXȴFLHQWH SDUD
compreender o Brasil. Embora seja um conceito necessário, esse, por si só, não serve
para entender a complexa sociedade brasileira.

Apenas para dar um exemplo, pense na Festa do Divino Espírito Santo, que
ocorre em diversas cidades brasileiras. Rica festa religiosa, realizada sete semanas
após a Páscoa, reúne diversos elementos interessantes para tentar se compreen-
der muitas dimensões da sociedade brasileira. As procissões mostram dimensões
simbólicas de fé que são importantes para quem pratica, mas que não dependem
apenas de questões econômicas.

1HVVDIHVWDWDPE«PȴFDPHYLGHQWHVGLIHUHQ©DVVRFLDLVTXHY¬PGHVGHWHPSRV
em que o Brasil era colônia de Portugal. Os escravos participavam da festa manifes-
WDQGRVHSRUPHLRGDFRQJDGDHLGHQWLȴFDYDPDSRPEDGR(VS¯ULWR6DQWRFRPS£V-
VDURVDIULFDQRVTXHSRGLDPVLJQLȴFDUYLGDHPRUWHQRLWHHGLDRXDLQGDOLEHUGDGHH
LJXDOGDGH0XLWDVGHVVDVPDQLIHVWD©·HVȴFDUDPGHPRGRTXHDRHVWXGDUD)HVWDGR
Divino podemos compreender muito da sociedade atual e a de tempos pregressos.

9RF¬SRGHU£VHSHUJXQWDUȊ0DVRTXHXPDIHVWDSRSXODUUHOLJLRVDWHPDYHU
com a sociologia?” A festa popular religiosa mostra que a sociedade é muito comple-
xa, pois não se move apenas pelos sistemas de organização econômica e política. Há
também uma dimensão simbólica que é muito importante na constituição das identi-

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ADisciplina
Braz Cubas3 Sociologia

dades e da cultura. Sem entender essa dimensão, nossa compreensão da sociedade


ȴFDEDVWDQWHOLPLWDGD6HDVRFLRORJLDWHPDSUHWHQV¥RGHQRVGDUXPDH[SOLFD©¥R
sistemática das sociedades, não pode deixar de lado as manifestações culturais.

(UQVW&DVVLUHU  ȴOµVRIRDOHP¥RTXHGHGLFRXJUDQGHSDUWHGHVHXV


HVWXGRV¢FXOWXUDDȴUPRX

Comparado aos outros animais, o homem não vive apenas em


uma realidade mais ampla, vive, pode-se dizer, em uma nova
dimensão da realidade... o homem vive em um universo simbó-
lico. (CASSIRER, 1997, p. 48).

Não vamos entrar agora neste debate. O que podemos perceber é que o ser
humano, e em consequência as sociedades, só podem ser compreendidas por um
complexo de conceitos que não se restringem à economia e política. Desse modo, a
sociologia terá de lidar com essas outras dimensões da realidade.

Para começar, você perceberá que os primeiros autores da sociologia


dedicaram-se a temas próximos, entre eles o trabalho. Isso faz parte do contexto
histórico em que a sociologia surgiu, uma vez que as questões trabalhistas estavam
em evidência.

Vamos ver, então, como e porque surgiu a sociologia.

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Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

Unidade I
1

As Origens do Pensamento Sociológico

Objetivos da unidade:

• Conhecer o processo de criação do pensamento sociológico desde


VXDV RULJHQV DRV DXWRUHV FO£VVLFRV .DUO 0DU[ 0D[ :HEHU H (PLOH
Durkheim.

Competências e Habilidades:

• &RQKHFLPHQWRGRSURFHVVRKLVWµULFRGHVXUJLPHQWRGD6RFLRORJLDH
das questões que motivaram os primeiros sociólogos;

• Capacidade de observação do uso dos principais conceitos


desenvolvidos pelos autores clássicos da sociologia.

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ADisciplina
Braz Cubas3 Sociologia

Ʌ O Surgimento da Sociologia

'HVGHRVXUJLPHQWRGDȴORVRȴDK£V«FXORVRVKRPHQVY¬PUHȵHWLQGRVR-
bre os grupos e as sociedades em que vivem com o objetivo de compreendê-los. Os
ȴOµVRIRV WLQKDP FRPR XPD GH VXDV SUHRFXSD©·HV GHȴQLU H RUJDQL]DU R VHX PHLR
social, começando a compreendê-lo de modo racional.

Em todo o tempo e lugar os homens vivem em agrupamentos sociais. É a vida


em grupo que permite o desenvolvimento da nossa condição humana. Somos seres
sociais e essa característica favorece os sociólogos, tendo em vista que a vida em
grupo, ou a sociedade, é o objeto de estudo da Sociologia.

É esse interesse pelos grupos que diferencia a sociologia das outras ciências
sociais. Faz parte do universo de preocupações dos sociólogos o processo de confor-
mação, funcionamento e mudança dos grupos sociais, bem como as relações estabe-
lecidas entre os membros de um mesmo grupo e entre os grupos.

do conhecimento
Uma breve história

Homem Assume a
condição humana

Desenvolve capacidade Busca respostas

de Reflexão para as questões

Fonte: https://cenfopmatematicasignificativa.wordpress.com/category/historia-da-matematica/.
Acesso em 14/12/2015.

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Sociologia ADisciplina
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2 IDWR GR VHU KXPDQR YLYHU HP JUXSR WHU FDSDFLGDGH GH UHȵH[¥R H GHVHQ-
volver um complexo sistema de comunicação foram fatores determinantes para a
constituição do nosso processo cultural. Cultura e conhecimento são conceitos que
se confundem. Tudo o que foi produzido pela humanidade, como resultado das re-
lações sociais estabelecidas entre os indivíduos de um ou vários grupos, é cultura e,
portanto, é conhecimento.

Fonte:https://meilycass.wordpress.com/2012/05/01/video-aula-4-os-estudos-culturais-e-a- convivencia-

democratica/. Acesso em 14/12/2015.

A história de cada grupo é a história de seu conhecimento. Da mesma forma, a


história da humanidade é a história do conhecimento produzido pelos homens.

Conhecimento é a incorporação de um conceito novo sobre qualquer fato


ou fenômeno. Ele é fruto das experiências que cada grupo social acumula em
sua vida cotidiana. No grupo, as experiências individuais são transmitidas para
seus membros, o que contribui para o desenvolvimento de todos.

Nossa espécie é a única com capacidade de criar e transformar o conhecimen-


to. Como criamos e desenvolvemos um sistema de símbolos, a linguagem, temos
a possibilidade de registrar nossas experiências e descobertas e transmiti-las para
RXWURVVHUHVKXPDQRV3RUWDQWRSRGHPRVIDODUGHXPDȊKLVWµULDGRFRQKHFLPHQWR
humano”.

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ADisciplina
Braz Cubas3 Sociologia

Os homens desenvolvem formas dife-


rentes de compreensão da realidade, formas
estas que ajudam a estruturar a vida em so-
ciedade. Como estamos falando em Sociolo-
gia, cabe compreender que esta nasceu como
ciência, uma ciência que tinha por objetivo
produzir um conhecimento racional e siste-
mático sobre as sociedades.

Ʌ Sociologia e a Revolução Industrial

$6RFLRORJLD«FRQVLGHUDGDXPDFL¬QFLDQRYDVHFRPSDUDGD¢ȴORVRȴDHPDWH-
mática, por exemplo. Sua constituição está relacionada à necessidade de compreen-
V¥RGDVJUDQGHVWUDQVIRUPD©·HVRFRUULGDVQR2FLGHQWHHQWUHRȴQDOGRV«FXOR;9ΖΖΖ
e o início do século XIX, momento em que se articulam as bases para o desenvolvi-
mento da sociedade capitalista.

O surgimento da produção fabril concentra a produção e circulação da riqueza


nas cidades, o que causa profundas transformações nas relações familiares e de tra-
balho, bem como na estrutura de valores até então cultuados.

Fonte: Adaptado de <https://deviraver.wordpress.com/2012/12/>. Acesso em 14/12/2015.

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Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

Portanto, a Sociologia constitui uma forma intelectual de responder às novas


situações criadas pela Revolução Industrial, como a condição dos trabalhadores, o
surgimento de desenvolvimento das cidades industriais, as transformações tecno-
lógicas, a dinâmica e organização do trabalho na fábrica etc. É a formação de uma
HVWUXWXUDVRFLDOHVSHF¯ȴFDDVRFLHGDGHFDSLWDOLVWDTXHLPS·HXPDUHȵH[¥RVREUHD
sociedade, suas transformações, suas crises, e sobre seus antagonismos de classes.

Tudo aquilo que foi considerado como estruturador, ou que permeava toda a
realidade social, era estudada e teorizada pelos primeiros sociólogos. A sociologia
HUDXPDFL¬QFLDȊGRWHPSRSUHVHQWHȋ

Ʌ Autores Clássicos da Sociologia

$ FULD©¥R GD VRFLRORJLD Q¥R « REUD GH XP Vµ ȴOµVRIR RX FLHQWLVWD ‹ IUXWR GD
combinação do trabalho de vários pensadores empenhados em compreender as si-
tuações novas de existência que estavam em curso.

São diversos os autores que contribuíram para a construção da Sociologia. Po-


deríamos voltar nossos estudos a autores dos séculos XVII e XVIII que, a seus modos,
tentaram produzir teorias sobre o social: Hobbes, John Locke, Montesquieu, Rous-
seau, entre outros. No entanto, a sociologia, conhecida por esse nome, surgiu de um
ȴOµVRIRIUDQF¬VFKDPDGR$XJXVWR&RPWH  

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ADisciplina
Braz Cubas3 Sociologia

$XJXVWH&RPWHȴOµVRIRSRVLWLYLVWDIUDQF¬VTXHLQLFLRXRSURFHVVRGHVLVWHPD-
tização de conceitos da ciência social, usou pela primeira vez a palavra sociologia em
1838.

Para ele, a sociologia deveria estudar e compreender a sociedade com o intuito


de organizá-la e reformá-la. De acordo com ele, os estudos das sociedades deveriam
VHUHIHWXDGRVFRPHVS¯ULWRFLHQW¯ȴFRHFRPFDU£WHUREMHWLYR

$XJXVWR&RPWHHUDXPFLHQWLȴFLVWDRXVHMDDFUHGLWDYDTXHDFL¬QFLDIRVVHD
principal forma de se desenvolver um conhecimento concreto sobre a realidade.
Para ele, todos os domínios do conhecimento deveriam ser estudados de acordo
com as mesmas regras e métodos. E isso incluía a sociologia, ciência maior por ser
aquela que teria por objetivo compreender a vida humana em sociedade.

Vejamos o que dizem dois autores sobre o que Comte pensava acerca do co-
nhecimento e da ciência:

O pensamento [para Comte], em um primeiro momento, bus-


cou a inteligibilidade absoluta dos fenômenos sem ter para isso
os meios. Forneceu uma primeira resposta: o fetichismo. E, com
isso, a sociedade e a história obedeciam a causas sobrenaturais.
Depois veio uma fase de dúvida, em que o indivíduo se revoltou.
Foi a fase matafísica, aquela dos direitos do homem; essencial-
PHQWHFU¯WLFDVHSRUXPODGRHODS¶VȴPDRVWDEXVSRURXWUR
FHGHX¢VLOXV·HVDEVWUDWDV0DVSRUȴPRHVS¯ULWRKXPDQRUH-
conhece sua dívida para com a realidade social e submete-se a
suas leis. (FERRÉOL & NORECK,2007, p.19-20)

&RPWHFRQVLGHUDYDTXHRFRQKHFLPHQWRSRGHULDVHUFODVVLȴFDGRHPWU¬VQ¯YHLV
UHOLJLRVRPHWDI¯VLFRHFLHQW¯ȴFR SRVLWLYR 3RULVVRVXDȴORVRȴDHUDFKDPDGDGHSRVL-
tivismo. Portanto, Comte pensava que, ao estudar as sociedades humanas, deveria-
se também procurar as leis que as regem e que são imutáveis, independentemente
da ação humana. Para ele, um sociólogo teria as mesmas atribuições de um físico
ou biólogo.

Essa visão logo seria questionada, mas deixou um amplo legado. A própria
bandeira brasileira carrega um bordão de origem positivista: Ordem e Progresso.

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Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

Trataremos agora dos três principais autores da sociologia clássica: Karl Marx,
Émile Dürkheim e Max Weber.

9RF¬ GHYHU£ FRQWLQXDU VXD OHLWXUD QR PDWHULDO LQGLFDGR QR VHX $9$ 1D
VHTX¬QFLDUHVSRQGD¢VDWLYLGDGHVYLUWXDLVGLVSRQ¯YHLVHUHWRUQHSDUDFRQ-
WLQXDUPRVFRPRQRVVRSUµ[LPRDVVXQWR

Ʌ O Fato Social

Como vimos no AVA, foi Dürkheim quem apontou os fatos sociais como objeto
GHHVWXGRGDVRFLRORJLD1HVVHFDVRDSDODYUDȊIDWRȋQ¥RGHYHVHUHQWHQGLGDFRPR
XPDFRQWHFLPHQWRHVSHF¯ȴFR2IDWRVRFLDOGHYHVHUHQWHQGLGRFRPRXPDFRQWHFL-
mento de caráter social e, portanto, pensado como um processo.

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ADisciplina
Braz Cubas3 Sociologia

Essa noção nos remete à questão do comportamento exibido pelos indivíduos


que compõem um mesmo grupo social: o comportamento social que caracteriza
cada um dos grupos sociais existentes.

Ʌ O que é Fato Social

De acordo com Dürkheim, o fato social se refere aos hábitos e costumes apre-
VHQWDGRVSHORVLQGLY¯GXRVTXHSHUWHQFHPDXPJUXSRVRFLDOHVSHF¯ȴFR(VVHVK£ELWRV
e costumes são assimilados pelos membros do grupo durante toda a existência dos
mesmos.

Os hábitos e costumes de um grupo social não são estáticos. Eles apresentam


mudanças e transformações no tempo e no espaço. A mudança do fato social no
tempo pode ser notada quando comparamos o comportamento apresentado pelos
indivíduos de um mesmo grupo social em dois momentos distintos.

Exemplo: No começo do século XX as mulheres brasileiras não usavam cal-


ça comprida. Esse tipo de roupa não fazia parte do vestuário feminino naquela
época. No entanto, hoje a calça comprida é usada naturalmente pelas mulheres
brasileiras.

4XDQGRDȴUPDPRVTXHHOHPXGDQRHVSD©RLVVRHTXLYDOHGL]HUTXHRVLQGL-
víduos de dois grupos sociais distintos apresentam comportamentos diferentes no
mesmo momento histórico.

Exemplo: No início do século XXI, as mulheres brasileiras apresentam


modo de se vestir diferente das mulheres marroquinas.

Ʌ Características do Fato Social

O fato social apresenta, necessariamente, três características: generalidade,


exterioridade e coercitividade.

148
Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

&RPRM£IRLDȴUPDGRRIDWRVRFLDOQ¥R«HVW£WLFR0XLWDVYH]HVDGHVREHGL¬Q-
cia de alguns membros do grupo à determinado hábito ou costume, punida num
primeiro momento, passa a ser uma prática cada vez mais comum e com o tempo
acaba assumindo o status de um novo comportamento geral.

São muitos os exemplos de fatos sociais. Acompanhe!

Ʌ Os Fatos Sociais em outras áreas das Ciências Sociais

$VRFLRORJLDFRPRȴFRXFODURDW«DTXL«DFL¬QFLDTXHVHGHGLFDDRVRFLDO$V
VRFLHGDGHVV¥RRREMHWRGHHVWXGRGRVVRFLµORJRVSRUGHȴQL©¥R3RULVVRDVRFLRORJLD
serviu de base para uma série de outras disciplinas que também lidam com o social.
Como a sociologia legou alguns conceitos importantes, esses foram empregados por
historiadores, antropólogos, psicólogos sociais, entre outros.

Vamos ver um exemplo da antropologia. Essa disciplina, construída ao longo


GRVV«FXORV;Ζ;H;;PXLWRVHEHQHȴFLRXGHFRQFHLWRVFULDGRVSHODVRFLRORJLDFO£VVL-
FD8PGHVVHVFRQFHLWRVRGHIDWRVRFLDOGH'¾UNKHLPLQȵXHQFLRXDDQWURSRORJLDGH
Marcel Mauss (1872-1950).

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ADisciplina
Braz Cubas3 Sociologia

(Marcel Mauss 1872-1950)

6REULQKRGH'¾UNKHLP0DXVVIRLLQȵXHQFLDGRSHODVLGHLDVGRJUDQGHVRFLµOR-
go francês. Dürkheim chegou a escrever um livro em que dialogava muito com etnó-
logos. Trata-se da obra As formas elementares da vida religiosa. Nessa obra, Dürkheim
VHGHGLFDYDDRVVLVWHPDVUHOLJLRVRVGHSRYRVȊSULPLWLYRVȋGD$XVWU£OLD

Marcel Mauss fundou em 1924 oΖQVWLWXWR)UDQF¬VGH6RFLRORJLD e, em 1926, o


ΖQVWLWXWR GH (WQRORJLD. Estudou tribos da Polinésia e de diversos outros locais. Para
QµV«LPSRUWDQWHFRQKHFHUXPGRVGHVGREUDPHQWRVGRHVWXGRGRVȊIDWRVVRFLDLVȋ
9DPRVUHFRUGDUTXHSDUD'¾UNKHLPRVȊIDWRVVRFLDLVȋGHYLDPVHUDQDOLVDGRVFRPR
coisas, ou seja, como objetos. Aquilo que é observável pelo cientista social devia ser
analisado de forma fria. Em outras palavras, o cientista social é o observador e o fato
analisado é o objeto.

$SHVDUGHSDUWLUGHVVHSULQF¯SLR0DUFHO0DXVVPRGLȴFRXHVVDIRUPDGHYHUD
pesquisa social. Vejamos o que diz o antropólogo francês François Laplantine sobre
Mauss:

Um dos conceitos maiores forjados por Marcel Mauss é o do fe-


nômeno social total, consistindo na integração dos diferentes
aspectos (biológico, econômico, jurídico, histórico, religioso, es-
tético...) constitutivos de uma dada realidade social que convém
DSUHHQGHUHPVXDLQWHJUDOLGDGHȊ$SµVWHUIRU©RVDPHQWHGLYLGLGR
XPSRXFRH[DJHUDGDPHQWHȋHVFUHYHHOHȊ«SUHFLVRTXHRVVRFLµ-
logos se esforcem para recompor o todo”. Ora, prossegue Mauss,
RVIHQ¶PHQRVVRFLDLVV¥RȊDQWHVVRFLDLVPDVWDPE«PFRQMXQWD-
PHQWHHDRPHVPRWHPSRȴVLROµJLFRVHSVLFROµJLFRVȋ2XDLQGD
Ȋ2 VLPSOHV HVWXGR GHVVH IUDJPHQWR GH QRVVD YLGD TXH « QRVVD
YLGDHPVRFLHGDGHQ¥REDVWDȋ1¥RVHSRGHDLQGDDȴUPDUTXH

150
Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

todo fenômeno social é também um fenômeno mental, da mes-


ma forma que todo fenômeno mental é também um fenômeno
social, devendo as condutas humanas ser apreendidas em todas
as suas dimensões, e particularmente em suas dimensões socio-
OµJLFDKLVWµULFDHSVLFRȴVLROµJLFD /$3/$17Ζ1(S 

2TXH0DXVVIH]IRLPRGLȴFDURVHQWLGRGRHVWXGRVRFLROµJLFR3ULPHLURSRU-
que estabeleceu o fenômeno social total, que inclui aspectos sociais, psicológicos,
ȴVLROµJLFRVHWF6HJXQGRWDPE«PSRUTXHSURS¶VTXHRFLHQWLVWDIRVVHDFDPSRHV-
tudasse e vivenciasse aquilo que se propunha estudar. Portanto, Mauss propunha
um observador-sujeito, não mais distante de seu objeto como propunha Dürkheim.

Observe que temos aqui as ciências sociais que caminham de modo a se cons-
truir teórica e metodologicamente. As ciências sociais sempre provocam polêmica
em relação aos métodos e às teorias, porque lidam com um objeto bastante comple-
xo: as sociedades humanas. Sendo o ser humano bastante diverso em suas formas
de viver, de se comportar e de interpretar o mundo, não é fácil forjar uma teoria que
dê conta de explicar toda a sociedade em todos os seus aspectos, assim como não é
I£FLOFULDUXPP«WRGRHVSHF¯ȴFRSDUDHVWXG£ODXPDYH]TXHQ¥RVHSRGHHVWXGDUDV
VRFLHGDGHVȊHPODERUDWµULRȋ

Aqui nós vimos duas perspectivas: a do cientista que acreditava na possibilida-


de de se manter neutro em relação ao seu objeto de estudo e de outro que não vê
a possibilidade de se manter neutro, mas acredita que o cientista deve vivenciar o
melhor possível o que se estuda. Não se trata, para nós, de optar por um dos dois,
mas de perceber que as diferentes perspectivas apenas evidenciam a complexidade
da ciência.

Ʌ Considerações da Unidade I

Vimos nesta unidade os caminhos percorridos para a criação da Sociologia.


Você deve ter percebido que a sociologia não foi criada por um indivíduo, mas sim
por diversos autores que dialogavam entre si e divergiam também. Dessas divergên-
cias resultaram grandes avanços nas ciências sociais.

Também deve atentar para o fato de que não foi apenas uma necessidade
intelectual que deu origem à sociologia, mas foi também uma necessidade histórica.
O contexto histórico de nascimento da sociologia é tão importante quanto os

151
ADisciplina
Braz Cubas3 Sociologia

intelectuais nela envolvidos. Não haveria sociologia sem antes haver uma necessidade
GHFRPSUHHQV¥RGDVRFLHGDGHHPEDVHVFLHQW¯ȴFDV

A nova organização econômica, as novas tecnologias e, consequentemente, a


nova sociedade que surgiu da Revolução Industrial impôs essa demanda. A vida se
PRGLȴFRXHPVHXVDVSHFWRVOLJDGRV¢VREUHYLY¬QFLD RWUDEDOKR HWDPE«PHPUHOD-
ção às interpretações sobre a vida e as relações sociais.

A sociologia não só se desdobrou em diversas áreas para se compreender o


social, como também se estabeleceu como área fundamental para produção de co-
nhecimento acadêmico sobre diversas sociedades. Nas próximas unidades continua-
remos a explorar o mundo das ciências sociais.

Gostaria de lembrá-lo que este material é introdutório e que, portanto, é im-


portante sempre complementar a leitura com outras obras e artigos.

Procure acompanhar as teleaulas e desenvolver as atividades propostas


no AVA.

Bom estudo!

152
Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

2 Unidade II

Grupos e Relações Sociais

Objetivos da unidade:

• &RQKHFHURVFRQFHLWRVE£VLFRVUHIHUHQWHV¢VUHOD©·HVVRFLDLVHLQWH-
rações entre grupos e indivíduos.

Competências e Habilidades:

• Conhecimento dos conceitos de grupos e agregados sociais;

• Capacidade de relacionar os conceitos que se lê na imprensa e se vê


no cotidiano.

153
ADisciplina
Braz Cubas3 Sociologia

É importante lembrar que para o aprimoramento da sua aprendizagem


YRF¬GHYHDVVLVWLU¢DXODHHQYLDUVXDVG¼YLGDVSDUDTXHSRVVDPRVVROXFLR-
ná-las. Lembre-se também de acessar a plataforma de estudos e realizar
as atividades dentro do prazo.

Ʌ Agrupamento e Relações Sociais

$QWHV GH IDODUPRV GH JUXSRV YDPRV UHȵHWLU VREUH VXD LPSRUW¤QFLD SDUD RV
indivíduos.

Não é de hoje que se diz que o homem é um animal social. Essa frase não se
refere apenas ao fato de termos contatos sociais a todo o tempo, mas também ao
fato de que toda a nossa identidade é formada a partir de nossos contatos sociais e
no convívio de grupos do qual fazemos parte.

7HPRVDSHQDVTXHWHURFXLGDGRSDUDQ¥RID]HUPRVDȴUPD©·HVWD[DWLYDVGR
tipo: o indivíduo nasceu em meio a um grupo violento, logo será também violento.
)RVVHDVVLPQ¥RHQFRQWUDU¯DPRVLQ¼PHURVFDVRVGHȴOKRVYLROHQWRVTXHQDVFHUDPH
foram criados por famílias não violentas e vice-versa.

De qualquer modo, nosso aprendizado, nossas referências e nossa identidade


são formadas a partir de grupos e contatos sociais. Vejamos agora um exemplo con-
trário. O que aconteceria se tirássemos de um indivíduo seus grupos sociais?

A resposta está no seu AVA. Atente para os materiais disponíveis que com-
plementam esse conteúdo e estude-os para a avaliação.

9HMDPRVDJRUDFRPRDVRFLRORJLDFODVVLȴFDRVWLSRVGHFRQWDWRVHQWUHRVLQGL-
víduos e os grupos.

154
Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

Ʌ Contatos Sociais

Em nosso cotidiano estabelecemos inúmeros contatos sociais. Toda a vez que


abordamos alguém ou somos por alguém abordado estamos mantendo um contato
social. Ou seja, toda a vez que duas pessoas conversam elas estão mantendo um
contato social. O contato social é a base de qualquer relação social.

Os contatos sociais podem ser de dois tipos: contato social primário e contato
social secundário.

&RQWDWRVRFLDOSULP£ULR É um contato direto, pessoal e


que estabelecemos com pessoas com as quais comparti-
lhamos experiências. São exemplos de contato social pri-
mário os contatos familiares, de vizinhança, escolares etc.

Os FRQWDWRVSULP£ULRV têm um cunho emocional. Nós


conhecemos as pessoas com as quais estabelecemos
esse tipo de contato. Nosso círculo de amizade e nossas
famílias são exemplos de grupos com os quais estabele-
cemos contatos primários.

&RQWDWR VRFLDO VHFXQG£ULR É um contato impessoal,


casual, muitas vezes indireto e geralmente efetuado em
IXQ©¥R GH XP REMHWLYR HVSHF¯ȴFR 6¥R H[HPSORV GHVVH
tipo de contato aqueles mantidos apenas através de te-
lefone, de carta, de email etc. Além desses, os contatos
mantidos entre uma pessoa que aborda um desconheci-
do para saber as horas ou algo similar também são con-
siderados secundários.

Os FRQWDWRV VHFXQG£ULRV compõem a maior parte de


nossos contatos. São imprescindíveis e muito numerosos.
Ao ir a uma loja, nosso contato com o lojista é secundário.
Ao procurar um serviço, como uma universidade ou mes-
mo um hospital, os contatos estabelecidos ali são secun-
dários. Ou seja, embora os contatos secundários não este-
jam contribuindo diretamente para a formação de nosso
caráter e identidade em nossos círculos mais próximos,
eles compõem grande parte de nossa realidade.

3DUDFRPSUHHQGHUPHOKRURTXHVLJQLȴFDRSHUDUFRPRFRQFHLWRGHFRQWDWRVVR-
ciais, vamos ver como se dá a interação social, outro conceito fundamental da sociologia.

155
ADisciplina
Braz Cubas3 Sociologia

Ʌ Relação e Interação Social

A interação social é uma relação social bem característica, que funciona como
um motor do processo dinâmico da sociedade, pois o seu aspecto mais importante
« D PRGLȴFD©¥R GR FRPSRUWDPHQWR GRV LQGLY¯GXRV QHOD HQYROYLGRV 3RU H[HPSOR
quando um professor ministra uma aula, seus alunos recebem informações que im-
plicam mudanças em suas vidas. Ao mesmo tempo, as observações ou questões
IHLWDVSHORVDOXQRVWDPE«PSRGHPVHUHȵHWLUHPQRYRVFRQKHFLPHQWRVDGTXLULGRV
pelo professor. Isso ocorre simultaneamente.

3RGHPRVGHȴQLUDUHOD©¥RGHLQWHUD©¥RVRFLDOGDVHJXLQWHIRUPD

• ΖQWHUD©¥RVRFLDO é uma relação social estabelecida a partir de um contato


social direto, com base emocional e que provoca mudanças ou transforma-
ções em todos os indivíduos nela envolvidos.

Max Weber (1864-1920), de quem falamos na UNIDADE I, foi quem esclareceu


o conceito de relações sociais. Em sua obra &RQFHLWRV6RFLROµJLFRV)XQGDPHQWDLVWe-
ber deixa claro que o conceito de relações sociais nada tem a ver com solidariedade
entre os indivíduos.

$LQWHUD©¥RVRFLDODRVHUGHȴQLGDFRPRXPDD©¥RGLULJLGDRXVHMDFRPXPȴP
SRGH VHU FRPSUHHQGLGD HP GLYHUVRV FRQWH[WRV H[HPSOLȴFDGRV SRU :HEHU FRPR
FRQȵLWR LQLPL]DGH DPRU VH[XDO DPL]DGH SLHGDGH WURFD PHUFDQWLO ȆFXPSULPHQWRȇ
RXȆQ¥RFXPSULPHQWRȇGHXPSDFWR8PDGLVFXVV¥RRXXPDEULJDGHWU¤QVLWRSRGHP
ser consideradas como formas de interação social. Da mesma forma que uma con-
versa entre amigos, ou um passeio de um casal de namorados.

Vamos ver algumas modalidades de interação social. Esta pode ocorrer das
seguintes formas:

Pessoa Pessoa

156
Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

Pessoa Grupo

Grupo Grupo

Em todos os exemplos, as interações são interações recíprocas. Interação so-


cial recíproca é a forma mais típica desse tipo de relação social. No entanto, existe
a chamada relação de interação social não recíproca, como é o caso da televisão ou
cinema, quando o processo de transformação ou mudanças das pessoas envolvidas
não acontece ao mesmo tempo.

1R HQWDQWR YDOH OHPEUDU TXH XP FRQȵLWR « WDPE«P XPD IRUPD GH UHOD©¥R
VRFLDO $OL£V RV FRQȵLWRV SUHVVXS·HP XPD LQWHUD©¥R SRLV SDUD TXH GXDV SHVVRDV
RXJUXSRVHQWUHPHPFRQȵLWR«QHFHVV£ULRTXHVXDVD©·HVVHMDPGLULJLGDVDRXWUR
grupo.

0HQFLRQDPRVGLYHUVDVYH]HVDSDODYUDȊJUXSRȋ(PVRFLRORJLDJUXSR«XPFRQ-
ceito bastante utilizado, uma vez que são eles que formam a base da sociedade.
3RULVVRRVJUXSRVSUHFLVDPVHUWLSLȴFDGRVHGHȴQLGRV9DPRVDJRUDYHUDOJXPDV
GHȴQL©·HV

157
ADisciplina
Braz Cubas3 Sociologia

Ʌ Agregados e Grupos Sociais

Ʌ Agregados Sociais

Nós, seres humanos, fazemos parte de agrupamentos sociais. As duas formas


de grupamentos sociais possíveis são os grupos sociais e os agregados sociais.

2DJUHJDGRVRFLDOSRGHVHUGHȴQLGRGDVHJXLQWHIRUPD

Agregado social: é uma reunião de pessoas que, apesar de estabelecerem


entre si um mínimo de relações sociais e comunicação, apresentam pouco ou
nenhum sentimento grupal. São desorganizados e neles impera o anonimato
entre seus componentes. Eles são também caracterizados pela casualidade e
pela efemeridade. São exemplos de agregados: a multidão, o público e a massa.

Imagine, por exemplo, um grande grupo de pessoas que esperam o trem na


estação Luz da CPTM em São Paulo. As pessoas ali têm o mesmo interesse (pegar
o trem), mas quase não há interação entre elas. Esse tipo de agrupamento é o que
chamamos de multidão.

O público é composto basicamen-


te por pessoas que vão, por exemplo, a
um espetáculo de teatro. Estão no lo-
cal por opção e estão submetidos a um
mesmo estímulo (a peça de teatro).

A massa é um fenômeno típico


da sociedade do século XX e do século
XXI. Trata-se de um grande número de
pessoas submetido a uma mesma men-
sagem ou opinião transmitidas por um
meio de comunicação de massa. Por
Fonte: http://diariodacptm.blogspot.com.
br/2012/01/usuario-de-trem-de-mogi-das-cruzes. exemplo, as milhões de pessoas que as-
html. Acesso em 14/12/2015.
sistem a uma novela ao mesmo tempo.

Líderes de regimes políticos autoritários, como o nazismo, o fascismo e o co-


munismo, que se utilizavam dos meios de comunicação de massa (como o rádio)
para poder atingir com seus discursos a massa e tentar dirigir as ações do povo.

158
Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

Ʌ Grupos Sociais

Já os grupos sociais são diferentes dos agregados. Os indivíduos que dele par-
ticipam estabelecem entre si relações sociais mais consistentes.

2JUXSRVRFLDOSRGHVHUGHȴQLGRGDVHJXLQWHIRUPD

Grupo social: é uma reunião duradoura de indivíduos com o mesmo obje-


tivo e associados pela interação social.

Nesses agrupamentos existem normas, hábitos e costumes particulares. Como


apresentam objetivos comuns, os indivíduos que compõem o grupo social apresen-
tam a capacidade de se organizarem e agirem conjuntamente.

Podemos citar como exemplos de importantes grupos sociais a família, a esco-


la, o clube, o partido político e o local de trabalho.

Fonte: http://www.espacoessenciadoser.com.br/atendimentos-clinicos/terapia-familiar. Acesso em 14/12/2015.

Fonte: http://extra.globo.com/emprego/site-
Fonte: http://www.blogdasppps.com/2012_07_28_ lista-comportamentos-que-funcionarios-devem-
archive.html. Acesso em 14/12/2015. evitar-no-trabalho-13441160.html. Acesso em
14/12/2015.

159
ADisciplina
Braz Cubas3 Sociologia

2VJUXSRVVRFLDLVSRGHPVHUFODVVLȴFDGRVGHDFRUGRFRPRFRQWDWRVRFLDOTXH
nele predomina. Como os grupos sociais podem variar em relação ao número de
pessoas que os compõem, eles apresentam variação na ocorrência dos contatos
sociais.

Assim, temos três tipos de grupos sociais:

*UXSR VRFLDO SULP£ULR é *UXSR VRFLDO VHFXQG£ULR *UXSR VRFLDO LQWHUPHGL£-


aquele que apresenta pre- é aquele que apresenta rio: é aquele que nós não
dominância do contato so- predominância do contato conseguimos precisar qual
cial primário. Exemplo: a social secundário. Exemplo: contato social é predomi-
família, a vizinhança, o pes- a grande empresa, as igre- nante. Exemplo: a pequena
soal da balada etc. jas, o Estado etc. empresa, os alunos de um
curso de uma mesma uni-
versidade etc.

Sempre que precisarmos ter certeza de que estamos diante de um grupo


social, é importante observarmos suas características. São elas que possibilitam a
LGHQWLȴFD©¥RSUHFLVDGHXPJUXSRVRFLDO$OJXPDVID]HPSDUWHGDSUµSULDGHȴQL©¥R
como é o caso da pluralidade de indivíduos, da interação social e da continuidade.

Além delas, as outras importantes características são:

160
Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

Uma das importantes características do grupo social é a continuidade. No en-


tanto, em diversos momentos os interesses individuais são contrários aos interesses
FROHWLYRV0HVPRVHQGRHVSD©RGHFRQȵLWRGHLQWHUHVVHVODWHQWHVRJUXSRVRFLDOSHU-
manece enquanto tal. Nesse caso, entram em cena os mecanismos de sustentação
dos grupos sociais.

Portanto, mecanismo de sustentação dos grupos sociais é algo que integra o


grupo social e atua na preservação de sua coesão. Entre os mecanismos que atuam
na sustentação dos grupos sociais podemos destacar: liderança social, símbolo so-
cial, valor social, normas e sanções sociais.

/LGHUDQ©D VRFLDO a liderança é a capacidade presente em alguns indiví-


duos de ter ascendência sobre os outros membros do grupo social. A liderança
pode ser pessoal, quando ela tem por origem as qualidades pessoais (inteligên-
cia, carisma, poder de comunicação etc.) ou institucional, quando ela deriva da
posição social ou da função ocupada pelo indivíduo, como é o caso do gerente
de banco ou do diretor de uma escola.

A liderança é um importante mecanismo de sustentação do grupo social,


pois quando ele se encontra em crise o líder social se constitui em referência e
orienta os passos de todos os indivíduos.

Símbolo social: é tudo aquilo em relação ao qual o grupo atribui um sig-


QLȴFDGR

O símbolo é um importante mecanismo de sustentação, pois ele atua na


constituição da identidade cultural daqueles que compõem o grupo social.

161
ADisciplina
Braz Cubas3 Sociologia

Valor social: V¥R FULW«ULRV XVDGRV SHOR JUXSR VRFLDO SDUD GHȴQLU R TXH «
certo e errado, bom ou ruim, bonito ou feio. Os valores sociais não são os mes-
mos quando comparamos diferentes grupos sociais ou o mesmo grupo social
em momentos históricos diferentes.

O valor é um importante mecanismo de sustentação do grupo social, pois


como os indivíduos têm os mesmos critérios para se posicionarem diante das
questões existentes, eles apresentam um padrão de comportamento que favo-
rece a manutenção do grupo.

1RUPDVHVDQ©·HVVRFLDLV Em cada grupo social existe um conjunto de


regras de conduta. Elas são inspiradas nos valores sociais e buscam estabelecer
parâmetros para o comportamento dos indivíduos. As normas são acompanha-
das de sanções e elas podem ser aprovativas, quando o indivíduo se comporta
de acordo com as normas, ou punitivas, quando o indivíduo se comporta em
desacordo com as regras estabelecidas. As normas e sanções sociais são impor-
tantes mecanismos de sustentação dos grupos sociais, pois elas impõem um
padrão de comportamento que permite maior coesão do grupo social.

Ʌ Reflexão sobre os Contatos e Relações Sociais Atuais

A sociologia deve dar conta de explicar as relações sociais de forma a ilumi-


nar as relações humanas. Quando falamos em contatos sociais, estamos diante de
relações humanas que envolvem diversas dimensões da vida: emoções, tradições,
poder, valores etc.

1R$9$YRF¬HQFRQWUDU£D¯QWHJUDGHVVHPDWHULDOHDVDWLYLGDGHVYLUWXDLV
que deverão ser realizadas logo após o estudo do material complementar.

162
Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

Ʌ Considerações da Unidade II

Esta unidade tratou basicamente dos grupos sociais e de algumas formas de


interação. Pudemos perceber que, sem os grupos nós não conseguimos formar nos-
sa identidade e nem sequer aprendemos a conviver e interagir em sociedade. Assim,
FRQVHJXLPRVYHULȴFDUWDPE«PTXHV¥RY£ULDVDVIRUPDVGHLQWHUD©¥RVRFLDOHTXH
HVWDVSRGHPVHUKDUPRQLRVDVRXFRQȵLWXRVDV

Quanto aos tipos de grupos, analisamos que fazemos, ao mesmo tempo, parte
de diversos grupos: família, universidade, trabalho, entre outros, e que, dentro de
cada grupo predomina um tipo de contato social, primário ou secundário.

4XDQGRFRPH©DPRVDHVWXGDUWDLVFRQFHLWRVȴFDFODURTXHXPGRVSDS«LVGD
VRFLRORJLD«FULDUFODVVLȴFD©·HVHFRQFHLWRVDSDUWLUGHIHQ¶PHQRVVRFLDLVREVHUY£YHLV
SDUDSRGHUHVWXG£ORVGHIRUPDVLVWHP£WLFD$RGHȴQLUGHIRUPDEDVWDQWHHVSHF¯ȴFD
os grupos sociais, podemos compreender melhor a sociedade em que vivemos, uma
vez que podemos compreendê-la a partir de partes menores.

Como os grupos se formam por motivações bastante distintas, suas formas de


interação também serão. Uma família forma-se com motivações bastante distintas
de uma gangue, por exemplo. No entanto, ambos são grupos sociais e em ambos há
um predomínio de contatos primários. Mas o que une a gangue é, geralmente, algum
SURSµVLWRFRQȵLWXRVR

No campo de nossa formação de caráter e personalidade, a família costuma ocu-


par um lugar central, pois é nela que se aprende a língua materna e é nela que se come-
ça a desenvolver os valores que levamos aos outros grupos dos quais fazemos parte.

163
Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

3 Unidade III

Cultura e Sociologia

Objetivos da unidade:

• Compreender a importância do conceito de cultura para a sociolo-


gia e conhecer algumas variações desse conceito;

• Conhecer diferentes instituições sociais e seu papel na sociedade;

• &RQKHFHURVLJQLȴFDGRGHVWDWXVVRFLDO

Competências e Habilidades:

• Conhecimento do conceito de cultura empregado nas ciências


sociais;

• Capacidade de relacionar as manifestações culturais a seus


FRQWH[WRVVRFLDLVHKLVWµULFRV

165
ADisciplina
Braz Cubas3 Sociologia

Ʌ Cultura e Sociedade

2VRFLµORJREUDVLOHLUR'DUF\5LEHLUR  FHUWDYH]GHȴQLXFXOWXUDcomo


tudo o que é feito pelo homem, fosse algo material ou imaterial. Em outras palavras,
poderíamos considerar cultura tanto um carro (material) quanto uma festa popular
(imaterial).

$VVLPSRGHPRVWLUDUFHUWDVFRQFOXV·HVGHVVHSHQVDPHQWR3RGHPRVDȴUPDU
HQW¥RTXHWXGR«FXOWXUD"1RUPDOPHQWHH[SUHVV·HVFRPRȊWXGRȋȊQDGDȋȊVHPSUHȋ
HȊQXQFDȋQ¥RWUDGX]HPRTXHTXHUHPGL]HULVVRSRUTXHDVFRLVDVV¥RPDLVUHODWLYDV
H PHQRV DEVROXWDV 3DUD TXH D QRVVD SHUJXQWD WHQKD XP ȊVLPȋ FRPR UHVSRVWD «
SUHFLVRUHODWLYL]DURȊWXGRȋ3RLVEHPVHFRQVLGHUDUPRVHVVHȊWXGRȋFRPRRFRQMXQWR
de coisas produzidas pelos seres humanos no âmbito de suas relações sociais, pode-
UHPRVUHVSRQGHUȊVLPȋ

Os elementos da natureza que nos cercam, em seu estado natural, não consti-
tuem cultura. De resto, conforme dito anteriormente, tudo o que existe como resul-
tado da nossa ação na natureza, transformado ou criado por nós, é cultura. A história
da humanidade é a história da nossa cultura.

A cultura deve ser entendida enquanto um processo social. Ela é resultado da


ação coletiva dos seres humanos, portanto, não é parte da natureza dos indivíduos.
É assimilada pelos mesmos por intermédio das relações sociais estabelecidas.

O processo de transmissão da cultura ocorre pelas relações educativas, e isso


pode acontecer de forma sistemática ou assistemática. Em sociedades menos com-
plexas, como é o caso das comunidades indígenas nativas do Brasil, ela se dá apenas
de forma assistemática, diluída nas outras relações sociais. Tudo o que uma criança
indígena precisa saber para ser um adulto útil é aprendido diariamente, sem que
H[LVWDXPPRPHQWRHVSHF¯ȴFRSDUDLVVR

Já em sociedades complexas, como é o caso da nossa, além das relações edu-


cativas assistemáticas, crianças e adultos precisam viver relações educativas siste-
máticas (via sistema educacional - escola) para adquirir as condições necessárias
para viver plenamente.

Como o espectro da cultura é muito amplo, podemos dizer que os aspectos


culturais possuem duas naturezas: materiais e não materiais.

166
Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

ASPECTOS MATERIAIS ASPECTOS NÃO MATERIAIS


são todos os objetos, ferramentas e são todas as coisas produzidas no
utensílios produzidos por um determi- campo das ideias por um determinado
nado grupo social. São exemplos de grupo social. São exemplos de aspectos
aspectos materiais da cultura: cadeira, não materiais da cultura: as religiosida-
lápis, carro etc. des, as ideologias, os hábitos etc.

É importante ressaltar o seguinte. Esses aspectos possuem naturezas distintas,


mas eles apresentam uma relação de interdependência. Um não existe sem o outro.

ASPECTOS MATERIAIS ASPECTOS NÃO MATERIAIS

O ritual religioso é um aspecto não material da cultura. Porém, para que ele
seja realizado são necessários vários aspectos materiais, como altar, bancos ou ca-
deiras, templo etc. Do mesmo modo, quando imaginamos a produção de um bem
físico (aspecto material da cultura), para que ele seja produzido deverá existir inicial-
mente como ideia para depois ganhar forma.

Ʌ Patrimônio Cultural

Tudo aquilo que é produzido por um povo, seja de natureza material ou não
material se constitui em patrimônio cultural. Esse patrimônio é passado de geração
em geração e, no decorrer desse processo, ele é aumentado.

Cada geração recebe um patrimônio cultural da geração anterior. Depois disso,


atua para aumentar esse patrimônio e em seguida passar para uma geração futura.
3RGHPRVDȴUPDUHQW¥RTXHRSDWULP¶QLRFXOWXUDOHVW£HPFRQVWDQWHFUHVFLPHQWR

E como se dá o crescimento do patrimônio cultural? Ele ocorre pela invenção


e pela difusão.

167
ADisciplina
Braz Cubas3 Sociologia

'LIXV¥RQuando algo que foi inventado


ΖQYHQ©¥R6empre que um gru-
ou descoberto por um determinado gru-
po social realiza uma invenção
po social é difundido para outros grupos
ou descoberta, o seu patrimô-
sociais, o patrimônio cultural desses gru-
nio cultural é aumentado.
pos também aumenta.

Portanto, é tarefa de qualquer geração buscar preservar e ampliar o que rece-


beu como herança das gerações anteriores.

A cultura é algo extremamente importante na estruturação social de qualquer


povo. Ela contempla tudo aquilo que foi produzido pelo grupo social em toda a sua
existência. Sendo ela a somatória da produção material e não material realizada so-
cialmente pelos indivíduos, ela é responsável pela caracterização de cada grupo so-
cial existente.

É em função dos aspectos materiais e não materiais pertinentes a cada grupo so-
FLDOTXHRVVHXVLQGLY¯GXRVVHLGHQWLȴFDP‹DH[SHUL¬QFLDFXOWXUDOGRFROHWLYRTXHSRV-
sibilita o sentimento de identidade entre aqueles que compõem o mesmo grupo social.

Os símbolos, valores, normas e sanções, hábitos e costumes, além de todos


os objetos que nos cercam, atuam na caracterização de cada um de nós. Somos,
HPJUDQGHPHGLGDUHȵH[RGHQRVVDVH[SHUL¬QFLDVFXOWXUDLV1RVVRFRPSRUWDPHQWR
nossas crenças, a língua que falamos, são aspectos culturais assimilados por nós do
meio onde vivemos.

Ʌ Elementos da Cultura

O homem é um ser social e viveu e vive em sociedades organizadas de formas


GLVWLQWDV 6HPSUH TXH QRV UHIHULPRV D XPD VRFLHGDGH HVSHF¯ȴFD VHMD XP SD¯V RX
qualquer conformação que o valha) estamos falando de um sistema cultural.

9DPRV HQWHQGHU PHOKRU HVVH DVVXQWR H WDPE«P RV IHQ¶PHQRV FXOWXUDLV


estudando o conteúdo disponibilizado no AVA. Leia o material, consulte os
links disponíveis e os vídeos complementares. Lembre-se que esse material
é parte integrante do conteúdo e será discutido nas atividades e avaliações.

168
Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

Ʌ Tempo e Cultura

O texto que você lerá a seguir é um ótimo exemplo para compreender os va-
lores de um povo e a sua cultura. Trata-se de um texto publicado na década de 1920
pelo antropólogo alemão Erich Schureman. Em viagem à Polinésia, Schureman co-
QKHFHXXPDWULERFKHȴDGDSRUXPKRPHPFKDPDGR7X£YLL(OHSDVVRXXPWHPSR
convivendo na tribo e propôs ao chefe indígena que fosse conhecer a sua aldeia.
Então levou Tuávii para a Alemanha.

Na Alemanha, Tuávii deixou um interessante relato sobre como ele percebeu


os hábitos ocidentais. Neste interessante relato, entre os diversos temas abordados
por ele, você lerá o que o chefe indígena falou sobre o tempo.

O Papalagui nunca está satisfeito com o tempo que tem; e acusa o grande Espí-
rito por não lhe ter dado mais. Chega a blasfemar contra Deus, contra a sua grande
sabedoria, dividindo e subdividindo em pedaços cada dia que se levanta de acordo
com um plano muito exato. Divide o dia tal qual um homem partiria um coco mole
com uma faca em pedaços cada vez menores. Todos os pedaços têm nome: segun-
do, minuto, hora. O segundo é menor do que o minuto, este é menor do que a hora;
juntos, minutos e segundos formam a hora e são precisos sessenta minutos e uma
quantidade maior de segundos para fazer o que se chama hora.

(...)

Ȋ2WHPSRYRDȋȊ2WHPSRFRUUHIHLWRXPFRUFHOȋȊ'HHPXPSRXFR
PDLVGHWHPSRȋV¥RDVTXHL[DVGR%UDQFR

7RGR3DSDODJXL«SRVVX¯GRSHORPHGRGHSHUGHURVHXWHPSR3RU
LVVRWRGRVVDEHPH[DWDPHQWH HQ¥RVµRVKRPHQVPDVDVPXOKHUHV
e as criancinhas), quantas vezes a lua e o sol saíram desde que, pela
primeira vez, viram a grande luz. De fato, isso é tão sério que, a cer-
WRVLQWHUYDORVGHWHPSRVHID]HPIHVWDVFRPȵRUHVHFRPHVHEHEHV
Muitas vezes percebi que achavam esquisito eu dizer, rindo, quando
PH SHUJXQWDYDP TXDQWRV DQRV WLQKD Ȋ1¥R VHLȋ Ȋ0DV GHYLDV VD-
ber”. Calava-me e pensava que era melhor não saber.

7HUWDQWRVDQRVVLJQLȴFDWHUYLYLGRXPQ¼PHURSUHFLVRGHOXDV‹SH-
rigosa esta maneira de indagar e contar o número das luas, porque
assim se chega a saber quantas luas dura a vida da maior parte
GRV KRPHQV 7RGRV SUHVWDP PXLWD DWHQ©¥R QLVVR H SDVVDQGR XP
número muito grande de luas, dizem: “Agora, não vou demorar a

169
ADisciplina
Braz Cubas3 Sociologia

morrer”. E então essas pessoas perdem a alegria e morrem mesmo


dentro de pouco tempo.

6µXPDYH]«TXHGHSDUHLFRPXPKRPHPTXHWLQKDPXLWRWHPSR
TXHQXQFDVHTXHL[DYDGHQ¥RW¬ORPDVHUDSREUHVXMRHGHVSUH]D-
GR2VRXWURVSDVVDYDPORQJHGHOHQLQJX«POKHGDYDLPSRUW¤QFLD
1¥RFRPSUHHQGLHVVDDWLWXGHSRUTXHHOHDQGDYDVHPSUHVVDFRP
os olhos sorrindo, mansa, suavemente. Quando lhe falei, fez uma
FDUHWDHGLVVHWULVWHPHQWHȊ1XQFDVRXEHDSURYHLWDURWHPSRSRU
LVWRVRXSREUHVRXXPEREDOK¥Rȋ7LQKDWHPSRPDVQ¥RHUDIHOL]

(...)

•DPDGRVLUP¥RV  1¥RSUHFLVDPRVGHPDLVWHPSRGRTXHWHPRV


HQRHQWDQWRWHPRVWHPSRTXHFKHJD6DEHPRVTXHQRGHYLGRWHP-
SRKDYHPRVGHFKHJDUDRQRVVRȴPHTXHR*UDQGH(VS¯ULWRQRVFKD-
mará quando for sua vontade, mesmo que não saibamos quantas
luas nossas passaram. Devemos livrar o pobre Papalagui, tão con-
fuso da sua loucura! Devemos devolver-lhe o verdadeiro sentido do
tempo que perdeu. Vamos despedaçar a sua pequena máquina de
FRQWDURWHPSRHOKHHQVLQDUTXHGRQDVFHUDRS¶UGRVRORKRPHP
tem muito mais tempo do que é capaz de usar. (Relato publicado
por Erich Scheurmann, disponível em < http://www.reneguenon.
net/oinstitutotextosPapalagui.html> )

Este rico relato é importante porque faz o contrário do que estamos acostuma-
dos. Os cientistas sociais ocidentais, em especial os antropólogos, costumam produ-
zir diversos relatos que contém informações que, para nós, soam como H[µWLFDV, ou
pitorescas. Nesse caso, nós somos os exóticos. Vemos o tempo de uma forma que
não faz nenhum sentido para o Tuávii e sua tribo. Tanto que ele desejaria nos mos-
trar que GRQDVFHUDRS¶UGRVROWHPRVWHPSRTXH chega.

Outra observação interessante a se fazer é que, por esse relato, podemos perce-
ber que a forma como vemos o tempo também é uma construção cultural. Nós, papa-
laguis, criamos uma percepção de que parece que somos esmagados pelo tempo. Cla-
ro que isso tem a ver com nosso modelo de trabalho, de estudo e de todo nosso modo
de vida. É difícil perceber as coisas quando estas nos parecem naturais, como o tempo.
Por isso, o relato do índio polinésio tem muito a nos ensinar sobre nossa cultura.

Agora nós veremos o papel das diferentes instituições sociais. Estas estão relacio-
nadas à cultura, pois são importantes meios de transmissão de cultura, valores, normas
e sanções sociais, entre muitos outros elementos que compõem a vida em sociedade.

170
Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

Ʌ Sociedade e suas Instituições

Ʌ Conceito

Instituição social é um conjunto de regras e procedimentos padronizados, de-


mandados pela sociedade e, por isso mesmo ela é reconhecida e aceita socialmente.

Toda instituição só existe em função de necessidades sociais. Cada uma das ins-
WLWXL©·HV HHODVV¥RPXLWDV DWHQGHDXPDQHFHVVLGDGHVRFLDOHVSHF¯ȴFD0HVPRVHQ-
do muitas e diversas, existe uma relação de interdependência entre elas. Isso implica
no seguinte: Toda vez que uma instituição vive um processo de mudança ou transfor-
mação, as outras, em maior ou menor intensidade, também sofrem mudanças.

Ʌ Principais Instituições Sociais

Entre as instituições existentes, podemos destacar a escola, família, igreja e o


Estado. Cada uma dessas instituições se constitui em espaço prioritário para a regu-
lação de determinadas relações sociais.

A escola regula O Estado regula


A família regula as A igreja regula as
as relações o conjunto das
relações familiares. relações religiosas.
educacionais. relações sociais.

Isso não quer dizer que cada uma dessas relações só ocorra em um espaço
HVSHF¯ȴFR1DHVFRODSRUH[HPSORDUHOD©¥RVRFLDOSULRULW£ULD«DHGXFDFLRQDO0DV
nela também ocorrem as relações familiares, religiosas, políticas etc.

171
ADisciplina
Braz Cubas3 Sociologia

Atenção:

&RPRIRLGLWRDQWHULRUPHQWHWRGDLQVWLWXL©¥RH[LVWHSDUDDWHQGHUDVQHFHV-
VLGDGHVVRFLDLV6µTXHGHVVHSRQWRGHYLVWDSRGHPRVVHSDUDUDLQVWLWXL©¥R
LJUHMDGDVGHPDLV(QTXDQWRDVRXWUDVLQVWLWXL©·HVDWHQGHP¢QHFHVVLGDGHV
PDWHULDLVGDVRFLHGDGHDLJUHMD«D¼QLFDTXHDWHQGH¢QHFHVVLGDGHVHVSL-
rituais da sociedade.

0DVRTXHVLJQLȴFDHVWDUYLQFXODGRDLQVWLWXL©·HVVRFLDLV"&RPRSRGHPRVSHU-
ceber, fazer parte de instituições sociais, muitas vezes, independe da vontade. Famí-
lia e Estado são exemplos disso. No entanto, nossos papéis nessas instituições de-

172
Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

pendem do status que ocupamos nelas. Para compreender essa relação entre status
e papel social desempenhado por nós, vamos tratar agora desses conceitos.

Ʌ Status Social e Estratificação Social

Toda sociedade tem um tipo característico de divisão social. Chamamos essas


GLYLV·HV GH HVWUDWLȴFD©¥R VRFLDO +£ GLIHUHQ©DV HFRQ¶PLFDV H GH SUHVW¯JLR HQWUH RV
diferentes grupos sociais. Nem sempre a diferença de prestígio encontra-se direta-
mente ligada ao poder econômico, como se poderia pensar. Há sociedades em que
o prestígio social deriva de uma função religiosa, por exemplo. Vejamos como isso
pode funcionar.

Como os seres humanos apresentaram organizações sociais distintas, pode-


PRVLGHQWLȴFDUGLIHUHQWHVWLSRVGHHVWUDWLȴFD©¥RVRFLDO&RPRM£GLWRDFLPDDHVWUDWL-
ȴFD©¥RVRFLDOYDULDGHVRFLHGDGHSDUDVRFLHGDGHHMXQWRFRPDHVWUDWLȴFD©¥RPXGD
se também a mobilidade entre um estrato e outro.

Chamamos de mobilidade social a possibilidade de passar de um estrato social


a outro. Essa mobilidade social pode ser horizontal ou vertical.

No caso da mobilidade social horizontal, estamos falando de uma situação na


qual o indivíduo exibe uma mudança de comportamento, sem que isso seja decor-
rente da variação de sua condição econômica.

Exemplo: Uma pessoa que vive em uma


cidade pequena e que apresenta um pa-
drão de vida X. Caso essa pessoa mude
para uma cidade grande, mesmo que ela
mantenha seu padrão de vida inalterado,
ela experimentará diversas mudanças em
seu comportamento, sem que isso repre-
sente melhora ou piora de sua situação
econômica.

Já a mobilidade social ascendente implica necessariamente em mudança no


padrão de vida. Portanto, ela é vertical e seu sentido pode ser ascendente (de ascen-
são social) ou descendente (de queda social).

173
ADisciplina
Braz Cubas3 Sociologia

Exemplo:

• Mobilidade social vertical ascendente:


quando a pessoa passa a integrar um
grupo econômico superior ao que in-
tegrava antes.

• Mobilidade social vertical descenden-


te: quando a pessoa apresenta piora
em sua condição econômica.

7LYHPRVEDVLFDPHQWHWU¬VWLSRVGHHVWUDWLȴFD©¥RVRFLDO

Sociedade de castas: são sociedades com Exemplo: Em alguns países da


XPD HVWUDWLȴFD©¥R H[WUHPDPHQWH U¯JLGD ƒVLD DW« R FDVDPHQWR HQWUH
que não permite nenhuma mobilidade indivíduos de castas diferentes
1.
social. Nesse tipo de sociedade, são leis é proibido. No caso da Índia, os
ou hábitos e costumes que impedem estratos sociais eram: brâmanes
qualquer mobilidade social. – xátrias – vaixás - sudras - párias.
Sociedade de estamentos: é uma
VRFLHGDGHHPTXHDHVWUDWLȴFD©¥RWDPE«P
é muito rígida, mas que em algumas raras
situações permite a mobilidade social,
apesar de também existirem mecanismos
Exemplo: A Europa Ocidental
2. VRFLDLVTXHLPSHGHP RXGLȴFXOWDPPXLWR 
durante a Idade Média.
D PRELOLGDGH (VVH WLSR GH HVWUDWLȴFD©¥R
existiu na Europa feudal e os estamentos
eram: nobreza e alto clero – comerciantes
– artesãos, camponeses livres e baixo
clero - servos.
Como exemplo de sociedade
Sociedade de classes: Conceito polêmico
de classes temos todo o mundo
3. QD VRFLRORJLD GHȴQLGR JHUDOPHQWH SRU
ocidental e grande parte do
critérios econômicos.
mundo oriental.

174
Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

0DU[  GHȴQLDDVRFLHGDGHGHFODVVHVDSDUWLUGHXPUHFRUWHHFRQ¶-


mico, dando ênfase à existência de duas classes fundamentais da sociedade capita-
lista, sendo estas a burguesia e o proletariado.

Burguesia: dono dos meios de Proletariado: dono apenas de sua força


produção. de trabalho.

-£SDUD0D[:HEHU  SDUDGHȴQLUDVFODVVHVVRFLDLVGHYHULDVHOHYDU


em consideração três fatores: poder, riqueza e prestígio. Marx reduzia a sociedade
contemporânea a duas grandes classes, tendo como parâmetro para medir a situa-
ção de ambas as classes a posse ou não dos meios de produção. Weber procurava
levar em consideração outros fatores de divisão social que estavam além das posses
materiais.

+RMHHPGLD«PXLWRFRPXPTXHDVSHVVRDVVHUHȴUDP¢VFDPDGDVH[LVWHQWHV
nessa sociedade utilizando os seguintes termos: classe alta - classe média - classe
baixa. O recorte aqui é econômico e está relacionado à renda das pessoas.

A sociedade capitalista é a que mais oferece possibilidade de mobilidade so-


cial, tanto a vertical ascendente, quanto a vertical descendente. No capitalismo não
H[LVWHPOHLVTXHSUR¯EDPDDVFHQV¥RVRFLDOPDVDSHQDVPHFDQLVPRVTXHGLȴFXOWDP
tal processo.

175
ADisciplina
Braz Cubas3 Sociologia

Fonte: http://ensinosociologia.fflch.usp.br/sites/ensinosociologia.fflch.usp.br/files/Ilan_repert%C3

%B3rio.pdf. Acesso em 14/12/2015.

Ʌ Status e Papéis Sociais

$RFRQVLGHUDUPRVRVLVWHPDGHHVWUDWLȴFD©¥RGHXPDVRFLHGDGHGHYHPRVFRQ-
cluir que os indivíduos que ocupam diferentes estratos sociais são diferentes em
relação ao prestígio social conferido a eles.

Isso vale para qualquer grupo social. Numa escola, por exemplo, um professor
possui direitos e deveres diferentes daqueles que tem o aluno. Em qualquer grupo
social que o indivíduo faça parte ele ocupa uma determinada posição. Pois bem, a
posição ocupada pelo indivíduo no grupo social é chamada de status social.

176
Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

A todo status social estão relacionados direitos, deveres, prestígios e, em al-


guns casos, privilégios. A quantidade de status pertencentes a uma pessoa equivale
ao número de grupos sociais dos quais ela participa.

O status social pode ser de dois tipos:

Status atribuído: aquele que não é escolhido pela


pessoa e não depende de seu esforço. São status
relacionados ao sexo, idade, nascimento, raça.
Exemplo: filho mais velho, mulher brasileira, filho de
banqueiro etc.

Status adquirido: aquele que depende da escolha,


esforço e capacidade da pessoa. São status que cada
um conquista no decorrer da vida. Exemplo: médico,
professor, aluno etc.

Todo status social corresponde a um papel social. Esse conceito diz respeito
ao conjunto de direitos e deveres que acompanha o status. Quando o padre celebra
uma missa, ele desempenha o papel social de um status que essa pessoa possui.

Levando em consideração esses dois novos conceitos, podemos dizer que todo
grupo social é também uma estrutura social e uma RUJDQL]D©¥RVRFLDO.

Estrutura social: conjunto de status 2UJDQL]D©¥R VRFLDO conjunto de


sociais existentes em um grupo so- papéis sociais correspondentes aos
cial. Tomando como exemplo uma status sociais existentes em um gru-
universidade como grupo social, a po social. No caso da universidade,
estrutura corresponde aos status a organização corresponde às ações
de: reitor, diretor, coordenador, pro- dos ocupantes de cada status.
fessor, estudante, funcionário etc.

$RUJDQL]D©¥RVRFLDORVVWDWXVHRVSDS«LVVRFLDLVV¥RGHȴQLGRVWDQWRSRUFULW«-
ULRVHFRQ¶PLFRVTXDQWRFXOWXUDLV3RGHPRVYHULȴFDUTXHSDUDVHFRPSUHHQGHUXPD
sociedade é necessário navegar por uma rede complexa de conceitos. Vamos testar
agora o que pudemos aprender nesta unidade.

177
ADisciplina
Braz Cubas3 Sociologia

Ʌ Considerações da Unidade III

Nesta unidade pudemos compreender a importância do conceito de cultura


para as ciências sociais, em especial para a sociologia. O conceito de cultura é central
para o desenvolvimento do pensamento sociológico, uma vez que a vida humana
não se resume a práticas para se sobreviver materialmente. Mesmo essas práticas
são permeadas de construções culturais.

A cultura, enquanto conceito, serve de base para muitos estudos sociológicos,


inclusive quando falamos em economia ou política.

Vimos também que não podemos deixar de considerar o papel das instituições
sociais para a vida em sociedade. As instituições sociais constituem uma importante
base para ação e convívio das pessoas em sociedade. Sendo assim, está diretamente
vinculada à cultura, pois as instituições são parte importante de transmissão dessa.

3RUȴPYLPRVTXHHPVRFLHGDGHHPHVSHFLDOQDVLQVWLWXL©·HVRFXSDPRVXPD
determinada posição que chamamos de status. Desse status por nós ocupado deriva
um papel que espera-se que seja desempenhado.

Nós ocupamos diferentes status ao longo da vida, inclusive simultaneamente.


(QTXDQWR RFXSDPRV R VWDWXV GH ȴOKR H LUP¥R HP IDP¯OLD SRGHPRV RFXSDU R VWD-
WXVGHȴHOQDΖJUHMDGHHVWXGDQWHQD8QLYHUVLGDGHHQWUHPXLWRVRXWURV$WRGRVRV
status que ocupamos, corresponde um dado papel. Tanto um como outro foram se
FRQVWLWXLQGRHVHPRGLȴFDQGRDRORQJRGDKLVWµULD

178
Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

Unidade IV
4

A Sociologia no Brasil: Principais Teóricos e


modelos Explicativos

Objetivos da unidade:

• Conhecer o processo histórico de formação da sociedade brasileira;

• &RQKHFHU DOJXQV WHµULFRV GD VRFLHGDGH EUDVLOHLUD *LOEHUWR )UH\UH


&DLR3UDGR-UH6«UJLR%XDUTXHGH+RODQGD

Competências e Habilidades:

• Conhecimento do processo histórico de formação da sociedade bra-


sileira;

• &DSDFLGDGHGHFRPSUHHQGHUDRULJHPGDVWHRULDVH[SOLFDWLYDVVREUH
a sociedade brasileira.

179
ADisciplina
Braz Cubas3 Sociologia

Ʌ Formação Histórica do Brasil

O Brasil é um país relativamente novo, mas possui características sui generis


(de seu próprio gênero). É muito difícil comparar a sociedade brasileira com outras,
mesmo que da América Latina. Ao olharmos o povo brasileiro, vemos uma pluralida-
GHW¥RJUDQGHGHFXOWXUDVHWRQVGHSHOHVGLIHUHQWHVTXHȴFDGLI¯FLOWUD©DUXPSHUȴO
do brasileiro médio.

Qual seria o sotaque brasileiro? Qual seria a vestimenta típica do brasileiro?


Qual seria a nossa música tradicional? Qual seria nosso prato típico? Tente respon-
der a essas questões, e outras de cunho genérico sobre o Brasil, e perceberá que
não há uma resposta que dê conta da diversidade brasileira. Só se pode, de forma
DSUR[LPDGDWUD©DUSHUȴVUHJLRQDLV(PHVPRDVVLPDSOXUDOLGDGHVHU£DFDUDFWHU¯V-
tica fundamental.

Fonte: http://www.culturamix.com/noticias/mundo/mito-das-tres-racas. Acesso em 14/12/2015.

Tal mosaico de culturas, sotaques e alimentos só pode ser compreendido se


nos voltarmos à nossa rica formação histórica. Vamos a ela?

1R $9$YRF¬ YDLDFHVVDU RVPDWHULDLV H HQWHQGHU WRGRVRV DVSHFWRV UHOD-


FLRQDGRV¢QRVVDIRUPD©¥RKLVWµULFD/HPEUHVHTXHRPDWHULDOGLVSRQ¯YHO
no AVA é parte do conteúdo da disciplina e será trabalhado nas atividades
virtuais e avaliações.

180
Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

Ʌ Estrutura Social do Brasil

Com uma agricultura voltada para o comércio externo e baseada na grande


propriedade e no trabalho escravo, a sociedade era agrária, escravista e patriarcal.
Todos respeitavam a autoridade doméstica e pública do senhor, ao mesmo tempo
pai, patriarca e chefe político.

Por toda a colônia, era em torno da grande propriedade rural que se desen-
volvia a vida econômica e social, tendo os povoados e as vilas um papel secundário,
limitado a funções administrativas e religiosas. Apenas com a expansão das ativida-
des de mineração é que a sociedade urbana se desenvolve na colônia, com algumas
características tradicionais, como a escravidão, e características novas, como o maior
número de funcionários, comerciantes, pequenos proprietários, artesãos e homens
livres pobres.

Porém, não existiria a grande produção sem que existissem os pequenos e


médios produtores, que era a maioria. O mercado interno foi fundamental para a
consolidação do Brasil como colônia. Não fosse o mercado interno, especialmente de

181
ADisciplina
Braz Cubas3 Sociologia

gado, não haveria meios de transporte. O gado era empregado tanto no transporte
quanto nas moendas, além do corte para alimentação. O comércio interno possibi-
OLWDYDWDQWRDYLGDGRSHTXHQRSURGXWRUTXDQWRGHKRPHQVTXHȴFDUDPPXLWRULFRV
com o comércio. Os tropeiros possibilitavam a circulação de mercadorias no Brasil.

Como vimos anteriormente,

HVWUDWLȴFD©¥RVRFLDO«RSURFHVVRGHGLIHUHQFLD©¥RGDVGLYHUVDVFDPDGDVVRFLDLV
de acordo com as condições sociais e econômicas apresentadas por ela. Durante
WRGDDVXDKLVWµULDDKXPDQLGDGHFRQKHFHXGLIHUHQWHVIRUPDVGHHVWUDWLȴFD©¥R
social. É a divisão da sociedade ou da população em camadas hierarquicamente
superpostas.

O Brasil foi colonizado no contexto da expansão comercial praticada pela Eu-


ropa, continente que vivia um processo de mudança causado pela desarticulação
do modo de produção feudal. No entanto, características de tal modo de produção
SRGHPVHULGHQWLȴFDGDVHPQRVVRSURFHVVRGHFRORQL]D©¥R

Como em Portugal, a classe dominante aqui foi a dos senhores de terra. A forma
usada pela coroa para a distribuição de terra obedeceu à lógica do sistema feu-
dal. A divisão de terras em capitanias hereditárias (1.534) era uma adaptação da
estrutura feudal presente na Metrópole. Compondo também o segmento social
mais privilegiado estavam as altas autoridades militares e eclesiásticas.

182
Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

A segunda classe social apresentava uma situação de vinculação com a primeira.


Dela faziam parte os pequenos proprietários, funcionários públicos, sacerdotes,
militares, administradores das fazendas, pessoal das guarnições, feitores, co-
merciantes. No início eram todos brancos e com o tempo surgiram os mestiços.

A terceira classe era composta pelos homens livres. No caso do campo eram
agregados à grande fazenda como parceiros, arrendatários, de atividade arte-
sanal rural. Viviam na terra de um senhor, dele dependiam e deviam favores.
Nas cidades e vilas eram aqueles que se dedicavam ao artesanato e a atividade
terciária, como transportes, comércio ambulante e outros serviços. A remunera-
ção era baixa e o poder de compra limitadíssimo, sendo esta classe constituída
por mestiços, brancos, negros e libertos.

Na parte mais baixa da pirâmide tínhamos o escravo, que elaborava produtos de


exportação, alimentos, fabricava objetos domésticos, realizava a manutenção de
equipamentos, trabalhos domésticos, trabalhava em obras públicas, construção
civil, transporte, entre outros. Sua expectativa de vida era baixa em relação ao res-
tante da população e a grande produção dependia dele.

Ʌ Do Brasil Agrário ao Brasil Urbano Industrial

Durante todo o período colonial e parte de nossa vida republicana, exibimos


como traço marcante de nossa organização social e econômica uma absurda con-
centração de terra nas mãos de poucos, uma produção baseada em monocultura e
mão de obra escrava durante um longo período (a abolição da escravatura foi em 13
de maio de 1888), sendo ela substituída pelo colonato (trabalho parcialmente remu-
nerado por salário).

$SHQDVQRȴQDOGRV«FXOR;Ζ;«TXHVHLQLFLRXRGHVHQYROYLPHQWRLQGXVWULDOHP
nosso país. Parte dos lucros obtidos com a produção do café foi direcionada para o
estabelecimento de indústrias, principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro. Eram
fábricas de tecidos, calçados e outros produtos de fabricação mais simples. A mão de
obra usada nessas fábricas era geralmente formada por imigrantes italianos.

183
ADisciplina
Braz Cubas3 Sociologia

184
Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

Ʌ O Brasil dos Anos 1970

Depois de viver um momento conturbado do ponto de vista político, que cul-


minou com a renúncia do Presidente Jânio Quadros, o Brasil cai em um período obs-
curo de sua história, vivendo um ciclo de autoritarismo que se inicia no ano de 1964
com o golpe militar e vai até 1985, ano da eleição de Tancredo Neves.

Fonte: http://www.faintvisa.com.br/faintvisa- Fonte: http://ultimosegundo.ig.com.br/


anuncia-programacao-para-o-seminario-dos- politica/2014-01-30/30-anos-depois-os-
50-anos-do-golpe-militar-de-1964/. Acesso em personagens-das-diretas-ja.html. Acesso em
14/12/2015. 14/12/2015.

Durante o período dos governos militares, principalmente no início dos anos


70, o Brasil vai conviver com inúmeras atrocidades patrocinadas pelo regime. Di-
versos brasileiros, principalmente jovens, que combatiam a ditadura militar vão ser
presos, torturados, assassinados e exilados. Por mais de duas décadas a democra-
cia foi substituída por um regime imposto pela força dos tanques e das baionetas,
trazendo consequências que são sentidas até os dias de hoje. Por outro lado, grupos
de esquerda tentavam se mobilizar para fazer uma revolução socialista no Brasil. A
Revolução Cubana (1959) deu a alguns desses grupos a esperança de que seria pos-
sível uma revolução no Brasil.

Do ponto de vista econômico, o período do militarismo também foi marcado


pela expansão do nosso parque industrial. Os setores mais dinâmicos são as indús-
trias da construção civil e de bens de consumo duráveis voltados para classes de
alta renda, como automóveis e eletrodomésticos. Expandem-se também a pecuária
e os produtos agrícolas de exportação. Os bens de consumo não duráveis, como
calçados, vestuário, têxteis e produtos alimentícios destinados à população de baixa
renda têm crescimento reduzido ou até negativo.

185
ADisciplina
Braz Cubas3 Sociologia

No início dos anos 70 o Brasil viveu um período de forte crescimento econômi-


FRPHVPRQXPPRPHQWRHPTXHDHFRQRPLDPXQGLDOSDVVDYDSRUV«ULDVGLȴFXOGD-
GHV(VVHIHQ¶PHQRȴFDFRQKHFLGRFRPRȊPLODJUHHFRQ¶PLFRȋHWHYHFRPRXPGRV
seus resultados, o fortalecimento de uma pequena classe média ávida por consumo.

Fonte: https://ecoemais.wordpress.com/2012/06/18/o-pib-e-o-melhor-indicador-do-desempenho-da-
economia/. Acesso em 14/12/2015.

Ʌ Constituinte de 1988 e o Brasil Recente

Logo após a posse do vice-presidente eleito no colégio eleitoral, José Sarney


(Tancredo Neves, eleito presidente nem chegou a tomar posse, pois morrera no Hos-
pital de Base de Brasília, onde estava internado), o debate sobre a convocação da
Assembleia Nacional Constituinte ganha corpo junto à sociedade. Não tivemos uma
eleição exclusiva para a escolha dos representantes da população para tal tarefa.
Houve uma eleição de deputados e senadores que, após concluírem os trabalhos
constituintes, exerceriam normalmente seus mandatos.

O que é mais importante em todo esse processo é que a Constituição de 1988


espelhou a reconquista dos direitos fundamentais, notadamente os de cidadania e
os individuais, o que simbolizou a superação de um projeto autoritário, pretensioso
e intolerante que se impusera ao país. A participação da população através das cha-
PDGDVHPHQGDVSRSXODUHVSHUPLWLXXPVLJQLȴFDWLYRDYDQ©RHPWHPDVLPSRUWDQWHV

186
Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

1RTXHVHUHIHUH¢DSOLFD©¥RGRDUFDERX©ROHJDOGHȴQLGRQR¤PELWRGD&RQV-
tituinte, percebemos que muitos dos avanços obtidos não puderam ser vivenciados
na prática, pois ainda hoje aguardam regulamentação.

A Constituição Brasileira é criticada por vários setores, mas deve-se destacar


que se trata de uma Constituição feita para tentar impedir que surja no Brasil no-
vamente algum regime autoritário, como o de Getúlio Vargas ou o Regime Militar. É
uma Constituição democrática.

Ʌ Sociologia no Brasil

Para conhecer a sociologia brasileira, é importante olhar para nossa história.


&RPRDȴUPDDVRFLµORJD&ULVWLQD&RVWD

Na América Latina, e em particular no Brasil, o processo de for-


mação, organização e sistematização do pensamento sociológi-
co obedeceu também às condições de desenvolvimento do ca-
pitalismo e à dinâmica própria de inserção do país na ordem
FDSLWDOLVWDPXQGLDO5HȵHWHSRUWDQWRDVLWXD©¥RFRORQLDODKH-
rança da cultura jesuítica e o lento processo de formação do Es-
tado nacional. (COSTA, 2007, p.300).

Ou seja, não podemos conhecer efetivamente a sociologia no Brasil sem co-


nhecer a história do país. Como pudemos ver nesta Unidade, o Brasil manteve-se
basicamente agrário e escravocrata por muito tempo. Transformações que levaram
o Brasil à industrialização só vieram na década de 1930. Essas transformações nor-
tearam mudanças no pensamento brasileiro.

Podemos dizer que a década de 1930 se norteou por algumas


preocupações gerais entre a intelectualidade. Em primeiro lugar,
o interesse pela descoberta do Brasil verdadeiro, em oposição
ao Brasil colonizado e estudado sob a visão eurocêntrica da Eu-
ropa. Em segundo lugar, o desenvolvimento do nacionalismo,
como sentimento capaz de unir as diversas camadas sociais em
torno de questões internas à nação e como inspiração para as
políticas econômica e administrativa de proteção ao comércio e

187
ADisciplina
Braz Cubas3 Sociologia

¢LQG¼VWULDQDFLRQDO$YDORUL]D©¥RGRFLHQWLȴFLVPRȂFRPRSULQ-
cipal forma de se conhecer e explicar a nação – e um grande
anseio por modernizar a estrutura social brasileira estavam tam-
bém presentes nesses estudos.

É dessa época a fundação da Escola Livre de Sociologia e Políti-


FDGD)DFXOGDGHGH)LORVRȴD&L¬QFLDVH/HWUDVHP6¥R3DXORH
da Ação Integralista Brasileira (1932), bem como do movimen-
to regionalista promovido por Gilberto Freyre, todos tentando
concretizar, a seu modo, as aspirações intelectuais do momento.
Também foi nesse período que a reforma de ensino proposta
pelo então Ministro Milton Campos, introduz a disciplina de so-
ciologia no Ensino Médio (1931) (COSTA, 2007, p. 305).

É na década de 1930 que surge um pensamento brasileiro na sociologia.


Inspirado em diferentes vertentes da sociologia, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque
GH+RODQGDH&DLR3UDGR-UDȊJHUD©¥RGHȋSURGX]LXRSHQVDPHQWRTXHVHULD
seguido por gerações e deixou seu legado até os dias de hoje. Nós veremos agora
uma introdução à obra desses três estudiosos.

Ʌ Alguns Sociólogos Brasileiros

Acesse o AVA antes de realizar as atividades virtuais e conheça sobre alguns


dos sociólogos brasileiros.

Ʌ Considerações da Unidade IV

Nesta unidade tivemos oportunidade de fazer um breve passeio pela história


do Brasil. Vimos que o Brasil se formou durante o período de expansão do comércio
europeu e que foi colonizado pelos portugueses.

&RQVHJXLPRVYHULȴFDUWDPE«PTXHRGHVHQYROYLPHQWRHFRQ¶PLFRGR%UDVLOIRL
lento e que nossa vocação econômica continuou basicamente agrícola, tendo havido
poucos momentos de arranque industrial em nossa história.

188
Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

Outra questão importante foi perceber que o Brasil se formou com base em
LQ¼PHUDV LQȵX¬QFLDV FXOWXUDLV HVSHFLDOPHQWH HXURSHLDV ¯QGLDV H QHJUDV 7DLV LQ-
ȵX¬QFLDVJHUDUDPXPSD¯VGHFXOWXUDSOXUDOHULFD3RULVVRPHVPRR%UDVLO«XPSD¯V
tão difícil de se compreender e analisar.

4XDQWR ¢ VRFLRORJLD EUDVLOHLUD GHGLFDPRV R ȴQDO GD XQLGDGH FRP R PDWHULDO


GLVSRQ¯YHO QR $9$ SDUD RV TXH V¥R FRQVLGHUDGRV RV WU¬V DXWRUHV PDLV LQȵXHQWHV
das Ciências Sociais brasileira: Caio Prado Jr., Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto
Freyre. Cada um com suas peculiaridades e escolhas teóricas, mas todos tentando
compreender e explicar o Brasil.

189
Sociologia ADisciplina
Braz Cubas3

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