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ANO xxiv edição 96 JUN 2017

ANO XXIV - Junho 2017 - Nº 96

Coordenação Editorial:
Vicky Safra
Assistentes de Coordenação:
a bÊnção rabínica, 1871 Clairy Dayan
moritz daniel oppenheim Fortuna Djmal
Assessora Internacional:
Muriel Sutt Seligson
Supervisão Religiosa:
Rabino Y. David Weitman
Rabino Efraim Laniado
Rabino Avraham Cohen
Jornalista Responsável:
Desirée Nacson Suslick
MTb 13603
Colaboradores especiais:
Jaime Spitzcovsky
Reuven Faingold
Tev Djmal
Zevi Ghivelder
Revisão e tradução de texto:
Lilia Wachsmann
Consultor:
Marcello Augusto Pinto
Coordenação de Marketing:
Hillel de Picciotto
Produção Gráfica:
Joel Rechtman
JR Graphiks - Tel: 3873 0300
Projeto Gráfico:
LEN - Tel: 3815 7393
Serviços Gráficos:
C&D Editora e Gráfica - Tel: 3862 8417
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Carta ao leitor

No dia 24 de maio deste ano – 28 de Iyar, o Povo Judeu, O milagre da Guerra dos Seis Dias foi a realização desse
em Israel e na Diáspora, celebrou Yom Yerushalayim sonho ininterrupto. Cinquenta anos atrás, um exército
– Dia de Jerusalém, o aniversário da libertação e de soldados judeus, idealistas e destemidos, “mais fortes
unificação da Cidade Sagrada sob soberania judaica, que leões e mais velozes que águias”, realizaram o anseio
ocorrida há 50 anos, durante a Guerra dos Seis Dias. de nosso povo. Somos, de fato, uma geração privilegiada.
O sonho de tantas gerações passadas constitui hoje uma
David Ben-Gurion, o primeiro Primeiro-Ministro do realidade.
Estado de Israel, declarou: “Nenhuma cidade do mundo,
nem mesmo Atenas ou Roma, teve um papel Como escreveu em “Jerusalém de Ouro” a grande
tão importante na vida de uma nação, durante tanto poetisa israelense Naomi Shemer, retornamos à Cidade
tempo, como Jerusalém na vida do Povo Judeu”. Antiga. Contudo, o sonho coletivo de nosso povo
ainda não se realizou totalmente: o Templo Sagrado
Desde a queda da cidade e a destruição do segundo permanece em ruínas e a paz ainda não veio ao mundo
Templo Sagrado de Jerusalém, a Nação Judaica sonhava e à mais bela das cidades, cujo nome possui muitos
em retornar à Cidade Sagrada – sua capital eterna e lar significados, dentre eles, “Cidade da Paz”. Esse é o
ancestral. Há mais de dois milênios, durante a oração motivo pelo qual continuamos a nos enlutar durante as
da Amidá, nós, judeus, rezamos voltados à Jerusalém, Três Semanas e a jejuar em Tishá b’Av.
o portal dos Céus. Lembramo-nos de Yerushalayim
em todas as ocasiões significativas – felizes ou tristes. O retorno a Jerusalém sempre foi associado à vinda
Concluímos o Seder de Pessach com as palavras, de Mashiach, ao fim da Diáspora e suas provações, e à
“Ano que vem em Jerusalém”. Durante as Três Semanas redenção do Povo Judeu e de toda a humanidade.
de Luto – que se iniciam em 17 de Tamuz e culminam A volta a Jerusalém simboliza a perfeição do mundo
com o jejum de Tishá b’Av – o dia mais triste do ano e o término de guerras, conflitos e todas as formas de
judaico, sentimo-nos enlutados e choramos a queda de sofrimento, individuais e coletivos. Assim, Jerusalém
Jerusalém e a destruição de seu Templo Sagrado. constitui muito mais do que a mais sagrada das cidades.
Representa as maiores esperanças e as mais nobres
O Povo Judeu, o judaísmo e Jerusalém estão entrelaçados. aspirações do Povo Judeu. Yerushalayim não é apenas
Muitos dos mandamentos da Torá não podem ser uma palavra repetida em nossas orações – tornou-se
cumpridos na ausência do Templo Sagrado. Além de uma oração em si.
ser o centro geográfico do judaísmo e a capital política e
espiritual de Israel, a Cidade Sagrada constitui também Hoje, rezamos e sonhamos para que esse sonho seja
uma força unificadora que manteve a nós, judeus, cumprido integralmente, com a chegada da paz para
unidos durante uma longa e árdua Diáspora de quase Israel, Jerusalém e o mundo todo – o dia em que o
2000 anos. Foi o sonho de a ela retornar que manteve Terceiro Templo Sagrado de Jerusalém será construído
acesa a esperança, permitindo que perseverássemos e e toda a humanidade finalmente viverá em paz e
sobrevivêssemos às épocas mais tormentosas. prosperidade.

Durante a Guerra de Independência de 1948, o recém-


estabelecido Estado Judeu perdeu a Cidade Antiga –
coração de Jerusalém, capturada pelas forças jordanianas.
No entanto, nunca deixou de acreditar que fosse iminente
a realização do sonho de vê-la unificada sob nossa
soberania.
ÍNDICE

12 19

33 42

46 55
03 carta ao leitor 19 destaque
Macron, otimismo vindo da França

por JAIME SPITZCOVSKY

06 NOSSAS LEIS
Mishkan, o Tabernáculo 22 personalidade
Ayelet Shaked, uma mulher

à frente da Justiça de Israel
12
SABEDORIA
A Essência de D’us, 28
israel
a Divina Providência As cores e a magia
e os Mandamentos dos mercados de Israel

4
REVISTA MORASHÁ i 96

06

67
33 HISTÓRIA 55 ISRAEL
Seis dias que fizeram história
Depois de Munique

– a Guerra de 1967 por zevi ghivelder

62 SHOÁ
42 ESCOLA BEIT YAACOV
As “Stolpersteine” - arte e memória


por reuven faingold
Jamais esquecer

67
israel
A batalha por Jerusalém
46 comunidades
Vida judaica na Escócia
75 cartas

5 junho 2017
NOSSAS LEIS

Mishkan, O TABERNÁCULO

“E Me farão um santuário, e Eu morarei entre eles”


(Êxodo 25:8)

U
ma pergunta intrigante com a qual se – representando uma amostra representativa dos
debatem teólogos e filósofos é por que recursos minerais, vegetais e animais do universo físico,
D’us teria se dado ao trabalho de criar o bem como dos recursos humanos investidos em sua
Universo. Como um Ser Perfeito é, por manufatura, foram usados para erguer o Mishkan. Esse
definição, completo, sem nada Lhe faltar, edifício, construído por seres humanos e dedicado ao
o que O teria levado à decisão de criar os mundos, físico serviço de D’us, foi o local físico onde D’us escolheu
e espiritual, e todos os seres que os habitam? O Midrash para se comungar com o homem.
Tanchuma responde, enigmaticamente, que D’us criou o
mundo porque Ele desejava ter uma morada nos mundos Sua descrição na Torá é longa e minuciosa. Uma
inferiores. O Rabi Shneur Zalman de Liadi, fundador da boa parte do Livro de Êxodo – nada menos que 13
dinastia Chabad-Lubavitch e autor de obras cabalistas capítulos – são repletos de detalhes sobre a construção
seminais, explica em seu Likutei Amarim (Sefer HaTanya) do Tabernáculo, desde as dimensões de cada pilar
que: “É disso que se trata o homem… É este o propósito às cores que compõem cada tapeçaria. É intrigante
de sua criação e da criação de todos os mundos, o que a descrição do Miskhan na Torá seja tão longa
superior e o inferior: para que fosse feito para D’us uma e elaborada, pois quem estuda o Talmud sabe que
morada nos mundos inferiores”. os Cinco Livros de Moisés são extraordinariamente
sucintos. Cada uma de suas letras, tendo sido escritas
A primeira dessas moradas a ser erguida – que serve por D’us e transmitidas a Moshé, tem significado.
como protótipo para o empenho de construir uma Como demonstrado no Talmud, a Torá transmite
morada para D’us no mundo físico – foi o Mishkan, o muitas leis complexas por meio de um único versículo
Tabernáculo – santuário portátil construído pelos Filhos ou mesmo uma única palavra ou letra. Por que,
de Israel no Deserto de Sinai, após o Recebimento então, dedica 13 de seus capítulos a detalhes sobre o
da Torá no Monte Sinai. Quinze substâncias físicas Tabernáculo, se apenas dedica um único capítulo a seu
– entre as quais ouro, prata, cobre, madeira, lã, linho, relato da criação do Universo, e apenas três à Revelação
peles de animais, óleo, especiarias e pedras preciosas Divina no Sinai?

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REVISTA MORASHÁ i 96

Maquete do Aron Hakodesh, imagem reproduzida do livro “Le Tabernacle” de Mochè Levine, 1968, “Melechet Hamishkan”,
Tel Aviv, Israel

A resposta é que o próprio Aliança, que continha as Tábuas Schneerson, resume comentários
propósito da criação do Universo foi do Testemunho, correspondia à de Rabenu Bechayei, Rabi Moshe
incorporado pelo Mishkan. Assim mente e ao dom da fala. A Menorá Isserlis (o Ramá), Rabi Yeshayahu
sendo, cada detalhe é importante. – candelabro de sete braços, que era Horowitz (o Shelá HaKadosh), e de
Por exemplo, é necessário definir – aceso diariamente – representava outros Sábios acerca de como os
como faz o Talmud – as 39 formas o sentido da visão. O Shulchan – a domínios básicos do Mishkan são
de trabalho criativo – desde arar até Mesa que continha o “pão sagrado” comparáveis às divisões na criação
tecer ou escrever – envolvidas na – simbolizava o sentido do paladar. do Universo, no Tempo e na alma
construção do Mishkan. Pois aqui se O Altar Interior, sobre comunitária do Povo Judeu.
situa o protótipo para o trabalho de o qual era queimado
nossa vida de tornar nosso mundo o incenso, Ketoret, Maimônides – o
e nossa existência uma morada para correspondia ao maior filósofo judeu
D’us. sentido do olfato, ao e um dos maiores
passo que o Altar legisladores em
Microcosmo do Exterior, para o Torá – descreve
Universo: Os Três qual as oferendas de o Universo como
Domínios sacrifícios de animais consistindo de três
e de alimentos eram estratos: matéria
O Midrash e a Cabalá descrevem levadas, representava o não refinada – a Terra
o Mishkan como um microcosmo aparelho digestivo. e todos os seus seres
do ser humano, do universo físico terrestres; matéria refinada –
e da Criação como um todo. Os Em um dos seus cadernos as estrelas e os corpos celestes; e
utensílios do Mishkan, por exemplo, manuscritos (Reshimot) descobertos os seres puramente espirituais –
representavam os vários órgãos e após seu falecimento, o Lubavitcher entidades que não possuem matéria,
sentidos do homem. A Arca da Rebe, Rabi Menachem Mendel como os anjos.

7 junho 2017
NOSSAS LEIS

No Mishkan O Tempo também pode ser Levi, constituída pelos Cohanim e


dividido em três domínios: Levi’im, cujo serviço no Miskhan, e,
– a Morada de D’us os seis dias de trabalho (que mais tarde, no Templo Sagrado de
na Terra – esses correspondem à matéria não Jerusalém, envolvia o refinamento
refinada); o Shabat – Dia Sagrado e a elevação do mundo material.
três domínios eram (matéria refinada), e o Yom Kipur Finalmente, entre os Cohanim havia
representados pelo – Shabat dos Shabatot – a data o Cohen Gadol, o Sumo Sacerdote,
Pátio, o Lugar Santo mais sagrada do calendário judaico: cujo propósito era personificar as
um dia no qual os judeus, que se maiores alturas espirituais que o ser
(a câmara externa) e abstêm dos prazeres físicos e se humano pode alcançar.
o Santo dos Santos dedicam integralmente ao serviço
de D’us, são comparados aos No Mishkan – a Morada de D’us
(a câmara interna e anjos (entidades sem matéria). na Terra – esses três domínios eram
mais santificada de Entre as almas do Povo Judeu, representados pelo Pátio, o Lugar
também encontramos três Santo (a câmara externa) e o Santo
todas) domínios primários. Onze das dos Santos (a câmara interna e mais
Doze Tribos de Israel eram santificada de todas).
Israelim, cuja vida era dedicada,
em geral, aos assuntos da vida No Pátio do Tabernáculo eram
material – líderes, empresários, realizados os elementos mais terrenos
mercadores, fazendeiros e soldados. e materiais do Serviço Divino. Era
Houve também a Tribo de nesse domínio que os Cohanim
lavavam suas mãos e seus pés para
O Mishkan: O Tabernáculo no Deserto do Sinai
se purificarem de seu contato com
o mundo material, antes de iniciar
seu serviço. Era no Pátio que os
sacrifícios de animais, Korbanot, eram
realizados. Era também lá que a
gordura dos sacrifícios, simbolizando
o excesso de materialidade na vida
do ser humano, era queimada sobre
o Altar Exterior, e onde as cinzas
da Menorá e do Altar Interior – que
simbolizavam o desperdício – eram
depositadas.

O segundo domínio do Mishkan era


o Lugar Santo (a câmara externa).
Somente os Cohanim tinham
permissão de lá entrar. O Lugar
Santo abrigava os elementos mais
refinados do Serviço do Templo: a
Menorá, o Altar Interior (no qual
o incenso diário era queimado) e
o Shulchan – a Mesa que continha
o “pão sagrado”, comido pelos
Cohanim no Shabat.

O terceiro domínio e o mais sagrado


de todos era o “Santo dos Santos”,
que abrigava a Arca da Aliança.

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REVISTA MORASHÁ i 96

O Talmud ensina que a entrada no


Santo dos Santos era proibida a
todos – mesmo os anjos e demais
criaturas celestiais. A única exceção
era o Cohen Gadol, que lá podia
entrar – mas apenas em Yom Kipur
– o dia mais sagrado do calendário
judaico. O Santo dos Santos
representava a total transcendência
de materialidade no serviço do
homem a D’us.

A Arca e o Altar:
o Cabalista e o
Legislador

É evidente que o Santo dos Santos


era mais sagrado que o Lugar Santo,
e que este era mais sagrado do que
o Pátio. Mas, qual dos domínios
do Mishkan representava sua
principal função? De acordo com
Nachmânides, Cabalista e um dos
maiores comentaristas da Torá e
do Talmud, a essência do Mishkan,
Morada Divina na Terra, era seu
núcleo espiritual: o Santo dos Santos,
onde repousava a Arca da Aliança.
Como escreveu Nachmânides: “A Maquete da estrutura do MishkAn, imagem do livro “Le Tabernacle”
principal finalidade do Santuário é de Moché Levine
servir como lugar de repouso para
a Presença Divina. Isso ocorre na Contrariamente a Nachmânides, um lugar no qual e através do qual o
Arca da Aliança, pois D’us disse Maimônides defende que o eixo do homem sirva a D’us.
a Moshé: ‘Comungarei contigo lá, Tabernáculo, em torno do qual tudo
falando contigo por cima do Kaporet revolvia, era o Pátio, não o Santo dos O Mishkan serviu a ambos os
(a cobertura dourada da Arca da Santos. propósitos. Foi o lugar de onde D’us
Aliança)’. Por essa razão, a Torá se comunicou com Moshé. Era, pois,
inicia sua descrição do Mishkan A discussão sobre o ponto central do um domínio de onde D’us chegava
com a Arca da Aliança e o Kaporet” Mishkan não é meramente filosófica aos seres humanos: onde o homem
(Nachmânides, comentário sobre e acadêmica. Tem profundas finito podia testemunhar e vivenciar
Êxodo 25:1). ramificações que podem afetar a Presença do Infinito. Mas o
nossa compreensão do propósito da Mishkan foi, também, um local físico
Segundo Maimônides, no entanto, Criação e dos mandamentos da Torá. onde o homem oferecia suas posses
o ponto focal do Mishkan era o Levanta a questão de como definir físicas e seu serviço a D’us. Qual
Altar Exterior, onde as oferendas de o conceito de um local e estrutura dessas duas funções é a principal?
farinha e de vinho e os sacrifícios de físicos, que serve de Morada para Qual das duas serve e facilita a
animais eram ofertadas diariamente. D’us no mundo físico. Por um lado, outra? Seria a Morada de D’us na
Maimônides define o Santuário a Morada de D’us na Terra pode ser Terra um meio para o Altíssimo
como “uma casa para D’us destinada um domínio no qual e através do se achegar ao homem ou seria um
à oferenda de sacrifícios...” (Mishnê qual D’us optou por Se revelar ao portal de onde o homem poderia
Torá, Leis do Templo Sagrado 1:1). homem. Por outro, pode também ser aproximar-se de D’us?

9 junho 2017
NOSSAS LEIS

D’us decretou muitos mandamentos,


O Rebe de Lubavitch explica que que são caminhos para Sua Essência
as diferentes perspectivas expressas Impenetrável. Alguns desses
por Nachmânides e Maimônides mandamentos são físicos, outros são
refletem as duas vertentes da Torá espirituais. Doar aos pobres, colocar
que esses dois grandes Sábios Tefilin, comer alimentos casher,
representam. habitar numa Sucá em Sucot e comer
Matzá durante o Seder de Pessach são
Para Nachmânides, místico e exemplos de mandamentos Divinos
Cabalista, o ponto focal do Mishkan executáveis por meio de ações e
está em seu núcleo espiritual: o objetos físicos.
Santo dos Santos, onde apenas a
mais transcendente das almas – o Mas a Torá também contém
Cohen Gadol – podia entrar, e apenas mandamentos mais espirituais do
no dia mais sagrado do ano – Yom O “ALTAR DE OURO” ONDE ERA QUEIMADO que físicos, tais como amar e temer
Kipur. O Santo dos Santos continha O INCENSO a D’us e orar a Ele; estudar e ensinar
a Arca da Aliança, que abrigava a Sua Torá; sentir angústia em Tishá
as Tábuas do Testemunho, nas Revelações Divinas que emanavam b’Av e alegria em Purim. Esses são
quais estavam inscritos os Asseret do Santo dos Santos – são mandamentos que cumprimos com
HaDibrot (os Dez Mandamentos). secundárias: são o meio, e não o fim, nossa alma e não com recursos
O Kaporet, a cobertura da Arca, e se prestam a permitir e ajudar no físicos: com nosso coração e
era uma representação das formas serviço do homem a seu Criador. nossa mente – com pensamentos,
sublimes da Carruagem Celestial. sentimentos e palavras.
A Voz Divina que se propagava Resumindo, Nachmânides defende
do meio dos Querubins, as figuras que a função da Morada de D’us na Qual o nosso propósito neste
angelicais que ficavam no topo da Terra é servir como um portal onde mundo? Na ausência do Mishkan e
Arca, expressavam a essência de o Altíssimo faça brilhar sua Luz do Templo Sagrado de Jerusalém,
uma Morada Divina: um portal sobre nós, seres humanos. Segundo como o judeu se torna uma Morada
para o mundo material através do Maimônides, no entanto, essa função para D’us na Terra? Servindo a Ele
qual brilha um raio da Luz Infinita é permitir que o homem finito com nosso corpo e nossas posses
de D’us. Se Nachmânides estiver cumpra a Vontade Divina, desta materiais ou com nossa alma, mente
correto – se o Santo dos Santos é o forma, ligando-se a Ele. e coração? Em outras palavras, o
eixo central do Mishkan –, tudo o que é mais meritório perante o
mais serve apenas para “preparar o Onde D’us mora, Altíssimo: doar ao pobre ou estudar
terreno” para essa Revelação atualmente? a Torá? Comer casher ou orar profusa
– para elevar o homem e o mundo e sinceramente? Uma pergunta
a um estado de receptividade a essa Na ausência do Mishkan e do similar: Quem está mais próximo
Luz. Templo Sagrado de Jerusalém, onde de D’us: o empresário filantropo ou
reside D’us Infinito? Onde é Sua o grande sábio? Em outras palavras,
Para Maimônides – o mestre da Morada na Terra? qual a parte mais sagrada em nós:
Halachá, possivelmente o maior nossos atos físicos, do cotidiano, ou
de todos os legisladores judeus Ensina o Talmud: “Desde o dia nossas aspirações transcendentais?
– a essência do Mishkan residia em que o Templo foi destruído, o
no Altar, onde eram oferecidos Santo, Bendito Seu Nome, nada Poder-se-ia dizer que se D’us fosse
os sacrifícios, que representavam tem neste mundo, exceto os quatro um Ser físico, os mandamentos
o empenho humano de oferecer, cúbitos da Halachá (a Lei Judaica)” físicos seriam a forma preferencial de
dia-a-dia, elementos materiais de (Talmud Bavli, Berachot 8a). servi-Lo. Mas D’us é completamente
sua vida a D’us. Todo o restante Isso significa que D’us reside isento de qualquer fisicalidade.
– a luz da Menorá, a fragrância do onde quer que o homem estude Muitos presumem, erroneamente,
Ketoret (incenso), e o pão sagrado a Sua Torá e cumpra os Seus que D’us é o Ser espiritual supremo.
no Shulchan (a Mesa) – e mesmo as mandamentos. Acreditam, portanto, que a pessoa

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REVISTA MORASHÁ i 96

religiosa é espiritual: ou seja, que


é mais importante colocar as
palavras do Shemá Israel em nosso
coração do que colocar Tefilin,
que fisicamente as contém. No
entanto, D’us está tão distante
da espiritualidade como está da
fisicalidade. D’us nem é espiritual
nem físico. Ele apenas É. Portanto,
nem os mandamentos físicos nem
os espirituais da Torá gozam de
qualquer forma de superioridade
uns sobre os outros.

Tenda do
Encontro com D’us

“Estas e estas são as palavras do


D’us Vivo”, afirma o Talmud sobre
as disputas entre os Sábios sobre
interpretações da Torá. Isso significa
que todos os pontos de vista deles
são válidos, mesmo se a Lei Judaica
dá precedência a um sobre os
demais. A visão mística, cabalista,
expressa por Nachmânides e
a perspectiva legal da Halachá Aharon HaKohen, o primeiro Sumo Sacerdote, acendendo a Menorá
apresentada por Maimônides são, - o candelabro do Tabernáculo

ambas, componentes integrais da


“Morada de D’us” construída no presente, implicitamente, dentro O Povo Judeu construiu o primeiro
Deserto do Sinai, e a “Morada de da finitude e materialidade da protótipo da Morada de D’us
D’us” que todo judeu tem o dever existência. na Terra seguindo instruções
de construir em sua vida. muito detalhadas que o Altíssimo
O Mishkan incluía três domínios transmitiu a Moshé no Sinai.
Essa é a razão pela qual a Torá – o Pátio, o Lugar Santo e o Santo Quando a construção do Mishkan
chama o Mishkan de Ohel Moed: dos Santos – porque a missão de foi completada – quando o último
“Tenda do Encontro”. Era nela que “fazer para D’us uma morada nos pilar, tapeçaria e divisória foram
D’us – ao projetar Sua Luz Infinita mundos inferiores” abarca todas colocados em seu lugar – D’us fez
sobre a Terra – e o humano e as áreas da nossa vida. Os judeus com que Sua Infinita Presença
material, querendo chegar aos servem a D’us em seus momentos habitasse o Tabernáculo. Isso
Céus – se encontravam. Isso nos mais exaltados, tais como Yom Kipur capacitou todas as futuras gerações
ensina que cada vez que um judeu (o Santo dos Santos). Eles também de judeus, e cada judeu em
cumpre a Vontade de D’us, ele O servem em seus esforços para particular, a replicar seus domínios
se torna receptivo à Luz Divina elevar e santificar o mundo, como nos recônditos de sua vida.
Infinita: ele próprio se torna uma no Shabat – um dia basicamente
Morada Divina nos mundos dedicado à espiritualidade (o Lugar
inferiores, realizando, assim, todo Sagrado). Mas também devem BIBLIOGRAFIA
o propósito da Criação. Ao mesmo empenhar-se em fazer uma Morada Rabi Tauber, Yanki,The Anatomy
tempo, cada Revelação Divina Divina em suas mais simples of a Dwelling - www.chabad.org
que emana das Alturas capacita atividades do cotidiano, durante os Rabi Tauber, Yanki,Three Chambers
o homem a revelar a Divindade seis dias da semana (o Pátio). - www.chabad.org

11 junho 2017
SABEDORIA

A Essência de D’us, a Divina


Providência e os Mandamentos

O alicerce do judaísmo e base de toda a verdadeira religião


é a existência de D’us. Ele é o Criador de toda a existência, física
e espiritual. O primeiro verso da Torá assim o afirma: “No princípio,
D’us criou os Céus e a Terra...” (Gênesis 1:1). Também está escrito:
“Eu sou o Eterno, que cria todas as coisas” (Isaías 44:24).

C
omo Criador de todos os mundos e de Da mesma forma, quando a Torá afirma que D’us criou
tudo o que neles há, D’us é diferente de o homem à Sua imagem (Gênesis 1:27), não está
Sua criação. Assim sendo, o judaísmo insinuando que D’us se parece com o homem.
categoricamente rejeita a filosofia do O que significa é que o homem compartilha dos
panteísmo. Além do mais, enquanto mesmos atributos – as Sefirot intelectuais e emocionais
Criador do Universo, a existência de D’us precedeu – que D’us emprega ao interagir com o mundo.
e é independente de Suas criações. É totalmente proibido comparar D’us a qualquer uma
de Suas criaturas, mesmo ao mais elevado dos anjos.
Como D’us é o Criador de tudo o que é matéria, O profeta Isaías assim declarou: “A quem, pois, podeis
obviamente Ele não é matéria. O Midrash e outras obras comparar o Eterno? Ou a quem O podeis assemelhar?”
sagradas se referem a D’us como HaMakom, “O Lugar”, (Isaías 40:18).
porque Ele é o lugar do mundo, mas o mundo não é o
Seu lugar. Igualmente, os conceitos de tempo e espaço e Ainda que toda a existência seja permeada pela
seus atributos – corpo, forma e feição - são criações de Divindade, D’us não pode ser associado com nenhuma
D’us e não se aplicam a Ele. D’us é infinito e, portanto, de Suas criações. Além disso, o judaísmo rejeita
incorpóreo. A Torá afirma: “E guardareis muito vossas qualquer definição de D’us como conceito abstrato,
almas, porque não vistes imagem alguma no dia em independentemente de quão elevado ou nobre seja.
que o Eterno vos falou em Horeb...” (Deuteronômio Portanto, D’us não pode ser definido como Amor,
4:15). Em várias passagens, a Torá se refere a D’us como Verdade, Justiça ou Bondade, apesar de serem esses
se Ele tivesse um corpo humano, usando linguagem alguns de Seus atributos. Como Criador de todas as
antropomórfica, como em “a mão de D’us” (Êxodo 9:15), coisas terrenas e celestiais, D’us está num plano superior
e “os olhos de D’us” (Deuteronômio 11:12). Contudo, a a toda a Sua Obra. A Ele, portanto, nos referimos como
Torá não está afirmando, de forma alguma, que D’us tem o Ser Supremo ou o “Altíssimo”. Ele é infinitamente
um corpo, forma ou feição. Apenas emprega metáforas superior e incomparável a qualquer coisa ou ser que
para expressar a relação de D’us com Sua criação. exista. D’us está além de qualquer definição.

12
REVISTA MORASHÁ i 96

Sefer Torá: o objeto mais sagrado do judaísmo. Os Cinco Livros da Torá foram escritos por D’us e transmitidos,
letra por letra, a Moshé Rabenu

Apesar de D’us não poder ser de que Ele duplique, aniquile ou Há declarações na Torá que
definido e criatura alguma – nem mude a Si Próprio de forma alguma. talvez pareçam sugerir que D’us
mesmo o mais puro dos anjos – O judaísmo rejeita, expressamente, se modifica. Por exemplo, certas
poder verdadeiramente conhecer a ideia de que D’us possa assumir passagens falam de D’us se
Sua Essência, a Torá, que é a Sua qualquer forma física – humana ou enraivecendo ou se alegrando. Tais
Sabedoria e a Sua Vontade, permite qualquer outra. Qualquer uma dessas descrições não devem ser entendidas
que o homem capte algo do Divino. tarefas envolveria uma mudança por literalmente: a Torá usa linguagem
Por exemplo, a Torá nos ensina que parte do Divino – algo que não pode metafórica para descrever a interação
D’us é Um e que Ele é a Unidade ocorrer – porque a mudança é um Divina com o mundo de forma
mais perfeita e absoluta. Como está produto do tempo, e D’us, enquanto que seja compreensível a todos.
escrito: “Escuta, Israel! O Eterno Criador do espaço e do tempo, existe D’us, Todo Poderoso, nunca muda.
é nosso D’us, o Eterno é Um!” fora de ambos. D’us é Eterno: o Quando a Torá afirma que D’us
(Deuteronômio 6:4). A absoluta tempo não se aplica a Ele, apenas à se enfureceu, significa que Ele está
unicidade e unidade de D’us é um Sua Criação. Assim sendo, D’us não emanando Sua luz através da Sefirá
princípio central do judaísmo, que tem início, idade nem fim, pois esses de Guevurá (Restrição, Severidade).
enfaticamente rejeita qualquer conceitos implicam uma estrutura Da mesma forma, quando a Torá
conceito de pluralidade no que se de tempo. Ele é imutável e nos fala que Ele se alegrou, significa
refere ao Divino. inalterável. E assim declara: “Porque que Ele está interagindo com o
Eu, o Eterno, não mudo” (Malaquias mundo através da Sefirá de Chessed
Enquanto Criador do Universo, o 3:6). Como Criador do tempo, D’us (Bondade, Benevolência). Nada disso
poder de D’us é ilimitado. Dizemos, pode fazer uso do mesmo sem nele implica alguma mudança em D’us.
então, que D’us é onipotente e nos se envolver: Ele causa a mudança
referimos a Ele em nossas preces no mundo sem mudar a Si Próprio. O entendimento de que o Altíssimo
como “Rei do Universo”. No entanto, D’us é, pois, chamado de o “Motor é atemporal é a resposta para a
não atribuímos a D’us a possibilidade Imóvel”. questão paradoxal: D’us pode criar

13 junho 2017
SABEDORIA

uma pedra que Ele Próprio não o relacionamento de D’us com conhecimento de D’us, que também
possa erguer? Essa pergunta é este mundo é duplo, ou seja, Ele é é dos anjos, pois Ele Próprio é a
enganadora, porque emprega lógica imanente e também transcendental. Unidade mais absoluta.
humana – ou seja, limitada – para Assim, Ele preenche e também
tentar entender um D’us ilimitado, envolve toda a Sua criação. Esse A imanência Divina implica que
que é incompreensível. E é, também, conceito é expresso nos cânticos dos não há lugar em toda a criação
inútil, porque seria a mesma coisa anjos e na Kedushá que recitamos, de desprovido de Sua Presença. Ele
perguntar se D’us pode suicidar-se manhã e à tarde, durante a repetição é onipresente. Como nos ensina a
ou limitar Seus próprios poderes. da oração da Amidá. Diariamente Torá: “Toda a Terra está cheia de
Como vimos, D’us é onipotente, mas os anjos nos Céus e os judeus, Sua Glória” (Números 14:21). E
também é atemporal e, portanto, na Terra, recitam: “Santo, Santo, também está escrito: “Sua Glória se
não sujeito à mudança. Isso significa Santo é o Eterno dos Exércitos, o estende além dos Céus e da Terra”
que a existência, a essência e a mundo todo está preenchido por (Salmos 148:13). Em algumas de
onipotência Divinas são imutáveis. Sua Glória” (Isaías 6:3). Isso indica suas passagens, a Torá fala de D’us
Contudo, para quem não se satisfaz que D’us é imanente, e preenche como estando em determinado
com essa resposta e continua toda a criação. No entanto, os seres lugar em determinada hora. Isso não
intrigado com o paradoxo, a resposta celestiais também proclamam, significa que D’us esteja nesse lugar
é esta: Como D’us é onipotente, como o fazemos na Kedushá, e não nos demais. Mas, sim, que
Ele pode criar uma pedra que Ele “Bendita seja a glória do Eterno D’us deseja conferir uma honra e
Próprio não pode erguer, e como Ele desde o Seu lugar” (Ezequiel 3:12). atenção especial àquele lugar,
é onipotente, Ele pode sim erguer Esse versículo fala de D’us em ou que lá Suas ações são
a pedra. Se tal paradoxo serve para Seu sentido transcendental, onde particularmente visíveis. Assim, diz-
algo, é para nos ensinar que a mente nem mesmo os anjos conseguem se que D’us “habitava” o Mishkan, o
finita do homem não consegue e compreender o Seu “lugar”. Um Tabernáculo, e o Templo Sagrado
nunca conseguirá captar o Criador alerta, contudo: essa aparente de Jerusalém porque Ele conferiu
Infinito. dualidade no relacionamento especial honra e atenção a tais
de D’us com o mundo – sendo construções. Ensinam-nos, também,
Apesar de nossa incapacidade de imanente e transcendental – apenas que D’us “habita” na Terra de Israel,
entender o Divino, sabemos que se deve a nosso limitado e imperfeito Eretz Israel, e em Jerusalém. De
modo similar, a Torá nos relata que
D’us conduziu os judeus durante
sefarim da sinagoga beit yaacov, são paulo
o Êxodo. Isso significa que Sua
Presença e Sua Providência estavam
especialmente visíveis a eles nesses
momentos.

Não é apenas a Presença Divina,


mas também Sua Vontade, o que
permeia toda a Criação. Um dos
ensinamentos fundamentais da
Cabalá é que nada pode existir que
D’us não o deseje. A existência
de toda a criação depende
continuamente da Vontade Divina
e de Seu poder criativo. Fosse esse
poder removido da criação por
um instante sequer, todas as coisas
instantaneamente deixariam de
existir. Nas preces matinais, dizemos:
“Em Sua bondade, Ele renova,
diariamente, o ato da Criação”.

14
REVISTA MORASHÁ i 96

A Criação do Universo, portanto, Liadi, o Baal HaTanya: “Assim como


não foi um evento único, mas um um pensamento abstrato não pode
processo contínuo e incessante. ser captado pela mão, tampouco a
D’us está continuamente recriando Essência de D’us pode ser captada
– e, portanto, sustentando – o nem mesmo pelo pensamento”
Universo inteiro. Sua atenção está (Likutei Amarim, Shaar HaYichud
ininterruptamente direcionada VeHaEmuná). Nem os maiores
à Sua Criação. Se Ele perdesse sábios e profetas e os seres espirituais
interesse em Sua Criação, ainda mais elevados podem captar a
que por uma fração de segundo, verdadeira Essência Divina.
tudo voltaria a inexistir. A noção
de que D’us criou o Universo para, Portanto, cada nome e cada
em seguida, o abandonar, é uma descrição que possamos atribuir
abominação para o judaísmo. a D’us somente se aplicam a Seu
relacionamento com Sua Criação.
É irônico que apesar de a Presença Mesmo o Tetragrama, o Nome de
Divina preencher todos os mundos D’us de Quatro Letras, que nos é
e Ele ser o único responsável pela proibido pronunciar, apenas denota
Criação e contínua existência Sua emanação mais alta na Criação.
de todas as criaturas e seres, Sua D’us é incompreensível, inominável
própria existência seja indetectável e anônimo. Não há palavras que
para a maioria das pessoas e até possam descrevê-Lo ou enaltecer
mesmo negada por alguns. O todos os Seus louvores.
profeta Isaías disse a D’us: “Em
verdade, Tu és um D’us que Se temos conhecimento da Presença A Divina Providência
oculta, ó D’us de Israel” (Isaías Divina quando Ele atua para
45:15). Uma das razões para D’us manifestar Sua Presença. Como vimos acima, a natureza de
não Se revelar é que se o fizesse, D’us está além de tudo que possa
toda a Criação seria anulada A Torá nos ensina que o ser concebido ou captado pelo
perante Ele. Assim como a luz de conhecimento Divino é idêntico à ser humano: a distância entre a
uma vela seria anulada e perderia Sua Essência Infinita, e, portanto, percepção humana e o Divino é
seu valor se fosse acesa à luz do sol, também infinito. Como está escrito: infinita. Portanto, apenas temos
também a existência do Universo “Grande é nosso D’us, imenso é Seu ciência da impossibilidade de
deixaria de existir se D’us revelasse poder e infinita a Sua sabedoria” descrevê-Lo. Como então alegar
de forma explícita Sua Luz Infinita. (Salmos 147:5). D’us sabe o que que o Todo Poderoso, que é
Ademais, D’us não pode ser visto, está acontecendo a cada um dos tão supremamente exaltado, irá
pois não há lugar algum despido átomos do Universo, a cada instante. “rebaixar-Se” ao ponto de cuidar dos
de Sua Presença. Há uma analogia Independentemente de quão grande detalhes mínimos da vida de Suas
que nos ajuda a entender esse o número de eventos simultâneos, criaturas, por mais nobres e corretas
conceito: o ar não pode ser visto, isso nada é comparado à Infinita que sejam? Muitos filósofos, entre os
mas é parte integral do ambiente Sabedoria Divina. quais inúmeros pensadores judeus,
que nos cerca, e o único momento argumentaram que apenas os que são
em que nos apercebemos de sua É importante enfatizar que apesar de verdadeiramente devotos a D’us são
presença é quando o vento sopra. a Torá dar ao homem um vislumbre merecedores da Divina Providência,
Isso é ainda mais verdadeiro em se do Divino, D’us está tão acima de enquanto todos os demais seres
tratando de D’us. A razão para não nós que é impossível compreendê- humanos e criaturas são apenas
podermos ver D’us não é devido Lo em Sua plenitude. Como ensina cuidados, de forma generalizada,
à Sua transcendência, mas à Sua a Cabalá: “Não há pensamento que por uma Vontade Divina, que pode
imanência, ou seja, o fato de Ele possa entendê-Lo completamente” conduzir sua existência, mas que não
conter em Si Seu princípio e Seu (Tikunei Zohar, 17a). E como se envolve com os mínimos detalhes
fim. De forma similar, somente escreveu o Rabi Shneur Zalman de de suas vidas.

15 junho 2017
SABEDORIA

Essas noções e crenças filosóficas, qual a diferença entre o maior Será que D’us se preocupa com
apesar de oriundas de um sábio ou profeta e o menor dos tudo ou com nada? É verdade que
reconhecimento da grandeza Divina, insetos? Comparada à Luz Infinita, a infinitude Divina não se restringe
estão distantes da noção cabalística tudo é igualmente insignificante. ao mundo físico, mas vai além
de Divina Providência. A Cabalá Assim, pois, a Divina Providência de todos os mundos espirituais
oferece um tipo diferente de se estende tanto em direção dos e todos os conceitos intelectuais.
percepção da conexão entre D’us maiores seres humanos, que devotam No entanto, se D’us criou o
e o mundo. cada momento de sua vida a D’us, mundo e continua a sustentá-lo, é
quanto em direção dos organismos evidente que Ele se importa com
A filosofia define D’us como o mais inferiores que mal conseguem o mesmo. Assim sendo, a resposta
“Supremo Intelecto” – a Mente subsistir. cabalística a essa pergunta é que
Divina, que, como repetidamente D’us se preocupa com tudo – com
ensina Maimônides, não é, de Como vimos acima, D’us não está cada detalhe ínfimo de toda a Sua
forma alguma, comparável à mente limitado por tempo nem espaço. Criação.
humana, limitada e finita. No Entender esse conceito nos leva à
entanto, mesmo esse conceito é conclusão de que Sua Providência Isso, portanto, é a base do
limitado. O Maharal de Praga, Rabi é abrangente, pois, a partir de ensinamento Chassídico que a
Yehudá Lowe, famoso por ter criado Seu ponto de vista, o grande e o Divina Providência se aplica a
o Golem, insistia que o Divino não pequeno, a maior generalização e todos e a tudo. D’us não apenas
pode ser definido ou confinado, de o menor detalhe, são todos iguais “determina os passos do homem”
nenhuma maneira. Nossos Sábios em sua infinita distância e total (Salmos 37:23), mas também provê
se referem ao Todo Poderoso como insignificância se comparados à a cada uma das criaturas do mundo,
“O Santo, Bendito o Seu Nome”. infinitude Divina. Ao mesmo tempo, direcionando-as ao objetivo pré-
Como o judaísmo define a santidade estão igualmente próximos a Ele determinado a cada uma delas.
como a distinção, essa denominação como receptores do abrangente
significa que o Divino está além das amor Divino. Ou seja, todos e O Baal Shem Tov, fundador do
definições ou limitações, quaisquer tudo estão igualmente distantes Movimento Chassídico, ensinava
que sejam. Por conseguinte, em e próximos de D’us. Em termos que cada um dos objetos deste
relação ao Divino, a mais elevada práticos, isso significa que D’us mundo – mesmo um grão de
espiritualidade não é, de forma está ciente e também profundamente areia – está sob as asas da Divina
alguma, superior ao físico ou envolvido em tudo o que concerne Providência: está vinculado à
material. Comparado à Luz Divina, Sua Criação e interessado até Vontade Divina, que determina seu
mesmo o que a nós parece puro e mesmo nos detalhes da vida de cada lugar e seu papel no mundo. Negar
elevado, é finito e diminuto. um de nós. Muitos cometem o erro o papel da Divina Providência
teológico de supor que como D’us é sobre o mais insignificante dos
Essa compreensão do Divino tão grandioso – como Ele habita nas detalhes da vida é o mesmo que
não nega a existência da Divina Alturas – Ele não está interessado negar a ideia da Divina Providência
Providência em nível individual. no que comemos – se é casher ou como um todo. Reconhecer o
Pelo contrário, leva a uma não – ou se fizemos a berachá antes papel da Divina Providência
conscientização aumentada de quão de comer um pedaço de chocolate. sobre os indivíduos e os pequenos
pessoal é essa Providência. Quando A resposta a tais questões teológicas detalhes atesta a grandeza de D’us
entendemos que a grandeza de D’us e outras similares – se D’us se e a profundidade e intensidade da
ultrapassa os limites do espiritual preocupa com nossas necessidades crença do ser humano n’Ele. O Baal
e do físico, e que esses conceitos materiais e espirituais e se Ele tem Shem Tov ilustrou esse ponto com
são vazios se comparados a Ele, conhecimento e interesse em todos o seguinte exemplo: uma grande
não podemos mais alegar que a os detalhes de nossa vida cotidiana – tempestade irrompe numa floresta,
Divina Providência esteja confinada é que D’us se preocupa com tudo ou quebrando galhos e arrancando
apenas a uns poucos – os grandes e com nada. Perante o Infinito, mudas. Isso é produto da Divina
elevados. Pois, de fato, quem e o que não existe o grande ou o pequeno. Providência: D’us quis que isso
é elevado e grandioso comparado Ou tudo é importante para D’us ou acontecesse por um determinado
a D’us? Comparado ao Infinito, nada o é. propósito. Talvez esse propósito

16
REVISTA MORASHÁ i 96

fosse levar uma folha mais perto da tem substância. Para uma pessoa das pessoas, religiosas ou não,
boca de uma certa minhoca na mata. verdadeiramente comprometida provavelmente colocaria D’us na
A Divina Providência cuida de todas com os Mandamentos Divinos, não categoria dos abstratos ou espirituais.
as necessidades de cada uma das pode haver ação sem intenção, mas Tal classificação tem um significado
criaturas, mesmo daquelas primitivas tampouco intenção sem ação. de longo alcance. Com certeza, não
como as minhocas – que, no plano se pode atribuir a D’us nada sequer
perfeito da Criação, têm seu lugar e Essa discussão sobre ação ou remotamente físico. No entanto,
um papel a cumprir. intenção é primordial como se a Divindade é uma abstração –
produto das diferenças no ponto de uma ideia sem substância – pode-
Os Mandamentos: vista religioso. Para solucionar tais se questionar o grau de realidade
Fisicalidade e dilemas, é necessário ter-se uma de D’us e questionar Sua Própria
espiritualidade compreensão adequada da relação existência. O D’us dessas pessoas é
entre D’us e o homem e da essência uma sombra cuja existência é, por
Entender alguns conceitos da Divindade. vezes, sujeita a incertezas. Trata-
fundamentais sobre D’us e sobre se de uma Divindade intelectual
a Divina Providência permite-nos Ainda que uma discussão filosófica ou emocionalmente vivenciada.
uma compreensão mais profunda e profunda sobre teologia esteja além Se D’us é concebido dessa forma,
significativa de Seus Mandamentos. do escopo deste artigo, é relevante certas consequências religiosas são
entender a essência da Divindade inevitáveis. Se D’us é um conceito
O cumprimento dos mandamentos como é percebida pela maioria das espiritual, como o Amor e a
da Torá tradicionalmente é pessoas. Vejamos a seguinte relação: Justiça, faz todo o sentido que Ele
concebido como um imperativo tinta, couro, caixa; ideia, sonho, seja cultuado com ideias, orações
duplo: por um lado, a contemplação amor. Em que categoria D’us silenciosas, meditações e boas
e apreciação do conteúdo e deveria ser inserido? Na dos objetos intenções. Pois, se D’us é um Ser
do significado intrínseco dos concretos - tinta, couro, caixa espiritual abstrato, pode ser uma
mandamentos; por outro, sua – ou na dos conceitos abstratos contradição servi-Lo por meio de
expressão física. Os escritos judaicos – ideia, sonho, amor? A maioria ações físicas concretas.
trataram extensamente das questões
resultantes dessa dualidade, pesando
o valor da ação contra o da intenção
e buscando o relacionamento entre
ambos. Por exemplo, dada a opção,
seria preferível colocar Tefilin
mesmo se a pessoa não estiver
intelectual e emocionalmente
envolvida com esse mandamento,
ou seria melhor meditar sobre D’us
e estimular o amor e a reverência
a Ele? Tais questões foram
ponderadas através dos tempos
por muitos sábios e pensadores.
Por um lado, pode-se argumentar
que o importante é a intenção:
qual o sentido de se cumprir um
Mandamento Divino se a pessoa o
fizer sem intenção ou sentimento?
Por outro lado, enquanto uma ação
sem intenção é como um corpo
sem alma, a intenção sem ação
também é imperfeita. É como uma
Imagem de um Tefilin. A colocação dos Tefilin constitui um dos principais
aparição fugaz, que existe, mas não mandamentos do judaísmo

17 junho 2017
SABEDORIA

O Kotel: o Muro Ocidental - a única estrutura que remanesce do Templo Sagrado de Jerusalém

No entanto, todos os pensadores da intenção sobre a ação. dirigir seu pensamento e seu coração
e filósofos judeus rejeitam a ideia As intenções espirituais do a D’us: “...para amar o Eterno teu
de que D’us é um Ser espiritual. homem, não importa quão puras, D’us com todo o teu coração, com
Enfatizam que assim como nobres ou verdadeiras, não estão, toda a tua alma, e com toda a tua
D’us está infinitamente acima necessariamente, mais próximas força”. O judeu que assim age está
do universo físico, Ele também da Vontade Divina do que as mais em verdadeira harmonia com a
está infinitamente distante do concretas ações físicas. Como Vontade Divina.
espiritual – mesmo em suas formas as qualidades da fisicalidade e
mais elevadas. É, portanto, tanto espiritualidade não se aplicam Os mandamentos da Torá, tanto os
um sacrilégio atribuir qualidades a D’us de forma alguma, Ele físicos como os espirituais, portanto,
espirituais a D’us quanto atribuir- está tão próximo ou distante do podem ser comparados a uma ponte
Lhe qualidades físicas. espiritual quanto do físico. O que criada por D’us, que permite ao
importa é a Vontade de D’us, homem conectar-se a Ele.
Surge, então, naturalmente, a independentemente de como a Os mandamentos Divinos, que são
pergunta: se D’us não é fisicalidade pessoa a cumpra. Portanto, um cumpridos física e espiritualmente,
nem espiritualidade, o que Ele é? mandamento físico, simples, tem são os meios pelos quais as criaturas
A resposta é que o homem não tanta relevância religiosa quanto finitas podem vivenciar o Santo,
pode nem mesmo começar a um espiritual. A essência dessa Bendito é Seu Nome.
conhecer a essência de D’us. concepção é a percepção de que
Pode apenas ansiar por vivenciar como D’us preenche
a realidade de Sua existência. Tal Seu mundo, para Ele não há BIBLIOGRAFIA
experiência de Divindade não dicotomia entre o físico e o Rabi Steinsaltz, Adin (Even Israel),
pode provir de uma análise lógica espiritual. A Vontade Divina é Deed and Intention, The Mystery of You,
ou inferencial de aspectos de Sua encontrada tanto no cumprimento Hybrid Publishers
existência. Pelo contrário, baseia-se físico de um mandamento quanto Rabi Steinsaltz, Adin (Even Israel),
na experiência real de Sua Presença. nos pensamentos e emoções com Divine Providence and Faith,
D’us, então, é uma realidade e não os quais o mesmo é cumprido. The Mystery of You, Hybrid Publishers
há realidade fora de Sua existência. Quando o homem amarra as Rabbi Kaplan, Aryeh, The Handbook
tiras do Tefilin em seu braço, ele of Jewish Thought, Volume 2,
Moznaim Publishers
A compreensão de que D’us não deve estar tão cioso de cumprir a
é um ser físico nem espiritual Vontade Divina quanto quando Rabi Shneur Zalman m’Liad,
Shaar HaYichud VeHaEmunah
explica o problema da preferência se empenha espiritualmente para

18
DESTAQUE

Macron,
otimismo vindo da França
POR JAIME SPITZCOVSKY

A posse de Emmanuel Macron, como novo presidente da França,


alimenta uma onda de alívio e de otimismo na comunidade
judaica francesa, ainda preocupada com o avanço da extrema
direita, com ataques terroristas e a deterioração dos laços
entre Paris e Jerusalém, nos últimos anos.

C
om o triunfo nas eleições de 7 de maio, A possibilidade de chegada ao poder, inédita na história
ao amealhar 66% dos votos no segundo do Front National, levou Marine a tentar implementar
turno, Emmanuel Macron consolidou um discurso mais moderado em comparação com a
a esperada vitória do chamado “campo plataforma do pai, Jean-Marie, com quem chegou a
republicano”, responsável por unir diversas romper politicamente.
forças políticas interessadas em barrar Marine Le Pen,
líder da extrema direita. A candidata derrotada, no As promessas de moderação, no entanto, não resistiram
entanto, alcançou 34% dos votos, recorde histórico para a declarações de Marine Le Pen durante a campanha
seu partido, o Front National, em aumento expressivo eleitoral. A 9 de abril, ela afirmou que a “França não
quando se compara aos 18% obtidos por seu pai, é responsável por Vel d’Hiv”, referindo-se à tragédia
Jean-Marie Le Pen, no segundo turno das eleições ocorrida em 1942, em Paris. Naquela ocasião, mais de
presidenciais de 2002. 13 mil judeus foram enviados a campos nazistas de
extermínio, depois de ficarem presos em um estádio da
Criado na década de 1970, o Front National se capital francesa.
notabilizou por posições racistas e antissemitas,
vociferadas sobretudo por seu fundador, Jean-Marie Le Apenas em 1995, o governo da França, então liderado
Pen. A onda antiglobalização, em curso principalmente pelo presidente Jacques Chirac, admitiu claramente a
na Europa e nos EUA, impulsionou grupos populistas responsabilidade das autoridades locais no episódio.
e de extrema direita, apoiados em nacionalismo e “Sim, é verdade que a insanidade criminosa das forças de
xenofobia. ocupação foi apoiada por alguns franceses e pelo Estado
francês”, discursou Chirac, no estádio de Vel d´Hiv.
Na França, Marine Le Pen buscou catalisar o sentimento
de insatisfação de setores da sociedade francesa, O Front National não preocupa a comunidade judaica
pressionados por desafios como o desemprego, na casa francesa apenas por suas ligações históricas com
dos 10%, terrorismo e crise de refugiados. correntes que negam o Holocausto. Pontos da plataforma

19 junho 2017
DESTAQUE

Palais-Royal, sede do conselho de estado. paris

de Marine Le Pen, embebidos pairam sobre França e Israel é o Aos 39 anos, o presidente mais
em intolerância, também causam terrorismo. “Tenho a convicção”, jovem a assumir o cargo na história
protestos, como a proibição ao abate acrescentou Netanyahu,”de que os da república francesa, Emmanuel
ritual, judaico ou muçulmano, e ao dois países intensificarão seus laços Macron carece de experiência
fornecimento de merendas escolares bilaterais”. em áreas como política externa.
sem carne suína. Construiu trajetória no mercado
financeiro e foi ministro da
A vitória de Macron representou Economia e da Indústria no governo
uma “vitória contra o ódio e contra socialista de François Hollande,
o extremismo”, afirmou Moshe entre 2014 e 2016.
Kantor, presidente do Congresso
Judaico Europeu, ecoando Em 2015, o então ministro Macron
declarações de diversos líderes desembarcou em solo israelense,
comunitários franceses. Kantor numa visita que, segundo a
ainda destacou: “Permanecemos embaixadora francesa Hélène Le Gal,
extremamente preocupados pelo impressionou o futuro presidente.
ainda significativo apoio a partidos Em entrevista a uma emissora de
de extrema direita, não apenas na rádio israelense, Le Gal afirmou que
França, mas pela Europa”. Macron não esconde a admiração
pelo universo israelense das start-ups
O primeiro-ministro de Israel, e das companhias de tecnologia.
Binyamin Netanyahu, parabenizou
Macron logo após o triunfo Empenhado em resgatar a economia
eleitoral e, na nota oficial, observou francesa da estagnação, Emmanuel
que uma das maiores ameaças que presidente EMMANUEL MACRON Macron costuma enfatizar a opção

20
REVISTA MORASHÁ i 96

por incentivar a inovação e os


investimentos em tecnologia.
A cooperação com Israel poderia se
intensificar nessas áreas da atividade
econômica.

Maior ênfase numa agenda comercial


contribuiria para amenizar o desgaste
registrado recentemente, no campo
político, entre Israel e França.
Enfraquecido no cenário doméstico
e terminando sua gestão com níveis
recordes de desaprovação popular, macron em visita ao memorial da shoá em paris, 30 abril 2017
François Hollande buscou diversas
vezes, no campo da diplomacia,
iniciativas que, em seu cálculo,
pudessem se traduzir em maior
apoio da opinião pública francesa.
E, muitas vezes, entrou em rota de
colisão com o premiê Netanyahu.
No primeiro semestre deste ano,
numa tentativa de resgatar prestígio
diplomático, Hollande organizou em
Paris uma conferência internacional
sobre o Oriente Médio. A iniciativa
representou um fiasco.

Macron, embora não tenha


detalhado sua abordagem para a
questão israelo-palestina, declarou COM François Hollande pôster do então candidato à entrada
ser contrário a um reconhecimento do consulado francês em jerusalém

unilateral de um eventual Estado


palestino. Também criticou o BDS, em 2014 e 2015. Nesse período, devido a mensagens racistas,
movimento que propõe boicote a desembarcaram 15 mil imigrantes disparadas anos atrás, pelo Twitter.
Israel em diversos planos, como em solo israelense. Importante
politico, econômico e acadêmico. também ressaltar a forte tradição A chegada de Macron ao poder
sionista na comunidade judaica representa uma opção francesa pela
O combate ao terror também francesa, a maior da Europa, com manutenção da globalização e da
aproxima França e Israel, como cerca de 500 mil integrantes. União Europeia e pelo combate ao
observou Netanyahu. “A França terrorismo valorizando trabalho
estará na linha de frente da luta No início da campanha para as de inteligência e cooperação
contra o terrorismo”, afirmou eleições legislativas de junho, internacional. Sua vitória eleitoral
Macron no discurso da vitória, fundamentais para Macron obter significou também um golpe
em 7 de maio. apoio parlamentar e conseguir a contra o avanço do populismo
governabilidade necessária para e do nacionalismo no velho
A intensificação de ataques implantar reformas econômicas continente. Resta saber se o jovem
terroristas e do antissemitismo, num e sociais, o partido do novo líder conseguirá corresponder às
cenário de estagnação econômica e presidente demonstrou estar atento expectativas de seus eleitores.
desemprego crescente, impulsionou no combate ao antissemitismo.
a mudança de judeus franceses a O jornalista Christian Gerin foi Jaime Spitzcovsky foi editor
internacional e correspondente da
Israel, que atingiu nível recorde obrigado a retirar sua candidatura Folha de S. Paulo em Moscou e em Pequim

21 junho 2017
PERSONALIDADE

Ayelet Shaked, uma mulher


à frente da Justiça de Israel

Ela é uma mulher que se sobressaiu num cenário político


liderado por homens, a maioria deles egressos das unidades
de elite das FDI. Secular, ela ocupa importante papel nas
fileiras do partido sionista religioso, HaBait HaYehudi.
É uma engenheira de computação que, após uma meteórica
e controvertida ascensão política, foi nomeada, em 2015,
Ministra da Justiça.

E
ssa jovem bonita de olhos claros, oriunda do Nos dois anos em que está à frente do Ministério da
norte de Tel Aviv, que vem das indústrias de Justiça, Shaked não se afastou de suas ideias e tem
alta tecnologia que transformaram a economia proposto uma série de medidas extremamente polêmicas.
israelense, com ideias feministas, é o novo Entre outras, a revogação da cidadania dos árabes
ícone do HaBait HaYehudi (Lar Judaico) em israelenses condenados por terrorismo, o escrutínio das
seus esforços de ir além de sua base sionista religiosa. organizações sem fins lucrativos que atuam em Israel e
O intuito do partido presidido por Naftali Bennett é que recebem grandes somas de dinheiro dos governos
alcançar novos eleitores, vencendo os estereótipos de europeus para promover causas tão negativas ao Estado
colonos e seus defensores como religiosos fanáticos. como o BDS.

Hoje, aos 40 anos, Ayelet Shaked é considerada uma Uma de suas propostas era tornar mais conservadora a
das legisladoras mais ativas dos últimos anos. Articulada Suprema Corte de Israel, e inibir seu envolvimento na
(em hebraico e inglês), enérgica e implacável, ela é a líder atuação do Knesset e nas decisões governamentais – o
política feminina mais carismática e ambiciosa surgida que aparentemente conseguiu, em 22 de fevereiro último,
em Israel em muitos e muitos anos. Suas opiniões duras quando três dos quatro novos ministros do Supremo,
e francas e seu estilo confiante lhe proporcionaram um indicados pelo Comitê de Seleção de Juízes para a Corte,
assento no Knesset (Parlamento) e um ministério, a fúria tinham uma abordagem mais conservadora às leis
da Esquerda israelense e a crítica de muitos na mídia e e estavam entre os que a ministra considerava aceitáveis
nas elites acadêmicas israelenses. E, quem sabe no futuro, para assumir o cargo.
o posto de primeiro-ministro. No dia Internacional da
Mulher deste ano de 2017, ela se sentiu confiante ao No tocante à Lei Fundamental do Knesset, que reza ser
ponto de anunciar que se vê, tranquilamente, disputando, Israel um estado judaico democrático, o que Shaked
algum dia, o cargo de primeiro-ministro – naturalmente mais almeja é “fortalecer a identidade judaica do país
após o presidente do partido HaBayit HaYehudi, o atual para que se tenha um Estado judeu, democrático e
ministro da Educação Naftali Bennett, tê-lo feito. forte”. Ela afirma constantemente que “se opõe à ideia

22
REVISTA MORASHÁ i 96

de que os dois valores sejam de judia mais importante; a Forbes Israel dela o centro das atenções,
alguma maneira incompatíveis. a escolheu como a quinta mulher sua aparência se tornou um
Essas identidades claramente não mais importante do país e foi, ainda, alvo tentador para aqueles que
se contradizem; pelo contrário, eleita a “Mulher do Ano” de Israel, desaprovam aquilo que ela
acredito que se fortalecem pela revista Lady Globe. representa. Inúmeras foram as
mutuamente”. reações sexistas a uma mulher
Enquanto as propostas de Ayelet jovem e atraente em uma
A verdade é que não importa Shaked e sua atuação fizeram posição de destaque nacional.
a concordância ou não com O fato de terem as críticas à
suas ideias políticas, algumas sua política sido inegavelmente
inegavelmente de linha dura. permeadas de uma grande dose
As pessoas podem admirá- de discriminação sexual tem
la, discordar ou desprezar sua levado mulheres, inclusive as que
opinião, mas o que ninguém pode são nitidamente suas inimigas
ignorar ou sequer minimizar é sua ideológicas, a sair claramente
influência sobre o sistema político em sua defesa. “Discordo
israelense – fato comprovado pelas profundamente das opiniões
últimas decisões do Knesset. de Shaked, dos membros do
HaBait HaYehudi e do novo
A atuação de Ayelet já lhe rendeu governo, de modo geral”,
inúmeras honrarias. Em 2012, o disse a ex-ministra da Justiça
jornal Globes a incluiu na lista das Tzipi Livni. “Mas condeno
50 mulheres mais influentes de enfaticamente a atitude sexista
Israel; em 2015, The Jerusalem Post em torno dela”. Até a líder do
Lady Globes nomeia Ayelet Shaked
a listou como a 33ª personalidade “mulher do ano” partido Meretz, Zehava Galon,

23 JUNHO 2017
PERSONALIDADE

Estudou balé e se tornou uma das


principais chefes-bandeirantes
do Movimento de Escoteiros de
Israel. Na escola, era excelente
aluna, sempre se destacando
em matemática. Enquanto
cursava o Ensino Médio, não era
politicamente ativa, apesar de suas
posições serem sempre a favor da
direita israelense.

Fortaleceu sua posição nesse


partido durante o serviço militar
nas FDI. Tornou-se instrutora na
o falecido presidente shimon Peres, com Ayelet Shaked, então membro do
Brigada Golani no 12º Batalhão
knesset, 2014 Barak e na famosa Sayeret Golani
(unidade de forças especiais
saiu em sua defesa declarando que Sua avó paterna chegou a Israel em da Brigada Golani). Serviu em
estava “farta dos comentários sexistas 1950 e a ministra costuma dizer que Hebron, e suas posições políticas
e misóginos sobre Ayelet Shaked. é meio iraquiana, o que é motivo foram altamente influenciadas
Ela é uma política inteligente e de muito orgulho para ela. A mãe, pelos colonos sionistas religiosos,
trabalhadora... Não me furtarei a professora de Torá, que sempre ao lado de quem serviu nas FDI, e
criticá-la severamente sempre que votou nos partidos de centro- que, hoje em dia, formam o núcleo
ela tirar proveito de sua posição esquerda, é de origem asquenazita. de seu eleitorado. Em suas próprias
para prejudicar nosso sistema Sua família chegou a Israel com a palavras, “Percebi na época que a
jurídico, mas não permanecerei em primeira aliá, que veio da Rússia e solução para o conflito palestino
silêncio sempre que alguém poluir Romênia na década de 1880. não viria agora”.
a arena pública com declarações Shaked conta que em sua casa não
infames sobre ela. Esse tipo de se discutia política, mas se recorda Após terminar o serviço militar,
declaração manda uma mensagem perfeitamente que tinha apenas estudou Engenharia Elétrica
às mulheres de que não importa o oito anos quando assistiu a um e Ciências da Computação
quanto tenham sucesso, nem mesmo debate na televisão entre Shimon na Universidade de Tel Aviv.
quando cheguem a um alto posto Peres e Yitzhak Shamir, e que Começou sua vida profissional
no Governo – elas serão julgadas, ficou encantada com a fala forte de no setor de alta tecnologia,
primeiro e principalmente, por sua Shamir. trabalhando na área de engenharia
aparência física”. de software na Texas Instruments.
Casou-se com um piloto de caça,
Sua vida que ainda trabalha para o Exército
de Israel como instrutor de pilotos
Ayelet Ben-Shaul nasceu em 7 de civis, com quem tem um filho e
maio de 1976 em Tel Aviv, em uma uma filha.
família de classe média alta. Cresceu
no bairro de Bavli, onde mora até A hoje ministra da Justiça poderia
hoje. Suas origens são típicas de uma facilmente ter feito uma bela
israelense de terceira geração, meio carreira empresarial entre a elite
asquenazi meio sefaradi, liberal e de viés esquerdista de Tel Aviv. No
conservadora, mesclando elementos entanto, já tinha feito do judaísmo,
seculares e religiosos. do sionismo e do Estado de Israel
o cerne de seu interesse e sua
O pai de Shaked, iraquiano nascido perspectiva gravitava em torno da
no Irã, sempre votou pelo Likud. política de centro-direita.

24
REVISTA MORASHÁ i 96

Vida política de ser eleita? Ninguém votará em na aprovação da lei que pôs fim às
você. Isso é suicídio político’”. isenções do serviço militar para os
Entrou na vida política em 2006 Nas primárias do HaBait HaYehudi judeus haredim, ultra-religiosos,
quando foi convidada por Binyamin ficou em terceiro lugar, algo atitude que provocou a ira de alguns
(“Bibi”) Netanyahu, para ser extraordinário se lembrarmos que segmentos da comunidade haredi.
diretora de seu Gabinete, cargo que ela é mulher e não é religiosa. Ela Shaked possui uma visão clara sobre
ocupou até 2008. Aos 30 anos, ela venceu candidatos homens muito a economia israelense, que, a seu ver,
já dirigia o Gabinete do primeiro- mais conhecidos e admirados não é capitalista o suficiente para a
ministro e parecia destinada a uma no meio religioso nacionalista, e realidade e necessidades do país.
carreira estelar no Likud. Foi ela membros veteranos do partido. Ela foi também uma das principais
quem levou Naftali Bennett para o Ficou em quinto lugar na lista vozes contra a imigração da África.
Gabinete de Netanyahu, onde ele dos membros desse partido que
serviu como chefe de Gabinete de ocupariam um assento no Knesset Uma mulher extremamente ativa, ela
2006 a 2008. caso o partido ganhasse cadeiras. ficou em primeiro lugar juntamente

Após deixar o Likud, criou,


em 2010, junto com Bennett, o
movimento e website Israel Sheli.
Liderado por Shaked até 2012,
o Israel Sheli é um movimento
que trata das relações públicas
pela internet e em especial
pelas redes sociais, organizando
também protestos e passeatas
contra atividades antissionistas na
sociedade e na mídia. Em 2012, ela
recebeu o Prêmio Abramowitz de
Israel pela Crítica à Mídia. Esse
prêmio é outorgado anualmente a
duas pessoas que tenham dado uma
“contribuição especialmente valiosa,
significativa e qualitativa à crítica à
mídia em Israel”. legisladora, no knesset, 2014

Em janeiro de 2012 foi eleita


membro do Comitê Central do Nas eleições de 2013, obtiveram com Shelly Yachimovich como
Likud, mas renunciou em junho. 12 assentos, vitória que membro de destaque do Knesset
Demonstrou a ousadia que se definitivamente a colocou na Casa. durante a legislatura de verão, numa
tornaria sua marca registrada indicação do Canal da Knesset; em
– sabendo ser impossível não Pouco depois, ela se integrou 2014, ficou em segundo lugar na
manifestar abertamente suas críticas a inúmeros comitês: Assuntos legislatura de inverno.
ao Likud, preferiu abandoná-lo e Econômicos, Trabalhadores
se juntar ao HaBait HaYehudi, o Estrangeiros e Finanças. Presidiu, Atuação como
partido sionista religioso liderado ainda, o Comitê de Aplicação da Lei Ministra
por Naftali Bennett. Ela recorda: dos Serviços de Segurança e da Lei
“Quando Bennett e eu decidimos do Serviço Nacional de Civis. Ayelet Shaked completou
juntar-nos ao HaBait HaYehudi, 39 anos em 7 de maio de 2015,
eu era membro do Likud, e as Ela é feminista, e apesar de ser dia em que seu partido assinou
pessoas me perguntavam: ‘Você membro de um partido religioso um acordo garantindo o quarto
enlouqueceu? Você é mulher e defende políticas seculares. Teve, mandato do primeiro-ministro Bibi
sequer é religiosa... Que chances tem por exemplo, um papel decisivo Netanyahu, e, no dia 14 de maio

25 JUNHO 2017
PERSONALIDADE

Outra preocupação é a nomeação de


novos juízes para a Suprema Corte.
A batalha sobre o futuro dessa
Casa que levou à nomeação de três,
dentre quatro juízes conservadores,
iniciou-se em novembro do ano
passado quando a presidente do
Supremo, a ministra Miriam Naor,
cortou relações com Ayelet Shaked
em virtude das negociações sobre a
indicação dos novos ministros do
Supremo.

Shaked alertou a ministra Naor


que caso não voltasse às negociações,
brinde na sua posse no ministério da justiça. com o procurador geral de israel ela iria conseguir a aprovação no
Yehuda Weinstein, maio 2015 Knesset para um projeto de lei
apresentado pelo Israel Beitenu,
assumiu o Ministério da Justiça. Corte em determinadas questões. que permitiria que ela e o escalão
Nesses dois anos, tem procurado Respondendo aos que dizem que político superior indicassem juízes
dar continuidade a pautas que já quer limitar o poder do Judiciário, do Supremo, mesmo contra a
defendia enquanto membro do Ayelet Shaked afirma que “os novos vontade da Suprema Corte.
Knesset. rumos que deseja seguir visam (O projeto do Israel Beitenu,
definir de forma mais precisa os apresentado no ano passado, previa
De modo geral, os israelenses caminhos de cada um dos poderes – uma mudança no sistema de
não se interessam muito pela legislativo, executivo e judiciário”. nomeação dos juízes da Suprema
escolha do ministro da Justiça, mas Corte: para ser aprovado o candidato
desde que o nome de Shaked foi precisaria apenas de maioria simples
anunciado, o debate se polarizou no Comitê de Seleção Judicial,
em todo o país. que conta com nove membros.)
A ministra Naor decidiu fazer o
A maior preocupação de seus acordo que levou à nomeação dos
críticos é sua visão sobre o sistema três juízes conservadores, evitando
judiciário israelense e o poder que que o projeto fosse reapresentado.
passou a acumular à frente da pasta Na realidade, a nomeação não
da Justiça, cargo que a tornou chefe mudaria a Suprema Corte da noite
do poderoso Comitê Ministerial para o dia. Hoje, dois ou três dos
para Legislação, responsável atuais ministros, dentre um total de
pela decisão sobre quais projetos 14, são vistos como conservadores,
deverão ou não ser enviados ao então o número passaria para cinco
Knesset. Como presidente desse ou seis, o que continuaria sendo
Comitê, mesmo não decidindo minoria. O principal significado
sozinha o destino das propostas, disso só seria percebido no longo
tem grande influência sobre o prazo, se um número maior de
conteúdo das leis e, em última ministros conservadores fossem
instância, sobre o funcionamento substituir os atuais juízes. A verdade
da democracia israelense. é que é muito mais difícil mudar o
sistema judiciário israelense do que
Em relação ao sistema judiciário, pode parecer; e Shaked não possui a
entre os pontos mais delicados força política necessária para impor
está a autonomia da Suprema já ministra da justiça, maio 2016 medidas radicais.

26
REVISTA MORASHÁ i 96

Os assentamentos

Um tema importante na agenda


da atual ministra da Justiça são os
assentamentos, um dos principais
pontos de atrito tanto internamente
quanto entre Israel e a comunidade
internacional.

A ministra afirmou em uma


entrevista: “Creio que à nossa volta,
em todo o Oriente Médio, estamos
testemunhando eventos muito
significativos e turbulentos. Eu até
diria que o Oriente Médio passou
por mudanças profundas
nos últimos anos... Toda a região com o rabino Yisrael Meir Lau, no campo de Auschwitz-Birkenau, na marcha da
está mudando, e todos os estados- vida. maio 2016

nação desmoronaram. Temos,


hoje, uma paisagem tribal, e todo Ela afirma que “há muitas áreas na de governos estrangeiros e, na
pedacinho de terra que não está sob Judeia e na Samaria cujo verdade, representam os interesses
influência do Ocidente é sequestrado status legal é indefinido. destes governos”. Shaked deseja
pelo Islã radical. Portanto, não resta É chegada a hora de acabar com a forçar essas organizações a se
a Israel outra opção a não ser seguir ambiguidade legal e permitir que identificarem como tal. Apesar
em frente e gerenciar o conflito. os residentes da região, muitos de insistir que se trata de total
O problema são os norte-americanos dos quais em assentamentos transparência, seus críticos
e europeus que continuam construídos pelo governo israelense, alegam que ela planeja encerrar as
insistindo neste paradigma de vivam sem o temor constante atividades de tais entidades, que são
um estado palestino aqui e agora, em relação aos seus direitos de essencialmente antissionistas e pró-
e que continuam insistindo que propriedade”. Palestina.
os assentamentos são a raiz do
conflito... o que é uma completa falta ONGs e redes sociais Em 9 de fevereiro último, a
de entendimento histórico sobre o ministra declarou que iria
que, de fato, significa este conflito”. Ela está na linha de frente na encaminhar uma lei que imporia
luta contra o BDS. Como vimos pesadas multas às redes sociais
A ministra defende a aplicação da acima, a sua agenda de trabalho que se recusassem a remover
lei israelense ao invés da lei da ministra inclui uma análise conteúdo que incitava à execução
militar em algumas regiões da sobre a origem dos recursos das de ataques terroristas. Falando à
Judeia e Samaria (denominação Organizações não governamentais Rádio do Exército, ela afirmou
adotada pelo governo de Israel (ONGs) e, em janeiro de 2016, que durante a recente onda de
para a Cisjordânia), como vem ela apoiou um projeto apresentado ataques a veículos e esfaqueamentos
acontecendo há décadas, tema que no Knesset que exige a identificação por lobos solitários, ao longo do
poderá aumentar os problemas de dessas ONGs que recebem a maior último ano e meio, Israel conseguiu
Israel na arena internacional. Esta parte de seus recursos de “governos frustrar fisicamente os ataques, mas
seria uma das principais razões e entidades estrangeiras”. não conseguiu evitar uma onda
pelas quais ex-primeiros ministros, de incitação nas mídias sociais
como Menachem Begin e Yitzhak Em uma entrevista concedida ao – que ela chama de “motor” da
Shamir, que se opunham à retirada The Washington Post, ela afirmou onda de terror. “Sentimos que a
israelense da região, jamais adotaram que o público tem o direito de soberania de Israel tinha realmente
as medidas atualmente sugeridas por “saber quais ONGs recebem sido prejudicada”, foram suas
Shaked. a maior parte de suas verbas palavras.

27 JUNHO 2017
ISRAEL

As cores e a magia
dos mercados de Israel

Flores, doces, verduras, roupas, souvenires, artesanatos,


bijuterias e muito mais podeM ser encontradoS nos diferentes
mercados espalhados por Israel. Com seus cheiros e cores,
maiores ou menores, simples ou mais sofisticados, são pontos
de visitação obrigatória para os turistas que chegam ao
país, além dos tradicionais marcos históricos, religiosos e
arqueológicos.

D
entre as cidades israelenses, Jerusalém Machané Yehuda é anterior à dominação otomana
e Tel Aviv são as que concentram maior na região. Surgiu quando camponeses da região, no
número de mercados para os visitantes século 19, começaram a vender seus produtos em
de todos os gostos. O mosaico de línguas uma área abandonada. Gradativamente, as vendas
e etnias – há décadas, Israel recebe informais acabaram por se transformar em um mercado
imigrantes de diferentes continentes – é um reflexo da organizado, que se tornou um sucesso principalmente
diversidade que hoje caracteriza o país. Para garantir a pela sua localização mais próxima dos bairros e pequenos
proliferação de mercados ao ar livre, Israel conta com povoados fora da Cidade Velha.
quase nove meses ensolarados, ao longo do ano.
O local passou por uma mudança importante durante o
O viajante pode começar seu roteiro por Jerusalém, Mandato Britânico na então Palestina, entre 1917 e 1948,
sagrada para as três grandes religiões monoteístas, que quando o primeiro governador da cidade,
anualmente atrai milhares e milhares de peregrinos. Sir Ronald Storrs, percebeu a importância do mercado
Lá, o Mercado Machané Yehuda é mais uma atração para a atmosfera singular da cidade. Ele contratou
que se soma aos tradicionais sítios históricos e religiosos o urbanista Charles Robert Ashbee para fazer um
da cidade. São mais de 250 lojas espalhadas por vários projeto no local, incluindo uma ampla reforma com a
quarteirões que vendem de tudo que se possa imaginar implantação de infraestrutura de esgotos, sistemas de
– verduras, frutas, laticínios, carnes, peixes, legumes e a coleta de lixo, iluminação e água encanada. Ele planejava
longa lista de produtos é quase interminável. erguer um grande mercado cercado por muros de todos
Quase todos os legumes e verduras vendidos são os lados, com portões em estilo oriental e domos em arco.
produzidos em Israel. Há ainda pequenos bares e
restaurantes, que oferecem pratos e sanduíches rápidos. No entanto, apesar de todo o seu empenho, o projeto de
Frequentado por moradores da região e turistas, é um Ashbee não foi executado principalmente em função das
marco na cidade e as horas de maior movimento são as limitações financeiras – e o mercado continuou com a
que antecedem o Shabat. aparência que tinha até então. Com o passar do tempo,

28
REVISTA MORASHÁ i 96

o famoso mercado Machané yehudá, no centro de jerusalém

mais e mais habitantes passaram decidiram pedir auxílio financeiro Machané Yehuda continuou a
a frequentar o local. O perfil dos às autoridades para construir lojas se desenvolver ao longo das décadas
mercadores começou a mudar e permanentes. Assim, em 1931, foi seguintes e, atualmente, cobre
muitos árabes venderam seu espaço comprada mais uma área no lado uma área que vai da Yeshivá Etz
para os imigrantes judeus. Na época, ocidental do mercado original Chaim até a Yeshivá Bet Yaacov,
a Yeshivá Etz Chaim, localizada no para ampliá-lo. Muitos dos novos e da Rua Yaffo até a Agrippas.
meio do mercado, abriu uma série de imigrantes eram oriundos do Iraque Muitas coisas mudaram desde os
lojas ao longo do seu muro e alugou- e essa área ainda hoje é conhecida primeiros anos de informalidade
as aos interessados, aumentando sua como Mercado Iraquiano. e, atualmente, o mercado é
renda e também atraindo a recém- uma empresa organizada, com
chegada população judaica. representantes indicados pelos
lojistas. Machané Yehuda deixou
Visando estender o mercado, em de ser apenas um mercado para
1930, os mercadores se uniram e, ser um local de eventos. Seus bares
com o auxílio do Comitê Municipal e restaurantes realizam uma série
de Jerusalém, compraram uma área deles, como jantares temáticos,
localizada ao sul da Rua Ha’Agás, degustação de vinhos e alimentos,
onde estabeleceram um novo mostras de artes, além de tours
mercado. Os britânicos criaram uma organizados durante a semana e
série de exigências em relação ao nos finais de semana para os
design das lojas, mas a Prefeitura interessados em conhecer com mais
assumiu a responsabilidade pelas profundidade o local e sua história.
condições sanitárias e limpeza do São também realizados eventos
novo local. Cerca de um ano depois, foto antiga do “shuk” (mercado),
diretamente ligados ao calendário
alguns comerciantes e proprietários início do séc. 20 judaico.

29 junho 2017
ISRAEL

O projeto surgiu de uma parceria Cores, aromas e sons abrangentes,


entre o Departamento de Arte vindos de diferentes direções, lojas e
da Prefeitura de Jerusalém, a lojistas árabes marcam a atmosfera
Associação dos Vendedores do do local, fazendo do passeio pelo
Shuk (mercado, em hebraico) e o mercado da Cidade Velha uma
Conselho Comunitário de Lev experiência única e inesquecível.
Ha’Ir (o “centrão”). Outra grande É também uma oportunidade para
e imperdível atração de Jerusalém se descobrir a verdadeira culinária
é o Mercado Árabe – Shouk Khan árabe entre as vielas do mercado,
Ez-Zheit, ou simplesmente Shouk. saboreando hummus, tahine, falafel e
A parte principal do Mercado da outros quitutes regionais.
Cidade Velha de Jerusalém está
localizada no bairro Muçulmano, Para os visitantes interessados
mas na verdade seus becos em prolongar sua aventura pelos
intrincados podem sobrepor-se e mercados em Jerusalém, basta
mercado da cidade velha de percorrer as fronteiras de todos os seguir em direção ao portão que,
jerusalém
quatro cantos da Cidade Velha: além de levar ao Monte do Templo,
o bairro Cristão, o Armênio, o levará também ao Cardo, o mercado
Entre os sucessos de público Muçulmano e o bairro Judeu. judaico da Cidade Velha. Localizado
na agenda do mercado está o O Portão de Yaffo, nas proximidades no que costumava ser uma das
Tabula Rasa – Urban Art Project, do Hotel e Shopping Mamilla, é principais ruas de Jerusalém durante
em setembro, quando pintores, a melhor opção para se entrar no o Período Romano, é o espaço no
escultores, fotógrafos e artistas mercado e desvendar seus mistérios. qual se pode ter uma amostra da
gráficos se unem para transformar o Entre os locais religiosos cristãos, sofisticação e da criatividade dos
local e seus arredores em um amplo passa-se por lojinhas que vendem designers israelenses contemporâneos
projeto de arte urbana. artigos religiosos. Os preços são em termos de joias e bijoux,
muito parecidos, mas barganhar esculturas e arte em geral, além de
O interessante é que as obras à faz parte da diversão. O lugar produtos religiosos com selo emitido
mostra são criadas em tempo real, é uma opção para comprar todo pelas autoridades rabínicas do país
diante dos visitantes, utilizando as tipo de objetos de decoração e que garantem sua procedência.
mais diferentes matérias-primas, souvenires que fazem referência à
com ênfase em produtos recicláveis. Terra Santa. Desvendando Tel Aviv

Tel Aviv, metrópole cosmopolita


também conhecida como “a cidade
que nunca dorme”, concentra, entre
outros, quatro opções atraentes –
duas mais antigas, como o Shuk
Ha’Carmel – feira tradicional que
reúne desde alimentos, roupas,
CDs e muitas outras quinquilharias,
e a Feira de Artes e Artesanato
Nahalat Binyamin. O Porto de
Tel Aviv é mais uma opção para
alimentos saudáveis e diferentes.

No entanto, a mais recente atração


da cidade é o Sarona Market, que
oferece as mais variadas opções da
área de gastronomia – das mais
entrada do mercado Machané yehudá simples às mais sofisticadas.

30
REVISTA MORASHÁ i 96

O Shuk Ha’Carmel está localizado Binyamin, que leva este nome


em uma das principais avenidas da por causa da rua onde se localiza.
cidade, a Allenby, perpendicular à Funcionando apenas na quinta
Hayarkon, avenida da praia, e se e sexta-feira, é o retrato da
estende por centenas de metros em criatividade israelense em todas as
direção ao mar em uma trajetória suas manifestações. Para expor seus
não muito linear. O Ha’Carmel é produtos, artistas e artesãos devem
a maior feira de frutas e vegetais ser aprovados por um comitê,
da cidade, mas não é apenas que, segundo os organizadores,
isso. Ali, em meio a um universo garante o alto padrão do evento.
multicultural de idiomas e costumes, Ali são encontrados produtos mais
os visitantes têm a oportunidade sofisticados, realmente feitos um
de conhecer alimentos típicos, a um e não em escala industrial,
como a bureka (folhado salgado como no mercado vizinho.
de queijo, cogumelos, espinafre e
outros recheios), oriunda da Turquia Para complementar, é muito
Almíscar e outras essências
e que em Israel ganhou mil e uma aromáticas comum músicos, artistas circenses
variações, além de barracas de e dançarinos aproveitarem o
comidas orientais (muito comuns Imperdíveis também são os sucos espaço para também mostrar sua
hoje em Israel) como o sushi, o naturais feitos a partir da variedade arte. Na mesma rua, vários cafés
yakissoba e muito mais. Além do de frutas produzidas no país com e restaurantes possuem mesas ao
tradicional falafel, bolinho de grão a mais alta tecnologia – melões, ar livre, aproveitando a atmosfera
de bico servido no pão sírio (pita) limões, mamões, laranjas, romãs diferenciada que a presença de
e acompanhado de hummus, tahine, – dão um toque todo especial à tantas expressões artísticas cria
saladas e batatas fritas – e que faz a caminhada, seja pelas várias artérias na região. A feira da Nahalat
alegria de todos que se lambuzam que formam o Ha’ Carmel quanto Binyamin, como é simplesmente
com a deliciosa iguaria. pelo calçadão que cobre a orla de Tel conhecida, é uma ótima pedida
Aviv de ponta a ponta – em qualquer para quem quer vivenciar um
Barracas de bijuterias ao lado de estação do ano. pouco da tão falada Tel Aviv
capas para celulares, camisetas de cosmopolita. Lá, como no mercado
times internacionais e israelenses, Próxima ao Carmel está a Feira vizinho, também se ouve um
chapéus e bolsas das mais variadas de Arte e Artesanato Nahalat mosaico de idiomas.
cores e tamanhos, sapatos, cáftans
multicoloridos, calças saruel, blusas e
tel aviv - o barulhento e sempre lotado shuk ha-carmel, no bairro iemenita
pantalonas estampadas com o rosto
de Bob Marley fazem a diversão de
quem tira algumas horas de suas
férias para se familiarizar com o dia-
a-dia de Israel. Sim, apesar de ser
uma opção para turistas, este é um
mercado para a população israelense.
Pechinchar, ali, não é tão simples
como em outros locais turísticos
do país. Um alerta importante aos
visitantes: mãos gesticulando e vozes
cada vez mais altas, diferentemente
do que se possa imaginar, não são
sinais de briga ou desentendimento.
É apenas uma das características
da forma como os israelenses se
comunicam.

31 junho 2017
ISRAEL

às quintas-feiras à noite, os donos


dos quiosques costumam expor suas
mercadorias nas ruas, como também
o fazem bares e cafés. Grupos
amadores aproveitam a ocasião para
mostrar suas habilidades artísticas.

Em junho de 2015, Tel Aviv


ganhou mais um mercado, que
reúne restaurantes, lojas de produtos
alimentícios, entre as quais
nomes famosos como Marinado,
Ika e Fauchon. É considerado um
dos maiores mercados de culinária
Mercado das pulgas em Yaffo antiga, Tel Aviv
e gastronomia do país e, desde sua
abertura, é um sucesso de público,
O Porto de Tel Aviv, em hebraico artesanato de artistas israelenses tanto pela variedade de seus
Namal Tel Aviv, que passou famosos, como Michal Negrin e quiosques quanto pelos
por um amplo processo de Ayala Bar. No passado um reduto preços, considerados justos pelos
revitalização nos últimos anos e quase exclusivo de comerciantes visitantes. Segundo os frequentadores
atualmente é um dos principais árabes, hoje já registra a presença locais e do exterior, o Sarona
points da cidade – de dia e de significativa de judeus, incluindo Market pode ser comparado ao
noite – mantém um mercado de inúmeros religiosos. tradicional mercado La Boqueria,
produtos alimentícios orgânicos em Barcelona; o Chelsea Market, em
que se tornou rapidamente um Ali, barganhar faz parte do Nova York; e o Bourough Market,
dos principais atrativos da área, processo de compra e venda, em Londres.
com sessões de degustação. É a diferentemente do que acontece
primeira feira coberta de verduras, no Shouk Ha’Carmel. No verão, O Complexo Sarona, erguido
legumes e frutas da cidade e está em uma antiga colônia dos
localizada no extremo oposto templários, ocupa uma área de
ao antigo Porto de Yaffo, que 8.700 metros quadrados e oferece
também passa por um processo uma variedade de produtos
de transformação. Cerejas, romãs, de todo o mundo, desde queijos
abacates e muito mais criam um holandeses a especiarias
arco íris de cores que enfeitam a asiáticas. No total, são mais de
paisagem. 100 empreendimentos incluindo
40 quiosques de alimentação com
Revitalização, aliás, é a palavra de nomes famosos no país como
ordem na cosmopolita Tel Aviv. Hummus Abu Hassan, de Yaffo, e
A área de Yaffo é um exemplo Basher Fromagerie, de Jerusalém,
claro deste processo. Lá, ao lado além de chefes famosos, como
de restaurantes, cafés e lojas Israel Aharoni e Segev Concept.
sofisticadas, está localizado o Do lado de fora, livrarias, lojas de
Mercado de Pulgas, em hebraico, roupas e sapatos, além de uma
Shuk Hapishpishim, onde ao lado ampla área verde e brinquedos
das bancas repletas de jeans de para o lazer das crianças.
grife usados, vestidos vintage,
potes de cobre e outras bugigangas Israel, terra do leite e do mel... e dos
encontram-se várias pequenas Almoçando em moderna lanchonete
mercados com produção farta, em
butiques com produtos de grife e de cozinha aberta, no Sarona Market todas as estações do ano.

32
HISTÓRIA

SEIS DIAS QUE FIZERAM HISTÓRIA


- A GUERRA DE 1967

Há 50 anos, em maio de 1967, os judeus no mundo todo prenderam


a respiração. Israel tinha sua existência ameaçada, cercado por
exércitos árabes. em 5 de junho, aviões israelenses realizaram um
ataque preventivo destruindo o poder aéreo inimigo e abrindo
o caminho para uma fulminante vitória. No dia 10, quando o
armistício entrou em vigor, Israel conquistara o Sinai, Golã,
a “Margem Ocidental”, Gaza e a Cidade Velha de Jerusalém.

A
vitória esmagadora de Israel em apenas seis Um ato de legítima defesa
dias mudou o cenário geopolítico do Oriente
Médio. Emergindo como a potência regional, Um dos principais mitos é a afirmação de que a Guerra
enterrava as esperanças dos que queriam decorreu de um ato de agressão bélica por parte de
“varrer Israel do mapa”. Para todos os judeus, Israel, quando, de fato, foi um ato de legítima defesa,
lá ou na Diáspora, era uma experiência transformadora tomado após semanas de agonizante indecisão. Nas
que, após séculos de insultos e violência, enchia-os de semanas que antecederam o conflito, Israel estava
orgulho e confiança. cercado por exércitos de Egito, Jordânia e Síria, com
o apoio do Iraque, Kuwait, Arábia Saudita, Argélia e
Nas cinco décadas que se seguiram, historiadores e Sudão, postados ao longo das linhas de armistício. Se
cientistas políticos têm analisado os eventos que levaram eles atacassem simultaneamente, as FDI (Forças de
à Guerra de 1967 e suas consequências. Entre eles há Defesa de Israel) teriam que lutar em três frentes, tendo
os que tentam reescrever a História. Mitos substituíram que dividir suas forças quando mal tinham o número
fatos. “Uma mentira muitas vezes repetida se torna uma de homens e armas necessários para enfrentar o Egito.
verdade“, dizia um dos maiores inimigos do Povo Judeu, Israel não queria a guerra, pois mesmo a vitória custaria a
gênio da propaganda. Esses mitos estão firmemente vida de milhares de cidadãos. Mas, para o Estado Judeu,
arraigados entre acadêmicos e universitários, jornalistas, não havia, e não há alternativa à vitória. Como sempre,
diplomatas, líderes políticos e, mesmo, entre judeus precisava lutar e vencer, pois uma derrota militar poderia
e israelenses. Nas últimas semanas, alguns jornais significar o fim da soberania de Medinat Israel.
conceituados, como o Washington Post, publicaram
artigos acusando Israel e demonizando suas ações em Sim, afirmam os que querem reescrever a História, é fato
relação à Guerra de 1967. É, portanto, imperativo que uma coalizão de exércitos árabes armados pela URSS
relembrar, ainda que de forma resumida, os motivos e cercava Israel e o propósito de seus líderes era “erradicar
eventos que levaram à Guerra dos Seis Dias, como o a entidade sionista”, pondo um fim à presença judaica na
conflito se tornou conhecido. região. Mas, diziam eles, os árabes não pretendiam atacar

33 JUNHO 2017
HISTÓRIA

Israel. Uma afirmação que não se O pano de fundo


sustenta perante os fatos. A questão
central desse e de todo conflito Em meados da década de 1960,
árabe-israelense é a recusa dos países uma população quase 2,5 milhões de
árabes em reconhecer Israel. Desde israelenses vivia cercada de
sua fundação, e até antes, a intenção 122 milhões de árabes. A área total
dos árabes era destruir o Estado de Eretz Israel era de 18.700 km2 –
Judeu, visto como uma pedra em seu 0,1% do total das terras do Oriente
sapato. Essa intenção estava presente Médio.
nas declarações da Liga Árabe, nos
discursos de políticos, intelectuais Entre Israel, Síria, Egito e Jordânia
e líderes religiosos nas mesquitas, não havia, como muitos costumam
assim como em editoriais de jornais abba eban nas nações unidas afirmar, fronteiras efetivas, limites
e programas de rádio e televisão, e territoriais reconhecidos; havia
nas ruas. apenas linhas de armistício criadas
Europa de todo e qualquer judeu – em 1949, traçadas quando cessaram
Nas semanas que antecederam a promessa que custou a vida de mais os combates e tendo como único
Guerra, líderes árabes gabavam- de seis milhões de nossos irmãos. parâmetro a posição das forças de
se publicamente de que dariam A história não se repetiria. Israel e dos árabes.
“um fim pela espada” às pretensões Israelenses iriam lutar até o
sionistas. “Israel será erradicado e último homem, sabendo que a Após 1949, estavam em mãos
os poucos israelenses que, sobrevivência da Nação, de suas egípcias o Estreito de Tirã, no
porventura, sobreviverem, serão famílias e de seus filhos estava Golfo de Ácaba, e a Faixa de Gaza.
expulsos do Oriente Médio”. em suas mãos. Na Diáspora, a A Síria dominava o Lago Kineret
Multidões ensandecidas pelas identificação com Israel era total. (Mar da Galileia), principal fonte
promessas de vitória gritavam nas Mobilizou-se um maciço suporte de água do país, e as Colinas de
ruas “morte aos judeus”, “morte aos financeiro e político e milhares Golã, ao norte de Israel, de onde
sionistas”. de jovens foram até embaixadas e bombardeava os kibutzim do vale.
consulados israelenses querendo Pertenciam à Jordânia as Colinas
As ameaças gelaram o sangue alistar-se e perfilando-se para da Cisjordânia (Samaria e Judeia),
judaico. Ninguém podia esquecer serem enviados a Israel para lutar consequentemente, a planície costeira
a promessa de Hitler de livrar a ou ajudar no que fosse preciso. e a Cidade Velha de Jerusalém, que
a Jordânia tomara militarmente em
1948. De acordo com a determinação
das Nações Unidas para a Partilha,
de 1947, a cidade seria internacional.

O país possuía meros 15 km de


largura e seus centros populacionais
estavam ao alcance da artilharia
inimiga. Qualquer combate,
portanto, devia ser levado para
território inimigo. E, em Jerusalém,
poucos metros dividiam as forças
inimigas da população israelense.
Se Israel fosse cercado por nações
amigas, fronteiras desse tipo já
seriam inconvenientes; mas cercado
de inimigos, eram um pesadelo. Um
EM VISITA A UNIDADES DO EXÉRCITO NO NEGUEV, O PRIMEIRO-MINISTRO LEVY ESHKOL, ataque repentino poderia dividir o
TERCEIRO À DIREITA, COM O CHEFE DO ESTADO MAIOR, YITZHAK RABIN, E O MINISTRO
YIGAL ALLON país ao meio.

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Soldados israelenses numa trincheira

Após a Campanha do Sinai de 1956, forças jordanianas e sauditas os refugiados palestinos viveram
uma área desmilitarizada havia sido que apoiavam os monarquistas. praticamente 20 anos, de 1948 a
instituída entre Israel e o Egito. As relações com a Jordânia e a 1967, sob domínio da Jordânia e
URSS e os Estados Unidos haviam Arábia Saudita estavam, pois, em Egito. São chamados de refugiados
obrigado Israel a devolver o Sinai vias de ruptura e, com a Síria, palestinos os árabes que deixaram
ao Egito, garantindo em troca que estavam estremecidas após os sírios o território, que após uma decisão
a península ficaria desmilitarizada e abandonarem a união com o Egito, da ONU sobre a Partilha, em 1947,
as Forças de Emergência das Nações a República Árabe Unida, fundada tornara-se o Estado de Israel.
Unidas (UNEF) garantiriam uma em 1958. Aqueles que viviam na Cisjordânia
zona-tampão de 200 km entre os (“Margem Ocidental”) estavam sob
dois países. Garantiram ainda que Os ataques de terroristas palestinos domínio jordaniano e os que viviam
o Estreito de Tirã estaria aberto a contra alvos israelenses, instigados em Gaza, sob os egípcios. Os dois
navios israelenses. O Estreito é a ou tolerados pela Síria, Jordânia e territórios abocanhados pelas duas
única ligação de Israel com o Mar pelo Egito, haviam-se intensificado nações em 1948 faziam parte da área
Vermelho, através do Golfo de entre abril de 1966 e abril de 1967, onde, ainda de acordo com a Partilha
Ácaba. assim como os ataques sírios contra de 1947, deveria ter sido criado um
os kibutzim que estavam na linha de estado árabe. É importante ressaltar
Não há dúvidas de que um dos fogo de sua artilharia. Os ataques que, em nenhum momento, Jordânia
principais responsáveis pela Guerra inimigos não cessavam, apesar de ou Egito cogitaram a criação de um
foi Gamal Abdel Nasser, ditador do conscientes de que seriam duramente estado palestino nessas áreas.
Egito que tomara o poder em 1952. retaliados por Israel, que buscava
Líder carismático, Nasser queria a impingir-lhes as consequências Os interesses da União Soviética
união de todos os países árabes sob de seus atos. Em 1965, em apoio no Oriente Médio foram outro
sua liderança. Mas, em 1967, seu aos ataques, Nasser declarou, “Não importante vetor. Egito e Síria eram
prestígio estava abalado. Um de seus entraremos na Palestina com seu solo países satélites da URSS e seus
erros fora enviar soldados egípcios coberto de areia; lá entraremos com exércitos foram armados e treinados
para lutar na guerra civil no Iêmen seu solo saturado em sangue”. pelos soviéticos que procuravam
ao lado dos rebeldes republicanos. solidificar sua presença no Oriente
Além de não conseguir uma vitória, Para se entender o pano de fundo Médio. Para fomentar os ânimos
os egípcios tiveram que enfrentar da Guerra, é preciso lembrar que egípcios, alguns dias antes do início

35 JUNHO 2017
HISTÓRIA

1 2 3

1. Uma jovem tenente fala de um telefone de campanha militar no Negev 2. Soldados israelenses no Sinai
3. Voluntários nos dias que antecederam a Guerra

da guerra, enquanto Anuar el-Sadat, alertou o governo de Israel de que tomara conta do mundo árabe. Ao
então vice-presidente do Egito, a falta de uma resposta militar era ser interpelado pelo embaixador
estava em Moscou, os soviéticos vista por Nasser como um sinal de americano em Amã sobre suas ações,
lhe passaram uma informação falsa, fraqueza. Hussein respondeu que “o pacto era
desmentida pela própria Inteligência seu seguro de vida”.
egípcia, de que os israelenses se As provocações do ditador egípcio
preparavam para invadir a Síria. E continuaram. No dia 26 de maio, por Logo em seguida, o Iraque assinou
asseguraram que a URSS entraria exemplo, em um discurso, afirmou um acordo similar, e a Síria
em uma guerra do lado árabe se os que pretendia “destruir Israel”. Sua concordou em enviar à Jordânia
EUA se envolvessem no conflito. ousadia e as possiblidades de um uma brigada para lutar ao lado dos
ataque militar contra Israel fizeram iraquianos, enquanto contingentes
O FORTALECIMENTO vibrar de alegria o mundo árabe. de outras nações árabes estavam a
MILITAR ÁRABE caminho. Nas palavras do presidente
Quando, no dia 30, o rei Hussein, iraquiano Abdul Rahman Arif,
Na segunda metade de maio da Jordânia, curva-se perante o “O mundo árabe foi unido por um
de 1967, fortalecido pelo apoio Egito, Israel entendeu que não denominador comum – riscar Israel
soviético e esperançoso de recuperar teria como evitar uma guerra. do mapa”.
seu prestígio, Nasser passou O rei voara até o Cairo para assinar
abertamente a provocar Israel. uma aliança colocando seu exército O período de espera
No dia 16, exigiu a retirada das sob o comando egípcio. Ao retornar,
Forças da ONU do Sinai. O então foi recebido por uma multidão As Forças de Defesa de Israel
secretário-geral das Nações Unidas, entusiasmada e ele, também, observavam com crescente
U Thant, acatou a exigência, e três foi contagiado pela euforia que preocupação a concentração de
dias mais tarde a UNEF deixava forças inimigas ao longo de suas
suas posições. Imediatamente fronteiras. Na época, Levi Eshkol
tropas egípcias avançaram tomando acumulava os cargos de primeiro-
posições ao longo da fronteira de ministro e ministro da Defesa. Para
Israel. No dia 20, 100 mil soldados frustração e fúria dos israelenses,
egípcios e mais de mil tanques já suas atitudes perante as provocações
estavam no Sinai. egípcias eram por demais moderadas.
Eshkol relutava em tomar uma
No dia 22, mais uma provocação. ação militar e, em busca de uma
Nasser fechou o Estreito de Tirã solução diplomática, enviou Abba
à navegação israelense, isolando Eban, então ministro das Relações
a cidade de Eilat. “A bandeira Exteriores, à Europa e aos Estados
israelense não mais passará pelo Unidos.
Golfo de Ácaba”, declarou. Para
Israel, o fechamento do Estreito Mas, diante da grande possibilidade
era um casus belli, uma declaração de estourar uma guerra, as FDI
de guerra. A Inteligência israelense começaram a se preparar.

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Em 20 de maio o general Yitzhak As peregrinações de Abba Eban em como o jornal Ha’aretz. Ele era visto
Rabin, então Chefe do Estado busca de uma solução diplomática como destituído das qualidades
Maior, inicia a mobilização foram inúteis. Enquanto a União necessárias para conduzir o país
dos reservistas, apesar de o fato Soviética armava o Egito e a Síria, em tal crise. A tensão cresceu
significar a paralisação da economia. tornou-se claro para Israel que na noite de 28 de maio após seu
As FDI são fundamentalmente um nenhum país agiria em sua defesa. pronunciamento pelo rádio. Em tom
exército de reservistas. Na época, Era doloroso admitir, mas o mundo vacilante, o primeiro-ministro pediu
os efetivos ficavam entre 50 – 60 estava mais uma vez inerte diante paciência e disse que continuaria a
mil soldados, mas mobilizando os do que muitos acreditavam ser trilhar o caminho da diplomacia.
reservistas chegariam a 264 mil. a provável destruição do Estado Não era a mensagem que a Nação
Judeu. Os Estados Unidos não se esperava. No dia seguinte, abismados
Durante o chamado “período de prontificaram a ajudar, advertindo com o fato de que governo
espera”, em hebraico, Hamtana, Israel de que não atacasse primeiro. continuava paralisado pela indecisão,
do dia 23 de maio a 4 de junho, o As posições dos governos britânico a mídia e a opinião pública
clima em Israel era de incerteza e e francês, aliados na Campanha clamaram por ação. Exigiam a
preocupação. O noticiário era do Sinai em 1956, foram formação de um governo de
repleto de informações sobre as decepcionantes. A Inglaterra, entre unidade nacional e a renúncia de
tropas de Nasser no Sinai e as outros, temia o boicote dos países Eshkol do cargo do ministro da
declarações incendiárias dos líderes produtores de petróleo a qualquer Defesa. O nome mais cogitado para
árabes. A TV do Cairo transmitia país que ajudasse Israel. Charles de substituí-lo era Moshé Dayan, para os
imagens de multidões gritando Gaulle havia adotado uma política israelenses um sinônimo de vitória.
“Morte aos Judeus” e uma rádio pró-árabe, e simplesmente disse a
egípcia, “a Voz do Trovão”, repetia Eban que o compromisso da França Logo após o discurso de Eshkol,
ameaças do tipo “Façam as malas com Israel fora acordado “em 1957, e foi realizada uma reunião de
antes de serem mortos”. “O único agora estamos em 1967”. Para piorar emergência da qual participaram
método a ser aplicado contra Israel a situação, de Gaulle ordenou a generais das FDI e o Gabinete.
será uma guerra total que resultará suspensão de todos os embarques de Os líderes militares queriam que o
na exterminação da existência armamentos para Israel. primeiro-ministro e seu Gabinete
sionista”. entendessem ser necessário uma
A decisão de Eshkol de tentar evitar resposta aos desafios lançados por
Ao relembrar aquelas semanas uma resposta militar era condenada Nasser. Disseram que entre 1956
o general Yossi Peled, certa vez inclusive pela mídia mais liberal, e 1967 todo oficial das FDI sabia
revelou: “Tínhamos visto imagens
das vítimas de ataques egípcios a gás
Blindados israelenses em prontidão no Neguev, 1967
no Iêmen... estávamos começando
a pensar em termos de aniquilação,
tanto nacional quanto pessoal’.
A seguinte declaração de oficial
israelense revela o clima reinante:
“Seria uma segunda Massada, não
encontrariam ninguém vivo”. Era
consenso entre os soldados que
caso os egípcios entrassem em
Israel era melhor matar-se e matar
suas famílias do que cair em mãos
inimigas. No final da guerra, os
prisioneiros egípcios, estupefatos
pelo bom tratamento que lhes fora
dispensado, revelaram que a ordem
recebida era “matar os homens e
estuprar as mulheres”.

37 JUNHO 2017
HISTÓRIA

que outra guerra com o Egito era Dois dias mais tarde, após Hussein não queria a guerra, pois mesmo a
só questão de tempo, e que haviam e Nasser assinarem a aliança, vitória teria um alto custo. O general
sido traçados minuciosos planos Eshkol se convenceu de que a guerra Rabin estimava que o número de
de guerra. As FDI tinham sido era inevitável. No dia 1º de junho, israelenses mortos poderia chegar a
treinadas para enfrentar todo tipo ele se rendeu às pressões, inclusive dez mil. As estimativas de Moshe
de crise. Os generais da Força do próprio Ben-Gurion, de Shimon Dayan eram ainda mais pessimistas,
Aérea e do Exército expressavam Peres e de Menachem Begin, líder dizendo que se Israel não atacasse
sua confiança em uma vitória caso da oposição, e nomeou Moshe preventivamente seriam dezenas de
Israel atacasse primeiro. Um ataque Dayan ministro da Defesa. milhares de mortos...
aéreo preventivo era fundamental Foi formado um governo de Ao contrário do que Nasser esperava
para diminuir a esmagadora união nacional e Menahem Begin as ameaças não abateram o espírito
superioridade numérica árabe. foi integrado ao Gabinete. dos israelenses, despertando, pelo
Mas Eshkol ainda hesitava em Em 31 de maio, o Secretário de contrário, os mais profundos
tomar uma decisão militar, e Estado Norte-americano, Dean instintos de autopreservação.
Quaisquer diferenças pessoais ou
políticas desapareceram perante a
convicção de que, para Israel, havia
apenas uma saída agora, e teria que
ser pela espada. A frase que estava
na boca de todo israelense era “Ein
brerá”, não há alternativa, estamos
cercados por inimigos de todos os
lados; é vencer ou vencer”.

O setor civil se mobilizou. Milhares


de voluntários – homens, mulheres,
velhos e jovens que não estavam
no exército cavavam trincheiras
e preparavam escolas e edifícios
públicos para serem centros de
evacuação, e estádios de futebol e
parques para serem cemitérios. Nos
Ariel Sharon (no centro) no comando de sua divisão de blindados. Sinai, 1967
hospitais, pacientes que não corriam
perigo receberam alta; os médicos
precisavam dos leitos. Nos prédios
respondeu que daria aos norte- Rusk, relatou a um Comitê do havia listas de doadores de sangue e
americanos o tempo que haviam Congresso que os Estados Unidos seu tipo sanguíneo.
pedido. A atitude enfureceu os não planejavam uma intervenção
generais, abismados com que o militar em separado no Oriente O Rabinato declarou que a crise
governo confiasse na possível ajuda Médio, “mas apenas dentro do então enfrentada era uma situação
externa, que sabiam que não viria, arcabouço das Nações Unidas...”. de Pikuach Nefesh (uma questão de
ao invés de em suas próprias Forças Em outras palavras, não haveria tal vida ou morte), pois a sobrevivência
Armadas. ”A sobrevivência do intervenção. Rusk foi além, dizendo: de Israel estava sendo ameaçada, e
Estado está ameaçada”, disse-lhe um “Não creio que seja nosso interesse advertiu que no Shabat não apenas
general, expressando o sentimento refrear nenhum dos lados”. era permitido trabalhar na defesa
de perigo sobre o qual a maioria do país, mas obrigatório. Os alunos
hesitava em falar. E lhe avisaram A mobilização mais velhos da Ieshivá do Rabino
que cada dia a mais que os inimigos de toda a sociedade Kook deixaram as salas de estudo e
tinham para se preparar significava se apresentaram em seus batalhões,
mais 200 israelenses mortos quando “Se querem guerra”, desafiara Nasser, pois muitos eram comandantes das
a guerra eclodisse. “estamos prontos para vocês”. Israel tropas de elite das FDI.

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REVISTA MORASHÁ i 96

A decisão de atacar

Os eventos tomaram um impulso


próprio. O que as FDI mais
temiam era um ataque surpresa e
o bombardeio da central nuclear
de Dimona. Temiam, também,
o uso por parte dos egípcios de
agentes químicos, especialmente
gás nervoso, como acontecera no
Iêmen, e a Inteligência de Israel
reportara que o Egito levara
cartuchos e bombas de gás para o
Sinai.

Os meios de comunicação árabe avião de guerra egípcio destruído no solo após ataque da Força AÉREA DE
anunciavam um iminente ataque. ISRAEL (FAI). junho 1967
No Sinai, as forças egípcias já
estavam na fronteira israelense; Desviando as mídia recebeu fotos de unidades de
o exército iraquiano preparava- atenções folga nas praias.
se para reforçar a frente oriental
jordaniana, e a Síria apontava sua Ironicamente, um dos fatores No Cairo, após dias de tensão, os
artilharia do alto do Golã. que permitiu aos israelenses círculos governamentais começavam
realizar o ataque preventivo foi a relaxar e a acreditar que já tinham
O general Aharon Yariv, então o fato de Israel ter recuperado o ganho a guerra.
chefe da Inteligência, advertiu “elemento surpresa”, devido às
o governo de que a situação semanas de espera. Observadores Operação Moked
era extremamente delicada: o no Oriente Médio, fossem
general egípcio Riadh estava em jornalistas, diplomatas, estrategistas Em uma reunião secreta na manhã
Amã implantando um posto de militares, quase sem nenhuma de domingo, 4 de junho, o governo
comando avançado. exceção, acreditavam que a posição tomou a decisão de atacar. Naquela
estratégica de Israel tinha-se altura, Israel já estava cercado e teria
Mesmo assim, o Gabinete relutava agravado. que lutar em duas ou três frentes,
em tomar a decisão de atacar. dependendo das ações da Jordânia.
Quando o general Mordechai Um plano de dissimulação foi posto O Egito tinha 210 mil homens,
Hod, comandante da Força em ação. Sábado, 3 de junho, em seu 100 mil deles no Sinai. Ao Norte,
Aérea, revelou que Israel poderia primeiro pronunciamento público a Síria tinha 63 mil homens, e, a
destruir a Força Aérea do Egito e como ministro da Defesa, Dayan Leste, a Jordânia contava com 55
de qualquer outro país árabe que afirmou que era “muito tarde para mil soldados. Após a mobilização,
interferisse sem colocar Tel Aviv uma reação militar espontânea ao Israel tinha 250 mil combatentes.
em perigo, ninguém no governo bloqueio egípcio do Estreito de Tirã Os inimigos tinham mais do que
acreditou. Mas, com a inclusão de – e ainda muito cedo para se tirar o dobro de tanques e 682 aviões
Dayan no Gabinete, havia alguém qualquer conclusão dos possíveis de combate. Compunham a Força
no governo que compreendia resultados de uma ação diplomática. Aérea de Israel 202 aviões.
tanto a situação política de Israel Nosso Governo – antes de que eu
quanto a militar. Juntamente com me tornasse parte dele – optou pela Na manhã do dia 5 de junho, no
os generais Ezer Weizmann e diplomacia: temos que dar-lhe uma bunker do Comando Geral das FDI,
Mordechai Hod, ele era um dos chance”. em Tel Aviv, Yitzhak Rabin, Chefe
poucos que sabia que a Força do Estado Maior; Ezer Weizman,
Aérea de Israel (FAI) poderia Naquele final de semana, milhares Chefe de Operações; Yaakov ‘Yak’
entregar o prometido. de soldados foram dispensados e a Nevo, planejador da Operação;

39 JUNHO 2017
HISTÓRIA

e Motti Hod, Comandante da Sobrevoaram o Mar Mediterrâneo a foram aprisionados e um foi


Força Aérea, aguardavam o início uma altitude de 30 metros. linchado pelos egípcios.
da Mivtzá Moked, Operação Foco.
Até então, Hod revelara um único Por que o horário de 7h45 foi A batalha em terra
elemento da operação – a hora zero, escolhido para o ataque? O
7h45. plano havia sido traçado após Assim que a primeira onda de
a Inteligência militar israelense aviões atingiu as bases aéreas
O comandante de uma das obter informações precisas e egípcias, o exército atacou. Dayan
companhias, enquanto seus homens detalhadas de seus alvos: o layout determinara que a maior parte dos
estavam em formação prontos das bases, a rotina dos comandantes recursos militares israelenses fossem
para decolar, citou duas passagens e pilotos egípcios, e assim por utilizados contra o Egito, o inimigo
dos Salmos: “Não confieis em diante. Israel sabia, por exemplo, mais perigoso.
príncipes” (146:3) e “Israel, confia que aviões egípcios patrulhavam
no Eterno, que é teu amparo e teu os céus até às 7 h, pois supunham Na manhã daquele dia mais uma
escudo” (115:10). Para os soldados, a que qualquer ataque israelense mensagem foi enviada ao rei da
mensagem era clara: “Não podemos ocorreria ao amanhecer. Às 7h45 Jordânia para não entrar no conflito.
confiar na ajuda de outras nações. os pilotos egípcios já estavam em Dayan queria evitar que Israel
Estejam preparados”. terra, indo tomar café da manha. tivesse que lutar em mais
Os comandantes da Força Aérea uma frente, tendo inclusive instruído
Precisamente às 7h451 da manhã, chegavam às bases por volta das o exército a mostrar contenção
hora de Israel, nove bases aéreas 8 h; às 7h45, estariam a caminho, diante dos jordanianos, e não
egípcias foram simultaneamente sem condições de tomar nenhuma entrar na Cisjordânia. Tampouco
atingidas por aviões israelenses, a decisão. E, de modo geral, às 7h45, se cogitava tomar a Cidade Velha
décima ainda encoberta por névoa o tempo e a visibilidade sobre o Nilo, de Jerusalém. (ver “A batalha por
alguns minutos depois. O objetivo o Delta e o Canal do Suez eram Jerusalém”, pág. 67)
era liquidar a Força Aérea egípcia ótimos por causa do ângulo do sol.
no solo, sendo os principais alvos No Sinai, os soldados de Israel
as pistas de decolagem e os aviões. Com o ataque surpresa, a maior esperavam o sinal verde para
Todos os esquadrões participaram, parte da Força Aérea do Egito foi atacar. Às 8 h, o Comando do
ficando apenas 12 aviões para destruída no solo. Em menos de Sul, sob a liderança do general
defender os céus de Israel. Os pilotos três horas foram arrasados 300 dos Yeshayahu Gavish, deu ordem para
sabiam que a sobrevivência da Nação 340 aviões de combate do país. avançar. Três divisões de blindados,
dependia deles. Israel perdeu 19, alguns pilotos comandadas pelos generais Ariel

Para a operação ter sucesso era


imprescindível manter o elemento
surpresa o máximo de tempo
possível. O planejamento e
treinamento dos pilotos haviam
sido minuciosos. O horário da
decolagem fora cronometrado para
que todos os esquadrões atingissem
seus alvos ao mesmo tempo. As
rotas foram definidas de modo a
não serem detectadas pelos radares
árabes e os pilotos teriam que voar
a altitudes extremamente baixas
e sem nenhum contato de rádio.

1
8h30 Hora do Cairo Tropas das FDI chegam ao Canal de Suez - 40 dia da guerra

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Sharon, Israel Tal e Abraham Joffe


atacaram sete brigadas egípcias e
mil tanques. Não demorou para que
as divisões blindadas rompessem
as defesas egípcias e seguissem em
direção oeste.

O rei Hussein viu-se em meio a


um dilema: permitir que a Jordânia
fosse arrastada para a Guerra e
aguentar o impacto da força da
resposta israelense, ou continuar
neutra, arriscando-se a uma
insurreição em alta escala entre seu
próprio povo. Decidiu não atender
os apelos de Israel. Na manhã do
1º dia da guerra, forças jordanianas SOBRE O MONTE DAS OLIVEIRAS, MOTTA GUR DÁ A ORDEM PARA ENTRAREM NA CIDADE VELHA
abriram fogo, atingindo povoados
e cidades israelenses, inclusive os
arredores de Tel Aviv e Jerusalém. detinham a posição estratégica Sinai está em nossas mãos...”. Após
As forças de Israel partiram ao elevada, dificultavam ao máximo a meros seis dias de luta, Israel estava
ataque. Jerusalém ficou, assim, ao penetração das forças israelenses. em uma posição que lhe permitia
alcance de Israel. Na tarde do dia 5, Em 9 de junho, após dois dias de marchar, triunfal, sobre o Cairo,
Dayan realocara a 55ª Brigada pesado bombardeio aéreo e muitas Damasco e Amã.
de paraquedistas para defender a mortes as FDI conseguiram romper
Jerusalém judaica e após 48 horas as linhas sírias e atacaram o Golã. Em 10 de junho, Israel aceitou
a Bandeira de Israel estava içada o armistício, contabilizando 777
no Muro das Lamentações. Uma Na manhã daquele mesmo dia mortos, 115 dos quais no Golã;
vitória gloriosa – e totalmente 9, às 5h45, o chefe do Comando e 2.586 feridos. Ao término da
inesperada. do Sul informou ao Chefe do guerra, Israel conquistara territórios
Estado Maior: “As FDI estão às que triplicavam o tamanho de seu
Quando forças sírias atacaram margens do Canal do Suez e do território – o Sinai, as Colinas do
Tiberíades e Megido, as FDI Mar Vermelho! A Península do Golã, a Faixa de Gaza e a Margem
reagiram. Aviões israelenses Ocidental (Cisjordânia). Mas, a
atacaram as Forças Aéreas síria e maior de todas as conquistas foi
jordaniana e um campo de pouso ter possibilitado a reunificação de
no Iraque. No final do primeiro dia, Jerusalém, Capital Eterna do Povo
a Força Aérea jordaniana e mais do Judeu.
que a metade da síria haviam tido o
mesmo destino que a egípcia, tendo
sido destruídas em solo.
BIBLIOGRAFIA

Enquanto a maioria das unidades Churchill, Randolph S. e Churchill,


Winston S, The Six Day War, eBook Kindle
das FDI lutavam contra os egípcios
e os jordanianos, poucos soldados Pressfield, Steven, A Porta dos Leões,
Editora Contexto
restaram na defesa da fronteira
Norte contra os sírios. Somente Rabinovich, Abraham, The Battle for
Jerusalem: An Unintended Conquest (50th
após os jordanianos e egípcios Anniversary Edition), ebook Kindle
terem sido dominados, pôde- O Ministro da Defesa Moshé Dayan e o
Webb, Ryan, David v. Goliath: What
se enviar reforços às Colinas do Chefe do Estado Maior Yitzhak Rabin
Caused the 1967 Arab-Israeli War?, ebook
voltando do campo de batalha, após a
Golã, onde os atiradores sírios, que Guerra dos Seis Dias Kindle

41 JUNHO 2017
COMUNIDADES

vida judaica na escócia

Há referências históricas da presença judaica na Escócia


no final do século 17, mas a primeira comunidade foi criada
em Edimburgo, em 1816, e a segunda, em Glasgow, sete anos
mais tarde. A população judaica foi crescendo no século
19 com a chegada de judeus vindos da Europa do Leste.
Em meados do século 20, viviam no país cerca de 20 mil de
nossos irmãos, mas hoje são cerca de seis mil.

P
aís de deslumbrantes paisagens, a Escócia cobre xadrez – especial para o “clã judaico”, encomendado
o terço norte da ilha da Grã-Bretanha e, desde pelo rabino do Chabad de Glasgow, e certificado
o início do século 18, quando se uniu com a pela Autoridade de Tartans da Escócia. Na Escócia,
Inglaterra, é um dos países do Reino Unido1. os membros dos diferentes clãs são reconhecidos
A Escócia faz fronteira ao sul com a Inglaterra pela padronagem de xadrez geralmente utilizada na
e o Oceano Atlântico, ao leste com o Mar do Norte e a confecção dos kilts. Cada clã tem seu próprio conjunto
sudeste com o Canal do Norte e o Mar da Irlanda. de cores e uma trama diferente. As cores do xadrez
do “clã judaico” são azul, branco, prateado, vermelho e
Em termos numéricos, a presença judaica jamais foi dourado. De acordo com o rabino: “Os azuis e brancos
significativa, sempre representando menos de 1% da representam as cores das bandeiras da Escócia e de
população, mas seus membros contribuíram amplamente Israel; a linha central dourada representa o ouro do
para o desenvolvimento econômico da nação. Em uma Tabernáculo, a Arca da Aliança; o prateado, a decoração
sociedade em que não havia barreiras legais, eles deram que enfeita os Rolos da Lei e o vermelho representa o
significativa contribuição em todos os campos, produzindo tradicional vinho do Kidush”.
cientistas e doutores, juízes e membros do Parlamento,
ministros do Governo, artistas, escritores e músicos O Reino da Escócia
famosos e campeões nos esportes e destiladores de whisky.
A Escócia é uma nação cuja história é tão fascinante
Os judeus se tornaram a maior minoria não cristã a viver quanto violenta. Os primeiros registros remontam à
na Escócia, “um clã judaico” entre os muitos clãs que ocupação do Sul e do Centro da ilha da Grã-Bretanha
compõem a sociedade tradicional escocesa. Em março pelo Império Romano. O território que equivale
de 2008 foi desenhado um tartan – um padrão de trama atualmente à Inglaterra e ao País de Gales passou a
ser a província romana da Britânia, no século 1, mas
1
O Reino Unido é uma união política de quatro “países os romanos não conseguiram dominar o norte da ilha,
constituintes”: Escócia, Inglaterra, Irlanda do Norte e País de Gales. habitado pelos pictos, e no século 5 deixaram a região.

46
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interior da sinagoga de Garnethill, GLASGOW

Segundo a tradição, o Reino da do bispo de Glasgow que proibia


Escócia foi fundado em 843 com os cristãos de “contabilizar os
a união das tribos dos pictos e dos benefícios auferidos com dinheiro
escotos, e, nos séculos seguintes, os tomado emprestado aos judeus”.
escoceses lutaram ferozmente contra Há dúvidas se esta determinação
quem quer que fosse – vikings, oficial se refere a judeus que viviam
anglo-saxões e ingleses – para na Inglaterra e emprestavam
manter sua independência. dinheiro aos escoceses, ou se foi
promulgada após a chegada em
O que se sabe sobre a presença Glasgow de judeus em fuga face
judaica na Escócia no período que vai aos distúrbios antissemitas que
da Antiguidade e até o final da Idade estavam ocorrendo na Inglaterra.
Media são suposições históricas, No século 13, os judeus ingleses
pois são escassas as evidências enfrentavam perseguições por
concretas. É provável que os judeus comércio entre a Escócia e a parte da Coroa que culminaram
se aventurassem na Britânia na época Europa Continental era intenso, e com o Édito de Expulsão de 1290,
em que Roma dominava a região, mercadores de Aberdeen e Dundee outorgado pelo rei Eduardo I.
pois eles costumavam se deslocar para mantinham fortes vínculos com É provável que alguns se tenham
comercializar em praticamente toda a os portos bálticos na Polônia e refugiado na Escócia, na época um
extensão do Império. Lituânia. É, portanto, provável que reino independente e inimigo dos
comerciantes judeus tenham ido à ingleses.
E, durante a Idade Média, sabe- Escócia para fazer negócios.
se que mantinham interesses Praticamente quatro séculos vão-se
comerciais na região sem, porém, Os judeus são mencionados, em passar sem que haja evidências da
lá se estabelecer. Na época, o 1180, numa regulamentação oficial presença judaica na Escócia.

47 junho 2017
COMUNIDADES

A Escócia nos importantes do mundo. Em 1740


século 17 e 18 viviam na cidade cerca de 20 mil
habitantes; 60 anos depois, eram
A história da Escócia deu uma mais de 84 mil.
guinada no século 17. Em 1603, o
rei da Escócia, James VI, torna-se Os primeiros judeus
também rei da Inglaterra, com o
nome de James I, e passa a governar Apenas no final do século 17 um
as duas Coroas embora as nações pequeno número de judeus se
permaneçam independentes. estabeleceu em Edimburgo. Em
1691, as minutas do Conselho
Ainda no século 17 acontecimentos Municipal da cidade registraram o
econômicos e políticos mudam pedido do judeu David Brown para
o curso da história mundial e lá se estabelecer e comerciar.
pavimentam o surgimento do Havia também um pequeno
mundo moderno. Na Europa, O RabiNO Dr. Salis Daiches (1880-1945) número de estudantes e professores
Estados Nacionais entram numa que gravitavam em torno da
acirrada competição econômica, A União foi oficializada em 1707. Universidade de Edimburgo,
política e colonial. As nações ibéricas Os reinos da Inglaterra e Escócia atraídos por sua reputação nas
perdem sua hegemonia e a França deixaram de ser independentes, áreas científicas e médicas. E,
surge como nação dominante, sendo criado um novo Estado: o diferentemente do que acontecia
mas, no final do século, a Holanda “Reino da Grã-Bretanha”. A Escócia nas universidades na Inglaterra e
e a Inglaterra passam a rivalizar manteve a religião presbiteriana, não em outros países da Europa, na
seu poder. Ademais, na Inglaterra adotando a anglicana, e um sistema Escócia os estudantes não eram
estavam ocorrendo profundas jurídico independente. obrigados a fazer um juramento
mudanças agrícolas e comerciais religioso (cristão). Durante todo o
que abriram o caminho para a Para os judeus, isso significava que século 18,19 e 20 a Escócia abrigou
Revolução Industrial da qual o país quem fosse se estabelecer na Escócia estudantes judeus de medicina.
foi pioneiro. estaria sujeito às leis que regiam
a vida judaica na Inglaterra. Em Mas, é no século 19 que realmente
No início do século 18, a Escócia 1656, os judeus haviam recebido aumenta o número de judeus que
era um dos países mais atrasados e a permissão de voltar a viver na se estabelecem na Escócia. As
pobres da Europa Ocidental. Inglaterra, porém seu status civil primeiras levas vieram da Alemanha
Suas classes dirigentes estavam e jurídico se manteve informal e e da Holanda e, a partir de 1860,
cientes de que não haveria o ambíguo até 1664, quando novas leis da Rússia, Lituânia e Polônia,
desenvolvimento econômico sem a foram criadas para limitar o acesso crescendo ainda mais na década de
participação da Escócia no comércio à vida pública a qualquer cidadão, 1890, à medida que as perseguições
internacional. Além de não ter judeu ou cristão, que não fosse na Europa Oriental tornavam a
domínios coloniais, o país tampouco protestante. vida judaica cada vez mais sofrida
possuía uma Marinha capaz de e precária. O fluxo migratório
dar assistência a seus navios Durante todo o século 18 a continuou ao longo do século 20,
mercantes. Essas considerações Escócia floresce, tornando-se principalmente após 1914.
os levaram a aceitar, apesar de a uma das potências econômicas
medida ser altamente impopular, e intelectuais da Europa. A As empresas escocesas de navegação
uma união política com a Inglaterra. industrialização, principalmente do atuavam cada vez mais no lucrativo
A união trazia vantagens para os setor têxtil, o comércio de tabaco, transporte de imigrantes judeus e
dois lados. Dava aos ingleses o açúcar e algodão, a mineração e a não judeus da Europa, através da
tão almejado controle político da construção naval levaram o país a Escócia, rumo à América. Para os
Escócia e abria aos escoceses o um rápido crescimento econômico milhares de judeus que chegavam
comércio em todas as regiões sob e à urbanização. Glasgow tornou- aos portos de Leith, perto de
influência inglesa. se um dos polos industriais mais Edimburgo, e Dundee, na costa

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REVISTA MORASHÁ i 96

leste, a Escócia era apenas uma Agência Nacional de Mapas da Grã- até a inauguração da sinagoga em
escala. As condições de viagem não Bretanha, como “Sepultura do Judeu”. Park Place, próxima à Universidade
eram fáceis e muitos chegavam de Edimburgo.
fracos e doentes. Muitos tiveram Duas décadas vão se passar antes
que ficar no país, pois não tinham de ser criada, em 1816, a primeira Os judeus, principalmente
condições de seguir viagem, ou comunidade judaica organizada imigrantes, cuja condição social
de atender os requisitos de saúde da Escócia: a Edinburgh Hebrew não era privilegiada e não tinham
exigidos na entrada aos Estados Congregation, composta por 20 condições financeiras de viver nas
Unidos pelas autoridades norte- famílias. Em 1817 foi estabelecida ruas em torno da Universidade de
americanas. Havia os que, sem a primeira sinagoga na Escócia, em Edimburgo, estabeleceram-se no
recursos suficientes para pagar um quarto alugado em Richmond porto de Leith e Dalry, na parte
uma viagem até o Novo Mundo, Street. E, três anos mais tarde, a oeste da cidade. Como ocorre em
compravam uma passagem até a comunidade comprou o terreno para toda parte, a sinagoga era o eixo
Escócia para, em seguida, trabalhar o cemitério. central de cada comunidade.
e economizar o suficiente para
continuar a viagem. Outros
desembarcaram enganados por
capitães que os faziam acreditar
que já tinham chegado a seu
destino final na América.
Qualquer que fosse o motivo,
milhares ficaram na Escócia.
Edimburgo e Glasgow eram as
cidades escolhidas pela maioria
dos judeus. Até meados do século
19, essas duas comunidades eram
numericamente semelhantes, mas
o desenvolvimento comercial e
econômico de Glasgow começou a
atrair um número cada vez maior de
judeus.

Edimburgo

Após a permissão dada ao judeu


David Brown, em 1691, para viver e
a Royal Mile, Edimburgo
comerciar livremente, outros judeus
tiveram permissão de fazer transações
comerciais na cidade. Entre outros, A maioria dos judeus que viviam
Moses Mosias, em 1698, e Isaac na época em Edimburgo eram
Queen, em 1717. abastados comerciantes de origem
alemã ou holandesa, mas o perfil
Em 1795, Herman Lyon adquiriu da comunidade iria mudar com a
um lugar para sepultamento, em chegada, nas décadas finais do século
Edimburgo. Oriundo da Alemanha, 19, de judeus vindos da Europa
ele se mudara para a Escócia e Oriental.
prosperara. Ainda que o local da
sepultura original, em Calton Hill, já Em 1825, a Edinburgh Hebrew
não se possa encontrar, pois apenas Congregation mudou-se para novas
restam alguns escombros e pedras, instalações, em Richmond Court,
está marcado no mapa de 1852 da onde permaneceu durante 43 anos, sinagoga de graham street, edimburgo

49 junho 2017
COMUNIDADES

O número de sinagogas e as Glasgow um chapeleiro vindo de Londres.


mudanças na sua capacidade De acordo com uma lenda local, foi
efetivamente marcam o Embora durante o século 18 Cohen quem introduziu o chapéu
crescimento e o declínio da vivessem em Glasgow alguns de seda na Escócia. Nos anos
população judaica em Edimburgo. judeus – comerciantes e alunos seguintes, outros judeus foram-
da Universidade de medicina, não se estabelecendo em Glasgow, a
A sinagoga conhecida como há nenhum registro de judeus maioria de origem alemã, holandesa
Blecheneh Shul foi inaugurada em que se tenham estabelecido ou londrina. Em 1850 havia apenas
Dalry por artífices e operários, permanentemente na cidade até 200 judeus em Glasgow, mas à
muitos vindos de Manchester. 1812. medida que a cidade crescia, o
mesmo acontecia com o número
Em 1898, a Edinburgh Hebrew A imigração judaica para Glasgow de judeus. Em 1879, eram cerca de
Congregation abriu mais uma faz parte de uma tendência mais mil; em 1891, por volta de 2 mil; e,
sinagoga na Rua Graham e, em ampla em que eles eram um dos em 1914, já perfaziam 12 mil.
1913, foi ampliada. Em 1914 inúmeros grupos que fizeram da
viviam na cidade 1.500 judeus. cidade seu novo lar no século 19. A florescente indústria da Glasgow
Essa sinagoga permaneceu sendo Apesar de hoje ser a maior cidade da vitoriana gerava oportunidades
a principal até a inauguração da Escócia, e ter a maior comunidade para os judeus recém-chegados,
atualmente localizada na Rua judaica do país, a Glasgow do século que ajudaram no rápido
Salisbury e aberta em 1932. Esta 18 era uma cidade provinciana, com desenvolvimento industrial e
é a primeira e única sinagoga uma população de cerca de 20 mil comercial, em especial na fabricação
especialmente construída para habitantes, chegando a 80 mil no de roupas, móveis e cigarros. Parte
esse propósito em Edimburgo. início do século 19. A população significativa dos membros da
Acomoda 1.500 pessoas e cresceu à medida que florescia o comunidade de Glasgow, assim
representou a união das duas comércio com a América do Norte. como ocorria em outros locais,
principais congregações judaicas A localização da cidade, com acesso trabalhavam como mascates
locais. A nova construção era à costa oeste da Escócia, é fator vendendo vários produtos para as
a prova da prosperidade e de atração para os comerciantes e comunidades da área de mineração.
ascensão social dos membros da empresários.
comunidade, cuja maioria à época Em 1823 foi aberta a primeira
já vivia nos subúrbios ao sul de O primeiro judeu admitido como sinagoga, em um pequeno
Edimburgo. residente da cidade foi Isaac Cohen, apartamento de dois quartos, na
High Street. À medida que a
comunidade crescia, ia realizando
seus serviços religiosos em
diferentes locais. Em 1832 foi
comprado o terreno para o primeiro
cemitério.

Em 1859 foi aberta uma sinagoga


para abrigar 200 fiéis, na George
Street. Vinte anos mais tarde, em
1879, foi inaugurada uma suntuosa
sinagoga em Garnethill. Era a
primeira na Escócia construída
especialmente com esse fim – um
empreendimento de grandes
proporções para uma comunidade
de apenas mil membros. O interior
da Sinagoga Garnethill era típico
soldados judeus na sinagoga de graham STREET, Edimburgo. Pessach 1917 do estilo de “sinagogas catedrais”,

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REVISTA MORASHÁ i 96

vista de Glasgow

construídos no período vitoriano. de importação de frutas, foi eleito Dundee, Greenock,


Predominantemente romanesco, para o Conselho de Glasgow, em Ayr e Aberdeen
seu estilo é um exemplo do ecletismo 1880. Acredita-se que sua posição
do período. A sinagoga tem uma de destaque tenha influenciado na Apesar de sempre a vida judaica
entrada espaçosa e sensacionais aceitação da comunidade judaica na escocesa ter-se concentrado em
janelas em vitral, com painéis florais sociedade maior. Edimburgo e Glasgow, comunidades
em cores vívidas. A área central de menores surgiram em Dundee,
orações é praticamente uma basílica; Ao longo do século 20, Glasgow foi Greenock, Ayr e Aberdeen.
o púlpito imponente colocado uma das principais comunidades O cemitério judaico em Dundee
no centro da plataforma em arco. judaicas da Grã-Bretanha, sendo indica ter havido uma congregação
O armário sagrado para os Sifrei superada apenas por Londres, na cidade desde o século 19. Aliás,
Torá, o Aron HaCodesh, é em madeira Manchester e Leeds. várias indústrias têxteis instaladas em
folheada a ouro, com uma cúpula e
torres.

A maioria dos judeus vivia no


Distrito de Gorbals, ao longo do
Rio Clyde. Era a parte mais pobre
da cidade, uma área habitada
principalmente por imigrantes
italianos e irlandeses. Foi em
Gorbals que surgiu uma comunidade
mais tradicional, cujo idioma
principal era o iídiche. Em 1901,
no coração dos Gorbals, foi aberta
a Glascow Central Synagogue, a
maior em toda a Escócia.

Os judeus se integraram à vida


local e participavam das atividades
da política. Michael Simons,
um membro proeminente da
comunidade de Garnethill e diretor
de uma das principais empresas sinagoga de Garnethill, Glasgow

51 junho 2017
COMUNIDADES

acomodações temporárias para os


recém-chegados e para os viajantes
em trânsito, e criadas sociedades
de autoajuda ao custo de um penny
semanal.

Um dos problemas enfrentados pela


comunidade judaica escocesa foi o
advento das missões cristãs escocesas
para os judeus. A Igreja da Escócia4
desencadeara uma campanha
acirrada para conseguir a conversão
dos judeus, e investia somas
consideráveis nesse “projeto”. Até a
década de 1880 as missões focavam
CONCERTO DO MOVIMENTO Habonim, Ayr, 1950 seu trabalho na evangelização dos
judeus fora da Escócia, mas a partir
Hamburgo, na Alemanha, abriram criaram uma ampla rede de bem- desse período, passaram a atuar
seus escritórios em Dundee, no início estar social. As instituições de também dentro do próprio país.
do século 19. Em Aberdeen, a então assistência social comunitária A conversão dos judeus tornou-se
recém-criada comunidade judaica foi assumiram a responsabilidade pela um dos mais importantes objetivos
o centro da atenção nacional poucas parcela mais carente da comunidade, dos missionários, que ofereciam
semanas após sua fundação, em 1893, principalmente os imigrantes aos judeus, principalmente aos
quando defendeu com sucesso uma recém-chegados. Embora com a Lei recém-chegados, ajuda financeira e
ação contra a aplicação da shechitá2 para Estrangeiros de 19053 a Grã- assistência médica em instalações
movida pelo departamento local da Bretanha tenha limitado o número bem-equipadas, com médicos
Sociedade de Prevenção a Crueldade de imigrantes pobres autorizados que falavam iídiche. Embora não
contra Animais. no país, um número cada vez maior obtivessem êxito em suas tentativas
de judeus continuavam a chegar à de conversão, estavam determinados
Instituições de ajuda Escócia nos anos que antecederam a a perseguir a evangelização dos
comunitária 1ª Guerra Mundial. judeus, provocando protestos e a ira
da comunidade judaica.
A comunidade judaica escocesa O número crescente de recém-
sempre foi unida, com seus membros chegados levou ao estabelecimento
apoiando-se uns os outros. Além de todo tipo de atividades
de fundarem sinagogas e escolas, assistenciais, muitas das quais
coordenadas pelos próprios
imigrantes. As instituições davam
2
Abate ritual judaico ajuda financeira, além de assistência
3
Aliens Act, Lei dos Estrangeiros, médica e social.
promulgada pelo Parlamento Britânico
em 1905 restringia a imigração à Grã A primeira instituição assistencial
Bretanha vinda de áreas fora do Império
Britânico. Destinava-se a evitar que judaica foi fundada em Edimburgo,
indigentes ou criminosos entrassem no em 1838. Em Glasgow, em 1858,
país, mas acreditava-se que fosse, em
grande medida, uma resposta à imigração criou-se a Sociedade Hebraica
da Europa Oriental e- especialmente – Filantrópica, que possuía sua própria
controlar a imigração judaica dessa parte equipe médica e, em 1899, o Fundo
da Europa. Restrições bem mais severas
foram introduzidas em 1914 e 1919. Hospitalar Judaico. A partir do final
do século 19, tanto em Edimburgo
4
Igreja da Escócia, em inglês, Church of
Scotland, a religião nacional da Escócia, quando em Glasgow, foram JOVENS DIANTE DA SINAGOGA
filiada ao Presbiterianismo. abertos abrigos gratuitos judaicos e Garnethill, glasgow

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REVISTA MORASHÁ i 96

1 3
1. MORÉ ENSINANDO A TORÁ AOS JOVENS BNEI MITZVÁ, LOCHGILPHEAD, 2013 2. JOGADOR DA PREMIER LEAGUE DE FUTEBOL DE ISRAEL
DÁ AUTÓGRAFOS NAS CELEBRAÇÕES DE YOM HAATZMAUT, GLASGOW, 2013 3. PURIM, LEITURA DA MEGUILÁ, ABERDEEN, 2013

Séculos 20 e 21 A Declaração Balfour, de novembro Após a ascensão nazista na


de 1917, indicando o apoio do Alemanha, em 1933, os esforços
A comunidade judaica escocesa governo britânico à criação de um comunitários foram direcionados a
sempre foi ativa politicamente, tanto Lar Nacional judaico na então ajudar refugiados judeus. E estima-
internamente quanto em relação aos Palestina, foi recebida com muito se que em 1939, com a chegada dos
acontecimentos mundiais, acima de entusiasmo, fortalecendo ainda refugiados da Europa, havia cerca de
tudo em relação ao destino de nosso mais as atividades sionistas e 15 mil judeus vivendo em Glasgow e
povo. aumentando a arrecadação de pouco mais de 2 mil em Edimburgo.
recursos para assentamentos judaicos
Na década de 1890, o sionismo em Eretz Israel. A Escócia tornou-se lar para
era a ideologia política dominante algumas das crianças do chamado
entre os judeus. Os grupos sionistas Kindertransport, organizado para
organizavam atividades sociais e retirar crianças judias da Alemanha,
esportivas. Foram criadas, também, Áustria e Checoslováquia.
sociedades de autoajuda, cujos A evacuação temporária acabou
encontros em Glasgow atraíam por se transformar, tragicamente,
grandes públicos – até mil pessoas em permanente. Ao término da
por evento, além de grupos sionistas 2ª Guerra chegaram ao país os
para mulheres e jovens. As salas sobreviventes da Shoá, um horror cuja
de leitura organizadas pelos realidade chocaria a comunidade,
movimentos sionistas forneciam dando-lhe novos incentivos para seu
um espaço para a comunidade se apoio à causa de Israel.
encontrar, aprender sobre Eretz Israel A fundação do Estado de Israel
e os primeiros pioneiros, além de e a vitória na Guerra dos Seis
oferecer aulas de hebraico. Dias, em 1967, influenciaram
Os pogroms perpetrados na Rússia, de forma positiva a comunidade
principalmente o ocorrido em e a arrecadação de fundos para
Kishinev em 1905, deram um forte instituições israelenses tornou-se
AGUARDANDO A NOIVA... SINAGOGA
impulso aos esforços sionistas. GARNETHILL. GLASGOW, 2013 uma prioridade.

53 junho 2017
COMUNIDADES

das constantes demonstrações e


atividades contra o Estado Judeu.
Há relatos de estudantes intimados
a prestar exames no Shabat ou
então serem reprovados. Outros
revelam que não têm mais estudado
nas bibliotecas por medo de serem
atacados, seja verbal seja fisicamente.

Em 2015 dez professores


escoceses integraram uma lista
de 300 professores universitários
que anunciaram um boicote às
CASTELO Eilean Donan EM DORNIE
instituições israelenses. O pastor
Arthur O’Malley, grande defensor de
Israel, chegou a afirmar que “BDS e
Situação atual Nacional Escocês (SNO), o principal outros grupos palestinos aproveitam
do país, com 63 das 120 cadeiras todas as vantagens e invadem
Na metade do século 20, viviam no do Parlamento, apoia os palestinos ativamente as universidades,
país por volta de 20 mil judeus, a e conseguiu aprovar um grande conselhos municipais e espaços
maioria de origem asquenazita. Mas número de moções anti-Israel. públicos, e têm obtido grande
a comunidade foi encolhendo e, no Entre maio de 2011 até o final do apoio no seio dos movimentos
início do século 21, eram apenas ano passado, das 355 resoluções sindicalistas”. E continua: “Quando
6.500. A maioria, por volta de sobre assuntos internacionais, 65 nossas principais cidades escolhem
4.200, vivem em Glasgow, 950 em envolviam Israel, e, por exemplo, hastear a bandeira palestina em
Edimburgo, a capital, e uma minoria apenas 13 se referiam à Síria. Em demonstração de solidariedade...isso
em Dundee e em outras cidades do 2015, a primeira-ministra Nicola demonstra o impacto que está sendo
país. Sturgeon reuniu-se com a liderança conseguido por esses grupos”, explica
comunitária, tentando tranquilizar o pastor cristão, referindo-se a um
A Escócia está assistindo o seus membros e garantindo que não incidente ocorrido em agosto de
crescimento do antissemitismo, serão tolerados no país incidentes 2016 quando um setor inteiro de fãs
tendo dobrado em 2015 o número antissemitas. no estádio do Celtic, em Glasgow,
de incidentes contra judeus, de levantou bandeiras palestinas
acordo com a Community Security O Conselho Escocês de para protestar contra a “ocupação
Trust. Isso é muito perturbador Comunidades Judaicas (Scottish israelense”.
num país que, como escreveu David Council of Jewish Communities-
Daiches, renomado historiador Scojec), após ter realizado inquéritos,
judeu escocês, em sua autobiografia, em 2012 e 2014, concluiu que a
BIBLIOGRAFIA
Two Worlds: An Edinburgh Jewish forma como alguns pesquisadores e
Shields, Jacqueline, Scotland Virtual Jewish
Childhood, é o único, em toda a acadêmicos expressam seus pontos History Tour, www.jewishvirtuallibrary.org
Europa, que não tem uma história de vista sobre o Oriente Médio em
Collins, Kenneth, Jews in Glasgow.
de perseguição oficial aos judeus. sala de aula, em palestras e na mídia www.theglasgowstory.com Jerusalem Post
Não há atos de expulsão, como os contribui para que estudantes judeus Diaspora
ocorridos na Inglaterra e outras se sintam discriminados. Ademais, Imber, Elizabeth E., Saving Jews:The
nações europeias, nem legislações o movimento BDS e a Campanha History of Jewish-Christian Relations in
discriminatórias. Escocesa de Solidariedade à Scotland, 1880-1948, A Master‘s Thesis
Department of Near Eastern and Judaic
Palestina têm conseguido infiltrar- Studies Brandeis University, 2010
A atuação do Parlamento se em muitos setores da sociedade
Jaffe-Hoffman, Maayan, Seeing Scotland
nacional escocês está no centro civil e nos campi universitários. Through Its Jewish Community, artigo
das preocupações das lideranças Muitos estudantes judeus dizem publicado no Jerusalem Post em18 de
comunitárias, pois o Partido esconder a sua religião em virtude fevereiro de 2017

54
ISRAEL

DEPOIS DE MUNIQUE
POR Zevi Ghivelder

A primeira semana de setembro de 2017 e alguns dias


subsequentes assinalam a passagem de 45 anos desde o massacre
de onze atletas e técnicos israelenses que participariam dos
Jogos Olímpicos realizados na cidade de Munique, em 1972. A
organização Setembro Negro impactou o mundo com sua ação
terrorista. O governo de Israel, por sua vez, soube ocultar do
mundo a punição imposta aos responsáveis por aquele atentado.

N
o dia 18 de agosto de 1972, a delegação da organização Setembro Negro já se encontravam no
israelense que deveria embarcar para apartamento número 1 e já tinham atingido (o tiro que
os Jogos em Munique compareceu a Lalkin ouvira) Yossef Gutfreund, um colosso de 130
uma reunião no Instituto Wingate, um quilos, praticante de luta livre. Ao mesmo tempo, Tuvia
magnífico centro esportivo, situado perto Sokolovsky, técnico de levantamento de peso, conseguiu
da costa do Mediterrâneo, entre Tel Aviv e Haifa. quebrar uma janela e escapulir. Às cinco horas da manhã
O chefe de segurança do Ministério da Educação os terroristas já haviam sacrificado dois israelenses
Cultura e Esportes, ali designado, recomendou aos e feito nove reféns. Porém, nervosos e temerosos de
atletas e técnicos que, uma vez na Alemanha (então imediatas represálias, os homens do Setembro Negro
Ocidental), não falassem em voz alta em hebraico, não não investiram contra os apartamentos de números 2,
usassem como adornos eventuais símbolos judaicos e, 4 e 5, permitindo que outros israelenses escapassem.
de um modo geral, evitassem chamar atenção com seu Em seguida, ante a perplexidade dos encarregados
comportamento. Foi-lhes informado, então, o endereço da segurança dos Jogos e do espanto que percorreu o
que ocupariam na Vila Olímpica: Rua Connolly, número mundo, os terroristas emitiram suas reivindicações em
31, onde também estariam as delegações do Uruguai e de idioma inglês. Em troca dos reféns, exigiam a libertação
Hong Kong. A viagem para a Europa transcorreu, dias de prisioneiros árabes em Israel e de perigosos elementos
depois, sem maiores problemas. subversivos presos na própria Alemanha, compreendendo
234 nomes. Da lista faziam parte Ulrike Meinhof e
Às 4h15m da manhã do dia 5 de setembro, Shmuel Andreas Bader, líderes do nefasto grupo Bader-Meinhof,
Lalkin, chefe da delegação israelense, que ocupava o que convulsionara a Alemanha e estava preso desde
quarto número 5 no segundo andar do pequeno prédio junho daquele mesmo ano. O Setembro Negro também
da rua Connolly, teve a impressão de ter ouvido um exigia que três aviões fossem colocados à sua disposição
estampido, como se fosse algo oriundo de uma arma de no aeroporto de Munique. Uma vez acertada a libertação
fogo. Foi até a janela, obervou as imediações, nada viu de dos prisioneiros, escolheriam um dos aviões que tomaria
anormal. Voltou para a cama. Àquela altura, terroristas um destino não informado.

55 JUNHO 2017
ISRAEL

Em Jerusalém a primeira-ministra Manfred Schneider, concluiu que


Golda Meir emitiu um comunicado uma tentativa de resgate dos reféns
conclamando todas as nações seria a única opção viável. Mas
democráticas do mundo para que Golda se antecipou e mandou para
se unissem no resgate dos atletas a Alemanha Zvi Zamir, o chefe do
mantidos como reféns em Munique Mossad (serviço secreto de Israel).
e que condenassem “os inomináveis Zamir propôs às autoridades
atos cometidos”. E acrescentou: “Se alemãs que permitissem a vinda
Israel ceder aos terroristas, nenhum de Israel para Munique da tropa
cidadão israelense poderá sentir, em de elite Sayeret Matkal, que, no
qualquer parte do mundo, que sua decorrer dos últimos vinte anos já
vida estará segura. Encontramo-nos havia comprovado sua capacidade
perante uma chantagem da mais operacional. Na verdade, essa tropa
desprezível espécie”. tinha sido bem sucedida em ações
até mais difíceis do que aquela que
“Se Israel ceder aos O rei Hussein, da Jordânia, único teria de enfrentar na Vila Olímpica.
chefe de estado árabe a condenar (Quatro anos depois, a unidade
terroristas, nenhum o Setembro Negro, declarou Sayeret Matkal foi a responsável
cidadão israelense publicamente: “Presenciamos um pelo espetacular resgate dos reféns
poderá sentir, em crime selvagem cometido contra a israelenses presos no aeroporo
civilização, perpetrado por mentes de Entebe, Uganda). Os alemães
qualquer parte doentias”. Em Washington, o recusaram o oferecimento de Zamir,
do mundo, que sua presidente Richard Nixon convocou aprovado por Willy Brandt, mas
um pequeno comitê de emergência negado por seus companheiros de
vida estará segura. para avaliar a situação, inclinado a gabinete, por questão de orgulho,
Encontramo- declarar um dia de luto oficial no alegando que a intervenção de
que foi apoiado pelo secretário de militares estrangeiros dentro de suas
nos perante uma Estado William P. Rogers. Durante fronteiras equivaleria a uma ruptura
chantagem da mais a discussão do comitê, houve quem na soberania do país.
dissesse que Nixon talvez devesse
desprezível espécie”
se deslocar até Munique para A partir desse ponto paira uma
acompanhar os rituais fúnebres imensa interrogação, uma enorme
dos israelenses assassinados. Essa dúvida, sobre o trágico desfecho
sugestão, porém, foi logo descartada. ocorrido em Munique nas
Acabou prevalecendo a opinião de Olimpíadas de 1972. A polícia alemã
Henry Kissinger, endossada por mostrou que não tinha o menor
Nixon, no sentido de pressionar preparo, nem planos primários ou
as Nações Unidas para que esse secundários, para lidar com uma
organismo internacional tomasse situação daquela magnitude e
medidas severas contra o terrorismo. complexidade. O chefe Schneider, a
Ou seja, panos quentes. cada hora mais nervoso e indeciso,
por fim encaminhou para o
Enquanto isso, em Jerusalém, Golda aeroporto um comboio que conduzia
Meir mantinha contato telefônico tanto os terroristas como os reféns.
permanente com o chefe do governo
alemão, Willy Brandt, reiterando No aeroporto, colocou em posições
que Israel jamais faria qualquer avaliadas às pressas cinco atiradores
negociação ou qualquer acordo com de elite que deveriam disparar suas
os terroristas, custasse o que custasse. armas contra cinco terroristas. Só
Em face da determinação de Golda, que eles não eram cinco, eram oito.
GOLDA MEIR o chefe da polícia de Munique, Schneider fizera uma conta errada

56
REVISTA MORASHÁ i 96

Equipe olímpica de Israel logo após sua chegada. Munique, 1972

de forma primitiva. Tudo acabou Conforme escreve Aaron J. Klein em os povos. Não temos outra escolha
dando errado porque a polícia seu livro Striking Back, às 10 horas a não ser combater as organizações
alemã perdeu completamente o da manhã do dia 12 de setembro, terroristas onde quer que se
controle dos acontecimentos. o Parlamento de Israel fez um encontrem”. Suas palavras foram
Parte dos reféns foi levada para um minuto de silêncio em memória das endossadas pelo líder da oposição,
helicóptero que foi atingido por vítimas de Munique. Numa sala Menachem Begin: “Precisamos
uma granada atirada pelo Setembro ao lado, Golda recebeu as famílias eliminar esses criminosos. É preciso
Negro. Os israelenses morreram enlutadas dos técnicos e atletas e que eles sintam medo. Se há
carbonizados. O mesmo aconteceu lhes disse: “Quero partilhar com necessidade de uma unidade especial
com os demais atletas dentro de um vocês o que pretendo fazer. Vamos para isso, está na hora de formá-la”.
segundo helicóptero que explodiu ao perseguir todos os terroristas. Begin não sabia que essa unidade
ser alvejado por outra granada. Das Nenhum deles que esteja envolvido secreta já existia e tinha o nome de
cinzas de todo esse trágico cenário, nos acontecimentos de Munique Caesarea.
restou uma interrogação vai andar livre por este mundo,
que há de perdurar para sempre: por muito tempo. Todos serão Uma das primeiras providências
como tudo poderia ter sido implacavelmente caçados”. Em de Golda Meir foi nomear o ex-
concluído se o resgate tivesse seguida, ela falou ao Parlamento chefe do serviço de inteligência
sido conduzido pelos impetuosos reunido: “As ações terroristas do exército, o competente
militares israelenses do Sayeret evoluem a cada dia. Temos que nos general Aharon Yariv, como seu
Matkal? Não há uma resposta preparar para esse tipo de guerra. conselheiro especial para assuntos de
objetiva para essa pergunta, mas A nação judaica tem uma história contraterrorismo. Os dois, mais
é viável admitir, avaliando o sangrenta e por isso mesmo já Zvi Zamir, se incumbiram de
retrospecto dessa tropa de elite, aprendemos que, quando a violência convencer o gabinete governamental
que aquelas vidas perdidas em solo se configura tendo os judeus como sobre a necessidade da criação de
alemão poderiam ter sido salvas. alvo, essa violência se estende a todos um comitê ultrassecreto para o

57 junho 2017
ISRAEL

1 2 3

1. um dos terroristas 2. POLICIAIS ARMADOS SE POSICIONAM NO TERRAÇO LOGO ACIMA DOS APARTAMENTOS ONDE ESTAVAM OS
REFÉNS 3. SANGUE E BURaCOS DE BALAS DO APARTAMENTO ONDE UM ISRAELENSE FOI MORTO

combate ao terrorismo. A sugestão refugiados judeus da 2ª Guerra para possível com os nomes dos
foi aprovada e passou a contar a Palestina em navios clandestinos membros do Setembro Negro, e seus
em seguida com a presença ativa que tentavam furar o bloqueio naval superiores, responsáveis pelo terror
de Moshé Dayan. O grupo foi britânico, sendo às vezes bem- em Munique. Harari recrutou 15
nomeado apenas como “Comitê X” sucedidos. agentes, homens e mulheres, para a
e partiu de um consenso segundo o missão chamada “Cólera de D’us”.
qual caberia ao Mossad implementar Após a independência passou a Separou os agentes selecionados sob
as ações contra-terroristas de modo atuar no Shin Bet, o serviço de rigorosíssimo critério, conforme as
a eliminar aqueles que haviam segurança interna de Israel. Em letras do alfabeto hebraico.
perpetrado o massacre de Munique. 1954 foi recrutado pelo Mossad,
Não caberia ao Mossad a tarefa de aonde chegou à condição de O primeiro grupo, o alef, era
promover capturas ou de investigar dirigente, reconhecido e admirado composto por dois especialistas em
suspeitos. O objetivo ficara bem por sua excepcional criatividade e armas de fogo; o bet reunia dois
claro: o abatimento de integrantes audaciosa capacidade operacional. agentes para dar retaguarda aos dois
do Setembro Negro e suas No âmbito da Caesarea, Harari do alef; o het tinha dois homens
ramificações. Para dar andamento criara uma unidade chamada Kidon encarregados das logísticas; o ayn
ao projeto, Yariv chamou o agente que fora treinada especificamente compreendia de seis a oito agentes
Michael “Mike” Harari que já havia para ações definitivas. Nos meses dedicados a diversas tarefas, além de
formulado, no início dos anos 1970, seguintes, o Mossad se empenhou apontar os alvos a serem atingidos
as teorias e práticas da operação em elaborar a lista mais completa e a assegurar as rotas de fuga para o
Caesarea.

Mike Harari merece um capítulo


à parte, tal sua dimensão e
importância nos serviços de
segurança do Estado de Israel desde
os primórdios do país. Harari nasceu
na antiga Palestina em 1927 e, com
apenas dezesseis anos de idade,
engajou-se na Haganá (organização
militar clandestina judaica, ao tempo
do Mandato Britânico). Passou a
atuar, em seguida, no grupo Palmach,
uma unidade de choque, mais
ativa e dinâmica, dentro da própria
Haganá. Foi preso diversas vezes
pelos ingleses até que, em 1946, foi
mandado para Marselha, no sul da
RESTOS DO HELICÓPTERO NO QUAL NOVE REFÉNS FORAM MORTOS APÓS UMA FRACASSADA
França, com a incumbência de trazer TENTATIVA DE RESGATE

58
REVISTA MORASHÁ i 96

pessoal do alef e do beit; finalmente, O jornalista italiano era um agente


o kuf abrigava dois peritos em do Mossad incumbido de estabelecer
comunicações. sem sombra de dúvida a identidade
de Hamshari, de saber pormenores
O primeiro alvo da “Cólera de D’us” de sua atividade cotidiana e de
foi um palestino chamado Wael entretê-lo enquanto Zvika colocava
Suatyr, nascido em Nablus, havia um explosivo dentro do telefone
seis anos radicado em Roma, onde instalado em seu apartamento. O
trabalhava como tradutor. Antes agente apurou que Hamshari era
de se radicar na Itália havia feito casado com uma francesa e o casal
uma escala na Líbia. Em agosto de tinha uma filha pequena. Harari
1972, Suatyr foi preso pela polícia elaborou um plano no sentido de
italiana acusado de participar de um que a mulher e a menina nada
grupo terrorista que colocara uma MIKE HARARI, COORDENADOR DA AÇÃO sofressem. Às 8h30 do dia 8 de
bomba numa refinaria de petróleo. CONTRA O SETEMBRO NEGRO dezembro de 1972, as duas saíram
O atentado foi reivindicado pelo de sua residência na Rua d’Alésia.
Setembro Negro e, assim, Suatyr, A eliminação de Suatyr levou Quinze minutos depois o telefone
embora liberado pelas autoridades de enorme preocupação aos membros tocou e Hamshari o atendeu.
Roma, foi parar na lista de Harari. do Setembro Negro e seus afiliados, Seguiu-se uma explosão que destruiu
Pouco tempo depois, foi apontado espalhados entre a Europa e a África. toda a sala de estar do apartamento.
pelo Mossad como um dos terroristas Alguns terroristas aprimoraram
que tentaram explodir um Boeing seus sistemas de segurança e, a rigor, No organograma da organização
da El Al enquanto o avião decolava todos passaram a viver olhando terrorista Fatah um jovem
do aeroporto Leonardo da Vinci, para trás com medo de alguma chamado Abu Khair fazia a ligação
em Roma. Uma bomba foi detonada emboscada. permanente entre seus chefes e a
no compartimento de bagagens, KGB, o serviço secreto Soviético.
mas a aeronave resistiu porque, dias Em Paris, Mahamud Hamshari, Ele chegara no início do ano de
antes, ali haviam sido instalados representante da Organização de 1973 à Nicósia, capital de Chipre,
reforços moldados em placas de aço. Libertação da Palestina, não sentia na qualidade de representante da
O comandante do avião conseguiu medo algum. Como detinha um OLP. O pessoal do “Cólera” seguiu-o
fazer uma aterragem milagrosa nos status quase diplomático, julgava durante duas semanas e constatou
arredores da capital italiana. estar livre de ser admoestado. Como que ele não mantinha nenhum
também imaginava que sua efetiva esquema especial de segurança.
Suatyr levava uma vida simples ligação com o Setembro Negro Coube a Zvika colocar um explosivo
e anônima, trabalhando na permaneceria na sombra, Hamshari sob sua cama no quarto que ocupava
embaixada da Líbia em Roma, gostava de aparecer em público no hotel Olympic, na avenida
mas os israelenses estavam e de dar entrevistas. Por isso não Presidente Makarios. Pouco antes
convencidos de que se tratava estranhou quando foi procurado da meia-noite do dia 25 de janeiro,
de um lobo em pele de cordeiro. por um jornalista italiano que o o emissário da OLP entrou em seu
Decidiram monitorá-lo durante convidou para tomar um café dali quarto. Do lado de fora, dentro de
quinze dias e nada de anormal a tantos dias. Harari precisava de um carro, um agente do Mossad só
notaram em sua rotina. Mesmo algum tempo para contatar Zamir precisou apenas apertar o botão de
assim, consideravam inequívoca sua e lhe pedir que mandasse para Paris um controle remoto. A explosão
ligação com o Setembro Negro. No uma equipe da unidade Rainbow, sacudiu o hotel inteiro.
dia 16 de outubro, Suatyr jantara especializada em arrombar edifícios,
num restaurante e seguira para seu apartamentos, veículos e cofres sem A chamada “Cólera de D’us”
apartamento onde os agentes do deixar vestígios. A Rainbow era serviu como base para o filme
Mossad o aguardavam no escuro da comandada por Zvika Malkin, meu “Munich”, de 2006, dirigido por
portaria do prédio. Foi abatido com amigo, que capturara Eichmann Steven Spielberg que, por sua vez,
doze tiros de uma arma Beretta, em Buenos Aires, e sobre o qual já baseou-se no livro “Vengeance”,
calibre 22, às 9h30 da noite. escrevi aqui na Morashá. escrito por George Jonas. Toda a

59 junho 2017
ISRAEL

em julho de 1973, uma pequena


cidade turística da Noruega,
chamada Lilehamme. Foi uma
operação desastrada em busca de
Ali Hassan Salameh, codinome
Príncipe Vermelho, mentor do
massacre de Munique e cérebro do
Setembro Negro, o No 1 da lista
de Harari. Depois de um ano de
pesquisas minuciosas, o Mossad
sentiu-se seguro com a informação
de que Salameh se refugiara em
Lilehammer.
MEMBROS DELEGAÇÃO ISRAELENSE USAM FITAS PRETAS NO BOLSO EM HOMENAGEM
AOS ATLETAS MORTOS PELOS TERRORISTAS ENQUANTO DEIXAM O ESTÁDIO OLÍMPICO
DE MUNIQUE
Uma agente secreta já estacionada na
Noruega foi incumbida de monitorar
narrativa do livro é feita a partir arquivadas em pastas com os selos de os passos do dito Salameh, além de
de um longo depoimento prestado “confidencial”. providenciar a logística da operação,
ao autor por um dos principais consistindo no aluguel de veículos
elementos da equipe de Harari, O fato é que uma ação de retaliação, e de pelo menos duas casas que
que não revelou sua verdadeira tal como a empreendida pela equipe viriam a servir como esconderijos.
identidade, escondendo-se atrás Caesarea, vem provocando há mais Em seguida, Harari enviou para a
do pseudônimo Avner. O livro de de quarenta anos uma inundação de Noruega cinco de seus melhores
Jonas peca pela glamorização de reportagens em jornais e revistas, operadores que se hospedaram sob
toda a operação e descreve situações, livros, documentários e filmes de falsos nomes no Oppland Tourist
circunstâncias e fatos impossíveis de ficção, fervilhando imaginações Hotel. O primeiro contato visual
serem confirmados, sobretudo um que decerto ainda se estenderão com o alvo aconteceu na tarde do dia
capítulo no qual diversos agentes por muito tempo. Há quem diga, 21, quando o suposto terrorista se
do Mossad pedem demissão por inclusive, que a expressão “Cólera de encontrava numa piscina pública ao
estarem emocionalmente arrasados D’us” é uma invenção da mídia. lado de uma mulher grávida.
em função da missão que lhes havia
sido confiada. Além disso, no relato A única ação documentada da Acompanharam-no o dia inteiro, até
de Avner há repetidas menções equipe Caesarea, e, portanto, avistá-lo saindo de um cinema, junto
aos contatos que manteve e a irrefutável, tem como cenário, com a mesma mulher, às oito horas
remunerações que repassou a uma da noite. Dois agentes do Mossad
organização clandestina francesa seguiram atrás do casal numa calçada
chamada Le Group, detentora e abateram o homem. A polícia
de surpreendentes informações chegou ao local minutos depois,
ultrassecretas, cuja existência jamais mas os atiradores já haviam fugido
foi confirmada. Na verdade, todas num automóvel Mazda, abandonado
as etapas que dizem respeito a esse adiante, trocado por um Peugeot que
assunto devem ficar restritas à área partiu em alta velocidade para uma
das suposições. Desde o massacre das casas alugadas. Passantes pelo
de Munique o governo de Israel local testemunharam aquela súbita
apenas admite que ordenou, sim, troca de automóveis e estranharam
uma série de operações contra o a disparada do Peugeot vermelho,
terrorismo, sem jamais fornecer comunicando o fato à polícia.
pormenores referentes a recursos
humanos, datas, métodos ou opções. As autoridades norueguesas
As operações desenvolvidas pelo SHMUEL LALKIN, CHEFE DA DELEGAÇÃO identificaram a vítima como
Mossad, desde sempre, continuam ISRAELENSE NAS OLÍMPIADAS DE MUNIQUE Ahmed Bouchiki, de nacionalidade

60
REVISTA MORASHÁ i 96

marroquina, que trabalhava como


garçom num restaurante da cidade.
No Peugeot em fuga encontravam-
se os agentes Marianne Gladnikof
e Dan Arbel. Eles passaram a noite
no esconderijo e seguiram para o
aeroporto na manhã seguinte. Foi,
então, que cometeram um erro fatal:
usaram o mesmo Peugeot vermelho
que foi detectado pela polícia ao
se aproximar do aeroporto. Ambos
foram presos e, sob interrogatório,
revelaram toda a verdade da situação,
tendo Marianne cometido outro FAMiLIARES DAS VÍTIMAS DO MASSACRE EM MUNIQUE NO AEROPORTO DE LOD, EM ISRAEL
erro imperdoável: forneceu como seu
endereço em Lilehammer uma das
casas alugadas. Ali as autoridades a CIA na qualidade de informante. costas saíram num automóvel da
prenderam os demais componentes Portanto, se sentia protegido e Rua Verdun e dobraram na direção
da equipe. Os seis agentes israelenses circulava à vontade pela Europa da Rua Marie Curie. A inofensiva
foram levados a julgamento, e pelo Oriente Médio. Em 1978 pintora acionou um carro estacionado
tendo sido um absolvido e cinco casou-se com Georgina Rizk, uma ali perto, onde um homem apertou o
condenados a penas de dois anos e beldade libanesa que, anos antes, botão de um controle remoto.
meio a cinco anos e meio de reclusão. havia sido eleita Miss Universo. A explosão foi arrasadora.
Por envolver outro país, no caso Salameh assumiu o comando da
Israel, o caso foi tratado como sigilo segurança do grupo terrorista Michael “Mike” Harari aposentou-
de justiça, mas é sabido que o pessoal Fatah, foi um dos formuladores e se do Mossad no ano seguinte,
do Mossad foi libertado depois de 22 organizadores do Setembro Negro depois de 26 anos de ininterruptos
meses de encarceramento. e principal mentor do ataque nas serviços. Foi condecorado pelo
Olimpíadas de Munique. Todos os governo e voltou a ser chamado
A despeito do fracasso em esforços da equipe de Harari para ocasionalmente pelo Mossad com a
Lilehammer, Harari e seus homens localizá-lo, ao longo de sete anos, missão de avaliar as possibilidades
contabilizavam uma série de tinham sido inúteis, até tomarem do Irã na fabricação de artefatos
ações bem consumadas contra os seguro conhecimento de que ele nucleares. Harari faleceu no dia 21
terroristas do Setembro Negro, havia fixado residência em Beirute, de setembro de 2014. Deixou sua
faltando, porém, no seu entender, o no Líbano. mulher, Pnina, e dois filhos.
mais importante: justiçar o chamado
Príncipe Vermelho, Hassan Ali No início de janeiro de 1979 chegou
Salameh. Este nasceu numa família a Beirute uma turista inglesa, pintora
BIBLIOGRAFIA
abastada, em 1940, na pequena amadora, levando uma maleta
cidade de Qula, perto de Jaffa. recheada de tintas e pincéis. A recém- Klein, Aaron J., Striking Back, Random
House Papaperbacks, 2007, EUA.
O jovem foi educado na Alemanha chegada alugou um apartamento
e supõe-se que tenha recebido na Rua Verdun, de cuja varanda Bar-Zohar, Michael, Mossad, Ecco Reprint,
2007, EUA.
treinamento militar no Cairo e tinha pleno visual, em diagonal, do
em Moscou. Era conhecido no apartamento de Salameh. Dali ela Reeve, Simon, One Day in September,
Arcade Publishing, 2006, EUA.
âmbito da OLP como um gastador era capaz de observar e anotar toda
extravagante de dinheiro e um a movimentação no apartamento Jonas, George, Vengeance, Simon &
Schuster, 2005, EUA
imbatível sedutor de mulheres. do chefe terrorista, além do que
os vizinhos não podiam suspeitar Large, David Clay, Munich 1972, Rowman
& Littlefield, 2012, EUA
Embora os americanos neguem, daquela moça pintando durante
Salameh manteve, desde o início dos horas e horas na varanda. No dia
anos de 1970, contato assíduo com 22 de janeiro, Salameh e seus guarda- ZEVI GHIVELDER é escritor E JORNALISTA

61 junho 2017
SHOÁ

AS “STOLPERSTEINE”
- ARTE E MEMÓRIA
POR REUVEN FAINGOLD

“Uma pessoa só é esquecida quando seu nome cai no


esquecimento”, afirma o Talmud. Há 20 anos, o artista alemão
Gunter Demnig trabalha contra o esquecimento, instalando
“stolpersteine”, pedras de recordação na calçada diante das
casas onde moravam as vítimas do Nazismo.

G
unter Demnig pertence à geração campos, nas câmaras de gás. Em maio de 2016 o sol
pós-2ª Guerra. Nascido em 1947, estudou brilhava no bairro de Scheunenviertel, Berlim. O lugar
Artes e Desenho Industrial na Universidade abrigava antigamente uma considerável população
de Berlim. Ele já disseminou suas pedras de judaica, em sua maioria originária da Europa Central e
recordação, as stolpersteine (em português, Oriental. Ali, um grupo de pessoas vindas da Alemanha,
pedras-obstáculo) por toda a Europa. Seu moto é “one Israel e Holanda e estudantes do Canadá (em viagem
victim - one stone”, para cada vítima uma pedra, como se de pesquisa sobre a Shoá) estão prestes a iniciar
cada indivíduo ali tivesse seu túmulo. As primeiras 50 uma cerimônia. Trajando seu chapéu típico, Gunter
stolpersteine foram instaladas ilegalmente nas calçadas de Demnig chega ao local. Ele carrega baldes de cimento,
Berlim, em 1996. Depois foi a vez de Colônia, com 600, ferramentas e duas reluzentes placas em memória das
e, assim, a ideia foi ganhando força e vigor. Hoje, seu vítimas judias, Erzsebet e Jakob Honig.
projeto é o maior memorial descentralizado do mundo.
Após uma curta introdução, ajoelha-se e começa a cavar.
O que são as stolpersteine? Trata-se de paralelepípedos Atrás do público presente, crianças brincam onde antes
de concreto, de 10 cm x 10 cm, cimentados nas calçadas. havia numerosos prédios habitados por dezenas de
Um lado é coberto por uma chapa de latão dourado, famílias. Muitas foram forçadas a sair, para depois serem
com uma inscrição. Geralmente, nela aparece: “Aqui assassinadas em Auschwitz. O artista termina o trabalho
morava” (hier wohnte) ou “aqui vivia” (hier lebte) ou em 10 minutos. Após inserir as placas na calçada, ele lhes
“aqui atuou” (hier wirkte), tendo, logo depois, o nome dá uma polida, tira o chapéu e volta para o carro.
da pessoa homenageada, data, lugar de nascimento e o
destino que teve: suicídio (selbstmord) ou, na maioria dos À noite, numa cerimônia para lembrar os 20 anos das
casos, deportação e assassinato nos campos (deportation stolpersteine, Demnig conta que naquele dia colocara
ou ermordet). O objetivo dessa intervenção artística é pedras comemorativas em 17 endereços berlinenses. Em
criar pequenos memoriais para relembrar as vítimas 2015, passou 258 dias viajando pela Europa, colocando
do nacional-socialismo, mortos nas deportações, nos placas em até três cidades num só dia. Algo inimaginável

62
REVISTA MORASHÁ i 96

em 1996, quando depositou as


primeiras “pedras-obstáculo” para os
50 moradores judeus do bairro de
Kreuzberg, em Berlim, como parte
de um projeto artístico intitulado
“Künstler forschen nach Auschwitz”
(Artistas pesquisam Auschwitz).
Na ocasião, as stolpersteine eram
ilegais e em sua colocação não havia
imprensa, polícia ou parentes, apenas
alguns curiosos.

Agora são mais de 7 mil “pedras-


obstáculo” somente na capital
alemã e 60 mil pela Europa: de
Trondheim (Noruega) até Salônica
(Grécia); de Orel (Rússia) até
l’Aiguillon-sur-Mer (França). Elas
já se tornaram parte inseparável
da paisagem urbana da Alemanha,
Bélgica e Holanda. Há inclusive
visitas guiadas especialmente para
vê-las em cidades como Amsterdã,
Budapeste e Roma.
o artista, gunter demnig

Hoje as placas são tantas que


Demnig não tem mais tempo de Bloomfield, um destacado médico
produzi-las. Desde 2005, o escultor de quem os nazistas cassaram, assim
Michael Friedrichs-Friedländer como de todos os médicos judeus
as faz manualmente em seu que viviam nas áreas sob seu
ateliê na periferia de Berlim. O domínio, o direito de exercer sua
artista considera todas as “pedras- profissão. O caso Bloomfield difere
obstáculo” comoventes, mas ficou dos outros, pois ele foi homenageado
particularmente emocionado com duas “pedras-obstáculo”: uma
com 34 delas, fabricadas para 30 colocada na sua casa e outra frente ao
órfãos e seus quatro cuidadores, “Kinderkrankenhaus Park Schonnfeld”,
colocadas diante de um orfanato de uma clínica para crianças. A clínica
Hamburgo. Com a voz embargada, infantil que funcionava existiu até
Stolpersteine diante da residência
ele desabafa: “Eles tinham entre três pouco tempo. Atualmente virou do dr. bloomfield
e cinco anos... Eu não pude dormir um abrigo para refugiados sírios,
por semanas”. iraquianos e afegãos. de exercer a medicina, o Dr. Félix
ainda trabalhava no hospital que
Uma “stolpersteine” para Quinze anos atrás, Peter Bloomfield ele mesmo fundara. Patriota,
o Dr. FÉLIX BLOOMFIELD visitou o hospital pediátrico, negou-se a deixar Alemanha. Num
que era também o primeiro de primeiro momento, o círculo de
O arquiteto Peter Bloomfield Kassel, no qual o Dr. Bloomfield conhecidos conseguiu evitar que
e sua família participaram em desenvolvera importantes avanços fosse deportado. Mas, não podendo
Kassel de uma cerimônia de na pediatria, obtendo a fórmula de exercer a medicina para se sustentar,
colocação de “stolpersteine” em um medicamento para combater os foi obrigado a trabalhar de
homenagem a uma vítima da Shoá, então altos índices de mortalidade gari, coletando o lixo da cidade.
o avô de Peter, o Dr. Félix infantil. Em 1933, já impedido A humilhação, a falta de dignidade

63 junho 2017
SHOÁ

e a retirada da cidadania alemã sur-Mer, sul da França, próximo


levaram Bloomfield a cometer a Nice, onde então viviam seus
suicídio em 1942, deixando uma avós maternos. Encantada pela
carta onde relata os momentos de paisagem da Riviera francesa, tudo
degradação vivenciados. No ano de que ela queria era ficar sozinha e
2012, voluntários da comunidade desenhar. Em setembro de 1939,
judaica de Kassel formaram um estoura a 2a Guerra Mundial.
grupo que preparou uma lista de Desesperada, a avó de Charlotte
vítimas do Holocausto, candidatos a tenta o suicídio e, para alegrá-la,
serem homenageados com uma das a jovem decide criar um livro de
stolpersteine. A moradora de Kassel, história, ilustrado, sobre o passado
Barbara Bahr, ajudou a família da família. Era a sua primeira
Bloomfield a obter informações Charlotte e seu pai, Dr. Albert
tentativa na direção de Leben? Oder
sobre o Dr. Félix em artigos de Salomon, Berlim 1938 Theater?.
revistas e jornais. Barbara explica,
emocionada, que “não gostaria Dr. Félix que aceitou tratá-la, mesmo Ela levava seu caderno de desenho
que os nomes das vítimas fossem já banido da prática médica pelos para o ar livre e, assim, pintou mais
esquecidos”. Peter Bloomfield nazistas. Arriscando sua vida, ele a de 1 mil guaches reproduzindo
comenta que logo percebeu que tratou e curou. tragédias familiares reais e
se tratava de um projeto sério, imaginárias, misturando-as com
envolvendo Gunter Demnig, e que Uma stolpersteine para acontecimentos históricos. Os
o dinheiro deveria vir de patrocínios CHARLOTTE SALOMON últimos guaches são compostos
privados. apenas por palavras, pois pressentia
Filha única de Albert e Fränze que o tempo lhe fugia e ela
Peter Bloomfield chegou a Kassel Salomon, Charlotte Salomon precisava terminar de contar sua
com alguns membros de sua família (1917-1943) foi uma artista plástica história. No final, escolheu 760
direta. Na cerimônia também que expressou sua arte de uma forma guaches, organizando-os em atos e
estavam presentes o irmão mais sui-generis. Enquanto a 2a Guerra cenas, e introduziu um narrador.
velho, Steven (68 anos) e seus devastava a Europa e os nazistas A história de “Charlotte Kann”
familiares. Demnig queria que matavam milhões de judeus, a artista será contada pela voz dela.
a cerimônia fosse realizada em criou uma opereta que, através da
um sábado, porém a pequena ficção, contava a verdadeira história Até o ano de 1942, a Riviera
comunidade judaica de Kassel de sua família desde a 1ª Guerra até francesa estava sob domínio da
não concordou, ficando, então, 1941. Itália. Apesar de aliados de Hitler,
a cerimônia para após o pôr do os italianos não pretendiam
sol, em 1 de novembro de 2013. Em sua obra, ela transformou deportar judeus, o que lhes
Emocionado, Steven Bloomfield a si mesma e a todos aqueles permitiu viver dentro de certa
disse: “É inacreditável que 70 que fizeram parte de sua curta vida normalidade até setembro de 1943
pessoas entre membros da família, em personagens com nomes fictícios quando a área é ocupada pelos
historiadores, médicos e boa parte que aludiam a alguma de suas alemães. Eichmann envia para lá o
da comunidade se fez presente numa características pessoais. O resultado SS Alois Brunner com a missão de
noite tão fria e chuvosa”. foi uma obra muito interessante e deportar 1.800 judeus que
muito peculiar à qual deu o título ainda viviam na região.
Durante a cerimônia, médicos e tão pouco comum quanto a própria Fracassaram as tentativas de
funcionários do hospital renderam obra, “Leben? Oder Theater? Ein organizar o resgate desses judeus,
uma homenagem ao Dr. Félix Singspiel”, ou seja: “Vida? Ou Teatro? pois Brunner foi mais rápido e, em
Bloomfield. Uma senhora idosa Um Drama Musical”. 24 de setembro, prendeu centenas,
relembrou seu encontro com o entre eles, Charlotte Salomon e
médico. Na época, ela tinha uma Após deixar a Alemanha, em janeiro Alexander Nagler, seu marido.
doença de pele que ninguém de 1939, Charlotte foi enviada Os dois são deportados para
conseguia tratar. Sua mãe a levou ao por seus pais para Villefranche- Drancy e, em seguida, para

64
REVISTA MORASHÁ i 96

Auschwitz. Charlotte, já grávida camaradas uma ação para resgatar


de cinco meses, não sobreviveu à Otto Braun da prisão de Moabit.
primeira seleção, enquanto Nagler
viveu até 1944. Em abril de 1928, invadiram a sala
do tribunal para onde Braun era
Pouco antes de ser deportada, conduzido, rendendo os policiais
Charlotte tinha uma única e libertando o preso. Após esta
preocupação: salvar seu trabalho se operação, Olga e Braun fugiram
não fosse possível salvar sua vida. rumo a Moscou para trabalhar
Assim, entregou as mais de mil pelo “Movimento Trabalhista
pinturas a um amigo próximo, o Stolpersteine de charlotte salomon Internacional”.
médico Dr. Moridis, pedindo-lhe:
“Guarde isto em segurança, toda a Em 1935, Olga conheceu Luiz
minha vida está aqui”. Ela jamais filha única, a professora Anita Carlos Prestes nas fileiras do
poderia imaginar quão longe “sua Leocádia Prestes, nascida na prisão Partido Comunista Internacional.
vida” chegaria, após a guerra. de Barnimstrasse, Berlim, em Logo se apaixonaram e partiram
1936, e arrancada dos braços de de Moscou para Rio de Janeiro,
Terminada a guerra, o Dr. Moridis sua mãe 14 meses depois. onde organizaram, sem sucesso,
entregou o trabalho de Charlotte a Intentona Comunista de 1935.
a Ottilie Moore, velha amiga da Olga Benário nasceu em Em 1936, Olga foi presa, grávida, e
família. Finalmente, o pai, Albert, e Munique e nos anos 1920 já era entregue à Gestapo pelo presidente
sua segunda esposa, Paula Lindberg- considerada pela República de Getúlio Vargas. Em setembro do
Salomon, foram a Villefranche-Sur- Weimar como uma agitadora mesmo ano, foi enviada a Berlim,
Mer para reivindicar o que Charlotte comunista. Juntamente com seu tendo a filha, Anita, na prisão. No
pintara nos anos em que lá vivera. amigo, Otto Braun, mudou-se para começo de 1938 foi separada da
Ottilie, no entanto, só lhes entregou Berlim, tornando-se membro da criança e enviada para o campo de
o pacote que continha os guaches de Juventude Comunista. Ocuparam concentração de Lichtenburg.
“Vida? Ou Teatro?”. um pequeno apartamento
na Innstrasse, onde foram Olga passaria ainda três anos no
Os stolpersteine de Albert Salomon, presos. Olga logo foi libertada, campo de mulheres de Ravensbrück,
Paula Lindberg-Salomon e organizando junto com os antes de ser deportada, em 1942,
Charlotte Salomon, foram colocados para as câmaras de gás em Bernburg.
na Wielandstrasse 15, Berlim, em Em 1984, a “Associação dos
25 de agosto de 2012, por iniciativa Perseguidos pelo Regime Nazista”
de Gerhard Schoenberner, amigo da fundou a Galeria Olga Benario.
família. O espaço vem-se tornando nos
últimos anos uma referência sobre a
Uma stolpersteine coragem feminina.
para OLGA BENARIO
ITÁLIA COLOCA SUAS
Em 12 de fevereiro de 2008, “STOLPERSTEINE”
Olga Benário Prestes completaria
100 anos. Como ponto alto das A Itália se rendeu à ideia de Gunter
homenagens, a “Galeria Olga Demnig, também homenageando
Benario”, de Berlim, inaugurou uma dessa forma suas vítimas do
pedra-obstáculo em frente ao último Holocausto. Os italianos entenderam
endereço que esta revolucionária que a memória não se limita ao
ocupou na capital alemã. Sua único dia comemorativo, como, por
stolpersteine está instalada na calçada exemplo, o Dia da Deportação dos
da Innstrasse 24, no bairro de Olga Benário em 1928, ainda na
Judeus de Trieste, mas se torna parte
Neukölln, e foi inaugurada por sua Alemanha inseparável do presente e do futuro.

65 junho 2017
SHOÁ

O local onde as stolpersteine viveu ou trabalhou, é totalmente


foram colocadas em Roma diferente. O projeto stolpersteine Me deparei com você,
estão listados no site devolve às vítimas o seu nome. alma irmã transformada em pedra,
www.memoriedinciampo.it. Há Deixa evidente que se está diante gravada numa calçada
sete instituições que participaram do que foi um ser humano com pavimentada,
do projeto, dentre elas o Antigo nome, um lar, uma família e uma transitada por milhares.
Centro Histórico de Roma. história única. Fatos cruéis vão
O projeto de Demnig é financiado adquirindo um rosto e se tornam Como dente dourado,
extraído do passado urbano,
por inúmeras entidades e conta com tangíveis. Vizinhos se emocionam
reintegrado em espaços perdidos
o apoio do presidente da Itália. ao ver as pedras e, assim, tomam
e inutilizados, ao longo do tempo.
consciência dos seus destinos
A Itália constituiu um comitê dramáticos. Descobre-se que o Quintal - Hinterhof,
científico para dar suporte ao projeto horror não poupou a cidade, o [mistura] de luto e culpa,
das stolpersteine, com renomados bairro ou a rua; mas que numa que arde nos meus olhos,
historiadores. Em janeiro de realidade triste houve também piscando com o brilho do sol,
2012 foi agraciado com uma pessoas corajosas que arriscaram a daquele último verão;
“pedra-obstáculo” o padre Pietro vida contra o regime de terror. mexendo no passado,
Pappagallo, que escondeu judeus agitando seu nome,
durante a guerra. Traído por uma As pedras de Gunter Demnig dos pés à cabeça:
alemã, ele foi preso e condenado à são lápides. Elas relembram a Gisela e Elvira,
morte em 1944. Um cubo de latão morte de crianças, mães, avós, tios, Sofia, Edith e Kira.
no chão da Via Urbana 2, em Roma, parentes com nome e sobrenome.
homenageia o sacerdote. Registram a data em que cada um Uma memória brilhante,
foi preso, humilhado, deportado, perdida, porém polida,
Houve, na Itália, atos de vandalismo escravizado, morto, incinerado lembrada nas calçadas,
contra as stolpersteine. No início em nome das nefastas filosofias e nas “pedras-obstáculo”.
de 2012, em Santa Maria in e políticas do Terceiro Reich.
Monticello, pessoas desconhecidas Apesar de sua tradução em
removeram e substituíram por português, estas pedras não devem
pedras normais as comemorativas ali representar um “obstáculo”. Elas
colocadas. Elas estavam dedicadas à testemunham o quanto um Estado BIBLIOGRAFIA
memória das três irmãs Spizzichino: totalitário conduzido por seres Aquino, Felipe, As pedras de tropeço de Roma.
Graziela, Letizia e Elvira, judias inescrupulosos, adeptos a filosofias Editora Cléofas, 2012.
mortas no Holocausto. Atos imorais, pode converter-se numa Charlotte Salomon, A obra de uma vida.
bárbaros, ultrajantes e vergonhosos máquina de destruição. Morashá, abril de 2012
como estes não apagarão jamais a http://www.stolpersteine.eu/en/home/
memória destas três pessoas, pois Há também críticos do projeto Festiner, Mary Lowenthal, To paint her life:
Charlotte Salomon in the Nazi era. University
a memória de um ser humano não stolpersteine, como Charlotte of California Press, 1997
está ligada à materialidade visível de Knobloch, ex-presidente do Morais, Fernando, Olga. 2ª edição.
uma placa, vivendo eternamente na Conselho Central dos Judeus Companhia das Letras, 1993.
mente e no coração daqueles que os na Alemanha. Segundo ela, http://stolpersteine.jimdo.com/ biografien/
valorizam. colocar pedras memoriais no dr-felix-blumenfeld/
chão é ofensivo, pois as vítimas
PALAVRAS FINAIS judias voltam a ser pisoteadas.
Gunter Demnig contesta a crítica Prof. Reuven Faingold é historiador
e educador; PHD em História e História
As stolpersteine convidam à reflexão. afirmando: “Quem se abaixa para Judaica pela Universidade Hebraica
Lidar com datas e acontecimentos ler a inscrição na pedra-obstáculo, de Jerusalém. É sócio fundador da
“Sociedade Genealógica Judaica”
históricos é emocionante, mas curva-se diante das vítimas”. do Brasil e, desde 1984, membro do
“Congresso Mundial de Ciências
descobrir uma inesperada “pedra- Encerro este artigo registrando Judaicas” em Jerusalém. Atualmente,
obstáculo”, começar a ler a sua um poema anônimo intitulado é responsavel pelos projetos
educacionais do “Memorial da Imigração
inscrição e ver a casa onde a pessoa “Stolpersteine”: Judaica” de São Paulo.

66
ISRAEL

A Batalha por Jerusalém

A captura da Cidade Velha de Jerusalém, em 1967, foi, para todos


os judeus, uma catarse emocional que é comparável e, em
certos aspectos, até superior ao estabelecimento do Estado
de Israel, em 1948. Sua reconquista foi um capítulo à parte na
história da Guerra dos Seis Dias, o mais importante.

D
urante dois milênios, o Povo Judeu pediu dos jovens soldados será lembrado por gerações. Elie
diariamente em suas orações que Jerusalém Wiesel, testemunha ocular da tomada de Jerusalém,
e seu ponto central espiritual, o Monte do escreveu: “O combate ainda perdurava em várias
Templo, voltassem às nossas mãos. “Se eu frentes... mas isso não impediu que as pessoas, num
me esquecer de ti, ó Jerusalém...” escreveu o êxtase místico, acorressem em direção à Cidade Velha,
profeta Yirmiyáhu durante o exilio na Babilônia. O Povo que estivera inacessível a todos os judeus durante o
Judeu nunca se esqueceu de sua capital eterna. A cidade domínio jordaniano... sobreviventes de todo tipo de
de David sempre foi o foco do anseio de nosso povo inferno, rostos de todo tipo de destino - vi-os correndo,
da volta à Terra de Israel. O próprio termo “sionismo” ofegantes... para tocar o Muro. E lá chegando, incrédulos
advém da palavra “Tsion”, que é um dos nomes da cidade e estupefatos, como crianças que temem o despertar por
sagrada de Jerusalém. não querer o fim do sonho, detêm-se, de súbito. Eis que
se ouve um choro convulsivo, preces sendo entoadas,
No dia 7 de junho, apenas 48 horas após o início da enquanto outros dançam, dando vazão à emoção. O país
Guerra dos Seis Dias, o sonho há muito acalentado se inteiro dançou. A história judaica dançou. Explodindo de
concretizou tão rápida quanto inesperadamente. Uma júbilo e gratidão pelo privilégio de testemunhar aquele
mensagem percorreu toda Israel: “Har Habait Beiadeinu” momento, pensei: ‘É isto, Jerusalém, o lugar que atrai e
- o Monte do Templo está em nossas mãos!”. Naquele irmana todos os judeus, a verdadeira cidade da saudade e
dia, o som do Shofar tocado ao pé do Kotel anunciava ao promessa eternas’”.
mundo que os Filhos de Israel haviam voltado para seu
Muro. Jerusalém, o coração e alma de Eretz Israel e do Em compasso de espera
Povo de Israel, finalmente reunificada, é a capital política
do moderno Estado de Israel. Em junho de 1967, mesmo quando Israel percebeu que
não haveria como evitar um novo conflito contra o Egito
A reconquista foi uma luta árdua, muitos sacrificaram e seus aliados, a reconquista de Jerusalém Oriental não
sua vida, outros tantos foram feridos, mas o heroísmo estava entres os planos que traçaram. Moshé Dayan,

67 junho 2017
ISRAEL

então ministro da Defesa, e o Israel, a população da Jerusalém


Comando Supremo das Forças de jordaniana foi tomada por grande
Defesa de Israel (FDI) sabiam euforia. Os alto-falantes das
que para ganhar a guerra deviam, mesquitas incitavam os fiéis a
antes de tudo, derrotar o Egito e massacrarem os judeus. O líder da
concentrar a maior parte de suas OLP, Ahmed Shukeiry, chegou à
forças na frente egípcia. Dayan cidade na sexta-feira, 2 de junho,
ordenara aos comandantes para participar das preces na
do Exército não se envolver em Mesquita al-Aksa. Multidões o
“ações militares que pudessem carregaram nos ombros. Em um
complicar a posição de Israel diante discurso inflamado, ele disse: “Israel
da Jordânia”. está às vésperas da destruição e
haverá poucos sobreviventes”.
No dia 5 de junho, 45 minutos A FOTO DOS TRÊS EX-PARAQUEDISTAS Ironicamente, quando a Guerra
NA FRENTE DO KOTEL, SE TORNOU UMA
após os aviões israelenses iniciarem IMAGEM ICÔNICA DA GUERRA. A IMAGEM eclodiu, Shukeiry estava entre os
o ataque às bases egípcias, o FOI TIRADA PELO FOTÓGRAFO ISRAELENSE
DAVID RUBINGER
primeiros a fugir da cidade.
general Odd Bull, comandante de
Supervisão de Tréguas das Nações tiveram que se render, e a Cidade Enquanto a Jerusalém jordaniana
Unidas, recebeu um telefonema do Velha ficou sob a soberania da vivia uma histeria eufórica coletiva,
Ministério das Relações Exteriores Jordânia. Conquistadores cruéis, os a judaica se preparava para enfrentar
de Israel solicitando sua presença. jordanianos mataram ou expulsaram uma batalha sangrenta, que teria que
Ao chegar ao Ministério, foi-lhe todos os judeus da área, destruindo ser lutada rua por rua, de casa em
entregue a mensagem de Levi suas 60 sinagogas, incendiando-as ou casa. Nas semanas que antecederam
Eshkol para o rei Hussein. O profanando-as, e rasgando centenas a guerra foi intensa a mobilização do
primeiro-ministro pedia, mais uma de Sefarim. E, apesar dos acordos setor civil. As autoridades municipais
vez, que a Jordânia não entrasse no internacionais de cessar-fogo que implementaram planos tão
conflito. “Se a Jordânia não fizer garantiam a judeus e cristãos o livre detalhados quanto os dos militares.
nenhum ato hostil, Israel tampouco acesso aos lugares sagrados, esse Desde o fechamento do Estreito de
o fará”. O rei da Jordânia ignorou acesso foi proibido aos judeus. Tirã, a agência chamada PESACH
os apelos, pois chegara à conclusão Os cristãos que apresentavam (um acrônimo das palavras
de que sua sobrevivência política certificado de batismo podiam entrar hebraicas para “evacuação, bem-
dependia de ser visto como parte da durante certos feriados. estar e enterro”) começou a preparar
coalizão na luta contra Israel. edifícios públicos para servirem de
Nas quase duas décadas os centros de evacuação. Temendo-se
Durante 19 anos, jordanianos e jordanianos haviam montado a ocorrência de milhares de mortos,
israelenses tinham-se preparado linhas de defesas praticamente foi preparado um monte ao lado do
para o dia em que voltassem a se intransponíveis: arame farpado, Monte Herzl para abrigar um novo
enfrentar belicamente. trincheiras profundas e campos cemitério. Havia estimativas que o
minados corriam ao longo da Linha número de mortos poderia chegaria
Para Israel, a perda da parte oriental Vermelha, a linha do armistício de a 2 mil, se aviões jordanianos não
de Jerusalém, principalmente da 1948 que separava as duas partes de bombardeassem a cidade, caso
Cidade Velha de Jerusalém, em Jerusalém. A linha estendia-se por contrário, a 6 mil. Como as FDI
1948, na Guerra de Independência, pouco mais de 8 km de norte a sul. temiam o uso de gases mostarda
foi um dia de luto. Nas palavras Para preocupação dos comandantes e nervoso, usados pelo Egito no
de Ben-Gurion, “um motivo das Forças de Defesa de Israel Iêmen, oficiais da Haga, defesa civil,
para chorar por gerações”. A (FDI), a muralha da Cidade Velha receberam treinamento de como agir
luta contra a Legião Jordaniana era o ponto central das defesas da frente a tal eventualidade.
foi sangrenta; treinada e armada Jordânia.
pelos britânicos, a Legião era Voluntariar-se tornou-se uma
a melhor do mundo árabe. Os Desde maio de 1967, perante a obsessão. Milhares ficavam em fila
judeus lutaram corajosamente, mas possibilidade de uma guerra contra para doar sangue, outros tantos

68
REVISTA MORASHÁ i 96

No dia 24 de maio – Yom Yerushalayim – Dia de Jerusalém, Israel festejou 500 aniversário da libertação e unificação
da Cidade Sagrada sob soberania judaica

participavam de cursos de primeiros particular, estava nas mãos da o alertara de que suas forças não
socorros das equipes de resgate da Brigada de Jerusalém, composta em tinham autorização para atravessar
Magen David Adom, mais de 2 mil sua maioria por reservistas, muitos a Linha Vermelha. As ordens do
voluntários cavavam diariamente com mais de 30 anos, enquanto general Yitzhak Rabin, então chefe
trincheiras perto de apartamentos os israelenses entre 45 e 49 anos do Estado Maior, eram claras:
e escolas que não possuíam abrigos compunham os quadros da Haga. “Nada deve ser feito para provocar
próprios (40% das construções), os jordanianos. Caso a Jordânia
entre eles 500 alunos de ieshivot. Na noite de domingo, 4 de abra fogo, Israel responderá, mas
No Shabat após o fechamento junho, Narkiss reuniu-se com sempre tentando evitar a escalada
do Estreito de Tirã, um dos seus comandantes e um oficial do conflito”. Os eventos, no entanto,
comandantes da Haga viu alunos de da Inteligência para examinar os foram tomando vida própria.
ieshivot, liderados por dois rabinos deslocamentos das forças da Jordânia.
ortodoxos, cavando trincheiras. O general estava preparado para a O ataque jordaniano
eventualidade de um ataque, mas
Caberia ao general Uzi Narkiss, não acreditava que seria muito Após o ataque surpresa de Israel,
comandante das FDI na região mais do que uma troca de tiros Nasser fez de tudo para manter
Central, com sete brigadas sob suas transfronteiriços. Caso os jordanianos a Jordânia como aliada. Ele sabia
ordens, enfrentar uma ofensiva atacassem pesadamente em Jerusalém que alguns oficiais jordanianos
jordaniana. Sua principal força o plano de Narkiss era romper as haviam aconselhado ao rei que ao
de reservistas, a 10a Brigada linhas inimigas com sua Infantaria até menos esperasse alguns dias para
Mecanizada, estava estacionada o Monte Scopus, localizado na parte ver o andamento do conflito, antes
na planície costeira. Em caso de jordaniana, e levar seus blindados até de atacar Israel. O alto comando
guerra, seus velhos tanques Sherman um terreno elevado entre o Monte e o egípcio descaradamente “informou”
teriam que enfrentar uma brigada Palácio de Governo. a Hussein que ¾ da Força Aérea
jordaniana de 88 modernos tanques de Israel tinha sido destruída e que
Patton estacionados próximo a O general Haim Bar-Lev, vice- aviões e o exército egípcio estavam
Jericó. A defesa de Jerusalém, em chefe do Estado Maior, porém, atacando Israel. E uma mensagem

69 junho 2017
ISRAEL

entre outros, começam a pressionar


para que fosse autorizado inclusive
um ataque à Cidade Velha.
O general Narkiss não escondia o
fato de que se Israel desse início, em
Jerusalém, à guerra de movimento1,
ele tentaria tomar a Cidade Velha.
Sua motivação era tanto nacional
como pessoal. Ele queria corrigir
o que considerava a maior mancha
em sua carreira militar – ter perdido
a Cidade Velha 19 anos antes.
Ele se considerava de certa forma
TANQUES E CAMINHÕES ISRAELENSES A CAMINHO DA CONQUISTA DO LADO DE JERUSALÉM
responsável pelo fato de que os
ATÉ ENTÃO SOB CONTROLE JORDANIANO judeus não podiam rezar no Kotel.
“Durante uma noite tive o Portão da
foi imediatamente enviada ao e, o segundo, a notícia de que os Cidade em minhas mãos, mas me
general egípcio que coordenava as jordanianos estavam atacando foi arrebatado”. A História parecia
forças árabes na frente jordaniana, pesadamente alvos militares e estar-lhe dando e dando a Israel uma
ordenando-lhe iniciar a ofensiva. civis, e que sua artilharia de longo segunda chance...
O que o rei não sabia era que Israel alcance abrira um pesado fogo sobre
praticamente vencera a guerra três Jerusalém Ocidental. Moshé Dayan, A batalha por
horas após seu início quando sua então, realocou a 55a Brigada de Jerusalém
Força Aérea destruíra a egípcia. Paraquedistas – brigada de reserva
sob o comando do então coronel Eram por volta das 8h30 quando as
Na manhã de 5 de junho, o Mordechai (Motta) Gur – para bombas jordanianas começaram a
Comando Geral das FDI ainda defender a Jerusalém judaica. cair na parte judaica da Cidade.
pensava em termos de contenção A Rádio de Amã anunciava
do conflito, não em expandi-lo. À medida que as horas passavam que Israel atacara a Jordânia e,
Apesar de Hussein não atender tomava forma entre os membros 20 minutos depois, o rei Hussein
ao apelo de Israel, poucos na alta da hierarquia militar e política a declarou pelo rádio: “A hora da
hierarquia militar e política de Israel possiblidade, até então descartada, de vingança chegou...”.
acreditavam que haveria uma guerra tomar Jerusalém Oriental. O general
em grande escala com a Jordânia. Narkiss, o ministro Yigal Allon, O general Narkiss, após ordenar
A seu ver, caso Hussein interviesse, Menachem Begin e o rabino-chefe alerta geral em toda a área do
seria apenas proforma, para do Exército, general Shlomo Goren, Comando Central e dar instruções
satisfazer seus aliados. Baseavam- para os alarmes de ataque aéreo,
se, entre outros, no fato de que telefonou a Teddy Kollek, então
desde 1963 o rei mantinha reuniões prefeito de Jerusalém, dizendo:
secretas com israelenses para evitar “Estamos em guerra, mas está tudo
mal-entendidos que pudessem levar sob controle. Você está prestes a
a um conflito com o Estado Judeu. ser o prefeito de uma Jerusalém
Unificada!”.
A atitude em relação à Jordânia
foi mudando a partir do final Dois eventos aceleraram a decisão
daquela manhã por dois fatores. das FDI de avançar sobre a parte
O primeiro era a confirmação do jordaniana de Jerusalém. O primeiro
sucesso do ataque aéreo preventivo, ocorreu por volta das 14 h.
O comandante da Brigada de
1
Marcado por uma intensa movimentação TROPAS ISRAELENSES ENTRAM NA CIDADE Jerusalém informou Narkiss que
VELHA DE JeRUSALÉM PELa PORTa DOS
de tropas LEÕES legionários jordanianos haviam

70
REVISTA MORASHÁ i 96

ocupado o antigo Palácio de


Governo onde ficava o Q.G. das
Nações Unidas.
O local era militarmente estratégico,
pois domina a estrada Bethlehem-
Hebron pela qual os jordanianos
podiam obter reforços. Israel teria
que desalojar os legionários do
prédio e ocupar os entroncamentos
por onde tropas inimigas podiam
se movimentar. Narkiss ligou ao
comandante da 10a Brigada de
Blindados. “Coloquem suas forças
na estrada para Jerusalém. É a nossa APÓS A RECONQUISTA DA CIDADE VELHA, SOLDADOS CHEGAM À MESQUITA DOMO DA
chance de conquistá-la!”. ROCHA. 7 DE JUNHO 1967

Mas foi o anúncio da rádio egípcia cidade edificada, na qual ninhos de Ao chegar a Jerusalém Gur incumbe
afirmando que tropas jordanianas metralhadoras e homens armados os três comandantes de batalhão de
haviam capturado o Monte Scopus com rifles estavam emboscados atrás sua Brigada, cada um com objetivo
que mudou o curso do conflito. de janelas. E, assim que o Monte específico, para preparar um assalto
Israel sabia que o anúncio era falso, Scopus estivesse em suas mãos, cruzado à Linha Vermelha, ao longo
mas também, sabia que significava tomariam posições estratégicas de um setor demarcado ao norte pela
que um ataque jordaniano ao enclave na Jerusalém Oriental para criar Colina da Munição e pela Escola de
israelense era iminente. Uma das uma situação que lhes permitisse Polícia da Jordânia, no centro pelos
preocupações das FDI sempre irromper pela Cidade Velha. bairros Shaikh Jerrah e Wadi Joz,
foi a segurança dos 122 soldados Gur estava ciente de que ele e sua e ao sul pelo Hotel American Colony
estacionados no Monte Scopus, no brigada iriam enfrentar um combate e pelo Museu Rockefeller.
lado jordaniano da cidade. A Brigada difícil, mortal, mas estavam prontos. Os comandantes tinham uma hora
de Jerusalém podia deter qualquer Tendo nascido em Jerusalém, assim para traçar seus planos para, em
ataque, mas se o Monte caísse em como Yitzhak Rabin, Uzi Narkiss seguida, colocá-lo em prática.
mãos jordanianas, sozinha a Brigada e Moshé Dayan, há anos Gur
não conseguiria furar as formidáveis acalentava o sonho de tomar parte Os israelenses lutariam, à noite, num
defesas construídas em volta dele de uma batalha pela cidade. ambiente urbano desconhecido, pois
pelos inimigos. Com a chegada
da 55a Brigada de Paraquedistas
comandada pelo coronel Gur, a
batalha por Jerusalém toma outras
proporções. O Comando Geral
autorizara Narkiss a iniciar um
contrataque assim que o batalhão de
paraquedistas chegasse a Jerusalém.

A ordem era chegar até o Monte


Scopus e libertar a guarnição de
soldados israelenses que estavam
cercados. Para consegui-lo,
teriam que romper as defesas
jordanianas, penetrar campos
minados, destruindo sólidas
defesas fronteiriças, e lutar através
O Ministro da Defesa Moshe Dayan, o Chefe do Estado-Maior Yitzhak Rabin, o Gen.
de pelo menos 1,5 km em uma Rehavam Ze’evi (esq.) e o Gen. Uzi Narkiss caminham na Velha Jerusalém

71 junho 2017
ISRAEL

muro ocidental é recapturado; a rádio do exército israelense anuncia: “o kotel está em nossas mãos”

há 19 anos nenhum judeu podia de guerra, era grande a possibilidade Velha, o Muro das Lamentações e
aventurar-se pelas ruas da Jerusalém de uma Jerusalém unificada e o Monte do Templo permanecerão
Oriental e havia apenas meia israelense. Algo que até então estava em mãos árabes. Isso não podemos
dúzia de mapas mal feitos da parte além de qualquer esperança ou permitir”.
jordaniana da cidade. Os soldados imaginação agora estava ao alcance
não poderiam contar com reforços, de Israel. Tomando a
não teriam apoio de blindados e Cidade Velha
armamentos pesados, tampouco Israel, porém, encontrava-se perante
tinham alguma experiência em um grande dilema de tomar ou não De acordo com o plano rapidamente
atacar uma cidade daquele porte ou a Cidade Velha. As implicações traçado pelo Alto Comando, Israel
de combate de casa em casa, ainda políticas e diplomáticas eram muitas: iria tomar as colinas que circundam
tendo que ter o cuidado para não o Vaticano, centenas de milhões Jerusalém – além do Monte Scopus,
danificar locais sagrados de três de cristãos e de muçulmanos iriam o Cume Augusta e o Monte das
religiões. aceitar que seus lugares sagrados Oliveiras - e manter as posições
ficassem em mãos de judeus? Mas até segunda ordem. As forças de
Uma missão que parecia impossível não podíamos perder a possibilidade Israel iriam estabelecer um anel de
foi realizada: na manhã do dia 6 de histórica, única, que se abria depois aço ao redor da Cidade Velha, mas
junho, após uma luta impiedosa, de dois mil anos de exílio de voltar manteriam um corredor aberto para
estavam em mãos de Israel o a ter em nossas mãos o Kotel a Legião Árabe poder escapar. Era
Monte Scopus, assim como pontos Hamaaravi. imprescindível preservar os Locais
estratégicos. Ainda estavam em mãos Sagrados. O que Israel pretendia era
da Legião Árabe o Cume Augusta O rabino chefe das FDI, general deixar a Cidade Velha cair por si só.
Victoria, o Monte das Oliveiras e Shlomo Goren, o general Narkiss, Moshé Dayan ainda estava com
a Cidade Velha. Mas, as Brigadas o coronel Motta Gur, Menachem dúvidas, temia a indignação da
Harel e de Jerusalém já controlavam Begin, Levi Eshkol, Abba Eban e comunidade mundial caso os locais
três dos quatro acessos à cidade. tantos outros pressionaram Moshe sagrados cristãos e muçulmanos
Dayan que ainda relutava em fossem destruídos ou danificados
As vitórias custaram caro para ordenar a tomada da Cidade Velha. pela ação israelense. Pior ainda seria
Israel; muito sangue de jovens tomar o Kotel e ter que devolvê-lo
israelenses havia sido derramado Pouco antes do amanhecer do perante a pressão internacional,
durante a longa noite. Muitas vidas segundo dia Begin ligara Dayan viu isso acontecer no Sinai.
ceifadas. O número de feridos era para Dayan informando que o Toda relutância de Dayan se esvaiu
imenso e as maiores baixas eram Conselho de Segurança da ao receber o comunicado de que
dos comandantes. Mas, graças ao ONU iria declarar um cessar-fogo. as forças jordanianas estavam
heroísmo dos paraquedistas e dos “Se isso acontecer”, disse Begin abandonando o local, e que poucos
outros soldados, naquele segundo dia com voz perturbada, “a Cidade ainda resistiam.

72
REVISTA MORASHÁ i 96

Os comandantes finalmente frente, logo ao início da tarde.


receberam o tão esperado sinal verde. Gur se unira a seus homens.
Yitzhak Rabin ordenara a Gur: Os veículos militares aproximaram-
“Irrompam imediatamente pela se da Porta dos Leões vindo
Cidade Velha e a conquistem”. Gur pelo Norte, justo quando os
aguardava por aquela ordem nas tanques chegavam do Sul. Os
últimas 24 horas; de fato, durante tiros ainda vinham ao longo da
toda a sua carreira militar. Ele muralha da Cidade Velha e os
sabia que a Nação Judaica vinha tanques respondiam com suas
esperando ouvir aquela ordem há metralhadoras, abstendo-se de
19 séculos – a última vez que um atirar bombas para evitar danificar o
exército judeu estivera nas muralhas Domo da Rocha.
da Cidade Velha fora durante o
sítio de Jerusalém, comandado pelo O general Narkiss, que estava no
general Tito, futuro imperador Monte Scopus com seu grupo
de Roma.Ironicamente, ainda avançado de comandos, quando
que o exército tivesse planos de RABINO SHLOMO GOREN TOCA O SHOFAR
ouviu Gur ordenar o avanço,
contingência para virtualmente cada NA ÁREA DO KOTEL também seguiu em direção à Porta
alvo e circunstância concebíveis no dos Leões. Com ele no jipe estava
Oriente Médio, não havia um sequer Paraquedistas”, disse Gur a seus o general Haim Bar-Lev. Narkiss
que cobrisse a tomada da Cidade homens, “estamos daqui de cima, não conseguia esquecer sua última
Velha, mas com a possibilidade de com a Cidade Velha a nossos pés. entrada na Cidade Velha, 19 anos
um iminente cessar-fogo o ataque Dentro em breve adentraremos antes. “Não deveríamos entrar se for
tinha que ser executado o mais na antiga cidade de Jerusalém, para sair de novo”, bradou. “Daqui,
rápido possível. Israel iria estrangular que por gerações foi o motivo de nunca mais sairemos”, respondeu-lhe
a Cidade Velha pelo Sul. nossos sonhos e a razão de nossas Bar-Lev.
aspirações. Nossa brigada recebeu
Até então a ordem do Alto o privilégio de ser a primeira a nela Uma vez aberto a Porta dos Leões,
Comando era não atingir a Cidade entrar.” Ordenou a seguir que todas Gur ordenou a seu motorista ir em
Velha com artilharia, a despeito da as unidades se pusessem em marcha. direção ao Monte do Templo. Este
provocação, mas com a iminência As quatro companhias do batalhão surgiu imponente, e vazio. Depois
do ataque, foi dada permissão de atingiriam as quatro principais de uma luta ferrenha nenhum
bombardear a extremidade esquerda posições jordanianas na colina, de jordaniano parecia estar lá.
da cidade murada, por trás do ponto
de entrada escolhido – a Porta dos
Leões. Os canhoneiros precisavam
tomar cuidado para evitar que se
atingisse o Monte do Templo, a
poucos metros à direita da Porta
dos Leões. A decisão de irromper
justamente por essa entrada, na
muralha oriental da cidade, fora
tomada ainda naquela manhã. Até
o final da noite anterior o plano era
avançar pela Porta de Herodes, na
muralha norte.

Foi do topo do Monte das Oliveiras


que o coronel Motta Gur ordenou
à sua Brigada de Paraquedistas
para atacar. “55a Brigada de PAUSA PARA UM DESCANSO, APÓS A ÁRDUA BATALHA PELA RECONQUISTA DE JERUSALÉM

73 junho 2017
ISRAEL

SOLDADOS COMEMORAM DIANTE DO KOTEL

Ordenou no radio a todas as soprar, ele correu para o Monte do fazendo continência ao Kotel, eles
unidades cessar-fogo e dirigindo-se Templo. Lá, abraçou Gur e pediu recitaram chorando o Kadish pelos
ao general Narkiss disse: vinho para fazerem o Kidush. Em camaradas tombados na batalha.
“O Monte do Templo está em seguida, ainda agarrado ao Sefer Torá, Enquanto o rabino Goren cantava
nossas mãos. Repito. O Monte do o rabino Goren puxou uma dança o Hatikva, cada um deles sabia
Templo é nosso”. Ao chegar no topo chassídica com os paraquedistas e que a volta do Kotel HaMaaravi ao
do Monte ordenou que a Bandeira começou a cantar o Hatikva, mas os Povo Judeu era uma questão sobre
de Israel fosse hasteada sobre o Kotel soldados o interromperam entoando a qual a opinião das Nações Unidas
HaMaaravi! a nova canção de Naomi Shemer, ou qualquer política regional eram
“Yerushalaim shel Zahav”, Jerusalém totalmente irrelevantes, eles o haviam
O relógio marcava 10h21– de Ouro. reconquistado e Israel aí ficaria.
48 horas após o início do combate
em Jerusalém.  Centenas de soldados, vindo O general Dayan somente conseguiu
por todos os lados com os rostos chegar ao Monte do Templo no
Os paraquedistas que iam chegando banhados de lágrimas acorriam início da tarde entrando pela
à então estreita rua diante do Muro à pequena ruela diante do Muro. Porta dos Leões, acompanhado
ficavam em silêncio, conscientes de Aproximavam-se do Kotel para por Rabin. De pé, diante do Muro,
que eram os primeiros soldados de tocar as pedras milenares, alguns escreveu um bilhete que inseriu no
um exército judeu a lá chegar em comprimiam o rosto nas pedras. Muro: “Que a paz desça sobre a
dois milênios. Durante dois dias tinham obedecido Casa de Israel”.
a ordens, lutado contra a dor e o
O rabino-chefe das FDI, o general medo; tinham sangrado, foram
Goren, que avisara a Gur que ele feridos, tinham visto tombar seus BIBLIOGRAFIA
desejava ser o primeiro homem a camaradas, mas agora estavam lá!
Pressfield, Steven, A Porta dos Leões, Editora
aproximar-se do Muro, adentrou Enquanto o suor da batalha ainda Contexto
a Cidade Velha carregando um brilhava neles repetiram as palavras
Rabinovich,Abraham, The Battle for
Sefer Torá e um Shofar. Um dos do rabino Goren: “Shehecheyanu… Jerusalem: An Unintended Conquest (50th
comandantes da companhia de Aquele que nos manteve com vida, Anniversary Edition), ebook Kindle
tanques o carregou e, do alto do nos preservou, e nos permitiu Clifford, Irving, The Battle Of Jerusalem
tanque, o rabino Goren tocou chegar a este momento com vida...”. - A Short History Of The Six-Day War: June
bem alto o Shofar, continuando a A seguir, em posição de sentido e 1967, eBook Kindle

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REVISTA MORASHÁ i 93

No dia que comemoramos a libertação de Jerusalém por


Israel, há 50 anos, foi um bálsamo ler “Yom Yerushalayim”,
a matéria que está on-line. Todos os artigos dessa
edição são ótimos, mas queria destacar aquela sobre o
grande Leonard Cohen, que poucos sabem era judeu e um
amante de Israel, e também sobre a captura de Eichmann.
Parabéns pelo trabalho fantástico que vocês fazem.
Enrico Murani
Rio de Janeiro - RJ

A revista Morashá é inegavelmente Eu não leio a Morashá, eu mergulho Morashá cumpre com excelência
interessante, educativa e na Morashá, eu estudo a Morashá. seus objetivos – artigos e produção
informativa. Sua leitura é tão boa Volto às matérias de história duas e impecáveis. Na edição 95, a revista nos
como de um bom livro, se não três vezes. Eu viajo no espaço e no brinda com o artigo “Os Judeus de
melhor. A Morashá existe para a tempo com a Morashá. Gostaria Curaçau” trazendo respostas às várias
lembrança de quem somos. Nasci de uma matéria sobre a Ilha de indagações e reflexões ... Fugindo da
em Berlim, só aprendi que sou Rhodes, no Mar Egeu. Toda minha inquisição, nosso povo mais uma vez,
judeu quando vi de perto a queima família é de lá. Até o nome da migrou. A ilha de Curaçau tornou-se
das sinagogas, nas ruas o vidro das avenida central da Judiaria leva meu um local de acolhimento. A beleza da
vitrinas quebradas das lojas judaicas, sobrenome. Obrigada pelas matérias história se mantém até hoje, quando
etc. Frequentei a Volksschule e depois sempre interessantes, vibrantes, vários imigrantes de diferentes países
o Juedische Real Gymnasium, onde com bibliografia com as quais nos vieram se juntar à colônia judaica... esse
aprendi bem mais sobre o nosso presenteiam a cada edição. é o espírito da nossa comunidade: a
povo. Com o antissemitismo cada união! Destaco ainda Leonard Cohen,
Silvia Aljadeff Kuffer
vez pior, a Inglaterra generosamente Por e-mail grande poeta e compositor com a
criou o famoso Kindertransport, e música que se eternizou, “Aleluia”,
tive a tremenda sorte de ser uma Trabalho com alguns parceiros em e Naomi Shemer, com sua também
destas crianças. Imagine a dor dos um projeto sobre Curaçau, a ilha do poesia e música “Yerushalayim Shel
pais na estação do trem, certos que Caribe, e soube da excelente matéria Zahav”, que se tornou nossa referência,
não veriam seus filhos nunca mais... publicada na edição 95 da Morashá além do Hino de Israel: nunca perder
Na Inglaterra fui tratado muito sobre a ilha. Enviarei exemplar para esperança da Terra Prometida. Enfim,
bem e tão logo tive idade suficiente, nossos contatos da comunidade de difícil selecionar um artigo. Parabéns à
alistei-me no exército inglês. Curaçau. competente equipe.
Quando ouvi falar da Brigada Leonardo Libman Janete Haber Fajntuch
Judaica, pedi transferência e servi na São Paulo - SP Rio de Janeiro - RJ
Itália. Foi lá que aprendi
a falar hebraico e que aprendi que Minha família recebe a Morashá Agradeço o envio do exemplar da
havia 10 vezes mais judeus na regularmente, leio com prazer, mas Morashá. Esta revista é simplesmente
Polônia do que na Alemanha. Para a edição 95 foi especial. O artigo de uma joia em papel.
minha esposa, nascida em Viena, rabino Lorde Jonathan Sacks foi de
Luis Gerardo
a história é exatamente a mesma, uma sabedoria e profundidade que Consulado Geral do México
encontramo-nos na Inglaterra gostaria de ler em toda reunião da
e casamos. Nossos filhos são os comunidade. É um chamado para Agradecemos a doação da Morashá,
netos de quatro avós assassinados as lideranças. Outro artigo que me 2016, Ano 24, nº 94. Tal obra
que nunca chegaram a conhecer. tocou profundamente foi “O novo enriquecerá e muito o acervo de nossa
Recomendo a todos que leiam a antissemitismo”. E que bela foto dos Biblioteca.
revista. soldados de Israel no Muro Ocidental!
Centro Cultural São Paulo
Ernest G. Growald Jayme Gudel Supervisão Bibliotecas
Por e-mail Por e-mail São Paulo - SP

75 JUNHO 2017