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Apostila de Filologia

Românica

Fábio Frohwein de Salles Moniz


(fabiofrohwein@hotmail.com)
SUMÁRIO

1. A Filologia Românica....................................................................................................03

2. O Latim Literário (LL).................................................................................................04


2.1 A pronúncia reconstituída do LL..........................................................04
2.2 Aspectos da morfologia nominal do LL...............................................05
2.3 Aspectos da morfologia verbal do LL...................................................08

3. O Latim Vulgar (LV)....................................................................................................15


3.1 Aspectos fonológicos do LV.................................................................15
3.2 Aspectos da morfologia nominal do LV...............................................19
3.3 Aspectos da morfologia verbal do LV..................................................21
3.4 Aspectos da sintaxe do LV....................................................................23

4. A formação da Língua Portuguesa..............................................................................24


4.1 Aspectos fonológicos............................................................................24
4.2 Aspectos morfológicos..........................................................................26
4.3 Aspectos sintáticos................................................................................30

5. Referências bibliográficas............................................................................................31

Apêndice I: paradigmas de flexão casual de substantivos e adjetivos do LL..............33

Apêndice II: simulados para as primeira e segunda avaliações...................................34

Apêndice III: Descoberto o mais antigo texto escrito em galego-português...................37

2
1. A FILOLOGIA ROMÂNICA

Documento 1: Posição e significado da lingüística românica, Heinrich Lausberg.

1. A Filologia tem como objecto todos os discursos que os homens pronunciam ou têm
pronunciado. O discurso (fr. discours), propriamente dito, é uma manifestação lingüística (facciosa) que o
falante considera como conclusa e que tem por finalidade modificar a situação.
(…)
Quando o discurso, considerado pelo falante como concluso, tiver tido o êxito da persuasão ou
quando tiver fracassado em conseqüência do êxito da parte contrária, o discurso passa a ser um facto
detalhado da história e perde toda a função actual. Um tal discurso consumível é um discurso de uso único
(pragmático). A função do discurso que se radica na modificação da situação e a consumptibilidade do
discurso mantêm entre si uma correspondência mútua.
(…)
Ao lado do decurso da situação histórica que é linear e consome o discurso, existe outro decurso
cíclico inerente ao ritmo de ano (e a outros ritmos de tempo). Decerto o decurso cíclico está determinado
por natureza e não pode ser modificado pelas pessoas mediante acção ou discurso. Mas o homem, perante
esta sua dependência do decurso cíclico, sente-se impelido a manifestar o seu interesse neste decurso por
meio de discursos confirmativos (laudatórios) ou mediante discursos que evocam o fenômeno através de
uma cooperação fictícia. Este discurso é um discurso litúrgico que se repete anualmente (ou conforme
outros ritmos de tempo). Um tal discurso litúrgico permanecerá de ana em ano constante no seu teor, para
assim exprimir o regresso da mesma realidade da situação, o que é importante focar. Deste modo, o
discurso litúrgico é um discurso de uso repetido (literário) e representa, fenomenologicamente, aquilo que,
liberto da sua ligação ao ritmo litúrgico do tempo, se chama poesia ou (bela) literatura. O uso repetido
pressupõe a conservação do discurso na memória de, pelo menos, uma pessoa (geralmente de toda uma
escola de cantores ou também do conjunto da comunidade celebrante) ou através da escrita. Assim nasce a
tradição literária.
(…)
A filologia tem por objecto os ‘textos’ (‘obras’), ao passo que a lingüística propõe-se alcançar o
conhecimento do instrumento ‘língua’ também como da ‘capacidade’ de ‘actividade’ discursivas.

a) Filologia
2. A filologia tem como objecto de conhecimento as ‘obras’ ou ‘textos’, tanto os textos de uso único
pragmáticos como também os textos de uso repetido literários. A filologia que concentra a sua atenção nos
textos literários de uso repetido chama-se ‘ciência da literatura’.
A tarefa social dos filólogos refere-se, de facto, aos textos de uso repetido: os filólogos são
encarregados de vigiar a tradição litúrgica e também literária da comunidade. A tarefa de vigiar realiza-se
em três campos concêntricos:

1) A tarefa básica dos filólogos consiste em salvar textos da destruição material. Esta salvaguarda
pode-se exercer de várias maneiras.
(…)
2) A tarefa central dos filólogos consiste na conservação do sentido que se deve dar ao teor do
texto. Pressupõe-se o facto de que o sentido dos textos não se evidencia no mero teor do texto. (…)
3) As duas tarefas dos filólogos citadas não só se referem a um texto único mas sim a múltiplos
textos. Esta multiplicidade implica, como terceira tarefa do filólogo, a integração dos textos em conexões
mais amplas (…).

A filologia românica tem de cumprir, nas obras compostas em línguas românicas, a tarefa tripla de
crítica textual, interpretação de textos e a integração superior dos textos (na história da literatura e na
fenomenologia literária).
(…)

3
2. O LATIM LITERÁRIO (LL)

2.1 A PRONÚNCIA RECONSTITUÍDA DO LL

Documento 2: Varrão1 (L.L. 5, 97)


rure edus, qui in urbe ut in multis a addito (h)aedus

Documento 3: Varrão (L.L. 7, 96)


rustici pappum mesium non maesium (dicunt)

Documento 4: Públio Festo2 (202, 13)


Orata, genus piscis, appelatur a colore auri, quod rustici orum dicebant,
ut auriculas oriculas. Itaque Sergium quoque praedivitem, quod et duobus anulis aureis et
grandibus uteretur, Oratam dicunt esse appellatum.

Documento 5: Prisciano3 (Keil, 2, 5, 50)


Sunt igitur diphthongi, quibus nunc utimur, quattuor. Diphthongi autem
dicuntur, quod binos phtongos, hoc est, voces comprehendunt. Nam singulae vocales suas
voces habent…

Muitas informações sobre a Roma antiga chegou-nos por meio do latim literário,
i.e., do latim escrito. Sua pronúncia, conhecemos somente através prescrições de
escritores, gramáticos e intelectuais latinos da época, para uma prosódia latina “correta”.
Daí a pronúncia baseada em tais informações ser denominada de reconstituída.
Há no entanto certas críticas aos falares dos camponeses que nos deixam entrever a
diversidade lingüística no seio da Roma antiga, conforme notamos nos Documentos 2, 3 e
4. Na verdade, Festo e Varrão nos revelam variações diastráticas dos ditongos ae e au,
fazendo-nos cientes de que a monotongação já se dava na antigüidade.
A pronúncia reconstituída, por sua vez, oficializou-se no ensino internacional com
a VII Conferência Internacional de Instrução Pública (Genebra, 1938). Porém, tal
pronúncia, como os documentos nos mostram, não corresponde totalmente à realidade do
latim falado na antigüidade. Trata-se de um artifício para a leitura dos textos clássicos.

2.1.1 Vogais, ditongos e hiatos


As vogais latinas tinham quantidade, isto é, um tempo de duração da pronúncia. A
vogal que durava um tempo era classificada como vogal breve, e a vogal que durava dois
tempos, vogal longa.
Entre os romanos, não havia sinais gráficos de quantidade, senão em casos em que
a quantidade gerasse oposição de significado, usando-se, então, o ápex. No Renascimento,
foi criado um artifício tipográfico por Petrus Ramus: as vogais breves recebiam sobre elas
a bráquia (), e as longas, o mácron ().
A quantidade vocálica, na pronúncia reconstituída, determina a abertura ou
fechamento do timbre vocálico em duas das cinco vogais:
E - O Ĕ se pronuncia como o E de CELA, e o Ē como o E de MESA.
O- O Ŏ se pronuncia como o O de PÓ, e o Ō como o O de PÔR.

1
116-27 a.C.
2
Século II d.C..
3
Século VI d.C..

4
Os ditongos no LL são pronunciados com total clareza e distinção das vogais,
igualmente ao português formal. Ex. audire (pronunciam-se distintamente o a e depois o
u). Os hiatos também devem ser pronunciados respeitando a grafia. Ex. tuus (pronunciam-
se distintamente as duas vogais u).

2.1.2 As consoantes
Segue-se abaixo somente a pronúncia reconstituída das consoantes latinas que
apresentam alguma divergência com a pronúncia portuguesa.
C – Pronuncia-se uma oclusiva velar surda como em CASA, tanto antes de A, O e U, quanto de E e de I.
D – Corresponde ao nosso D. Entretanto, não sofre a variação carioca, quando antecede o I.
G – Pronuncia-se uma oclusiva velar sonora como em GATO. Assim, G não tem variação de pronúncia
antes de E e de I.
H – Letra considerada apenas como um sinal de leve aspiração, correspondendo ao espírito do grego.
Q – Corresponde ao nosso Q. Servia para representar a oclusiva velar surda que antecedia a vogal U
pronunciável, assim como em QUANDO ou QUARTO.
R – Representava uma vibrante múltipla como o R italiano. Por produzir uma vibração na ponta da língua,
lembrando um rosnado, os antigos a chamavam de canina littera.
S – Representava sempre uma sibilante surda, como em SALA.
T – Corresponde ao nosso T. Entretanto, não sofre a variação carioca, quando antecede o I.
X – Corresponde sempre ao X de TAXI.

As consoantes geminadas devem travar uma sílaba e iniciar a sílaba seguinte ao


travamento. Ex. flamma (o primeiro m trava a sílaba flam- e o segundo m inicia a sílaba
-ma)

2.2 – ASPECTOS DA MORFOLOGIA NOMINAL DO LL

Documento 6: Os remédios do amor, Ovídio4.


Dum licet et modici tangunt praecordia motus,
80 Si piget, in primo limine siste pedem;
Opprime, dum nova sunt, subiti mala semina morbi,
Et tuus incipiens ire resistat equus.
Nam mora dat vires; teneras mora percoquit uvas
Et validas segetes, quod fuit herba, facit.
85 Quae praebet latas arbor spatiantibus umbras,
Quo posita est primum tempore, virga fuit;
Tum poterat manibus summa tellure revelli;
Nunc stat in immensum viribus acta suis.
(…)
Vidi ego, quod fuerat primo sanabile, vulnus
Dilatum longae damna tulisse morae;
Sed quia delectat Veneris decerpere fructum,
Dicimus adsidue; cras quoque fiet idem.
105 Interea tacitae serpunt in viscera flammae
Et mala radices altius arbor agit.

Se você tentar procurar num dicionário de latim todas as palavras do Documento


6 com a forma exata em que se apresentam, muito provavelmente encontrará uma
quantidade muito ínfima. Isso se deve ao fato de a maioria delas estar flexionada.

4
43 a.C.-17 d.C.

5
Por exemplo, logo no primeiro verso transcrito, temos modici, que, na verdade, é
flexão de modicus. Em seguida, surge tangunt, flexão do verbo tango. No verso seguinte,
vemos primo, flexão de primus, e assim por diante.
Dessarte, é mister que tenhamos alguma noção da morfologia latina para
localizarmos as palavras num dicionário de latim. Vejamos algumas peculiaridades do LL
que serão depois confrontadas com o latim vulgar (LV).

2.2.1 – O terceiro gênero


Substantivos, adjetivos e pronomes apresentam em latim literário três gêneros:
masculino, feminino e neutro. Embora no substantivo às vezes não seja possível
detectarmos com precisão o gênero por meio da terminação, há terminações de adjetivos e
pronomes bem precisas: -us e -er (masculino); -a (feminino); e -ŭm (neutro).
Exemplos: bonus, bom; aeger, doente (masc.); meus, meu; noster, nosso; bona,
boa; mea, minha; bonŭm, bom (neutro); meŭm, meu (neutro).
O terceiro gênero do latim literário, que não passou ao português, servia apenas
para representar seres inanimados, como carmen (poesia), cor (coração) e tempus (tempo).

2.2.2 – A flexão de caso


No verso 83, encontramos a palavra vires (Nam mora dat vires), que, mais a frente,
no verso 88, se apresenta na forma viribus (Nunc stat in immensum viribus acta suis.).
Uma vez que entre as duas formas não existem divergências quanto ao gênero (feminino)
e número (plural), somos levados a concluir haver um terceiro tipo de flexão.
Esse terceiro tipo chama-se flexão de caso e serve para indicar morfologicamente a
função sintática da palavra através de determinadas terminações. O LL apresenta
paradigmas específicos de flexão casual (veja os modelos de flexão casual no apêndice I).
Cada caso recebe um nome e corresponde a uma função sintática:
a) nominativo = sujeito
b) acusativo = objeto direto
c) ablativo = adjunto adverbial
d) dativo = objeto indireto
e) genitivo = adjunto adnominal
f) vocativo = vocativo

Ex.:
Petrum Paulus videt. (Paulo vê Pedro)
Paulus (nominativo) = sujeito
Petrus Paulum videt. (Pedro vê Paulo)
Paulum (acusativo) = objeto direto
Paule, tu Petrum vides? (Paulo, tu vês Pedro?)
Paule (vocativo) = vocativo
Petrus cum Paulo manet. (Pedro permanece com Paulo)
Paulo (ablativo) = adjunto adverbial
Petrus ad domum Paulī ambulat. (Pedro caminha para a casa de Paulo)
Paulī (genitivo) = adjunto adnominal
Petrus Paulō veniam petit. (Pedro pede licença a Paulo)
Paulō (dativo) = objeto indireto

2.2.3 – Declinação e classe


Os paradigmas de flexão casual fazem com que os substantivos se organizem em
grupos de modelos semelhantes. Por exemplo, a palavra via faz parte do mesmo grupo que

6
nauta, por apresentar as mesmas terminações, quando flexionada em todos os casos
(via/nauta – viae/nautae – viam/nautam – vias/nautas – etc.).
No LL havia assim declinações, isto é, substantivos com comportamento
morfológico semelhante:
1a declinação: via, nauta, poeta, porta, etc.;
2a declinação: lupus, magister, vinŭm, etc.;
3a declinação: patĕr, carmen, orator, digressio, sol, aetăs, civis, mare, pax, etc.;
4a declinação: manŭs, sensŭs, gradŭs, etc.;
5a declinação: diēs, digeriēs, rēs, etc..
Bem como os substantivos, os adjetivos se organizavam em grupos, as chamadas
classes. Por conseguinte, o LL apresenta adjetivos de primeira classe, do tipo bonus, a, um
(triformes); e adjetivos de segunda classe, do tipo insignis, e ou felix (biformes ou
uniformes).
Os adjetivos de primeira classe seguem os modelos de primeira e segunda
declinações. Dessarte, para flexionarmos o adjetivo bonus, a, ŭm, utilizaríamos o modelo
de primeira declinação para a forma feminina (bona) e os modelos de segunda declinação
para as formas masculina e neutra (bonŭs e bonŭm).
Os adjetivos de segunda classe, por sua vez, seguem modelo de terceira
declinação. Por conseguinte, o adjetivo insignis, e segue o modelo de civis e mare, e o
adjetivo felix segue o modelo de pax, ambas as palavras pertencentes à terceira declinação.
Veja no apêndice I o modelo de flexão de adjetivos.

ATIVIDADES PRÁTICAS
1.0 – Proceder à análise morfológica das palavras grifadas abaixo (usar o apêndice I).
Dum licet et modici tangunt praecordia motus,
80 Si piget, in primo limine siste pedem;
Opprime, dum nova sunt, subitī mala semina morbī,
Et tuus incipiens ire resistat equus.
Nam mora dat vires; teneras mora percoquit uvas
Et validas segetes, quod fuit herba, facit.
85 Quae praebet latas arbor spatiantibus umbras,
Quo posita est primum tempore, virga fuit;
Tum poterat manibus summa tellure revelli;
Nunc stat in immensum viribus acta suis.

2.0 – Flexionar os vocábulos latinos abaixo em caso e número (usar o apêndice I).
a) modicŭm e) subitŭm e) equus i) arbor
b) primus f) semen f) mora j) manŭs
c) limen g) morbus g) validus
d) nova d) tua h) herba

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2.3 ASPECTOS DA MORFOLOGIA VERBAL DO LL

2.3.1 Tipos de radical verbal

Documento 7: Poema 58, Catulo

Caeli, Lesbia nostra, Lesbia illa,


illa Lesbia, quam Catullus unam
plus quam se atque suos amavit omnes,
nunc in quadruuiis et angiportis
glubit magnanimi Remi nepotes.

Em português, quase todos os verbos ficam com o mesmo radical, quando


flexionados. Por exemplo, o verbo amávamos tem por radical am-. A ele se juntam a vogal
temática -a- e as desinências modo-temporal -va- e número-pessoal -mos.
O verbo latino flexiona-se igualmente. Tem radical, vogal temática, desinência
modo-temporal e número-pessoal. Vejamos amabamus: radical am-; vogal temática -a;
desinência modo-temporal -ba-; desinência número-pessoal -mus. Há, porém, algumas
diferenças entre os verbos latinos e lusitanos.
Uma delas é a tipologia do radical. Em latim, temos três tipos de radical verbal. A
depender do tempo, teremos radicais diferentes. No terceiro verso do Documento 7, por
exemplo, o verbo amar apresenta radical amav- (plus quam se atque suos amavit omnes,).
Mas, às vezes, o mesmo verbo apresenta o radical am-, como em amabamus.
A explicação para tal fenômeno é que o latim assinala no radical do verbo o
aspecto, a natureza da ação, i.e., se ela é conclusa (acabada) ou inconclusa (inacabada).
Para tempos de ação inconclusa, o presente por exemplo, o latim emprega um
radical verbal denominado radical de infectŭm (ri). Para os tempos de ação conclusa, o
pretérito perfeito, já é necessário o radical de perfectŭm (rp).
Vejamos as informações dadas por um verbete de verbo num dicionário de latim:
amo, as, are, avi, atum, v. tr. 1. amar, ter afeição por alguém, ter amizade ou
amor a, (…). (DICIONÁRIO DE LATIM-PORTUGUÊS, 2001, p.57)
Diferentemente do dicionário lusitano, a entrada do verbo é na 1 a pessoa do
singular do presente do indicativo (amo). Depois temos a terminação de 2a pessoa do
singular do presente do indicativo (amas) Em seguida, a terminação de infinitivo (amare),
donde podemos concluir que o verbo é de 1a conjugação.
A terminação -avi serve para indicar a flexão verbal na 1a pessoa do sing. do
pretérito perfeito do indicativo (amavi). Por ser um tempo de ação conclusa, descobrimos
então o radical de perfectŭm (rp): amav-, pois o -i- é desinência especial de 1a pessoa do
sing. do préterito perf. do ind..
Em outras palavras, para termos o radical de perfectŭm (rp), retiramos o -i da
terminação de 1a pes. do sing. do pret. perf. do ind.. E para sabermos o radical de infectŭm
(ri)? Basta retirarmos a terminação -are, -ere, -ĕre ou -ire da forma infinitiva: amare 
am-.
A última terminação que aparece no verbete é relativa ao radical de supino (rs);
-atum. Por meio dele, podemos encontrar o radical do verbo para a formação do
particípio, bastando retirarmos o final -um: amatum  amat-. Para formarmos o particípio,
usamos as terminações de masculino, feminino e neutro: amatus, amata, amatŭm.

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2.3.2 As desinências número-pessoais passivas

Documento 8: Poema 43, Catulo.

Salve, nec minimo puella naso


nec bello pede nec nigris ocellis
nec longis digitis nec ore sicco
nec sane nimis elegante lingua,
05 decoctoris amica Formiani.
Ten provincia narrat esse bellam?
Tecum Lesbia nostra comparatur?
O saeclum insapiens et infacetum!

No sétimo verso do Documento 8, temos uma forma verbal que apresenta outra
grande peculiaridade da morfologia verbal latina: comparatur.
Comparatur é núcleo do predicado verbal de uma oração que se encontra na voz
passiva (Nossa Lésbia é comparada contigo?). E aqui temos mais um diferencial do
sistema verbal latino: o verbo, em latim, assinala em sua desinência número-pessoal a voz
verbal.
Assim, ao participar de uma oração na voz passiva, o verbo, em determinados
tempos, passa a apresentar dnp’s de voz passiva. Então, no caso de comparatur, o número
é singular, a pessoa é a terceira do discurso, e a voz é passiva.
Vejamos as dnp’s de voz passiva:
número pessoa voz ativa voz passiva
primeira -o ou -m -or
singular segunda -s -ris
terceira -t -tur
primeira -mus -mur
plural segunda -tis -mini
terceira -nt -ntur

No entanto, tais desinências só podem ser usadas com tempos de ação inconclusa
(presente, futuro, pretérito imperfeito). Para formarmos a voz passiva dos tempos
de ação conclusa, fazemos uma construção muito parecida com a voz passiva da
língua portuguesa: particípio passado + verbo auxiliar.
A depender do tempo, um verbo auxiliar expecífico será empregado. No caso do
pret. perf. do ind., é o verbo esse no pres. do ind. (sum, es, est, sumus, estis, sunt). Assim,
a voz passiva do perfeito fica:
amatus, a, ŭm sum amati, ae, ă sumus
amatus, a, ŭm es amati, ae, ă estis
amatus, a, ŭm est amati, ae, ă sunt

Já o pret. mais-que-perf. do ind., em que se emprega o verbo esse no pret. imp. do


ind. (eram, eras, erat, eramus, eratis, erant), fica amatus,
: a, ŭm eram amati, ae, ă eramus
amatus, a, ŭm eras amati, ae, ă eratis
amatus, a, ŭm erat amati, ae, ă erant

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2.3.3 Tempos e modos

2.3.3.1 A formação dos tempos de indicativo

2.3.3.1.1 Tempos de ação inconclusa: presente, futuro imperfeito, pretérito imperfeito.


a) presente: ri + vt + dmt Ø + dnp’s ativas e passivas.
RI VT DMT DNP
infest- -a- Ø -o / -or infesto / infestor
infest- -a- Ø -s / -ris infestas / infestaris
infest- -a- Ø -t / -tur infestat / infestatur
infest- -a- Ø -mus / -mur infestamus / infestamur
infest- -a- Ø -tis / -mini infestatis / infestamini
infest- -a- Ø -nt / -ntur infestant / infestantur

b) futuro imperfeito: para as 1a e 2a conjugações, ri + vt + dmt -b- + dnp’s


passivas e ativas.
RI VT DMT DNP
infest- -a- -b- -o / -or infestabo / infestabor
infest- -a- -b- -s / -ris infestabis / infestaberis
infest- -a- -b- -t / -tur infestabit / infestabitur
infest- -a- -b- -mus / -mur infestabimus / infestabimur
infest- -a- -b- -tis / -mini infestabitis / infestabimini
infest- -a- -b- -nt / -ntur infestabunt / infestabuntur

Para a 3a conjugação, ri + dmt -e/a- + dnp’s ativas e passivas.


RI DMT DNP
leg- -a- -m / -r legam / legar
leg- -e- -s / -ris leges / legeris
leg- -e- -t / -tur leget / legetur
leg- -e- -mus / -mur legemus / legemur
leg- -e- -tis / -mini legetis / legemini
leg- -e- -nt / -ntur legent / legentur
Para 4a conjugação, ri + vt + dmt -e/a- + dnp’s ativas e passivas.
RI VT DMT DNP
aud- -i- -a- -m / -r audiam / audiar
aud- -i- -e- -s / -ris audies / audieris
aud- -i- -e- -t / -tur audiet / audietur
aud- -i- -e- -mus / -mur audiemus / audiemur
aud- -i- -e- -tis / -mini audietis / audiemini
aud- -i- -e- -nt / -ntur audient / audientur

c) pretérito imperfeito: ri + vt + dmt -ba- + dnp’s ativas e passivas.


RI VT DMT DNP
infest- -a- -ba- -m / -r infestabam / infestabar
infest- -a- -ba- -s / -ris infestabas / infestabaris
infest- -a- -ba- -t / -tur infestabat / infestabatur
infest- -a- -ba- -mus / -mur infestabamus / infestabamur
infest- -a- -ba- -tis / -mini infestabatis / infestabamini
infest- -a- -ba- -nt / -ntur infestabant / infestabantur

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2.3.3.1.2 tempos de ação conclusa: pretérito perfeito, pretérito mais-que-perfeito, futuro
perfeito. É válido lembrar que em tempos de ação conclusa não se empregam as dnp’s
passivas. Para a formação da voz passiva, utilizam-se formas perifrásticas ou analíticas.
a) pretérito perfeito: rp + dnp’s especiais de pretérito perfeito do indicativo:
RP DNP’S ESPECIAIS
infestav- -i infestavi
infestav- -isti infestavisti
infestav- -it infestavit
infestav- -imus infestavimus
infestav- -istis infestavistis
infestav- -erunt infestaverunt

Voz passiva:
PARTICÍPIO VERBO AUXILIAR
infestatus, a, ŭm sum
infestatus, a, ŭm es
infestatus, a, ŭm est
infestati, ae, ă sumus
infestati, ae, ă estis
infestati, ae, ă sunt

b) pretérito mais que perfeito: rp + dmt -era- + dnp’s ativas.


RP DMT DNP
infestav- -era- -m infestaveram
infestav- -era- -s infestaveras
infestav- -era- -t infestaverat
infestav- -era- -mus infestaveramus
infestav- -era- -tis infestaveratis
infestav- -era- -nt infestaverant

Voz passiva:
PARTICÍPIO VERBO AUXILIAR
infestatus, a, ŭm eram
infestatus, a, ŭm eras
infestatus, a, ŭm erat
infestati, ae, ă eramus
infestati, ae, ă eratis
infestati, ae, ă erant

c) futuro perfeito: rp + dmt -er- + dnp’s ativas.


RP DMT DNP
infestav- -er- -o infestavero
infestav- -er- -s infestaveris
infestav- -er- -t infestaverit
infestav- -er- -mus infestaverimus
infestav- -er- -tis infestaveritis
infestav- -er- -nt infestaverunt

Voz passiva:

11
PARTICÍPIO VERBO AUXILIAR
infestatus, a, ŭm ero
infestatus, a, ŭm eris
infestatus, a, ŭm erit
infestati, ae, ă erimus
infestati, ae, ă eritis
infestati, ae, ă erunt

2.3.3.2 A formação dos tempos de subjuntivo

2.3.3.2.1 Tempos de ação inconclusa: presente e pretérito imperfeito.


a) presente: para 1a conj., ri + dmt -e- + dnp’s ativas e passivas.
RI DMT DNP
infest- -e- -m / -r infestem / infester
infest- -e- -s / -ris infestes / infesteris
infest- -e- -t / -tur infestet / infestetur
infest- -e- -mus / -mur infestemus / infestemur
infest- -e- -tis / -mini infestetis / infestemini
infest- -e- -nt / -ntur infestent / infestentur

Para a 2a e 4a, ri + vt + dmt -a- + dnp’s ativas e passivas.


RI VT DMT DNP
vid- -e- -a- -m / -r videam / videar
vid- -e- -a- -s / -ris videas / videaris
vid- -e- -a- -t / -tur videat / videatur
vid- -e- -a- -mus / -mur videamus / videamur
vid- -e- -a- -tis / -mini videatis / videamini
vid- -e- -a- -nt / -ntur videant / videantur

RI VT DMT DNP
aud- -i- -a- -m / -r audiam / audiar
aud- -i- -a- -s / -ris audias / audiaris
aud- -i- -a- -t / -tur audiat / audiatur
aud- -i- -a- -mus / -mur audiamus / audiamur
aud- -i- -a- -tis / -mini audiatis / audiamini
aud- -i- -a- -nt / -ntur audiant / audiantur

Para a 3a conjugação, ri + dmt -a- + dnp’s ativas e passivas.


RI DMT DNP
leg- -a- -m / -r legam / legar
leg- -a- -s / -ris legas / legaris
leg- -a- -t / -tur legat / legatur
leg- -a- -mus / -mur legamus / legamur
leg- -a- -tis / -mini legatis / legamini
leg- -a- -nt / -ntur legant / legantur

12
b) pretérito imperfeito: para 1a, 2a e 4a conjugações, ri + vt + dmt -re- + dnp’s
ativas e passivas.
RI VT DMT DNP
infest- -a- -re- -m / -r infestarem / infestarer
infest- -a- -re- -s / -ris infestares / infestareris
infest- -a- -re- -t / -tur infestaret / infestaretur
infest- -a- -re- -mus / -mur infestaremus / infestaremur
infest- -a- -re- -tis / -mini infestaretis / infestaremini
infest- -a- -re- -nt / -ntur infestarent / infestarentur

Para a 3a conjugação, ri + vogal de ligação -e- + dmt -re- + dnp’s ativas e passivas.
RI VL DMT DNP
leg- -e- -re- -m / -r legerem / legerer
leg- -e- -re- -s / -ris legeres / legereris
leg- -e- -re- -t / -tur legeret / legeretur
leg- -e- -re- -mus / -mur legeremus / legeremur
leg- -e- -re- -tis / -mini legeretis / legeremini
leg- -e- -re- -nt / -ntur legerent / legerentur

2.3.3.2.2 Tempos de ação conclusa: pretérito perfeito e pretérito mais-que-perfeito.


Lembremos que em tempos de ação conclusa não se empregam as dnp’s passivas. Para a
formação da voz passiva, utilizam-se formas perifrásticas ou analíticas.
a) pretérito perfeito: rp + dmt -er- + dnp’s ativas.
RP DMT DNP
infestav- -er- -m infestaverim
infestav- -er- -s infestaveris
infestav- -er- -t infestaverit
infestav- -er- -mus infestaverimus
infestav- -er- -tis infestaveritis
infestav- -er- -nt infestaverint

Voz passiva:
PARTICÍPIO VERBO AUXILIAR
infestatus, a, ŭm sim
infestatus, a, ŭm sis
infestatus, a, ŭm sit
infestati, ae, ă simus
infestati, ae, ă sitis
infestati, ae, ă sint

b) pretérito mais-que-perfeito: rp + dmt -isse- + dnp’s ativas.


RP DMT DNP
infestav- -isse- -m infestavissem
infestav- -isse- -s infestavisses
infestav- -isse- -t infestavisset
infestav- -isse- -mus infestavissemus
infestav- -isse- -tis infestavissetis
infestav- -isse- -nt infestavissent

13
Voz passiva:
PARTICÍPIO VERBO AUXILIAR
infestatus, a, ŭm essem
infestatus, a, ŭm esses
infestatus, a, ŭm esset
infestati, ae, ă essemus
infestati, ae, ă essetis
infestati, ae, ă essent

ATIVIDADES PRÁTICAS

1.0 – Com relação os verbos:


enuntio, as, are, avi, atum, v.tr. enunciar.
surgo, is, ĕre, surrexi, surrectum, v.intr. surgir.
capio, is, ĕre, cepi, ceptum, v.tr. capturar.
pergo, is, ĕre, perrexi, perrectum, v.tr. prosseguir.
duco, is, ĕre, duxi, ductum, v.tr. conduzir.

1 – Apontar os radicais de infectŭm e perfectŭm:


a) enuntio: ri = _________________ rp = __________________
b) surgo: ri = _________________ rp = __________________
c) capio: ri = _________________ rp = __________________
d) pergo: ri = _________________ rp = __________________
e) duco: ri = _________________ rp = __________________

2 – Classificar as formas verbais abaixo quanto ao aspecto verbal:


a) enuntiarentur d) pergebamini g) surgeremus j) duces
b) surrexeram e) duxisses h) capias
c) ceperitis f) enuntiatur i) perrexistis

3 – Segmentar e analisar os componentes morfológicos das formas verbais abaixo,


classificando-as quanto à voz verbal:
a) enuntiarentur d) pergebamini g) surgeremus j) duces
b) surrexeram e) duxisses h) capiaris
c) ceperitis f) enuntiatur i) perrexistis

14
3. O LATIM VULGAR (LV)

3.1 ASPECTOS FONOLÓGICOS DO LV

Documento 9: “A origem das línguas românicas”, Benedek Elemér Vidos.


A modalidade do latim que foi levado de Roma e da Itália a todo o Império é um dos fatores mais
notáveis para o origem das línguas românicas. Do estudo destas línguas e da mesma romanização aparece
claramente que tais línguas não são a continuação do latim clássico, do latim da cultura, mas pelo
contrário, do latim falado, do latim popular. Deste modo, como se pode explicar que, ainda que se saiba
que as línguas românicas provêm do latim falado, até hoje, no que se refere à terminologia, não se designa
este latim pelo seu verdadeiro nome? Na maioria dos casos se fala de latim vulgar ou do chamado latim
vulgar, uma denominação que ao mesmo tempo se identifica com roman initial, roman commun, ou com
Urromanisch, Vorromanisch, Gemeinromanisch, ou com latino preromanzo. Às vezes, se fala de “latim
tardio” ou de “pré-românico”, querendo indicar o latim falado nos últimos séculos do Império.
A denominação de “latim falado” costuma ser evitada porque não se possui nenhum documento
que reflita com todas as características este latim popular. Com efeito, mal um romano se dispunha a
escrever, ainda que fosse pouco culto, procurava adaptar-se, talvez inconscientemente, às normas dos
gramáticos e dos intelectuais romanos. As inscrições murais de Pompéia, os grafites, que reproduzem de
maneira totalmente espontânea os sentimentos humanos da gente de baixa condição, sem que o que
escrevia tivesse pensado sequer um instante que sua língua simples e amiúde trivial passaria à posteridade,
formam talvez uma exceção.
Deste modo, o latim falado se tornou como um rio subterrâneo, sepultado pelo latim da cultura,
porque este último, como se disse acertadamente, ocultou o curso natural da língua como uma camada de
gelo. Graças a alguns romanos menos instruídos, como por exemplo os autores das defixionum tabellae, de
obras de caráter técnico (por exemplo tratados de veterinária como a Mulomedicina Chironis), nos quais
era importante o que se dizia e não a maneira de dizê-lo, dos epitáfios, etc., esta língua se apresenta de
uma maneira inesperada. Aparecem também nos escritos em que falam pessoas comuns da sociedade
romana, por exemplo os novos-ricos, como Trimalcão e seus companheiros libertos, exatamente nos casos
em que os escritores clássicos em certas obras fazem alguma concessão ao latim falado, e finalmente
naqueles casos em que alguns falantes de elevada condição, como os pregadores do Cristianismo,
dirigindo-se ao povo, preferem a língua deste para serem entendidos (melius est reprehendant nos
grammatici quam non intelligant populi, disse Santo Agostinho); numa palavra, sempre que mais ou menos
se atropela o latim clássico.
Em tais casos, costuma-se falar de latim vulgar. Mas o latim vulgar não existe como língua;
existem somente textos latinos nos quais aparecem vulgarismos, ou seja, em que aparece o latim falado.
Não existe um só texto que nos represente o autêntico latim vulgar; inclusive os testemunhos dos
gramáticos latinos, como por exemplo o famoso Appendix Probi, que remontaria ao século III de nossa era
e no qual se apresentam 227 expressões condenadas pelo uso latino correto, não são propriamente textos,
mas apenas registram formas vulgares desaprovadas (por exemplo o número 5, vetulus non veclus).
Considerando-se que o latim falado se manifesta somente no chamado latim vulgar, no quadro do
latim, este é o único conceito com que se pode operar em Lingüística Românica. O fato de chamarem os
latinistas ao latim vulgar roman initial, roman commun, ou com Urromanisch, Vorromanisch,
Gemeinromanisch, ou com latino preromanzo, é de grande importância, já que prova, por uma parte, que o
românico é o latim falado, latim vulgar, e por outra, que deve estar presente a partir do tempo em que se
falava latim.

Conforme Vidos nos esclarece, não há documentação suficiente para


estabelecermos completamente a gramática do LV de uma determinada época e lugar. O
que temos são documentos de épocas e lugares diferentes, como os grafites de Pompéia
(c. I a.C./I d.C.); o Appendix Probi (c. III século d.C.); tornando nossa visão fragmentada.
No entanto, algumas considerações fonológicas podem ser feitas a partir da
documentação escrita de subversões do LL, permitindo-nos uma noção, ainda que
imprecisa, da pronúncia do LV. A seguir, propomos uma atividade com o Documento 10,
para chegarmos, através da prática investigativa, a alguns dos traços fonológicos do LV.

15
ATIVIDADE PRÁTICA

1.0 – Com relação ao Documento 10, proceder às solicitações abaixo:


a) Cada glosa se apresenta em duas partes. A primeira, que termina antes de non,
corresponde a uma palavra ou expressão no LL. A segunda, que começa com non,
corresponde à mesma palavra ou expressão em LV. Formar dois grupos de glosas com as
seguintes configurações: 1) glosas que apresentem transformações em vogais ou ditongos;
2) glosas que apresentem transformações em consoantes ou encontros consonantais.

b) Em cada grupo formado, formar subgrupos de glosas com transformações semelhantes


entre si.

c) Localizar os subgrupos mais numerosos percentualmente e, por meio de um breve


texto, descrevê-los, discriminando a que grupo pertencem, grupo 1 (vogais/ditongos) ou
grupo 2 (consoantes/encontros consonantais).

Documento 10: Appendix Probi

porphireticum marmor lanius non laneo palearium non paliarium


non purpureticum marmur 35 iuvencus non iuvenclus primipilaris non
tolonium non toloneum barbarus non barbar primipilarius
speculum non speclum equs non ecus 70 alveus non albeus
masculus non masclus coqus non cocus glomus non glovus
05 vetulus non veclus coquens non cocens lancea non lancia
vitulus non viclus 40 coqui non coci favilla non failla
vernaculus non vernaclus acre non acrum orbis non orbs
articulus non articlus pauper mulier non 75 formosus non formunsus
baculus non vaclus paupera muli{er} ansa non asa
10 angulus non anglus carcer non car{car} flagellum non fragellum
iugulus non iuglus bravium non brabium calatus non galatus
calcostegis non calcosteis 45 pancarpus non parcarpus digitus non dicitus
Theophilus non Izophilus 80 solea non solia
septizonium non monofagia non calceus non calcius
septidonium monofagium iecur non iocur
vacua non vaqua Byzacenus non Bizacinus auris non oricla
15 vacui non vaqui Capse[n]sis non Capressis camera non cammara
cultellum non cuntellum 50 catulus non catellus 85 pegma non peuma
Marsias non Marsuas [catulus non ca{te}llus] cloaca non cluaca
cannelam nun canianus doleus non dolium festuca non fis{tuca}
Hercules non Herculens calida non calda ales non {alis}
20 columna non colomna frigida non fricda facies non fa{ces}
pecten non pectinis 55 vinea non vinia 90 cautes non c{autis}
aquaeductus non tristis non tristus plebes non plevis
aquiductus tersus non tertus vates non vatis
cithara non citera umbilicus non imbilicus tabes non tavis
crista non crysta turma non torma suppellex non superlex
25 formica non furmica 60 c+a+elebs non celeps 95 apes non apis
musivum non mus{e}um ostium non osteum nubes non nubs
exequ+i+ae non execiae Flavus non Flaus suboles non subolis
gyrus non girus cavea non cavia vulpes non vulpis
avus non aus senatus non sinatus palumbes non palumbus
30 miles non milex 65 brattea non brattia 100 lues non luis
sobrius non suber cochlea non coclia deses non desis
figulus non figel coc+h+leare non reses non resis
masculus non mascel cocliarium vepres non vepris

16
fames non famis 145 turma non torma plasta non blasta
105 clades non cladis pusillus non pisinnus bipennis non bipinnis
Syrtes non Syrtis meretrix non menetris 190 +h+ermeneumata non
aedes non aedis aries non ariex erminomata
sedes non sedis pe{rsica} non pessica tymum non tumum
proles non prolis 150 dys{entericus non strofa non stropa
110 draco non dracco disinte}ricus bitumen non butumen
oculus non oclus opobalsamum non mergus non mergulus
aqua non acqua ababalsamum 195 myrta non murta
alium non aleum mensa non mesa zizipu{s} non zizup{u}s
lilium non lileum raucus non ra[u]cus iunipirus non {iu}niperus
115 glis non {gl}iris auctor nun autor tolerabilis non toleravilis
delirus non delerus 155 auctoritas non autoritas basilica non bassilica
tinea non ti{nia} ip{se} non ip{sus} 200 tribula non tribla
exter non extraneus linteum non lintium viridis non virdis
clamis non clamus a{ } non { }a constabilitus non
120 vir non vyr terraemotus non constab[i]litus
virgo non vyrgo terrimotium Sirena non Serena
virga non vyrga 160 noxius non noxeus musium vel musivum non
occasio non occansio coruscus non scoriscus museum
caligo non calligo tonitru non tonotru 205 labsus non lapsus
125 terebra non telebra passer non passar orilegium non orolegium
effeminatus non anser non ansar hostiae non ostiae
imfimenatus 165 hirundo non herundo Februarius non Febrarius
botruus non butro obstetrix non ops{etris} clatri non cracli
grus non gruis capitulum non capiclum 210 allec non allex
anser non ansar noverca non novarca rabidus non rabiosus
130 tabula non tabla nurus non nura tintinaculum non
puella non poella 170 socrus non socra tintinabulum
balteus non baltius neptis non nepticla Adon non Adonius
fax non facla anus non anucla grundio non grunnio
vico capitis Africae non tondeo non detundo 215 vapulo non baplo
vico caput Africae rivus non rius necne non necnec
135 vico tabuli proconsolis 175 imago non { } passim non passi
non vico tabulu proconsulis pavor non paor numquit non nimquit
vico castrorum non vico coluber non colober numquam non numqua
castrae adipes non alipes 220 nobiscum non noscum
vico strobili non vico sibilus non sifilus vobiscum non voscum
trobili 180 frustum non frustrum nescioubi non
teter non tetrus plebs non pleps nesciocobe
aper non aprus garrulus non garulus pridem non pride
140 amycdala non amiddula parentalia non parantalia olim non oli
faseolus non fassiolus c+a+elebs non celeps 225 adhuc non aduc
stabulum non stablum 185 poples non poplex idem non ide
triclinium non triclinu locuples non locuplex amfora non ampora
dimidius non demidius robigo non rubigo

17
3.1.1 Vocalismo e ditongos no LV
Destacamos a seguir algumas dentre várias transformações vocálicas do LV.
a) a perda da quantidade vocálica: o único vestígio da quantidade vocálica que
sobreviveu no LV foi sua conseqüência no timbre da vogal. As vogais médias “e” e “o”
mantiveram seus timbres originários, isto é, fechadas, se provenientes de vogais longas, e
abertas, se oriundas de vogais abertas.
Ex.: pŏpulum (povo) X pōpulum (choupo); ŏs (osso) X ōs (boca).
b) modificação do quadro vocálico: a perda da quantidade vocálica fez com que
um novo quadro de vogais se desenhasse na região que compreendia o antigo Império
romano. Na Ibéria, Gália, Récia e Dalmácia, temos as seguintes alterações mais
importantes:
ĭ = ē: 48. Byzacenus non Bizacinus;
ŭ = ō: 20. columna non colomna; 59. turma non torma.
c) mudança na natureza do acento: outra conseqüência da perda da quantidade
vocálica. No LL, o acento era tonal, tornando-se a tônico no LV.
Em LV não há oxítonos. As palavras se dividem em paroxítonas e proparoxítonas.
Para uma palavra ser em LV proparoxítona ou paroxítona, depende da quantidade da
penúltima sílaba da palavra na forma proveniente do LL. Sendo longa, a palavra fica
paroxítona. Sendo breve, a palavra torna-se proparoxítona:
audīre – paroxítona, pois a penúltima vogal (ī) é longa.
capĕre – proparoxítona, pois a penúltima vogal (Ĕ) é breve.
Com isso, passa a haver posições átonas e tônicas nas palavras, e uma grande
tendência do LV, registrada pelo Appendix Probi, é a queda de vogal átona (apócope),
proveniente de vogal breve.
Ex.: 3. specŭlum non speclum; 4. mascŭlus non masclus; 7. vernacŭlus non vernaclus.
d) redução de ditongo: os três ditongos mais comuns do LL (ae, au e oe)
costumavam ser monotongados no LV: 60 c+a+elebs non celeps; caelu > celu; quaerit >
querit; poena > pena; auricula > oricla.
e) modificação dos hiatos: alguns hiatos do LL reduziram-se a uma única vogal
no LV: coorte > corte; mihi > mi; mortuus > mortus. Os hiatos formados por e, i + vogal
ou o, u + vogal ficaram no LV com a estrutura de semivogal i ou u + vogal: 55. vinea non
vinia; coagulare > kwagulare.

3.1.2 O consonantismo do LV
Destacamos a seguir algumas dentre várias transformações consonantais do LV.
a) a africação da labial sonora b: b passa a v em posição intervocálica, ao passo
que se mantém em posição inicial – 44. bravium non brabium; 70. alveus non albeus; 91.
plebes non pelvis; 93. tabes non tavis; 198. tolerabilis non toleravilis; mas 127. botruus
non butro.
b) desaparecimento da aspirada h: a manutenção do h na escrita das línguas
neo-latinas tem caráter diacrítico ou, às vezes, erudito, nada tendo em comum com o
antigo h aspirado do LL – 207. hostiae non ostiae; 225. adhuc non aduc.
c) sonorização de oclusivas surdas: 78. calatus non galatus; 151. opobalsamum
non ababalsamum; 188. plasta non blasta.
d) queda de consoantes finais (apócope): 34. lanius non laneo; 127. botruus non
butro; 143. triclinium non triclinu; 217. passim non passi; 219. numquam non numqua;
223. pridem non pride; 224. olim non oli; 226. idem non ide
e) redução das geminadas: 126. effeminatus non imfimenatus; 182. garrulus non
garulus; 199. bassilica non basilica.

18
3.2 ASPECTOS DA MORFOLOGIA NOMINAL DO LV

Documento 11: Peregrinatio Aetheriae, 19.11.

Postmodum autem, cum viderent se nullo modo posse ingredi in civitatem, voluerunt siti
eos occidere qui in civitate erant. Nam monticulum istum quem vides, filia, super civitate
hac, in illo tempore ipse huic civitati aquam ministrabat. Tunc, videntes hoc, Persae
averterunt ipsam aquam a civitate et fecerunt ei decursum contra ipso loco 5 ubi ipsi
castra posita habebant.

Documento 12: Grafite em Pompéia (8364, Reg 1 ins 10 n 07)

Secundus
Prime suae ubi
que isse salute
rogo domina
ut me ames 6

3.2.1 Redução dos casos


Nos dois documentos acima, podemos observar um fato aparentemente simples
mas que causou verdadeira revolução no sistema nominal do latim.
Vimos no segmento anterior que uma das tendências do consonantismo do LV foi a
queda de consoante final (apócope). E, uma vez que a terminação da palavra tem
importância capital na sua flexão, notamos já que tal processo fonológico trará
conseqüências na morfologia latina.
No Documento 11, temos a construção contra ipso loco, em que, apesar das
aparências, as formas ipso loco correspondem a dois acusativos e não ablativos, pois
5
Formas equivalentes a ipsum locum, que refletem a supressão da terminação -m, causando a convergência
entre u breve e o longo. Cf. per giro em 19.10.
6
O grafite, convertido para LL, fica: Secundus Primae suae ubique isset salutem. Rogo, domina, ut me
ames.

19
preposição contra exige acusativo. O fenômeno se explica pela queda do -m final de acus.
sing. (ipsum locum), abrindo a sílaba final e, por conseguinte, alterando a vogal (u > o).
No Documento 12, observamos o mesmo fenômeno. Ao invés da forma salutem,
complemento do verbo isse(t), encontramos salute, o que causa a impressão de ser
ablativo. Novamente temos um acusativo com forma de abaltivo. Notar que os
documentos são de épocas distintas, embora apresentem um traço em comum.
Dessarte a apócope da desinência de acusativo singular promove uma
simplificação no sistema morfológico. Os casos acusativo e ablativo começam a ser
mesclados num só, já que o acusativo, tanto quanto o ablativo, no próprio LL também
apresenta emprego adverbial como em: posse ingredi in civitatem (adj.adv. de lugar).
A confusão entre nominativo e vocativo, por sua vez, é oriunda do próprio LL. Nas
cinco declinações, temos apenas um momento em que o vocativo se diferencia do
nominativo: lupus (nom.sing.) X lupe (voc.sing.). Feita a ressalva, só restam
neutralizações: vita (nom.sing)/vita (voc.sing); puer (nom.sing.)/puer (voc.sing), etc..
Outra fusão de casos ainda ocorre no LV: dativo e genitivo. O dativo de posse
(discipulīs est schola = a escola é dos alunos) é confundido com o genitivo (schola est
discipulorum = a escola é dos alunos), e o dativo de objeto indireto é substituído por ad +
acusativo (scribĕre epistulas ad aliquo em lugar de scribĕre epistulas alicui).
Por meio dessas transformações, o antigo sistema nominal do LL, que
compreendia seis casos (nominativo, acusativo, ablativo, dativo, genitivo e vocativo), é
reformulado no LV, passando a três casos (nominativo/vocativo, acusativo/ablativo e
dativo/genitivo).

3.2.2 Reinterpretação das declinações


Tornando ao Documento 10 (Appendix Probi), vemos outra grande modificação
no sistema nominal latino. A glosa 139. aper non aprus aponta para a reinterpretação das
declinações. Sendo aper substantivo de terceira declinação, sua forma de LV (aprus),
corresponde à segunda declinação, por pertencer ao gênero masculino.
No LL as declinações correspondem a modelos de flexão casual. Como no LV há a
simplificação dos casos, o que promove a manutenção da existência de grupos de
substantivos é o gênero. Reduzidas a três, as declinações passam a ser interpretadas pelo
viés do gênero:
1a declin.: palavras femininas;
2a declin. (+ palavras da 4a declin. do LL): palavras masculinas; substantivos
como senatus, exercitus e manus passam a ser flexionados como lupus;
3a declin. (+ palavras da 5a declin. do LL): palavras masculinas e femininas;
substantivos como plebes passam a ser flexionados como trabs;

3.2.3 Migração de adjetivos


Ainda com relação ao Appendix Probi, temos as glosas 41. acre non acrum; 42.
pauper mulier non paupera muli{er}; 56. tristis non tristus; que assinalam a migração de
adjetivos.
Os adjetivos acer, e; pauper, eris; e tristis, e seguem modelo de terceira
declinação. Suas formas de LV, respectivamente acrum, paupera e tristus, no entanto,
correspondem às primeira e segunda declinações, isto é, uma transposição de adjetivos de
segunda classe para a primeira e conseqüente generalização.

20
3.3 ASPECTOS DA MORFOLOGIA VERBAL DO LV

Documento 13: Grafite em Pompéia

quisquis ama valia, peria qui nosci amare,


bis tanti peria, quisquis amare veta.
felices adias, maneas o Martia, si te
vidi, du nobis, maxima cura, place.7

Os processos fonológicos também geram conseqüências na morfologia verbal.


Como podemos notar pelas formas valia, peria, nosci, veta e place do Documento 13, a
apócope da consoante final, a desinência de terceira pessoa do singular (valiat, periat,
noscit, vetat e placet), reformula o sistema flexional do verbo latino.
Vejamos outras transformações.

3.3.1 Perdas e inovações na voz verbal


No LL havia, em tempos de ação inconclusa, uma oposição entre dnp’s ativas e
dnp’s passivas, para assinalar a voz verbal (amo X amor, amas X amaris, amat X amatur,
etc.). Em tempos de ação conclusa, havia o emprego de perífrases para a voz passiva
(amavi X amatus sum, etc.).
No LV o emprego de perífrases se estende aos tempos de ação inconclusa, caindo
em desuso as desinências número-pessoais passivas. Segundo Theodoro Henrique Maurer
Junior, a supressão das dnp’s passivas no LV data de aproximadamente o fim da República
ou início do Império:
O fato de ser a passiva latina umas das formas mais radicalmente eliminadas da
conjugação românica, sem deixar qualquer traço de sua existência antiga, é
suficiente, cremos, para se concluir que, pelo menos desde o fim da República
ou desde o começo do período imperial, a passiva sintética estava marcada de
morte no uso popular, conquanto na classe média e na linguagem falada das
pessoas cultas ela continuasse ainda a empregar-se. (MAURER JUNIOR: 1959,
122)

3.3.2 Reinterpretação dos tipos de radical


O sistema morfologico do verbo latino no LL conta com uma tipologia de radical,
isto é, a depender do aspecto, da natureza verbal (conclusa X inconclusa), um tipo de
radical é usado. Para os tempos de ação conclusa, emprega-se o radical de perfectum. Para
os tempos de ação inconclusa, o radical de infectum.
No LV o radical de perfectum é utilizado apenas com valor de pretérito, não
havendo, por conseguinte, futuro perfeito do indicativo. Para se assinalar o aspecto
concluso, o LV passa a adotar uma forma perifrástica com habeo (ter) + o particípio
passado do verbo (litteras scriptas habeo):
A perífrase é panromânica (e.g., rum. am scris, como port. hei (hoje tenho)
escrito, esp. he escrito, fr. j’ai écrit, it. ho scritto, etc.), embora aí, quase sempre,
mormente em tempos modernos, a nova perífrase acabe também por tomar o
sentido de pretérito. (Idem, 124)

3.3.3 Tempos e modos


7
Convertido para o LL, o grafite fica: Quisquis amat valeat, pereat qui nescit amare,/ bis tanti pereat,
quisquis amare vetat./ Felices adeas, maneas o Martia, si te/ vidi, dum nobis, maxima cura placet.

21
O LV suprimiu ou transformou alguns tempos do sistema verbal do LL. Vejamos
as alterações.

3.3.3.1 Tempos de indicativo


a) futuro: o futuro de verbos de terceira conjugação tipo lego freqüentemente era
confundido com o presente de verbos de segunda conjugação (vides (pres.) X leges (fut.);
videt (pres.) X leget (fut.)); uma outra analogia era feita entre o futuro e o presente do
subjuntivo (audiam (fut.) X audiam (pres.subj.)).
Dessarte, a forma sintética do futuro do LL foi substituída por formas perifrásticas.
Na maior parte do ocidente, o falar cotidiano optou pela combinação do verbo habeo +
infinitivo. Em Santo Agostinho, temos: tempestas illa tollere habet totam paleam de area.
b) mais-que-perfeito: o sentido do mais-que-perfeito desfruta no LV de extensão
maior e entra em choque com outras formas, por exemplo laudatum habebam, sendo
suprimido no uso comum. Dentre as línguas da românia, manteve-se somente no
português com o mesmo sentido do LL.
c) futuro perfeito: inicialmente empregado no LV, cai depois em desuso no falar
comum.

Os demais tempos de indicativo do LL (presente, imperfeito e perfeito) se


mantiveram no LV com o mesmo sentido.

3.3.3.2 Tempos de subjuntivo


a) pretérito perfeito: cai em desuso no LV. Theodoro Henrique Maurer Junior nos
informa que:
O desaparecimento dêste tempo se explica pela falta de função especial na
língua vulgar. Já no latim literário o seu emprêgo é reduzido: ocorre sobretudo na
proibição (ne dixeris), na interrogação indireta e, em geral, no discurso indireto, quando
depende de um infinito ou de um subjuntivo, e, por fim, no período hipotético potencial.
(Ibidem, 127)

b) imperfeito e mais-que-perfeito: uma vez esquecida no uso comum do latim a


antiga oposição aspectual (perfectum X infectum), confundiram-se o imperfeito e o mais-
que-perfeito do subjuntivo. Na época clássica, registra-se o emprego do imperfeito no
lugar do perfeito.
Dessa forma, os falantes do LV notaram a equivalência de sentido entre imperfeito
e mais-que-perfeito, optando por um deles. No caso da românia, exceto a região da atual
Romênia, a forma selecionada foi a de mais-que-perfeito.

O presente do subjuntivo sobrevive com o mesmo sentido do LL.

22
3.4 ASPECTOS DA SINTAXE DO LATIM VULGAR

Documento 14: Testamentum porcelli8, anônimo.

1. Incipit testamentum porcelli.


M. Grunnius Corocotta porcellus testamentum fecit. Quoniam manu mea scribere non potui,
scribendum dictavi.
2. Magirus cocus dixit: “veni huc, eversor domi, solivertiator, fugitive porcele, et hodie tibi dirimo vitam”.
Corocotta porcellus dixit: “si qua feci, si qua peccavi, si qua vascella pedibus meis confregi, rogo, domine
coce, vitam peto, concede roganti”. Magirus cocus dixit: “transi, puer, affer mihi de cocina cultrum, ut
hunc porcellum faciam cruentum”. Porcellus comprehenditur a famulis, ductus sub die XVI Kal Lucerninas,
ubi abundant cymae, Clibanato et Piperato consulibus. Et ut videt se moriturum esse, horae spatium petiit
et cocum rogavit ut testamentum facere posset. Clamavit ad se suos parentes, ut de cibariis suis aliquid
dimitteret eis. Qui ait:
3. Patri meio Verrimo Lardino do lego dari glandis modios XXX, et matri meae Veturinae Scrofae do lego
dari Laconicae siliginis modios XL, et sorori meae Quirinae, in cuius votum interesse non potui, do lego
dari hordei modios XXX. Et de meis visceribus dabo donabo sutoribus saetas, rix(at)oribus capitinas, surdis
auriculas, causidicis et verbosis linguam, buculariis intestina, esiciariis femora, mulieribus lumbulos,
pueris vesicam, puellis caudam, cinaedis musculos, cursoribus et venatoribus talos, latronibus ungulas. Et
nec mominando coco legato dimitto popiam et pistillum, quae mecum attuleram; de Theveste usque ad
Tergeste liget sibi collum de reste. Et volo fieri mihi monumentum ex litteris aureis scriptum: “M.
GRUNNIUS COROCOTTA PORCELLUS VIXIT ANNIS DCCC. XC. VIIII. S(EMIS). QUODSI SEMIS
VIXISSET MILLE ANNOS IMPLESSET”. Optimi amatores mei, vel consules vitae, rogo vos ut cum corpore
meo bene faciatis, bene condiatis de bonis condimentis nuclei, piperis et mellis, ut nomen meum in
sempiternum nominetur. Mei domini vel consobrini mei, qui testamento meo interfuistis, iubete signari.
4. Lardio signavit. Ofellicus signavit. Cyminatus signavit. Lucanicus signavit. Explicit testamentum porcelli
sub die XVI Kal. Lucerninas Clibanato et Piperato consulibus feliciter.

3.4.1 A abundância de preposições no LV


Uma das mais representativas tendências do LV é a abundância de preposições.
Vimos no segmento anterior a neutralização das formas de acusativo e ablativo. Uma
maneira, pois, que o uso comum encontrou para desfazer ambigüidades sintáticas foi o
emprego da preposição, ainda que desnecessária, tendo por base a sintaxe do LL.
É o caso da construção bene condiatis de bonis condimentis (condimenteis bem de
bons temperos), presente no Documento 14. A preposição, em LL, seria totalmente
descartável, uma vez que o sintagma bonis condimentis, por estar flexionado no ablativo,
já funciona como adjunto adverbial.

8
c. IV século d.C..

23
4. A FORMAÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA

4.1 ASPECTOS FONOLÓGICOS

Documento 15: Joan Garcia de Guilhade, CV 1097, CBN 1486

Ai, dona fea9, foste-vos queixar


que vos nunca louv’en10 meu cantar;
mais ora11 quero fazer um cantar
en que vos loarei12 toda via;
e vedes como vos quero loar:
dona fea, velha e sandia13!
Dona fea, se Deus me perdon14,
pois avedes15 tan gran16 coraçon17
que vos eu loe, en esta razon18
vos quero já loar toda via19;
e vedes qual será a loaçon20:
dona fea, velha e sandia!
Dona fea, nunca vos eu loei
en meu trobar21, pero22 muito trobei;
mais ora já un23 bon24 cantar farei,
en que vos loarei toda via25;
e direi-vos como vos loarei:
dona fea, velha e sandia!

Este segmento será dedicado ao estudo de alguns dos processos fonológicos que
atuaram na formação do português a partir do LV. Conforme vemos no Documento 15, o
conhecimento de tais processos pode ser muito útil não só à história da nossa língua, bem
como à compreensão de textos que ainda apresentem uma ortografia “arcaica”.
No primeiro verso, por exemplo, temos a palavra fea. Sua forma pode ser
explicada, tendo por base o adjetivo foeda do LV, cujo ditongo oe se reduziu a e, tendência
comum no falar do povo (foeda > feda*). Posteriormente, houve o amortecimento e
síncope da dental (feda* > fea).

9
Feia. Do lat. foeda.
10
Crase da DMT -e-, de subjuntivo (louve), e a vogal inicial da preposição en (> in).
11
Agora. Do lat. ha hora, por hac hora, ou de ad horam.
12
Flexão do verbo loar (século XIII). Forma divergente de louvar, do latim laudare.
13
Idiota, parva, tola (século XIII). De etmologia obscura. Sabe-se que deriva de sandeu, sandea.
14
Verbo perdoar.
15
Aver (século XIII) Ter, possuir. Do lat. habere.
16
Forma apocopada de grande. Do lat. grandis.
17
Do lat. cor, com uma terminação que talvez se possa explicar por um sufixo aumentativo de reforço.
18
Razão. Do lat. ratio, -onis.
19
Vida. Derivado do emprego figurado do lat. via (caminho, percurso). Cf. vie no francês.
20
Louvação. De loar.
21
Trovar (século XIII). Do provençal trobar, a partir do lat. *tropare, de tropus.
22
Mas, no entanto, porém. Do lat. per hoc.
23
Um. Do lat. unus.
24
Bom. Do lat. bonus.
25
Vida. Derivado do emprego figurado do lat. via (caminho, percurso). Cf. vie no francês.

24
4.1.1 VOCALISMO E DITONGOS
a) alteração e manutenção do o: o proveniente de ŏ ou de ō do LL tanto em
sílaba fechada quanto em sílaba aberta mantém-se (nŏvum > novu- > novo, pŏrtam >
porta- > porta, flōrem > flore- > flor, prōrsam > prorsa- > prosa);
b) alteração e manutenção do i: i tônico originalmente longo no LL mantêm-se
(vīta > vita- > vida; vīnum > vinu- > vinho; amīcus > amicu- > amigo); i tônico
originalmente breve no LL tende a passar a e (pĭnna > pinna- > pena; pĭlus > pilu- > pelo;
sĭccus > siccu- > seco);
c) alteração e manutenção do u: u proveniente de ŭ do LL tanto em sílaba aberta
quanto em sílaba fechada passa a o (gŭlam > gula- > gola; ŭndam > unda- > onda); mas u
proveniente de ū do LL mantém-se (lūnam > luna- > lua; virtūtem > virtute- > virtude);
d) modificação de ditongos: ae e oe tendem a reduzir-se a e desde o LV. Houve
maior resistência por parte do ditongo au, que ainda assim passa ao ditongo ou em casos
como aurum > auru- > ouro e paucus > paucu- > pouco, reduzindo-se em certas regiões
da Europa a o (esp. e it. oro, poco);
e) surgimento de ditongos: os grupos ac, ec, oc e uc tendem a ter o c vocalizado,
após dental, e a desenvolver os ditongos au, ei, oi e ui (actus > actu- > auto; pectus >
pectu- > peito; nox > nocte- > noite; fructus > fructo- > fruyto26); o grupo al deu em LV o
ditongo au, que passou a ou/oi (falx > falce- > fauce-* > fouce/foice).

4.1.2 CONSONANTISMO E ENCONTROS CONSONANTAIS


a) síncope de d, n e l intervocálicos: mau < malum, ter < tenere, nu < nudum;
b) sonorização de oclusivas surdas intervocálicas: roda < rotam, pode < potet,
figo < ficum, lodo < lutum, lobo < lupum;
c) palatalização dos encontros cl, pl e fl em posição incial ou após n: cl, pl e fl
passa a ch em posição inicial de palavra (chave < clavem, chorar < plorare) e depois de n
(inchar < inflare, encher < implere), e para lh em posição intervocálica (olho < oc[u]lum);
d) os encontros -ct- e -lt- passam a -it-: oito < octo, muito < multum;
e) redução da geminadas: boca , bucca;
f) epêntese nos encontros consonantais st-, sp- e sk: surgimento de epêntese que
passa a -e (estar < stare, escola < schola, espírito < spiritus).

26
Português do século XIV.

25
4.2 ASPECTOS MORFOLÓGICOS

Documento 16: Pero Garcia Burgalês, CV 988, CBN 1380

Roi Queimado morreu con27 amor


en28 seus cantares, par29 Sancta Maria,
por Da dona que gran30 ben31 queria:
e, por se meter por mais trobador32,
porque lhe ela non33 quis ben fazer,
feze34-s'el35 en seus cantares morrer,
mais36 resurgiu depois ao tercer37 dia!
Esto38 fez el por ũa39 sa40 senhor41
que quer gran ben, e mais vos en diria:
por que cuida que faz i42 maestria,
enos cantares que faz, á43 sabor
de morrer i e des44 i d'ar45 viver;
esto faz el que x'o46 pode fazer,
mais outr'omem47 per ren' nono48 faria.
E non á já de sa morte pavor,
senon49 sa morte mais la50 temeria,
mais sabe ben, per sa sabedoria,
que viverá, des quando morto for,
e faz-[s'] en seu cantar morte prender,
27
Com. Do lat. cum.
28
Em. Do lat. in.
29
Preposição por. Freqüentemente no português medieval a prep. por aparecia como par, numa derivação
do francês par (< lat. pĕr)
30
Forma apocopada de grande. Do lat. grandis.
31
Bem. Do lat. bene.
32
Cf. verbo trovar. A grafia trobar remonta ao século XIII, por influência do antigo provençal trobar
(tropare* > tropus)
33
Não. Do lat. non.
34
Fez. Derivado do lat. fecit, perf. do verbo facĕre.
35
s’el: crase da vogal final do pronome reflexivo se e da vogal inicial de el (ele).
36
Mas. A forma mais vigorava do português medieval. Derivado do latim magis.
37
Terceiro. Do lat. tertiariu-.
38
Este. A forma esto vigorava no século XIII. Do latim istŭd.
39
Uma. Do lat. una.
40
Sua. Do lat. sŭa.
41
No português medieval ocorria com muito maior freqüência a forma senhor, tanto para o masculino como
para o feminino.
42
Aí. Do lat. ibi.
43
Verbo haver (> lat. habere = ter ).
44
(< lat. de ex), forma antiga da preposição desde.
45
Contração dos vocábulos de e ar (novamente). A etimologia de ar pode remontar a er, que por sua vez
estaria ligado ao prefixo re-, significando: novamente, outra vez, também.
46
Contração dos vocábulos xe e o. A etimologia de xe remonta ao lat. se, que pode ser empregado como
pronome reflexivo ou como dativo ético. Ernesto Faria explica, na página 352 de sua Gramática superior da
língua latina, que o dativo ético indica “uma participação afetiva na ação expressa pelo verbo (…).”.
47
Contração das palavras outro e homem.
48
Ren’nono. Contração das palavras rem, non e o. A etimologia de rem sem dúvida remonta ao latim, mas
além de significar coisa, significa ainda: alguma coisa, nenhuma coisa, nada.
49
Senão (se + non).
50
Pronome oblíquo a.

26
des i ar vive: vedes que poder
que lhi51 Deus deu, mais que non cuidaria.
E, se mi52 Deus a mim desse poder
qual oj'el53 á, pois morrer, de viver,
já mais54 morte nunca temeria.

4.2.1 Perdas e inovações da língua portuguesa

4.2.1.1 Artigos
a) artigo definido
Já no LV uma nova classe gramatical começava a surgir por meio do desvio de
emprego do pronome demonstrativo: o artigo. Na passagem “super civitate hac” do
Documento 11, a Peregrinatio Aetheriae, flagramos o demonstrativo hac sendo usado
como artigo definido.
Com as neo-latinas, no nosso caso o português, o artigo deixa de ser um emprego
especial do pronome demonstrativo para se tornar uma classe gramatical com inclusive
formas próprias; o, a, os, as.
589. Procede o artigo definido do pronome demonstrativo latino ille,
illa, illud. Da primitiva forma, que seria elo, ela, dão testemunho el, usado
unicamente em el-rei, e, por outra parte, lo, evidente nas contrações dos plurais
tôdolos, âmbolos, e pelo, polo, ainda usadas no século XVI e outras da
linguagem popular, como ulo (u = onde), mailo (= mais o). Excluídos êstes
casos, aparece por tôda a parte, desde a mais remota fase da língua portuguesa,
o vocábulo já sem vestígios do radical, inteiramente gasto, e reduzido à
terminação átona o, a, (escrito às vezes ho, ha). (SAID ALI: 1971, 123)

Ismael de Lima Coutinho em sua Gramática Histórica apresenta os seguintes


esqeumas de evolução do artigo definido:
ĭllu > elo > lo > o
ĭllos > elos > los > os
ĭlla > ela > la > a
ĭllas > elas > las > as

Quanto aos fatores internos que agenciaram tais transformações, Coutinho expõe:
O -i- deu regularmente -e-; a consoante dupla -ll- simplificou-se. A
queda do e inicial resultou de ser o artigo palavra proclítica: elos campos, ela
casa, donde los campos, la casa. Em certos casos, tornava-se o -l- intervocálico:
de lo chão, a la pedra, pera los rios. Nesta posição, êle caía. Surgiram então o, a,
os, as. Estas formas, que a princípio só apareciam nas circunstâncias
mencionadas, depois se generalizavam. (COUTINHO: 1972, 251)

b) artigo indefinido
O artigo indefinido da língua portuguesa provém do numeral cardinal unus, una. Já
no LV e no LL de alguns autores como Plauto e Petrônio observava-se o desvio do
emprego do numeral para a marca da indefinição peculiar ao artigo indefinido. Segundo
Ismael de Lima Coutinho, a transformação se deu da seguinte forma:
unu > ũu > um
51
Pronome oblíquo lhe.
52
Meu. (do lat.vulg. mi > lat.clas. mihi, dativo de ego).
53
Contração das palavras oje e el. Oje corresponde à grafia de hoje (do lat. hodie < hoc die).
54
Jamais. Do lat. jam magis.

27
unos > ũos > ũus > uns
una > ũa > uma
unas > ũas > umas

A explicação é de Leite de Vasconcelos:


Os artigos indefinidos um e uma tinham outrora as formas ũu e ũa, ambas
dissilábicas. A última conserva-se ainda na linguagem popular, quer assim
mesma, quer com n gutural: ũna. A forma ũu, de que um (=ũ) é mera
simplificação, não anterior ao século XV, provém do latim unu-, por
nasalamento do primeiro u, e queda subseqüente do n, como em sõo < sonu-, bõo
< bonu-; a simplificação a que há pouco aludi, deu-se do mesmo modo em jejum
(= jejũ), que provém do arcaico jejũu. O m que se desenvolveu em ũma, donde
uma, tem como paralelo o desenvolvimento de nh em vo, que se tornou vinho;
aqui foi o som palatino-nasal o que provocou a consoante palatino-nasal nh,
ali foi o som labio-nasal ũ que provocou a consoante labio-nasal m.
(VASCONCELOS apud COUTINHO: 1972, 252)

4.2.1.2 Pronomes: destacaremos aqui algumas inovações com relação ao LV, a saber, os
pronomes pessoais de terceira pessoa e os pronomes oblíquos.
a) pronomes pessoais de terceira pessoa: os nossos pronomes pessoais de
terceira pessoa surgem dos demonstrativos latinos ille, illa. A transformação se dá no
singular assim: ille > ele, illa > ela. As formas de plural (eles, elas) advêm por analogia às
de singular, não derivando diretamente do LV.
b) pronomes pessoais oblíquos: os pronomes pes. oblíquos derivam em parte
também dos demonstrativos ille, illa. Um outro pronome latino que entrou na formação
dos oblíquos foi o reflexivo se, para a 3a pes.. Os demais surgem dos pronomes pes. de
suas respectivas pessoas (primeira pessoa → comigo; segunda pessoa → contigo; etc.).
Como o próprio nome diz, os pron. oblíquos provêm de casos oblíquos, isto é, dos
demais casos, exceto o reto (nominativo = sujeito). Sendo assim, os oblíquos originam-se
dos demonstrativos latinos em casos oblíquos (acusativo, ablativo, dativo e genitivo).
Vejamos as transformações nos esquemas abaixo:
número pessoa pronomes transformação
me me (acus.) > me
1a mim mihi (dat.) > mi > mim
comigo mecum (abl.) > mecu- > mego > migo > comigo
te te (acus.) > te
Singular 2a ti tibi (dat.) > ti
contigo tecum (abl.) > tecu- > tego > tigo > contigo
se se (acus.) > se
3a o illum > illu- > elo > lo > o
a illam > illa- > ela > la > a
lhe illi (dat.) > eli* > li > lhi > lhe
si sibi (dat.) > si
consigo secum (abl.) > sego > sigo > consigo
nos nōs (acus.) > nos
1a
Plural conosco nobiscum (abl.) > noscum > noscu- > nosco > conosco
vos vōs (acus.) > vos
2a
convosco vobiscum > voscum > voscu- > vosco > convosco

4.2.1.3 A perda da flexão de caso: o sistema flexional do latim chegou ao português com
apenas dois tipos de flexão: gênero e número. A flexão de caso deixou-nos apenas
resquícios na formação dos pronomes oblíquos, conforme vimos acima.

28
Por conseguinte, não há alteração da terminação de substantivos, adjetivos e
pronomes em decorrência da função sintática, mas somente uma mudança no
posicionamento do vocábulo na frase: Pedro viu Paulo (Pedro = suj. / Paulo = obj.dir. ) X
Paulo viu Pedro (Paulo = suj. / Pedro = obj.dir.).

29
4.3 ASPECTOS SINTÁTICOS

Documento 17: Carta do leitor Cláudio Vieira Peixoto Filho ao jornal O Globo

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda vai completar um ano e
já provoca indignação até mesmo no segmento dos denominados petistas de carteirinha.
Os aposentados e pensionistas foram massacrados pela famigerada reforma da
Previdência. Os desempregados, apavorados, observam o espetáculo do desaparecimento
dos empregos. A classe média aperta o cinto até o último furo. As classes pobre e
miserável já estão desiludidas. Pergunta-se: onde está o PT que parecia conhecer o
caminho das pedras para o desenvolvimento econômico e social?

4.3.1 Ordenação e sintaxe


Vimos que na passagem do LV ao português o sistema de flexão casual caiu em
desuso. Por conseguinte, um novo recurso de sintático teve de ser criado, para que se
compensasse a perda das desinências de caso: a ordenação das palavras na sentença.
A sintaxe, pois, nas neo-latinas está diretamente ligada ao posicionamento do
vocábulo da frase. Em Pedro viu Paulo, Pedro é sujeito, e Paulo, objeto direto. Mas, se
simplesmente modificarmos a posição dos vocábulos, alteraremos suas funções sintáticas.
Em Paulo viu Pedro, Paulo já não é mais objeto direto, nem Pedro, sujeito.
Assim sendo, ordens preferenciais de termos da oração acabam por se instituir. No
português, nosso foco, temos usualmente o sujeito abrindo a oração. Vejamos o
Documento 17. Das seis frases que o compõem, cinco apresentam sujeito na abertura.
Após o sujeito geralmente vem o verbo. Se for transitivo (v.t.d ou v.t.i.), na
seqüência vem o complemento: [A classe média (suj.)] [aperta (v.t.d.)] [o cinto (obj.dir.)]
até o último furo. Sendo um verbo de ligação (v.l.), o normal é se seguir o predicativo do
sujeito: As classes pobre e miserável já [estão (v.l.)] [desiludidas (pred. suj.)].
Em outras palavras, no uso comum da língua portuguesa há padrões de ordenação
dos termos da oração: sujeito → verbo transitivo → complemento; sujeito → verbo de
ligação → predicativo do sujeito; etc..
Por outro lado, o fato de existirem padrões não impede que outras ordenações
vocabulares sejam feitas. Relembremos o nosso hino nacional: Ouviram do Ipiranga as
margens plácidas/ de um povo heróico o brado retumbante. É comum que pessoas cantem
tais versos sem nem sequer compreender sua sintaxe.
No entanto, se adptarmos os versos para a ordenação utilizada no cotidiano,
facilmente todos entenderiam, não obstante rompêssemos com a estética do hino:
As margens plácidas do Ipiranga ouviram/ o brado retumbante de um povo heróico.
Ou ainda pode haver arranjos de palavras que simplesmente causam
incompreensão. Exs.: Paulo Pedro viu; Pedro Paulo viu; Viu Pedro Paulo; Viu Paulo
Pedro; etc.. Os exemplos apresentam ambigüidade na análise sintática, isto é, quem viu
quem? Quem é sujeito? Quem é objeto direto?
Em função disso, artifícios são criados. A pontuação, por exemplo, serve de
recurso gráfico para desfazer ambigüidades. Para clarearmos as funções em Pedro Paulo
viu, podemos pontuar: Pedro, Paulo viu. A vírgula após Pedro assinala uma inversão
sintática, ou seja, o termo Pedro foi deslocado de sua posição habitual, após o verbo.
E se quisermos um outro recurso, que não gráfico, para marcarmos a inversão
sintática acima? Basta recorrermos ao objeto direto preposicionado: A Pedro Paulo viu. A
preposição antes de Pedro indica se tratar de objeto direto, uma vez que o verbo ver não
pode objeto indireto.

30
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALI, M. Said. Gramática histórica da língua portugesa. 7.ed. Rio de Janeiro: Livraria
Acadêmica, 1971.

CAMÕES, Luis de. Os Lusíadas. Edição fac-similar do exemplar da editio princeps de


1572 pertencente à biblioteca da Academia Brasileira de Letras. Rio de Janeiro. ABL,
1972.

CATULO. O livro de Catulo. Tradução, introdução e notas de João Ângelo Oliva Neto.
São Paulo: EDUSP, 1996.

CAUDAS AULETE. Dicionário contemporâneo da língua portuguesa. 5.ed. Rio de


Janeiro: Editora Delta, 1964.

COUTINHO, Ismael de Lima. Gramática histórica. 6.ed. Rio de Janeiro: Livraria


Acadêmica, 1972.

CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário etimológico nova fronteira da língua


portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

FARIA, Ernesto. Fonética histórica do latim. 2.ed. Rio de Janeiro: Livraria Acadêmica,
1970.

_____________. Gramática superior da língua latina. Rio de Janeiro: Livraria


Acadêmica, 1958.

FERREIRA, Joaquim. História da literatura portuguesa. 4.ed. Porto: Editorial


Domingos Barreira, 1971.

GAFFIOT, Félix. Dictionnaire illustré latin-français. Paris: Librairie Hachette, 1934.

GRIMAL, Pierre et alii. Grammaire latine. Paris: Nathan, 1995.

HORTA, Guida Nedda Barata Parreiras. Os gregos e seus idiomas. 4.ed. Rio de Janeiro:
J. Di Giorgio & Cia. Ltda., 1991. 1° tomo.

ILARI, Rodolfo. Lingüística românica. São Paulo: Ática, 1992.

IORDAN, Iorgu. Introdução à lingüística românica. 2.ed. Lisboa: Fundação Calouste


Gulbenkian, 1982.

LAUSBERG, Heinrich. Lingüística românica. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian,


1974. pp.19-22

LEITÃO, Luiz Ricardo (org.). Gramática crítica – o culto e o coloquial no português


brasileiro. 2.ed. Rio de Janeiro: Jobran / Cooautor, 1995.

MEIER, Harri. Ensaios de filologia românica I. 3.ed. Rio de Janeiro: Grifo, 1974.

31
NASCENTES, Antenor. Dicionário ilustrado da língua portuguesa da academia
brasileira de letras. Rio de Janeiro: Bloch Editores, 1972.

OVÍDIO. Os remédios do amor e os comésticos para o rosto da mulher. São Paulo:


Nova Alexandria, 1994.

SARAIVA, António José & LOPES, Óscar. História da literatura portuguesa. 6.ed.
Porto: Porto Editora, s.d..

SÉGUIE, Jaime de. Dicionário prático ilustrado. Porto: Lello & Irmão Editores, 1962.
vol. III – história e geografia.

SILVA NETO, Serafim da. História do latim vulgar. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico,
1977.

SILVEIRA, Jorge Fernandes da (coord.). Antologia da poesia portuguesa. Rio de


Janeiro: Faculdade de Letras, UFRJ, s.d.. tomo 1 – idade média.

TORRINHA, Francisco. Dicionário latino-português. 3.ed. Porto: Marãnus, 1945.

VIDOS, Benedek Elemér. Manual de lingüística românica. Rio de Janeiro: Eduerj,


1996.

32
APÊNDICE I: PARADIGMAS DE FLEXÃO CASUAL DE SUBSTANTIVOS E
ADJETIVOS DO LL

substantivos
I II IV V
Caso rosa lupus magister vinŭm senatŭs rēs
Nominativo sing. rosa lupus magister vinŭm senatŭs rēs
Nominativo plur. rosae lupi magistri vină senatus res
Acusativo sing. rosam lupum magistrum vinŭm senatum rem
Acusativo plur. rosas lupos magistros vină senatus res
Ablativo sing. rosā lupo magistro vino senatu re
Ablativo plur. rosis lupis magistris vinis senatibus rebus
Genitivo sing. rosăe lupī magistrī vinī senatūs rei
Genitivo plur. rosarum luporu magistroru vinoru senatuum rerum
m m m
Dativo sing. rosaĕ lupō magistrō vinō senatui rĕi
Dativo plur. rosīs lupīs magistrīs vinīs senatĭbus rēbus

III
caso carmen patĕr orator meretrix oratio fons sol pars civităs civis
Nom. s. carmen patĕr orator meretrix oratio fons sol pars civităs civis
Nom. p. carmină patres oratores meretrices orationes fontes soles partes civitates cives
Acus. s. carmen patrem oratorem meretricem orationem fontem solem partem civitatem civem
Acus. p. carmină patres oratores meretrices orationes fontes soles partes civitates cives
Abl. s. carmine patre oratore meretrice oratione fonte sole parte civitate cive
Abl. p. carminibu patribu oratoribu meretricibu orationibu fontibu solibus partibu civitatibu civibus
s s s
Gen. s. carminis patris oratoris meretricis orationis fontis solis partis civitatis civis
Gen. p. carminum patrum oratorum meretricum orationum fontium solum partium civitatum civium
Dat. sing. carmini patri oratori meretrici orationi fonti soli parti civitati civi
Dat. p. carminĭbu patrĭbu oratorĭbu meretricĭbu orationĭbu fontĭbu solĭbus partĭbu civitatĭbu civĭbus
s s s

adjetivos
Primeira classe Segunda classe
triforme biforme uniforme
Caso masc. fem. neutro masc./fem. neutro masc./fem./neutro
Nominat. sing. bonus bona bonŭm insignis insignĕ felix potens
Nominat. plur. Boni bonae bonă insignes insigniă felices potentes
Acusativo sing. bonum bonam bonŭm insignem insignĕ felicem potentem
Acusativo plur. bonos bonas bonă insignes insigniă felices potentes
Ablativo sing. bono bonā bono insigni felici potente
Ablativo plur. bonis insignibus felicibus potentibus
Genitivo sing. Bonī bonăe bonī insignis felicis potentis
Genitivo plur. bonoru bonaru bonoru insignium felicum potentium
m m m
Dativo sing. bonō bonaĕ bonō insigni felici potenti
Dativo plur. bonīs insignĭbus felicĭbus potentĭbus

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APÊNDICE II

Simulado para a Primeira Avaliação (PR1)

1:1
in principio creavit Deus caelum et terram
1:2
terra autem erat inanis et vacua et tenebrae super faciem abyssī et spiritus Deī
ferebatur super aquas
1:3
dixitque Deus fiat lux et facta est lux
1:4
et vidit Deus lucem quod esset bona et divisit lucem ac tenebras
1:5
appellavitque lucem diem et tenebras noctem factumque est vespere et mane dies
unus
1:6
dixit quoque Deus fiat firmamentum in medio aquarum et dividat aquas ab aquis

2.0 – Com relação às palavras sublinhadas no texto acima,


a) classificá-las quanto à declinação;
b) flexioná-las no nominativo, acusativo, ablativo, dativo e genitivo singulares e plurais.

3.0 – Com relação aos verbos:


sollicito, as, are, sollicitavi, atum, v.tr. solicitar.
haereo, es, ere, haesi, haesum, v.tr. estar fixo.
jungo, is, ere, junxi, junctum, v.tr. ligar.
benefacio, is, ere, benefeci, factum, v.intr. fazer bem a.
hostio, is, ire, hostivi, itum, v.tr. e intr. igualar.

1 – Apontar os radicais de infectŭm e perfectŭm.


a) sollicito: ri = __________________ rp = __________________
b) haereo: ri = __________________ rp = __________________
c) jungo: ri = __________________ rp = __________________
d) benefacio: ri = __________________ rp = __________________
e) hostio: ri = __________________ rp = __________________

2 – classificar as formas verbais abaixo, quanto ao aspecto verbal


a) sollicitarentur d) benefaciebamini g) haereremus j) hostiebis
b) haeseram e) hostivisses h) jungas
c) junxeritis f) sollicitatur i) benefecistis

3 – Segmentar e analisar os componentes morfológicos das formas verbais abaixo,


classificando-as quanto à voz verbal.
a) sollicitarentur d) hostivisses g) junxeritis j) benefeci
b) haeseram e) sollitaverim h) hostiebimur
c) benefaciebamini f) jungaris i) haereretur

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Simulado para a Segunda Avaliação (PR1)

1.0 – Abaixo foram transcritos, numa coluna, um grafite de Pompéia e, na outra, sua
conversão para o LL. Identificar o original, justificando fonologicamente.

duodecim deos et Deanam et Iovem duodecim deos et Dianam et Iovem


optumum maximu habeat iratos, optumum maximum habeat iratos,
quisquis hic mixerit aut cacarit quisquis hic mixerit aut cacarit

Tradução – Quem mexer ou defecar aqui que faça doze deuses e Diana e Júpiter irados.

2.0 – Abaixo foram transcritos, numa coluna, uma hipotética inscrição parietal e, na outra,
sua conversão para o LL. Identificar o original, justificando morfologicamente.

soror mea insignem fratrem Octavii amat soror mea insigno fratro Octavii ama

Tradução – Minha irmã ama o insigne irmão de Otávio.

3.0 – Abaixo foram transcritos, numa coluna, uma hipotética inscrição parietal e, na outra,
sua conversão para o LL. Identificar o original, justificando sintaticamente.

Flavius ad amico Marco: a te missas litteras Flavius amico Marco: te missas litteras Tuliae
ad Tulia omnes sciunt omnes sciunt

Tradução – Flávio ao amigo Marco: todos conhecem as cartas mandadas à Túlia por ti.

4.0 – As passagens abaixo foram extraídas da Editio Princeps dos Lusíadas (1572) com a
ortografia da época. Leia-as e, a seguir, proceda às questões propostas.

a) b)

c)

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I – Sabendo que a palavra céu se origina de caelŭm, explicar a ortografia ceos no primeiro
verso de a).

II – Aponte argumentos morfológicos e fonológicos para explicar a ortografia das palavras


elle e della respectivamente nos versos 1 e 2 de b).

III – Aponte argumentos morfológicos e fonológicos para explicar a ortografia das


palavras hũa e hũs respectivamente nos versos 3 de a) e 1 de c).

5.0 – “Monstrat numos brasilianos dominaĕ armillăe Livia. Domina armillăe numos
brasilianos Liviăe pulchros existimat. Domina armillăe Liviaĕ armillam vendit.”
Com relação às frases latinas acima, um aluno procurou respeitar a seqüência
original das palavras e fez a seguinte tradução: “Mostra moedas brasileiras dona bracelete
Lívia. Dona bracelete moedas brasileiras Lívia belas estima.” Comente-a morfo-
sintaticamente.

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APÊNDICE III

Descoberto o mais antigo texto escrito em galego-português


Documento anterior a 1175

Investigador da Universidade de Compostela defende que um acordo entre dois fidalgos de Braga
constitui o mais antigo testemunho escrito em língua portuguesa
Luís Miguel Queirós

Na segunda metade do século XII, em pleno reinado de D. Afonso Henriques, dois irmãos, Gomes
Pais e Ramiro Pais, presumíveis fidalgos da região de Braga, assinaram entre eles um pacto de não agressão.
Não seria nada de estranho, na época, entre parentes com propriedades contíguas, mas o documento que
formaliza este acordo, conservado na Torre do Tombo, em Lisboa, apresenta uma característica invulgar:
não está redigido em latim. José António Souto, professor de História da Língua na Universidade de
Santiago de Compostela, acredita que se trata do mais antigo documento escrito em galego-português até
hoje identificado.
O investigador galego, que ontem apresentou a sua descoberta na Universidade do Minho, em
Braga, durante uma Jornada de Edição de Textos Medievais, não foi o primeiro a dar notícia da existência
deste pergaminho. Mas ninguém até agora atendera à sua peculiar configuração linguística. E se se aceitar o
conjunto de deduções que levou Souto a fazer remontar o documento, que não está datado, a um ano anterior
a 1175, parece não haver dúvida de que este trivial protocolo de família tem direito a ostentar o título que o
professor de Compostela lhe pretende conferir.
Uma professora da Universidade Clássica de Lisboa, Ana Maria Martins, já publicara vários textos
da segunda metade do século XII alegadamente redigidos em galego-português. Mas o mais antigo dataria
justamente de 1175 e há quem defenda que, dada a sua reduzida dimensão, é impossível demonstrar que não
está escrito em latim.
Souto utiliza, de resto, com alguma relutância a designação de galego-português, argumentando
que se o termo tem a vantagem de deixar claro que as actuais regiões de Portugal e da Galiza utilizavam um
só idioma, pode também sugerir, erradamente, que se trata de uma língua que não é exactamente o
português. Um escrúpulo revelador da sua costela "lusista", que na Galiza designa não apenas os que se
interessam pela cultura portuguesa, mas, mais especificamente, os que contestam a norma oficial do galego,
contaminada de castelhano, e defendem que esta devia aproximar-se do português actual.
A própria distinção entre latim e galego-português nos textos do século XII está, aliás, sujeita a
controvérsia, já que se crê que o latim era lido "à romance" - a língua oral - e que o galego-português não
constituiria, afinal, mais do que a transcrição gráfica desta oralidade. Ou seja, a distinção é evidente para
nós, leitores de hoje, mas não para os falantes da época.
Os primeiros testemunhos do galego-português surgem, por norma, nos chamados "documentos de
prova", categoria em que se pode inserir este pacto entre irmãos, a par de uma grande variedade de textos,
desde inventários de dívidas a testamentos. Já actos jurídicos mais minuciosamente regulamentados, como,
por exemplo, o contrato de venda de uma propriedade, eram redigidos em latim. A razão é simples: os
escrivães recorriam, nesses casos, a fórmulas pré-estabelecidas. Só quando não dispunham de uma norma
obviamente aplicável é que, por assim dizer, tinham de "inventar" em galego-português. Não são raros,
também, os documentos mistos, designadamente cartas de foro em que se utilizam as fórmulas latinas
habituais, mas nas quais se recorre ao galego-português para a descrição das terras em causa.

A carne e o pêlo

Um dos motivos de interesse do documento redescoberto por Souto é a extensão do texto, no qual
um dos irmãos assegura que não exercerá quaisquer prerrogativas nas propriedades do outro, e este último
promete protegê-lo contra eventuais agressões de terceiros. Souto presume que os irmãos Pais seriam
fidalgos bracarenses, uma vez que o manuscrito esteve conservado na Mitra de Braga antes de ser
transferido para a Torre do Tombo. "Para garantir a conservação destes documentos", explica, "era habitual
confiá-los às instituições religiosas". O investigador ainda tentou apanhar o rastro destas personagens noutra
documentação da época, mas, embora tenha descoberto muitos Gomes Pais e outros tantos Ramiro Pais, não
conseguiu encontrar nenhum documento que reunisse ambos.

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A juntar a esta contrariedade, havia ainda que ultrapassar a desagradável circunstância de o
documento não estar datado. O texto especifica apenas que o pacto entraria em vigor em Maio e caducaria
passados dois anos. Mas Souto foi bafejado por um golpe de sorte. É que, no verso do pergaminho, alguém
redigiu um contrato de venda relativo a uma herdade em Cabreiros, perto de Braga, comprada por um tal
Alvito Moniz a uma Elvira Midiz. E o contrato, esse sim, está datado de 1175.
Souto imagina que o elo de ligação entre os dois textos seja um provável notário ou escrivão
comum. Ora, este só terá redigido o segundo documento quando o primeiro deixou de ter utilidade, ou por
ter expirado o respectivo prazo de validade, de dois anos, ou porque um dos irmãos morreu nesse ínterim.
Na primeira hipótese, o pacto data, o mais tardar, de 1173, mas poderá ser ainda mais antigo.
Poder-se-ia ainda perguntar o que dá ao investigador tanta certeza de que o pacto é anterior à
venda. O argumento é simples e parece não merecer contestação. Os escrivães utilizavam preferencialmente
o interior do pergaminho, o lado da carne, porque fixava melhor a tinta. A parte exterior, a do pêlo, era mais
impermeável e, por isso mesmo, a tinta penetrava profundamente. O documento apresentado por Souto
comprova isso mesmo, já que a mancha de tinta é muito mais visível e consistente no texto do pacto do que
no da venda. Assim sendo, a única razão plausível para alguém escrever no "lado do pêlo" era o "lado da
carne" já estar preenchido. Conclusão: o acordo dos irmãos Pais é anterior a 1175 e, até ver, constitui o mais
antigo vestígio escrito da língua portuguesa.

Fonte: Jornal virtual O Público, Lisboa, 22 de maio de 2002.

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